Matthew Henry

Mateus 14

Argumento

João Batista disse a respeito de Cristo: “É necessário que ele cresça, mas que eu diminua” (João 3:30). Aqui a estrela da manhã desaparece, enquanto o Sol da Justiça se eleva até o brilho do meio-dia.

Temos: I. O martírio de João: sua prisão por ser fiel ao confrontar Herodes (vv. 1-5) e sua decapitação para agradar Herodias (vv. 6-12). II. Os milagres de Cristo: 1. Alimentou com cinco pães e dois peixes cinco mil homens que tinham ido a ele para ser ensinados (vv. 13-21).

  1. Caminhou sobre as ondas até os discípulos durante uma tempestade (vv. 22-33). 3. Curou os enfermos que tocaram a borda de sua roupa (vv. 34-36). Assim saiu e prosseguiu, vencendo para vencer, ou melhor, curando para curar.

Versículos 1 a 12

A Morte de João Batista.

Temos aqui o relato do martírio de João. Observe:

I. A ocasião de se contar essa história neste ponto (vv. 1-2). Temos:

  1. A notícia levada a Herodes dos milagres realizados por Cristo. Herodes, o tetrarca ou governador principal da Galileia, ouviu falar da fama de Jesus. Naquele tempo, quando os conterrâneos o desprezavam por causa de sua origem humilde e pouco conhecida, ele começava a tornar-se famoso na corte.

Repare: Deus honrará aqueles que são desprezados por sua causa. O evangelho, como o mar, ganha em um lugar o que perde em outro. Cristo pregava e operava milagres havia mais de dois anos; parece, porém, que Herodes só então ouvira falar dele, e apenas por sua fama.

Repare: uma infelicidade dos poderosos deste mundo é terem pouca oportunidade de ouvir as melhores coisas (1 Coríntios 2:8). “As quais nenhum dos príncipes deste mundo conheceu” (1 Coríntios 2:8). Os discípulos de Cristo haviam sido enviados para pregar e operar milagres em seu nome. Isso difundiu sua fama ainda mais e anunciou a propagação futura do evangelho por meio deles, depois da ascensão.

  1. A interpretação que Herodes deu à notícia (v. 2). Disse aos servos que lhe contaram sobre Jesus: “Tão certo como estamos aqui, este é João Batista; ele ressuscitou dos mortos”. Ou o fermento de Herodes não era o saduceísmo, pois os saduceus dizem: “Não há ressurreição” (Atos 23:8), ou sua consciência culpada, como costuma acontecer com ateus, dominou naquele momento suas opiniões.

Herodes concluiu que, houvesse ou não uma ressurreição geral, João Batista certamente ressuscitara e, por isso, obras poderosas se manifestavam nele. João não fez milagre algum enquanto vivia (João 10:41). Herodes, porém, deduziu que a ressurreição o revestira de poder maior que o anterior.

É significativo que chamasse os milagres que supunha terem sido feitos por João não de obras poderosas dele, mas de “obras poderosas que se manifestavam nele”. Observe três coisas a respeito de Herodes:

(1.) Ficou frustrado naquilo que pretendia ao decapitar João. Pensou que, ao tirar do caminho aquele homem incômodo, poderia continuar a pecar sem ser perturbado nem repreendido. Mal havia conseguido isso, porém, soube que Jesus e seus discípulos pregavam a mesma doutrina pura de João.

E, mais ainda, os discípulos confirmavam essa doutrina com milagres feitos em nome do Mestre. Repare: ministros podem ser silenciados, presos, banidos e mortos, mas a palavra de Deus não pode ser destruída. Os profetas não vivem para sempre, mas a palavra se cumpre (Zacarias 1:5-6; veja 2 Timóteo 2:9).

Às vezes, Deus levanta muitos ministros fiéis das cinzas de um só. Essa esperança existe para as árvores de Deus, mesmo quando cortadas (Jó 14:7-9).

(2.) Foi tomado por temores sem fundamento, nascidos apenas da culpa na própria consciência. Assim o sangue clama não só da terra onde foi derramado, mas também do coração de quem o derramou. Torna-o Magor-Missabibe, terror ao redor, terror para si mesmo.

A consciência culpada sugere tudo quanto é assustador e, como um redemoinho, atrai para si tudo o que se aproxima. Assim, “os perversos fogem sem que ninguém os persiga” (Provérbios 28:1) e sentem grande medo onde não há motivo para temer (Salmos 14:5).

Uma breve investigação teria mostrado a Herodes que Jesus já vivia muito antes da morte de João Batista. Não podia, portanto, ser Johannes redivivus, João de volta à vida. Herodes poderia ter-se livrado do engano, mas Deus, com justiça, deixou-o entregue a essa ilusão.

(3.) Apesar de tudo, permaneceu obstinado na perversidade. Embora estivesse convencido de que João era profeta e reconhecido por Deus, não demonstrou o menor remorso ou pesar pelo pecado de tê-lo matado. Os demônios creem e tremem, mas nunca creem e se arrependem.

Repare: alguém pode sentir o terror de uma forte convicção sem experimentar a realidade de uma conversão salvadora.

II. O relato da prisão e do martírio de João. Os sofrimentos extraordinários desse primeiro pregador do evangelho mostram claramente que prisões e aflições aguardam os que o professam. Assim como o primeiro santo do Antigo Testamento, o primeiro ministro do Novo morreu mártir.

Se o precursor de Cristo foi tratado dessa maneira, seus seguidores não devem esperar ser cortejados pelo mundo. Observe:

  1. A fidelidade de João ao censurar Herodes (vv. 3-4). Herodes era um dos ouvintes de João (Marcos 6:20); por isso, João podia falar-lhe com mais ousadia. Repare: os ministros, cujo ofício inclui censurar, têm o dever especial de censurar os que lhes foram confiados e não tolerar o pecado neles.

Dispõem da melhor oportunidade de tratar com essas pessoas e podem esperar delas uma acolhida mais favorável.

O pecado específico pelo qual João censurou Herodes foi tomar a esposa de seu irmão Filipe. Não era viúva, caso menos criminoso, mas esposa: Filipe ainda vivia. Herodes seduziu-a, tirou-a do marido e ficou com ela. Havia ali uma combinação de maldades: adultério e incesto, além da ofensa feita a Filipe, que tivera uma criança com essa mulher.

A ofensa era agravada pelo fato de Filipe ser irmão de Herodes, meio-irmão por parte de pai, não de mãe (Salmos 50:20). João censurou Herodes por esse pecado, não por alusões indiretas e discretas, mas com palavras claras: “Não te é lícito tê-la”.

João o denunciou como pecado. Não disse “não é honroso” ou “não é seguro”, mas “não é lícito”. O pior do pecado é sua natureza pecaminosa, a transgressão da lei. Era a iniquidade particular de Herodes, seu pecado querido; por isso, João Batista falou dele especificamente.

Repare: (1.) Aquilo que a lei de Deus proíbe às pessoas comuns, pela mesma lei é proibido aos príncipes e aos maiores homens. Os que governam pessoas não devem esquecer que também são pessoas e estão sujeitos a Deus.

“Não te é lícito seduzir a esposa de outro homem, assim como não é lícito ao mais humilde dos teus súditos.” Ninguém, nem mesmo os reis maiores e mais arbitrários, tem a prerrogativa de violar as leis de Deus.

(2.) Se príncipes e poderosos transgridem a lei de Deus, convém que pessoas apropriadas os advirtam da maneira apropriada. Assim como não estão acima dos mandamentos da palavra de Deus, não estão acima das censuras de seus ministros.

Não convém dizer a um rei “Tu és Belial” (Jó 34:18), como não convém chamar um irmão de “Raca” ou de “tolo”. Tampouco convém acusar formalmente os governantes enquanto permanecem dentro dos limites da própria autoridade.

Mas convém que aqueles a quem cabe esse dever lhes digam o que é ilícito e apliquem a advertência: “Tu és o homem”. Pois logo adiante se diz que Deus, de quem os ministros fiéis são agentes e embaixadores, “não faz acepção de príncipes nem prefere o rico ao pobre” (Jó 34:19).

  1. A prisão de João por causa de sua fidelidade (v. 3). Herodes mandou prender João enquanto ele continuava pregando e batizando. Interrompeu sua obra, acorrentou-o e lançou-o na prisão. Fez isso em parte para satisfazer a própria vingança e em parte para agradar Herodias, que parecia ainda mais enfurecida contra João. Foi por causa dela que o prendeu.

Repare: (1.) Censuras fiéis costumam provocar quando não produzem proveito. Se não fazem bem, são recebidas como afrontas. Os que não se curvam à censura atacam e odeiam quem os censura, como Acabe odiava Micaías (1 Reis 22:8; veja Provérbios 9:8; 15:10, 12). Veritas odium parit: a verdade produz ódio.

(2.) Não é novidade que ministros de Deus sofram por fazer o bem. As tribulações atingem sobretudo os mais diligentes e fiéis ao dever (Atos 20:23). Talvez alguns amigos de João o considerassem imprudente por censurar Herodes.

Talvez lhe dissessem que seria melhor calar-se do que provocar Herodes, cujo caráter conhecia bem, perdendo assim a liberdade. Longe de nós, porém, a prudência que impede alguém de cumprir o dever como autoridade, ministro ou amigo cristão!

Creio que a própria consciência de João não o acusou por isso. Pelo contrário, o testemunho dela a seu favor tornou as correntes mais leves: sofria por fazer o bem, não por se intrometer nos assuntos dos outros (1 Pedro 4:15).

