Mateus 15
Argumento
Neste capítulo, vemos nosso Senhor Jesus como o grande Profeta que ensina, o grande Médico que cura e o grande Pastor das ovelhas que alimenta; como o Pai dos espíritos que os instrui; como o Vencedor de Satanás, que o expulsa; e como aquele que se preocupa com o corpo do seu povo e lhe provê o necessário.
Aqui está: I. O discurso de Cristo com os escribas e fariseus sobre tradições e imposições humanas (vv. 1-9). II. Seu discurso à multidão e aos discípulos sobre o que macula o homem (vv. 10-20). III. A expulsão do demônio da filha da cananeia (vv. 21-28).
IV. A cura de todos os que foram levados a ele (vv. 29-31). V. A alimentação de quatro mil homens com sete pães e alguns peixinhos (vv. 32-39).
Versículos 1 a 9
Jesus Censura os Escribas e Fariseus.
Costumamos dizer que os maus costumes geram boas leis. O zelo desmedido dos mestres judeus pela manutenção de sua hierarquia deu ocasião a muitos discursos excelentes de nosso Salvador para estabelecer a verdade, como este.
I. A crítica dos escribas e fariseus aos discípulos de Cristo por comerem sem lavar as mãos. Os escribas e fariseus eram os grandes homens da igreja judaica: homens que faziam da piedade uma fonte de lucro, grandes inimigos do evangelho de Cristo.
Encobriam, porém, sua oposição com a alegação de zelo pela lei de Moisés, quando na verdade só pretendiam sustentar sua tirania sobre a consciência das pessoas. Eram homens instruídos e homens de ação.
Os escribas e fariseus aqui apresentados vinham de Jerusalém, a cidade santa e principal, para onde as tribos subiam e onde estavam os tronos de julgamento. Portanto, deveriam ter sido melhores do que os demais, mas eram piores.
Repare: os privilégios externos, quando não são bem aproveitados, costumam inflar ainda mais as pessoas de orgulho e maldade. Jerusalém, que deveria ter sido uma fonte pura, tornara-se um esgoto envenenado. Como a cidade fiel se tornou prostituta!
Ora, se esses grandes homens acusavam, qual era, afinal, a acusação? Que artigos apresentavam contra os discípulos de Cristo? Na verdade, imputavam-lhes a falta de conformidade com as regras de sua igreja (v. 2): “Por que os teus discípulos transgridem a tradição dos anciãos?”
Apontavam um caso específico para sustentar a acusação: “Não lavam as mãos quando comem pão”. Que grave delito! O fato de esse ser o pior comportamento que podiam atribuir aos discípulos mostra como eles se conduziam sem dar motivo de queixa.
Observe: 1. Em que consistia a tradição dos anciãos: as pessoas deveriam lavar as mãos com frequência e sempre antes das refeições. Atribuíam grande importância religiosa a isso, supondo que o alimento tocado com mãos não lavadas os macularia.
Os fariseus praticavam essa tradição e a impunham aos outros com muito rigor. Não aplicavam penas civis, mas a tratavam como questão de consciência e consideravam pecado contra Deus deixar de cumpri-la.
O rabino José decidiu que “comer sem lavar as mãos é pecado tão grave quanto o adultério”. O rabino Akiba, mantido em prisão rigorosa, recebia água tanto para lavar as mãos quanto para beber durante a refeição. A maior parte da água se derramou por acidente.
Com o restante, lavou as mãos, embora ficasse sem nada para beber, dizendo que preferia morrer a transgredir a tradição dos anciãos. Mais ainda: recusavam-se a comer com quem não lavasse as mãos antes da refeição.
Tamanho zelo por uma questão tão pequena pareceria muito estranho se não víssemos ainda hoje os opressores da igreja não só apegados à prática das próprias invenções, mas também furiosos ao impor suas próprias exigências.
- Em que os discípulos transgrediam essa tradição ou imposição: parece que não lavavam as mãos ao comer pão. Isso ofendia ainda mais os fariseus porque os discípulos eram rigorosos e conscienciosos em outros assuntos.
O costume em si era inofensivo e tinha seu decoro no uso comum. Lemos sobre a água destinada à purificação no casamento a que Cristo compareceu (João 2:6), embora ele a tenha transformado em vinho, pondo assim fim àquele uso dela.
Quando, porém, o costume passou a ser praticado e imposto como rito e cerimônia religiosa, com tanta importância atribuída a ele, os discípulos, embora ainda tivessem pouco conhecimento, ainda assim haviam sido tão bem ensinados que não se conformavam a ele nem o observavam, mesmo sob os olhos dos escribas e fariseus.
Já tinham aprendido a lição de Paulo: “Todas as coisas me são lícitas”. Sem dúvida, é lícito lavar as mãos antes de comer; “mas não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6:12), sobretudo por aqueles que dizem às suas almas: “Abaixai-vos, para que passemos por cima de vós”.
- Qual era a queixa dos escribas e fariseus contra eles. Discutiram o assunto com Cristo, supondo que ele permitia tal conduta, como sem dúvida permitia por seu próprio exemplo: “Por que teus discípulos transgridem as regras da igreja? E por que lhes permites fazer isso?”
Foi bom que dirigissem a queixa a Cristo. Embora os próprios discípulos conhecessem seu dever nessa questão, talvez não fossem tão capazes quanto se desejaria de explicar por que agiam assim.
II. A resposta de Cristo a essa crítica e sua defesa dos discípulos quanto àquilo que lhes era imputado como transgressão. Repare: se permanecermos firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, ele certamente nos defenderá nela.
Cristo lhes responde de duas maneiras:
- Por meio de uma acusação em resposta (vv. 3-6). Enquanto procuravam ciscos nos olhos dos discípulos, Cristo lhes mostrou uma trave nos próprios olhos.
Contudo, a acusação de Cristo não era mera recriminação, pois condenar quem nos censura não nos justificaria. Ele criticou a tradição deles, cuja autoridade era a base da acusação, de tal modo que tornou não apenas lícito deixar de cumpri-la, mas um dever opor-se a ela.
Jamais devemos nos submeter à autoridade humana que se coloca em disputa com a autoridade divina.
(1.) A acusação geral é: “Transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição”. Chamavam-na tradição dos anciãos, ressaltando a antiguidade do costume e a autoridade dos que o impunham, assim como a igreja de Roma faz com os pais e os concílios. Cristo, porém, a chama de tradição deles.
Repare: as imposições ilegítimas serão cobradas de quem as apoia, mantém e perpetua, assim como de quem as inventou e ordenou inicialmente (Miquéias 6:16). “Transgredis o mandamento de Deus”.
Repare: quem mais zela por suas próprias imposições costuma ser quem menos se importa com os mandamentos de Deus. Esse é um bom motivo para os discípulos de Cristo ficarem atentos a tais imposições.
Embora de início pareçam apenas restringir a liberdade dos cristãos, podem acabar se opondo à autoridade de Cristo. Nessa ordem de lavar as mãos antes de comer, os fariseus não violavam nenhum mandamento de Deus; como o faziam em outros casos, porém, Cristo justificou a desobediência dos discípulos nesse caso.
(2.) A prova dessa acusação está num caso particular: a transgressão do quinto mandamento.
[1.] Vejamos o que diz o mandamento de Deus (v. 4), tanto seu preceito quanto sua sanção.
O preceito é: “Honra teu pai e tua mãe”. Essa ordem vem do Pai comum da humanidade. Ao respeitar aqueles a quem a Providência tornou instrumentos de nossa existência, honramos seu Autor, que, nesse sentido, imprimiu neles algo de sua imagem para nós.
Todo o dever dos filhos para com os pais está incluído em honrá-los: é a fonte e o fundamento dos demais deveres. “Se eu sou pai, onde está a minha honra?” Nosso Salvador entende aqui que isso inclui sustentar os pais, suprir suas necessidades quando houver ocasião e contribuir de todas as maneiras para seu conforto. “Honra as viúvas”, isto é, sustenta-as (1 Timóteo 5:3).
A sanção dessa lei no quinto mandamento é uma promessa: “Para que teus dias sejam longos”. Nosso Salvador, porém, deixa-a de lado, para que ninguém conclua daí que o dever é apenas recomendável e vantajoso.
Ele destaca a pena associada à violação desse mandamento em outra passagem, que mostra ser esse dever extremamente necessário e indispensável: “Quem amaldiçoar pai ou mãe seja condenado à morte” (Êxodo 21:17).
O pecado de amaldiçoar os pais contrapõe-se aqui ao dever de honrá-los. Quebra essa lei quem fala mal deles, deseja-lhes o mal, zomba deles ou lhes dirige palavras de escárnio e insulto. Se chamar um irmão de “Raca” é tão punível, que será chamar assim o pai?
Pela aplicação que nosso Salvador faz dessa lei, vê-se que recusar ajuda ou amparo aos pais está incluído no ato de amaldiçoá-los. Ainda que as palavras sejam respeitosas e não contenham ofensa, de que servem se as ações não corresponderem? É como quem disse: “Eu vou, senhor”, e não foi (Mateus 21:30).
[2.] Vejamos como a tradição dos anciãos contrariava esse mandamento. Não o fazia de modo direto e declarado, mas implícito: seus intérpretes da lei lhes davam regras que permitiam escapar facilmente à obrigação imposta pelo mandamento (v. 5, 6).
Vocês ouvem o que Deus diz, mas dizem isto e aquilo. Repare: o que dizem os homens, mesmo os grandes, instruídos e revestidos de autoridade, deve ser examinado pelo que Deus diz. Se for contrário ou incompatível com isso, pode e deve ser rejeitado (Atos 4:19). Observe:
Primeiro, qual era a tradição deles: um homem não poderia empregar melhor seus bens do que dando-os aos sacerdotes e consagrando-os ao serviço do templo. Uma vez consagrados, seria não apenas ilícito destiná-los a outro fim, mas todas as demais obrigações, por mais justas e sagradas, perderiam a precedência, ficando o homem livre delas.
Isso vinha em parte de seu apego às cerimônias e de sua reverência supersticiosa pelo templo, e em parte de sua avareza e amor ao dinheiro, pois lucravam com as doações ao templo. A primeira razão era a alegação; a segunda era, na verdade, a raiz da tradição.
Segundo, como permitiam aplicar a tradição ao dever dos filhos. Quando as necessidades dos pais exigiam ajuda, os filhos alegavam ter consagrado ao tesouro do templo tudo o que podiam poupar depois de prover para si e para seus próprios filhos.
