Matthew Henry

Mateus 12

Argumento

Neste capítulo temos: I. Cristo esclarece a lei do quarto mandamento a respeito do sábado e a defende de certas noções supersticiosas propostas pelos mestres judeus. Mostra que obras de necessidade e de misericórdia devem ser realizadas nesse dia, vv. 1-13.

II. A prudência, a humildade e a abnegação de nosso Senhor Jesus ao realizar milagres, vv. 14-21. III. A resposta de Cristo às objeções e calúnias blasfemas dos escribas e fariseus, que atribuíram sua expulsão de demônios a um pacto com o Diabo, vv. 22-37.

IV. A resposta de Cristo a uma exigência feita para tentá-lo pelos escribas e fariseus, que o desafiaram a mostrar-lhes um sinal do céu, vv. 38-45. V. O juízo de Cristo acerca de seus parentes e familiares, vv. 46-50.

Versículos 1 a 13

Cristo Defende Seus Discípulos.

Os mestres judeus haviam corrompido muitos mandamentos ao interpretá-los com mais tolerância do que se pretendia. Cristo expôs e corrigiu esse erro no Sermão do Monte (Mateus 5). Quanto ao quarto mandamento, porém, haviam errado no extremo oposto e o interpretavam com rigor excessivo.

Repare: é comum que pessoas de mente corrompida pensem compensar a frouxidão de sua conduta moral com zelo pelos ritos e pelos atos externos da religião. No entanto, são amaldiçoados tanto os que acrescentam palavras a este livro quanto os que as retiram dele (Apocalipse 22:18-19; Provérbios 30:6).

Nosso Senhor Jesus estabelece aqui que as obras de necessidade e de misericórdia são lícitas no sábado, embora os judeus tivessem sido ensinados a ter escrúpulos quanto a muitas delas. O cuidado de Cristo ao explicar o quarto mandamento indica sua obrigação permanente: observar religiosamente como sábado santo um dia a cada sete.

Ele não explicaria uma lei que estava prestes a expirar. Sem dúvida, pretendia resolver uma questão útil à igreja em todas as épocas. Assim nos ensina que o sábado cristão, embora orientado pelo quarto mandamento, não está sujeito às imposições dos anciãos judeus.

É comum estabelecer o sentido de uma lei por decisões sobre casos reais. Do mesmo modo se estabelece o sentido dessa lei. Dois relatos, separados por algum tempo e de natureza diferente, são reunidos aqui para esse fim, ao qual ambos atendem.

I. Ao defender seus discípulos por colherem espigas no sábado, Cristo mostra que nesse dia são lícitas as obras de necessidade. Observe:

  1. O que fizeram os discípulos. Certo sábado, seguiam o Mestre por um campo de cereais. Provavelmente estavam a caminho da sinagoga (v. 9), pois não convém aos discípulos de Cristo passear sem propósito nesse dia. Estavam com fome, mas isso não deve diminuir nossa consideração pelo cuidado do Mestre com seus seguidores.

Podemos supor, porém, que estivessem tão concentrados nas atividades do sábado que se esqueceram de comer. Talvez gastassem tanto tempo na adoração matinal que não lhes restou tempo para a refeição e saíram em jejum para não chegar atrasados à sinagoga. A Providência fez com que atravessassem o campo, onde encontraram alimento.

Repare: Deus tem muitas maneiras de providenciar alimento adequado a seu povo quando precisa e cuida especialmente dos que vão à sinagoga. Assim cuidava dos antigos peregrinos que subiam a Jerusalém para adorar (Salmos 84:6, 7): a chuva enchia os reservatórios para eles. Enquanto andarmos no caminho do dever, Jeová-Jiré: deixemos que Deus providencie o necessário.

No campo, começaram a colher espigas. A lei de Deus permitia isso (Deuteronômio 23:25), para ensinar as pessoas a agir com espírito de boa vizinhança e a não insistir no direito de propriedade sobre algo pequeno que pode beneficiar outra pessoa.

Era uma provisão modesta para Cristo e seus discípulos, mas era o melhor que tinham e estavam satisfeitos. O conhecido senhor Ball, de Whitmore, costumava dizer que tinha dois pratos de comida em sua refeição de sábado: um de leite quente e outro de leite frio; para ele era mais que suficiente.

  1. Por que os fariseus se ofenderam. Era apenas um desjejum frugal, mas os fariseus não os deixavam comer em paz. Não os censuraram por colher cereal alheio, pois não eram grandes defensores da justiça, mas por fazê-lo no sábado. A tradição dos anciãos proibia expressamente colher e esfregar espigas nesse dia, por considerar isso uma espécie de ceifa.

Repare: não é novidade que até os atos mais inofensivos e inocentes dos discípulos de Cristo sejam difamados e tidos por ilícitos, especialmente por quem zela pelas próprias invenções e imposições. Os fariseus reclamaram deles ao Mestre por fazerem o que, segundo diziam, não era lícito. Repare: não são amigos de Cristo e de seus discípulos os que declaram ilícito aquilo que Deus não proibiu.

  1. A resposta de Cristo à objeção dos fariseus. Os discípulos pouco podiam dizer em defesa própria, sobretudo porque os que os censuravam pareciam apoiar-se no rigor da santificação do sábado. Em caso de dúvida, é mais seguro errar pelo lado do rigor.

Cristo, porém, veio libertar seus seguidores não só das corrupções dos fariseus, mas também de suas imposições sem base nas Escrituras. Por isso, tem algo a dizer em favor deles e justifica sua conduta, embora ela transgredisse a regra estabelecida pelos anciãos.

(1.) Ele os justifica com precedentes que os próprios fariseus reconheciam como válidos.

[1.] Cita um antigo caso de Davi, que, por necessidade, fez o que em outras circunstâncias não deveria fazer (v. 3, 4): “Vocês não leram o relato de Davi comendo os pães da proposição (1 Samuel 21:6), que a lei reservava aos sacerdotes?” (Levítico 24:5-9).

Eram santíssimos para Arão e seus filhos, e ninguém de fora da família sacerdotal podia comê-los (Êxodo 29:33). Ainda assim, o sacerdote os deu a Davi e a seus homens.

Embora a exceção por necessidade não estivesse expressa, estava implícita nessa e em todas as outras instituições rituais. Não foi a posição de Davi que o autorizou a comer os pães, mas sua fome. Uzias, que por orgulho invadiu o ofício sacerdotal, foi ferido com lepra, embora fosse rei (2 Crônicas 26:16 e seguintes).

Os desejos desordenados dos maiores não devem ser atendidos, mas as necessidades dos mais humildes devem ser consideradas. A fome é um desejo natural que não pode ser mortificado; precisa ser satisfeito, e somente a comida o satisfaz. Por isso dizemos que ela atravessa até muros de pedra.

O Senhor cuida do corpo e permitiu que uma regra instituída por ele fosse dispensada numa situação de aflição. Com muito mais razão poderia ser dispensada a tradição dos anciãos.

Repare: numa necessidade, pode-se fazer o que em outra ocasião não seria permitido. Há leis que a necessidade não observa; ela mesma é uma lei. As pessoas não desprezam, mas se compadecem de quem rouba para saciar a própria fome (Provérbios 6:30).

[2.] Cita o exemplo cotidiano dos sacerdotes, que os fariseus também liam na lei e que se seguia constantemente (v. 5). No templo, os sacerdotes faziam muito trabalho servil no sábado: matavam, esfolavam e queimavam os animais oferecidos em sacrifício.

Em circunstâncias comuns, isso seria profanar o sábado; nunca, porém, foi considerado transgressão do quarto mandamento, pois o serviço do templo o exigia e justificava.

Isso indica que são lícitos no sábado os trabalhos necessários não apenas para sustentar a vida, mas também para realizar o culto desse dia, como tocar um sino para reunir a congregação, viajar até a igreja e coisas semelhantes. O descanso sabático deve favorecer a adoração, não impedi-la.

(2.) Ele os justifica com três argumentos convincentes.

[1.] “Aqui está quem é maior do que o templo” (v. 6). Se o serviço do templo justificava o que faziam os sacerdotes em seu ministério, o serviço de Cristo justificava com muito mais razão o que os discípulos faziam ao acompanhá-lo.

Os judeus tinham uma veneração extrema pelo templo: ele santificava o ouro. Estêvão foi acusado de blasfemar contra aquele lugar santo (Atos 6:13). Cristo, porém, mesmo num campo de cereais, era maior que o templo. Nele não habitava simbolicamente a presença de Deus, mas toda a plenitude da Divindade em corpo.

Repare: se fizermos tudo em nome de Cristo e para ele, Deus o aceitará bondosamente, por mais que as pessoas o censurem ou lhe façam objeções.

[2.] Deus quer misericórdia, não sacrifício (v. 7). Os deveres cerimoniais devem ceder lugar aos morais, e a lei natural e régia do amor e da preservação da própria vida deve prevalecer sobre as práticas rituais. É uma citação de Oseias 6:6.