  1. O impedimento que conteve a fúria de Herodes contra João (v. 5):

(1.) Ele queria matá-lo. Talvez essa não fosse sua intenção inicial ao prendê-lo, mas a vingança cresceu pouco a pouco até chegar a esse ponto. Repare: o caminho do pecado, em especial o da perseguição, é uma descida.

Depois que alguém despreza os ministros de Cristo e ultrapassa esse limite uma vez, acaba fazendo algo de que antes se julgaria incapaz, a menos que fosse um cão (2 Reis 8:13).

(2.) O que o detinha era o medo da multidão, que considerava João um profeta. Não era temor de Deus: se o tivesse diante dos olhos, não teria prendido João. Tampouco era temor de João, embora antes o respeitasse; seus desejos pecaminosos haviam vencido esse respeito.

Herodes temia o povo. Preocupava-se com a própria segurança e a estabilidade do governo. Sabia que o abuso de sua autoridade já o tornara odioso aos súditos. A indignação deles estava tão acesa que matar um profeta poderia fazê-la explodir em revolta.

Repare: [1.] Os tiranos também têm medo. Aqueles que são, e querem parecer, o terror dos poderosos muitas vezes são o maior terror para si mesmos. Quanto mais desejam que o povo os tema, mais o temem.

[2.] O interesse material, e não a consideração por Deus, impede os perversos de praticar maldades ainda maiores. O desejo de conforto, prestígio, riqueza e segurança os governa. Assim como os afasta de muitos deveres, também os impede de cometer pecados que de outro modo cometeriam.

Esse é um dos meios pelos quais são impedidos de ser perversos em excesso (Eclesiastes 7:17). O perigo do pecado percebido pelos sentidos, ou apenas imaginado, influencia mais as pessoas do que aquele reconhecido pela fé.

Herodes receava que a morte de João provocasse uma revolta popular, o que não aconteceu. Nunca receou, porém, que provocasse uma revolta na própria consciência, o que aconteceu (v. 2). As pessoas temem ser enforcadas por atos pelos quais não temem ser condenadas ao inferno.

  1. O plano para levar João à morte. Permaneceu preso por muito tempo. Contra a liberdade do cidadão, que, graças a Deus, as leis de nossa nação protegem, não podia ser julgado nem solto mediante fiança.

Calcula-se que passou um ano e meio em prisão rigorosa, quase o mesmo tempo que exercera o ministério público desde o início. Temos agora o relato de sua libertação, não por outra forma de soltura, mas pela morte: o fim de todas as tribulações do homem bom, que leva os presos a descansar juntos, sem mais ouvir a voz do opressor (Jó 3:18).

Herodias armou o plano. Sua vingança implacável tinha sede do sangue de João e não se satisfaria com menos. Contrariem-se os apetites carnais, e eles se transformarão nas paixões mais bárbaras. Foi uma mulher, prostituta e mãe das prostitutas, quem se embriagou com o sangue dos santos (Apocalipse 17:5-6).

Herodias planejou a morte de João com astúcia suficiente para preservar a reputação de Herodes e apaziguar o povo. Uma desculpa ruim é melhor que nenhuma.

Inclino-me, porém, a pensar que Herodes também participava da conspiração. Apesar de fingir surpresa e tristeza, provavelmente conhecia o plano e sabia de antemão o que seria pedido. Sua alegação de respeito ao juramento e aos convidados não passava de encenação.

Mas, mesmo que tivesse sido apanhado numa armadilha sem perceber, podia ter impedido o crime e não quis; por isso é justamente considerado culpado de toda a trama. Embora Jezabel tenha levado Nabote à morte, Acabe o matou ao tomar posse.

Do mesmo modo, embora Herodias planeje a decapitação de João, se Herodes consente e se agrada dela, não é apenas cúmplice, mas o principal assassino. Preparada a cena atrás da cortina, vejamos como foi encenada diante de todos:

(1.) A filha de Herodias agrada Herodes ao dançar em seu aniversário. Parece que o aniversário dele era celebrado com solenidade. Em homenagem ao dia, como de costume, haveria um baile na corte. Para tornar a festa ainda mais vistosa, a filha da rainha dançou diante dos convidados, algo que sua posição normalmente não a levaria a fazer.

Repare: ocasiões de alegria e diversão carnais são propícias à execução de planos perversos contra o povo de Deus. Quando o rei adoece com o vinho, estende a mão aos zombadores (Oseias 7:5), pois fazer o mal é divertimento para o insensato (Provérbios 10:23).

Os filisteus, quando estavam alegres, mandaram chamar Sansão para humilhá-lo. O massacre de Paris ocorreu durante um casamento. Herodes gostou da dança da jovem. Não nos dizem quem dançou com ela, mas ninguém agradou tanto a Herodes quanto ela com sua dança.

Repare: o coração vaidoso e desprovido de graça tende a apaixonar-se pelos desejos da carne e dos olhos. Quando isso acontece, abre caminho a tentações maiores, pois assim Satanás toma e conserva o controle (veja Provérbios 23:31-33).

Herodes estava alegre, e nada lhe parecia mais agradável que aquilo que alimentava sua vaidade.

(2.) A promessa precipitada e insensata que Herodes fez à jovem desregrada: dar-lhe tudo o que pedisse. Confirmou a promessa com um juramento (v. 7). Assumiu assim uma obrigação extravagante, indigna de um homem prudente, que deve temer ficar preso pelas próprias palavras (Provérbios 6:2).

Muito menos convinha a um homem bom, que teme o juramento (Eclesiastes 9:2). Entregar-lhe uma promessa em branco, que ela poderia preencher como quisesse, era recompensa grande demais por um mérito tão pequeno. Inclino-me a pensar que Herodes não teria cometido tal absurdo se Herodias não o tivesse instruído, assim como instruíra a filha.

Repare: juramentos que envolvem promessas podem aprisionar. Feitos precipitadamente, nascem da corrupção interior e criam muitas tentações. Portanto, não jurem dessa maneira de modo algum, para não terem de dizer depois: “Foi um erro” (Eclesiastes 5:6).

(3.) O pedido sangrento da jovem: a cabeça de João Batista (v. 8). Sua mãe já a havia instruído. Repare: é muito triste a situação dos filhos cujos pais os aconselham a praticar o mal, como ocorreu com Acazias (2 Crônicas 22:3).

Esses pais ensinam e animam os filhos a pecar, além de dar mau exemplo. A natureza corrompida reage mais rapidamente às más instruções do que é contida e mortificada pelas boas. Os filhos não devem obedecer aos pais contra o Senhor. Se lhes ordenam pecar, devem agir como Levi, que disse ao pai e à mãe que não os havia visto.

Herodes dera autorização à jovem, e Herodias, as instruções. Ela exigiu a cabeça de João Batista numa bandeja. Talvez Herodias temesse que Herodes se cansasse dela, como o desejo carnal costuma transformar-se em aversão depois de satisfeito. Ele poderia então usar a censura de João como pretexto para abandoná-la.

Para impedir isso, Herodias procurou endurecê-lo no pecado envolvendo-o no assassinato de João. João devia ser decapitado; seria essa a morte pela qual glorificaria a Deus. Ele foi o primeiro a morrer depois do início da pregação do evangelho.

Os mártires morreram de diversas maneiras, menos fáceis e honrosas que essa, mas a decapitação representa todas elas em Apocalipse 20:4, onde se fala das almas dos que foram decapitados pelo testemunho de Jesus.

Nem isso bastava: Herodias queria satisfazer uma fantasia, além da vingança. A cabeça devia ser entregue à jovem ali mesmo, numa bandeja, servida ensanguentada como prato da festa ou molho dos demais. Ficaria reservada para a terceira parte da refeição, junto com as iguarias raras.

João não teria julgamento, audiência pública nem formalidades legais que dessem solenidade à morte. Seria julgado, condenado e executado num instante. Felizmente estava tão desprendido do mundo que a morte, por mais súbita que fosse, não o apanharia desprevenido.

A cabeça devia ser dada à jovem. Ela a consideraria pagamento pela dança e não pediria mais nada.

(4.) Herodes concede o pedido (v. 9). O rei se entristeceu, ou ao menos fingiu tristeza, mas ordenou que a cabeça lhe fosse dada por causa do juramento. Temos aqui:

[1.] Uma preocupação fingida com João. “O rei se entristeceu.” Repare: muitos pecam com pesar sem jamais sentir verdadeiro arrependimento pelo pecado. Lamentam cometer o ato, mas desconhecem a tristeza segundo Deus. Pecam com relutância e, ainda assim, continuam a pecar.

O dr. Hammond sugere que Herodes se entristeceu em parte por ser o dia de seu aniversário, pois derramar sangue nessa data seria mau presságio. Como outras ocasiões festivas, o dia costumava ser marcado por atos de clemência. Natalem colimus, tacete lites: celebramos o aniversário; cessem as disputas.

[2.] Uma aparente preocupação de consciência com o juramento, acompanhada de uma demonstração plausível de honra e honestidade. Achava que precisava atender ao pedido por causa do juramento.

Repare: é um grande erro pensar que um juramento perverso justifica um ato perverso. Estava necessariamente implícito, sem precisar de palavras, que Herodes faria por ela apenas o que fosse lícito e honesto. Quando pediu o contrário, ele deveria ter declarado, de maneira honrosa, que o juramento era nulo e já não o obrigava.

Ninguém pode assumir a obrigação de pecar, pois Deus já obrigou firmemente todas as pessoas a não fazê-lo.

