Matthew Henry

Mateus 18

Argumento

Em suma, os evangelhos registram o que Jesus começou a fazer e a ensinar. No capítulo anterior, tivemos um relato do que ele fez; neste, do que ensinou. Provavelmente não ensinou tudo de uma vez, num discurso contínuo, mas em diversas ocasiões, aqui reunidas pela afinidade dos assuntos.

Temos aqui: I. Instruções sobre a humildade (vv. 1-6). II. Sobre as ofensas em geral (v. 7), especialmente as que são causadas: 1. Por nós a nós mesmos (v. 8, 9). 2. Por nós aos outros (vv. 10-14).

  1. Pelos outros a nós; estas são de dois tipos: (1.) Pecados escandalosos, que devem ser censurados (vv. 15-20). (2.) Injúrias pessoais, que devem ser perdoadas (vv. 21-35).

Veja como a pregação de Cristo era prática: ele poderia ter revelado mistérios, mas insistiu em deveres claros, sobretudo nos que mais desagradam à carne e ao sangue.

Versículos 1 a 6

A Importância da Humildade.

Assim como nunca houve exemplo maior de humildade do que Cristo, também nunca houve quem a pregasse melhor. Ele aproveitava todas as ocasiões para recomendá-la e ordená-la a seus discípulos e seguidores.

I. A ocasião desse discurso sobre a humildade foi uma disputa inconveniente entre os discípulos pela precedência. Vieram a ele perguntando entre si, pois tiveram vergonha de perguntar-lhe diretamente (Marcos 9:34): “Quem é o maior no reino dos céus?”

Não queriam saber quem era maior pelo caráter, pois nesse caso a pergunta teria sido boa e os ajudaria a conhecer as graças e os deveres nos quais deveriam sobressair. Queriam saber quem seria maior pelo nome.

Haviam ouvido falar muito do reino dos céus e pregado muito a seu respeito: era o reino do Messias, sua igreja neste mundo. Ainda estavam, porém, tão longe de compreendê-lo claramente que sonhavam com um reino temporal, com sua pompa e seu poder exteriores.

Cristo havia predito havia pouco seus sofrimentos e a glória que viria depois, bem como sua ressurreição; daí esperavam que seu reino começasse. Pensaram então que já era hora de pleitear seus lugares nele, pois, em casos assim, convém falar cedo.

Outros discursos de Cristo sobre esse assunto provocaram debates da mesma espécie (Mateus 20:19, 20; Lucas 22:22, 24). Ele disse muitas palavras sobre seus sofrimentos e apenas uma palavra sobre sua glória; ainda assim, apegaram-se a esta e deixaram de lado aqueles.

Em vez de perguntar como obteriam força e graça para sofrer com ele, perguntaram: “Quem ocupará o lugar mais alto ao reinar com ele?” Repare: muitos gostam de ouvir e falar de privilégios e glória, mas preferem evitar pensar no trabalho e nas dificuldades.

Olham tanto para a coroa que se esquecem do jugo e da cruz. Foi o que os discípulos fizeram ao perguntar: “Quem é o maior no reino dos céus?”

  1. Supõem que todos os que têm lugar nesse reino são grandes, pois é um reino de sacerdotes. Repare: os verdadeiramente bons são verdadeiramente grandes, e por fim isso ficará evidente quando Cristo os reconhecer como seus, por mais humildes e pobres que sejam neste mundo.

  2. Supõem que há graus nessa grandeza. Todos os santos são honrados, mas não igualmente; uma estrela difere de outra em glória. Nem todos os oficiais de Davi eram valentes, nem todos os seus valentes estavam entre os três primeiros.

  3. Supõem que alguns deles seriam os primeiros ministros do Estado. A quem o Rei Jesus desejaria honrar, senão àqueles que haviam deixado tudo por ele e agora o acompanhavam na paciência e na tribulação?

  4. Disputam qual deles ocuparia essa posição, cada um alegando algum motivo. Pedro sempre falava em nome dos demais e já recebera as chaves; esperava ser o chanceler ou o camareiro-mor da casa e, assim, tornar-se o maior.

Judas guardava a bolsa e, por isso, esperava tornar-se tesoureiro-mor. Embora agora viesse por último, confiava que esse cargo o faria ser considerado o maior. Simão e Judas eram parentes próximos de Cristo e esperavam preceder todos os grandes oficiais do Estado, como príncipes de sangue.

João era o discípulo amado, o favorito do Príncipe, e por isso esperava ser o maior. André havia sido chamado primeiro: por que, então, não seria o primeiro a ser promovido? Repare: somos muito propensos a nos entreter e a alimentar nossa imaginação com fantasias tolas sobre coisas que nunca acontecerão.

II. O discurso propriamente dito é uma justa repreensão à pergunta: “Quem será o maior?”

Temos abundantes motivos para pensar que, se Cristo pretendesse fazer de Pedro e de seus sucessores em Roma os cabeças da igreja e seus principais representantes na terra, teria aproveitado ocasião tão oportuna para informar os discípulos.

Longe disso, porém, sua resposta rejeita e condena a própria ideia. Cristo não estabelecerá autoridade ou supremacia desse tipo em lugar algum de sua igreja; quem a reivindica é usurpador. Em vez de conferir essa dignidade a algum dos discípulos, adverte todos a não a pleitearem.

Cristo lhes ensina aqui a ser humildes:

  1. Por meio de um sinal (v. 2): chamou uma criança pequena e a colocou no meio deles. Cristo frequentemente ensinava por sinais ou representações visíveis (comparações dirigidas aos olhos), como os antigos profetas. Repare: a humildade é uma lição tão difícil de aprender que precisamos recebê-la de todas as maneiras possíveis.

Ao olhar para uma criança pequena, devemos recordar o uso que Cristo fez daquela criança. As coisas visíveis devem ser aproveitadas para fins espirituais. Ele a colocou no meio deles, não para que brincassem com ela, mas para que aprendessem com ela.

Homens adultos, mesmo os grandes homens, não devem desprezar a companhia das crianças pequenas nem considerar inferior a si prestar-lhes atenção. Podem falar com elas e instruí-las; ou podem observá-las e receber delas instrução. O próprio Cristo, quando criança, esteve no meio dos doutores (Lucas 2:46).

  1. Por meio de um sermão a respeito desse sinal, no qual mostra a eles e a nós:

(1.) A necessidade da humildade (v. 3). Seu prefácio é solene e exige atenção e assentimento: “Em verdade vos digo”, eu, o Amém, a Testemunha fiel, vos digo: “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças pequenas, não entrareis no reino dos céus”. Observe aqui:

[1.] O que ele exige e em que insiste:

Primeiro: “Precisais converter-vos. Precisais mudar de pensamento, de disposição e de caráter, e ter outras ideias tanto de vós mesmos quanto do reino dos céus antes de estar aptos a ocupar nele um lugar”.

“Deveis arrepender-vos do orgulho, da ambição e do apego à honra e ao domínio que aparecem em vós, mortificá-los e corrigi-los; deveis voltar a vós mesmos”.

Repare: além da conversão inicial de uma alma, que sai do estado de natureza e entra no estado de graça, há conversões posteriores que a tiram de caminhos específicos de desvio.

Elas são igualmente necessárias à salvação. Cada passo para fora do caminho pelo pecado deve ser seguido de um passo de volta pelo arrependimento.

Quando Pedro se arrependeu de ter negado seu Mestre, converteu-se. Segundo: vocês precisam tornar-se como crianças pequenas. Repare: a graça que converte nos torna semelhantes a elas, mas não insensatos como crianças (1 Coríntios 14:20), nem inconstantes (Efésios 4:14), nem brincalhões (Mateus 11:16).

Como crianças, devemos desejar o leite puro da palavra (1 Pedro 2:2). Como crianças, não devemos andar ansiosos por coisa alguma, mas deixar que nosso Pai celestial cuide de nós (Mateus 6:31).

Devemos ser inofensivos, não causar ofensa e não ter malícia (1 Coríntios 14:20); devemos aceitar orientação e obedecer a quem nos governa (Gálatas 4:2).

Acima de tudo, como se pretende aqui, devemos ser humildes como crianças pequenas, que não assumem ares de importância nem insistem nas formalidades da honra. O filho de um fidalgo brincará com o filho de um mendigo (Romanos 12:16).

A criança vestida de trapos, se tiver o peito materno, ficará bastante satisfeita e não invejará as roupas elegantes da criança vestida de seda.

Crianças pequenas não ambicionam grandes posições nem fazem planos para elevar-se no mundo. Não se ocupam de coisas altas demais para elas; também nós devemos nos conduzir e aquietar desse modo (Salmos 131:1, 2).

Assim como as crianças são pequenas de corpo e baixas de estatura, devemos ser pequenos e humildes de espírito e na opinião que temos de nós mesmos. Essa disposição conduz a outras boas disposições; a infância é a idade de aprender.

[2.] A importância que ele atribui a isso: sem humildade, vocês não entrarão no reino dos céus. Repare: os discípulos de Cristo precisam ser mantidos em temor por meio de ameaças, para que receiem parecer ter ficado aquém (Hebreus 4:1).

Quando fizeram aquela pergunta (v. 1), os discípulos julgavam garantida sua entrada no reino dos céus. Cristo, porém, os desperta para que desconfiem de si mesmos. Ambicionavam ser os maiores no reino dos céus; Cristo lhes diz que, se não adquirissem melhor disposição, jamais chegariam lá.

Repare: muitos que aspiram a ser grandes na igreja acabam sendo não só pequenos, mas nada, e descobre-se que não têm parte nem direito nisso. Nosso Senhor pretende mostrar aqui o grande perigo do orgulho e da ambição.

Sejam quais forem as declarações de fé que façam, as pessoas que se permitem esse pecado serão rejeitadas tanto do tabernáculo de Deus quanto de seu santo monte. O orgulho lançou do céu os anjos que pecaram e nos impedirá de entrar ali se não nos convertermos dele.

Os que se exaltam pelo orgulho caem na condenação do diabo. Para evitar isso, devemos tornar-nos como crianças pequenas. E, para fazê-lo, precisamos nascer de novo, revestir-nos do novo homem e ser semelhantes ao santo menino Jesus, assim chamado mesmo depois de sua ascensão (Atos 4:27).

(2.) Ele mostra a honra e a elevação que acompanham a humildade (v. 4), dando assim uma resposta direta, mas surpreendente, à pergunta dos discípulos.

Quem se humilha como uma criança pequena talvez receie tornar-se desprezível por isso, à semelhança dos tímidos, que assim perdem oportunidades de promoção. Ainda assim, esse é o maior no reino dos céus.