“É oferta tudo aquilo com que poderias ser beneficiado por mim”; portanto, os pais não deveriam esperar nada deles. Insinuavam também que o benefício espiritual da doação chegaria aos pais, que teriam de viver desse ar.
Ensinavam que essa era uma alegação boa e válida. Muitos filhos desobedientes e sem afeto natural a usavam; os mestres os justificavam e diziam: “Ele ficará livre da obrigação”. É assim que completamos o sentido.
Outros vão mais longe e o completam deste modo: “Ele faz bem; seus dias serão longos na terra, e será considerado alguém que observou devidamente o quinto mandamento”. A alegação de religiosidade tornaria sua recusa a sustentar os pais não só aceitável, mas até plausível.
A insensatez e a impiedade dessa tradição, porém, eram evidentes. A religião revelada foi dada para aperfeiçoar, não para destruir, a religião natural. Uma de suas leis fundamentais é honrar os pais.
Se tivessem compreendido estas palavras — quero justiça e misericórdia, e não sacrifício —, não teriam feito dos rituais mais arbitrários instrumentos para destruir os deveres morais mais necessários. Assim anulavam o mandamento de Deus.
Repare: tudo o que leva à desobediência ou a apoia anula, na prática, o mandamento. Quem toma para si a autoridade de dispensar a lei de Deus, aos olhos de Cristo a revoga e cancela.
Violar a lei é ruim, mas ensinar outros a fazer o mesmo, como fizeram os escribas e fariseus, é muito pior (Mateus 5:19). Para que serve um mandamento se não é obedecido? Para nós, a regra não tem efeito se não a seguirmos.
“É tempo de agires, Senhor”: já é mais do que tempo de surgir o grande Reformador, o grande Refinador, pois “eles invalidaram a tua lei” (Salmos 119:126). Não apenas pecaram contra o mandamento: na medida de suas forças, agiram para suprimi-lo.
Mas, graças a Deus, apesar deles e de todas as suas tradições, o mandamento continua em pleno vigor, poder e eficácia.
- A outra parte da resposta de Cristo é uma repreensão: ele os acusa de hipocrisia. “Hipócritas”, diz ele (v. 7). Repare: só aquele que sonda o coração e sabe o que há no ser humano tem a prerrogativa de declarar quem são os hipócritas.
O olhar humano pode perceber a impiedade manifesta, mas só o olhar de Cristo discerne a hipocrisia (Lucas 16:15). Assim como seus olhos descobrem esse pecado, sua alma o odeia mais do que todos os outros.
Cristo tira sua censura de Isaías 29:13: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito”. Isaías falava dos homens da geração a quem profetizava, mas Cristo aplica suas palavras a esses escribas e fariseus.
Repare: as censuras ao pecado e aos pecadores que encontramos nas Escrituras destinam-se a alcançar pessoas e práticas semelhantes até o fim do mundo, pois não são de interpretação particular (2 Pedro 1:20).
Os pecadores dos últimos dias foram anunciados nas profecias (1 Timóteo 4:1; 2 Timóteo 3:1; 2 Pedro 3:3). As ameaças dirigidas a outros também se aplicam a nós, se formos culpados dos mesmos pecados.
Isaías não profetizou apenas a respeito daqueles homens, mas também de todos os demais hipócritas. Sua palavra continua dirigida contra eles e permanece em vigor. As profecias das Escrituras se cumprem a cada dia.
Essa profecia retrata com exatidão uma nação hipócrita (Isaías 9:17; 10:6). Aqui está:
(1.) A descrição dos hipócritas em dois aspectos:
[1.] Em seus próprios atos de culto (v. 8): aproximam-se de Deus com a boca e o honram com os lábios, mas seu coração está longe dele. Observe:
Primeiro, até onde vai o hipócrita: aproxima-se de Deus e o honra; professa ser um adorador de Deus. O fariseu subiu ao templo para orar. Não está tão distante quanto aqueles que vivem sem Deus no mundo, mas tem lugar entre o povo que está perto dele.
Eles o honram, isto é, assumem o papel de honrar a Deus e se juntam aos que o fazem. Até os atos de culto dos hipócritas prestam alguma honra a Deus, pois ajudam a conservar no mundo a aparência e a forma da piedade.
Disso Deus tira honra para si, embora não seja a ele que pretendam honrar. Quando seus inimigos se submetem apenas de fingimento, quando “mentem a ele”, conforme diz o texto (Salmos 66:3), isso reverte em sua honra, e ele faz seu nome conhecido.
Segundo, onde ele para e se satisfaz: faz tudo apenas com a boca e os lábios. Sua piedade não vai além dos dentes. Demonstra muito amor, mas é só aparência: não há amor verdadeiro em seu coração.
Eles fazem ouvir sua voz (Isaías 58:4) e mencionam o nome do Senhor (Isaías 48:1). Os hipócritas fazem da religião e do culto apenas um trabalho de lábios. Em palavras, os piores hipócritas podem igualar os melhores santos e falar com igual brandura, com a voz de Jacó.
Terceiro, em que ele fica aquém: no essencial. “Seu coração está longe de mim”, habitualmente afastado e alheio (Efésios 4:18), na prática vagueando e ocupado com outras coisas.
Não há pensamentos sérios sobre Deus, afetos piedosos por ele, preocupação com a alma e a eternidade nem pensamentos condizentes com o culto. Deus está perto de sua boca, mas longe de seu íntimo (Jeremias 12:2; Ezequiel 33:31).
O coração, juntamente com os olhos do tolo, está nos confins da terra. A pomba sem coração é insensata, e assim também o é o culto sem coração (Oseias 7:11). O hipócrita diz uma coisa e pensa outra.
O principal que Deus observa e exige é o coração (Provérbios 23:26). Se ele estiver longe de Deus, o culto não será racional nem aceitável: será o sacrifício dos tolos (Eclesiastes 5:1).
[2.] Nas regras que prescrevem aos outros. Uma demonstração de sua hipocrisia é ensinarem como doutrinas os mandamentos dos homens. Os judeus daquele tempo, assim como os papistas depois, atribuíam à tradição oral o mesmo respeito que à palavra de Deus.
Recebiam-na pari pietatis affectu ac reverentiâ — com a mesma afeição piedosa e reverência (Concílio de Trento, sessão 4, decreto 1). Quando as invenções humanas são acrescentadas às instituições de Deus e impostas como elas, isso é hipocrisia, uma religião meramente humana.
Os mandamentos dos homens dizem respeito propriamente às coisas humanas. Deus, porém, quer que sua própria obra seja feita segundo suas próprias regras e não aceita o que ele mesmo não ordenou. Só chega a ele o que vem dele.
(2.) A condenação dos hipócritas, expressa em poucas palavras: “Em vão me adoram”. Seu culto não alcança o fim para o qual foi instituído: nem agrada a Deus nem lhes traz benefício. Se não é em espírito, não é em verdade; portanto, não vale nada.
A religião daquele que apenas parece religioso, sem o ser, é vã (Tiago 1:26). Se nossa religião é uma oferta vã, uma religião vã, quão grande é essa vaidade!
Como é triste viver numa época de orações, sermões, sábados e sacramentos e, ainda assim, fazê-lo tudo em vão, como quem golpeia o ar! É o que acontece quando o coração não está com Deus em tudo isso. O trabalho dos lábios é trabalho perdido (Isaías 1:11).
Os hipócritas semeiam vento e colhem um vendaval. Confiam na vaidade, e a vaidade será sua recompensa.
Assim Cristo justificou seus discípulos por desobedecerem às tradições dos anciãos; foi isso que os escribas e fariseus conseguiram com suas críticas. Não lemos que tenham dado alguma resposta. Se não ficaram convencidos, ao menos foram calados e não puderam resistir ao poder com que Cristo falava.
Versículos 10 a 20
O Que Macula o Homem.
Depois de demonstrar que os discípulos não deviam ser censurados por transgredir as tradições e prescrições dos anciãos ao comer com as mãos sem lavar, Cristo passa a mostrar que eles também não deviam ser censurados como se tivessem feito algo mau em si mesmo. Na primeira parte de seu discurso, ele derrubou a autoridade daquela regra; nesta, derruba sua razão de ser. Observe:
I. A introdução solene desse discurso (v. 10): “Chamou a multidão”. O povo havia se afastado enquanto Cristo conversava com os escribas e fariseus; provavelmente aqueles homens orgulhosos haviam mandado que se retirassem, pois não queriam falar com Cristo na presença deles. Cristo teria de lhes conceder, ao gosto deles, uma conversa particular.
Mas Cristo se importava com a multidão. Logo despachou os escribas e fariseus, dispensou-os e convidou o populacho, a multidão, a ouvi-lo: assim os pobres recebem o evangelho, e Cristo escolheu as coisas loucas do mundo e as desprezadas. O humilde Jesus acolheu aqueles que os fariseus orgulhosos desprezavam, para humilhá-los.
Ele se afastou deles, que eram obstinados e não aceitavam ensino, e se voltou para a multidão, que, embora fraca, era humilde e desejava aprender. A ela disse: “Ouvi e entendei”. Repare: devemos nos empenhar em compreender tudo o que ouvimos da boca de Cristo.
Não só os estudiosos, mas até mesmo a multidão, as pessoas comuns, precisam aplicar a mente para compreender as palavras de Cristo.
Por isso ele lhes pediu que entendessem: a lição que estava prestes a ensinar contrariava as ideias recebidas dos mestres e absorvidas desde o leite materno; derrubava também muitos costumes e práticas aos quais estavam apegados e aos quais davam importância.
Repare: é preciso muita atenção e clareza de entendimento para libertar as pessoas dos princípios e práticas corruptos em que foram criadas e aos quais se acostumaram por muito tempo; nessas condições, o entendimento costuma ser subornado e enviesado pelo preconceito.
II. A própria verdade, exposta (v. 11) em duas afirmações contrárias aos erros comuns daquele tempo e, portanto, surpreendentes:
- Não é o que entra pela boca que macula o homem. Nem o tipo ou a qualidade do alimento, nem a condição das mãos, trazem à alma qualquer contaminação ou mácula moral. “O reino de Deus não é comida nem bebida” (Romanos 14:17).
Macula o homem aquilo que o torna culpado diante de Deus, desagradável a ele e inapto para a comunhão com ele. Ora, o que comemos, desde que não comamos de maneira insensata e imoderada, não faz isso, pois “todas as coisas são puras para os puros” (Tito 1:15).
Os fariseus estendiam a impureza cerimonial ligada ao consumo deste ou daquele alimento muito além do que a lei pretendia, sobrecarregando-a com acréscimos próprios. Nosso Salvador se opõe a eles, preparando assim o caminho para a revogação da lei cerimonial nesse ponto.