[3.] Uma baixeza verdadeira ao ceder aos companheiros perversos. Herodes atendeu menos por causa do juramento do que por tê-lo feito em público e por formalidade para com os convidados à mesa. Concedeu o pedido para não parecer, diante deles, que quebrara a palavra.

Repare: para muitos, uma questão de honra pesa muito mais que uma questão de consciência. Os convidados provavelmente tinham gostado da dança tanto quanto Herodes. Por isso, queriam que, por diversão, a jovem fosse atendida de qualquer maneira; talvez desejassem tanto quanto ela ver a cabeça de João Batista cortada.

De todo modo, nenhum deles teve a honestidade de intervir para impedir o crime, como fizeram os príncipes de Jeoaquim (Jeremias 36:25). Se algumas pessoas comuns estivessem presentes, teriam resgatado esse Jônatas, como em 1 Samuel 14:45.

[4.] Uma malícia verdadeira contra João por trás da concessão. Do contrário, Herodes teria encontrado pretextos suficientes para escapar da promessa. Repare: embora uma mente perversa nunca fique sem desculpa, a verdade é que “cada pessoa é tentada quando atraída e seduzida pelo próprio desejo” (Tiago 1:14).

Talvez, ao refletir sobre sua promessa extravagante, Herodes pensasse que a jovem poderia exigir grande quantia de dinheiro, algo que ele prezava muito mais do que João Batista. Assim se alegrou por livrar-se da obrigação a custo tão baixo.

Por isso ordenou imediatamente a decapitação de João, ao que parece por ordem verbal, não por escrito. Tão pouco valor se dava àquela vida preciosa! Mandou que a cabeça fosse entregue à jovem.

(5.) A execução de João em cumprimento da ordem (v. 10): Herodes mandou decapitá-lo na prisão. É provável que ela ficasse muito perto, junto ao portão do palácio. Um oficial foi enviado para cortar a cabeça daquele grande homem.

Era preciso fazê-lo depressa para satisfazer Herodias, ansiosa até que se consumasse o crime. Ocorreu à noite: era hora do jantar e, ao que parece, depois da refeição. Ocorreu na prisão, não no local habitual de execuções, por medo de uma revolta.

Muito sangue inocente, sangue de mártires, foi derramado assim em lugares escondidos. Quando Deus vier pedir contas desse sangue, a terra o revelará e não mais o encobrirá (Isaías 26:21; Salmos 9:12).

Assim foi silenciada aquela voz e apagada aquela luz ardente e brilhante. Assim o profeta, o Elias do Novo Testamento, caiu como vítima do ressentimento de uma mulher dominadora e adúltera.

Aquele que era grande aos olhos do Senhor morreu como morre um insensato: tinha as mãos atadas e os pés presos em correntes. Caiu como alguém que tomba diante de homens perversos. Foi um verdadeiro mártir em todos os sentidos: morreu não por professar a fé, mas por cumprir o dever.

Contudo, embora sua obra tenha terminado cedo, foi realizada, e seu testemunho estava completo, pois nenhuma testemunha de Deus é morta antes disso. Deus tirou deste acontecimento um bem: os discípulos de João, que haviam permanecido próximos dele enquanto vivia, mesmo na prisão, depois de sua morte se uniram de coração a Jesus Cristo.

  1. O destino dos pobres restos mortais desse santo e mártir abençoado. Separados a cabeça e o corpo:

(1.) A jovem levou a cabeça triunfalmente à mãe, como troféu das vitórias de sua malícia e vingança (v. 11). Jerônimo, em carta a Rufino, relata que Herodias, ao receber a cabeça de João Batista, se divertiu barbaramente espetando-lhe a língua com uma agulha, como Fúlvia fez com a de Túlio.

Repare: mentes sanguinárias têm prazer em cenas de sangue, diante das quais pessoas sensíveis recuam e tremem. Às vezes, a fúria insaciável dos perseguidores se volta contra os corpos dos santos depois da morte, transformando-os em objeto de diversão (Salmos 79:2).

Quando as testemunhas são mortas, os habitantes da terra se alegram e festejam (Apocalipse 11:10; Salmos 14:4-5).

(2.) Os discípulos sepultaram o corpo e levaram a notícia, em lágrimas, ao nosso Senhor Jesus. Enquanto João esteve preso, seus discípulos jejuaram muitas vezes; seu noivo lhes fora tirado. Oraram fervorosamente por sua libertação, como a igreja orou pela de Pedro (Atos 12:5).

Tinham livre acesso a João na prisão, o que lhes trazia consolo, mas desejavam vê-lo livre para pregar aos outros. De repente, porém, todas as esperanças foram destruídas. Os discípulos choram e lamentam quando o mundo se alegra. Vejamos o que fizeram:

[1.] Sepultaram o corpo. Repare: os servos de Cristo merecem respeito não só em vida, mas também, depois de mortos, em seu corpo e em sua memória. A respeito dos dois primeiros mártires do Novo Testamento, registra-se em especial que foram sepultados dignamente: João Batista por seus discípulos e Estêvão por homens piedosos (Atos 8:2).

Ainda assim, ninguém guardou seus ossos ou outras relíquias em santuários, superstição que surgiu muito depois, quando o inimigo já havia semeado joio. O excesso de respeito ao corpo dos santos acaba por destruir o verdadeiro respeito: não devemos desprezá-los, mas tampouco divinizá-los.

[2.] Foram contar a Jesus. Fizeram-no menos para que ele se protegesse, pois sem dúvida soubera do ocorrido por outros e todo o país comentava o caso, do que para receber consolo e ser acolhidos entre seus discípulos.

Repare, primeiro: sempre que algo nos aflige, é nosso dever e privilégio contar a Cristo. Abrir o coração a um amigo com quem podemos falar livremente alivia o espírito oprimido. Se um parente morreu ou nos trata sem bondade, se perdemos um consolo ou ele se tornou amargo, vamos contar a Jesus.

Ele já sabe, mas saberá de nós a dor da alma na adversidade.

Segundo: devemos cuidar para que nossa religião e a profissão dela não morram com nossos ministros. Depois da morte de João, os discípulos não voltaram cada um para sua vida anterior; decidiram perseverar.

Quando os pastores são feridos, as ovelhas não precisam dispersar-se: podem ir ao grande Pastor, que permanece o mesmo (Hebreus 13:8, 20). A partida dos ministros deve aproximar-nos de Cristo, levando-nos a uma comunhão mais direta com ele.

Terceiro: às vezes perdemos consolos de grande valor porque passam a interpor-se entre nós e Cristo, recebendo o amor e a estima que só a ele pertencem. João havia muito tempo orientara seus discípulos a buscar Cristo e os encaminhara a ele, mas não conseguiam deixar o antigo mestre enquanto vivia.

Por isso João foi retirado, para que fossem a Jesus, de quem às vezes haviam sentido ciúme e inveja por causa dele. É melhor ser atraído a Cristo pela necessidade e pela perda do que jamais chegar a ele.

Se os mestres terrenos nos forem tirados, temos este consolo: há um Mestre no céu que é também nosso Cabeça.

Josefo menciona a morte de João Batista (Antiguidades, 18.116-119). Acrescenta que os judeus geralmente consideravam a derrota fatal do exército de Herodes na guerra contra Aretas, rei de Pétrea, um justo castigo por ter matado João.

A filha de Aretas era esposa de Herodes, que a repudiou para dar lugar a Herodias. Herodes, por instigação de Herodias, também desagradou ao imperador; perdeu o governo, e ambos foram banidos para Lião, na França. Segundo Josefo, esse foi o justo castigo por Herodes ter atendido às solicitações dela.

Por fim, conta-se que a filha de Herodias, ao atravessar o gelo no inverno, caiu quando ele se rompeu. Afundou até o pescoço, que foi cortado pelo gelo afiado. Deus exigiu a cabeça dela, diz o dr. Whitby, em troca da de João Batista. Se essa história for verdadeira, foi uma notável providência.

Versículos 13 a 21

A Alimentação dos Cinco Mil.

Esse episódio, em que Cristo alimentou cinco mil homens com cinco pães e dois peixes, é narrado pelos quatro evangelistas, o que ocorre com pouquíssimos dos milagres de Cristo, se é que ocorre com algum outro. Isso sugere que há nele algo digno de atenção especial. Observe:

I. O grande número de pessoas que procurou Cristo quando ele se retirou para um lugar deserto (v. 13). Ele buscou a privacidade ao ouvir não da morte de João, mas do que Herodes pensava a seu respeito: que era João Batista ressuscitado dos mortos. Por isso, Herodes o temia a ponto de odiá-lo. Cristo se afastou ainda mais, para sair da jurisdição de Herodes.

Repare: em tempos de perigo, quando Deus abre uma saída, é lícito fugir para preservar a própria vida, a menos que tenhamos um chamado especial para nos expor. A hora de Cristo ainda não havia chegado; por isso, ele não se lançou ao sofrimento.

Poderia ter-se protegido pelo poder divino, mas, como sua vida devia servir de exemplo, agiu com prudência humana: partiu de barco. Uma cidade sobre um monte, porém, não pode ficar escondida. Ao saber disso, o povo o seguiu a pé, vindo de toda parte.

Cristo ocupava um lugar tão grande no afeto da multidão que sua retirada só fez as pessoas segui-lo com mais empenho. Aqui, como tantas vezes, cumpriu-se a Escritura: a ele se reuniriam os povos. Parece que, depois do martírio de João, ainda mais pessoas procuraram Cristo.