Repare: os cristãos mais humildes são os melhores cristãos, os mais semelhantes a Cristo e os que mais desfrutam de seu favor. São os mais dispostos a receber as comunicações da graça divina e os mais aptos a servir a Deus neste mundo e desfrutar dele no outro.

São grandes, pois Deus percorre com o olhar o céu e a terra para voltar os olhos a pessoas assim. Certamente, os que mais devem ser respeitados e honrados na igreja são os mais humildes e abnegados; embora sejam os que menos procuram essa honra, são os que mais a merecem.

(3.) O cuidado especial que Cristo tem pelos humildes: assume a causa deles, protege-os, ocupa-se dos assuntos deles e cuidará para que não fiquem sem reparação quando forem prejudicados.

Aqueles que assim se humilham terão receio:

[1.] De que ninguém os receba. Mas (v. 5): “Quem receber uma criança pequena como esta em meu nome a mim me recebe”. Cristo considera feita a si mesmo toda bondade prestada a pessoas assim.

Quem acolhe um cristão manso e humilde, o apoia, não deixa sua modéstia prejudicá-lo, oferece-lhe amor, amizade, convívio e cuidado, e busca ajudá-lo; se age em nome de Cristo, por amor a ele, porque o cristão traz sua imagem, o serve e foi recebido por ele, esse gesto será aceito e recompensado como respeito a Cristo.

Observe: ainda que seja apenas uma dessas crianças pequenas recebida em nome de Cristo, esse ato será aceito. Repare: o cuidado amoroso de Cristo por sua igreja alcança cada membro em particular, até o mais humilde; não somente toda a família, mas cada filho dela.

Quanto menores forem em si mesmas as pessoas a quem mostramos bondade, maior será a boa vontade dedicada a Cristo nesse ato. Quanto menos fizermos por consideração a elas, mais o faremos por consideração a ele; e é assim que ele o recebe.

Se Cristo estivesse pessoalmente entre nós, pensaríamos que nunca faríamos o bastante para acolhê-lo. Os pobres, os pobres de espírito, estão sempre conosco, e são eles que recebem por ele nossa acolhida. Veja Mateus 25:35-40.

[2.] De que todos os maltratem. Os homens mais vis se comprazem em pisar nos humildes: Vexat censura columbas — A censura investe contra as pombas. Cristo responde a essa objeção (v. 6) ao advertir a todos, sob o maior risco para si mesmos, que não façam mal a nenhum de seus pequeninos.

Essa palavra ergue ao redor deles uma muralha de fogo: quem os toca, toca na menina dos olhos de Deus. Observe, primeiro, o crime suposto: fazer tropeçar um destes pequeninos que creem em Cristo.

Embora sejam pequeninos, sua fé em Cristo os une a ele e o envolve na causa deles. Assim, enquanto participam do benefício dos sofrimentos dele, ele também toma para si a ofensa causada a eles. Mesmo os pequeninos que creem têm os mesmos privilégios dos grandes, pois todos alcançaram uma fé igualmente preciosa.

Há quem faça tropeçar esses pequeninos, levando-os ao pecado (1 Coríntios 8:10, 11), afligindo e atormentando suas almas justas, desanimando-os ou aproveitando-se de sua mansidão para fazer presa de sua pessoa, família, bens ou bom nome. Assim, neste mundo, os melhores homens muitas vezes recebem o pior tratamento.

Segundo, a punição desse crime, indicada pelas palavras: “Melhor lhe seria que fosse afogado na profundeza do mar”. O pecado é tão grave, e a ruína proporcionalmente tão grande, que seria melhor sofrer as penas mais severas impostas aos piores criminosos, que só podem matar o corpo.

Repare: 1. O inferno é pior que as profundezas do mar, pois é um abismo sem fundo e um lago de fogo. As profundezas do mar apenas matam, mas o inferno atormenta. Encontramos alguém que teve consolo nas profundezas do mar: Jonas (Jonas 2:2, 4, 9).

No inferno, porém, ninguém jamais teve sequer um grão ou vislumbre de consolo, nem terá por toda a eternidade. 2. A condenação irresistível e irrevogável do grande Juiz fará alguém afundar mais depressa e mais certamente, e o prenderá com mais firmeza, do que uma pedra de moinho pendurada ao pescoço.

Essa condenação estabelece um grande abismo que nunca poderá ser atravessado (Lucas 16:26). Fazer tropeçar os pequeninos de Cristo, ainda que por omissão, é apresentado como motivo daquela sentença terrível: Vão, malditos. Por fim, ela será a condenação dos perseguidores orgulhosos.

Versículos 7 a 14

Advertências contra as Ofensas.

Nosso Salvador fala aqui das ofensas, ou escândalos.

I. Das ofensas em geral (v. 7). Depois de mencionar a ofensa causada aos pequeninos, ele aproveita a ocasião para falar das ofensas de modo mais amplo.

É ofensa aquilo que: 1. Ocasiona culpa, tendendo, por sedução ou intimidação, a afastar as pessoas do bem e levá-las ao mal. 2. Ocasiona dor, entristecendo o coração dos justos. A respeito das ofensas, Cristo lhes diz:

(1.) Que certamente aconteceriam: “É necessário que venham ofensas”. Quando temos certeza do perigo, devemos estar mais bem armados. Não é que a palavra de Cristo obrigue alguém a causar ofensa; ela é uma previsão feita à vista das causas.

Consideradas a sutileza e a malícia de Satanás, a fraqueza e a depravação do coração humano e a insensatez que nele se encontra, é moralmente impossível que não haja ofensas. Deus determinou permiti-las para fins sábios e santos, a fim de que se manifestem tanto os que são perfeitos quanto os que não são (1 Coríntios 11:19; Daniel 11:35).

Avisados de antemão de que haverá sedutores, tentadores, perseguidores e muitos maus exemplos, fiquemos de guarda (Mateus 24:24; Atos 20:29, 30).

(2.) Que seriam coisas funestas, de consequências fatais. Há aqui uma dupla desgraça ligada às ofensas:

[1.] Uma desgraça para os descuidados e desprevenidos, a quem se causa a ofensa: “Ai do mundo por causa das ofensas”. Os obstáculos e a oposição à fé e à santidade, encontrados por toda parte, são a perdição e a praga da humanidade e a ruína de milhares.

Este mundo presente é mau, tão cheio de ofensas, pecados, armadilhas e tristezas. Percorremos um caminho perigoso, cheio de pedras de tropeço, precipícios e falsos guias. Ai do mundo!

Quanto àqueles que Deus escolheu, chamou para fora do mundo e dele libertou, são preservados pelo poder de Deus do dano dessas ofensas e recebem ajuda para transpor todas essas pedras de tropeço. Os que amam a lei de Deus têm grande paz, e nada os fará tropeçar (Salmos 119:165).

[2.] Uma desgraça para os ímpios, que deliberadamente causam a ofensa: “Mas ai daquele homem por quem vem a ofensa”. Embora seja necessário que a ofensa venha, isso não servirá de desculpa para os ofensores.

Repare: embora Deus faça os pecados dos pecadores servirem a seus propósitos, isso não os protegerá de sua ira. A culpa será lançada à porta dos que causam a ofensa, embora também recaia uma desgraça sobre os que a recebem.

Repare: aqueles que de qualquer modo impedem a salvação de outros terão a própria condenação ainda mais intolerável, como Jeroboão, que pecou e fez Israel pecar.

Essa desgraça é a lição moral daquela lei judicial (Êxodo 21:33, 34; 22:6): tanto quem abria uma cova quanto quem acendia um fogo respondia por todos os danos decorrentes. A geração anticristã, pela qual veio a grande ofensa, sofrerá essa desgraça por enganar os pecadores (2 Tessalonicenses 2:11, 12) e perseguir os santos (Apocalipse 17:1, 2, 6).

O Deus justo pedirá contas àqueles que arruínam os interesses eternos de almas preciosas e os interesses temporais de santos preciosos. Pois precioso aos olhos do Senhor é o sangue das almas e o sangue dos santos; as pessoas terão de responder não apenas por seus atos, mas pelo fruto deles, pelos danos que causaram.

II. Em particular, Cristo fala aqui das ofensas causadas:

  1. Por nós a nós mesmos, expressas pela mão ou pelo pé que nos faz tropeçar. Nesse caso, é preciso cortar o que nos faz tropeçar (v. 8, 9). Cristo já havia dito isso (Mateus 5:29, 30), referindo-se especialmente aos pecados contra o sétimo mandamento; aqui a lição é mais ampla.

Repare: aquelas palavras difíceis de Cristo, que desagradam à carne e ao sangue, precisam ser repetidas para nós muitas vezes, e mesmo assim mal basta. Observe agora:

(1.) O que nos é ordenado aqui. Devemos abrir mão de um olho, de uma mão ou de um pé, isto é, de qualquer coisa que nos seja querida, quando ela inevitavelmente se torna para nós ocasião de pecado.

Repare: [1.] Muitas tentações dominantes para o pecado surgem dentro de nós. Nossos próprios olhos e mãos nos fazem tropeçar; mesmo que nunca houvesse um diabo para nos tentar, seríamos arrastados por nossa própria concupiscência.

Ou melhor: até as coisas boas em si mesmas, que podem servir de instrumentos para o bem, tornam-se armadilhas para nós por causa das corrupções de nosso coração; inclinam-nos ao pecado e nos impedem de cumprir nosso dever.

[2.] Nesse caso, devemos, até onde for lícito, abrir mão daquilo que não podemos conservar sem que nos envolva no pecado. Primeiro, é certo que a concupiscência interior deve ser mortificada, ainda que nos seja tão querida quanto um olho ou uma mão.

A carne, com suas paixões e concupiscências, deve ser mortificada (Gálatas 5:24). O corpo do pecado deve ser destruído; as inclinações e os apetites corruptos devem ser refreados e contrariados. A concupiscência estimada, que se deixava rolar debaixo da língua como um bocado doce, deve ser abandonada com repulsa.

Segundo, as ocasiões exteriores de pecado devem ser evitadas, ainda que, para isso, tenhamos de fazer tanta violência contra nós mesmos quanto faríamos ao cortar uma mão ou arrancar um olho.

Quando Abraão deixou sua terra natal por receio de ser enredado na idolatria dela, e quando Moisés deixou a corte do faraó por receio de ser envolvido nos prazeres pecaminosos dali, foi como cortar a mão direita. Para conservar uma boa consciência, não devemos considerar coisa alguma preciosa demais para abandonar.