Antes, ela foi usada em defesa da misericórdia para com a alma das pessoas (Mateus 9:13); aqui, em defesa da misericórdia para com seu corpo. O descanso sabático foi estabelecido para o bem do ser humano, em favor do corpo (Deuteronômio 5:14). Nenhuma lei deve ser interpretada de modo a contrariar seu próprio objetivo.

Se os fariseus tivessem entendido o significado dessa passagem e o que é ter disposição misericordiosa, ficariam tristes por ver os discípulos obrigados a colher espigas para matar a fome. Não teriam condenado os inocentes. Repare, primeiro: a ignorância causa nossas censuras precipitadas e pouco caridosas aos irmãos.

Segundo: não basta conhecer as Escrituras; precisamos esforçar-nos para entender seu significado. Quem lê, entenda. Terceiro: ignorar o sentido das Escrituras é especialmente vergonhoso para quem se propõe a ensinar os outros.

[3.] “O Filho do homem é Senhor até do dia de sábado” (v. 8). Essa lei, como todas as outras, foi posta nas mãos de Cristo, para que a altere, a faça cumprir ou dispense sua observância conforme julgar bom.

Por meio do Filho, Deus criou o mundo e instituiu o sábado no estado de inocência. Por meio dele, deu os dez mandamentos no monte Sinai. Como Mediador, Cristo recebeu autoridade para estabelecer ordenanças e fazer as mudanças que considerasse apropriadas. Em especial, como Senhor do sábado, tinha autoridade para mudar esse dia, tornando-o o dia do Senhor, o dia do Senhor Cristo.

Se Cristo é Senhor do sábado, convém que o dia e todas as suas atividades lhe sejam dedicados. Por essa autoridade, ele determina aqui que obras de necessidade, quando a necessidade é real e não fingida ou criada pela própria pessoa, são lícitas no sábado. Essa explicação da lei mostra claramente que ela seria perpétua. Exceptio firmat regulam: a exceção confirma a regra.

Depois de calar os fariseus e afastar-se deles (v. 9), Cristo entrou na sinagoga deles, dos mesmos fariseus que a dirigiam e para a qual ele se encaminhava quando provocaram essa discussão. Repare, primeiro: devemos cuidar para que nada que aconteça no caminho às santas ordenanças nos torne incapazes de participar delas ou nos desvie da devida presença.

Prossigamos no dever, apesar das artimanhas de Satanás. Por meio das discussões perversas de pessoas de mente corrompida e de muitos outros recursos, ele procura perturbar-nos e tirar-nos a serenidade.

Segundo: não devemos deixar a adoração pública por causa de rixas particulares e ressentimentos pessoais. Embora os fariseus tivessem feito objeções maliciosas a Cristo, ele entrou na sinagoga deles. Satanás vence quando, semeando discórdia entre irmãos, consegue afastá-los, ou afastar qualquer um deles, da sinagoga e da comunhão dos fiéis.

II. Ao curar o homem da mão ressequida no sábado, Cristo mostra que as obras de misericórdia são lícitas e apropriadas nesse dia. A obra de necessidade foi praticada pelos discípulos e justificada por ele; a de misericórdia, praticada pelo próprio Cristo.

As obras de misericórdia eram para ele obras de necessidade: fazer o bem era seu alimento e sua bebida. “É necessário que eu pregue”, diz ele (Lucas 4:43). Essa cura foi registrada por causa do dia em que ocorreu, o sábado.

Temos aqui: 1. A aflição desse pobre homem. Sua mão estava ressequida, o que o impedia por completo de ganhar o sustento com o trabalho manual. São Jerônimo afirma que o evangelho de Mateus em hebraico, usado pelos nazarenos e ebionitas, acrescenta à história a circunstância de que ele era cæmentarius, pedreiro, e se dirigiu a Cristo assim:

“Senhor, sou pedreiro e ganho a vida com meu trabalho (manibus victum quæritans). Peço-te, ó Jesus, restaura o uso da minha mão para que eu não precise mendigar o pão” (ne turpiter mendicem cibos). Jerônimo, comentário neste trecho.

Esse pobre homem estava na sinagoga. Repare: os que pouco podem fazer ou pouco têm a fazer neste mundo devem fazer tanto mais pela própria alma, como os ricos, os idosos e os enfermos.

  1. A pergunta maldosa que os fariseus fizeram a Cristo ao ver esse homem. Perguntaram: “É lícito curar?” Não lemos aqui que o homem tenha pedido a cura, mas os fariseus perceberam que Cristo começava a prestar atenção nele. Sabiam que ele costumava deixar-se encontrar pelos que não o buscavam.

Assim, sua maldade se adiantou à bondade dele: levantaram essa questão como obstáculo à prática do bem. É lícito curar no sábado?

Fosse lícito ou não aos médicos curar nesse dia, tema debatido em seus livros, deveria estar fora de discussão que os profetas podem curar e que pode fazê-lo aquele que demonstrava poder e bondade divinos em todas as curas que realizava e se mostrava enviado por Deus.

Alguém já perguntou se é lícito a Deus curar, enviar sua palavra e curar? É verdade que Cristo se submetera voluntariamente à lei e estava sujeito a ela; nunca, porém, se submeteu às imposições dos anciãos.

“É lícito curar?” Investigar se um ato é lícito é muito bom, e ninguém é mais indicado que Cristo para receber tais perguntas. Eles, contudo, não perguntaram para ser instruídos, mas para poder acusá-lo.

Se respondesse que era lícito curar no sábado, acusariam-no de contrariar o quarto mandamento. Os fariseus haviam levado o descanso sabático a tal grau de superstição que não admitiam tratamento médico nesse dia, salvo quando a vida corresse perigo. Se respondesse que não era lícito, acusariam-no de parcialidade, pois havia pouco justificara os discípulos por colher espigas no sábado.

  1. A resposta de Cristo à pergunta, recorrendo à opinião e à prática dos próprios fariseus (v. 11, 12). Se uma ovelha, ainda que fosse apenas uma e sua perda não fosse grande, caísse num poço no sábado, eles não a tirariam dali?

Sem dúvida poderiam fazê-lo, pois o quarto mandamento permite; e deveriam fazê-lo, pois o homem misericordioso cuida da vida de seu animal. Eles mesmos o fariam para não perder uma ovelha.

Cristo se importa com as ovelhas? Sim: preserva e sustenta tanto as pessoas quanto os animais. Mas aqui fala em nosso favor (1 Coríntios 9:9, 10) e daí conclui: quanto mais vale uma pessoa que uma ovelha! As ovelhas são criaturas não só inofensivas, mas também úteis, apreciadas e cuidadas por isso; uma pessoa, porém, lhes é muito superior.

Repare: em seu próprio ser, o ser humano é muito melhor e mais valioso que os melhores animais. É uma criatura racional, capaz de conhecer, amar e glorificar a Deus; por isso vale mais que uma ovelha. O sacrifício de uma ovelha, portanto, não poderia expiar o pecado de uma alma.

Não levam isso em conta os que se preocupam mais em criar, preservar e sustentar cavalos e cães do que em cuidar dos pobres de Deus ou, talvez, até de sua própria família.

Disso Cristo tira uma conclusão que, à primeira vista, parece razoável e bondosa: é lícito fazer o bem no sábado. Haviam perguntado se era lícito curar; Cristo prova que é lícito fazer o bem. Julgue qualquer um se curar como ele curava não era fazer o bem.

Repare: há mais maneiras de fazer o bem no sábado do que cumprir os deveres da adoração direta a Deus. Cuidar dos enfermos, socorrer os pobres e ajudar quem sofre uma aflição repentina e precisa de alívio imediato: tudo isso é praticar o bem.

É preciso fazê-lo por amor e caridade, com humildade, abnegação e disposição espiritual voltada para o céu. Assim se faz o bem de modo correto, e ele será aceito (Gênesis 4:7).

  1. Cristo cura o homem, apesar da ofensa que sabia que os fariseus sentiriam (v. 13). Embora não conseguissem responder a seus argumentos, estavam decididos a manter o preconceito e a inimizade. Cristo, porém, prosseguiu em sua obra. Repare: não devemos deixar de cumprir o dever nem perder oportunidades de fazer o bem por medo de causar ofensa.

O modo como ocorreu a cura merece atenção. Cristo disse ao homem: “Estende a mão; faz o esforço que puderes”. Ele o fez, e a mão foi restaurada por completo. Como outras curas realizadas por Cristo, essa tinha um significado espiritual.

(1.) Por natureza, nossas mãos estão ressequidas: sozinhos, somos inteiramente incapazes de fazer o bem.

(2.) Somente Cristo nos cura pelo poder de sua graça. Ele cura a mão ressequida dando vida à alma morta e operando em nós tanto o querer como o realizar.

(3.) Para que sejamos curados, ele nos ordena estender as mãos, usar as capacidades naturais e fazer o melhor que pudermos. Devemos estendê-las em oração a Deus, para agarrar-nos a Cristo pela fé e em esforços santos.