Ele começava a ensinar seus seguidores a não considerar coisa alguma comum ou impura. Se Pedro tivesse se lembrado dessas palavras quando lhe mandaram matar e comer, não teria dito: “De modo nenhum, Senhor” (Atos 10:13-15, 28).
- Mas o que sai da boca, isso macula o homem. Não somos contaminados pelo alimento que comemos com as mãos sem lavar, mas pelas palavras que dizemos com um coração não santificado. É assim que a boca faz a carne pecar (Eclesiastes 5:6).
Num discurso anterior, Cristo havia dado grande importância às nossas palavras (Mateus 12:36, 37), para censurar e advertir os que o criticavam. Aqui, a censura e a advertência se dirigem aos que criticavam e censuravam os discípulos.
Não são os discípulos que se maculam com o que comem, mas os fariseus que se maculam ao falar deles com maldade e espírito de censura. Repare: aqueles que culpam os outros por transgredirem mandamentos humanos muitas vezes trazem sobre si culpa maior, pois transgridem a lei de Deus ao julgar precipitadamente.
Os que mais se apressam em censurar as máculas alheias são os que mais maculam a si mesmos.
III. A reação de escândalo diante dessa verdade e o relato que dela levaram a Cristo (v. 12). Os discípulos lhe disseram: “Sabes que os fariseus se escandalizaram?” “Não previas que se escandalizariam com essas palavras, que por isso pensariam pior de ti e de tua doutrina e ficariam ainda mais enfurecidos contigo?”
- Não era de admirar que os fariseus se escandalizassem com essa verdade tão clara, pois eram homens dominados pelo erro e pela inimizade, pelo engano e pela malícia.
Olhos inflamados não suportam luz intensa. Nada irrita mais os orgulhosos que impõem suas regras do que ver libertadas do engano as pessoas a quem primeiro vendaram os olhos e depois escravizaram.
Ao que parece, os fariseus, que observavam rigorosamente as tradições, se ofenderam mais do que os escribas, que as ensinavam. Talvez a segunda parte da doutrina de Cristo, que exigia rigor no controle da língua, os tenha incomodado tanto quanto a primeira, que relativizava a lavagem das mãos.
Os maiores defensores das formalidades religiosas costumam ser também os maiores desprezadores do que nela é essencial.
- Os discípulos acharam estranho que seu Mestre dissesse algo que sabia causar tamanha ofensa; ele não costumava fazer isso. Certamente, pensavam, se ele tivesse considerado o quanto suas palavras os provocariam, não as teria dito.
Mas ele sabia o que dizia, a quem dizia e qual seria o efeito. Queria nos ensinar que, embora devamos ter cuidado para não ofender em questões indiferentes, o medo de ofender não deve nos levar a fugir de nenhuma verdade ou dever.
É preciso reconhecer a verdade e cumprir o dever; se alguém se ofender, a culpa é sua: o escândalo não foi dado, mas tomado por quem se ofendeu.
Talvez os próprios discípulos tenham tropeçado nas palavras de Cristo, que lhes pareceram ousadas e difíceis de conciliar com a distinção estabelecida pela lei de Deus entre alimentos puros e impuros. Por isso apresentaram a objeção a Cristo, para serem mais bem esclarecidos.
Parecem também ter se preocupado com os fariseus, embora estes tivessem brigado com eles. Isso nos ensina a perdoar e buscar o bem de nossos inimigos, perseguidores e caluniadores, especialmente seu bem espiritual.
Não queriam que os fariseus saíssem descontentes com alguma palavra de Cristo; assim, embora não lhe pedissem que a retirasse, esperavam que a explicasse, corrigisse e moderasse.
Ouvintes pouco instruídos às vezes se preocupam mais do que deveriam em não ofender ouvintes perversos. Mas, se agradamos às pessoas ocultando a verdade e tolerando seus erros e corrupções, não somos servos de Cristo.
IV. A sentença proferida contra os fariseus e suas tradições corruptas, razão pela qual Cristo não se importava em ofendê-los, nem os discípulos deveriam se importar: eram uma geração que detestava ser corrigida e estava destinada à destruição. Cristo predisse aqui duas coisas a respeito deles:
- Eles e suas tradições seriam arrancados pela raiz (v. 13): “Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada”. Não só as opiniões corruptas e práticas supersticiosas dos fariseus, mas também sua seita, sua conduta e sua organização eram plantas que Deus não havia plantado.
As regras que observavam não tinham sido instituídas por Deus; originavam-se do orgulho e do formalismo. O povo judeu havia sido plantado como videira nobre, mas agora, degenerado em rebento de videira estranha, foi rejeitado por Deus, que não o reconhecia como plantação sua.
Repare: (1.) Não é estranho encontrar na igreja visível plantas que nosso Pai celestial não plantou. Isso implica que tudo o que há de bom na igreja é plantação de Deus (Isaías 41:19). Mas, por mais cuidadoso que seja o lavrador, sua terra produzirá ervas daninhas por si só, em maior ou menor quantidade, e há um inimigo ocupado em semear joio.
O que é corrupto, embora permitido por Deus, não foi plantado por ele; em seu campo, ele semeia apenas boa semente. Portanto, não nos enganemos supondo que tudo o que encontramos na igreja deve estar certo e que toda pessoa ou coisa no jardim de nosso Pai é planta dele. “Não creiais em todo espírito, mas provai os espíritos”; veja Jeremias 19:5; 23:31, 32.
(2.) Deus não reconhecerá como plantados por ele aqueles que têm o espírito dos fariseus, orgulhosos, formalistas e dados a impor regras, por mais importantes que pareçam ou a que denominação pertençam. Pelo fruto deles, vocês os conhecerão.
(3.) As plantas que Deus não plantou tampouco serão protegidas por ele: sem dúvida serão arrancadas. O que não vem de Deus não subsistirá (Atos 5:38). O que contraria as Escrituras murchará e morrerá por si mesmo, ou será justamente rejeitado pelas igrejas. De todo modo, no grande dia, esse joio que causa escândalo será reunido em feixes para o fogo.
Que aconteceu com os fariseus e suas tradições? Há muito foram abandonados; mas o evangelho da verdade é grande e permanecerá. Não pode ser arrancado pela raiz.
- A ruína deles e de seus seguidores, que admiravam suas pessoas e seus princípios (v. 14). Aqui vemos:
(1.) Cristo ordena aos discípulos que os deixem em paz. “Não tenham comunhão com eles nem se ocupem deles; não procurem seu favor nem temam seu desagrado. Não se importem se eles se ofenderem: seguirão seu caminho e arcarão com as consequências. Estão apegados às próprias fantasias e querem que tudo seja feito à sua maneira; deixem-nos em paz.
Não procurem agradar a uma geração de pessoas que não agradam a Deus (1 Tessalonicenses 2:15) e que só se contentarão com o domínio absoluto sobre a consciência de vocês. Estão unidos aos ídolos, como Efraim (Oseias 4:17), os ídolos da própria imaginação; deixem-nos em paz, que continuem imundos” (Apocalipse 22:11).
É realmente triste a situação dos pecadores a quem Cristo manda seus ministros deixar em paz.
(2.) Ele lhes dá duas razões para isso. Deixem-nos em paz, pois:
[1.] São orgulhosos e ignorantes: duas qualidades ruins que muitas vezes se encontram e tornam uma pessoa incurável em sua insensatez (Provérbios 26:12). São guias cegos de cegos. Ignoram profundamente as coisas de Deus e desconhecem a natureza espiritual da lei divina. Contudo, são tão orgulhosos que pensam enxergar melhor e mais longe que todos os outros.
Por isso assumem o papel de guias, pretendendo mostrar aos outros o caminho do céu quando eles próprios não conhecem sequer um passo dele. Assim, prescrevem regras para todos e condenam quem se recusa a segui-los.
Embora cegos, se tivessem reconhecido sua condição e buscado em Cristo o colírio para os olhos, poderiam ter enxergado. Mas rejeitavam com desdém até a sugestão disso (João 9:40): “Também nós somos cegos?”
Estavam convencidos de que eram guias dos cegos (Romanos 2:19, 20), designados e aptos para essa função, e de que cada palavra sua era um oráculo e uma lei.
“Portanto, deixem-nos em paz: seu caso é desesperador. Não se envolvam com eles; vocês podem provocá-los facilmente, mas nunca convencê-los.” Como era lamentável a situação da igreja judaica naquele tempo!
Seus líderes eram cegos e tão presunçosamente insensatos que dirigiam os outros com arrogância, enquanto o povo era estupidamente tolo a ponto de segui-los com fé e obediência cegas e andar voluntariamente segundo o mandamento (Oseias 5:11).
Cumpria-se então a profecia de Isaías 29:10, 14. É fácil imaginar qual seria o fim disso, quando os profetas profetizavam falsamente, os sacerdotes dominavam por meio deles e o povo gostava que fosse assim (Jeremias 5:31).
[2.] Correm para a destruição e logo serão lançados nela: ambos cairão na cova. Esse será inevitavelmente o fim se ambos são tão cegos e, ainda assim, tão ousados que avançam sem perceber o perigo.
Ambos serão atingidos pela desolação geral que viria sobre os judeus e afogados na destruição e perdição eternas. Os guias cegos e os seguidores cegos perecerão juntos.
Apocalipse 22:15 nos mostra que o inferno é a porção dos que inventam uma mentira e dos que a amam depois de inventada. O enganado e o enganador estão sujeitos ao juízo de Deus (Jó 12:16).
Repare: primeiro, os que, com artimanhas astutas, levam outros ao pecado e ao erro não escaparão da ruína, apesar de toda a sua astúcia e esperteza. Se ambos caírem juntos na cova, os guias cegos ficarão por baixo e sofrerão mais; veja Jeremias 14:15, 16. Os profetas serão consumidos primeiro, e depois o povo ao qual profetizam (Jeremias 20:6; 27:15, 16).
Segundo, o pecado e a ruína dos enganadores não protegerão aqueles que foram enganados por eles. Embora os líderes desse povo o façam errar, os que são guiados por eles também são destruídos (Isaías 9:16), porque fecham os olhos para a luz que poderia corrigir seu erro.
Sêneca, ao lamentar que a maioria das pessoas se deixa guiar pela opinião e prática comuns (Unusquisque mavult credere quam judicare — As coisas são aceitas por confiança e nunca examinadas), conclui: Inde ista tanta coacervatio aliorum super alios ruentium — Daí vêm as multidões que caem umas sobre as outras, em vasta confusão. De Vitâ Beatâ.