(2.) Por qual incentivo isso é exigido. É melhor que você entre na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, seja lançado no inferno. O argumento vem do estado futuro, do céu e do inferno; dali se extraem as advertências mais persuasivas contra o pecado.

É o mesmo argumento do apóstolo (Romanos 8:13): [1.] Se vivermos segundo a carne, morreremos. Se conservarmos os dois olhos, sem causar dano algum ao corpo do pecado, sem jamais contrariar a corrupção inata, como Adonias jamais fora contrariado, seremos lançados no fogo do inferno.

[2.] Se, pelo Espírito, mortificarmos os feitos do corpo, viveremos. É isso que significa entrar na vida mutilado: mutilado o corpo do pecado, e ele, na melhor das hipóteses, fica apenas mutilado enquanto estamos neste mundo.

Se a mão direita do velho homem for cortada e seu olho direito arrancado, se seus principais estratagemas forem frustrados e seus poderes quebrados, muito bem. Contudo, ainda lhe restam um olho e uma mão com os quais lutará.

Os que pertencem a Cristo pregaram a carne na cruz, mas ela ainda não morreu. Sua vida foi prolongada, porém seu domínio lhe foi tirado (Daniel 7:12), e ela recebeu a ferida mortal que não será curada.

  1. Quanto às ofensas causadas por nós aos outros, especialmente aos pequeninos de Cristo, somos aqui advertidos a tomar cuidado, em continuação do que ele dissera (v. 6). Observe:

(1.) A própria advertência: “Tomai cuidado para não desprezardes um destes pequeninos”. Ela é dirigida aos discípulos. Assim como Cristo se desagradará dos inimigos de sua igreja se prejudicarem qualquer de seus membros, mesmo o menor, também se desagradará dos grandes da igreja se desprezarem seus pequeninos.

“Vocês que disputam quem será o maior, tomem cuidado para que nessa disputa não desprezem os pequeninos.” Podemos entender isso literalmente, acerca das criancinhas, de quem Cristo falava (v. 2, 4). Os filhos pequenos dos fiéis pertencem à família de Cristo e não devem ser desprezados.

Ou podemos entendê-lo figuradamente: os verdadeiros crentes, porém fracos, são esses pequeninos que, por sua condição exterior ou pela disposição de seu espírito, se assemelham às criancinhas, os cordeiros do rebanho de Cristo.

[1.] Não devemos desprezá-los nem pensar deles com desdém, como uma lâmpada desprezada (Jó 12:5). Não devemos zombar de suas fraquezas, olhá-los com desprezo ou tratá-los com escárnio ou desdém, como se não nos importasse o que lhes acontecesse.

Não devemos dizer: “Ainda que se ofendam, se entristeçam e tropecem, que temos nós com isso?” Tampouco devemos tratar como coisa sem importância um ato que os enredará e perturbará. É contra esse desprezo pelos pequeninos que recebemos extensa advertência (Romanos 14:3, 10, 15, 20, 21).

Não devemos impor nossas exigências à consciência dos outros nem submetê-los a nossos caprichos, como fazem os que dizem às almas das pessoas: “Abaixai-vos, para que passemos por cima”. Devemos respeito à consciência de toda pessoa que dá mostras de agir conscienciosamente.

[2.] Devemos tomar cuidado para não desprezá-los. Devemos temer esse pecado e ser muito cautelosos com o que dizemos e fazemos, para não causarmos ofensa aos pequeninos de Cristo por inadvertência nem os tratarmos com desprezo sem perceber.

Havia quem os odiasse e expulsasse, e ainda dissesse: “Seja o Senhor glorificado”. Também devemos temer a punição: “Tomem cuidado para não desprezá-los, pois, se o fizerem, correrão perigo”.

(2.) As razões que reforçam a advertência. Não devemos considerar desprezíveis esses pequeninos, porque, na verdade, eles têm importância. Que a terra não despreze aqueles a quem o céu respeita; olhemos com respeito para aqueles que são seus favorecidos. Para mostrar que os pequeninos que creem em Cristo merecem respeito, considere:

[1.] O serviço dos anjos bons em favor deles: “Nos céus, os seus anjos sempre veem a face de meu Pai”. Cristo nos diz isso, e podemos confiar em sua palavra, pois veio do céu para nos revelar o que acontece ali no mundo dos anjos. Ele nos dá a conhecer duas coisas a respeito deles:

Primeiro, que são os anjos dos pequeninos. Os anjos de Deus lhes pertencem, pois tudo o que é dele é nosso, se pertencemos a Cristo (1 Coríntios 3:22).

São anjos deles porque receberam a incumbência de ministrar em favor deles (Hebreus 1:14), de acampar ao redor deles e de sustentá-los nos braços. Alguns imaginaram que cada santo tem um anjo da guarda. Mas por que supor isso, se temos certeza de que cada santo dispõe, quando necessário, de uma guarda de anjos?

Isso é aplicado aqui especialmente aos pequeninos, porque são os mais desprezados e os mais expostos. Pouco têm que possam chamar de seu, mas podem olhar pela fé para as hostes celestiais e chamá-las de suas.

Enquanto os grandes deste mundo têm homens ilustres como séquito e guardas, os pequeninos da igreja são acompanhados por anjos gloriosos. Isso mostra não só a dignidade deles, mas também o perigo em que se põem aqueles que os desprezam e maltratam.

É mau ser inimigo de quem recebe tal proteção. É bom ter Deus como nosso Deus, pois assim temos os anjos dele como nossos anjos.

Segundo, que eles sempre veem a face do Pai que está nos céus. Isso mostra: 1. A felicidade e a honra contínuas dos anjos. A felicidade do céu consiste na visão de Deus, em vê-lo face a face como ele é, em contemplar sua beleza. Os anjos desfrutam disso sem interrupção.

Mesmo quando ministram a nós na terra, ainda então, por contemplação, veem a face de Deus, pois são cheios de olhos por dentro. Gabriel, mesmo quando falava com Zacarias, permanecia na presença de Deus (Apocalipse 4:8; Lucas 1:19).

Segundo alguns, essa expressão sugere a especial dignidade e honra dos anjos dos pequeninos. Diz-se que os principais ministros de Estado veem a face do rei (Ester 1:14), como se os anjos mais fortes tivessem a incumbência de cuidar dos santos mais fracos.

  1. Isso mostra sua prontidão contínua para ministrar aos santos. Contemplam a face de Deus à espera de suas ordens quanto ao que devem fazer para o bem dos santos.

Assim como os olhos do servo estão voltados para a mão de seu senhor, prontos a ir ou vir ao menor sinal, também os olhos dos anjos estão voltados para a face de Deus, à espera das indicações de sua vontade, que esses mensageiros alados voam velozmente para cumprir. Vão e voltam como um relâmpago (Ezequiel 1:14).

Se queremos contemplar a face de Deus na glória futura, como os anjos a contemplam (Lucas 20:36), devemos contemplar agora a face de Deus, prontos a cumprir nosso dever, como eles fazem (Atos 9:6).

[2.] O desígnio gracioso de Cristo a respeito deles (v. 11): “Pois o Filho do Homem veio salvar o que se havia perdido”. Esta é uma razão, primeiro, para os anjos dos pequeninos terem tal incumbência e os acompanharem: eles fazem isso em cumprimento do desígnio de Cristo de salvá-los.

Repare: o serviço dos anjos se fundamenta na mediação de Cristo. Por meio dele, os anjos são reconciliados conosco e, quando celebraram a boa vontade de Deus para com as pessoas, uniram a ela sua própria boa vontade.

Segundo, é uma razão para que não sejam desprezados: Cristo veio salvá-los, salvar os que estão perdidos, os pequeninos que se consideram perdidos (Isaías 66:2) e que estão sem saber o que fazer consigo mesmos. Ou melhor, ele veio salvar os filhos dos homens. Repare:

  1. Nossas almas são perdidas por natureza, como o viajante que se perdeu por sair do caminho, ou como o prisioneiro condenado que está perdido. Deus perdeu o serviço do ser humano caído e a honra que deveria ter recebido dele.

  2. A missão de Cristo no mundo era salvar o que estava perdido: reconduzir-nos à obediência que lhe devemos, restituir-nos ao nosso trabalho, reintegrar-nos em nossos privilégios e assim pôr-nos no caminho certo, que conduz ao nosso grande fim. Era salvar da perdição eterna os que estão espiritualmente perdidos.

  3. Essa é uma boa razão para não desprezar nem ofender os menores e mais fracos entre os crentes. Se Cristo lhes deu tanto valor, não os desvalorizemos. Se ele renunciou a tanto por sua salvação, certamente devemos renunciar a nós mesmos para sua edificação e consolação. Veja esse argumento em Romanos 14:15 e 1 Coríntios 8:11, 12.

Ou melhor: se Cristo veio ao mundo para salvar almas, e seu coração está tão dedicado a essa obra, ele pedirá contas com rigor àqueles que a obstruem e impedem, atrapalhando o avanço dos que se voltam para o céu e, assim, contrariando seu grande desígnio.

[3.] A terna consideração que nosso Pai celestial tem por esses pequeninos e seu interesse pelo bem-estar deles. Isso é ilustrado por uma comparação (vv. 12-14).

Observe a progressão do argumento: os anjos de Deus são seus servos, o Filho de Deus é seu Salvador e, para completar sua honra, o próprio Deus é seu Amigo. Ninguém os arrancará da mão de meu Pai (João 10:29).

Temos aqui, primeiro, a comparação (v. 12, 13). O dono que perdeu uma ovelha de um rebanho de cem não a despreza: procura-a diligentemente, alegra-se muito ao encontrá-la e sente por isso uma alegria palpável e comovente, maior do que pelas noventa e nove que não se desgarraram.

O temor que sentiu de perder aquela ovelha e a surpresa ao encontrá-la aumentam a alegria. Isso se aplica: 1. Ao estado da humanidade caída em geral. O ser humano se desgarrara como ovelha perdida; os anjos que permaneceram fiéis eram como as noventa e nove que nunca se desgarraram.

O ser humano errante é procurado pelos montes, que Cristo percorreu com grande cansaço à sua procura, e é encontrado; isso é motivo de alegria. Há maior alegria no céu pelos pecadores que retornam do que pelos anjos que permaneceram fiéis.

  1. Aos crentes em particular, que são ofendidos e desviados de seu caminho pelas pedras de tropeço postas nele ou pelos ardis daqueles que os seduzem para fora dele. Ainda que só uma ovelha entre cem seja assim afastada, como facilmente acontece às ovelhas, ela será procurada com muito cuidado e seu retorno será recebido com grande prazer.

