Mateus 13
Argumento
Neste capítulo temos: I. O favor que Cristo fez a seus conterrâneos ao lhes pregar o reino dos céus (vv. 1-2). Pregou-lhes por parábolas e explica por que escolheu esse modo de ensinar (vv. 10-17). O evangelista apresenta outra razão (v. 34, 35).
Oito parábolas são registradas neste capítulo. Elas representam o reino dos céus, como o reino do evangelho é implantado no mundo e como cresce e prospera. As grandes verdades e leis desse reino são expostas com clareza em outras passagens das Escrituras, sem parábolas; aqui, porém, certos aspectos de seu começo e desenvolvimento são apresentados por meio delas.
Uma parábola mostra os grandes obstáculos que impedem as pessoas de tirar proveito da palavra do evangelho e como, em muitos casos, ela deixa de alcançar seu objetivo por causa da insensatez delas: a parábola dos quatro tipos de solo, apresentada nos vv. 3-9 e explicada nos vv. 18-23.
Duas parábolas mostram que haverá bons e maus misturados na igreja do evangelho até a grande separação no dia do juízo: a do joio, apresentada nos vv. 24-30 e explicada a pedido dos discípulos nos vv. 36-43, e a da rede lançada ao mar, nos vv. 47-50.
Duas parábolas mostram que a igreja do evangelho seria muito pequena no início, mas com o tempo se tornaria um corpo considerável: a do grão de mostarda (v. 31, 32) e a do fermento (v. 33).
Duas parábolas mostram que quem espera a salvação pelo evangelho deve estar disposto a arriscar tudo e a abandonar tudo por essa esperança, sem sair perdendo no negócio: a do tesouro escondido no campo (v. 44) e a da pérola de grande valor (v. 45, 46).
Uma parábola orienta os discípulos a usar em benefício dos outros o ensino recebido de Cristo: a do bom dono de casa (v. 51, 52). II. O desprezo que os conterrâneos de Cristo lhe demonstraram por causa da origem humilde de sua família (vv. 53-58).
A Parábola do Semeador; Por que Cristo Ensinava por Parábolas; O Semeador e a Semente.
Versículos 1 a 23
Temos aqui Cristo pregando. Podemos observar:
- Quando pregou este sermão. Foi no mesmo dia em que pregou o sermão registrado no capítulo anterior. Tão incansável era ele em fazer o bem e realizar as obras daquele que o enviou! Repare: Cristo pregava tanto no começo quanto no fim do dia e, com seu exemplo, recomendou essa prática à igreja. Devemos semear nossa semente pela manhã e não deixar a mão ociosa ao entardecer (Eclesiastes 11:6).
Um sermão da tarde bem ouvido, longe de apagar o da manhã, antes o reforçará e firmará o prego em lugar seguro. Embora de manhã Cristo tivesse sido contrariado e contestado pelos inimigos, além de incomodado e interrompido pelos amigos, prosseguiu no trabalho. Na segunda parte do dia, não vemos que enfrentasse desânimos semelhantes.
Quem enfrenta com coragem e zelo as dificuldades no serviço de Deus talvez descubra que elas não voltam com tanta frequência quanto temia. Resistam a elas, e fugirão.
- A quem pregou. Grandes multidões se reuniram ao seu redor para ouvi-lo; não se diz que houvesse escribas ou fariseus entre elas. Estes aceitavam ouvi-lo quando pregava na sinagoga (Mateus 12:9, 14), mas julgavam indigno de si ouvir um sermão à beira-mar, mesmo sendo Cristo o pregador.
Na verdade, era melhor para Cristo que eles estivessem ausentes do que em sua companhia. Na ausência deles, Cristo pôde prosseguir tranquilamente e sem oposição. Repare: às vezes, onde há menos pompa religiosa há mais poder espiritual; os pobres recebem o evangelho.
Quando Cristo foi à beira-mar, multidões logo se reuniram ao seu redor. Onde está o rei, ali está a corte; onde está Cristo, ali está a igreja, ainda que à beira-mar. Repare: quem deseja beneficiar-se da palavra deve estar disposto a segui-la aonde quer que vá; quando a arca muda de lugar, mudem-se com ela.
Os fariseus haviam tentado afastar o povo de Cristo por meio de calúnias vis e insinuações, mas as pessoas continuavam a segui-lo em multidões tão numerosas quanto antes. Repare: Cristo será glorificado apesar de toda oposição; haverá quem o siga.
- Onde pregou este sermão:
(1.) O local da reunião era a beira-mar. Saiu da casa, onde não havia espaço para os ouvintes, e foi para o ar livre. Era de desejar que tal Pregador dispusesse do lugar mais amplo, magnífico e cômodo que se pudesse imaginar, como um dos teatros romanos.
Mas Cristo estava então em seu estado de humilhação e, nisso como em outras coisas, renunciou às honras que lhe eram devidas. Assim como não tinha casa própria onde morar, também não tinha capela própria onde pregar.
Desse modo, ensina-nos a não desejar grandeza nas circunstâncias externas da adoração, mas a aproveitar da melhor maneira os recursos que Deus, em sua providência, nos concede. Ao nascer, foi relegado ao estábulo; agora, à praia, onde todos podiam aproximar-se dele livremente.
Aquele que era a própria verdade não buscava recantos secretos, os adyta dos mistérios pagãos. “A sabedoria clama lá fora” (Provérbios 1:20; João 18:20).
(2.) Seu púlpito era um barco. Não era como o púlpito de Esdras, feito para esse fim (Neemias 8:4), mas foi adaptado para isso por falta de outro melhor. Nenhum lugar era inadequado para tal Pregador: sua presença dignificava e consagrava qualquer lugar.
Quem prega Cristo não deve envergonhar-se de ter um local simples ou pouco cômodo para pregar. Alguns observam que o povo estava em terra seca e firme, enquanto o Pregador corria maior risco sobre a água. Os ministros ficam mais expostos às tribulações. Ali havia um verdadeiro rostrum, um púlpito em forma de barco.
- O que pregou e como o fez. (1.) Disse-lhes muitas coisas, provavelmente bem mais do que as registradas aqui. Eram todas excelentes e necessárias: coisas que dizem respeito à nossa paz e ao reino dos céus. Cristo não tratou de ninharias, mas de assuntos com consequências eternas.
Devemos prestar atenção ainda maior quando Cristo tem tantas coisas a nos dizer, para que nenhuma nos escape. (2.) O que disse foi expresso por parábolas. Às vezes, parábola significa qualquer máxima sábia, importante e instrutiva. Nos evangelhos, porém, costuma ser uma comparação contínua, que descreve realidades espirituais ou celestiais com imagens desta vida.
Esse modo de ensinar era muito usado não só pelos rabinos judeus, mas também pelos árabes e outros sábios do Oriente. Mostrava-se proveitoso, ainda mais por ser agradável. Nosso Salvador o empregava muito; assim se ajustava à capacidade do povo, como quem balbucia na língua dos ouvintes.
Deus já havia usado comparações por meio dos profetas, seus servos (Oseias 12:10), com pouco resultado. Agora as usa por meio do Filho. Certamente respeitarão aquele que fala do céu e de assuntos celestiais, embora os revista com expressões tiradas das coisas terrenas (veja João 3:12). É como descer numa nuvem. Agora:
I. Temos aqui a razão geral por que Cristo ensinava por parábolas. Os discípulos ficaram um pouco surpresos, pois até então ele não as havia usado muito na pregação. Por isso perguntaram: “Por que lhes falas por parábolas?” Desejavam sinceramente que o povo ouvisse com entendimento.
Não perguntaram “Por que falas a nós?”, pois sabiam como obter a explicação das parábolas, mas “Por que lhes falas assim?”. Repare: devemos cuidar da edificação dos outros pela palavra pregada, assim como da nossa própria. Mesmo os fortes devem suportar as fraquezas dos fracos.
Cristo responde amplamente nos vv. 11-17. Ensina que as parábolas tornavam as coisas de Deus mais claras e acessíveis aos dispostos a aprender, mas deixavam sem entendimento os que insistiam na ignorância. Assim, o evangelho seria aroma de vida para uns e de morte para outros.
Uma parábola é como a coluna de nuvem e de fogo: volta a face escura para os egípcios e os confunde, mas a face luminosa para os israelitas e os consola. Desse modo cumpre dois propósitos. A mesma luz guia os olhos de alguns e ofusca os de outros. Agora:
- A razão é apresentada no v. 11: “Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não é dado”. Isso pode significar:
(1.) Os discípulos tinham conhecimento, mas o povo não. “Vocês já conhecem algo desses mistérios e não precisam ser ensinados dessa maneira familiar. O povo, porém, é ignorante, ainda é como criança e deve ser instruído por comparações simples, pois ainda não é capaz de receber ensino de outra forma. Embora tenha olhos, não sabe usá-los.” Assim entendem alguns.
Ou (2.) os discípulos desejavam conhecer os mistérios do evangelho, examinariam as parábolas e, por meio delas, chegariam a um conhecimento mais profundo. Os ouvintes carnais, porém, contentavam-se em apenas ouvir: não se dariam ao trabalho de investigar nem de perguntar o sentido das parábolas. Por isso, nada aprenderiam e sofreriam justamente por sua negligência.
Uma parábola é como uma casca que conserva o bom fruto para os diligentes, mas o mantém fora do alcance dos preguiçosos. Repare: há mistérios no reino dos céus e, sem dúvida, grande é o mistério da piedade.
A encarnação, a satisfação e a intercessão de Cristo, nossa justificação e santificação pela união com ele e, na verdade, toda a obra da redenção, do começo ao fim, são mistérios que só poderiam ser descobertos por revelação divina (1 Coríntios 15:51).
Naquele momento, haviam sido revelados aos discípulos apenas em parte e nunca serão plenamente descobertos até que o véu seja rasgado. Mas o caráter misterioso da verdade do evangelho não deve nos desanimar; deve estimular nossa investigação e nosso estudo.
[1.] Aos discípulos de Cristo é dado, por graça, conhecer esses mistérios. O conhecimento é o primeiro dom de Deus, e um dom que distingue (Provérbios 2:6). Foi dado aos apóstolos porque seguiam e acompanhavam constantemente a Cristo.
Repare: quanto mais nos aproximamos de Cristo e convivemos com ele, melhor conheceremos os mistérios do evangelho.
[2.] Esse conhecimento é dado a todos os verdadeiros crentes, que conhecem os mistérios do evangelho por experiência. Sem dúvida, esse é o melhor conhecimento. É a graça presente no coração que dá às pessoas entendimento rápido no temor do Senhor e na fé em Cristo, e também no sentido das parábolas.