A queda simultânea de ambos agravará a queda de cada um, pois, assim como aumentaram mutuamente seus pecados, também agravarão mutuamente sua ruína.
V. A instrução dada aos discípulos sobre a verdade que Cristo havia exposto (v. 10). Embora rejeite os que escolhem permanecer ignorantes e não querem aprender, Cristo tem compaixão dos ignorantes dispostos a aprender (Hebreus 5:2).
Se os fariseus, que anulavam a lei, se escandalizam, que se escandalizem. Mas grande paz têm os que amam a lei: nada os fará tropeçar, pois, de uma forma ou de outra, a causa do tropeço será removida (Salmos 119:165).
Aqui está: 1. O desejo dos discípulos de receber mais esclarecimento sobre o assunto (v. 15). Nesse pedido, como em muitos outros, Pedro foi o porta-voz deles; provavelmente os demais o incentivaram a falar ou deram a entender que concordavam: “Explica-nos esta parábola”.
O que Cristo dissera era claro. Mas, por não concordar com as ideias que haviam assimilado, chamaram suas palavras de parábola e não conseguiam compreendê-las, embora não quisessem contradizê-las.
Repare: (1.) Quem tem entendimento fraco tende a transformar verdades claras em parábolas e a procurar um nó num junco. Os discípulos faziam isso muitas vezes, como em João 16:17. Até um gafanhoto pesa num estômago fraco, e os que são criancinhas no entendimento não conseguem suportar e digerir alimento sólido.
(2.) Quando uma mente fraca duvida de alguma palavra de Cristo, um coração íntegro e uma disposição sincera buscam esclarecimento. Os fariseus se escandalizaram, mas guardaram isso para si: como detestavam ser corrigidos, detestavam também ser instruídos.
Os discípulos, porém, embora escandalizados, buscaram uma explicação. Atribuíram a dificuldade não à doutrina ensinada, mas à limitação de seu próprio entendimento.
- A censura que Cristo lhes fez por sua fraqueza e ignorância (v. 16): “Até vós estais ainda sem entendimento?” Cristo repreende assim aqueles a quem ama e ensina.
Repare: são de fato muito ignorantes os que não entendem que a impureza moral é incomparavelmente pior e mais perigosa do que a cerimonial. Duas coisas agravavam sua lentidão e falta de compreensão:
(1.) Eram discípulos de Cristo. “Até vós estais sem entendimento? Vocês, a quem dei tamanha intimidade comigo, são tão inexperientes na palavra da justiça?” Repare: a ignorância e os enganos dos que professam a religião e desfrutam dos privilégios de pertencer à igreja afligem com razão o Senhor Jesus.
“Não surpreende que os fariseus não entendam essa doutrina, pois nada sabem do reino do Messias. Mas vocês, que ouviram falar dele, o acolheram e o anunciaram a outros, também desconhecem tanto seu espírito e sua natureza?”
(2.) Já eram alunos de Cristo havia muito tempo. “Vocês ainda são assim, depois de tanto tempo sob meu ensino?” Se tivessem chegado ontem à escola de Cristo, seria outra questão. Mas, depois de tantos meses ouvindo-o constantemente, continuar sem entendimento era motivo de grande descrédito para eles.
Repare: Cristo espera de nós conhecimento, graça e sabedoria proporcionais ao tempo e aos meios que tivemos. Veja João 14:9; Hebreus 5:12; 2 Timóteo 3:7, 8.
- A explicação que Cristo lhes deu sobre essa doutrina da contaminação. Embora os repreendesse por sua lentidão, não os rejeitou: teve compaixão deles e os ensinou, como em Lucas 24:25-27. Ele nos mostra aqui:
(1.) O pequeno risco de sermos contaminados pelo que entra pela boca (v. 17). O apetite descontrolado, a falta de moderação e os excessos ao comer procedem do coração e contaminam; o alimento em si, porém, não contamina, ao contrário do que supunham os fariseus.
Quanto aos resíduos e impurezas presentes no alimento, a natureza — ou, antes, o Deus da natureza — proveu um meio de nos livrar deles: o alimento passa pelo ventre e é eliminado na latrina; nada nos resta além do puro nutrimento. De modo tão admirável e assombroso fomos formados e somos preservados, enquanto nossas almas são mantidas em vida.
A capacidade de expulsar resíduos é tão necessária ao corpo quanto qualquer outra, pois elimina o que é supérfluo ou nocivo. Assim, felizmente, a natureza consegue cuidar de si e agir em benefício próprio. Desse modo, nada nos macula: se comermos com as mãos sem lavar e alguma impureza se misturar à comida, a natureza a separará e eliminará, sem nos macular.
Lavar as mãos antes de comer pode ser questão de higiene, mas não de consciência; enganamo-nos profundamente se nisso colocamos a religião. Cristo condena não a prática em si, mas a crença em que ela se baseia, como se o alimento nos tornasse recomendáveis a Deus (1 Coríntios 8:8), quando o cristianismo não consiste nessas observâncias.
(2.) O grande risco de sermos contaminados pelo que sai da boca (v. 18), da abundância do coração; compare Mateus 12:34. Não há mácula no que a generosidade de Deus produz. A mácula nasce do que a nossa corrupção produz. Aqui temos:
[1.] A fonte corrupta do que sai da boca: tudo vem do coração, origem e nascente de todo pecado (Jeremias 8:7). É o coração que é desesperadamente perverso (Jeremias 17:9), pois não há pecado cometido por palavra ou ação que não tenha surgido primeiro nele. Ali está a raiz de amargura que produz fel e absinto.
O íntimo do pecador é a própria maldade (Salmos 5:9). Toda palavra má vem do coração e macula; do coração corrupto procede a fala corrupta.
[2.] Alguns dos riachos corrompidos que fluem dessa fonte, aqui especificados. Embora nem todos saiam da boca, todos saem do homem e são fruto da maldade que existe e opera no coração (Salmos 58:2).
Primeiro, os maus pensamentos, pecados contra todos os mandamentos. Por isso Davi opõe os pensamentos vãos à lei inteira (Salmos 119:113). São os primogênitos da natureza corrupta, o começo de sua força, e os que mais se parecem com ela. Como filho e herdeiro, permanecem na casa e moram dentro de nós.
Há muito pecado que começa e termina no coração, sem ir além dele. Fantasias e imaginações carnais são maus pensamentos, maldade concebida em planos (Dialogismoi poneroi), tramas perversas, propósitos e projetos para causar dano aos outros (Miquéias 2:1).
Segundo, os homicídios, pecados contra o sexto mandamento: nascem da malícia do coração contra a vida do nosso irmão ou do desprezo por ela. Por isso se diz que quem odeia seu irmão é homicida: assim é considerado no tribunal de Deus (1 João 3:15). A guerra está no coração (Salmos 55:21; Tiago 4:1).
Terceiro, os adultérios e as fornicações, pecados contra o sétimo mandamento: vêm do coração sensual, impuro e carnal. O desejo impuro que ali reina é concebido no coração e dá à luz esses pecados (Tiago 1:15). Primeiro há adultério no coração; depois, no ato (Mateus 5:28).
Quarto, os furtos, pecados contra o oitavo mandamento: fraudes, injustiças, roubos e todos os contratos lesivos. A fonte de tudo isso está no coração, que se exercita nessas práticas gananciosas (2 Pedro 2:14) e se apega às riquezas (Salmos 62:10). Acã cobiçou e depois tomou (Josué 7:20, 21).
Quinto, o falso testemunho, contra o nono mandamento: nasce de uma combinação de falsidade e cobiça, ou de falsidade e malícia no coração. Se a verdade, a santidade e o amor, que Deus requer no íntimo, reinassem como deveriam, não haveria falso testemunho (Salmos 64:6; Jeremias 9:8).
Sexto, as blasfêmias: falar mal de Deus, contra o terceiro mandamento, e falar mal do próximo, contra o nono. Elas vêm do desprezo e da falta de consideração por ambos no coração; daí procede a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mateus 12:31, 32). São o transbordamento do fel que está por dentro.
São essas as coisas que maculam o homem (v. 20). Repare: o pecado macula a alma e a torna feia e abominável aos olhos de um Deus puro e santo, inapta para a comunhão com ele e para desfrutá-lo na nova Jerusalém, onde nada que macula ou pratica a iniquidade entrará.
A mente e a consciência são maculadas pelo pecado, e isso macula todo o resto (Tito 1:15). Essa mácula pelo pecado era representada pelas impurezas cerimoniais, às quais os doutores judeus faziam acréscimos, mas cujo sentido não entendiam. Veja Hebreus 9:13, 14; 1 João 1:7.
Portanto, são essas as coisas que devemos evitar com todo o cuidado, assim como qualquer passo em direção a elas, em vez de dar importância à lavagem das mãos. Cristo ainda não revoga a lei que distinguia os alimentos — isso só aconteceria em Atos 10 —, mas a tradição dos anciãos que havia sido anexada àquela lei.
Por isso conclui: “Comer sem lavar as mãos” — a questão então em debate — “não macula o homem”. Se lavar as mãos, não se torna melhor diante de Deus; se não as lavar, não se torna pior.
Versículos 21 a 28
A Filha da Cananeia É Curada.
Temos aqui a célebre história de Cristo expulsando o demônio da filha da mulher cananeia. Há nela algo singular e muito surpreendente, que mostra favor aos pobres gentios e serve de penhor da misericórdia que Cristo lhes reservara.
Aqui está um raio daquela luz que iluminaria os gentios, Lucas 2:32. Cristo veio para os seus, e os seus não o receberam; muitos, porém, discutiram com ele e se escandalizaram dele. Observe o que vem a seguir, v. 21.
I. Jesus retirou-se dali. Repare: com justiça se tira a luz dos que brincam com ela ou se rebelam contra ela. Quando Cristo e os discípulos não puderam ficar em paz entre eles, deixou-os e, assim, deu exemplo de sua própria regra (Mateus 10:14): “Sacudi o pó dos vossos pés”.
Embora Cristo suporte por muito tempo a contradição dos pecadores contra si, não a suportará para sempre. Ele dissera (v. 14): “Deixai-os”, e foi o que fez. Repare: os preconceitos obstinados contra o evangelho e as objeções capciosas a ele muitas vezes levam Cristo a retirar-se e a remover o candeeiro de seu lugar, Atos 13:46, 51.