Por isso, sem dúvida, o mal feito a ela será cobrado com grande desagrado. Se há alegria no céu por encontrar um desses pequeninos, há ira no céu por ofendê-los.

Repare: Deus, por sua graça, se interessa não só pelo rebanho em geral, mas por cada cordeiro ou ovelha que a ele pertence. Embora sejam muitos, ele facilmente percebe a falta de um deles, pois é um grande Pastor; contudo, não o perde com facilidade, pois é um bom Pastor e conhece seu rebanho de modo mais particular do que qualquer outro jamais conheceu.

Ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas (João 10:3). Veja uma exposição completa dessa parábola em Ezequiel 34:2, 10, 16, 19.

Segundo, a aplicação dessa comparação (v. 14): “Não é a vontade de vosso Pai que um destes pequeninos pereça”. Há mais implícito nessa afirmação do que se expressa. Não é da vontade dele que algum pereça, mas:

  1. É sua vontade que esses pequeninos sejam salvos. É a vontade de seu desígnio e de seu agrado: ele traçou esse desígnio, pôs nisso seu coração e o realizará. É também a vontade expressa em seu mandamento: todos devem fazer o possível para promovê-la e nada para impedi-la.

  2. Esse cuidado se estende a cada membro do rebanho em particular, até ao mais humilde. Pensamos que, se apenas um ou dois forem ofendidos e enredados, não é coisa grave e não precisamos nos importar. Mas os pensamentos de amor e ternura de Deus são mais elevados que os nossos.

  3. Está implícito que os que fazem algo que ponha qualquer desses pequeninos em perigo de perecer contradizem a vontade de Deus e o provocam grandemente. Ainda que não consigam fazê-lo, Deus lhes pedirá contas.

Ele, em seus santos como em outras coisas, zela por sua honra e não tolerará que seja pisada. Veja Isaías 3:15: “Que intentais vós, ao espancardes o meu povo?”; Salmos 76:8, 9.

Observe: Cristo chamou Deus de “meu Pai, que está nos céus” (v. 19) e o chama de “vosso Pai, que está nos céus” (v. 14). Com isso, indica que não se envergonha de chamar irmãos seus pobres discípulos: afinal, ele e eles não têm um só Pai?

“Subo para meu Pai e vosso Pai” (João 20:17); por isso ele é nosso Pai, porque é Pai de Cristo. Isso também mostra o fundamento da segurança de seus pequeninos: Deus é o Pai deles e, por isso, se inclina a socorrê-los.

Um pai cuida de todos os filhos, mas tem particular ternura pelos pequeninos (Gênesis 33:13). O Pai deles está no céu, lugar de onde tudo se avista; por isso, ele vê todas as indignidades que sofrem. É também lugar de poder; por isso, ele é capaz de vingá-los.

Isso consola os pequeninos que foram ofendidos: sua Testemunha está no céu (Jó 16:19), e ali está seu Juiz (Salmos 68:5).

Versículos 15 a 20

A Remoção das Ofensas.

Depois de advertir os discípulos a não causar ofensa, Cristo os orienta sobre como agir quando eles forem ofendidos. As instruções podem tratar de injúrias pessoais, visando preservar a paz da igreja, ou de escândalos públicos, visando preservar sua pureza e beleza. Consideremos as duas aplicações.

I. Apliquemos as instruções às desavenças que, por qualquer motivo, surgem entre cristãos.

Se seu irmão pecar contra você, entristecendo-lhe a alma (1 Coríntios 8:12), insultando-o ou tratando-o com desprezo ou abuso; se manchar sua reputação com mentiras ou mexericos; se usurpar seus direitos ou lesar seus bens de algum modo; se transgredir como em Levítico 6:2, 3; se violar as leis da justiça, da caridade ou dos deveres nas relações pessoais: tudo isso são transgressões contra nós.

Elas ocorrem com frequência até entre discípulos de Cristo e, às vezes, por falta de prudência, têm consequências muito danosas. Observe agora a regra prescrita para esses casos:

  1. Vá e mostre-lhe sua falta, só entre você e ele. Comparemos essa instrução com Levítico 19:17 e expliquemo-la por meio dele: “Não odiarás teu irmão em teu coração”.

Isto é: “Se alguma injúria que seu irmão lhe fez causou desagrado, não permita que o ressentimento amadureça em malícia secreta, como uma ferida, que é mais perigosa quando sangra por dentro”.

“Dê vazão ao ressentimento por meio de uma advertência branda e séria; assim ele se dissipará e passará mais depressa. Não vá difamá-lo pelas costas, mas censure-o de todo modo. Se ele realmente lhe causou uma injúria considerável, procure fazê-lo perceber isso, mas repreenda-o em particular, só entre você e ele”.

“Se quiser convencê-lo, não o exponha, pois isso só o irritará e fará a repreensão parecer vingança”. Isso concorda com Provérbios 25:8, 9: “Não te apresses a sair para contender; debate tua causa com teu próximo”, de modo calmo e amigável.

“Se ele ouvir você, muito bem: você ganhou seu irmão, a controvérsia acabou e teve um fim feliz. Não se fale mais disso; que o desentendimento entre amigos sirva para renovar a amizade”.

  1. “Se ele não ouvir você, não reconhecer sua falta nem chegar a um acordo, ainda assim não se desespere. Veja o que dirá se você levar uma, duas ou mais pessoas, não só para testemunhar o que se passar, mas também para examinar melhor o caso com ele”.

“Será mais provável que ele lhes dê ouvidos, pois não têm interesse pessoal na questão. Se a razão puder guiá-lo, a voz da razão, na boca de duas ou três testemunhas, lhe será expressa com mais clareza” (Plus vident oculi quam oculus — Muitos olhos veem mais do que um) “e ele lhe dará mais atenção; talvez isso o leve a reconhecer o erro e dizer: ‘Eu me arrependo’”.

  1. “Se ele deixar de ouvi-los e não quiser submeter a questão à arbitragem deles, conte-a à igreja, aos ministros, presbíteros ou outros oficiais, ou às pessoas mais influentes da congregação à qual você pertence”.

“Peça-lhes que arbitrem o assunto e promovam um acordo; não recorra imediatamente ao magistrado nem obtenha uma intimação contra ele”.

O apóstolo explica plenamente isso em 1 Coríntios 6, onde censura os que levavam suas causas aos tribunais perante os injustos, em vez de perante os santos (v. 1). Ele queria que os santos julgassem aquelas questões menores relativas a esta vida (v. 2, 3).

Se alguém perguntar: “Qual é a igreja a quem se deve contar?”, o apóstolo orienta ali (v. 5): “Não há entre vós alguém sábio?” São os membros da igreja considerados mais capazes de decidir tais questões.

Ele fala com ironia ao dizer (v. 4): “Ponde para julgar os menos estimados na igreja”. Se não houver pessoas melhores, que sejam essas, em vez de permitir uma ruptura irreconciliável entre dois membros da igreja.

Essa regra era especialmente necessária na época, quando o governo civil estava nas mãos de pessoas que não eram apenas estranhas à igreja, mas inimigas dela.

  1. “Se ele não ouvir a igreja, não aceitar sua decisão, mas persistir na injúria que lhe causou e continuar a prejudicá-lo, considere-o como gentio e publicano”.

“Recorra à proteção da lei contra ele, mas que esse seja sempre o último recurso. Não apele aos tribunais antes de tentar todos os outros meios de conciliar a questão em disputa”.

“Ou, se desejar, você pode romper a amizade e a convivência com ele. Embora de modo algum deva buscar vingança, pode decidir se manterá relações com ele, ao menos da maneira que lhe daria oportunidade de repetir o mal. Você desejava curá-lo e preservar sua amizade, mas ele recusou, perdendo assim essa amizade”.

Se alguém me engana e me trata mal uma vez, a culpa é dele; se o faz duas vezes, a culpa é minha.

II. Apliquemos as instruções aos pecados escandalosos, que são uma ofensa para os pequeninos, dão mau exemplo aos fracos e influenciáveis e causam grande tristeza aos fracos e temerosos.

Depois de ensinar-nos a ter consideração pela fraqueza de nossos irmãos, Cristo nos adverte aqui a não tolerar sua maldade sob esse pretexto.

Ao planejar estabelecer para si uma igreja no mundo, Cristo cuidou de preservar: 1. Sua pureza, para que ela tivesse a capacidade de expulsar o mal, de limpar-se e purificar-se, como uma fonte de águas vivas. Isso é necessário enquanto a rede do evangelho trouxer tanto peixes bons quanto maus.

  1. Sua paz e ordem, para que cada membro conheça seu lugar e seu dever, e a pureza da igreja seja preservada de modo regular, sem tumulto. Vejamos agora:

(1.) Qual é o caso suposto? “Se teu irmão pecar contra ti”. [1.] “O ofensor é um irmão, alguém que participa da comunhão cristã, foi batizado, ouve a palavra e ora com você, e com quem você se une no culto a Deus, regular ou ocasionalmente”.

Repare: a disciplina da igreja é para seus membros. “Os que estão de fora Deus julga” (1 Coríntios 5:12, 13). Quando alguém peca contra nós, convém lembrar que o ofensor é um irmão; essa lembrança nos oferece uma consideração que modera nossa reação.

[2.] “A ofensa é uma transgressão contra você: se seu irmão pecar contra você, como diz o texto, se fizer algo que o ofenda como cristão”. Repare: um pecado grave contra Deus é uma transgressão contra o povo de Deus, que realmente se importa com a honra divina.

Os interesses de Cristo e dos crentes estão entrelaçados: o que se faz contra os crentes, Cristo considera feito contra si; e o que se faz contra Cristo, eles não podem deixar de considerar feito contra si mesmos. “As afrontas dos que te afrontaram caíram sobre mim” (Salmos 69:9).

(2.) O que se deve fazer nesse caso? Temos aqui:

[1.] As regras prescritas (vv. 15-17). Proceda deste modo:

Primeiro: “Vá e mostre-lhe sua falta, só entre você e ele. Não espere que ele venha a você; vá procurá-lo, como o médico visita o paciente e o pastor vai atrás da ovelha perdida”. Repare: nenhum esforço para levar um pecador ao arrependimento deve nos parecer excessivo.

“Mostre-lhe sua falta: lembre-o do que fez e do mal que há nisso; exponha-lhe suas abominações”. Repare: as pessoas relutam em enxergar as próprias faltas e precisam que alguém as aponte. Ainda que tanto os fatos quanto a culpa sejam claros, é preciso reuni-los e aplicá-los à pessoa.