Esse homem não podia estender sozinho a mão ressequida, assim como o paralítico não podia levantar-se e carregar o leito nem Lázaro sair do túmulo. Ainda assim, Cristo ordenou que o fizesse. As ordens de Deus para cumprirmos deveres que não podemos realizar por nós mesmos não são mais absurdas nem injustas que a ordem dada ao homem para estender a mão.

Pois com a ordem vem uma promessa da graça, dada pela palavra: Deus nos manda voltar-nos quando nos repreende e promete derramar sobre nós o seu Espírito (Provérbios 1:23). Os que perecem não têm desculpa, assim como esse homem não a teria se não tentasse estender a mão e, por isso, não fosse curado.

Os que são salvos tampouco têm motivo para vangloriar-se, assim como ele não podia vangloriar-se de ter contribuído para a própria cura ao estender a mão. Devem tanto ao poder e à graça de Cristo quanto ele devia.

Versículos 14 a 21

A Malícia dos Fariseus; Cristo se Retira.

Assim como, em meio às maiores humilhações de Cristo, havia provas de sua dignidade, também em meio às maiores honras ele deu provas de humildade. Suas obras poderosas lhe ofereciam ocasião para alcançar destaque; ainda assim, mostrou que se esvaziara e abrira mão de toda reputação. Temos aqui:

I. A malícia maldita dos fariseus contra Cristo (v. 14). Enfurecidos diante das provas convincentes dos milagres dele, saíram e se reuniram em conselho para decidir como destruí-lo.

O que os contrariava não era apenas o fato de que, por seus milagres, a honra de Cristo ofuscava a deles. A doutrina que ele pregava também se opunha diretamente ao orgulho, à hipocrisia e aos interesses mundanos deles. Alegavam, porém, estar indignados porque ele violava o sábado, crime punível com a morte segundo a lei (Êxodo 35:2).

Repare: não é novidade ver as práticas mais vis encobertas pelos pretextos mais plausíveis. Observe sua astúcia: reuniram-se para deliberar, ponderando como executar o plano com eficácia. Tramaram juntos em segredo para animar-se e ajudar-se mutuamente.

Observe sua crueldade: deliberaram não para prendê-lo ou expulsá-lo, mas para destruí-lo, para tirar a vida daquele que veio para nos dar vida. Que afronta ao nosso Senhor Jesus tratá-lo como um proscrito (qui caput gerit lupinum, alguém que leva cabeça de lobo) e uma praga para seu país, quando ele era sua maior bênção, a Glória de seu povo Israel!

II. A retirada de Cristo nessa ocasião e o recolhimento que escolheu para evitar o perigo, sem abandonar a obra. Como sua hora ainda não chegara (v. 15), retirou-se dali. Poderia ter-se protegido por um milagre, mas preferiu o meio comum da fuga e do recolhimento. Nisso, como em outras coisas, quis submeter-se às fraquezas sem pecado de nossa natureza.

Ele se humilhou ao ser obrigado a recorrer à saída comum das pessoas mais indefesas. Também deu exemplo da regra que ele próprio ensinara: quando os perseguirem numa cidade, fujam para outra. Cristo havia dito e feito o suficiente para convencer aqueles fariseus, se argumentos ou milagres pudessem fazê-lo.

Em vez de cederem às provas, porém, eles se endureceram e se enfureceram. Por isso, Cristo os deixou como incuráveis (Jeremias 51:9).

Cristo não se retirou para descansar nem procurou pretexto para deixar a obra. Ao contrário, seus períodos de recolhimento eram cheios de atividade. Mesmo obrigado a fugir por fazer o bem, continuava fazendo-o. Assim ensinou seus ministros a fazer o que podem quando não podem fazer o que desejam, e a continuar ensinando mesmo quando são afastados para lugares escondidos.

Quando os fariseus, os grandes senhores e mestres da nação, expulsaram Cristo de junto deles e o obrigaram a retirar-se, o povo comum ainda o procurava em multidões. Grandes grupos o seguiram e o encontraram. Alguns transformariam isso em motivo de censura e o chamariam de chefe da multidão desordeira.

Na verdade, isso o honrava: todos os que não tinham parcialidade nem preconceito, nem estavam cegos pelo esplendor do mundo, eram tão dedicados e zelosos por ele que o seguiam aonde quer que fosse, enfrentando quaisquer perigos com ele. Era também uma honra para sua graça que os pobres recebessem o evangelho.

Quando o acolheram, ele os acolheu e curou a todos. Cristo veio ao mundo para ser o Médico de todos, como o sol para o mundo inferior, trazendo cura debaixo de suas asas. Embora os fariseus o perseguissem por fazer o bem, ele prosseguiu, sem permitir que o povo sofresse por causa da perversidade de seus governantes.

Repare: a falta de bondade de alguns para conosco não nos autoriza a tratar outros sem bondade.

Cristo procurou conciliar utilidade e discrição: curou a todos e, contudo, ordenou-lhes que não o divulgassem (v. 16). Isso pode ser entendido de três maneiras:

  1. Como ato de prudência. Não eram tanto os milagres em si que enfureciam os fariseus, mas os comentários públicos a respeito deles (v. 23, 24). Portanto, Cristo não deixaria de fazer o bem, mas o faria com a menor publicidade possível, para evitar ofendê-los e colocar-se em perigo.

Repare: embora desejem fazer o bem, as pessoas sábias e boas estão longe de desejar que todos falem disso depois. Buscam a aceitação de Deus, não os aplausos humanos.

Em tempos de sofrimento, devemos prosseguir com ousadia no caminho do dever; ao mesmo tempo, devemos organizar as circunstâncias de modo a não irritar além do necessário os que procuram ocasião contra nós. “Sede prudentes como as serpentes” (Mateus 10:16).

  1. Como ato de justo juízo contra os fariseus. Eles não eram dignos de ouvir falar de mais milagres, pois haviam feito pouco caso dos que já tinham visto. Ao fechar os olhos para a luz, perderam o direito de beneficiar-se dela.

  2. Como ato de humildade e abnegação. Cristo fazia milagres para provar que era o Messias e levar as pessoas a crer nele; para isso, era necessário que os milagres fossem conhecidos. Mesmo assim, às vezes ordenava que os ocultassem, dando-nos exemplo de humildade.

Assim nos ensina a não anunciar nossa própria bondade ou utilidade nem desejar que outros a anunciem. Cristo queria que seus discípulos fossem o oposto daqueles que fazem todas as suas obras para serem vistos pelas pessoas.

III. O cumprimento das Escrituras em tudo isso (v. 17). Cristo se retirou para a discrição e a obscuridade a fim de que, embora sua própria glória ficasse encoberta, a palavra de Deus se cumprisse e assim fosse iluminada e glorificada. Era nisso que seu coração estava empenhado.

A passagem que aqui se diz cumprida é Isaías 42:1-4, citada extensamente nos vv. 18-21. Seu propósito é mostrar quão brando e sereno seria nosso Senhor Jesus em sua obra e, ainda assim, quão bem-sucedido. Os acontecimentos anteriores dão exemplos das duas coisas. Observe aqui:

  1. O prazer do Pai em Cristo (v. 18): “Eis aqui o meu Servo, que escolhi, o meu Amado, em quem minha alma se agrada”. Daí podemos aprender:

(1.) Que nosso Salvador era o Servo de Deus na grande obra de nossa redenção. Nela se submeteu à vontade do Pai (Hebreus 10:7) e se dedicou a servir ao desígnio de sua graça e aos interesses de sua glória, reparando as rupturas causadas pela apostasia humana. Como Servo, recebeu uma grande obra e uma grande responsabilidade.

Era parte de sua humilhação: embora não considerasse usurpação ser igual a Deus, na obra da nossa salvação assumiu a forma de servo, recebeu uma lei e submeteu-se a obrigações. Embora fosse Filho, aprendeu a obediência (Hebreus 5:8). O lema desse Príncipe é Ich dien: Eu sirvo.

(2.) Que Jesus Cristo foi escolhido por Deus como o único plenamente apto para conduzir a grande obra da nossa redenção. Ele é “o meu Servo, que escolhi”, par negotio, à altura da tarefa. Só ele podia realizar a obra do Redentor ou era digno de usar sua coroa.

Foi escolhido dentre o povo (Salmos 89:19) pela Sabedoria Infinita para esse posto de serviço e honra, para o qual nenhum homem ou anjo estava qualificado. Só Cristo o estava, para que tivesse a primazia em tudo. Ele não se impôs nessa obra, mas foi devidamente escolhido para ela.

Cristo é o Escolhido de Deus de tal modo que é a cabeça da eleição e de todos os demais eleitos, pois fomos escolhidos nele (Efésios 1:4).

(3.) Que Jesus Cristo é o Amado de Deus, seu Filho amado. Como Deus, estava desde a eternidade no seio do Pai (João 1:18) e era sua alegria diária (Provérbios 8:30). Antes de todo o tempo, havia entre Pai e Filho uma comunhão eterna e inconcebível de amor recíproco. Assim o Senhor o possuía no princípio de seu caminho (Provérbios 8:22).