Às vezes, os sofrimentos dos santos contribuem para o avanço do evangelho (Filipenses 1:12), e “o sangue dos mártires é a semente da igreja”. Concluído o testemunho de João, as pessoas se lembraram dele e tiraram dele mais proveito do que antes.

Repare: 1. Quando Cristo e sua palavra se afastam de nós, é melhor segui-los, por mais que a natureza humana objete, preferindo as oportunidades de proveito para a alma a qualquer vantagem deste mundo. Quando a arca mudar de lugar, mudem-se vocês e sigam-na (Josué 3:3).

  1. Quem deseja de verdade o leite puro da palavra não recuará diante das dificuldades para recebê-la. A presença de Cristo e de seu evangelho torna um lugar deserto não só suportável, mas desejável: transforma o deserto num Éden (Isaías 51:3; 41:19-20).

II. A terna compaixão de nosso Senhor Jesus por aqueles que o seguiram (v. 14). 1. Ele saiu e apareceu publicamente entre eles. Embora se tivesse retirado para sua segurança e seu descanso, deixou o retiro ao ver pessoas desejosas de ouvi-lo. Estava disposto tanto a trabalhar quanto a expor-se pelo bem das almas, pois nem mesmo Cristo agradou a si próprio.

  1. Ao ver a multidão, compadeceu-se dela. Repare: ver uma grande multidão pode justamente despertar compaixão. Contemplar tantas almas preciosas e imortais, das quais temos motivo para temer que a maioria esteja negligenciada e perto de perecer, entristece profundamente o coração. Ninguém se compadece das almas como Cristo; sua compaixão não falha.

  2. Não se limitou a compadecer-se: ajudou-as. Muitos estavam doentes, e ele os curou por compaixão, pois veio ao mundo para ser o grande Curador. Mais tarde, todos sentiram fome, e ele, também por compaixão, os alimentou. Repare: em todos os favores que Cristo nos concede, é movido pela compaixão (Isaías 63:9).

III. A sugestão dos discípulos de despedir a multidão e a decisão de Cristo de não aceitá-la. 1. Quando a tarde se aproximava, os discípulos sugeriram que ele dispensasse o povo. Achavam que já haviam trabalhado bastante naquele dia e que era hora de dispersar a multidão.

Repare: os discípulos de Cristo muitas vezes se preocupam mais em demonstrar prudência do que zelo e grande afeição pelas coisas de Deus.

  1. Cristo não quis despedi-los com fome, mantê-los ali por mais tempo sem comida nem obrigá-los ao trabalho e ao custo de comprá-la. Ordenou aos discípulos que providenciassem alimento. Cristo sempre demonstrou mais ternura pelo povo do que seus discípulos. O que é a compaixão dos homens mais misericordiosos, comparada à terna misericórdia de Deus em Cristo?

Veja como Cristo reluta em separar-se daqueles que estão decididos a permanecer com ele: “Não precisam ir embora”. Repare: quem tem Cristo tem o suficiente e não precisa ir embora procurar felicidade e sustento nas coisas criadas. Quem assegurou a única coisa necessária não precisa ficar sobrecarregado com muitos serviços.

Cristo tampouco imporá gastos desnecessários aos seguidores que o acompanham de boa vontade; tornará pouco custoso estar com ele.

Mas, se estão com fome, precisam ir embora, pois a necessidade não conhece lei. Portanto: “Deem-lhes vocês de comer”. Repare: o Senhor cuida do corpo. É obra de suas mãos, parte daquilo que ele comprou. Ele próprio se revestiu de um corpo para nos animar a depender dele para o suprimento das necessidades corporais.

Cuida do corpo de modo especial quando este serve à alma no serviço mais direto a ele. Se buscarmos primeiro o reino de Deus e fizermos disso nossa preocupação principal, podemos confiar que Deus nos acrescentará as demais coisas conforme julgar apropriado e entregar a ele todo o cuidado com elas.

Essas pessoas seguiram Cristo apenas a título de experiência, num impulso momentâneo de zelo, e mesmo assim ele cuidou delas. Quanto mais cuidará daqueles que o seguem plenamente!

IV. A pequena provisão disponível para uma multidão tão grande. Compare o número de convidados com o cardápio:

  1. Havia cinco mil homens, além das mulheres e crianças. É provável que o número destas fosse igual ou superior ao dos homens. Cristo pregou a um público imenso e, ao que tudo indica, atento. Apesar disso, parece que a maioria, com todo aquele aparente zelo e disposição, não perseverou: deixou de segui-lo. Muitos são chamados, mas poucos, escolhidos.

Preferimos avaliar a aceitação da palavra pela conversão dos ouvintes do que pelo número deles, embora ver multidões também seja bom e promissor.

  1. O cardápio era muito pequeno para tantos convidados: apenas cinco pães e dois peixes. Era a provisão que os discípulos levavam para o uso do grupo enquanto estavam retirados no deserto. Cristo poderia tê-los alimentado por milagre, mas, para nos dar o exemplo de sustentar os de nossa casa, quis que seu grupo levasse comida da maneira habitual.

Ali não havia fartura, variedade nem iguarias. Para pescadores, uma refeição de peixe não era raridade, mas esse alimento bastava aos doze: dois peixes para o jantar e pão, talvez para um ou dois dias. Não havia vinho nem bebida forte; a melhor bebida para acompanhar a refeição era água limpa dos rios do deserto.

Ainda assim, Cristo quis alimentar a multidão com essa provisão. Repare: quem tem pouco deve, em caso de necessidade urgente, repartir desse pouco com os outros. Esse é o caminho para aumentá-lo. Pode Deus preparar uma mesa no deserto? Sim, quando quer, pode preparar uma mesa farta.

V. A generosa distribuição da provisão entre a multidão (vv. 18-19): “Trazei-os aqui a mim”. Repare: para que o conforto proporcionado pelas coisas criadas seja realmente conforto para nós, devemos trazê-las a Cristo. Tudo é santificado por sua palavra e pela oração dirigida a ele.

Aquilo que colocamos nas mãos de nosso Senhor Jesus tende a prosperar e a fazer-nos bem. Ele pode dispor disso como quiser; nós o recebemos de volta de suas mãos e, assim, seu sabor nos é duas vezes mais agradável.

O que damos por caridade devemos primeiro trazer a Cristo, para que ele o receba de nós com bondade e, por sua bondade, o abençoe em benefício daqueles que o recebem. Isso é dar como quem dá ao Senhor.

Nessa refeição milagrosa, podemos observar:

  1. A acomodação dos convidados (v. 19). Ele mandou que se sentassem. Isso indica que, enquanto os ensinava, estavam de pé, postura de reverência e de prontidão para mover-se. Mas de onde viriam assentos para todos? Que se sentassem na relva.

Quando Assuero quis mostrar as riquezas de seu glorioso reino e a honra de sua magnífica majestade, oferecendo um banquete real aos grandes de todas as províncias, os leitos em que se reclinavam eram de ouro e prata, sobre um piso de mármore vermelho, azul, branco e preto (Ester 1:6).

Nosso Senhor Jesus mostrou então, num banquete divino, as riquezas de um reino ainda mais glorioso e a honra de uma majestade ainda mais excelente: seu domínio sobre a própria natureza. Ali, porém, não havia sequer toalha estendida, pratos, guardanapos, facas, garfos ou banco para sentar.

Como se Cristo quisesse realmente conduzir o mundo de volta à singeleza e simplicidade e, assim, à inocência e felicidade de Adão no paraíso, mandou que se sentassem na relva. Fazendo tudo sem pompa nem ostentação, mostrou claramente que seu reino não é deste mundo nem vem de modo ostensivo.

  1. O pedido da bênção. Cristo não designou um discípulo para servir-lhe de capelão; ele próprio ergueu os olhos ao céu, abençoou e deu graças. Louvou a Deus pelo alimento de que dispunham e orou para que Deus o abençoasse em benefício deles.

Seu pedido da bênção era uma ordem para que ela viesse, pois tanto ao pregar como ao orar agia como quem tem autoridade. Podemos supor que, nessa oração e ação de graças, tinha em vista especialmente a multiplicação do alimento.

Nisso ele também nos ensinou o bom costume de pedir a bênção e dar graças nas refeições. As boas dádivas de Deus devem ser recebidas com gratidão (1 Timóteo 4:4). Samuel abençoou o banquete (1 Samuel 9:13; Atos 2:46-47; 27:34-35).

Isso é comer e beber para a glória de Deus (1 Coríntios 10:31), dando-lhe graças (Romanos 14:6), e comer diante de Deus, como fizeram Moisés e seu sogro (Êxodo 18:12, 15).

Quando Cristo abençoou, ergueu os olhos ao céu, para nos ensinar a olhar para Deus como Pai celestial ao orar. Quando recebemos o conforto das coisas criadas, também devemos voltar os olhos naquela direção, recebendo-as das mãos de Deus e dependendo dele pela bênção.

  1. A distribuição da comida. O Anfitrião do banquete serviu pessoalmente: partiu os pães e os deu aos discípulos; estes os deram à multidão. Cristo quis honrar os discípulos, para que fossem respeitados como seus cooperadores. Também mostrou como o alimento espiritual da palavra deveria chegar ao mundo: de Cristo, Autor original, por meio de seus ministros.

O que Cristo destinou às igrejas, revelou a seu servo João (Apocalipse 1:1, 4). Os discípulos transmitiram tudo, e somente aquilo, que receberam do Senhor (1 Coríntios 11:23).