Os pecados graves muitas vezes confundem a consciência e, por algum tempo, a entorpecem e silenciam; ela precisa de ajuda para despertar. O próprio coração de Davi o acusou quando cortou a orla do manto de Saul e quando fez o recenseamento do povo.

No caso de Urias, porém, por mais estranho que seja, não vemos que sua consciência o tenha acusado até Natã lhe dizer: “Tu és o homem”.

“Mostre-lhe sua falta, elenxon auton — argumente sobre o caso com ele”, como significa a palavra grega, “e faça isso com razão e argumentos, não com exaltação”.

Quando a falta é clara e grave, a pessoa é alguém com quem nos cabe tratar, há oportunidade para isso e não há perigo evidente de causar mais dano que benefício, devemos mostrar-lhe com mansidão e fidelidade o que nela está errado.

A censura cristã é uma ordenança de Cristo para levar pecadores ao arrependimento e deve ser praticada como ordenança. “Que a censura seja particular, só entre você e ele, para ficar claro que você não busca seu descrédito, mas seu arrependimento”.

Repare: é boa regra, que normalmente os cristãos devem observar, não falar das faltas dos irmãos a outras pessoas antes de falar delas aos próprios irmãos. Haveria assim menos difamação e mais censura: cometeríamos menos pecado e cumpriríamos mais dever.

A censura tem mais chance de surtir efeito quando o ofensor percebe que quem o censura se preocupa tanto com sua salvação, ao mostrar-lhe a falta, quanto com sua reputação, ao fazê-lo em particular.

“Se ele ouvir você”, isto é, “se lhe der atenção e aceitar a censura, muito bem: você ganhou seu irmão. Ajudou a salvá-lo do pecado e da ruína, e isso lhe trará honra e consolo” (Tiago 5:19, 20).

Repare: converter uma alma é ganhá-la (Provérbios 11:30). Devemos desejar esse ganho e trabalhar por ele como algo que também ganhamos; se perder uma alma é grande perda, ganhar uma alma certamente não é ganho pequeno.

Segundo: se isso não der resultado, leve com você uma ou duas pessoas mais (v. 16). Repare: não devemos cansar-nos de fazer o bem, embora não vejamos de imediato o bom resultado.

“Se ele não ouvir você, ainda assim não o abandone como se seu caso não tivesse esperança. Não diga: ‘Será inútil tratar mais do assunto com ele’. Continue a empregar outros meios. Mesmo os que endurecem o pescoço precisam ser censurados repetidamente, e os que se opõem devem ser instruídos com mansidão”.

Numa obra desse tipo, precisamos novamente sofrer dores de parto (Gálatas 4:19). É depois de muito esforço e muitas contrações que a criança nasce.

“Leve com você uma ou duas pessoas mais: 1. Para ajudá-lo. Elas talvez digam algo pertinente e convincente que não lhe ocorreu e tratem o assunto com mais prudência do que você o fez”. Repare: os cristãos devem reconhecer sua necessidade de ajuda para fazer o bem e recorrer à ajuda uns dos outros.

Como nas demais coisas, isso vale também para a censura: o dever precisa ser cumprido e bem cumprido. 2. “Para sensibilizá-lo. É mais provável que se humilhe por sua falta ao vê-la confirmada pelo testemunho de duas ou três pessoas” (Deuteronômio 19:15).

Repare: quem vê sua má conduta tornar-se ofensa e escândalo gerais deve julgar que passou da hora de arrepender-se e corrigir-se. Num mundo como este, é raro encontrar uma pessoa boa de quem todos falem bem, mas é ainda mais raro encontrar uma pessoa boa de quem todos falem mal.

  1. “Para testemunharem sobre a conduta dele, caso a questão venha depois a ser apresentada à igreja”. Ninguém deve sofrer a censura da igreja como obstinado e insubmisso antes de haver ampla prova disso.

Terceiro: se ele deixar de ouvi-los e não se humilhar, conte o caso à igreja (v. 17). Há pessoas de espírito teimoso sobre as quais os meios mais promissores de convencimento não surtem efeito; ainda assim, não devemos abandoná-las como incuráveis. Tornemos o assunto mais público e procuremos mais ajuda.

Repare: 1. As advertências particulares sempre devem preceder as censuras públicas. Se os métodos mais brandos resolverem o problema, não se devem usar os mais duros e severos (Tito 3:10). Quem pode ser convencido a abandonar o pecado por argumentos não precisa ser constrangido pela vergonha.

Que a obra de Deus seja feita com eficácia, mas com o mínimo de alarde possível: seu reino vem com poder, mas sem espetáculo. 2. Mas, onde a advertência particular não dá resultado, a censura pública deve ocorrer.

A igreja deve receber as queixas dos ofendidos, repreender os pecados dos ofensores e julgar entre eles depois de investigar imparcialmente os méritos da questão.

“Conte o caso à igreja”. É mil vezes lamentável que essa determinação de Cristo, destinada a pôr fim às divergências e a remover ofensas, seja ela própria tão debatida e, pela corrupção do coração humano, dê ocasião a divergências e ofensas.

“A que igreja se deve contar?” Essa é a grande pergunta. Alguns dizem que ao magistrado civil; outros, ao Sinédrio judeu que então existia. O que vem depois (v. 18), porém, deixa claro que Cristo se refere a uma igreja cristã, ainda não formada, mas já em embrião.

“Conte o caso à igreja particular da qual o ofensor participa. Leve o assunto àqueles membros da congregação designados, por acordo, para receber informações desse tipo”.

“Conte-o aos dirigentes da igreja: ao ministro ou ministros, aos presbíteros ou diáconos; ou, se a organização da comunidade for assim, aos representantes ou responsáveis pela congregação, ou a todos os seus membros”.

“Que examinem o caso. Se julgarem a queixa frívola e sem fundamento, repreendam o queixoso. Se a julgarem justa, repreendam o ofensor e chamem-no ao arrependimento”. Essa censura provavelmente terá mais força e eficácia por ser feita: 1. “Com maior solenidade”; e 2. “Com maior autoridade”.

É algo grave receber uma censura de uma igreja ou de um ministro, que a faz em virtude do próprio ofício. Por isso a levam mais a sério aqueles que têm algum respeito por uma instituição de Cristo e por seus embaixadores.

Quarto: “Se ele deixar de ouvir a igreja, desprezar a advertência e não se envergonhar de suas faltas nem corrigi-las, seja para você como gentio e publicano. Que seja excluído da comunhão da igreja e de suas ordenanças especiais, privado da dignidade de membro e sujeito ao descrédito”.

“Advirtam-se os membros da comunidade a afastar-se dele, para que se envergonhe de seu pecado e eles não sejam contaminados por ele nem se tornem responsáveis por ele”.

Quem despreza as ordens e regras de uma comunidade e a desacredita perde suas honras e privilégios. Com justiça, é afastado até arrepender-se, submeter-se e reconciliar-se com ela.

Cristo determinou esse método para defender a honra da igreja, preservar sua pureza e convencer e corrigir os que causam escândalo.

Observe, porém, que ele não disse: “Considere-o um demônio ou espírito condenado, como alguém sem esperança”, mas “como gentio e publicano, alguém que pode ser restaurado e recebido de volta”.

“Não o tenhais por inimigo, mas admoestai-o como irmão”. As orientações dadas à igreja de Corinto sobre o homem incestuoso concordam com essas regras: ele devia ser retirado do meio deles (1 Coríntios 5:2) e entregue a Satanás.

Se é excluído do reino de Cristo, passa a ser considerado pertencente ao reino de Satanás. Os irmãos não devem associar-se a ele (1 Coríntios 5:11, 13). Contudo, quando por esse meio ele se humilhar e se corrigir, deve ser recebido de volta à comunhão, e tudo ficará bem.

[2.] Eis uma autorização assinada para ratificar todos os procedimentos da igreja segundo essas regras (v. 18). O que antes foi dito a Pedro é dito aqui a todos os discípulos e, por meio deles, a todos os fiéis que exercem cargos na igreja até o fim do mundo.

Enquanto os ministros pregarem fielmente a palavra de Cristo e, no governo da igreja, observarem estritamente suas leis (clave non errante — a chave que não gira para o lado errado), poderão estar certos de que ele os reconhecerá, os sustentará e ratificará o que disserem e fizerem.

Assim, suas palavras e ações serão recebidas como se fossem de Cristo. Ele os reconhecerá:

Primeiro: em sua sentença de suspensão: “Tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu”. Se as censuras da igreja seguirem devidamente a instituição de Cristo, os juízos dele acompanharão as censuras da igreja: seus juízos espirituais, mais severos que todos os outros.

Foi sob um desses juízos que caíram os judeus rejeitados (Romanos 11:8): um espírito de torpor. Cristo não permitirá que suas próprias ordenanças sejam pisoteadas; dará seu amém às sentenças justas que a igreja proferir contra ofensores obstinados.

Por pouco caso que os zombadores orgulhosos façam das censuras da igreja, saibam que elas são confirmadas no tribunal do céu. É inútil recorrer àquele tribunal, pois nele a sentença já foi proferida contra eles.

Os excluídos agora da congregação dos justos não permanecerão nela no grande dia (Salmos 1:5). Cristo não reconhecerá como seus nem receberá os que a igreja devidamente entregou a Satanás.

Se, porém, por erro ou inveja, suas censuras forem injustas, Cristo, em sua graça, encontrará os que foram assim expulsos (João 9:34, 35).

Segundo: em sua sentença de absolvição: “Tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu”. Repare: 1. Nenhuma censura da igreja liga com tal firmeza que, após o arrependimento e a correção do pecador, não possa e não deva ser desfeita.

Basta a punição que alcançou seu propósito; o ofensor deve então ser perdoado e consolado (2 Coríntios 2:6). O único abismo intransponível é o que separa o inferno do céu.

  1. Aqueles que, após se arrependerem, são recebidos de volta à comunhão da igreja podem ter o consolo da absolvição no céu, se seu coração for reto diante de Deus. Assim como a suspensão visa infundir temor nos obstinados, a absolvição visa animar os arrependidos.

Paulo fala na pessoa de Cristo ao dizer: “A quem perdoais alguma coisa, também eu perdoo” (2 Coríntios 2:10).