II. Ao sair dali, dirigiu-se às regiões de Tiro e Sidom, não às próprias cidades, que haviam sido excluídas de participar das obras poderosas de Cristo (Mateus 11:21-22), mas à parte da terra de Israel que ficava naquela direção.
Foi para lá como Elias foi a Sarepta, cidade de Sidom (Lucas 4:26). Foi procurar aquela pobre mulher, para quem reservara misericórdia. Enquanto andava fazendo o bem, nunca estava fora de seu caminho.
Os cantos escuros e mais afastados da região teriam sua parte nas influências benévolas dele. Assim como agora os confins daquela terra, depois os confins da terra veriam sua salvação, Isaías 49:6. Foi ali que esse milagre aconteceu; em seu relato podemos observar:
- O apelo da mulher cananeia a Cristo, v. 22. Ela era gentia, estrangeira à comunidade de Israel; provavelmente descendia daquelas nações amaldiçoadas e condenadas por estas palavras: “Maldito seja Canaã”.
Repare: a condenação de comunidades políticas nem sempre alcança cada um de seus membros. Deus terá seu remanescente dentre todas as nações, vasos escolhidos em todas as regiões, até nas menos prováveis. Ela saiu daquelas mesmas regiões.
Se Cristo não as tivesse visitado naquele momento, provavelmente ela jamais teria ido até ele, embora valesse a pena viajar longe para obter aquela misericórdia. Repare: ter oportunidades de conhecer Cristo trazidas à nossa porta e ter a palavra perto de nós muitas vezes desperta a fé e o zelo adormecidos.
Seu apelo foi muito insistente: clamou a Cristo como alguém profundamente empenhado. Clamou por estar a certa distância dele, sem ousar aproximar-se demais por ser cananeia e temer causar ofensa. Em seu apelo:
(1.) Ela relata sua miséria: “Minha filha está gravemente atormentada por um demônio”. Kakos daimonizetai: “Ela está gravemente enfeitiçada ou possessa”. Havia graus desse sofrimento, e este era o pior tipo. Era um caso comum naquela época e muito calamitoso.
Repare: os sofrimentos dos filhos são a aflição dos pais, e nada deveria afligi-los mais que vê-los sob o poder de Satanás. Pais afetuosos sentem intensamente as misérias daqueles que são parte de si mesmos. “Embora atormentada pelo demônio, ela continua sendo minha filha.”
As maiores aflições de nossos familiares não desfazem nossas obrigações para com eles e, portanto, não devem afastar deles nosso afeto. Foram a angústia e a aflição de sua família que a levaram a Cristo naquele momento; foi até ele não para receber ensino, mas para obter cura. Ainda assim, porque foi com fé, ele não a rejeitou.
Embora seja a necessidade que nos leva a Cristo, não seremos por isso afastados dele. O sofrimento da filha deu à mãe a ocasião de recorrer a Cristo. É bom fazer nossas, em sentimento e compaixão, as aflições dos outros, para que também se tornem nossas no proveito e no benefício que delas tiramos.
(2.) Ela pede misericórdia: “Tem misericórdia de mim, ó Senhor, Filho de Davi”. Ela o reconhece como o Messias; é a grande verdade a que a fé deve apegar-se e da qual deve tirar consolo.
Do Senhor podemos esperar atos de poder: ele pode ordenar livramentos. Do Filho de Davi podemos esperar toda a misericórdia e graça que a seu respeito foram anunciadas. Embora gentia, ela reconhece a promessa feita aos pais dos judeus e a honra da casa de Davi.
Os gentios devem receber o cristianismo não apenas como aperfeiçoamento da religião natural, mas como consumação da religião judaica, tendo em vista o Antigo Testamento.
Seu pedido é: “Tem misericórdia de mim”. Ela não limita Cristo a esta ou àquela forma específica de misericórdia; misericórdia, misericórdia é o que pede. Não alega mérito, mas depende da misericórdia: “Tem misericórdia de mim”.
As misericórdias concedidas aos filhos são misericórdias concedidas aos pais; os favores feitos aos nossos são favores feitos a nós e assim devem ser considerados. Repare: é dever dos pais orar pelos filhos e ser insistentes nessa oração, sobretudo por suas almas.
“Tenho um filho, uma filha, sob o grave tormento de uma vontade orgulhosa, de um demônio impuro, de um demônio malicioso, em cativeiro sob o domínio dele, conforme sua vontade. Senhor, ajuda-os.” Esse caso é mais deplorável que a possessão do corpo.
Levem-nos a Cristo pela fé e pela oração; só ele é capaz de curá-los. Os pais devem considerar grande misericórdia para consigo mesmos ver quebrado o poder de Satanás na alma dos filhos.
- O desânimo que ela enfrentou nesse apelo: em toda a história do ministério de Cristo não encontramos nada semelhante. Ele costumava acolher e encorajar todos os que iam até ele, respondendo antes mesmo que chamassem ou ouvindo enquanto ainda falavam. Aqui, porém, alguém recebeu outro tratamento. Qual poderia ser a razão?
(1.) Alguns pensam que Cristo se mostrou relutante em atender aquela pobre mulher porque não queria ofender os judeus ao mostrar aos gentios favor tão livre e pronto quanto o que lhes demonstrava. Ordenara aos discípulos que não fossem pelo caminho dos gentios (Mateus 10:5); por isso, ele próprio não quis parecer tão inclinado a favorecê-los quanto aos outros, mas se mostrou mais reservado.
Ou melhor, (2.) Cristo a tratou assim para prová-la. Ele sabe o que há no coração; conhecia a força da fé daquela mulher e quão capaz ela era, por sua graça, de vencer esses desânimos. Por isso os colocou diante dela, para que a prova de sua fé resultasse em louvor, honra e glória, 1 Pedro 1:6-7.
Isso se assemelha à prova que Deus impôs a Abraão (Gênesis 22:1) e à luta do anjo com Jacó, apenas para levá-lo a lutar, Gênesis 32:24. Muitos métodos da providência de Cristo e, em especial, de sua graça no trato com seu povo, obscuros e desconcertantes, podem ser explicados com a chave desta história.
Ela foi registrada para esse fim: ensinar-nos que pode haver amor em seu rosto e, por isso, encorajar-nos a confiar nele, ainda que nos mate.
Observe os desânimos específicos que ela enfrentou:
[1.] Quando ela clamou atrás dele, ele não lhe respondeu palavra, v. 23. Seu ouvido costumava estar sempre aberto e atento aos clamores dos pobres suplicantes, e seus lábios, que destilavam como favos de mel, estavam sempre prontos a dar uma resposta de paz.
Mas a essa pobre mulher ele fez ouvidos moucos, e ela não conseguiu nem uma esmola nem uma resposta. É de admirar que não tenha ido embora irritada, dizendo: “É este aquele tão famoso por sua clemência e ternura? Tantos foram ouvidos e atendidos por ele, como dizem, e devo eu ser a primeira suplicante rejeitada?”
“Por que tanta distância de mim, se é verdade que ele se abaixou para ajudar tantos outros?” Mas Cristo sabia o que fazia e, por isso, não respondeu, para que ela fosse ainda mais insistente na oração.
Ele a ouviu, agradou-se dela e a fortaleceu, dando força à sua alma para que prosseguisse em seu pedido (Salmos 138:3; Jó 23:6), embora não lhe desse imediatamente a resposta esperada. Ao parecer afastar dela a misericórdia desejada, levou-a a buscá-la com insistência ainda maior.
Repare: nem toda oração aceita é respondida imediatamente. Às vezes Deus parece não dar atenção às orações de seu povo, como um homem adormecido ou atônito (Salmos 44:23; Jeremias 14:9; Salmos 22:1-2); ou melhor, parece até estar irado com elas (Salmos 80:4; Lamentações 3:8, 44).
Mas isso acontece para provar e, assim, aperfeiçoar a fé deles e tornar suas manifestações posteriores em favor deles mais gloriosas para si e mais bem-vindas para eles. Pois “a visão, no fim, falará e não mentirá”, Habacuque 2:3. Veja Jó 35:14.
[2.] Quando os discípulos disseram uma boa palavra por ela, Cristo explicou por que a recusava, o que foi ainda mais desanimador.
Primeiro, houve algum pequeno alívio no fato de os discípulos intercederem por ela. Disseram: “Despede-a, pois vem clamando atrás de nós”. É desejável ter parte nas orações das pessoas boas, e devemos desejar isso.
Mas os discípulos, embora quisessem que ela recebesse aquilo pelo qual viera, pensavam mais no próprio sossego que na satisfação da pobre mulher: “Despede-a curada, pois ela clama com toda a seriedade. Clama atrás de nós, incomoda-nos e nos envergonha”.
A insistência contínua pode incomodar os homens, até mesmo os homens bons; Cristo, porém, gosta que clamem atrás dele.
Segundo, a resposta de Cristo aos discípulos destruiu inteiramente as expectativas dela: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Vocês sabem que não fui; ela não é uma delas, e vocês querem que eu ultrapasse a missão que recebi?”
A insistência raramente vence a razão firmada de um homem sábio, e as recusas mais capazes de nos calar são as que se apoiam numa razão assim. Ele não apenas deixa de responder-lhe, mas argumenta contra ela e a cala com uma razão.
É verdade que ela é uma ovelha perdida e precisa tanto do cuidado dele quanto qualquer outra pessoa; mas não pertence à casa de Israel, à qual ele foi enviado primeiro (Atos 3:26), e, portanto, não tinha participação direta nem direito imediato a esse cuidado.
Cristo era Ministro da circuncisão (Romanos 15:8). Embora estivesse destinado a ser Luz para os gentios, ainda não chegara a plenitude do tempo para isso; o véu ainda não fora rasgado nem o muro de separação derrubado.
O ministério pessoal de Cristo devia ser a glória de seu povo Israel: “Se fui enviado a eles, que tenho eu a ver com os que não pertencem a esse povo?”. Repare: é uma grande prova quando temos motivo para perguntar se estamos entre aqueles a quem Cristo foi enviado.
Mas, bendito seja Deus, já não resta lugar para essa dúvida. A distinção entre judeu e gentio foi removida; temos certeza de que ele deu sua vida em resgate por muitos e, se a deu por muitos, por que não por mim?
Terceiro, quando ela persistiu em seu pedido, ele insistiu na inconveniência do que pedia e lhe deu não só uma recusa, mas também uma aparente afronta (v. 26): “Não é apropriado tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães”.
Isso parecia cortar-lhe toda a esperança e poderia tê-la levado ao desespero, se ela não tivesse de fato uma fé muito forte. A graça do evangelho e as curas milagrosas, que a acompanhavam, eram o pão dos filhos. Pertenciam àqueles a quem cabia a adoção (Romanos 9:4).