Os ministros jamais poderão encher o coração do povo se Cristo não lhes encher primeiro as mãos. Aquilo que ele deu aos discípulos, estes devem dar à multidão, pois são administradores encarregados de dar a cada pessoa sua porção de alimento (Mateus 24:45).

Graças a Deus, por maior que seja a multidão, há o suficiente para todos e para cada um.

  1. A multiplicação da comida. O relato mostra apenas o efeito, não a causa nem o modo. Não menciona palavra alguma de Cristo pela qual o alimento se multiplicasse. Os propósitos e intenções de sua mente e vontade produzem efeito mesmo quando não são pronunciados.

Observe, porém, que a comida se multiplicou durante a distribuição, não no monte inicial. Como o azeite da viúva aumentava ao ser derramado, aqui o pão aumentava ao ser partido. Assim a graça cresce quando é posta em prática. Ao passo que outras coisas se gastam com o uso, os dons espirituais aumentam com o uso.

Deus fornece semente ao semeador e multiplica não a semente acumulada, mas a semeada (2 Coríntios 9:10). Assim, há quem distribui e ainda aumenta o que tem: distribui e, por isso, aumenta.

VI. Todos os convidados comeram até se satisfazer. Apesar da enorme desproporção, houve comida suficiente e ainda sobrou.

  1. Houve o suficiente: todos comeram e ficaram saciados. Repare: Cristo satisfaz aqueles a quem alimenta. Assim diz a promessa: “Serão satisfeitos” (Salmos 37:19). Houve o suficiente para todos, pois todos comeram, e o suficiente para cada um, pois ficaram saciados. Embora houvesse pouco, bastou; isso equivale a um banquete.

Repare: a bênção de Deus pode fazer o pouco render muito. Do mesmo modo, se Deus tirar a bênção do que temos, comeremos sem ficar satisfeitos (Ageu 1:6).

  1. Houve sobra: recolheram os pedaços restantes e encheram doze cestos, um para cada apóstolo. Assim, receberam de volta o que haviam dado e muito mais. Longe de serem exigentes, podiam aproveitar esses pedaços de comida em outra ocasião e agradecer por eles.

Isso manifestava e engrandecia o milagre. Também mostrava que a provisão feita por Cristo aos seus não é apenas o mínimo nem é escassa, mas rica e abundante: pão suficiente e de sobra (Lucas 15:17), uma plenitude transbordante.

A multiplicação dos pães por Eliseu se pareceu um pouco com essa, mas ficou muito aquém. Naquela ocasião, foi dito: “Comerão e deixarão sobras” (2 Reis 4:43).

É o mesmo poder divino que, embora exercido de modo habitual, multiplica todos os anos a semente lançada à terra e faz o solo produzir. O que foi levado ao campo aos punhados volta para casa em feixes. Isso é obra do Senhor. É por Cristo que todas as coisas naturais subsistem, sustentadas pela palavra de seu poder.

Versículos 22 a 33

Jesus Caminha sobre o Mar até os Seus Discípulos.

Temos aqui o relato de outro milagre que Cristo realizou para socorrer seus amigos e seguidores: ele caminhou sobre as águas até os discípulos. No milagre anterior, agiu como Senhor da natureza, aproveitando as forças dela para suprir os necessitados.

Neste, agiu como Senhor da natureza, corrigindo e controlando suas forças para socorrer os que estavam em perigo e aflição. Observe:

I. Cristo despediu os discípulos e a multidão depois de alimentá-los milagrosamente. Obrigou os discípulos a entrar num barco e a ir adiante dele para a outra margem, v. 22. São João dá uma razão específica para a dispersão apressada daquela reunião.

O povo ficou tão impressionado com o milagre dos pães que estava para tomá-lo à força e fazê-lo rei (João 6:15). Para evitar isso, ele logo dispersou a multidão, mandou os discípulos embora para que não se juntassem a ela e retirou-se, João 6:15.

Depois de sentar-se para comer e beber, o povo não se levantou para divertir-se; cada um foi cuidar de seus afazeres.

  1. Cristo despediu o povo. Isso sugere certa solenidade na despedida: mandou-os embora com uma bênção e algumas palavras finais de advertência, conselho e conforto, que poderiam permanecer com eles.

  2. Obrigou os discípulos a entrar primeiro no barco, pois, enquanto eles não partissem, o povo não se moveria. Os discípulos relutavam em ir e não teriam partido se ele não os tivesse obrigado. Não queriam ir ao mar sem ele: “Se a tua presença não for conosco, não nos faças subir daqui”, Êxodo 33:15.

Também relutavam em deixá-lo sozinho, sem ninguém que o acompanhasse nem barco algum à sua espera. Mas fizeram isso por pura obediência.

II. Cristo então se retirou (v. 23): “Subiu ao monte, à parte, para orar”. Observe aqui:

  1. Que ele estava sozinho: foi a um lugar solitário e ali ficou inteiramente só. Embora tivesse tanto trabalho a fazer com os outros, às vezes escolhia ficar sozinho para nos dar o exemplo. Não são seguidores de Cristo os que não gostam de estar sós e não conseguem desfrutar da solidão quando só têm Deus e o próprio coração com quem conversar e em quem encontrar prazer.

  2. Que ele estava sozinho em oração: esse era o propósito da sua solidão, orar. Embora Cristo, como Deus, fosse Senhor de todos e recebesse orações, como Homem assumiu a forma de servo, de mendigo, e orou.

Cristo nos deu, nisso, um exemplo de oração particular e de sua prática em segredo, segundo a regra que ele estabeleceu, Mateus 6:6. Talvez houvesse naquele monte um oratório particular ou algum lugar apropriado para essa ocasião; era comum entre os judeus que existissem lugares assim.

Observe: enquanto os discípulos iam ao mar, o Mestre ia orar; quando Pedro estava para ser peneirado como trigo, Cristo orou por ele.

  1. Que ele ficou sozinho por muito tempo: estava ali quando chegou a tarde e, pelo que se pode ver, permaneceu até perto da manhã, a quarta vigília da noite. A noite caiu, e foi uma noite de tempestade, mas ele persistiu em oração.

Repare: é bom, ao menos em algumas ocasiões especiais e quando sentimos nosso coração dilatado, permanecer muito tempo em oração particular e derramar amplamente o coração diante do Senhor. Não devemos restringir a oração, Jó 15:4.

III. A situação em que se encontravam os pobres discípulos naquele momento: o barco já estava no meio do mar, açoitado pelas ondas, v. 24. Podemos observar aqui:

  1. Que já haviam chegado ao meio do mar quando a tempestade se levantou. Podemos ter bom tempo no início da viagem e ainda encontrar tempestades antes de chegar ao porto de destino. Portanto, quem veste a armadura não se glorie como quem a tira; depois de uma longa calmaria, espere alguma tempestade.

  2. Os discípulos estavam onde Cristo os havia mandado estar e, mesmo assim, encontraram aquela tempestade. Se estivessem fugindo do Mestre e do trabalho, como Jonas quando a tempestade o deteve, ela teria sido de fato terrível. Mas tinham uma ordem expressa do Mestre para ir ao mar naquele momento e estavam cumprindo sua tarefa.

Repare: não é novidade os discípulos de Cristo encontrarem tempestades no caminho do dever e serem mandados ao mar quando o Mestre já prevê uma tempestade. Mas não considerem isso uma falta de bondade: ainda não sabem o que ele faz, mas saberão depois que Cristo tem nisso o desígnio de manifestar-se com graça ainda mais maravilhosa a eles e em favor deles.

  1. Foi motivo de grande desânimo para eles não terem Cristo consigo, como o tinham tido numa tempestade anterior. É verdade que ele dormia naquela ocasião, mas logo foi despertado (Mateus 8:24); agora, porém, não estava com eles de modo algum.

Assim Cristo acostumou os discípulos primeiro a dificuldades menores e depois a maiores; desse modo os prepara gradualmente para viver pela fé e não pelo que veem.

  1. Embora o vento fosse contrário e as ondas os sacudissem, como o Mestre lhes ordenara seguir para a outra margem, não deram meia-volta para retornar, mas fizeram o possível para avançar. Repare: ainda que as aflições e dificuldades nos perturbem no cumprimento do dever, não devem nos afastar dele. Precisamos seguir em frente através delas.

IV. Cristo se aproxima deles nessa situação (v. 25). Nisso temos um exemplo:

  1. De sua bondade: foi até eles, como alguém que conhecia sua situação e se preocupava com eles, como um pai com os filhos. Repare: a aflição extrema da igreja e do povo de Deus é a ocasião em que Cristo os visita e age em favor deles.

Mas ele só chegou na quarta vigília, perto das três horas da manhã, pois era então que ela começava. Foi na vigília da manhã que o Senhor apareceu em favor de Israel no mar Vermelho (Êxodo 14:24), e assim aconteceu aqui.

Aquele que guarda Israel não cochila nem dorme; quando há necessidade, porém, caminha nas trevas para socorrê-lo. Ele ajuda, e bem cedo.

  1. De seu poder: foi até eles caminhando sobre o mar. Esse é um grande exemplo do domínio soberano de Cristo sobre todas as criaturas. Todas estão debaixo de seus pés e às suas ordens; esquecem sua natureza e mudam as qualidades que chamamos essenciais.

Não precisamos investigar como isso aconteceu, se pela condensação da superfície da água (quando Deus quer, as profundezas se congelam no coração do mar, Êxodo 15:8) ou pela suspensão do peso de seu corpo, que se transfigurava conforme sua vontade.