É grande a honra que Cristo aqui confere à igreja: ele se digna não só a tomar conhecimento de suas sentenças, mas a confirmá-las. Nos versículos seguintes, são apresentados dois fundamentos para isso:

(1.) A disposição de Deus para responder às orações da igreja (v. 19): se dois de vocês concordarem harmoniosamente acerca de qualquer coisa que pedirem, ela lhes será feita. Apliquemos essa promessa:

[1.] De modo geral, a todos os pedidos feitos pela descendência fiel e orante de Jacó; eles não buscarão em vão a face de Deus.

Temos nas Escrituras muitas promessas de uma resposta bondosa às orações feitas com fé, mas esta oferece ânimo especial para a oração em conjunto: “Os pedidos em que dois de vocês concordarem, e muito mais os pedidos em que muitos concordarem”.

Nenhuma lei do céu limita o número de suplicantes. Repare: Cristo teve por bem honrar as orações conjuntas dos fiéis e as súplicas comuns que dirigem a Deus, e conceder-lhes eficácia especial.

Se fizerem a mesma oração, se combinarem reunir-se diante do trono da graça para apresentar algum pedido especial ou, mesmo à distância, concordarem em orar por uma questão determinada, terão bom resultado.

Além da atenção geral que Deus dá às orações dos santos, ele se agrada especialmente da união e da comunhão deles nessas orações. Veja 2 Crônicas 5:13; Atos 4:31.

[2.] Em particular, aos pedidos dirigidos a Deus sobre ligar e desligar; parece ser a eles que esta promessa se refere de modo especial. Observe, primeiro: o poder da disciplina eclesiástica não é aqui posto nas mãos de uma só pessoa; supõe-se que ao menos duas participem dela.

Quando o homem incestuoso de Corinto devia ser excluído, a igreja estava reunida (1 Coríntios 5:4), e a punição foi aplicada por muitos (2 Coríntios 2:6). Num assunto tão importante, dois são melhores que um, e na multidão de conselheiros há segurança.

Segundo: é bom ver concordarem os responsáveis por exercer a disciplina da igreja. As paixões exaltadas e as animosidades entre aqueles cuja tarefa é remover ofensas serão a maior ofensa de todas.

Terceiro: a oração deve sempre acompanhar a disciplina da igreja. Não profira nenhuma sentença cuja confirmação não possa pedir a Deus com fé. O ligar e desligar mencionado em Mateus 16:19 era feito pela pregação; aqui, é feito pela oração.

Assim, todo o poder dos ministros do evangelho se concentra na palavra e na oração, às quais devem dedicar-se inteiramente.

Cristo não diz: “Se vocês concordarem em sentenciar e decretar alguma coisa, ela acontecerá”, como se os ministros fossem juízes e senhores, mas: “Se concordarem em pedi-la a Deus, dele a receberão”.

A oração deve acompanhar todos os nossos esforços para converter pecadores; veja Tiago 5:16. Quarto: as petições unânimes da igreja de Deus pela ratificação de suas censuras justas serão ouvidas no céu e atendidas: “Isso será feito, será ligado e desligado no céu; Deus dará seu fiat aos recursos e pedidos que lhe apresentarem”.

Se Cristo, que fala aqui como quem tem autoridade, disser: “Isso será feito”, podemos estar certos de que foi feito, mesmo que não vejamos o resultado da maneira esperada. Deus nos reconhece e aceita especialmente quando oramos pelos que ofenderam a ele e a nós.

O Senhor reverteu o cativeiro de Jó, não quando ele orou por si mesmo, mas quando orou pelos amigos que haviam pecado contra ele.

(2.) A presença de Cristo nas reuniões dos cristãos (v. 20). Todo crente tem Cristo consigo; a promessa aqui, porém, refere-se às reuniões em que dois ou três se juntam em seu nome, não só para exercer a disciplina, mas para o culto religioso ou qualquer ato de comunhão cristã.

Por essas palavras, as reuniões de cristãos para fins santos são estabelecidas, orientadas e encorajadas.

[1.] São estabelecidas: a igreja de Cristo no mundo se manifesta de modo mais visível nas reuniões religiosas. É vontade de Cristo que elas sejam organizadas e mantidas para honrar a Deus, edificar as pessoas e conservar no mundo a presença visível da religião.

Quando Deus pretende dar respostas especiais à oração, convoca uma assembleia solene (Joel 2:15, 16). Se não houver liberdade nem oportunidade para reuniões grandes e numerosas, ainda assim é vontade de Deus que duas ou três pessoas se reúnam para mostrar sua boa vontade para com a grande congregação.

Repare: quando não podemos fazer na religião o que gostaríamos, devemos fazer o que pudermos, e Deus nos aceitará.

[2.] São orientadas a reunir-se em nome de Cristo. Ao exercer a disciplina da igreja, os irmãos devem reunir-se em nome dele (1 Coríntios 5:4). Esse nome confere autoridade na terra ao que fazem e torna o ato aceitável no céu.

Nas reuniões ou no culto, devemos ter os olhos voltados para Cristo. Devemos reunir-nos por sua autorização e determinação, como sinal de nossa relação com ele, professando fé nele e em comunhão com todos os que, em toda parte, o invocam.

Quando nos reunimos para adorar a Deus dependendo, para receber ajuda, do Espírito e da graça de Cristo como Mediador e, para sermos aceitos, de seu mérito e de sua justiça como Mediador, e temos em mente que ele é nosso Caminho para o Pai e nosso Advogado junto ao Pai, então estamos reunidos em seu nome.

[3.] São encorajadas pela certeza da presença de Cristo: “Ali estou eu no meio deles”. Por sua presença comum, ele, como Deus, está em todos os lugares; esta promessa, porém, se refere à sua presença especial.

Onde estão os seus santos, ali está seu santuário, e ali ele habitará. Ali está seu lugar de repouso (Salmos 132:14) e ali ele caminha (Apocalipse 2:1). Ele está no meio deles para vivificá-los, fortalecê-los, revigorá-los e consolá-los, como o sol no centro do universo.

Ele está no meio deles, isto é, em seus corações. O que se promete aqui é uma presença espiritual: a presença do Espírito de Cristo com o espírito deles.

“Ali estou eu”, não só “estarei ali”, mas “estou ali”: como se ele chegasse primeiro e estivesse pronto antes deles, que o encontrarão no local. Repetiu essa promessa ao despedir-se (Mateus 28:20): “Eis que estou convosco sempre”.

Repare: a presença de Cristo nas reuniões dos cristãos é prometida; pela fé, podemos pedi-la em oração e contar com ela: “Ali estou eu”. Equivale à Shechinah, a presença especial de Deus no antigo tabernáculo e templo (Êxodo 40:34; 2 Crônicas 5:14).

Ainda que apenas dois ou três estejam reunidos, Cristo está entre eles. Isso anima as reuniões de poucos, sejam elas, primeiro, por escolha.

Além do culto particular realizado por indivíduos e dos cultos públicos de toda a congregação, às vezes duas ou três pessoas podem reunir-se para ajudar-se mutuamente numa conversa ou numa oração conjunta.

Não fazem isso por desprezo ao culto público, mas em concordância com ele; Cristo estará presente. Ou, segundo, por necessidade: quando não há mais do que dois ou três dispostos a reunir-se ou, se há mais, não ousam fazê-lo por medo dos judeus, Cristo ainda estará no meio deles.

Não é a multidão, mas a fé e a devoção sincera dos adoradores que convidam a presença de Cristo. Ainda que sejam apenas dois ou três, o menor número possível, se Cristo estiver entre eles como o principal participante, sua reunião será tão honrosa e consoladora quanto seria se houvesse duas ou três mil pessoas.

Versículos 21 a 35

Adoradores Cristãos Animados; O Credor Cruel.

Esta parte do discurso acerca das ofensas certamente deve ser entendida como referente a injustiças pessoais, que está em nosso poder perdoar. Agora observe:

I. A pergunta de Pedro acerca deste assunto (v. 21): “Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei?” Será suficiente fazê-lo sete vezes?

  1. Ele toma como certo que deve perdoar; Cristo já havia ensinado esta lição a seus discípulos (Mateus 6:14, 15), e Pedro não a esqueceu. Sabe que deve não apenas deixar de guardar rancor contra seu irmão ou meditar vingança, mas ser um amigo tão bom quanto antes e esquecer a injúria.

  2. Pensa que é grande coisa perdoar até sete vezes; não quer dizer sete vezes por dia, como Cristo disse (Lucas 17:4), mas sete vezes em sua vida. Supõe que, se um homem o tivesse maltratado de alguma maneira sete vezes, embora esse homem desejasse muito reconciliar-se, ele poderia então abandonar seu convívio e não ter mais nada a ver com ele.

Talvez Pedro tivesse em vista Provérbios 24:16: “Um homem justo cai sete vezes”; ou a menção de três transgressões e quatro, que Deus não mais deixaria passar (Amós 2:1).

Repare: há em nossa natureza corrupta uma propensão a nos limitar naquilo que é bom e a temer fazer demais na religião, particularmente perdoar demais, embora tanto nos tenha sido perdoado.

II. A resposta direta de Cristo à pergunta de Pedro: “Não te digo: Até sete vezes”, ele nunca pretendeu estabelecer tais limites, “mas: Até setenta vezes sete”; um número definido por um indefinido, mas um número grande.

Repare: não fica bem contarmos as ofensas que nossos irmãos cometem contra nós. Há algo de índole má em registrar as injúrias que perdoamos, como se nos concedêssemos vingar-nos quando a medida estivesse cheia.

Deus mantém uma conta (Deuteronômio 32:34), porque ele é o Juiz e a vingança é dele; mas nós não devemos fazê-lo, para que não sejamos encontrados subindo ao seu trono. Para preservar a paz, tanto interior quanto exterior, é necessário deixar passar as injúrias sem contar quantas vezes; perdoar e esquecer.

Deus multiplica seus perdões, e assim devemos fazer (Salmos 78:38, 40). Isso indica que devemos fazer do perdão das injúrias nossa prática constante e acostumar-nos a ele até que se torne habitual.

III. Um discurso ulterior de nosso Salvador, em forma de parábola, para mostrar a necessidade de perdoar as injúrias que nos são feitas. As parábolas são úteis não apenas para insistir nos deveres cristãos; pois causam e deixam uma impressão.

A parábola é um comentário à quinta petição da oração do Senhor: perdoe-nos nossas transgressões, assim como perdoamos aos que transgridem contra nós. Esses, e somente esses, podem esperar ser perdoados por Deus, os que perdoam seus irmãos.

A parábola representa o reino do céu, isto é, a igreja, e a administração da dispensação do evangelho nela. A igreja é a família de Deus, é sua corte; ali ele habita, ali governa. Deus é nosso senhor; somos seus servos, ao menos no que professamos e por obrigação.