Por não ter essa graça, Nicodemos, mestre em Israel, falava do novo nascimento como um cego falaria das cores.
[3.] Há pessoas às quais esse conhecimento não é dado, e ninguém pode receber coisa alguma se não lhe for dada do céu (João 3:27). Lembremos que Deus não deve nada a ninguém. Sua graça lhe pertence: ele a concede ou retém como lhe agrada (Romanos 11:35). A diferença deve ser atribuída à soberania de Deus, como antes (Mateus 11:25, 26).
- Essa razão é ilustrada pela regra que Deus segue ao distribuir seus dons. Ele os concede aos que os desenvolvem, mas os retira dos que os enterram. Entre as pessoas, é comum confiar dinheiro a quem aumentou os bens pelo trabalho, e não a quem os diminuiu pela preguiça.
(1.) Há uma promessa para aquele que tem a verdadeira graça, conforme a eleição da graça, e usa o que recebeu: terá ainda mais abundância. Os favores de Deus são garantia de outros favores; onde ele lança o alicerce, continuará a construir.
Os discípulos de Cristo empregaram o conhecimento que já possuíam e receberam muito mais quando o Espírito foi derramado (Atos 2). Quem possui a realidade da graça receberá graça crescente, até a abundância na glória (Provérbios 4:18). José significa “ele acrescentará” (Gênesis 30:24).
(2.) Há uma ameaça para quem não tem: não deseja a graça nem usa corretamente os dons e as graças de que dispõe. Não tem raiz nem princípio sólido; possui algo, mas não usa o que possui. Dele será tirado até o que tem ou parece ter.
Suas folhas murcharão, seus dons decairão, e os meios de graça que possui sem aproveitá-los lhe serão retirados. Deus recolherá seus talentos das mãos daqueles que parecem prestes a falir.
- Essa razão é explicada particularmente em relação aos dois tipos de pessoas com as quais Cristo lidava.
(1.) Alguns insistiam na ignorância, e as parábolas os deixavam confusos (v. 13): “porque, vendo, não veem”. Fecharam os olhos para a clara luz da pregação mais direta de Cristo e, por isso, foram deixados nas trevas.
Viam Cristo em pessoa, mas não enxergavam sua glória nem diferença entre ele e outro homem. Presenciavam seus milagres e ouviam sua pregação, mas não viam nem ouviam com interesse ou aplicação pessoal; nada entendiam.
Repare: [1.] Muitos veem a luz do evangelho e ouvem o som do evangelho sem que ele chegue ao coração ou encontre lugar dentro deles. [2.] É justo que Deus retire a luz dos que fecham os olhos para ela, deixando ignorantes os que insistem em sê-lo. Sua maneira de agir com eles engrandece a graça especial concedida aos discípulos.
Assim se cumpriria a Escritura (v. 14, 15), citada de Isaías 6:9, 10. O profeta evangélico que falou com tanta clareza da graça do evangelho predisse o desprezo que ela sofreria e as consequências desse desprezo.
Essa passagem é citada pelo menos seis vezes no Novo Testamento, indicando que, nos tempos do evangelho, os juízos espirituais seriam muito comuns. Fazem menos alarde, mas são os mais terríveis.
O que foi dito dos pecadores do tempo de Isaías cumpriu-se nos do tempo de Cristo e continua a cumprir-se todos os dias. Enquanto o coração perverso repete o mesmo pecado, a mão justa de Deus aplica o mesmo castigo. Temos aqui:
Primeiro, a descrição da cegueira e da dureza voluntárias dos pecadores, que constituem seu pecado. “O coração deste povo se tornou pesado”; literalmente, engordou. Isso indica tanto sensualidade quanto insensibilidade (Salmos 119:70). Sentem-se seguros sob a palavra e a vara de Deus, e são desdenhosos como Jesurum, que engordou e deu coices (Deuteronômio 32:15).
Quando o coração se torna assim pesado, não surpreende que os ouvidos custem a ouvir. Não percebem os sussurros do Espírito; ignoram os chamados fortes da palavra, embora ela esteja perto, e não se deixam comover. Tapam os ouvidos (Salmos 58:4, 5).
Decididos a permanecer ignorantes, fecham os dois sentidos pelos quais se aprende: também cerraram os olhos. Resolveram não ver a luz que veio ao mundo quando nasceu o Sol da Justiça; fecharam as janelas porque amavam mais as trevas do que a luz (João 3:19; 2 Pedro 3:5).
Segundo, a descrição da cegueira judicial, castigo justo desse pecado: “Ouvindo, ouvireis e não entendereis”. Os meios de graça que possuem não lhes trarão proveito. Por misericórdia para com outros, esses meios continuam disponíveis; mas, como juízo contra eles, a bênção é retida.
A condição mais triste em que alguém pode estar deste lado do inferno é participar dos cultos mais vivos com o coração morto, entorpecido e insensível. Ouvir a palavra de Deus e ver os atos de sua providência sem entender ou perceber sua vontade em nenhuma das duas é, ao mesmo tempo, o maior pecado e o maior juízo.
Observe: dar um coração que entende é obra de Deus. Muitas vezes, por justo juízo, ele nega esse coração àqueles a quem deu inutilmente ouvidos para ouvir e olhos para ver.
Assim Deus escolhe as ilusões dos pecadores (Isaías 66:4) e os entrega à ruína mais grave, abandonando-os aos desejos do próprio coração (Salmos 81:11, 12). Deixa-os em paz (Oseias 4:17); “Meu Espírito não contenderá para sempre” (Gênesis 6:3).
Terceiro, o resultado lamentável disso: “Para que não vejam em momento algum”. Eles não veem porque não querem converter-se; e Deus diz que não verão porque não se converterão: “Para que não se convertam, e eu os cure”.
Repare: 1. Ver, ouvir e entender são necessários à conversão. Ao produzir a graça, Deus lida com as pessoas como seres racionais: atrai-as com cordas humanas, muda-lhes o coração abrindo-lhes os olhos e as conduz do poder de Satanás para si, levando-as primeiro das trevas à luz (Atos 26:18).
Todos os que realmente se convertem a Deus certamente serão curados por ele. “Se se converterem, eu os curarei e salvarei.” Portanto, se os pecadores perecem, a culpa não é de Deus, mas deles próprios. Esperavam, insensatamente, ser curados sem se converter.
É justo que Deus negue sua graça àqueles que por muito tempo e repetidamente a recusaram e resistiram ao seu poder. Por algum tempo, o faraó endureceu o próprio coração (Êxodo 8:15, 32); depois Deus o endureceu (Êxodo 9:12; 10:20). Temamos, portanto, pecar contra a graça divina até afastá-la de nós.
(2.) Outros foram eficazmente chamados para ser discípulos de Cristo e desejavam sinceramente aprender dele. As parábolas os instruíram e lhes deram grande progresso no conhecimento, sobretudo quando explicadas. Tornaram as coisas de Deus mais claras, acessíveis, compreensíveis, familiares e fáceis de lembrar (v. 16, 17).
“Vossos olhos veem, e vossos ouvidos ouvem.” Viram a glória de Deus na pessoa de Cristo e ouviram a vontade de Deus em sua doutrina. Viram muito e desejavam ver mais; assim estavam preparados para receber ensino adicional. Por acompanharem continuamente Cristo, tinham oportunidade de recebê-lo, dia após dia, junto com a graça. Cristo fala disso:
[1.] Como bênção. “Bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. Essa é a vossa felicidade, devida ao favor e à bênção especiais de Deus.” Foi prometido que, nos dias do Messias, “os olhos dos que veem não se obscurecerão” (Isaías 32:3).
Os olhos do crente mais simples, que conhece por experiência a graça de Cristo, são mais abençoados que os dos maiores eruditos e estudiosos da filosofia experimental que não conhecem a Deus. Como os outros deuses a que servem, estes têm olhos, mas não veem.
“Bem-aventurados os vossos olhos.” Repare: a verdadeira felicidade está ligada à compreensão correta dos mistérios do reino de Deus e ao bom uso desse conhecimento.
Os ouvidos que ouvem e os olhos que veem são obra de Deus naqueles que ele santificou, obra de sua graça (Provérbios 20:12). É uma obra abençoada, que se cumprirá com poder quando aqueles que agora veem obscuramente, como por espelho, virem face a face.
Para destacar essa felicidade, Cristo falou tanto da miséria dos deixados na ignorância: eles têm olhos, mas não veem; os olhos dos discípulos, porém, são bem-aventurados.
Repare: conhecer Cristo é um favor especial concedido a quem o conhece e, por isso mesmo, impõe maiores obrigações (veja João 14:22). Os apóstolos deveriam ensinar os outros; por isso receberam eles próprios as revelações mais claras da verdade divina. Os vigias verão olho no olho (Isaías 52:8).
[2.] Como bênção extraordinária, que muitos profetas e justos desejaram, mas não receberam (v. 17). Os santos do Antigo Testamento tinham vislumbres e lampejos da luz do evangelho, mas desejavam ardentemente revelações mais amplas.
Possuíam figuras, sombras e profecias daquelas realidades, mas ansiavam por ver sua substância: o glorioso fim para o qual não podiam olhar fixamente e a gloriosa realidade interior que não podiam penetrar. Desejavam ver a grande Salvação, a Consolação de Israel, mas não a viram, porque ainda não chegara a plenitude do tempo.
Repare, primeiro: quem conhece algo de Cristo inevitavelmente deseja conhecê-lo mais. Segundo: as revelações da graça divina são feitas até aos profetas e justos conforme a dispensação em que vivem.
Embora fossem favorecidos pelo céu e conhecessem os segredos de Deus, não viram o que desejavam ver, porque Deus havia decidido não revelar ainda essas coisas. Seus favores não se adiantam aos seus desígnios. Havia então, como ainda há, uma glória a ser revelada, algo reservado, “para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:40).
Terceiro: para despertar nossa gratidão e diligência, convém considerar os recursos de que desfrutamos e as revelações feitas a nós sob o evangelho, superiores às que tiveram os que viveram sob a dispensação do Antigo Testamento. Isso vale especialmente para a revelação da expiação dos pecados.
Vejam as vantagens do Novo Testamento sobre o Antigo (2 Coríntios 3:7 e seguintes; Hebreus 12:18). Que nosso aproveitamento seja proporcional às vantagens recebidas.
II. Temos aqui uma das parábolas apresentadas pelo Salvador: a do semeador e da semente, tanto o relato quanto sua explicação.