O Pai amou Cristo como Mediador. Quando agradou ao Senhor esmagá-lo e ele se submeteu, o Pai o amou também por isso (João 10:17).

(4.) Que Jesus Cristo é aquele em quem o Pai se agrada, em quem sua alma tem prazer. Isso expressa a maior satisfação imaginável. Deus declarou por uma voz do céu que ele era seu Filho amado, em quem se agradava.

Agradava-se dele porque assumiu com prontidão e alegria a obra admirável tão querida ao coração de Deus. Também se agrada de nós nele, pois nos tornou aceitos no Amado (Efésios 1:6). Todo o acesso que a humanidade caída tem ou pode ter a Deus se fundamenta na satisfação de Deus em Jesus Cristo e se deve a ela, pois ninguém vem ao Pai senão por ele (João 14:6).

  1. A promessa do Pai a Cristo em dois aspectos:

(1.) Que ele estaria plenamente capacitado para sua obra: “Porei sobre ele o meu Espírito”, como Espírito de sabedoria e de conselho (Isaías 11:2, 3). Deus certamente prepara e capacita aqueles a quem chama para algum serviço. Essa capacitação mostra que foi ele quem os chamou, como no caso de Moisés (Êxodo 4:12).

Como Deus, Cristo era igual ao Pai em poder e glória; como Mediador, recebeu do Pai poder e glória para poder distribuí-los. Tudo quanto o Pai lhe deu para capacitá-lo à sua obra se resume nisto: pôs sobre ele o seu Espírito. Esse era o óleo de alegria com que foi ungido acima dos seus companheiros (Hebreus 1:9).

Recebeu o Espírito não em medida limitada, mas sem medida (João 3:34). Repare: quem quer que Deus tenha escolhido e em quem se agrade, certamente receberá dele o Espírito. Onde concede seu amor, também concede algo de sua semelhança.

(2.) Que ele seria abundantemente bem-sucedido em sua obra. Deus certamente reconhecerá aqueles a quem envia. Há muito fora assegurado por promessa ao nosso Senhor Jesus que a vontade do Senhor prosperaria em suas mãos (Isaías 53:10). Temos aqui um relato dessa prosperidade:

[1.] Ele mostrará o juízo aos gentios. Cristo pregou pessoalmente aos que viviam perto das nações pagãs (veja Marcos 3:6-8) e, por meio de seu apóstolo, mostrou seu evangelho, aqui chamado de seu juízo, ao mundo gentio.

O caminho e o modo da salvação, o juízo confiado ao Filho, foram não só realizados por ele como nosso grande Sumo Sacerdote, mas também mostrados e divulgados por ele como nosso grande Profeta. O evangelho será mostrado aos gentios como regra de conduta e vida, destinada diretamente a reformar e melhorar o coração e a vida das pessoas.

Os juízos de Deus haviam sido um privilégio dos judeus (Salmos 147:19). Os profetas do Antigo Testamento, porém, muitas vezes predisseram que seriam anunciados aos gentios. Portanto, isso não deveria ter surpreendido tanto os judeus incrédulos, muito menos contrariado a eles.

[2.] “Em seu nome os gentios confiarão” (v. 21). Ele lhes mostrará o juízo de modo que prestarão atenção e observarão o que lhes mostrar. Isso os levará a depender dele, dedicar-se a ele e ajustar a vida a esse juízo.

Repare: o grande desígnio do evangelho é levar as pessoas a confiar no nome de Jesus Cristo. Seu nome é Jesus, Salvador: nome precioso pelo qual é chamado, como perfume derramado. Ele é o Senhor, Justiça Nossa.

Aqui o evangelista segue a Septuaginta, ou talvez as edições posteriores da Septuaginta sigam o evangelista. O hebraico de Isaías 42:4 diz: “As ilhas esperarão por sua lei”. Fala-se das ilhas dos gentios (Gênesis 10:5), povoadas pelos filhos de Jafé, de quem foi dito que Deus persuadiria Jafé a habitar nas tendas de Sem (Gênesis 9:27).

Isso se cumpriria agora: as ilhas, diz o profeta, os gentios, diz o evangelista, esperarão por sua lei e confiarão em seu nome. Compare as passagens. Só podem confiar com segurança no nome de Cristo aqueles que esperam por sua lei, decididos a deixar-se governar por ela.

Observe também que a lei pela qual esperamos é a lei da fé, a lei de confiar em seu nome. Esse é agora seu grande mandamento: que creiamos em Cristo (1 João 3:23).

  1. A predição sobre a maneira branda e serena com que Cristo conduziria sua obra (v. 19, 20). É sobretudo por isso que a passagem é citada aqui, por ocasião da discrição e do recolhimento que ele escolheu.

(1.) Que ele conduziria sua obra sem alarde nem ostentação. Não contenderá nem levantará clamor. Cristo e seu reino não chegam com aparência ostensiva (Lucas 17:20, 21). Quando o Primogênito foi trazido ao mundo, não veio com pompa e cerimônia. Não fez entrada pública nem mandou arautos anunciá-lo como Rei.

Estava no mundo, mas o mundo não o conheceu. Enganavam-se os que alimentavam a esperança de um Salvador pomposo. Sua voz não era ouvida nas ruas com gritos de “Aqui está Cristo!” ou “Ali está ele!”. Falava com voz mansa e baixa, atraente para todos, aterradora para ninguém. Não procurava fazer barulho; desceu silenciosamente como o orvalho.

Tudo o que dizia e fazia mostrava a maior humildade e abnegação possíveis. Seu reino era espiritual e, portanto, não seria promovido pela força, pela violência ou por pretensões grandiosas. Não: o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder.

(2.) Que ele conduziria sua obra sem severidade nem rigor (v. 20). “Não quebrará o caniço esmagado.” Alguns entendem isso como referência à paciência de Cristo com os perversos.

Ele poderia quebrar esses fariseus tão facilmente quanto um caniço esmagado e apagá-los tão depressa quanto uma mecha fumegante. Não o fará, porém, até o dia do juízo, quando todos os seus inimigos se tornarão estrado para seus pés.

Outros, com mais razão, entendem isso como referência ao poder e à graça com que sustenta os fracos. Em geral, o evangelho estabelece um caminho de salvação que encoraja a sinceridade, mesmo quando há muita fraqueza. Não exige obediência sem pecado; aceita um coração íntegro e disposto.

Quanto às pessoas que seguem Cristo com mansidão, temor e muito tremor, observe: [1.] Como sua condição é descrita. São como um caniço esmagado e uma mecha fumegante. Os principiantes na religião são fracos como o caniço esmagado, e sua fraqueza incomoda como a fumaça da mecha.

Têm um pouco de vida, mas semelhante à de um caniço esmagado; um pouco de calor, mas semelhante ao de uma mecha fumegante. Os discípulos de Cristo ainda eram fracos, e muitos dos que têm lugar em sua família também o são. A graça e a bondade neles são como um caniço esmagado; a corrupção e a maldade, como a mecha de uma vela recém-apagada que ainda solta fumaça.

[2.] Quanta compaixão nosso Senhor Jesus tem por eles! Não os desanimará, muito menos os rejeitará ou expulsará. O caniço esmagado não será quebrado nem pisado; será sustentado e se tornará forte como um cedro ou uma palmeira viçosa.

A vela recém-acesa, mesmo que apenas fumegue e ainda não produza chama, não será apagada com um sopro, mas avivada por ele. O dia das pequenas coisas é o dia das coisas preciosas. Por isso, Cristo não o desprezará; fará dele o dia de grandes coisas (Zacarias 4:10).

Repare: nosso Senhor Jesus trata com muita ternura os que possuem a verdadeira graça, ainda que sejam fracos nela (Isaías 40:11; Hebreus 5:2). Lembra-se não só de que somos pó, mas também de que somos carne.

[3.] O bom resultado disso é indicado pelas palavras “até que faça triunfar o juízo”. O juízo que anunciou aos gentios vencerá. Ele prosseguirá vencendo e para vencer (Apocalipse 6:2). Tanto a pregação do evangelho no mundo quanto seu poder no coração prevalecerão.

A graça vencerá a corrupção e, por fim, será aperfeiçoada na glória. O juízo de Cristo será levado à vitória, pois, quando julgar, vencerá. “Fará sair o juízo para a verdade”, diz Isaías 42:3. Verdade e vitória são quase a mesma coisa, pois a verdade é grande e prevalecerá.

Versículos 22 a 37

O Pecado contra o Espírito Santo.

Nestes versículos temos:

I. A gloriosa vitória de Cristo sobre Satanás, ao curar bondosamente um homem que, com a permissão divina, estava sob o poder e a possessão dele (v. 22). Observe aqui:

  1. A condição do homem era muito triste: estava possuído por um demônio. Ocorreram mais casos desse tipo no tempo de Cristo do que de costume, para que seu poder fosse ainda mais exaltado e seu propósito ainda mais manifesto na oposição a Satanás e na expulsão dele. Assim também ficaria mais evidente que Cristo veio destruir as obras do Diabo.