Não estavam no mesmo plano que a “chuva do céu” e as “estações frutíferas” que Deus dava às nações a quem permitia andar em seus próprios caminhos (Atos 14:16-17). Não: eram favores especiais, reservados ao povo especial, o jardim fechado.
Cristo pregou aos samaritanos (João 4:41), mas não lemos sobre curas que tenha realizado entre eles; aquela salvação vinha dos judeus. Portanto, não era apropriado transferir-lhes tais favores.
Os judeus desprezavam profundamente os gentios, chamando-os e considerando-os cães. Em comparação com a casa de Israel, tão honrada e privilegiada, Cristo aqui parece admitir essa designação dos gentios e, portanto, não considera apropriado que os gentios participem dos favores concedidos aos judeus.
Mas veja como a situação se inverte: depois que os gentios foram recebidos na igreja, os judeus zelosos pela lei é que foram chamados cães, Filipenses 3:2.
Agora Cristo usa isso contra a mulher cananeia: “Como pode esperar comer do pão dos filhos quem não pertence à família?”. Repare: 1. Aqueles a quem Cristo pretende honrar de maneira mais notável são primeiro humilhados por ele e levados a reconhecer sua própria condição humilde e indignidade.
Precisamos primeiro reconhecer que somos como cães, menos dignos que a menor das misericórdias de Deus, antes de estar preparados para receber a honra e os privilégios delas.
- Cristo se agrada em exercitar uma grande fé por meio de grandes provas e às vezes reserva as mais severas para o fim, a fim de que, depois de provados, saiamos como ouro. Essa regra geral serve de orientação em outros casos, embora aqui seja usada apenas para provar a mulher.
As ordenanças especiais e os privilégios da igreja são o pão dos filhos e não devem ser profanados ao serem oferecidos aos profundamente ignorantes e profanos. A caridade comum deve estender-se a todos, mas as dignidades espirituais pertencem à família da fé.
Por isso, admiti-los indiscriminadamente, sem distinção, desperdiça o pão dos filhos e equivale a dar aos cães o que é santo, Mateus 7:6. Procul hinc, procul inde, profani: “Afastem-se daqui, afastem-se, profanos”.
- Aqui está a força da fé e da decisão dela ao vencer todos esses desânimos. Muitos, submetidos a prova semelhante, teriam se calado ou explodido de raiva.
“Que consolo frio”, poderia ter dito, “para uma pobre criatura aflita! Teria sido tão bom ficar em casa quanto vir até aqui para ser insultada e maltratada desse modo. Além de meu caso lamentável ser desprezado, ainda sou chamada de cadela!”
Um coração orgulhoso, sem humildade, não teria suportado isso. A reputação da casa de Israel no mundo já não era tão grande que essa afronta aos gentios não pudesse ser devolvida, se a pobre mulher tivesse desejado fazê-lo.
Isso poderia ter provocado críticas a Cristo e manchado sua reputação, além de abalar a boa opinião que ela formara dele, pois tendemos a julgar as pessoas conforme nossa experiência com elas e a pensar que são, em si, aquilo que são para nós.
“É este o Filho de Davi?”, ela poderia ter dito. “É este aquele que tem tanta fama de bondade, ternura e compaixão? Não tenho motivo algum para descrevê-lo assim, pois nunca fui tratada com tanta dureza na vida.”
“Ele poderia ter feito por mim tanto quanto fez pelos outros. Ou, se não fosse fazê-lo, não precisava ter-me colocado entre os cães de seu rebanho. Não sou uma cadela; sou uma mulher, uma mulher honesta e uma mulher em sofrimento. Estou certa de que não é apropriado chamar-me de cadela.”
Não, ela não disse palavra alguma disso. Repare: uma alma humilde e crente, que ama verdadeiramente a Cristo, recebe bem tudo o que ele diz e faz e dá a tudo a melhor interpretação.
Ela vence todos esses desânimos:
(1.) Com santa intensidade de desejo ao insistir em seu pedido. Isso se mostrou após a recusa anterior (v. 25): “Então ela veio e o adorou, dizendo: Senhor, ajuda-me”. [1.] Continuou a orar. O que Cristo disse calou os discípulos; não se ouve mais nada deles. Eles aceitaram a resposta, mas a mulher não.
Repare: quanto mais intensamente sentimos o peso, mais decididamente devemos orar para que seja removido. É da vontade de Deus que persistamos em oração, oremos sempre e não desfaleçamos.
[2.] Aperfeiçoou sua oração. Em vez de culpar Cristo ou acusá-lo de falta de bondade, parece suspeitar de si mesma e atribuir a si a falha. Temia não ter sido humilde e reverente o bastante no primeiro apelo; por isso veio, adorou-o e lhe prestou mais respeito que antes.
Ou temia não ter sido suficientemente insistente; por isso clamou agora: “Senhor, ajuda-me”. Repare: quando a resposta às orações é adiada, Deus está nos ensinando a orar mais e melhor. É hora de investigar em que falhamos nas orações anteriores, para corrigir no futuro o que estava errado.
As decepções com os resultados da oração devem estimular-nos a cumprir o dever de orar. Cristo, em sua agonia, orou com maior intensidade.
[3.] Ela deixa de lado a questão de estar ou não entre aqueles a quem Cristo fora enviado. Não discute isso com ele, embora talvez pudesse alegar algum parentesco com a casa de Israel. Em vez disso: “Israelita ou não, venho ao Filho de Davi pedir misericórdia e não o deixarei ir, a menos que me abençoe”.
Muitos cristãos fracos se perturbam com perguntas e dúvidas a respeito de sua eleição, sobre pertencerem ou não à casa de Israel. Seria melhor que se concentrassem no motivo pelo qual vão a Deus e persistissem em orar por misericórdia e graça.
Devem lançar-se pela fé aos pés de Cristo e dizer: “Se eu perecer, perecerei aqui”; então, pouco a pouco, a questão se esclarecerá. Se não conseguirmos vencer a incredulidade pelo raciocínio, vençamo-la pela oração.
Um fervoroso e afetuoso “Senhor, ajuda-me” nos ajudará a superar muitos dos desânimos que às vezes ameaçam derrubar-nos e submergir-nos.
[4.] Sua oração é muito curta, mas abrangente e fervorosa: “Senhor, ajuda-me”. Considere-a: Primeiro, como lamentação de sua situação: “Se o Messias foi enviado somente à casa de Israel, que o Senhor me ajude! O que será de mim e dos meus?”
Repare: não é em vão que os de coração quebrantado lamentam sua condição; Deus então olha para eles, Jeremias 31:18.
Ou, segundo, como um pedido de graça para ajudá-la naquela hora de tentação. Era difícil manter a fé quando parecia receber tal desaprovação, e por isso ela ora: “Senhor, ajuda-me; Senhor, fortalece minha fé agora; Senhor, sustenta-me com tua mão direita enquanto minha alma te segue de perto”, Salmos 63:8.
Ou, terceiro, como reforço de seu pedido original: “Senhor, ajuda-me; Senhor, dá-me aquilo pelo que vim”. Ela cria que Cristo podia e iria ajudá-la, embora não fosse da casa de Israel; de outro modo, teria abandonado a súplica.
Continua a pensar bem de Cristo e não solta sua mão. “Senhor, ajuda-me” é uma boa oração quando feita de modo apropriado. É pena que se torne um bordão e que, ao dizê-la desse modo, tomemos o nome de Deus em vão.
(2.) Com santa habilidade da fé, apresentando uma alegação muito surpreendente. Cristo pusera os judeus entre os filhos, como rebentos de oliveira ao redor da mesa de Deus, e os gentios entre os cães, debaixo da mesa. Ela não nega a adequação dessa comparação.
Repare: nada se ganha ao contradizer qualquer palavra de Cristo, por mais dura que nos pareça. Mas essa pobre mulher, já que não pode objetar à comparação, decide tirar dela o melhor proveito (v. 27): “É verdade, Senhor; contudo os cães comem das migalhas”. Agora, aqui estão:
[1.] Seu reconhecimento foi muito humilde: “É verdade, Senhor”. Repare: por mais humildemente e com menos apreço que alguém fale de um crente humilde, este está pronto a falar de si com igual humildade e pouco apreço.
Alguns parecem censurar e diminuir a si mesmos, mas se ofendem quando outros fazem o mesmo. Quem foi verdadeiramente humilhado, porém, concordará até com as acusações que mais o rebaixam e não as considerará insultos.
“É verdade, Senhor; não posso negá-lo; sou um cão e não tenho direito ao pão dos filhos.” Davi: “Agiste insensatamente, muito insensatamente”; “É verdade, Senhor”. Asafe: “Foste como um animal diante de Deus”; “É verdade, Senhor”.
Agur: “És mais grosseiro que qualquer homem”; “É verdade, Senhor”. Paulo: “Foste o principal dos pecadores, és menor que o menor dos santos, indigno de ser chamado apóstolo”; “É verdade, Senhor”.
[2.] Foi muito engenhoso transformar esse reconhecimento em alegação: “Contudo os cães comem das migalhas”. Com singular agudeza, rapidez espiritual e sagacidade, ela discerniu um argumento naquilo que parecia uma afronta.
Repare: uma fé viva e ativa fará com que aquilo que parece estar contra nós trabalhe em nosso favor; tirará alimento do que devora e do forte tirará doçura. A incredulidade tende a confundir reforços com inimigos e a tirar conclusões sombrias até de premissas consoladoras (Juízes 13:22-23).
A fé, porém, encontra ânimo até no que desanima e se aproxima de Deus agarrando a mão estendida para afastá-la. Que bom é ter “entendimento rápido no temor do Senhor”, Isaías 11:3.
Sua alegação é: “Contudo os cães comem das migalhas”. É verdade que o alimento pleno e regular se destina somente aos filhos, mas as migalhas pequenas, ocasionais e desprezadas são permitidas aos cães e não lhes são negadas. São os cães debaixo da mesa, que ali esperam por elas.
Nós, pobres gentios, não podemos esperar o ministério regular e os milagres do Filho de Davi; isso pertence aos judeus. Mas agora eles começam a cansar-se do alimento e a brincar com ele; encontram defeitos nele e deixam-no cair em migalhas. Certamente algumas dessas sobras poderão chegar a uma pobre gentia.
“Peço uma cura de passagem, que não passa de uma migalha. Embora venha do mesmo pão precioso, é apenas um pedaço pequeno e insignificante, comparado aos pães que eles possuem.” Repare: quando estamos prestes a nos fartar do pão dos filhos, devemos lembrar quantos ficariam contentes com as migalhas.