As parábolas de Cristo partem de coisas comuns, não de conceitos ou especulações filosóficas nem de fenômenos incomuns da natureza, embora servissem para o assunto. Partem de coisas evidentes, observadas todos os dias e acessíveis até às pessoas de menor instrução. Muitas vêm do trabalho no campo, como a do semeador e a do joio.
Cristo escolheu ensinar desse modo por duas razões. 1. Para tornar as coisas espirituais mais claras e, por comparações familiares, permitir que entrem com mais facilidade em nosso entendimento.
- Para que os atos cotidianos ganhem sentido espiritual e aquilo que tantas vezes vemos nos leve a meditar com prazer nas coisas de Deus. Assim, mesmo quando as mãos estiverem muito ocupadas com este mundo, essas ocupações poderão ajudar-nos a manter o coração no céu. A palavra de Deus falará conosco, falará conosco de modo familiar (Provérbios 6:22).
A parábola do semeador é bastante clara (vv. 3-9). Sua explicação vem do próprio Cristo, que conhecia melhor do que ninguém seu significado. Ao perguntar por que ele falava ao povo em parábolas (v. 10), os discípulos mostraram desejar uma explicação em benefício dos ouvintes. Desejá-la também para si não diminuía o conhecimento que tinham.
Nosso Senhor Jesus acolheu com bondade esse pedido implícito, explicou o sentido e os fez entender a parábola. Dirigiu-se aos discípulos, mas a multidão o ouvia, pois o relato não diz que a dispensou antes do v. 36. “Ouvi, pois, a parábola do semeador” (v. 18): já a ouviram; vamos examiná-la outra vez.
Repare: ouvir de novo o que já ouvimos é útil e muito contribui para entender a palavra e tirar proveito dela (Filipenses 3:1). Já ouviram a parábola; ouçam agora sua interpretação.
Repare: só ouvimos a palavra corretamente e com proveito quando entendemos o que ouvimos. Ouvir sem compreender não é propriamente ouvir (Neemias 8:2). É a graça de Deus que concede entendimento, mas é nosso dever aplicar a mente para compreender.
Comparemos, portanto, a parábola com sua explicação.
(1.) A semente semeada é a palavra de Deus, chamada aqui de “palavra do reino” (v. 19). O reino dos céus é o reino; comparados com ele, os reinos deste mundo nem merecem esse nome. O evangelho vem daquele reino e conduz a ele.
A palavra do evangelho é a palavra do reino. É a palavra do Rei; onde ela está, há poder. É uma lei pela qual devemos ser governados. Essa palavra é a semente semeada. Parece algo morto e seco, mas toda a colheita já está contida nela em potência. É semente incorruptível (1 Pedro 1:23); o evangelho é que produz fruto nas almas (Colossenses 1:5, 6).
(2.) O semeador que espalha a semente é nosso Senhor Jesus Cristo, diretamente ou por meio de seus ministros (veja v. 37). O povo é a lavoura de Deus, seu campo cultivado, como diz a expressão; os ministros são cooperadores de Deus (1 Coríntios 3:9).
Pregar a uma multidão é semear o grão. Não sabemos onde cairá; cuidemos apenas para que seja boa semente, limpa, e para semear o suficiente. Semear a palavra é semear um povo para o campo de Deus, o grão de sua eira (Isaías 21:10).
(3.) O solo em que se semeia essa semente é o coração humano. Como os corações variam em qualidades e disposições, o resultado da palavra também varia. Repare: o coração é como o solo, capaz de ser cultivado e produzir bom fruto. É uma pena deixá-lo inculto ou semelhante ao campo do preguiçoso (Provérbios 24:30).
A alma é o lugar apropriado para a palavra de Deus habitar, agir e governar. Ela atua sobre a consciência e deve acender essa lâmpada do Senhor. A maneira como somos determina o que a palavra será para nós: Recipitur ad modum recipientis, a recepção depende de quem recebe.
Assim é com a terra: alguns solos, por mais que sejam trabalhados e por melhor que seja a semente lançada neles, não produzem fruto que valha a pena; o solo bom, porém, produz fartamente. O mesmo ocorre com os corações, cujas diferenças são representadas aqui por quatro tipos de solo: três ruins e um bom.
Repare: é muito grande o número de ouvintes infrutíferos, até entre os que ouviram o próprio Cristo. “Quem creu em nossa mensagem?” A parábola oferece um quadro melancólico das congregações que ouvem o evangelho: mal uma pessoa em quatro produz fruto até a maturidade.
Muitos são chamados pelo chamado comum, mas, em poucos, a eficácia desse chamado revela a escolha eterna (Mateus 20:16).
Observe agora as características dos quatro tipos de solo.
[1.] O solo do caminho (v. 4; v. 19). Havia trilhas que atravessavam os campos cultivados (Mateus 12:1); a semente que caía nelas não penetrava, e os pássaros a recolhiam. O lugar onde os ouvintes de Cristo estavam, a areia da praia, tinha para a semente as mesmas características do solo do caminho e representava a maioria deles.
Observe, primeiro, que tipo de ouvintes se compara a esse solo: os que ouvem a palavra, mas não a entendem. Não a entendem por culpa própria. Não lhe dão atenção nem se apegam a ela; não vêm com a intenção de receber benefício, assim como ninguém planeja semear sobre o caminho.
Comparecem diante de Deus e se sentam como se fossem seu povo, mas apenas por costume, para ver e ser vistos. Não prestam atenção ao que se diz: entra por um ouvido e sai pelo outro, sem deixar impressão alguma.
Segundo, como se tornam ouvintes sem proveito: “O maligno”, isto é, o diabo, “vem e arrebata o que foi semeado”. Ouvintes distraídos, descuidados e superficiais são presa fácil de Satanás. Além de grande assassino de almas, ele é o grande ladrão de sermões e certamente nos roubará a palavra se não cuidarmos de guardá-la.
Assim os pássaros recolhem a semente caída no chão que não foi arado antes nem coberto depois. Se não revolvermos o solo inculto, preparando e humilhando o coração diante da palavra e concentrando nela a atenção; se depois não cobrirmos a semente pela meditação e pela oração; e se não atentarmos com mais cuidado para o que ouvimos, seremos como o solo do caminho.
Repare: o diabo é inimigo declarado do nosso proveito com a palavra de Deus. Ninguém favorece mais seu propósito do que os ouvintes desatentos, que pensam em outra coisa quando deveriam pensar no que diz respeito à sua paz.
[2.] O solo pedregoso. Parte da semente caiu em terreno cheio de pedras (v. 5, 6). Isso representa os ouvintes que vão além dos primeiros e recebem algumas boas impressões da palavra, mas elas não duram (v. 20, 21).
Repare: podemos ser muito melhores do que outras pessoas e, ainda assim, não ser tão bons quanto deveríamos. Podemos ultrapassar os vizinhos e mesmo assim ficar aquém do céu. Observe o que acontece com os ouvintes representados pelo solo pedregoso:
Primeiro, até onde chegaram. 1. Ouvem a palavra. Não lhe dão as costas nem se recusam a escutá-la. Repare: ouvir a palavra, por mais vezes e com toda a seriedade, jamais nos levará ao céu se pararmos aí.
- Ouvem prontamente; são rápidos em escutar. Logo recebem a palavra, euthys, dispostos a acolhê-la. A semente brotou imediatamente (v. 5), aparecendo acima do solo antes da lançada em terra boa.
Repare: os hipócritas muitas vezes se adiantam aos cristãos verdadeiros nas demonstrações exteriores da fé e começam com ardor maior do que conseguem manter. Recebem a palavra de imediato, sem examiná-la. Engolem sem mastigar; desse modo, não pode haver boa digestão. Os mais propensos a reter o que é bom são os que examinam todas as coisas (1 Tessalonicenses 5:21).
- Recebem a palavra com alegria. Repare: muitos gostam muito de ouvir um bom sermão, mas não tiram proveito dele. Podem agradar-se da palavra sem ser transformados ou governados por ela. O coração pode comover-se ao ouvi-la sem ser transformado por ela, muito menos moldado segundo ela, como material vertido num molde.
Muitos provam a boa palavra de Deus (Hebreus 6:5) e dizem sentir sua doçura. Mas guardam debaixo da língua algum desejo pecaminoso de que gostam e que não combina com ela; por isso, acabam cuspindo a palavra.
- Perseveram por algum tempo, como um movimento provocado por uma força intensa: dura enquanto permanece o impulso e cessa quando ele se esgota. Repare: muitos perseveram por um tempo, mas não até o fim. Assim perdem a felicidade prometida somente aos que perseveram (Mateus 10:22). Corriam bem, mas algo os impediu (Gálatas 5:7).
Segundo, como se desviaram, sem produzir fruto maduro. A semente, sem profundidade de terra da qual tirar umidade, é queimada e murcha sob o calor do sol. A razão é a seguinte:
- Não têm raiz em si mesmos: seus pensamentos não se firmam em princípios estáveis, sua vontade não tem resolução firme e seus afetos não desenvolveram hábitos arraigados. Nada há de sólido para nutrir ou sustentar sua profissão de fé.
Repare: (1.) É possível haver o broto verde de uma profissão religiosa sem a raiz da graça. A dureza domina o coração; a pouca terra macia fica apenas na superfície. Por dentro, essas pessoas são insensíveis como pedra. Não têm raiz: não estão unidas pela fé a Cristo, nossa Raiz; não recebem dele sustento nem dependem dele.
(2.) Onde há profissão de fé sem um princípio interior, não podemos esperar perseverança. Quem não tem raiz dura pouco. Um navio sem lastro talvez ultrapasse no começo outro carregado, mas certamente falhará sob o mau tempo e nunca chegará ao porto.
- Chegam os tempos de provação, e então nada resta da profissão dessas pessoas. Quando surgem tribulação e perseguição por causa da palavra, isso se torna um obstáculo que não conseguem superar; logo se afastam. A isso se reduz sua profissão de fé.
Repare: (1.) Depois de um período favorável costuma vir a tempestade da perseguição, para provar quem recebeu a palavra com sinceridade. Quando a palavra do reino de Cristo se torna palavra de sua perseverança (Apocalipse 3:10), vê-se quem a guarda e quem não a guarda (Apocalipse 1:9). É prudente preparar-se para esse dia.
(2.) Ao chegarem tempos difíceis, os que não têm raiz logo se ofendem. Primeiro entram em desavença com sua profissão de fé, depois a abandonam; primeiro a criticam, depois a descartam. Daí se falar do escândalo da cruz (Gálatas 5:11).
Observe: a perseguição é representada na parábola pelo sol escaldante (v. 6). O mesmo sol que aquece e fortalece a planta bem enraizada faz murchar e queima a que não tem raiz.