Esse pobre homem possuído era cego e mudo: que situação miserável! Não podia ver para ajudar a si mesmo nem falar para pedir ajuda a outros. Uma alma dominada por Satanás e levada cativa por ele é cega para as coisas de Deus e muda diante do trono da graça. Não vê nada nem diz nada de proveitoso. Satanás cega os olhos da fé e sela os lábios da oração.

  1. A cura foi muito extraordinária, ainda mais por ter sido repentina: Cristo o curou. Repare: vencer Satanás e expulsá-lo é curar as almas. Removida a causa, o efeito cessou imediatamente: o cego e mudo passou a falar e a ver.

Repare: a misericórdia de Cristo se opõe diretamente à maldade de Satanás, e seus favores, aos danos causados pelo Diabo. Quando o poder de Satanás é quebrado na alma, os olhos se abrem para ver a glória de Deus e os lábios, para falar em seu louvor.

II. A convicção que isso produziu em todo o povo: ficaram admirados. Cristo já havia realizado diversos milagres desse tipo, mas suas obras não são menos maravilhosas nem menos dignas de admiração por se repetirem com frequência.

Concluíram: “Não é este o Filho de Davi, o Messias prometido que viria da linhagem de Davi? Não é este aquele que havia de vir?” Podemos entender essas palavras de duas maneiras. 1. Como uma pergunta em busca de resposta: “Não é este o Filho de Davi?” Mas não esperaram a resposta. A impressão era forte, porém passageira.

Levantaram uma boa questão, mas parece que logo a deixaram de lado, sem ir adiante. Convicções como essas devem chegar a uma conclusão clara; então é provável que alcancem o coração. Ou: 2. Como uma pergunta afirmativa: “Não é este o Filho de Davi? Sim, certamente é; não pode ser outro. Milagres como esses mostram claramente que o reino do Messias está sendo estabelecido.”

Foi o povo, a parte comum dos espectadores, que tirou essa conclusão dos milagres de Cristo. Os ateus dirão: “Isso ocorreu porque eram menos investigativos que os fariseus”. Não: o fato era evidente e não exigia grande investigação. O povo tinha menos preconceitos e estava menos condicionado pelos interesses mundanos.

O caminho para a grande verdade de que Cristo é o Messias e Salvador do mundo havia sido preparado de modo tão claro e simples que as pessoas comuns não podiam deixar de encontrá-lo. Nem mesmo os viajantes insensatos errariam nele (Isaías 35:8). Foi encontrado por aqueles que o procuraram.

É um exemplo da condescendência da graça divina: as coisas ocultas aos sábios e prudentes foram reveladas às criancinhas. O mundo, com sua sabedoria, não conheceu a Deus, e pelas coisas consideradas loucas os sábios foram confundidos.

III. A objeção blasfema dos fariseus (v. 24). Eles alegavam ter mais conhecimento da lei divina e mais zelo por ela do que os outros; no entanto, eram os inimigos mais obstinados de Cristo e de sua doutrina.

Orgulhavam-se da reputação que tinham entre o povo. Ela alimentava seu orgulho, sustentava seu poder e enchia-lhes as bolsas. Quando ouviram o povo perguntar “Não é este o Filho de Davi?”, ficaram extremamente irritados, mais com isso do que com o próprio milagre.

Isso os encheu de ciúme do nosso Senhor Jesus e de receio de que, à medida que crescesse o prestígio dele entre o povo, o deles naturalmente diminuísse e se apagasse. Por isso, invejaram-no, como Saul invejou Davi, antepassado de Jesus, por causa do que as mulheres cantavam sobre ele (1 Samuel 18:7-8).

Repare: quem faz do louvor e do aplauso das pessoas a fonte de sua felicidade se expõe a uma inquietação constante a cada palavra favorável dita a respeito de outro. A sombra da honra seguia Cristo, que fugia dela, e fugia dos fariseus, que a perseguiam avidamente.

Disseram: “Este sujeito só expulsa os demônios por Belzebu, príncipe dos demônios; portanto, não é o Filho de Davi.” Observe:

  1. O desprezo com que falam de Cristo: “Este sujeito”, como se seu precioso nome, comparável ao perfume derramado, não fosse digno de passar pelos lábios deles. O orgulho, a arrogância e a inveja diabólica dos fariseus se revelam nisso: quanto mais o povo exaltava Cristo, mais se empenhavam em desprestigiá-lo. É mau falar com desdém de homens bons por serem pobres.

  2. A blasfêmia com que falam de seus milagres. Não podiam negar os fatos: era claro como o sol que os demônios eram expulsos pela palavra de Cristo. Tampouco podiam negar que isso era extraordinário e sobrenatural.

Forçados a admitir essas premissas, só podiam escapar da conclusão de que ele era o Filho de Davi insinuando que expulsava demônios por Belzebu. Alegavam que havia um pacto entre Cristo e o Diabo e que, segundo esse pacto, o demônio não era expulso: retirava-se voluntariamente e cedia terreno por consentimento e de propósito.

Ou insinuavam que, mediante acordo com o demônio governante, Cristo recebera poder para expulsar os demônios inferiores.

Nenhuma suspeita poderia ser mais palpavelmente falsa e vil do que supor que aquele que é a própria Verdade se aliaria ao pai da mentira para aplicar um embuste no mundo. Esse era o último refúgio, ou melhor, o último subterfúgio de uma incredulidade obstinada, decidida a resistir à evidência mais clara.

Observe: entre os demônios há um príncipe, o chefe da apostasia contra Deus e da rebelião a ele. Mas esse príncipe é Belzebu, o deus de uma mosca, ou um deus do monturo. Como caíste, ó Lúcifer! De anjo de luz, tornaste-te senhor das moscas! Mesmo assim, ele é o príncipe dos demônios, chefe do bando de espíritos infernais.

IV. A resposta de Cristo a essa insinuação vil (vv. 25-30). Jesus conhecia os pensamentos deles. Repare: Jesus Cristo sabe o que pensamos a qualquer momento; conhece o que há no homem e entende nossos pensamentos de longe.

Parece que os fariseus, por vergonha, não ousaram falar abertamente e guardaram a acusação na mente. Não podiam esperar convencer o povo com ela; por isso, a reservaram para calar as convicções da própria consciência.

Repare: muitos se afastam do dever por algo que têm vergonha de confessar, mas que não conseguem esconder de Jesus Cristo. É provável, porém, que os fariseus tenham cochichado entre si o que pensavam, para ajudar uns aos outros a endurecer-se.

A resposta de Cristo, contudo, é dirigida aos pensamentos deles porque ele conhecia a disposição e o princípio por trás de suas palavras. Sabia que não as disseram por impulso, mas que eram fruto de uma maldade profundamente arraigada.

A resposta de Cristo à acusação é ampla e convincente, para que toda boca seja calada pelo bom senso e pela razão antes de ser calada pelo fogo e pelo enxofre. Três argumentos mostram o absurdo da insinuação.

  1. Seria muito estranho e altamente improvável que Satanás fosse expulso por semelhante pacto. Nesse caso, seu reino estaria dividido contra si mesmo, coisa inimaginável, dada a astúcia dele (vv. 25-26).

(1.) Apresenta-se aqui uma regra conhecida: em todas as sociedades, as desavenças mútuas levam à ruína comum. “Todo reino dividido contra si mesmo é levado à desolação”; o mesmo acontece a toda família.

Quæ enim domus tam stabilis est, quæ tam firma civitas, quæ non odiis atque dissidiis funditus everti possit?: que família é tão forte, que comunidade tão firme, que não possa ser completamente derrubada pela inimizade e pela dissensão? Cícero, Lélio, 7.

As divisões geralmente terminam em desolação. Se entramos em conflito, rompemo-nos; se nos separamos uns dos outros, tornamo-nos presa fácil de um inimigo comum. Muito mais seremos consumidos uns pelos outros se nos mordermos e devorarmos (Gálatas 5:15). Igrejas e nações aprenderam isso por triste experiência.

(2.) A aplicação ao caso presente (v. 26): se Satanás expulsa Satanás, se o príncipe dos demônios entra em conflito com os demônios inferiores, todo o seu reino e seus interesses logo serão destruídos. Ou melhor, se Satanás fizesse um pacto com Cristo, isso o levaria à própria ruína.

O propósito e a tendência evidentes da pregação e dos milagres de Cristo eram derrubar o reino de Satanás, reino de trevas, perversidade e inimizade contra Deus, e estabelecer sobre suas ruínas um reino de luz, santidade e amor. Cristo destruiu as obras do Diabo, que é rebelde contra Deus e tirano das almas humanas.