Nossas sobras dos privilégios espirituais seriam um banquete para muitas almas, Atos 13:42. Observe aqui:
Primeiro, sua humildade e necessidade fizeram-na alegrar-se com as migalhas. Os que reconhecem não merecer nada serão gratos por qualquer coisa; estaremos preparados para as maiores misericórdias de Deus quando nos virmos abaixo da menor delas. Até o mínimo de Cristo é precioso para o crente, assim como as próprias migalhas do pão da vida.
Segundo, sua fé a encorajou a esperar por essas migalhas. Por que não seria à mesa de Cristo como à de um homem importante, onde os cães recebem alimento tão certamente quanto os filhos?
Observe: ela a chama de mesa do senhor deles. Se ela fosse um cão, seria o cão dele; e nada irá mal conosco, desde que tenhamos mesmo a mais humilde ligação com Cristo: “Embora indigna de ser chamada filha, faze-me como um de teus empregados. Ou melhor, prefiro ser posta com os cães a ser expulsa da casa.”
“Pois na casa de meu Pai há não apenas pão suficiente, mas até de sobra”, Lucas 15:17-19. É bom permanecer na casa de Deus, mesmo que seja no limiar.
- O resultado feliz e bem-sucedido de tudo isso. Ela saiu dessa luta com honra e consolo e, embora cananeia, mostrou-se verdadeira filha de Israel, que, como príncipe, teve poder diante de Deus e prevaleceu. Até então Cristo escondera dela o rosto, mas agora a acolhe com bondade eterna, v. 28.
Então Jesus disse: “Ó mulher, grande é a tua fé”. Isso foi como José dar-se a conhecer aos irmãos: “Eu sou José”; assim, aqui, na prática: “Eu sou Jesus”. Agora ele começa a falar como ele próprio e a mostrar sua verdadeira expressão. Não contenderá para sempre.
(1.) Elogiou a fé dela: “Ó mulher, grande é a tua fé”. Observe: [1.] É a fé dela que ele elogia. Havia outras graças que brilharam intensamente em sua conduta nesse episódio: sabedoria, humildade, mansidão, paciência e perseverança na oração.
Mas essas graças eram fruto de sua fé; por isso Cristo destaca a fé como a mais digna de elogio. Como, dentre todas as graças, a fé é a que mais honra a Cristo, dentre todas as graças é também a que Cristo mais honra.
[2.] É a grandeza de sua fé que ele elogia. Repare: Primeiro, embora a fé de todos os santos seja igualmente preciosa, ela não é igualmente forte em todos. Nem todos os crentes têm o mesmo tamanho e a mesma estatura.
Segundo, a grandeza da fé consiste em grande parte em apegar-se resolutamente a Jesus Cristo como Salvador plenamente suficiente, mesmo diante de desânimos; em amá-lo e confiar nele como Amigo até quando parece apresentar-se contra nós como Inimigo. Isso é grande fé!
Terceiro, embora a fé fraca, se verdadeira, não seja rejeitada, a grande fé será elogiada e se mostrará muito agradável a Cristo, pois ele é mais admirado naqueles que creem assim.
Foi desse modo que Cristo elogiou a fé do centurião, que também era gentio. Ele tinha grande fé no poder de Cristo; esta mulher, na boa vontade de Cristo. Ambas foram aceitas.
(2.) Curou a filha dela: “Seja-te feito como queres. Não posso negar-te nada; recebe aquilo pelo que vieste”. Repare: os grandes crentes podem receber o que desejam, bastando pedir. Quando nossa vontade se conforma à vontade expressa no preceito de Cristo, a vontade dele concorda com o desejo da nossa vontade.
Os que nada recusam a Cristo descobrirão que ele, por fim, nada lhes recusará, embora pareça esconder deles o rosto por algum tempo. “Queres que teus pecados sejam perdoados, tuas corrupções mortificadas e tua natureza santificada; seja-te feito como queres. E que mais poderias desejar?”
Quando, como aquela pobre mulher, vamos orar contra Satanás e seu reino, unimo-nos à intercessão de Cristo, e assim acontecerá. Embora Satanás possa peneirar Pedro e esbofetear Paulo, pela oração de Cristo e pela suficiência de sua graça seremos mais que vencedores, Lucas 22:31-32; 2 Coríntios 12:7-9; Romanos 16:20.
O resultado correspondeu à palavra de Cristo: “Sua filha ficou curada desde aquela mesma hora”. Daquele momento em diante, o demônio nunca mais a atormentou. A fé da mãe prevaleceu para a cura da filha.
Embora a enferma estivesse longe, isso não impediu a eficácia da palavra de Cristo. Ele falou, e aconteceu.
Versículos 29 a 39
A Alimentação dos Quatro Mil.
Temos aqui: I. Um relato geral das curas de Cristo, que curava muitas pessoas de uma só vez. As provas de seu poder e de sua bondade não são raras nem escassas, pois há nele plenitude transbordante. Observe:
- O lugar dessas curas: perto do mar da Galileia, região que Cristo frequentava muito. Não lemos que tenha feito algo no território de Tiro e Sidom, além de expulsar o demônio da filha da mulher cananeia, como se tivesse feito a viagem justamente com esse propósito. Que os ministros não considerem excessivo o esforço para fazer o bem, ainda que a poucos.
Quem conhece o valor das almas percorreria uma longa distância para ajudar a salvar uma só da morte e do poder de Satanás.
Mas Jesus partiu dali. Depois de deixar cair aquela migalha debaixo da mesa, voltou para preparar um banquete completo para os filhos. Podemos fazer ocasionalmente por uma pessoa o que não podemos transformar em prática constante.
Cristo entra por um momento na região de Tiro e Sidom, mas se assenta junto ao mar da Galileia (v. 29). Não se senta num trono imponente nem num tribunal, mas num monte. Eram tão simples e humildes suas manifestações mais solenes durante os dias de sua vida terrena!
Sentou-se no monte para que todos pudessem vê-lo e aproximar-se dele livremente, pois é um Salvador acessível. Assentou-se ali como quem está cansado da viagem e deseja descansar um pouco; ou, melhor, como quem espera para mostrar graça. Sentou-se à espera de pacientes, como Abraão à entrada da tenda, pronto a receber estrangeiros. Estabeleceu-se ali para essa boa obra.
- As multidões e as enfermidades curadas por ele (v. 30). Grandes multidões foram até Cristo, para que se cumprisse a Escritura: “A ele se reunirão os povos” (Gênesis 49:10).
Se os ministros de Cristo pudessem curar doenças do corpo como ele curava, mais pessoas acorreriam a eles. Percebemos rapidamente a dor e a enfermidade do corpo; poucos, porém, se preocupam com a alma e suas doenças espirituais.
Agora: (1.) Cristo foi tão bondoso que recebeu toda espécie de pessoas. Tanto os pobres quanto os ricos são bem-vindos a ele, e há espaço suficiente para todos os que vêm. Nunca se queixou da multidão ou do número de pessoas que o procuravam, nem olhou com desprezo para a gente comum, a ralé, como a chamam. As almas dos camponeses lhe são tão preciosas quanto as dos príncipes.
(2.) Cristo foi tão poderoso que curou toda espécie de doença. Os que foram a ele levaram consigo parentes e amigos enfermos e os puseram aos pés de Jesus (v. 30). Não se relata que lhe tenham dito algo; apenas colocaram os doentes diante dele como pessoas necessitadas de compaixão, para que as visse.
As aflições deles falaram em seu favor mais do que poderia fazê-lo o mais eloquente orador. Davi expôs sua dificuldade diante de Deus; isso bastou, e então a entregou a ele (Salmos 142:2). Qualquer que seja nossa situação, o único caminho para encontrar alívio e socorro é colocá-la aos pés de Cristo, expô-la diante dele e levá-la a seu conhecimento.
Depois, devemos submetê-la a Cristo e entregá-la ao que ele dispuser. Quem deseja cura espiritual dele deve colocar-se a seus pés, para ser governado e conduzido conforme a vontade dele.
Levaram a Cristo coxos, cegos, mudos, mutilados e muitos outros. Veja o que o pecado causou: transformou o mundo num hospital! Quantas doenças diferentes podem atingir o corpo humano! Veja também o que o Salvador faz: vence essas multidões de inimigos da humanidade.
Havia ali doenças para cuja causa ou cura nenhuma força da imaginação poderia contribuir, pois não estavam nos humores do corpo, mas em seus membros. Ainda assim, sujeitavam-se às ordens de Cristo. Ele enviou sua palavra e os curou.
Repare: todas as doenças estão sob o comando de Cristo, para ir e vir conforme ele ordena. Eis uma prova de seu poder, que pode consolar-nos em todas as nossas fraquezas, e de sua compaixão, que pode consolar-nos em todas as nossas aflições.
- O efeito disso no povo (v. 31):
(1.) Ficaram maravilhados, e com razão. As obras de Cristo devem despertar nossa admiração. Isso é obra do Senhor, e é maravilhoso (Salmos 118:23). As curas espirituais realizadas por Cristo são maravilhosas.
Quando almas cegas passam a ver pela fé, as mudas a falar em oração e as coxas a caminhar em santa obediência, é algo digno de admiração. Cantem ao Senhor um cântico novo, pois assim ele tem feito maravilhas.
(2.) Glorificaram o Deus de Israel, a quem os fariseus blasfemavam quando viam essas obras. Os milagres que despertam nossa admiração devem despertar também nosso louvor. As misericórdias que nos alegram devem motivar nossa gratidão.
Os curados glorificaram a Deus. Se ele cura nossas doenças, tudo o que há em nós deve bendizer seu santo nome. Se fomos bondosamente preservados da cegueira, da incapacidade de andar e da mudez, temos tanto motivo para bendizê-lo quanto se tivéssemos sido curados dessas condições. Os espectadores também glorificaram a Deus.
Repare: devemos reconhecer a Deus com louvor e gratidão pelas misericórdias concedidas aos outros, assim como pelas que recebemos. Glorificaram-no como o Deus de Israel, o Deus de sua igreja, em aliança com seu povo, que enviou o Messias prometido: este é ele. Veja Lucas 1:68: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel”. Tudo isso foi feito pelo poder do Deus de Israel; nenhum outro poderia fazê-lo.
II. Segue-se um relato particular de como alimentou quatro mil homens com sete pães e alguns peixinhos, depois de recentemente ter alimentado cinco mil com cinco pães. Os convidados agora eram menos numerosos e a provisão um pouco maior. Isso não significa que o braço de Cristo tivesse encurtado, mas que ele realizava os milagres conforme a necessidade, sem ostentação.