Como a palavra de Cristo, também sua cruz é para alguns aroma de vida para vida e, para outros, aroma de morte para morte. A mesma tribulação que leva uns à apostasia e à ruína produz para outros um peso de glória incomparavelmente maior e eterno. Provações que abalam alguns confirmam outros (Filipenses 1:12).
Observe como depressa desistem: imediatamente. Apodrecem tão depressa quanto amadureceram. Uma profissão de fé assumida sem reflexão costuma ser abandonada sem reflexão: “Vem fácil, vai fácil”.
[3.] O solo com espinhos. Parte da semente caiu entre espinhos. Eles protegem a plantação quando estão na cerca, mas a prejudicam quando crescem dentro do campo. Os espinhos brotaram depois, sugerindo que não apareciam, ou mal apareciam, na época da semeadura; mais tarde sufocaram a planta (v. 7).
Essa semente avançou mais do que a anterior, pois criou raiz. Representa os que não abandonam inteiramente sua profissão de fé, mas não recebem dela benefício para a salvação. O bem que a palavra lhes proporciona é, sem que percebam, vencido e sufocado pelas coisas do mundo.
A prosperidade destrói a palavra no coração tanto quanto a perseguição, e de modo mais perigoso porque mais silencioso. As pedras prejudicaram a raiz; os espinhos prejudicam o fruto.
Quais são esses espinhos que sufocam a semente?
Primeiro, os cuidados deste mundo. O cuidado com o mundo futuro estimularia o crescimento da semente; o cuidado com este mundo a sufoca. Com razão se comparam os cuidados mundanos a espinhos: surgiram com o pecado e são fruto da maldição.
Em seu devido lugar, servem para fechar uma abertura, mas quem lida muito com eles precisa estar bem protegido (2 Samuel 23:6, 7). Enredam, incomodam e arranham, e seu fim é ser queimados (Hebreus 6:8). Esses espinhos sufocam a boa semente.
Repare: os cuidados mundanos impedem muito nosso proveito com a palavra de Deus e nosso progresso na vida religiosa. Consomem o vigor da alma que deveria ser dedicado às coisas divinas. Desviam-nos do dever, distraem-nos enquanto o cumprimos e nos prejudicam ainda mais depois.
Apagam as faíscas dos bons afetos e rompem os laços das boas resoluções. Quem se preocupa e se ocupa com muitas coisas costuma negligenciar a única necessária.
Segundo, o engano das riquezas. Alguns aumentaram seu patrimônio pelo cuidado e pelo trabalho; parece ter passado, assim, o perigo ligado às preocupações. Continuam a ouvir a palavra, mas ainda estão presos numa armadilha (Jeremias 5:4, 5). É difícil entrarem no reino dos céus.
Tendem a esperar das riquezas o que elas não podem oferecer, a confiar nelas e a sentir por elas satisfação desordenada. Isso sufoca a palavra tanto quanto as preocupações. Observe: o dano vem menos das riquezas em si do que de seu poder de enganar.
Elas só nos enganam quando depositamos nelas a confiança e delas alimentamos expectativas. É então que sufocam a boa semente.
[4.] O solo bom (v. 8; v. 23). Outras sementes caíram em boa terra. Seria desejável que toda boa semente encontrasse sempre bom solo; assim nada se perderia. Esse solo representa os bons ouvintes da palavra (v. 23).
Repare: embora muitos recebam em vão a graça de Deus e a palavra dessa graça, ele preserva um remanescente que as acolhe com proveito. Sua palavra não voltará vazia (Isaías 55:10, 11).
O que distingue esse solo dos demais pode ser dito numa palavra: fertilidade. Assim se distinguem os cristãos verdadeiros dos hipócritas: produzem frutos de justiça. “Assim sereis meus discípulos” (João 15:8).
O texto não diz que o solo bom não tinha pedras ou espinhos; diz que nenhum deles prevaleceu a ponto de impedir o fruto. Neste mundo, os santos não estão completamente livres dos vestígios do pecado, mas foram libertos de seu domínio.
Os ouvintes representados pela boa terra são:
Primeiro, ouvintes que compreendem. Ouvem e entendem a palavra, não só seu sentido, mas também o que ela exige deles. Entendem-na como uma pessoa dedicada aos negócios entende sua atividade.
Em sua palavra, Deus lida racionalmente com as pessoas e alcança sua vontade e seus afetos ao abrir-lhes o entendimento. Satanás, porém, ladrão e assaltante, não entra por essa porta: sobe por outro lugar.
Segundo, ouvintes frutíferos, o que demonstra que entenderam bem: também dão fruto. O fruto é, para cada semente, seu próprio corpo: um resultado concreto no coração e na vida, de acordo com a palavra recebida. Produzimos fruto quando praticamos o que ela ensina, quando a disposição da mente e o curso da vida se conformam ao evangelho recebido e fazemos o que aprendemos.
Terceiro, nem todos frutificam igualmente: uns rendem cem por um, outros sessenta por um, outros trinta por um. Repare: alguns cristãos frutíferos produzem mais do que outros. Mesmo onde existe a verdadeira graça, ela se apresenta em graus diferentes; uns avançam mais que outros no conhecimento e na santidade. Nem todos os alunos de Cristo estão na mesma série.
Devemos buscar o grau mais alto e render cem por um, como o campo de Isaque (Gênesis 26:12), abundando na obra do Senhor (João 15:8). Mas, se o solo é bom, o fruto correto, o coração honesto e a vida coerente com ele, Deus acolherá bondosamente até os que rendem apenas trinta por um.
Esse será fruto abundante creditado à conta deles, pois estamos sob a graça, não sob a lei.
Versículos 24 a 43
Parábolas do Joio, do Grão de Mostarda, do Fermento etc.
Nestes versículos temos: I. Outra razão apresentada para Cristo pregar por parábolas, vv. 34-35. Ele dizia todas essas coisas por parábolas porque ainda não havia chegado o tempo de revelar com mais clareza e simplicidade os mistérios do reino.
Para manter o povo atento e na expectativa, Cristo pregava por parábolas e, sem parábolas, nada lhes falava, isto é, naquele momento e naquele sermão. Repare: Cristo experimenta todos os meios e métodos para fazer bem à alma dos homens e causar-lhes impressão.
Se os homens não se deixam instruir e influenciar pela pregação direta, ele os experimentará com parábolas. A razão apresentada aqui é que se cumprisse a Escritura. O trecho citado faz parte do prefácio daquele salmo histórico, Salmos 78:2: “Abrirei a minha boca em parábola”.
O que o salmista Davi, ou Asafe, diz ali de sua narrativa aplica-se aos sermões de Cristo; e esse grande precedente serviria para defender esse modo de pregar da objeção que alguns levantavam contra ele. Aqui estão:
- A matéria da pregação de Cristo: ele pregou coisas que haviam permanecido ocultas desde a fundação do mundo. O mistério do evangelho estivera escondido em Deus, em seus conselhos e decretos, desde o princípio do mundo, Efésios 3:9; compare Romanos 16:25; 1 Coríntios 2:7; Colossenses 1:26.
Se nos deleitamos com os registros de coisas antigas e com a revelação de coisas secretas, quão bem-vindo deve ser para nós o evangelho, que encerra tal antiguidade e tal mistério! Desde a fundação do mundo esteve envolto em tipos e sombras, agora removidos. E aquelas coisas secretas se tornaram coisas reveladas que pertencem a nós e a nossos filhos, Deuteronômio 29:29.
- O modo da pregação de Cristo: ele pregava por parábolas, ditos sábios, porém figurados, que ajudam a despertar a atenção e uma busca diligente. As sentenças de Salomão, cheias de comparações, chamam-se provérbios ou parábolas; a palavra é a mesma.
Mas nisso, como nas demais coisas, “eis que está aqui quem é maior do que Salomão”, em quem estão escondidos tesouros de sabedoria.
II. A parábola do joio e sua explicação devem ser consideradas juntas, pois a explicação esclarece a parábola, e a parábola ilustra a explicação.
Observe: 1. O pedido dos discípulos ao Mestre para que lhes explicasse esta parábola (v. 36). Jesus despediu a multidão, e é de temer que muitos tenham ido embora sem mais sabedoria do que tinham ao chegar. Tinham ouvido um som de palavras, e só.
É triste pensar em quantos saem dos sermões sem a palavra da graça no coração. Cristo entrou em casa não tanto para descansar, mas para conversar em particular com os discípulos, cuja instrução era seu principal propósito em toda a sua pregação.
Ele estava pronto a fazer o bem em todo lugar; os discípulos aproveitaram a oportunidade e foram até ele. Repare: quem quer ser sábio em todas as outras coisas deve também saber discernir e aproveitar suas oportunidades, sobretudo as de ter comunhão com Cristo, comunhão com ele a sós, em meditação e oração secretas.
É muito bom que, ao voltarmos da assembleia solene, conversemos sobre o que ali ouvimos e, pelo diálogo familiar, ajudemos uns aos outros a compreender, recordar e sentir o que foi dito. Pois perdemos o benefício de muitos sermões por causa de conversas vãs e inúteis depois deles. Veja Lucas 24:32; Deuteronômio 6:6-7.
É especialmente bom, quando possível, perguntar aos ministros da palavra o sentido dela, pois seus lábios devem guardar o conhecimento, Malaquias 2:7. A conversa particular muito contribuiria para nosso proveito da pregação pública. O “Tu és o homem” de Natã foi o que tocou Davi no coração.
O pedido dos discípulos ao Mestre foi: “Explica-nos a parábola do joio”. Isso implicava reconhecer a própria ignorância, o que eles não se envergonhavam de fazer. Provavelmente compreendiam o sentido geral da parábola, mas desejavam entendê-la mais particularmente e ter certeza de que a haviam interpretado corretamente.
Repare: estão bem dispostos a receber o ensino de Cristo aqueles que têm consciência da própria ignorância e desejam sinceramente ser ensinados. Ele ensinará os humildes (Salmos 25:8-9), mas quer ser consultado para isso. Se alguém carece de instrução, peça-a a Deus.
Cristo havia explicado a parábola anterior sem que lhe pedissem; mas, para a explicação desta, eles lhe pedem. Repare: as misericórdias que recebemos devem ser aproveitadas tanto para orientar o que devemos pedir em oração como para nos encorajar a orar.
A primeira luz e a primeira graça nos são dadas antes de as pedirmos; por graus adicionais de ambas devemos orar todos os dias.