Portanto, seria o maior absurdo imaginável pensar que Belzebu apoiaria de algum modo esse propósito ou participaria dele. Se se aliasse a Cristo, como seu reino poderia permanecer? Ele próprio contribuiria para derrubá-lo.

Repare: o Diabo tem um reino e interesses comuns em oposição a Deus e a Cristo. Dentro dos limites de seu poder, fará tudo para mantê-los e jamais se unirá aos interesses de Cristo. Este precisa vencê-lo e quebrar seu poder; Satanás, portanto, não pode submeter-se a ele. Que concórdia ou comunhão pode haver entre luz e trevas, entre Cristo e Belial, entre Cristo e Belzebu?

Cristo destruirá o reino do Diabo, mas não precisa recorrer a artifícios e planos mesquinhos como um pacto secreto com Belzebu. Essa vitória será alcançada por meios mais nobres.

Ainda que o príncipe dos demônios reúna todas as suas forças, use todos os seus poderes e artimanhas e mantenha seus interesses na mais estreita aliança, Cristo será mais forte que sua força unida, e seu reino não permanecerá.

  1. Não era nem um pouco estranho ou improvável que os demônios fossem expulsos pelo Espírito de Deus, pois:

(1.) De que outro modo os filhos de vocês os expulsam? Havia entre os judeus pessoas que às vezes expulsavam demônios invocando o nome do Deus Altíssimo, ou do Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Josefo fala de alguns de seu tempo que faziam isso.

Lemos sobre exorcistas judeus (Atos 19:13) e sobre pessoas que expulsavam demônios em nome de Cristo, embora não o seguissem (Marcos 9:38) ou não lhe fossem fiéis (Mateus 7:22).

Os fariseus não censuravam essas pessoas. Atribuíam suas obras ao Espírito de Deus e orgulhavam-se delas e de sua nação. Portanto, era apenas por rancor e inveja de Cristo que admitiam a expulsão de demônios pelos outros mediante o Espírito de Deus, mas insinuavam que ele a realizava por um pacto com Belzebu.

Repare: pessoas maldosas, especialmente os perseguidores maldosos de Cristo e do cristianismo, condenam naqueles que odeiam aquilo que aprovam e aplaudem naqueles por quem têm afeição. Os juízos da inveja se baseiam nas pessoas, não nas ações; no preconceito, não na razão.

Eram muito pouco aptos para ocupar a cadeira de Moisés aqueles que, ao julgar, reconheciam rostos e nada mais. “Por isso, eles serão seus juízes”: “Essa contradição de vocês mesmos se levantará contra vocês no grande dia do juízo e os condenará”.

Repare: no juízo final, não só cada pecado, mas também cada circunstância que o agrava será levada em conta. Algumas opiniões nossas, corretas e boas, serão apresentadas como prova contra nós, para nos declarar culpados de parcialidade.

(2.) A expulsão de demônios era sinal e indicação certos da aproximação e manifestação do reino de Deus (v. 28). “Mas, se é verdade que expulso demônios pelo Espírito de Deus, como certamente faço, vocês devem concluir que o reino do Messias está prestes a ser estabelecido entre vocês, embora não queiram recebê-lo.”

Outros milagres provavam que Cristo fora enviado por Deus; este provava que Deus o enviara para destruir o reino e as obras do Diabo. Então se cumpria claramente a grande promessa de que a descendência da mulher quebraria a cabeça da serpente (Gênesis 3:15).

“Portanto, teve início a gloriosa dispensação do reino de Deus há muito esperada. Desprezem-na por sua própria conta e risco.” Repare: [1.] O poder do Diabo é destruído pelo Espírito de Deus. O Espírito que produz a obediência da fé derruba os interesses daquele espírito que age nos filhos da incredulidade e da desobediência.

[2.] A expulsão dos demônios é introdução certa ao reino de Deus. Se o domínio do Diabo numa alma não for apenas contido pelo costume ou por restrições externas, mas abatido e quebrado pelo Espírito de Deus como Santificador, não há dúvida de que o reino de Deus chegou a essa alma: o reino da graça, bendito penhor do reino da glória.

  1. Comparar os milagres de Cristo, especialmente a expulsão de demônios, com sua doutrina e com o propósito e a tendência de sua santa religião mostra que ele estava longe de aliar-se a Satanás. Ao contrário, enfrentava-o em inimizade e hostilidade abertas (v. 29).

Como alguém pode entrar na casa de um homem forte, saquear seus bens e levá-los sem antes amarrar o homem forte? Feito isso, pode dispor dos bens como quiser. O mundo, que estava sentado nas trevas e jazia na perversidade, encontrava-se sob o poder e a posse de Satanás, como uma casa dominada por um homem forte. O mesmo ocorre com toda alma não regenerada: nela Satanás habita e governa.

Agora: (1.) O propósito do evangelho de Cristo era saquear a casa que o Diabo, como homem forte, mantinha no mundo. Era conduzir as pessoas das trevas à luz, do pecado à santidade, deste mundo a outro melhor e do poder de Satanás a Deus (Atos 26:18), mudando a quem pertencem as almas.

(2.) Conforme esse propósito, Cristo amarrou o homem forte ao expulsar os espíritos impuros por sua palavra. Assim arrancou a espada da mão do Diabo para depois arrancar-lhe o cetro. A doutrina de Cristo nos ensina a interpretar seus milagres.

Ao mostrar a facilidade e a eficácia com que expulsava o Diabo do corpo das pessoas, Cristo animou todos os crentes a esperar que, por maior que fosse o poder usurpado e exercido por Satanás nas almas humanas, sua graça o quebraria. Ele saqueará o Diabo, pois está claro que pode amarrá-lo.

Quando as nações deixaram de servir aos ídolos para servir ao Deus vivo, quando alguns dos piores pecadores foram santificados e justificados e se tornaram dos melhores santos, Cristo saqueou a casa do Diabo; e continuará a saqueá-la cada vez mais.

  1. Sugere-se aqui que a guerra santa que Cristo travava vigorosamente contra o Diabo e seu reino não admitia neutralidade (v. 30): “Quem não está comigo está contra mim”. Nas pequenas diferenças que podem surgir entre os próprios discípulos de Cristo, somos ensinados a diminuir os motivos de desavença e a buscar a paz, considerando conosco aqueles que não estão contra nós (Lucas 9:50).

Na grande contenda entre Cristo e o Diabo, porém, não se deve buscar paz nem interpretar favoravelmente a indiferença. Quem não está de todo coração do lado de Cristo será considerado realmente contrário a ele; quem é frio nessa causa é tratado como inimigo.

Quando a disputa é entre Deus e Baal, não há como hesitar entre os dois (1 Reis 18:21) nem contemporizar entre Cristo e Belial. O reino de Cristo, assim como se opõe eternamente ao reino do Diabo, será eternamente vitorioso sobre ele.

Por isso, nessa causa não se pode ficar sentado com Gileade do outro lado do Jordão ou com Aser à beira-mar (Juízes 5:17). Devemos estar inteira, fiel e firmemente do lado de Cristo; esse é o lado certo e, por fim, será o lado vencedor. Veja Êxodo 32:26.

A última cláusula diz o mesmo: “Quem comigo não ajunta, espalha”. Repare: (1.) Cristo veio ao mundo para ajuntar: recolher sua colheita e reunir aqueles que o Pai lhe deu (João 11:52; Efésios 1:10).

(2.) Cristo espera e exige de quem está com ele que também ajunte: que não apenas se una a ele, mas que, cada qual em seu lugar, faça tudo o que puder para trazer outros a Cristo e fortalecer seus interesses.

(3.) Quem não se apresenta nem age para promover o reino de Cristo será considerado e tratado como alguém que o impede. Se não ajuntamos com Cristo, espalhamos. Não basta deixar de causar dano; precisamos fazer o bem. Assim se amplia a distância entre Cristo e Satanás e se mostra que não havia o pacto que os fariseus cochichavam.

V. Nessa ocasião, Cristo fala sobre os pecados cometidos com a língua: “Por isso vos digo”. Parece passar dos fariseus ao povo e da discussão ao ensino. A partir do pecado dos fariseus, adverte as pessoas sobre três tipos de pecados da língua, pois o dano sofrido por outros nos serve de advertência.

  1. As palavras blasfemas contra o Espírito Santo constituem o pior tipo de pecado da língua e não têm perdão (vv. 31-32):

(1.) Há aqui a bondosa garantia de perdão de todo pecado conforme as condições do evangelho. Cristo nos diz, para nosso consolo, que a gravidade do pecado não impede nossa aceitação por Deus, se nos arrependermos de verdade e crermos no evangelho: “Todo tipo de pecado e blasfêmia será perdoado aos homens”.

Ainda que o pecado seja como escarlate e carmesim (Isaías 1:18), por mais grave que seja em sua natureza, por mais agravado pelas circunstâncias e por mais vezes repetido, ainda que alcance os céus, contudo há misericórdia junto ao Senhor, que vai além dos céus. Essa misericórdia se estende até à blasfêmia, pecado que atinge diretamente o nome e a honra de Deus.