Por isso ajustou cada milagre à ocasião. Nas duas vezes, considerou quantos precisavam ser alimentados e usou tudo o que estava disponível. Uma vez ultrapassado o limite extremo dos poderes da natureza, devemos dizer: “Este é o dedo de Deus”. Pouco importa quanto esse limite foi superado; este milagre não foi menor que o anterior.
Temos aqui: 1. A compaixão de Cristo (v. 32): “Tenho compaixão da multidão”. Ele disse isso aos discípulos tanto para provar quanto para despertar a compaixão deles. Ao preparar-se para realizar o milagre, chamou-os, contou-lhes seu propósito e conversou sobre ele. Não precisava de seus conselhos, mas quis demonstrar-lhes seu amor condescendente.
Não os chamou de servos, pois o servo não sabe o que seu senhor faz; tratou-os como amigos e conselheiros. “Ocultarei de Abraão o que vou fazer?” (Gênesis 18:17). Observe o que Cristo lhes disse:
(1.) A situação da multidão: “Há três dias permanecem comigo e não têm o que comer”. Isso demonstra o zelo e a força do afeto que tinham por Cristo e sua palavra. Além de deixar seus trabalhos para acompanhá-lo em dias de semana, suportaram muitas dificuldades para ficar com ele.
Faltava-lhes o repouso habitual; pelo que parece, dormiam ao relento como soldados no campo. Faltava-lhes o alimento necessário, e mal tinham o suficiente para manter a vida. Nos países mais quentes, as pessoas conseguem suportar jejuns longos melhor do que nós em regiões mais frias. Ainda assim, isso devia afligir o corpo e poderia pôr sua saúde em perigo.
Mas o zelo pela casa de Deus os consumia, e consideravam as palavras de Cristo mais importantes do que o alimento necessário. Achamos três horas tempo demais para participar dos cultos públicos; eles, porém, permaneceram juntos por três dias, sem desdenhar disso nem dizer: “Que enfado!”
Observe com que ternura Cristo falou: “Tenho compaixão deles”. Seria natural que eles se compadecessem de Cristo, que trabalhou tanto por eles durante três dias, incansável no ensino e nas curas. Tanto poder havia saído dele e, pelo que parece, ele também jejuava. Mesmo assim, Cristo se antecipou a eles com sua compaixão.
Repare: nosso Senhor Jesus registra por quanto tempo seus seguidores permanecem com ele e percebe as dificuldades que suportam nesse serviço (Apocalipse 2:2): “Conheço as tuas obras, o teu trabalho e a tua perseverança”. Nada disso ficará sem recompensa.
A situação extrema a que o povo chegou engrandece duas coisas. [1.] A misericórdia do suprimento: Cristo os alimentou quando estavam famintos, e por isso o alimento foi duas vezes mais bem-vindo. Tratou-os como tratou Israel antigamente: permitiu que sentissem fome e depois os alimentou (Deuteronômio 8:3). À alma faminta é doce o que a alma saciada despreza.
[2.] O milagre do suprimento: depois de jejuar tanto tempo, sentiam fome ainda maior. Se ficar sem duas refeições faz alguém devorar a terceira, o que fariam três dias sem comer? Ainda assim, todos comeram até ficar satisfeitos.
Repare: há em Cristo misericórdia e graça suficientes para satisfazer abundantemente o desejo mais intenso e amplo. “Abre bem a tua boca, e a encherei.” Ele sacia até a alma faminta.
(2.) O cuidado de nosso Mestre com eles: “Não quero mandá-los embora em jejum, para que não desfaleçam pelo caminho”. Isso desacreditaria Cristo e sua família e desanimaria tanto essas pessoas quanto outras. Repare: uma infelicidade de nosso estado presente é que, quando a alma em alguma medida se eleva e se alarga, o corpo não consegue acompanhá-la nos bons deveres.
A fraqueza da carne é um grande obstáculo à disposição do espírito. Não será assim no céu, onde o corpo será transformado em espiritual. Ali, os santos não cessarão de louvar a Deus, dia e noite, sem desfalecer; não terão mais fome nem sede (Apocalipse 7:16).
Temos aqui: 2. O poder de Cristo. Sua compaixão pelas necessidades do povo põe seu poder em ação para supri-las. Observe:
(1.) Como os discípulos duvidaram de seu poder (v. 33): “Onde conseguiremos tantos pães no deserto?” Pode parecer uma pergunta adequada, como a de Moisés: “Matar-se-ão rebanhos e manadas para lhes bastar?” (Números 11:22).
Aqui, porém, foi inadequada. Os discípulos tinham não só a certeza geral do poder de Cristo, mas também a experiência específica da provisão oportuna e suficiente que ele realizara pouco antes por milagre numa situação semelhante. Não tinham sido apenas testemunhas, mas também instrumentos do milagre anterior: o pão multiplicado passou por suas mãos.
Por isso, perguntar de onde viria o pão revelou grande fraqueza. Como podiam ficar sem saber o que fazer quando o Mestre estava com eles? Repare: esquecer experiências anteriores nos deixa sujeitos às dúvidas presentes.
Cristo sabia que a provisão era pequena, mas quis ouvi-lo deles (v. 34): “Quantos pães tendes?” Antes de agir, queria que vissem como era pouco aquilo de que dispunha, para que seu poder brilhasse ainda mais.
O que tinham era para uso próprio e mal bastava para o grupo. Ainda assim, Cristo quis que entregassem tudo à multidão e confiassem na Providência para receber mais. Repare: os discípulos de Cristo devem ser generosos, como foi seu Mestre. Devemos repartir livremente o que temos quando houver necessidade, praticando a hospitalidade.
Não sejamos como Nabal (1 Samuel 25:11), mas como Eliseu (2 Reis 4:42). A avareza de hoje, motivada pela preocupação com amanhã, é uma combinação de afetos corrompidos que precisa ser mortificada. Se formos prudentemente bondosos e generosos com o que temos, podemos esperar piedosamente que Deus enviará mais. Jeová-Jiré: o Senhor proverá.
Os discípulos perguntaram: “De onde conseguiremos pão?” Cristo perguntou: “Quantos pães tendes?” Repare: quando não podemos ter o que desejamos, devemos fazer o melhor com o que possuímos e empregá-lo para o bem até onde for possível. Não devemos pensar tanto no que nos falta quanto no que temos.
Nisso, Cristo seguiu a regra que dera a Marta: não se preocupar com muitas coisas nem ficar sobrecarregada com muito serviço. A natureza se contenta com pouco; a graça, com menos; a cobiça não se contenta com nada.
(2.) Como seu poder se manifestou à multidão na farta provisão que lhes ofereceu. O modo foi muito semelhante ao do milagre anterior (Mateus 14:18 e seguintes). Observe:
[1.] A provisão disponível: sete pães e alguns peixes. Os peixes não estavam na mesma proporção que o pão, pois o pão sustenta a vida. É provável que os próprios discípulos tivessem apanhado os peixes, pois eram pescadores e estavam perto do mar.
Repare: é bom comer do trabalho de nossas mãos (Salmos 128:2) e desfrutar do que de algum modo resultou de nosso esforço (Provérbios 12:27). Também devemos repartir livremente o que obtivemos com a bênção de Deus sobre nosso trabalho. Afinal, devemos trabalhar para ter o que dar (Efésios 4:28).
[2.] A preparação do povo para receber a comida (v. 35): ele mandou a multidão sentar-se no chão. Viam pouquíssimo alimento, mas deviam sentar-se com fé de que dele receberiam uma refeição. Quem deseja alimento espiritual de Cristo deve assentar-se a seus pés para ouvir sua palavra e esperar que o alimento venha por um caminho invisível.
[3.] A distribuição da provisão entre eles. Primeiro Cristo deu graças, eucharistesas. No milagre anterior, a palavra empregada fora eulogese, “abençoou”. O sentido é o mesmo: agradecer a Deus é maneira adequada de pedir sua bênção. Quando pedimos e recebemos novas misericórdias, devemos também agradecer pelas que já recebemos.
Depois partiu os pães, pois era ao parti-los que o pão se multiplicava, e os deu aos discípulos; estes os distribuíram ao povo.
Embora os discípulos tivessem duvidado de seu poder, Cristo os utilizou como antes. A fraqueza e as limitações de seus ministros não o levam a afastá-los, embora pudesse sentir-se provocado a fazê-lo. Continua a entregar-lhes a palavra da vida para que a transmitam ao seu povo.
[4.] A fartura entre eles (v. 37): todos comeram e ficaram satisfeitos. Repare: Cristo satisfaz aqueles a quem alimenta. Quando trabalhamos pelo mundo, trabalhamos pelo que não satisfaz (Isaías 55:2). Mas quem espera devidamente em Cristo será abundantemente satisfeito com a bondade de sua casa (Salmos 65:4).
Cristo alimentou pessoas assim mais de uma vez para mostrar que, embora fosse chamado Jesus de Nazaré, era de Belém, a casa do pão; ou, melhor, que ele mesmo era o Pão da Vida.
Para mostrar que todos haviam recebido o suficiente, sobrou muita comida: sete cestos cheios de pedaços. Não sobrou tanto quanto no milagre anterior, pois menos pessoas haviam comido, mas o bastante para mostrar que em Cristo há pão suficiente e de sobra: provisões da graça para mais pessoas do que as que a buscam e uma porção maior para as que buscam mais dela.
[5.] A contagem dos convidados, não para que pagassem sua parte, pois não havia conta a acertar e tinham sido alimentados de graça, mas para que fossem testemunhas do poder e da bondade de Cristo. Isso também retratava de algum modo a providência universal que dá alimento a todos os seres vivos (Salmos 136:25).
Foram alimentados quatro mil homens. Mas o que são eles comparados à grande família que o cuidado divino sustenta todos os dias? Deus é o grande Provedor da casa, para quem os olhos de todas as criaturas se voltam na expectativa de receber alimento, e ele o dá no tempo certo (Salmos 104:27; 145:15).
[6.] A despedida da multidão e a partida de Cristo para outro lugar (v. 39). Ele dispensou o povo. Embora o tivesse alimentado duas vezes, não deveria esperar que milagres fossem seu pão de cada dia. Agora todos deveriam voltar para casa, para o trabalho e para suas mesas.
O próprio Cristo partiu de barco para outro lugar. Sendo a Luz do mundo, devia permanecer em movimento e seguir fazendo o bem.