Em geral, a parábola indica quanta provocação Deus recebe de sua família na terra e quão indóceis são seus servos. Há três coisas na parábola:

  1. A maravilhosa clemência do senhor para com seu servo que lhe devia; perdoou-lhe dez mil talentos por pura compaixão dele (vv. 23-27). Nisto observe:

(1.) Todo pecado que cometemos é uma dívida com Deus; não como uma dívida com um igual, contraída por compra ou empréstimo, mas com um superior. É como uma dívida com um príncipe quando se perde uma caução ou se incorre numa penalidade por infração da lei ou perturbação da paz.

É como a dívida de um servo com seu senhor, por reter seu serviço, desperdiçar os bens de seu senhor, violar seus contratos e incorrer na penalidade. Todos somos devedores; devemos satisfação e estamos sujeitos ao processo da lei.

(2.) Mantém-se uma conta dessas dívidas, e em breve nos será exigida prestação de contas por elas. Esse rei tomaria contas de seus servos. Deus agora toma contas de nós por nossas próprias consciências; a consciência é um auditor de Deus na alma, para nos chamar à prestação de contas e acertar contas conosco.

Uma das primeiras perguntas que um cristão despertado faz é: “Quanto deves ao meu Senhor?” E, a menos que a consciência seja subornada, ela dirá a verdade e não escreverá cinquenta por cem.

Vem outro dia de prestação de contas, quando essas contas serão examinadas e ou aprovadas ou rejeitadas, e nada além do sangue de Cristo fará a conta fechar.

(3.) A dívida do pecado é muito grande; e alguns estão mais endividados pelo pecado do que outros. Quando começou a tomar contas, constatou-se que um dos primeiros inadimplentes devia dez mil talentos. Não há como fugir das averiguações da justiça divina; seu pecado certamente encontrará você.

A dívida era de dez mil talentos, uma soma imensa, que, pelo cálculo, corresponde a um milhão oitocentas e setenta e cinco mil libras esterlinas. Mais provavelmente o resgate de um rei ou o tributo de um reino do que a dívida de um servo. Veja como são nossos pecados:

[1.] Quanto à atrocidade de sua natureza: são talentos, a maior denominação já usada na contagem de dinheiro ou peso. Todo pecado é a carga de um talento, um talento de chumbo; “isto é maldade” (Zacarias 5:7, 8).

Os encargos confiados a nós, como administradores da graça de Deus, são cada um deles um talento (Mateus 25:15), um talento de ouro. E, por cada um deles enterrado, muito mais por cada um desperdiçado, ficamos devendo um talento, e isso aumenta a conta.

[2.] Quanto à imensidão de seu número: são dez mil, uma miríade, mais do que os cabelos de nossa cabeça (Salmos 40:12). Quem pode entender o número de seus erros ou dizer quantas vezes ofende? (Salmos 19:12).

(4.) A dívida do pecado é tão grande que não podemos pagá-la; ele não tinha com que pagar. Os pecadores são devedores insolventes; a Escritura, que encerra todos sob o pecado, é uma lei de falência contra todos nós. Prata e ouro não pagariam nossa dívida (Salmos 49:6, 7).

Sacrifício e oferta não o fariam; nossas boas obras são apenas a obra de Deus em nós e não podem dar satisfação; estamos sem força e não podemos socorrer a nós mesmos.

(5.) Se Deus nos tratasse com justiça estrita, seríamos condenados como devedores insolventes, e Deus poderia exigir a dívida glorificando-se em nossa ruína total. A justiça exige satisfação: Currat, lex, que a sentença da lei seja executada.

O servo havia contraído essa dívida por seu desperdício e sua obstinação e, por isso, poderia justamente ser deixado a suportá-la. Seu senhor ordenou que fosse vendido, como escravo para as galés, vendido para moer na prisão; que sua mulher e seus filhos fossem vendidos, e tudo o que tinha, e que se fizesse o pagamento.

Veja aqui o que todo pecado merece; este é o salário do pecado:

[1.] Ser vendido. Os que se vendem para praticar a maldade devem ser vendidos para dar satisfação. Os cativos do pecado são cativos da cólera. Quem é vendido como escravo é privado de todos os seus consolos, e nada lhe resta além da vida, para que possa ter percepção de suas misérias; essa é a condição dos pecadores condenados.

[2.] Assim ele queria que se fizesse o pagamento, isto é, que se pagasse ao menos uma parte; embora seja impossível que a venda de alguém tão sem valor pudesse alcançar o pagamento de dívida tão grande. Pela condenação dos pecadores, a justiça divina estará por toda a eternidade recebendo satisfação, mas nunca estará satisfeita.

(6.) Os pecadores convencidos de seu pecado não podem deixar de se humilhar diante de Deus e pedir misericórdia. O servo, sob essa acusação e essa condenação, prostrou-se aos pés de seu senhor régio e o adorou; ou, como algumas cópias dizem, suplicou-lhe.

Sua abordagem foi muito submissa e muito insistente: “Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo” (v. 26). O servo sabia antes que estava tão endividado, e, contudo, não se preocupava com isso até ser chamado a prestar contas.

Os pecadores geralmente são descuidados acerca do perdão de seus pecados até serem detidos por alguma palavra que desperta, alguma providência que assusta ou pela morte que se aproxima. E então: “Com que virei diante do Senhor?” (Miquéias 6:6).

Com que facilidade, com que rapidez, Deus pode trazer a seus pés o pecador mais orgulhoso: Acabe a seu pano de saco, Manassés a suas orações, Faraó a suas confissões, Judas a sua restituição, Simão Mago a sua súplica, Belsazar e Félix a seus tremores.

O coração mais resoluto perderá as forças quando Deus colocar os pecados em ordem diante dele. Esse servo não nega a dívida, nem procura evasivas, nem tenta fugir. Mas:

[1.] Pede tempo: “Tem paciência comigo”. A paciência e a tolerância são um grande favor, mas é insensatez pensar que só elas nos salvarão; adiamentos da pena não são perdões. Muitos são tolerados sem que isso os leve ao arrependimento (Romanos 2:4), e então serem tolerados não lhes faz bem algum.

[2.] Promete pagamento: Tenha paciência por algum tempo, e eu lhe pagarei tudo. Repare: é insensatez de muitos sob convencimento de pecado imaginar que podem dar satisfação a Deus pela injustiça que lhe fizeram.

São como os que, à semelhança de um falido que faz um acordo, saldariam a dívida dando seu primogênito por suas transgressões (Miquéias 6:7), que procuram estabelecer sua própria justiça (Romanos 10:3). Quem nada tinha com que pagar (v. 25) imaginava poder pagar tudo.

Veja como o orgulho se apega firmemente até aos pecadores despertados; estão convencidos, mas não humilhados.

(7.) O Deus de misericórdia infinita está muito disposto, por pura compaixão, a perdoar os pecados dos que se humilham diante dele (v. 27). O senhor daquele servo, quando poderia justamente tê-lo arruinado, misericordiosamente o soltou; e, como não poderia ser satisfeito pelo pagamento da dívida, seria glorificado pelo perdão dela.

A oração do servo foi: “Tem paciência comigo”; a concessão do senhor é uma quitação completa. Repare:

[1.] O perdão do pecado se deve à misericórdia de Deus, à sua terna misericórdia (Lucas 1:77, 78); ele foi “movido de compaixão”. Os motivos de misericórdia de Deus são buscados dentro dele mesmo; ele tem misericórdia porque quer ter misericórdia.

Deus olhou com piedade para a humanidade em geral, por ser miserável, e enviou seu Filho para ser Fiador em favor dela. Olha com piedade para penitentes individuais, por terem consciência de sua miséria e o coração quebrantado e contrito, e os aceita no Amado.

[2.] Há perdão com Deus para os maiores pecados, se houver arrependimento deles. Embora a dívida fosse imensamente grande, ele a perdoou toda (v. 32). Embora nossos pecados sejam muito numerosos e muito atrozes, ainda assim, nos termos do evangelho, podem ser perdoados.

[3.] O perdão da dívida é a soltura do devedor; ele o soltou. A obrigação é cancelada, a sentença é anulada; nunca andamos em liberdade até que nossos pecados sejam perdoados. Mas observe: embora o tenha liberado da penalidade como devedor, não o liberou de seu dever como servo.

O perdão do pecado não enfraquece, mas fortalece nossas obrigações de obediência. E devemos considerar um favor Deus ter por bem conservar servos tão desperdiçadores como temos sido num serviço tão proveitoso como o seu; e, por isso, nos libertar para que o servíssemos (Lucas 1:74). Sou seu servo, pois você soltou minhas amarras.

  1. A severidade injustificável do servo para com seu conservo, apesar da clemência de seu senhor para com ele (vv. 28-30). Isso representa o pecado dos que, embora não sejam injustos ao exigir o que é seu, ainda assim são rigorosos e sem misericórdia ao exigir o que é seu até o limite do direito, o que às vezes se mostra uma verdadeira injustiça.

Summum jus summa injuria, leve uma exigência ao extremo, e ela se torna uma injustiça. Exigir satisfação por dívidas de injúria, que não tende nem à reparação nem ao bem público, mas puramente à vingança, embora a lei possa consentir nisso, in terrorem, para causar terror, e pela dureza dos corações dos homens, ainda assim não tem o sabor de um espírito cristão.

Processar por dívidas de dinheiro, quando o devedor não pode de maneira alguma pagá-las, e assim deixá-lo perecer na prisão, revela maior amor ao dinheiro e menor amor ao nosso próximo do que deveríamos ter (Neemias 5:7). Veja aqui:

(1.) Como a dívida era pequena, tão pequena comparada aos dez mil talentos que seu senhor lhe perdoou; ele lhe devia cem pence, cerca de três libras e meia coroa de nosso dinheiro. Repare: as ofensas feitas aos homens nada são comparadas às que são cometidas contra Deus.

As desonras feitas a um homem como nós são apenas como pence, ciscos, mosquitos; mas as desonras feitas a Deus são como talentos, vigas, camelos. Não que por isso possamos fazer pouco caso de injustiçar nosso próximo, pois isso também é pecado contra Deus.

Mas, por isso, devemos fazer pouco caso das injustiças que nosso próximo comete contra nós, e não agravá-las nem planejar vingança. Davi não se preocupava com as indignidades feitas a ele: “Eu, como um surdo, não ouvia”; mas levava muito a sério os pecados cometidos contra Deus; por eles, rios de lágrimas corriam de seus olhos.