Basta que isso prove seu poder divino, pois é prerrogativa de Deus caminhar sobre as ondas do mar (Jó 9:8), assim como cavalgar sobre as asas do vento. Aquele que fez das águas do mar uma muralha para os remidos do Senhor (Isaías 51:10) aqui as faz um caminho para o próprio Redentor.

Como Senhor de tudo, ele aparece com um pé sobre o mar e o outro sobre a terra seca, Apocalipse 10:2. O mesmo poder que fez o ferro flutuar (2 Reis 6:6) fez isso. “Que tens tu, ó mar?” Salmos 114:5. Foi por causa da presença do Senhor. “O teu caminho, ó Deus, está no mar” (Salmos 77:19). Repare: Cristo pode tomar o caminho que quiser para salvar seu povo.

V. Aqui está o relato do que se passou entre Cristo e seus amigos aflitos quando se aproximou.

  1. Entre ele e todos os discípulos. Aqui nos é dito:

(1.) Como seus temores surgiram (v. 26): ao vê-lo caminhar sobre o mar, ficaram perturbados e disseram: “É um espírito”. Phantasma esti, “É uma aparição”, seria uma tradução muito melhor. Parece que todos criam na existência e na aparição de espíritos, exceto os saduceus, contra cuja doutrina Cristo havia advertido os discípulos.

Sem dúvida, porém, muitas supostas aparições foram apenas criaturas do medo e da imaginação dos homens. Esses discípulos deveriam ter dito: “É o Senhor; não pode ser outro”. Repare: [1.] Até as manifestações e aproximações do livramento às vezes causam perturbação e perplexidade ao povo de Deus.

Por vezes eles mais se assustam quando menos sofrem dano; ou melhor, quando recebem maiores favores, como aconteceu com a virgem Maria, Lucas 1:29; Êxodo 3:6, 7. Os consolos do Espírito de adoção são precedidos pelos terrores do espírito de escravidão, Romanos 8:15.

[2.] A aparição de um espírito, ou a imaginação de uma, só pode assustar e causar-nos terror, por causa da distância entre nós e o mundo dos espíritos, da justa queixa que os espíritos bons têm contra nós e da inimizade inveterada dos espíritos maus em relação a nós; veja Jó 4:14, 15.

Quanto mais conhecermos a Deus, o Pai dos espíritos, e quanto mais cuidarmos de permanecer em seu amor, melhor poderemos lidar com esses medos.

[3.] Os medos perturbadores e inquietantes das pessoas boas surgem de seus enganos e concepções erradas a respeito de Cristo, de sua pessoa, de seus ofícios e de sua obra. Quanto mais clara e plenamente conhecermos seu nome, com mais confiança depositaremos nele nossa fé, Salmos 9:10.

[4.] Uma coisa pequena nos assusta durante uma tempestade. Quando há lutas por fora, não admira que haja temores por dentro. Talvez os discípulos imaginassem que algum espírito mau tivesse provocado a tempestade. Repare: a maior parte do perigo que corremos por causa das aflições exteriores vem da oportunidade que elas dão à perturbação interior.

(2.) Como esses medos foram silenciados, v. 27. Ele imediatamente os aliviou, mostrando-lhes seu engano. Enquanto lutavam contra as ondas, adiou o socorro por algum tempo; mas apressou-se a socorrê-los contra o susto, tanto mais perigoso. Logo acalmou aquela tempestade com sua palavra: “Tende bom ânimo; sou eu; não temais”.

[1.] Corrigiu o engano deles ao dar-se a conhecer, como José fez com seus irmãos: “Sou eu”. Não disse seu nome, como fez a Paulo: “Eu sou Jesus”, pois Paulo ainda não o conhecia. Mas, para esses discípulos, bastava dizer: “Sou eu”.

Eles conheciam sua voz, como suas ovelhas (João 10:4), como Maria Madalena, João 20:16. Não precisavam perguntar: “Quem és tu, Senhor? Estás do nosso lado ou do lado dos nossos adversários?”. Podiam dizer, como a esposa: “É a voz do meu amado”, Cantares de Salomão 2:8; 5:2.

Os verdadeiros crentes reconhecem-no por um bom sinal. Para tranquilizá-los, bastava saber quem era aquele que viam. Repare: o conhecimento correto abre a porta para o verdadeiro conforto, sobretudo o conhecimento de Cristo.

[2.] Encorajou-os contra o susto: “Sou eu” e, portanto: Primeiro, “Tende bom ânimo”. Tharseite: “Sede corajosos; reanimai-vos e tende coragem”. Se os discípulos de Cristo não se alegram numa tempestade, a culpa é deles próprios; ele quer que se alegrem.

Segundo, “Não temais”. 1. “Não tenhais medo de mim, agora que sabeis que sou eu. Certamente não temereis, pois sabeis que não quero causar-vos dano.” Repare: Cristo não será motivo de terror para aqueles a quem se revela. Quando passarem a compreendê-lo corretamente, o terror acabará.

  1. “Não tenhais medo da tempestade, dos ventos e das ondas, embora façam muito ruído e pareçam tão ameaçadores. Não os temais enquanto eu estiver tão perto de vós. Sou aquele que se preocupa convosco e não ficarei parado vendo-vos perecer.”

Repare: nada precisa aterrorizar aqueles que têm Cristo perto de si e sabem que ele é deles; nem mesmo a própria morte.

  1. Entre ele e Pedro, vv. 28-31, onde observamos:

(1.) A coragem de Pedro e a aprovação que Cristo lhe deu.

[1.] Foi muita ousadia de Pedro arriscar-se a ir até Cristo sobre a água (v. 28): “Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo”. A coragem era a graça dominante em Pedro, e por isso ele se adiantava mais que os outros para expressar seu amor a Cristo, embora talvez os demais o amassem tanto quanto ele.

Primeiro, o desejo de ir até Cristo é uma demonstração da afeição de Pedro por ele. Ao ver Cristo, por quem sem dúvida ansiara muitas vezes durante a tempestade, mal podia esperar para estar com ele.

Não disse: “Manda-me caminhar sobre as águas”, como se desejasse isso por causa do milagre, mas: “Manda-me ir ter contigo”, pois desejava isso por causa de Cristo. “Deixa-me ir até ti, seja como for.” Repare: o amor verdadeiro atravessará fogo e água, quando devidamente chamado a isso, para chegar a Cristo.

Cristo vinha até eles para socorrê-los e livrá-los. Pedro disse: “Senhor, manda-me ir ter contigo”. Repare: quando Cristo se aproxima de nós pelo caminho da misericórdia, devemos sair ao seu encontro pelo caminho do dever. Nisso precisamos estar dispostos e ser ousados para arriscar-nos com ele e por ele.

Os que querem receber os benefícios de Cristo como Salvador devem, assim, ir a ele pela fé. Cristo estivera ausente por algum tempo, e aqui se vê por que se afastara: para se tornar ainda mais querido aos discípulos quando voltasse, tornando seu retorno especialmente oportuno e duplamente bem-vindo.

Repare: quando Cristo abandona seu povo por um breve momento, sua volta é bem-vinda e acolhida com a mais profunda afeição. Quando, após longa busca, as almas piedosas finalmente encontram seu Amado, seguram-no e não o deixam ir, Cantares de Salomão 3:4.

Segundo, a cautela de Pedro e sua devida atenção à vontade de Cristo se mostram no fato de ele não querer ir sem autorização. Não disse: “Se és tu, irei”, mas: “Se és tu, manda-me ir”. Repare: mesmo os espíritos mais ousados precisam esperar ser chamados para empreendimentos perigosos; não devemos lançar-nos neles de modo precipitado e presunçoso.

Nossa disposição para servir e sofrer não é considerada boa vontade, mas teimosia, se não levar em conta a vontade de Cristo nem for regulada por seu chamado e sua ordem. Hoje não devemos esperar autorizações extraordinárias como a que Pedro recebeu; precisamos recorrer às regras gerais da palavra.

Ao aplicar essas regras aos casos particulares, com a ajuda dos indícios providenciais, a sabedoria é proveitosa para orientar.

Terceiro, Pedro demonstrou fé e decisão ao aventurar-se sobre a água quando Cristo lhe ordenou. Deixar a segurança do barco e lançar-se nas garras da morte, desprezando as ondas ameaçadoras que tanto temera pouco antes, evidenciava grande dependência do poder e da palavra de Cristo. Que dificuldade ou perigo poderia resistir a tamanha fé e tamanho zelo?

[2.] Cristo foi muito bondoso e condescendente ao aprovar Pedro nisso, v. 29. Poderia ter condenado sua proposta como tola e precipitada, ou até orgulhosa e pretensiosa: “Pedro vai se arrogar fazer o que seu Mestre faz?”

Mas Cristo sabia que ela nascia de uma afeição sincera e zelosa por ele e a aceitou graciosamente. Repare: Cristo se agrada das expressões de amor de seu povo, embora misturadas a muitas fraquezas, e as interpreta da melhor maneira.

Primeiro, mandou-o vir. Quando os fariseus pediram um sinal, receberam não só uma recusa, mas também uma repreensão, porque o fizeram com o desígnio de pôr Cristo à prova. Quando Pedro pediu um sinal, recebeu-o, porque o fez decidido a confiar em Cristo.

O chamado do evangelho é: “Vinde, vinde a Cristo; confiai tudo às suas mãos e entregai-lhe a guarda de vossa alma; atravessai um mar tempestuoso, um mundo atribulado, para chegar a Jesus Cristo”.