- A explicação que Cristo deu da parábola em resposta ao pedido deles. Cristo está pronto a atender a esses desejos dos discípulos. O propósito da parábola é representar o estado presente e futuro do reino dos céus, a igreja do evangelho: o cuidado de Cristo por ela, a inimizade do diabo contra ela, a mistura de bons e maus que nela há e o destino de ambos no outro mundo.
Repare: a igreja visível é o reino dos céus. Embora nela haja muitos hipócritas, Cristo a governa como Rei; e há nela um remanescente, os súditos e herdeiros do céu, do qual, como sua melhor parte, ela recebe o nome. A igreja é o reino dos céus na terra.
Examinemos os detalhes da explicação da parábola.
(1.) Quem semeia a boa semente é o Filho do homem. Jesus Cristo é o Senhor do campo, o Senhor da colheita, o Semeador da boa semente. Quando subiu às alturas, deu dons ao mundo: não só bons ministros, mas também outros homens bons.
Repare: toda boa semente que há no mundo vem da mão de Cristo e foi semeada por ele. Verdades pregadas, graças plantadas, almas santificadas são boa semente, e tudo se deve a Cristo. Os ministros são instrumentos na mão de Cristo para semear a boa semente.
Trabalham por ele e sob sua direção, e o êxito de seus labores depende inteiramente de sua bênção. Portanto, bem se pode dizer que é Cristo, e nenhum outro, quem semeia a boa semente. Ele é o Filho do homem, um de nós, para que seu terror não nos atemorize; é o Filho do homem, o Mediador, e como tal tem autoridade.
(2.) O campo é o mundo, o mundo dos homens, um campo vasto, capaz de produzir bons frutos; tanto mais lamentável é que produza tantos frutos ruins. O mundo aqui é a igreja visível, espalhada pelo mundo inteiro, não limitada a uma nação.
Observe: na parábola, o campo é chamado de seu campo. O mundo é o campo de Cristo, pois o Pai lhe entregou todas as coisas. Qualquer poder e interesse que o diabo tenha no mundo é usurpado e injusto. Quando Cristo vem tomar posse, vem aquele a quem pertence o direito. O campo é dele e, por ser dele, cuidou de semeá-lo com boa semente.
(3.) A boa semente são os filhos do reino, os verdadeiros santos. Eles são: [1.] Filhos do reino, não apenas de profissão, como eram os judeus (Mateus 8:12), mas sinceramente; judeus no íntimo, verdadeiros israelitas, unidos a Jesus Cristo, o grande Rei da igreja, pela fé e pela obediência.
[2.] São a boa semente, preciosa como semente, Salmos 126:6. A semente constitui a substância do campo; assim também a santa semente, Isaías 6:13. A semente é espalhada, e os santos também: dispersos, um aqui e outro ali, embora em alguns lugares sejam semeados mais densamente do que em outros.
A semente é aquilo de que se espera fruto. Todo fruto de honra e serviço que Deus recebe deste mundo vem dos santos que ele semeou para si na terra, Oseias 2:23.
(4.) O joio são os filhos do maligno. Aqui está o caráter dos pecadores, dos hipócritas e de todos os profanos e perversos. [1.] São filhos do diabo, o maligno. Ainda que não adotem seu nome, trazem sua imagem, cumprem seus desejos e dele recebem sua formação.
Ele governa sobre eles e neles atua, Efésios 2:2; João 8:44. [2.] São joio no campo deste mundo. Não fazem o bem; causam dano. São inúteis em si mesmos e prejudiciais à boa semente, tanto pela tentação quanto pela perseguição.
São ervas daninhas no jardim: recebem a mesma chuva, o mesmo sol e a mesma terra que as boas plantas, mas não servem para nada. O joio está entre o trigo. Repare: Deus ordenou que bons e maus estivessem misturados neste mundo, para que os bons fossem exercitados, os maus ficassem indesculpáveis e se estabelecesse uma diferença entre a terra e o céu.
(5.) O inimigo que semeou o joio é o diabo, inimigo declarado de Cristo e de tudo o que é bom, da glória do bom Deus e do conforto e felicidade de todos os homens bons. Ele é inimigo do campo do mundo, que procura fazer seu ao semear nele seu joio.
Desde que ele próprio se tornou um espírito perverso, tem trabalhado diligentemente para promover a perversidade e feito disso seu negócio, com o propósito de contrariar a obra de Cristo.
Quanto à semeadura do joio, observe na parábola:
[1.] Foi semeado enquanto os homens dormiam. Dormiam os magistrados, que deveriam ter impedido esse dano pelo seu poder; dormiam os ministros, que deveriam tê-lo impedido pela pregação. Repare: Satanás vigia todas as oportunidades e aproveita todas as vantagens para propagar o vício e a profanação.
O prejuízo que causa a pessoas em particular ocorre quando a razão e a consciência dormem, quando elas baixam a guarda. Por isso precisamos ser sóbrios e vigilantes. Foi à noite, pois esse é o tempo do sono. Repare: Satanás governa nas trevas deste mundo; isso lhe dá oportunidade de semear joio, Salmos 104:20.
Foi enquanto os homens dormiam, e não há remédio: os homens precisam de algum tempo de sono. Repare: é tão impossível impedirmos a presença de hipócritas na igreja quanto é impossível ao lavrador, enquanto dorme, impedir que um inimigo estrague seu campo.
[2.] Depois de semear o joio, o inimigo se retirou (v. 25), para que não se soubesse quem o fizera. Repare: quando Satanás causa o maior dano, procura sobretudo esconder-se, pois seu desígnio corre o risco de ser frustrado se ele for visto em ação.
Por isso, ao vir semear joio, transforma-se em anjo de luz, 2 Coríntios 11:13-14. Foi embora como se não tivesse causado prejuízo algum; tal é o caminho da mulher adúltera, Provérbios 30:20.
Observe: tal é a inclinação do homem caído para o pecado que, se o inimigo semear o joio, poderá até retirar-se: ele brotará por si mesmo e causará dano. Já a boa semente, quando semeada, precisa ser cuidada, regada e protegida, senão nada produzirá.
[3.] O joio só apareceu quando a planta brotou e deu fruto, v. 26. Há muita perversidade secreta no coração dos homens, por longo tempo encoberta sob o manto de uma profissão de fé plausível, mas que por fim se manifesta.
Assim como a boa semente, o joio permanece muito tempo sob os torrões; quando começa a brotar, é difícil distingui-los. Mas, quando chega o tempo da prova, quando se deve produzir fruto, quando é preciso fazer o bem apesar das dificuldades e dos riscos que o acompanham, então vocês voltarão a discernir entre o sincero e o hipócrita. Então poderão dizer: “Isto é trigo, e aquilo é joio”.
[4.] Ao perceberem o joio, os servos se queixaram ao senhor (v. 27): “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?”. Sem dúvida, ele o fizera. Tudo o que há de errado na igreja, estamos certos de que não vem de Cristo.
Considerando a semente que Cristo semeia, bem podemos perguntar, admirados: “De onde veio, então, este joio?”. Repare: o surgimento de erros, a eclosão de escândalos e o crescimento da profanação são motivo de grande tristeza para todos os servos de Cristo, sobretudo para seus ministros fiéis, que são orientados a queixar-se disso àquele a quem pertence o campo.
É triste ver tal joio, tais ervas daninhas, no jardim do Senhor; ver a boa terra desperdiçada, a boa semente sufocada, e ver uma sombra lançada sobre o nome e a honra de Cristo, como se seu campo não fosse melhor que o campo do preguiçoso, todo coberto de espinhos.
[5.] O Senhor logo percebeu de onde viera aquilo (v. 28): “Um inimigo fez isso”. Ele não culpa os servos; eles não podiam evitá-lo, mas haviam feito o que estava em seu poder para impedi-lo.
Repare: os ministros de Cristo que são fiéis e diligentes não serão julgados por Cristo e, portanto, não deveriam sofrer descrédito por parte dos homens por causa da mistura de maus com bons, de hipócritas com sinceros, no campo da igreja.
É inevitável que tais escândalos venham, e eles não serão lançados em nossa conta se cumprirmos nosso dever, ainda que este não produza o êxito desejado. Embora durmam, se não amarem o sono; embora se semeie joio, se não o semearem, nem o regarem, nem o aprovarem, a culpa não recairá sobre eles.
[6.] Os servos estavam muito dispostos a arrancar esse joio. “Queres que vamos fazê-lo agora mesmo?” Repare: o zelo precipitado e irrefletido dos servos de Cristo, antes de consultarem o Mestre, às vezes está pronto para arrancar, com risco para a igreja, todos os que supõem ser joio. “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu?”
[7.] O Senhor, com grande sabedoria, impediu isso (v. 29): “Não, para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele”. Repare: nenhum homem consegue distinguir infalivelmente entre o joio e o trigo; pode enganar-se.
Por isso, tal é a sabedoria e a graça de Cristo que ele prefere tolerar o joio a pôr o trigo em perigo de qualquer maneira. É certo que os ofensores escandalosos devem ser censurados e que devemos afastar-nos deles; os que são abertamente filhos do maligno não devem ser admitidos às ordenanças especiais.
Contudo, é possível que haja uma disciplina tão equivocada em suas regras ou tão excessivamente rigorosa em sua aplicação que se torne opressiva para muitos que são verdadeiramente piedosos e conscienciosos. Deve-se usar grande cautela e moderação ao impor e manter censuras eclesiásticas, para que o trigo não seja pisado, se não arrancado.
A sabedoria do alto, assim como é pura, é também pacífica; e os que se opõem não devem ser eliminados, mas instruídos com mansidão, 2 Timóteo 2:25. O joio, se mantido sob os meios da graça, pode tornar-se bom grão; portanto, tenha paciência com ele.
(6.) A colheita é o fim do mundo, v. 39. Este mundo terá fim. Embora dure muito, não durará para sempre; logo o tempo será absorvido pela eternidade. No fim do mundo haverá um grande dia de colheita, um dia de juízo. Na colheita, tudo está maduro e pronto para ser ceifado: bons e maus estarão maduros no grande dia, Apocalipse 6:11.
É a colheita da terra, Apocalipse 14:15. Na colheita, os ceifeiros cortam tudo diante de si; nenhum campo, nenhum canto, fica para trás. Assim, no grande dia todos serão julgados (Apocalipse 20:12-13). Deus estabeleceu uma colheita (Oseias 6:11), e ela não falhará, Gênesis 8:22.
Na colheita, cada um colhe conforme semeou. A terra, a semente, a habilidade e o trabalho de cada homem se manifestarão; veja Gálatas 6:7-8. Então os que semearam a preciosa semente voltarão com alegria (Salmos 126:5-6), com a alegria da colheita (Isaías 9:3).