(2.) Como a cobrança foi severa; ele pôs as mãos nele e o agarrou pela garganta. Homens orgulhosos e irados pensam que, se o assunto de sua cobrança for justo, isso os justificará, por mais cruel e sem misericórdia que seja sua maneira; mas isso não se sustentará.

Para que toda essa violência? A dívida poderia ter sido cobrada sem agarrar o devedor pela garganta; sem mandar buscar um mandado ou lançar o oficial de justiça contra ele. Como é dominadora a conduta desse homem, e, contudo, como é vil e servil seu espírito!

Se ele próprio estivesse indo à prisão por sua dívida com seu senhor, suas necessidades seriam tão urgentes que poderia ter alguma alegação para chegar a esse extremo ao exigir o que era seu. Mas frequentemente o orgulho e a malícia têm mais força para tornar os homens severos do que teria a necessidade mais urgente.

(3.) Como o devedor foi submisso; seu conservo, embora fosse seu igual, ainda assim, sabendo quanto estava à mercê dele, prostrou-se a seus pés e se humilhou diante dele por essa dívida insignificante, tanto quanto ele o fizera diante de seu senhor por aquela grande dívida; pois “quem toma emprestado é servo de quem empresta” (Provérbios 22:7).

Repare: os que não podem pagar suas dívidas devem ser muito respeitosos com seus credores e não apenas lhes dar boas palavras, mas prestar-lhes todos os bons serviços que puderem. Não devem ficar irados com os que exigem o que é seu, nem falar mal deles por isso, não, nem mesmo que o façam de maneira rigorosa; mas, nesse caso, deixar a Deus a defesa de sua causa.

O pedido do pobre é: “Tem paciência comigo”; ele confessa honestamente a dívida e não impõe a seu credor o custo de prová-la, apenas pede tempo. Repare: a tolerância, embora não seja quitação, às vezes é uma caridade necessária e louvável. Assim como não devemos ser duros, também não devemos ser precipitados em nossas cobranças, mas pensar em quanto tempo Deus nos tolera.

(4.) Como o credor foi implacável e furioso (v. 30); não quis ter paciência com ele, não quis ouvir sua honesta promessa, mas, sem misericórdia, lançou-o na prisão. Com que insolência pisou alguém tão bom quanto ele próprio, que se submeteu a ele! Com que crueldade tratou alguém que não lhe havia causado prejuízo algum, embora isso não lhe trouxesse vantagem alguma!

Nisto, como num espelho, os credores sem misericórdia podem ver seus próprios rostos, os que em nada têm mais prazer do que em devorar e destruir (2 Samuel 20:19), e se gloriam em ter os ossos de seus pobres devedores.

(5.) Como os demais servos ficaram preocupados; ficaram muito tristes (v. 31), tristes pela crueldade do credor e pela calamidade do devedor. Repare: os pecados e sofrimentos de nossos conservos devem ser para nós motivo de dor e aflição.

É triste que algum de nossos irmãos ou se faça animal de rapina, pela crueldade e barbaridade, ou seja feito animal de escravidão pelo tratamento desumano dos que têm poder sobre ele.

Ver um conservo ou enfurecido como um urso ou pisoteado como um verme não pode deixar de causar grande pesar a todos os que têm algum zelo pela honra de sua natureza ou de sua religião. Veja com que olhar Salomão contemplou tanto as lágrimas dos oprimidos quanto o poder dos opressores (Eclesiastes 4:1).

(6.) Como a notícia disso foi levada ao senhor; eles vieram e contaram a seu senhor. Não ousavam censurar seu conservo por isso, tão injustificável e furioso ele era; antes um homem encontrar uma ursa privada de seus filhotes do que tal insensato em sua insensatez.

Mas foram a seu senhor e suplicaram-lhe que se manifestasse em favor do oprimido contra o opressor. Repare: aquilo que nos dá ocasião de tristeza deve nos dar ocasião de oração. Que nossas queixas, tanto da maldade dos maus quanto das aflições dos aflitos, sejam levadas a Deus e deixadas com ele.

  1. O justo ressentimento do senhor diante da crueldade de que seu servo era culpado. Se os servos a receberam tão mal, muito mais a receberia o senhor, cujas compaixões estão infinitamente acima das nossas. Agora observe aqui:

(1.) Como censurou a crueldade de seu servo (v. 32, 33): “Ó servo mau”. Repare: a falta de misericórdia é maldade, é grande maldade:

[1.] Repreende-o pela misericórdia que encontrara com seu senhor: eu lhe perdoo toda aquela dívida. Os que usarem os favores de Deus nunca serão repreendidos por eles; mas os que abusarem deles podem esperar isso (Mateus 11:20).

Considere: foi toda aquela dívida, aquela grande dívida. Repare: a grandeza do pecado engrandece as riquezas da misericórdia perdoadora; devemos pensar em quanto nos foi perdoado (Lucas 7:47).

[2.] Daí lhe mostra a obrigação que tinha de ser misericordioso para com seu conservo: “Não deverias também ter tido compaixão de teu conservo, assim como eu tive piedade de ti?” Repare: espera-se justamente que os que receberam misericórdia mostrem misericórdia.

Dat ille veniam facile, cui venia est opus, quem precisa de perdão facilmente o concede. Sêneca, Agamêmnon. Ele lhe mostra:

Primeiro, que deveria ter tido mais compaixão pela angústia de seu conservo, porque ele próprio havia experimentado a mesma angústia. Podemos sentir melhor com nossos irmãos aquilo que nós mesmos já sentimos.

Os israelitas conheciam o coração de um estrangeiro, pois eram estrangeiros; e esse servo deveria ter conhecido melhor o coração de um devedor detido, em vez de ter sido tão duro com alguém assim.

Segundo, que deveria ter sido mais conforme ao exemplo da ternura de seu senhor, tendo ele próprio experimentado essa ternura com tanta vantagem para si. Repare: a percepção consoladora da misericórdia perdoadora contribui muito para dispor nossos corações a perdoar nossos irmãos.

Foi ao fim do dia da expiação que a trombeta do jubileu soou para anunciar a liberação de dívidas (Levítico 25:9); pois devemos ter compaixão de nossos irmãos, como Deus tem de nós.

(2.) Como revogou seu perdão e cancelou a quitação, de modo que a sentença contra ele reviveu (v. 34): “Entregou-o aos atormentadores, até que pagasse tudo o que lhe devia”. Embora a maldade fosse muito grande, seu senhor não lhe impôs outra punição além do pagamento de sua própria dívida.

Repare: os que se recusam a cumprir os termos do evangelho já serão suficientemente miseráveis se forem deixados expostos à lei e ela seguir seu curso contra eles. Veja como a punição corresponde ao pecado; quem não quis perdoar não será perdoado.

“Entregou-o aos atormentadores”; o máximo que podia fazer a seu conservo era apenas lançá-lo na prisão, mas ele próprio foi entregue aos atormentadores. Repare: o poder da cólera de Deus para nos arruinar vai muito além da extensão máxima da força e da cólera de qualquer criatura.

As censuras e os terrores de sua própria consciência seriam seus atormentadores, pois ela é um verme que não morre; os demônios, executores da cólera de Deus, que agora são os tentadores dos pecadores, serão seus atormentadores para sempre. Foi enviado a Bridewell até que pagasse tudo.

Repare: nossas dívidas com Deus nunca são objeto de acordo; ou tudo é perdoado ou tudo é exigido. Os santos glorificados no céu têm tudo perdoado mediante a satisfação completa de Cristo; os pecadores condenados no inferno estão pagando tudo, isto é, são punidos por tudo.

A ofensa feita a Deus pelo pecado é uma questão de honra, que não pode ser objeto de acordo sem uma diminuição que o caso de modo algum admite. E, por isso, de uma maneira ou outra, pelo pecador ou por seu fiador, deve ser satisfeita.

Por último, aqui está a aplicação de toda a parábola (v. 35): “Assim também meu Pai celestial vos fará”. O título que Cristo dá aqui a Deus foi usado no v. 19 numa promessa consoladora: “Ser-lhes-á feito por meu Pai que está no céu”; aqui é usado numa ameaça terrível.

Se o governo de Deus é paternal, segue-se daí que é justo; mas não se segue por isso que não é rigoroso, ou que sob seu governo não devamos ser mantidos em reverência pelo medo da cólera divina.

Quando oramos a Deus como nosso Pai no céu, nos é ensinado pedir o perdão dos pecados assim como perdoamos nossos devedores. Observe aqui:

  1. O dever de perdoar: devemos perdoar de nossos corações. Repare: não perdoamos nosso irmão ofensor corretamente, nem de modo aceitável, se não perdoamos de coração; pois é para isso que Deus olha.

Nenhuma malícia deve ser abrigada ali, nem má vontade para com qualquer pessoa, uma ou outra; nenhum projeto de vingança deve ser concebido ali, nem desejos dela, como há em muitos que exteriormente parecem pacíficos e reconciliados.

Contudo, isso não basta; devemos desejar e buscar de coração o bem-estar até dos que nos ofenderam.

  1. O perigo de não perdoar: assim seu Pai celestial fará:

(1.) Isso não pretende nos ensinar que Deus revoga seus perdões a alguém, mas que os nega aos que não estão qualificados para eles, segundo o teor do evangelho. Embora parecessem ter sido humilhados, como Acabe, pensavam, e outros pensavam deles, que estavam num estado de perdão, e tomavam liberdades com o consolo dele.

Temos na Escritura indicações suficientes da perda dos perdões, para cautela dos presunçosos; e, contudo, temos segurança suficiente de sua continuidade, para consolo dos sinceros, mas temerosos; para que uns temam e outros esperem.

Os que não perdoam as transgressões de seu irmão nunca se arrependeram na verdade das suas próprias, nem jamais creram na verdade no evangelho. E, por isso, aquilo que lhes é tirado é apenas o que pareciam ter (Lucas 8:18).

(2.) Isso pretende nos ensinar que os que não mostraram misericórdia terão juízo sem misericórdia (Tiago 2:13). É indispensavelmente necessário ao perdão e à paz que não apenas ajamos com justiça, mas amemos a misericórdia.

É parte essencial daquela religião que é pura e imaculada diante de Deus e do Pai, daquela sabedoria do alto que é branda e pronta a atender a súplicas.

Vejam como responderão por isso em outro dia os que, embora levem o nome cristão, persistem no tratamento mais rigoroso e sem misericórdia de seus irmãos, como se as leis mais estritas de Cristo pudessem ser dispensadas para satisfazer suas paixões desenfreadas; e assim amaldiçoam a si mesmos toda vez que dizem a oração do Senhor.


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