Segundo, sustentou-o quando ele foi: Pedro caminhou sobre a água. A comunhão dos verdadeiros crentes com Cristo é representada pelo fato de serem vivificados com ele, ressuscitados com ele e assentados com ele (Efésios 2:5, 6), bem como crucificados com ele, Gálatas 2:20.

Agora, parece-me que essa comunhão é representada nesta história por caminharem com ele sobre a água. Pela força de Cristo, somos sustentados acima do mundo, capacitados a pisá-lo, impedidos de afundar nele e de ser submersos por ele.

Alcançamos vitória sobre o mundo (1 João 5:4) pela fé na vitória de Cristo (João 16:33) e, com ele, somos crucificados para o mundo, Gálatas 6:14. Veja o bendito Pedro caminhando sobre a água com Jesus, mais que vencedor por meio dele e pisando todas as ondas ameaçadoras.

Essas ondas não podiam separá-lo do amor de Cristo, Romanos 8:35 etc. Assim, o mar do mundo se tornou como um mar de vidro, congelado a ponto de sustentar; e os que alcançaram a vitória permanecem sobre ele e cantam, Apocalipse 15:2, 3.

Pedro caminhou sobre a água não por diversão nem por ostentação, mas para ir até Jesus, e por isso foi sustentado de modo tão maravilhoso. Repare: quando nossa alma segue a Deus de perto, é então que sua mão direita nos sustém; essa foi a experiência de Davi, Salmos 63:8.

Sustentos especiais são prometidos e devem ser esperados somente quando buscamos as coisas espirituais. Quando Deus leva seu Israel sobre asas de águia, é para trazê-lo a si (Êxodo 19:4). Tampouco podemos chegar a Jesus sem ser sustentados por seu poder.

É na força dele que lutamos com ele, procuramos alcançá-lo e avançamos para o alvo, guardados pelo poder de Deus. Precisamos depender desse poder como Pedro ao caminhar sobre a água; não há perigo de afundar enquanto os braços eternos estiverem por baixo.

(2.) Aqui estão a covardia de Pedro e a repreensão e o socorro que Cristo lhe deu. Cristo mandou-o vir não apenas para que caminhasse sobre a água e conhecesse o poder de Cristo, mas também para que começasse a afundar e conhecesse sua própria fraqueza.

Pois, assim como queria animar-lhe a fé, também queria conter-lhe a autoconfiança e fazê-lo sentir vergonha dela. Observe então:

[1.] O grande medo de Pedro (v. 30): “Teve medo”. A fé mais forte e a maior coragem contêm uma mistura de medo. Os que podem dizer: “Senhor, eu creio”, precisam dizer também: “Senhor, ajuda a minha incredulidade”. Só o amor perfeito expulsará inteiramente o medo.

Os homens bons frequentemente falham justamente nas virtudes em que mais se destacam e que estão exercendo naquele momento; isso mostra que ainda não alcançaram a perfeição. Pedro foi muito valente no início, mas depois lhe faltou coragem. O prolongamento de uma prova revela a fraqueza da fé.

Aqui estão, primeiro, a causa desse medo: “Viu o vento forte”. Enquanto Pedro mantinha os olhos fixos em Cristo, em sua palavra e em seu poder, caminhava muito bem sobre a água. Mas, quando percebeu também o perigo em que estava e observou como as águas erguiam suas ondas, teve medo.

Repare: na raiz de todos os nossos medos desordenados, tanto nos assuntos públicos quanto nos pessoais, está olhar para as dificuldades com os olhos dos sentidos mais do que para os mandamentos e as promessas com os olhos da fé.

Abraão foi forte na fé porque “não considerou seu próprio corpo” (Romanos 4:19). Não deu atenção às improbabilidades desanimadoras em torno da promessa, mas manteve os olhos no poder de Deus; assim, “contra a esperança, creu em esperança”, v. 18.

Quando viu o vento forte, Pedro deveria ter-se lembrado do que havia visto (Mateus 8:27), quando os ventos e o mar obedeceram a Cristo. Mas tememos sem cessar todos os dias porque nos esquecemos do Senhor, nosso Criador, Isaías 51:12, 13.

Segundo, o efeito desse medo: começou a afundar. Enquanto a fé se mantinha firme, ele se mantinha acima da água; quando a fé vacilou, começou a afundar. Repare: o abatimento de nosso espírito se deve à fraqueza da fé.

Somos sustentados, assim como somos salvos, pela fé (1 Pedro 1:5). Portanto, quando nossa alma está abatida e inquieta, o remédio soberano é esperar em Deus, Salmos 43:5.

É provável que Pedro, criado como pescador, soubesse nadar muito bem (João 21:7). Talvez confiasse em parte nessa habilidade quando se lançou ao mar: se não conseguisse caminhar, conseguiria nadar.

Mas Cristo o deixou começar a afundar para mostrar-lhe que sua segurança estava na mão direita e no santo braço de Cristo, não em habilidade alguma de sua parte. Foi grande misericórdia de Cristo não o deixar afundar completamente quando sua fé falhou, nem descer ao fundo como uma pedra (Êxodo 15:5), mas dar-lhe tempo de clamar: “Senhor, salva-me”.

Tal é o cuidado de Cristo pelos verdadeiros crentes: embora fracos, apenas começam a afundar! Um homem nunca afundou por completo nem está arruinado antes de chegar ao inferno. Pedro caminhou conforme creu; para ele, como para outros, valeu a regra: “Seja-vos feito conforme a vossa fé”.

Terceiro, o remédio ao qual recorreu nessa aflição, o remédio antigo, experimentado e aprovado, foi a oração: clamou “Senhor, salva-me”. Observe: 1. O modo como orou foi fervoroso e insistente; ele clamou. Repare: quando a fé é fraca, a oração deve ser forte.

Nosso Senhor Jesus nos ensinou a oferecer fortes clamores no dia do nosso medo, Hebreus 5:7. A consciência do perigo nos fará clamar; a consciência do dever e de nossa dependência de Deus deve fazer-nos clamar a ele.

  1. O conteúdo de sua oração era pertinente e direto ao ponto: clamou “Senhor, salva-me”. Cristo é o grande Salvador; veio para salvar. Os que desejam ser salvos não devem apenas ir a ele, mas também clamar a ele por salvação. Só chegamos a esse ponto, porém, quando percebemos que estamos afundando; a consciência da necessidade nos leva a ele.

[2.] O grande favor de Cristo a Pedro nesse susto. Embora houvesse uma mistura de presunção com a fé de Pedro em sua primeira ousadia e de incredulidade com sua fé quando depois fraquejou, Cristo não o rejeitou, pois:

Primeiro, salvou-o. Respondeu-lhe com a força salvadora de sua mão direita (Salmos 20:6), pois imediatamente estendeu a mão e o segurou. Repare: Cristo nos salva quando afundamos (Salmos 18:4-7); ele ajuda no momento de extrema necessidade.

A mão de Cristo continua estendida para todos os crentes, impedindo-os de afundar. Aqueles a quem uma vez tomou como seus e arrebatou como tições do fogo, ele também tirará da água.

Embora pareça ter soltado sua mão, apenas parece fazê-lo, pois eles nunca perecerão, nem alguém os arrancará de sua mão, João 10:28. Não tenham medo: ele segurará os seus. Nosso livramento dos próprios temores, que de outro modo nos submergiriam, deve-se à mão de seu poder e de sua graça, Salmos 34:4.

Segundo, repreendeu-o, pois censura e corrige todos os que ama e salva: “Ó homem de pouca fé, por que duvidaste?”. Repare: 1. A fé pode ser verdadeira e, ainda assim, fraca; a princípio, como um grão de mostarda.

Pedro tinha fé suficiente para sair sobre a água; mas, como não bastou para sustentá-lo até o fim, Cristo lhe disse que tinha pouca fé. 2. Todas as nossas dúvidas e todos os nossos medos desanimadores resultam da fraqueza da nossa fé: duvidamos porque temos pouca fé.

Cabe à fé resolver as dúvidas, as dúvidas dos sentidos num dia de tempestade, de modo a manter a cabeça acima da água mesmo então. Se conseguíssemos crer mais, duvidaríamos menos.

  1. A fraqueza da nossa fé e o predomínio de nossas dúvidas desagradam muito ao Senhor Jesus. É verdade que ele não rejeita os crentes fracos; mas também é verdade que não se agrada da fé fraca, nem mesmo naqueles que lhe são mais próximos. “Por que duvidaste?” Que razão havia para isso?

Repare: nossas dúvidas e nossos medos logo desapareceriam diante de um exame rigoroso de suas causas. Pois, considerando tudo, não há boa razão para que os discípulos de Cristo tenham uma mente duvidosa, nem mesmo num dia de tempestade, porque ele está pronto a ser para eles um Socorro bem presente.

VI. A tempestade cessa, v. 32. Quando Cristo entrou no barco, eles logo chegaram à margem. Cristo caminhou sobre a água até alcançar o barco e então entrou nele, embora pudesse facilmente ter caminhado até a margem; mas, quando se dispõe dos meios comuns, não se devem esperar milagres.

Embora Cristo não precise de instrumentos para realizar sua obra, tem prazer em usá-los. Observe: quando Cristo entrou no barco, Pedro entrou com ele. Os que compartilham da perseverança de Cristo compartilharão de seus reinos, Apocalipse 1:9.

Os que caminham com ele reinarão com ele; os que são expostos ao perigo e sofrem com ele triunfarão com ele.