Mas o preguiçoso, que não quis arar por causa do frio, mendigará e nada terá (Provérbios 20:4); clamará “Senhor, Senhor”, porém em vão. A colheita dos que semearam para a carne será um dia de tristeza e de dor desesperada, Isaías 17:11.
(7.) Os ceifeiros são os anjos. No grande dia serão empregados para executar as justas sentenças de Cristo, tanto de aprovação quanto de condenação, como ministros de sua justiça, Mateus 25:31.
Os anjos são servos de Cristo hábeis, fortes, velozes e obedientes, santos inimigos dos perversos e amigos fiéis de todos os santos; por isso são aptos para tal tarefa. Quem ceifa recebe salário, e os anjos não ficarão sem recompensa por seu serviço.
Pois aquele que semeia e aquele que ceifa se alegrarão juntos (João 4:36); essa é a alegria no céu, na presença dos anjos de Deus.
(8.) Os tormentos do inferno são o fogo em que o joio será então lançado e queimado. No grande dia haverá uma distinção e, com ela, uma diferença imensa. Será, de fato, um dia notável.
[1.] O joio será então retirado. Os ceifeiros, cuja tarefa principal é recolher o cereal, receberão primeiro a ordem de tirar o joio. Repare: embora bons e maus estejam juntos e indistintos neste mundo, no grande dia serão separados; não haverá então joio entre o trigo nem pecadores entre os santos.
Então vocês discernirão claramente entre o justo e o perverso, o que aqui às vezes é difícil, Malaquias 3:18; 4:1. Cristo não suportará para sempre, Salmos 50:1 etc. Eles retirarão de seu reino todas as coisas perversas que causam tropeço e todas as pessoas perversas que praticam a iniquidade. Quando ele começar, levará a obra até o fim.
Todas as doutrinas, formas de culto e práticas corrompidas que causaram ofensa, foram escândalos para a igreja e obstáculos à consciência dos homens serão condenadas pelo justo Juiz naquele dia e consumidas pelo esplendor de sua vinda: toda a madeira, o feno e a palha (1 Coríntios 3:12).
E então, ai dos que praticam a iniquidade, fazem dela um ofício e nela persistem! Isso vale não apenas para os que viverem na última era do reino de Cristo na terra, mas para os de todas as eras. Talvez haja aqui uma alusão a Sofonias 1:3: “Consumirei os tropeços com os perversos”.
[2.] Então serão atados em feixes, v. 30. Pecadores da mesma espécie serão reunidos em feixes no grande dia: um feixe de ateus, um de epicuristas, um de perseguidores e um grande feixe de hipócritas.
Os que se associaram no pecado também estarão juntos na vergonha e na tristeza. Isso agravará sua miséria, assim como a companhia dos santos glorificados aumentará a bem-aventurança destes. Oremos como Davi: “Senhor, não ajuntes a minha alma com os pecadores” (Salmos 26:9), mas que ela seja ligada no feixe da vida com o Senhor nosso Deus, 1 Samuel 25:29.
[3.] Serão lançados numa fornalha de fogo. Esse será o fim das pessoas perversas e danosas que estão na igreja como joio no campo. Não servem para nada senão para o fogo; para ele irão, pois é o lugar mais adequado para elas.
Repare: o inferno é uma fornalha de fogo, acesa pela cólera de Deus e mantida em chamas pelos feixes de joio nela lançados, que estarão sempre sendo consumidos, sem jamais se consumir. Mas ele deixa a metáfora e passa a descrever os tormentos que ela pretende representar: haverá choro e ranger de dentes.
Tristeza sem consolo e indignação incurável contra Deus, contra si mesmos e uns contra os outros serão o tormento sem fim das almas condenadas. Portanto, conhecendo esses terrores do Senhor, deixemo-nos persuadir a não praticar a iniquidade.
(9.) O céu é o celeiro em que todo o trigo de Deus será recolhido naquele dia de colheita. “Mas recolhei o trigo no meu celeiro”: assim diz a parábola, v. 30. Repare: [1.] No campo deste mundo, as pessoas boas são o trigo, o cereal mais precioso e a parte valiosa do campo.
[2.] Esse trigo logo será recolhido, separado do joio e das ervas daninhas. Todos serão reunidos numa assembleia geral, todos os santos do Antigo Testamento, todos os santos do Novo Testamento, sem faltar um sequer. “Congregai os meus santos a mim”, Salmos 50:5.
[3.] Todo o trigo de Deus será guardado junto em seu celeiro. Cada alma é abrigada na morte como um feixe de trigo (Jó 5:26), mas a reunião geral acontecerá no fim dos tempos. O trigo de Deus ficará então reunido, e não mais espalhado; haverá feixes de trigo, assim como feixes de joio.
Estarão então em segurança, sem mais exposição ao vento e às intempéries, ao pecado e à tristeza; não mais longe, a grande distância, no campo, mas perto, no celeiro. Mais que isso, o céu é um armazém de trigo (Mateus 3:12), onde o trigo será não só separado do joio das más companhias, mas também peneirado para remover a palha de suas próprias corrupções.
Na explicação da parábola, isso é representado gloriosamente (v. 43): “Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai”. Primeiro, sua honra presente consiste em terem Deus por Pai. “Agora somos filhos de Deus” (1 João 3:2); nosso Pai no céu é ali o Rei.
Cristo, ao ir para o céu, foi para seu Pai e nosso Pai, João 20:17. É a casa de nosso Pai; mais que isso, é o palácio de nosso Pai, seu trono, Apocalipse 3:21.
Segundo, a honra reservada para eles é resplandecerem como o sol naquele reino. Aqui são obscuros e estão escondidos (Colossenses 3:3); sua beleza é eclipsada pela pobreza e pela humildade de sua condição exterior. Suas fraquezas e enfermidades, bem como o descrédito e a desonra lançados sobre eles, os encobrem.
Mas então resplandecerão como o sol que surge de trás de uma nuvem escura. Na morte, resplandecerão para si mesmos; no grande dia, resplandecerão publicamente perante todo o mundo, e seus corpos serão feitos semelhantes ao corpo glorioso de Cristo.
Resplandecerão por reflexo, com luz emprestada da Fonte de luz. Sua santificação será aperfeiçoada e sua justificação, proclamada. Deus os reconhecerá como filhos e apresentará o registro de todos os serviços e sofrimentos deles por causa do seu nome. Resplandecerão como o sol, o mais glorioso de todos os seres visíveis.
No Antigo Testamento, a glória dos santos é comparada à do firmamento e das estrelas; aqui, porém, é comparada à do sol, pois o evangelho trouxe a vida e a imortalidade a uma luz muito mais clara do que a lei. Os que resplandecem como luzes neste mundo, para que Deus seja glorificado, resplandecerão como o sol no outro mundo, para que eles sejam glorificados.
Nosso Salvador conclui, como antes, exigindo atenção: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. São coisas das quais é nossa felicidade ouvir falar e às quais é nosso dever dar ouvidos.
III. Aqui está a parábola do grão de mostarda, vv. 31-32. Seu propósito é mostrar que o começo do evangelho seria pequeno, mas, ao final, aumentaria grandemente.
Desse modo, a igreja do evangelho, o reino de Deus entre nós, seria estabelecida no mundo; desse modo, a obra da graça no coração, o reino de Deus dentro de nós, avançaria em cada pessoa.
Quanto à obra do evangelho, observe:
- No começo, ela costuma ser muito fraca e pequena, como um grão de mostarda, que é uma das menores sementes. O reino do Messias, que então começava a ser estabelecido, tinha aparência modesta. Comparados aos poderosos do mundo, Cristo e os apóstolos pareciam um grão de mostarda, as coisas fracas do mundo.
Em lugares específicos, o primeiro despontar da luz do evangelho é como o raiar do dia. Em cada alma, é a princípio o dia das pequenas coisas, como uma cana esmagada. Os recém-convertidos são como cordeiros que ele precisa carregar nos braços, Isaías 40:11.
Há um pouco de fé, mas nela falta muito (1 Tessalonicenses 3:10); e os gemidos são tais que não podem ser expressos, de tão pequenos que são. Há um princípio de vida espiritual e algum movimento, mas quase imperceptível.
- Contudo, ela cresce e avança. O reino de Cristo ganhou terreno de maneira extraordinária; muitos se juntaram a ele; nações nasceram de uma só vez, apesar de toda a oposição que enfrentou do inferno e da terra. Na alma em que a graça é verdadeira, ela crescerá realmente, embora talvez de modo imperceptível.
Um grão de mostarda é pequeno; ainda assim é semente e traz em si a disposição de crescer. A graça ganhará terreno, resplandecendo cada vez mais, Provérbios 4:18. Hábitos piedosos se firmam, ações se avivam, o conhecimento se torna mais claro, a fé mais firme, o amor mais ardente. Eis a semente crescendo.
- Por fim, ela alcançará grande força e utilidade. Quando atinge certa maturidade, torna-se uma árvore, muito maior naquelas terras do que nas nossas. A igreja, como a videira trazida do Egito, lançou raízes e encheu a terra, Salmos 80:9-11.
A igreja é como uma grande árvore em que as aves do céu se abrigam; o povo de Deus recorre a ela em busca de alimento e descanso, sombra e abrigo. Em cada pessoa, o princípio da graça, se for verdadeiro, perseverará e por fim será aperfeiçoado. A graça que cresce se tornará graça forte e realizará muitas coisas.
Os cristãos maduros devem desejar ser úteis aos outros, como o grão de mostarda, depois de crescido, é útil às aves, para que aqueles que moram perto ou sob sua sombra recebam benefícios deles, Oseias 14:7.
IV. Aqui está a parábola do fermento, v. 33. Seu propósito é muito semelhante ao da parábola anterior: mostrar que o evangelho prevaleceria e teria êxito gradualmente, mas de modo silencioso e imperceptível. A pregação do evangelho é como o fermento e age como ele no coração dos que a recebem.
Uma mulher tomou esse fermento; esse era seu trabalho. Os ministros são empregados para fermentar lugares e almas com o evangelho. A mulher é o vaso mais fraco, e temos esse tesouro em vasos assim.
O fermento foi escondido em três medidas de farinha. O coração é, como a farinha, macio e maleável. É o coração terno que provavelmente tirará proveito da palavra. O fermento não age entre grãos não moídos, nem o evangelho age em almas não humilhadas nem quebrantadas pelo pecado.
A lei mói o coração, e então o evangelho o fermenta. São três medidas de farinha, uma quantidade grande, pois um pouco de fermento leveda toda a massa. A farinha precisa ser amassada antes de receber o fermento; nosso coração, assim como precisa ser quebrantado, precisa também ser umedecido e preparado com esforço para a palavra, a fim de receber suas impressões.