Paulo, que fora blasfemo, alcançou misericórdia (1 Timóteo 1:13). Podemos dizer com razão: “Quem é um Deus como tu, perdoando a iniquidade?” (Miquéias 7:18). Até as palavras ditas contra o Filho do Homem serão perdoadas, como o foram as daqueles que o vituperaram na hora da morte; muitos deles se arrependeram e encontraram misericórdia.

Cristo, nisso, deu exemplo a todos os seres humanos para que estejam prontos a perdoar as palavras ditas contra eles: “Eu, como um surdo, não ouvia”. Observe: “Serão perdoados aos homens”, não aos demônios. Esse amor alcança todo o mundo humano, acima do mundo dos anjos caídos: todo pecado pode ser perdoado aos seres humanos.

(2.) Há uma exceção: a blasfêmia contra o Espírito Santo, apresentada aqui como o único pecado imperdoável. Veja:

[1.] Em que consiste esse pecado: falar contra o Espírito Santo. Veja a maldade que pode haver nos pecados da língua, já que o único pecado sem perdão é desse tipo. Jesus, porém, conhecia os pensamentos deles (v. 25).

Não se trata de toda fala contra a pessoa ou a essência do Espírito Santo, nem contra alguma de suas operações mais particulares, nem simplesmente da resistência à sua ação interior no próprio pecador. Se fosse assim, quem poderia ser salvo?

Em nossa lei, julga-se que um ato de anistia deve ser sempre interpretado em favor da graça e da clemência que ele pretende oferecer. Portanto, suas exceções não devem ser ampliadas além do necessário. O evangelho é um ato de anistia: ninguém é excluído pelo nome ou pela descrição, exceto aqueles que blasfemam contra o Espírito Santo.

Por isso, essa exceção deve ser interpretada no sentido mais restrito. Todos os pecadores presunçosos são efetivamente excluídos pelas condições da anistia, a fé e o arrependimento. As demais exceções, portanto, não devem ser ampliadas demais.

Essa blasfêmia é excluída não por alguma deficiência na misericórdia de Deus ou no mérito de Cristo, mas porque deixa inevitavelmente o pecador na incredulidade e na impenitência.

Temos motivo para pensar que ninguém que crê que Cristo é o Filho de Deus e deseja sinceramente ter parte em seu mérito e sua misericórdia é culpado desse pecado. Quem teme tê-lo cometido dá um bom sinal de que não o cometeu.

O erudito doutor Whitby observa muito bem que Cristo fala do que ainda viria a acontecer (Marcos 3:28; Lucas 12:10): quem blasfemar. Aqueles que blasfemaram contra Cristo quando ele estava na terra, chamando-o de “beberrão”, “enganador”, “blasfemo” e outras coisas semelhantes, tinham alguma aparência de desculpa, por causa da humildade de sua aparência e dos preconceitos da nação contra ele.

A prova de sua missão divina só se completou depois da ascensão. Por isso, ao se arrependerem, seriam perdoados. Esperava-se que o derramamento do Espírito os convencesse, como ocorreu com muitos dos que haviam traído e matado Jesus.

Mas, quando o Espírito Santo fosse concedido por meio de dons interiores de revelação, do falar em línguas e de outros semelhantes, distribuídos entre os apóstolos, se as pessoas continuassem a blasfemar também contra o Espírito, chamando-o de espírito maligno, não haveria esperança de que algum dia fossem levadas a crer em Cristo. Pois:

Primeiro, esses dons do Espírito Santo concedidos aos apóstolos eram a última prova que Deus pretendia usar para confirmar o evangelho. Ficaram reservados enquanto outros meios os precediam. Segundo, essa era a prova mais poderosa e mais capaz de convencer até mesmo do que os próprios milagres.

Terceiro, quem blasfema contra essa dispensação do Espírito não pode ser levado a crer em Cristo. Se atribui esses dons a um conluio com Satanás, como os fariseus fizeram com os milagres, o que poderá convencê-lo? Essa incredulidade é uma fortaleza de que ninguém conseguirá desalojá-lo; por isso, é imperdoável, pois assim o arrependimento fica oculto aos olhos do pecador.

[2.] Qual é a sentença proferida contra esse pecado: não será perdoado nem neste mundo nem no mundo vindouro. Na condição então vigente da igreja judaica, não havia sacrifício de expiação para quem pecasse presunçosamente.

Também sob a dispensação da graça do evangelho, frequentemente chamada nas Escrituras de mundo vindouro, não haverá perdão para quem pisa o sangue da aliança e insulta o Espírito da graça.

Não há cura para um pecado dirigido tão diretamente contra o remédio. Uma regra da nossa antiga lei dizia: “Nenhum asilo para o sacrilégio”. Ou a frase significa que esse pecado não será perdoado agora, na consciência do pecador, nem no grande dia, quando o perdão for anunciado. Ou significa que expõe o pecador tanto à punição temporal como à eterna, tanto à cólera presente como à futura.

  1. Cristo fala aqui sobre outras palavras perversas, produzidas pela corrupção que domina o coração e dali irrompe (vv. 33-35). Foi dito que Jesus conhecia os pensamentos deles (v. 25). Agora, ao falar, ele os tem em vista, mostrando que não era surpreendente que falassem tão mal quando o coração estava cheio de inimizade e maldade.

Ainda assim, muitas vezes tentavam disfarçar e encobrir o que havia no coração, fingindo ser justos. Por isso, nosso Senhor Jesus aponta para as fontes e as cura: santifique-se o coração, e isso aparecerá nas palavras.

(1.) O coração é a raiz, e a linguagem é o fruto (v. 33). Se a natureza da árvore for boa, ela produzirá o fruto correspondente. Onde a graça domina o coração, a linguagem será a de Canaã. Em contrapartida, qualquer desejo mau que o domine acabará aparecendo. Pulmões doentes produzem hálito desagradável.

A linguagem das pessoas revela de que país são e também que tipo de espírito têm. “Ou façam boa a árvore, e então o fruto será bom: tenham corações puros, e terão lábios puros e vidas puras; ou a árvore será má, e o fruto também. É possível transformar uma macieira brava numa árvore boa enxertando nela um ramo de árvore boa; então o fruto será bom.”

“Mas, se a árvore continuar a mesma, plantem-na onde quiserem e reguem-na como quiserem: o fruto continuará ruim.” Repare: sem a transformação do coração, a vida nunca será inteiramente reformada.

Os fariseus evitavam expor seus pensamentos maus sobre Jesus Cristo. Ele, porém, mostra como era inútil tentar esconder a raiz de amargura que produzia neles fel e absinto, embora nunca procurassem mortificá-la. Repare: devemos preocupar-nos mais em ser bons de verdade do que em parecer bons por fora.

(2.) O coração é a fonte, e as palavras são os riachos (v. 34): “Da abundância do coração fala a boca”, assim como os riachos são o transbordamento da nascente. Diz-se que um coração perverso faz brotar perversidade como uma fonte lança suas águas (Jeremias 6:7).

Uma fonte turva e uma nascente corrompida, como as mencionadas por Salomão (Provérbios 25:26), inevitavelmente produzem cursos de água barrentos e desagradáveis. Palavras más são produto natural e próprio de um coração mau. Somente o sal da graça, lançado na nascente, curará as águas, temperará a fala e purificará as conversas corrompidas.

Era disso que os fariseus precisavam. Eles eram maus; “como podeis vós, sendo maus, falar coisas boas?” Eram uma geração de víboras. João Batista já os chamara assim (Mateus 3:7), e continuavam os mesmos: pode o etíope mudar a própria pele?

O povo considerava os fariseus uma geração de santos, mas Cristo os chama de geração de víboras, descendência da serpente inimiga dele e do seu evangelho. O que esperar de víboras, senão veneno e maldade? Pode uma víbora deixar de ser venenosa?

Repare: pode-se esperar coisas más de pessoas más, conforme diz o antigo provérbio: “Do perverso procede a perversidade” (1 Samuel 24:13). “O homem vil falará vileza” (Isaías 32:6). Os que são maus não têm nem a capacidade nem a vontade de falar coisas boas como deveriam.

Cristo queria que seus discípulos soubessem entre que tipo de pessoas viveriam, para saberem o que esperar. Estavam como Ezequiel entre escorpiões (Ezequiel 2:6); não deviam estranhar se fossem picados e mordidos.

(3.) O coração é o tesouro, e as palavras são as coisas retiradas dele (v. 35). Assim é possível discernir e avaliar o caráter das pessoas.

[1.] É próprio do homem bom ter um bom tesouro no coração e dele tirar coisas boas quando há ocasião. Dons da graça, consolos, experiências, bom conhecimento, bons sentimentos e boas resoluções formam esse bom tesouro. A palavra de Deus escondida no coração, a lei de Deus nele escrita e as verdades divinas que nele habitam e governam constituem um tesouro valioso e apropriado.