Quando entraram no barco, a tempestade cessou imediatamente, pois já havia cumprido sua função de prová-los. Aquele que ajuntou os ventos em seus punhos e prendeu as águas numa veste é o mesmo que subiu e desceu; até os ventos tempestuosos cumprem sua palavra, Salmos 148:8.

Quando Cristo entra numa alma, faz cessar ali os ventos e as tempestades e ordena a paz. Acolha Cristo, e logo se aquietará o ruído das ondas da alma. O caminho para ficar em paz é saber que ele é Deus, que é o Senhor conosco.

VII. A adoração prestada a Cristo em seguida (v. 33): os que estavam no barco vieram e o adoraram, dizendo: “Na verdade, tu és o Filho de Deus”. Tiraram dois bons proveitos dessa aflição e desse livramento.

  1. Isso confirmou sua fé em Cristo e os convenceu plenamente de que nele habitava a plenitude da Divindade. Pois só o Criador do mundo poderia multiplicar os pães, e só o Governador do mundo poderia caminhar sobre as águas do mar.

Por isso, renderam-se à evidência e confessaram sua fé: “Tu és, na verdade, o Filho de Deus”. Já sabiam que ele era o Filho de Deus, mas agora o sabiam melhor. Depois de uma luta contra a incredulidade, a fé às vezes se torna mais ativa e alcança graus maiores de força por ser exercitada.

Agora têm certeza disso. Repare: é bom conhecermos cada vez melhor a certeza das coisas em que fomos instruídos, Lucas 1:4. A fé cresce quando chega à plena segurança, quando vê com clareza e diz: “Na verdade”.

  1. Aproveitaram a ocasião para dar-lhe a glória devida ao seu nome. Não apenas reconheceram aquela grande verdade, mas foram devidamente tocados por ela: adoraram Cristo. Repare: quando Cristo manifesta sua glória em nosso favor, devemos devolvê-la a ele. Salmos 50:15: “Eu te livrarei, e tu me glorificarás”.

Sua adoração e reverência a Cristo se expressaram nestas palavras: “Na verdade, tu és o Filho de Deus”. Repare: o conteúdo de nosso credo pode e deve tornar-se o conteúdo de nosso louvor. A fé é o princípio próprio da adoração, e a adoração, o fruto genuíno da fé. “Quem se aproxima de Deus precisa crer”; e quem crê em Deus se aproximará, Hebreus 11:6.

Versículos 34 a 36

O Povo de Genesaré Procura Cristo.

Temos aqui o relato de milagres em grande quantidade, realizados por Cristo do outro lado das águas, na região de Genesaré. Aonde quer que fosse, ele fazia o bem. Genesaré era uma faixa de terra entre Betsaida e Cafarnaum. Deu nome ao mar, ou recebeu dele o nome, pois o mar é chamado de lago de Genesaré (Lucas 5:1). O nome significa “vale dos ramos”. Observe aqui:

I. A prontidão e a fé dos homens daquela região. Eram mais nobres do que seus vizinhos gergesenos, que viviam às margens do mesmo lago. Estes pediram a Cristo que se afastasse, pois julgavam não precisar dele; os de Genesaré pediram sua ajuda porque precisavam. Cristo considera que o maior modo de honrá-lo é recorrer a ele. O texto nos conta:

  1. Como os homens daquele lugar foram atraídos a Cristo: souberam quem ele era. É provável que sua travessia milagrosa do mar, cujo relato os que estavam no barco divulgariam com empenho, tenha contribuído para que fosse bem recebido naquelas terras. Talvez esse fosse um dos propósitos de Cristo, pois seus atos têm propósitos de longo alcance.

Eles souberam da travessia e dos outros milagres que Cristo havia realizado; por isso, acorreram a ele. Repare: quem conhece o nome de Cristo o procura. Se fosse mais conhecido, não seria tão negligenciado; as pessoas confiam nele na medida em que o conhecem.

Souberam também que ele estava entre eles e que não permaneceria ali por muito tempo. Repare: reconhecer o momento das oportunidades é um bom passo para aproveitá-las. A condenação do mundo foi que Cristo estava nele, mas o mundo não o conheceu (João 1:10). Jerusalém não o reconheceu (Lucas 19:42); alguns, porém, o reconheceram quando estava entre eles.

É melhor saber que há um profeta entre nós do que descobrir que houve um (Ezequiel 2:5).

  1. Como levaram outros a Cristo: avisaram os vizinhos de que ele havia chegado à região. Enviaram mensageiros a toda aquela terra. Repare: quem conhece Cristo deve fazer tudo o que puder para que outros também o conheçam.

Não devemos comer sozinhos esses bocados espirituais. Há em Cristo o suficiente para todos nós, e nada se ganha monopolizando-o. Quando temos oportunidades de beneficiar nossa alma, devemos trazer o maior número possível de pessoas para compartilhá-las. Mais pessoas do que imaginamos aproveitariam essas oportunidades se fossem chamadas e convidadas.

Avisaram sua própria terra porque era deles e desejavam seu bem. Repare: não há modo melhor de demonstrar amor pela própria terra do que promover e difundir nela o conhecimento de Cristo. A proximidade com outras pessoas é uma oportunidade para fazer o bem, e devemos aproveitá-la.

Devemos encontrar uma maneira de ajudar os que estão perto de nós, ao menos por nosso exemplo, para aproximá-los de Cristo.

  1. O que buscavam em Cristo: não era apenas ensino; talvez nem fosse esse o principal motivo, ou sequer um motivo para procurá-lo. Queriam que seus doentes fossem curados. Trouxeram-lhe todos os enfermos. Se o amor a Cristo e a sua doutrina não os levava até ele, o amor-próprio o fazia.

Se buscássemos corretamente nossos próprios interesses, aquilo que contribui para nossa paz e nosso bem-estar, buscaríamos as coisas de Cristo. Nós o honraríamos e agradaríamos ao receber dele graça e justiça.

Repare: Cristo é a Pessoa adequada a quem levar os doentes. A quem mais iriam, senão ao Médico, ao Sol da Justiça que tem cura debaixo de suas asas?

  1. Como se dirigiram a ele: “Rogavam-lhe que os deixasse tocar ao menos na borda de sua roupa” (v. 36). Aproximaram-se dele:

(1.) Com grande insistência: rogaram-lhe. Podemos suplicar pela cura, pois Deus, por meio de seus ministros, suplica que aceitemos ser curados. Repare: os maiores favores e bênçãos de Cristo são obtidos por súplica. Peçam, e lhes será dado.

(2.) Com grande humildade. Vieram cientes da distância entre eles e Cristo e humildemente pediram ajuda. Ao desejar tocar a borda de sua roupa, mostraram que não se consideravam dignos de sua atenção pessoal. Não julgavam merecer que ele sequer falasse de seu caso, muito menos que os tocasse para curá-los.

Considerariam grande favor se Cristo apenas permitisse que tocassem a borda de sua roupa. Os povos orientais demonstram respeito aos príncipes beijando-lhes a manga ou a aba da veste.

(3.) Com grande confiança na plenitude de seu poder. Não duvidavam de que seriam curados até pelo toque na borda da roupa: por um mínimo sinal de comunhão com ele, receberiam benefícios abundantes. Não esperavam que ele formalmente passasse a mão sobre a parte ou a pessoa enferma, como Naamã esperava (2 Reis 5:11).

Sabiam que nele havia tamanho transbordamento de poder curador que ninguém admitido a sua presença deixaria de ser curado. Naquela região e em suas proximidades, uma mulher que sofria de hemorragia havia sido curada ao tocar a borda de sua roupa e elogiada por sua fé (Mateus 9:20-22). É provável que esse episódio os tenha levado a fazer o mesmo pedido.

Repare: as experiências de outras pessoas ao procurar Cristo podem orientar-nos e animar-nos a procurá-lo também. É bom empregar os meios e métodos com que outras pessoas antes de nós obtiveram bons resultados.

II. O fruto e o êxito de terem procurado Cristo. Esses descendentes de Jacó não o buscaram em vão: todos os que o tocaram ficaram completamente curados. Repare:

  1. As curas de Cristo são completas. Aqueles que ele cura ficam inteiramente curados; não deixa sua obra pela metade. Embora a cura espiritual não se complete no princípio, aquele que começou a boa obra certamente a levará até o fim (Filipenses 1:6).

  2. Há em Cristo abundante poder curador para todos os que o procuram, por mais numerosos que sejam. O óleo precioso derramado sobre sua cabeça escorreu até a borda de sua veste (Salmos 133:2). Até a menor das instituições de Cristo, como a borda de sua roupa, está cheia da plenitude transbordante de sua graça. Ele pode salvar completamente.

  3. O poder curador de Cristo se manifesta em benefício daqueles que o tocam com fé verdadeira e viva. Cristo está no céu, mas sua palavra está perto de nós, e ele próprio está nela. Quando unimos a fé à palavra, a aplicamos a nós, confiamos nela e nos submetemos à sua influência e aos seus mandamentos, tocamos a borda da roupa de Cristo.

Basta esse toque para sermos curados. Cristo oferece curas espirituais em condições tão acessíveis que se pode dizer com verdade que cura de graça. Se nossa alma morre dos próprios ferimentos, a culpa não é do Médico nem de falta de habilidade ou vontade nele, mas inteiramente nossa.

Ele poderia ter-nos curado e nos teria curado, mas não quisemos ser curados. Portanto, nosso sangue estará sobre nossa própria cabeça.


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