O fermento precisa ser escondido no coração (Salmos 119:11), não tanto para ficar em segredo, pois se manifestará, quanto para ficar seguro. Nosso pensamento interior deve ocupar-se dele; devemos guardá-lo, como Maria guardava as palavras de Cristo, Lucas 2:51.
Quando a mulher esconde o fermento na farinha, pretende que ele lhe transmita seu sabor e seu gosto. Assim também devemos guardar a palavra em nossa alma, para que sejamos santificados por ela, João 17:17.
- O fermento assim escondido na massa age nela; ele a faz fermentar. A palavra é viva e poderosa, Hebreus 4:12. O fermento age rapidamente, e a palavra também, embora aja de maneira gradual. Que mudança repentina o manto de Elias produziu em Eliseu! 1 Reis 19:20.
Age silenciosa e imperceptivelmente (Marcos 4:26), mas com força e de modo irresistível. Faz sua obra sem ruído, pois assim é o caminho do Espírito, mas a realiza infalivelmente. Basta esconder o fermento na massa, e o mundo inteiro não conseguirá impedi-lo de transmitir a ela seu sabor e seu gosto. Ninguém vê como isso acontece, mas, pouco a pouco, toda a massa fica levedada.
(1.) Assim aconteceu no mundo. Pela pregação, os apóstolos esconderam um punhado de fermento na grande massa da humanidade, e ele produziu um efeito extraordinário. Pôs o mundo em fermentação e, em certo sentido, virou-o de cabeça para baixo (Atos 17:6).
Pouco a pouco, produziu uma mudança maravilhosa em seu sabor e gosto: o aroma do evangelho se manifestou em todos os lugares, 2 Coríntios 2:14; Romanos 15:19. Ele foi eficaz desse modo não por força exterior e, portanto, não podia ser resistido nem vencido por força dessa natureza, mas pelo Espírito do Senhor dos Exércitos, que opera e a quem ninguém pode impedir.
(2.) Assim acontece no coração. Quando o evangelho entra na alma: [1.] Produz uma mudança, não na substância, pois a massa é a mesma, mas na qualidade. Faz-nos apreciar as coisas de modo diferente do anterior e faz outras coisas terem para nós um sabor diferente do que costumavam ter, Romanos 8:5.
[2.] Produz uma mudança universal: espalha-se por todas as potências e faculdades da alma e altera até a condição dos membros do corpo, Romanos 6:13.
[3.] Essa mudança faz a alma participar da natureza da palavra, assim como a massa participa da natureza do fermento. Somos entregues a ela como a um molde (Romanos 6:17) e transformados na mesma imagem (2 Coríntios 3:18), como a marca do selo na cera.
O evangelho tem o sabor de Deus, de Cristo, da graça gratuita e de outro mundo, e agora essas coisas agradam à alma. É uma palavra de fé e arrependimento, santidade e amor, e por ela essas coisas são produzidas na alma.
Esse sabor é transmitido imperceptivelmente, pois nossa vida está escondida; mas também inseparavelmente, pois a graça é uma boa parte que nunca será tirada daqueles que a possuem. Quando a massa está levedada, vai para o forno. Provações e aflições costumam acompanhar essa mudança, mas é assim que os santos são preparados para ser pão à mesa de nosso Mestre.
Versículos 44 a 52
Várias Parábolas.
Temos quatro parábolas curtas nestes versículos.
I. A do tesouro escondido no campo. Até aqui, Cristo havia comparado o reino dos céus a coisas pequenas, pois pequeno foi seu começo. Para que ninguém, por isso, o julgasse insignificante, nesta parábola e na seguinte ele o apresenta como algo de grande valor em si mesmo e de grande proveito para quem o recebe e aceita suas condições.
Aqui o reino se assemelha a um tesouro escondido no campo, do qual podemos nos apropriar se quisermos.
Jesus Cristo é o verdadeiro Tesouro. Nele há abundância de tudo o que é valioso e útil e será nossa porção: toda a plenitude (Colossenses 1:19; João 1:16); os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2:3), da justiça, da graça e da paz. Tudo isso está guardado para nós em Cristo e, se temos parte nele, tudo é nosso.
O evangelho é o campo em que esse tesouro está escondido. Está escondido na palavra do evangelho, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Nas ordenanças do evangelho, esconde-se como o leite no seio, a medula no osso, o maná no orvalho, a água no poço (Isaías 12:3) e o mel no favo.
Não está escondido num jardim fechado nem numa fonte selada, mas num campo aberto. Quem quiser, venha examinar as Escrituras e cavar nesse campo (Provérbios 2:4). Quaisquer minas reais que encontremos serão todas nossas, se seguirmos o caminho certo.
- É uma grande coisa descobrir o tesouro escondido nesse campo e seu valor indescritível. Muitos menosprezam o evangelho e não querem arcar com o custo nem correr o risco de recebê-lo porque olham apenas a superfície do campo e julgam por ela. Assim, não veem nas instituições cristãs excelência superior à dos filósofos.
As minas mais ricas, porém, muitas vezes estão nos terrenos de aparência mais estéril. Por isso, essas pessoas nem sequer oferecem um lance pelo campo, quanto menos pagam seu preço. Em que seu amado é melhor que outro amado? Em que a Bíblia é melhor que outros bons livros? Em que o evangelho de Cristo supera a filosofia de Platão ou a moral de Confúcio?
Mas aqueles que examinaram as Escrituras a ponto de encontrar nelas Cristo e a vida eterna (João 5:39) descobriram nesse campo um tesouro que o torna infinitamente mais valioso.
- Quem distingue esse tesouro no campo e lhe dá o devido valor não sossegará até torná-lo seu, custe o que custar. Aquele que encontra o tesouro o esconde. Isso indica um zelo santo, para que não deixemos de alcançá-lo (Hebreus 4:1), vigiando cuidadosamente (Hebreus 12:15) para que Satanás não se interponha entre nós e ele.
Ele se alegra com o tesouro, embora o negócio ainda não esteja fechado. Alegra-se porque tal negócio é possível, porque está no caminho de ter parte em Cristo e porque as tratativas estão em curso. Pode alegrar-se o coração dos que ainda apenas buscam o Senhor (Salmos 105:3).
Ele resolve comprar o campo. Quem recebe as ofertas do evangelho conforme suas condições compra esse campo e o torna seu por causa do tesouro invisível nele guardado. É para Cristo no evangelho que devemos olhar. Não precisamos subir ao céu: Cristo está perto de nós na palavra.
Tão decidido está a adquiri-lo que vende tudo para comprar o campo. Quem deseja receber de Cristo o benefício da salvação deve estar disposto a abrir mão de tudo para assegurá-lo para si; deve considerar todas as coisas como perda para ganhar Cristo e ser encontrado nele.
II. A da pérola de grande valor (vv. 45-46), com o mesmo sentido da anterior, a do tesouro. O sonho é assim repetido, porque a coisa é certa.
Repare: 1. Todos os seres humanos se ocupam em procurar boas pérolas. Um quer ser rico; outro, honrado; outro, instruído. A maioria, porém, é enganada e se contenta com imitações no lugar de pérolas.
Jesus Cristo é uma pérola de grande valor, uma joia de preço inestimável. Ela torna ricos os que a possuem: verdadeiramente ricos, ricos para com Deus. Tendo-o, temos o suficiente para ser felizes aqui e para sempre.
O verdadeiro cristão é um negociante espiritual que procura e encontra essa pérola preciosa. Não se contenta com nada menos que ter parte em Cristo e, como alguém decidido a ser espiritualmente rico, negocia por um preço alto. Ele foi e comprou a pérola; não apenas fez uma oferta, mas a adquiriu.
De que nos adiantará conhecer Cristo se não o conhecermos como nosso, feito para nós sabedoria? (1 Coríntios 1:30).
- Quem deseja ter parte em Cristo para a salvação deve estar disposto a abrir mão de tudo por ele, a deixar tudo para segui-lo. Tudo o que se opõe a Cristo ou disputa com ele nosso amor e serviço, devemos abandonar de bom grado, por mais querido que nos seja. Alguém pode pagar caro demais pelo ouro, mas não por essa pérola preciosa.
III. A da rede lançada ao mar (vv. 47-49):
- Eis a parábola. Observe: (1.) O mundo é um vasto mar, e os seres humanos são as incontáveis criaturas, pequenas e grandes, que nele se movem (Salmos 104:25). Em seu estado natural, as pessoas são como os peixes do mar, sem quem os governe (Habacuque 1:14).
(2.) A pregação do evangelho é o lançamento de uma rede nesse mar, para dele apanhar algo para a glória daquele que tem domínio sobre o mar. Os ministros são pescadores de homens, encarregados de lançar e recolher a rede. Têm sucesso quando a lançam à palavra de Cristo; de outro modo, labutam e nada apanham.
(3.) A rede recolhe de toda espécie, como fazem as grandes redes de arrasto. Na igreja visível, há muito lixo, entulho, sujeira, ervas daninhas e vermes, além de peixes.
(4.) Virá o tempo em que a rede estará cheia e será puxada para a praia: o tempo determinado em que o evangelho terá realizado aquilo para que foi enviado. Temos certeza de que não voltará vazio (Isaías 55:10-11).
A rede está se enchendo agora. Às vezes se enche mais depressa do que em outras ocasiões, mas continua a se encher. Quando se cumprir o mistério de Deus, será puxada para a praia.
(5.) Quando a rede estiver cheia e for puxada para a praia, haverá separação entre os bons e os maus que ela recolheu. Os hipócritas e os cristãos verdadeiros serão apartados. Os bons serão reunidos em recipientes, por seu valor, para serem cuidadosamente guardados; os maus serão lançados fora como vis e inúteis. Miserável será a condição dos rejeitados naquele dia.
Enquanto a rede está no mar, não se sabe o que há dentro dela; nem mesmo os pescadores conseguem distinguir. Ainda assim, recolhem-na com cuidado e trazem à praia tudo o que há nela, por causa dos bons peixes. Assim Deus cuida da igreja visível; e assim os ministros devem cuidar daqueles que lhes foram confiados, apesar da mistura.
- Segue-se a explicação da última parte da parábola; a primeira é clara o suficiente. Vemos na igreja visível pessoas de toda espécie. A última parte, porém, diz respeito ao futuro e, por isso, recebe explicação mais detalhada (vv. 49-50).
Assim será no fim do mundo. Então, e só então, virá o dia que separa e revela. Não devemos esperar que a rede esteja cheia apenas de peixes bons. Os recipientes estarão, mas na rede eles estão misturados. Veja:
(1.) A distinção dos maus entre os justos. Os anjos do céu sairão para fazer o que os anjos das igrejas jamais poderiam fazer: separar os maus dos justos. Não precisamos perguntar como os distinguirão, pois terão tanto sua comissão quanto suas instruções daquele que conhece todas as pessoas, especialmente as que lhe pertencem e as que não lhe pertencem.
Podemos ter certeza de que não haverá erro nem equívoco de nenhum dos lados.
(2.) A condenação dos maus depois de separados: serão lançados na fornalha. Repare: miséria e tristeza eternas serão certamente a porção daqueles que convivem com pessoas santificadas, mas morrem sem santificação. Isso é o mesmo que vimos antes (v. 42).
Repare: o próprio Cristo pregou muitas vezes sobre os tormentos do inferno como castigo eterno dos hipócritas. É bom que sejamos lembrados com frequência dessa verdade que desperta e estimula.
IV. Aqui está a parábola do bom dono de casa, destinada a fixar na mente todas as outras.
- A ocasião foi o bom progresso dos discípulos no aprendizado e o proveito que tiraram especialmente deste sermão. (1.) Cristo lhes perguntou: “Entendestes todas estas coisas?” Com isso indicou que estava pronto a explicar o que ainda não compreendessem.
Repare: Cristo quer que todos os que leem e ouvem a palavra a entendam. De que outra forma poderiam tirar proveito dela? Por isso, depois de ler ou ouvir a palavra, é bom que nos examinemos ou sejamos examinados para saber se a entendemos. Não diminui os discípulos de Cristo serem interrogados sobre o ensino recebido.
Cristo nos convida a procurá-lo para aprender. Também os ministros devem oferecer ajuda àqueles que têm alguma boa pergunta sobre o que ouviram.
(2.) Responderam-lhe: “Sim, Senhor”. Temos motivo para crer que disseram a verdade, pois, quando não haviam entendido, pediram uma explicação (v. 36). A explicação daquela parábola foi a chave para as demais.
Repare: a compreensão correta de um bom sermão nos ajuda muito a compreender outro, porque as boas verdades explicam e esclarecem umas às outras. O conhecimento é fácil para quem tem entendimento.
- O propósito da parábola era manifestar sua aprovação e seu elogio pelo progresso deles. Repare: Cristo está pronto a animar os alunos dispostos de sua escola, ainda que sejam fracos, e a dizer: “Muito bem; bem respondido”.
(1.) Ele os elogia como escribas instruídos acerca do reino dos céus. Aprendiam para poder ensinar, e os mestres entre os judeus eram os escribas. Esdras, que preparou o coração para ensinar em Israel, é chamado de escriba versado (Esdras 7:6, 10).
Também o ministro do evangelho, hábil e fiel, é um escriba. Para distingui-lo, porém, é chamado de escriba instruído acerca do reino dos céus: conhece bem as coisas do evangelho e tem plena capacidade de ensiná-las. Repare: [1.] Quem deve instruir outros precisa estar bem instruído. Se os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, primeiro sua mente precisa possuí-lo.
[2.] A instrução do ministro do evangelho deve versar sobre o reino dos céus; esse é o assunto do seu trabalho. Alguém pode ser grande filósofo e político, mas, se não for instruído acerca do reino dos céus, será um mau ministro.
(2.) Ele os compara a um bom dono de casa, que tira de seu tesouro coisas novas e velhas: frutos da colheita do ano passado e deste ano, em abundância e variedade, para receber seus amigos (Cantares de Salomão 7:13). Veja:
[1.] O que deve compor os recursos de um ministro: um tesouro de coisas novas e velhas. Quem enfrenta tantas ocasiões variadas precisa abastecer-se bem, nos dias de colheita, de verdades novas e velhas, do Antigo e do Novo Testamento, de aplicações antigas e modernas, para que o homem de Deus seja completamente preparado (2 Timóteo 3:16-17).
Experiências antigas e observações novas, todas têm seu uso. Não devemos nos contentar com descobertas antigas; precisamos acrescentar outras novas. Viva e aprenda.
[2.] O uso que o ministro deve fazer desses recursos: deve tirá-los do tesouro. Guardar serve para depois repartir em benefício de outros. Sic vos non vobis: vocês devem guardar, mas não para si mesmos. Muitos estão cheios, mas não têm por onde extravasar (Jó 32:19); têm um talento, mas o enterram. Esses são servos inúteis.
O próprio Cristo recebeu para que pudesse dar. Devemos fazer o mesmo, e receberemos mais. Ao tirar do tesouro, as coisas novas e as velhas vão melhor juntas: verdades antigas, mas novos métodos e expressões e, sobretudo, novos afetos.
Versículos 53 a 56
O Desprezo de Seus Conterrâneos por Cristo.
Vemos aqui Cristo em sua própria terra. Ele andava fazendo o bem, mas não deixava nenhum lugar antes de concluir ali seu testemunho naquela ocasião. Seus conterrâneos já o haviam rejeitado uma vez; ainda assim, voltou a eles.
Repare: Cristo não toma a primeira recusa como resposta definitiva, mas renova suas ofertas àqueles que muitas vezes as rejeitaram. Nisso, como em outras coisas, Cristo era semelhante a seus irmãos: tinha afeição natural pela própria terra.
Patriam quisque amat, non quia pulchram, sed quia suam: cada um ama sua terra, não porque seja bela, mas porque é sua. Sêneca. O tratamento que recebeu desta vez foi muito parecido com o anterior: desdenhoso e rancoroso. Observe:
I. Como manifestaram desprezo por ele. Quando os ensinou na sinagoga, ficaram admirados, mas não por terem sido conquistados por sua pregação nem por admirarem sua doutrina em si. Admiravam-se apenas de que ela viesse dele, pois julgavam pouco provável que ele fosse um mestre assim. Repreenderam-no por duas coisas.
- A falta de formação acadêmica. Reconheciam que ele tinha sabedoria e realizava obras poderosas. A questão, porém, era de onde lhe vinham, pois sabiam que ele não fora educado aos pés dos rabinos. Nunca frequentara a universidade, nem recebera um grau acadêmico, nem fora chamado pelas pessoas de “Rabi, Rabi”.
Repare: espíritos mesquinhos e preconceituosos tendem a julgar as pessoas pela formação e a investigar mais sua origem do que suas razões. “De onde vêm as obras poderosas deste homem? Obteve-as por meios honestos? Não terá estudado artes ocultas?”
Assim, voltavam contra ele o que de fato falava a seu favor. Se não fossem cegos por vontade própria, teriam de concluir que aquele que, sem auxílio de formação, demonstrava sabedoria e poder extraordinários recebia ajuda e comissão divinas.
- A origem humilde e a pobreza de seus parentes (vv. 55-56):
(1.) Desprezam-no por causa do pai: “Não é este o filho do carpinteiro?” Sim, era assim que o consideravam. Que mal havia nisso? Não o diminuía ser filho de um trabalhador honesto. Não se lembravam, embora pudessem sabê-lo, de que esse carpinteiro pertencia à casa de Davi (Lucas 1:27) e era filho de Davi (Mateus 1:20): carpinteiro, mas também homem honrado.
Quem está disposto a procurar motivos de queixa ignora o que é digno e meritório e se apega apenas ao que parece humilde. Certos espíritos sórdidos não dão valor a nenhum ramo, nem mesmo ao Renovo do tronco de Jessé (Isaías 11:1), se não for o ramo mais alto.
(2.) Desprezam-no por causa da mãe. E que problema tinham com ela? Ora, sua mãe se chamava Maria, nome muito comum. Todos a conheciam e sabiam que era uma pessoa comum. Chamava-se Maria, não rainha Maria, nem senhora Maria, nem sequer dona Maria: apenas Maria.
Isso se tornou motivo de descrédito para ele, como se o valor de alguém dependesse apenas de ascendência estrangeira, nascimento nobre ou títulos pomposos. São medidas lamentáveis para avaliar uma pessoa.
(3.) Desprezam-no por causa dos irmãos, cujos nomes conheciam e tinham bem à mão para esse propósito: Tiago, José, Simão e Judas. Eram homens bons, mas pobres; por isso foram desprezados, e Cristo por causa deles.
É provável que esses irmãos fossem filhos de José com uma esposa anterior. Qualquer que fosse sua relação com Cristo, parecem ter crescido com ele na mesma família. Por isso, não lemos em detalhes sobre o chamado de três deles, que estavam entre os doze, a essa honra: Tiago, Simão e Judas, o mesmo que Tadeu.
Não precisavam de chamado tão explícito para conhecer a Cristo, pois haviam sido seus companheiros de juventude.
(4.) “Suas irmãs também estão todas entre nós.” Por ele ser um dos seus, deveriam tê-lo amado e respeitado mais; por esse mesmo motivo, porém, o desprezaram. Escandalizaram-se com ele: tropeçaram nessas pedras de tropeço, pois ele fora posto como sinal a que haveria oposição (Lucas 2:34; Isaías 8:14).
II. Veja como reagiu a esse desprezo (vv. 57-58).
- Seu coração não se perturbou. Parece que não se importou muito com isso: desprezou a vergonha (Hebreus 12:2). Em vez de agravar a ofensa, mostrar-se ofendido ou dar às insinuações tolas a resposta que mereciam, atribuiu-as com brandura à tendência comum dos seres humanos de subestimar qualidades próximas, familiares e acessíveis.
Costuma ser assim: “Um profeta não fica sem honra, exceto em sua própria terra”. Repare: (1.) Os profetas devem receber honra e geralmente a recebem. Homens de Deus são homens importantes e honrados, dignos de respeito. Seria realmente estranho se os profetas não recebessem honra.
(2.) Apesar disso, costumam receber menos consideração e reverência na própria terra; às vezes, ali são até os mais invejados. A familiaridade produz desprezo.
- Naquele momento, para falar com reverência, esse desprezo na prática lhe atou as mãos: “Não fez ali muitas obras poderosas, por causa da incredulidade deles”. Repare: a incredulidade é o grande obstáculo aos favores de Cristo.
De modo geral, tudo é possível para Deus (Mateus 19:26), mas, em cada caso, é possível àquele que crê (Marcos 9:23). O evangelho é o poder de Deus para a salvação, mas para todo aquele que crê (Romanos 1:16).
Portanto, se obras poderosas não são realizadas em nós, isso não se deve à falta de poder ou graça em Cristo, mas à falta de fé em nós. Pela graça somos salvos, e essa é uma obra poderosa, mas a salvação é mediante a fé (Efésios 2:8).