É guardado em segurança e em segredo, como as reservas de um bom chefe de família, mas está pronto para uso em toda ocasião. O homem bom, assim equipado, fará sair coisas boas de suas reservas, como José fez das suas. Falará e fará o que é bom para a glória de Deus e a edificação dos outros. Veja Provérbios 10:11, 13, 14, 20, 21, 31, 32. Isso é tirar coisas boas do tesouro.

Alguns alegam fazer boas despesas sem possuir um bom tesouro; logo irão à falência. Outros alegam possuir um bom tesouro interior, mas não dão prova disso: esperam que esteja neles e agradecem a Deus por terem bom coração, quaisquer que sejam suas palavras e ações. A fé sem obras, porém, está morta.

Outros têm um bom tesouro de sabedoria e conhecimento, mas não o compartilham nem tiram nada dele. Têm um talento, mas não sabem negociá-lo. O cristão completo, nesse aspecto, reflete a imagem de Deus: ele é bom e faz o bem.

[2.] É próprio do homem mau ter um tesouro mau no coração e dele tirar coisas más. Os desejos maus e as corrupções que habitam e dominam o coração são esse tesouro. Dele o pecador extrai palavras e ações más, para desonra de Deus e prejuízo dos outros. Veja Gênesis 6:5, 12; Mateus 15:18-20; Tiago 1:15. Os tesouros da perversidade (Provérbios 10:2), porém, se tornarão tesouros de cólera.

  1. Cristo fala sobre palavras ociosas e mostra o mal que há nelas (vv. 36-37), quanto mais nas palavras perversas ditas pelos fariseus. Devemos pensar muito no dia do juízo para que esse pensamento refreie a língua. Consideremos:

(1.) Como será minuciosa a prestação de contas pelos pecados da língua naquele dia: as pessoas terão de prestar contas até de cada palavra ou conversa ociosa que tiverem. Isso indica:

[1.] Deus repara em cada palavra que dizemos, até naquelas a que nós mesmos não damos atenção. Veja Salmos 139:4: “Não há palavra na minha língua que tu não conheças”. Mesmo quando falamos sem pensar nem ter intenção definida, Deus toma conhecimento da palavra.

[2.] A conversa vã, ociosa e irrelevante desagrada a Deus quando não tem objetivo bom nem serve para edificar. É fruto de um coração vazio e frívolo. Essas palavras ociosas correspondem às conversas tolas e aos gracejos proibidos em Efésios 5:4. São o pecado que raramente falta onde há muitas palavras: conversa inútil (Jó 15:3).

[3.] Em breve prestaremos contas das palavras ociosas. Elas serão apresentadas como prova de que fomos servos inúteis, que não aproveitaram as faculdades da razão e da fala, parte dos talentos confiados a nós. Se não nos arrependermos delas e nossa conta por elas não for acertada pelo sangue de Cristo, estaremos perdidos.

(2.) Como será rigoroso esse julgamento (v. 37): por suas palavras você será justificado ou condenado. Essa é uma regra comum nos julgamentos humanos, aqui aplicada ao de Deus.

Repare: o teor constante da nossa fala, conforme revele ou não a graça, servirá de prova a nosso favor ou contra nós no grande dia. Aqueles que pareciam religiosos, mas não controlavam a língua, descobrirão então que enganaram a si mesmos com uma religião vã (Tiago 1:26).

Alguns pensam que Cristo se refere às palavras de Elifaz (Jó 15:6): “A tua própria boca te condena, não eu”. Ou melhor, às de Salomão (Provérbios 18:21): “A morte e a vida estão no poder da língua”.

Versículos 38 a 45

Os Fariseus Pedem um Sinal.

É provável que os fariseus com quem Cristo conversa aqui não fossem os mesmos que o contestaram (v. 24) e recusavam-se a dar crédito aos sinais que ele havia realizado. Deviam formar outro grupo, que via não haver motivo para desacreditar os sinais, mas não se contentava com eles nem admitia sua evidência, a menos que Cristo oferecesse a prova adicional que exigissem. Temos aqui:

I. A maneira como se dirigem a ele (v. 38). Tratam-no pelo título de Mestre, fingindo respeito quando pretendiam ofendê-lo; nem todos os que o chamam de Mestre são, de fato, servos de Cristo. Pedem: “Desejamos ver um sinal teu”. Era inteiramente razoável que vissem um sinal, isto é, que ele comprovasse sua missão divina por milagres. Veja Êxodo 4:8, 9.

Ele veio derrubar um modelo de religião estabelecido por milagres; por isso, era necessário apresentar as mesmas credenciais. Mas era inteiramente descabido exigir um sinal agora, depois de ele ter dado tantos sinais que demonstravam abundantemente ter sido enviado por Deus.

Repare: é natural que os orgulhosos imponham condições a Deus e, depois, usem isso como desculpa para não se submeter a ele. A falta de alguém nunca será sua defesa.

II. Sua resposta a essa exigência insolente:

  1. Ele condena a exigência como linguagem de uma geração má e adúltera (v. 39). Não dirige a acusação apenas aos escribas e fariseus, mas a toda a nação judaica. Todos eram semelhantes a seus líderes, descendência e sucessão de malfeitores.

Era de fato uma geração má: não só se endurecia contra a convicção produzida pelos milagres de Cristo, mas se empenhava em ofendê-lo e desprezar esses milagres.

Era uma geração adúltera: (1.) Como descendência adúltera. Havia se afastado tão miseravelmente da fé e da obediência dos antepassados que Abraão e Israel não a reconheceriam. Veja Isaías 57:3.

Ou, (2.) como esposa adúltera. Abandonara o Deus a quem estava desposada por aliança. Não era culpada da prostituição da idolatria, como antes do cativeiro, mas era culpada de incredulidade e de toda espécie de iniquidade, e isso também é prostituição. Não buscava deuses que ela mesma tivesse criado, mas buscava sinais que ela mesma imaginara: isso era adultério.

  1. Ele se recusa a dar-lhes qualquer outro sinal além dos já concedidos, exceto o do profeta Jonas. Repare: embora Cristo esteja sempre pronto a ouvir os desejos e as orações santas e responder a eles, contudo não satisfará desejos e caprichos corruptos.

Os que pedem mal pedem e não recebem. Sinais foram concedidos a quem os desejava para confirmar a fé, como Abraão e Gideão, mas negados a quem os exigia para justificar a incredulidade.

Cristo poderia ter dito, com toda a justiça: “Nunca mais verão outro milagre”. Mas veja sua maravilhosa bondade: (1.) Os mesmos sinais ainda se repetiriam, para benefício maior deles e convicção mais abundante.

(2.) Receberiam um sinal de natureza diferente de todos os outros: a ressurreição de Cristo dentre os mortos por seu próprio poder, aqui chamada de sinal do profeta Jonas. Ela ainda estava reservada para convencê-los e seria a grande prova de que Cristo era o Messias; por ela, foi declarado Filho de Deus com poder (Romanos 1:4). Esse sinal superou todos os demais, completou-os e os coroou.

“Se não crerem nos primeiros sinais, crerão neste” (Êxodo 4:9); se este não os convencer, nada os convencerá. Mesmo assim, a incredulidade dos judeus encontrou um pretexto para afastar também esse sinal, alegando que os discípulos de Cristo haviam vindo e o roubado. Ninguém é tão incuravelmente cego quanto quem está decidido a não enxergar.

Cristo explica mais detalhadamente esse sinal do profeta Jonas (v. 40). Assim como Jonas passou três dias e três noites no ventre da baleia e depois saiu são e salvo, Cristo passaria esse tempo no sepulcro e depois ressuscitaria.

[1.] O sepulcro foi para Cristo o que o ventre do peixe foi para Jonas. Para lá foi lançado como resgate pelas vidas que estavam prestes a perder-se numa tempestade. Ali permaneceu como no “ventre do inferno” (Jonas 2:2) e parecia ter sido lançado fora da presença de Deus.

[2.] Permaneceu no sepulcro tanto tempo quanto Jonas no ventre do peixe: três dias e três noites, não três dias e noites completos. É provável que Jonas não tenha permanecido tanto tempo no ventre da baleia, mas parte de três dias naturais, que os gregos chamavam de nychthemerai.

Cristo foi sepultado na tarde do sexto dia da semana e ressuscitou na manhã do primeiro. Essa maneira de falar é muito comum; veja 1 Reis 20:29; Ester 4:16; 5:1; Lucas 2:21. Durante esse tempo, Jonas foi prisioneiro pelos próprios pecados; Cristo foi Prisioneiro pelos nossos.

[3.] Assim como Jonas, no ventre da baleia, se consolava com a certeza de que ainda voltaria a olhar para o santo templo de Deus (Jonas 2:4), diz-se expressamente que Cristo, ao estar no sepulcro, descansou em esperança, certo de que não veria a corrupção (Atos 2:26, 27).

[4.] Assim como Jonas, no terceiro dia, foi libertado de sua prisão e voltou à terra dos vivos vindo da congregação dos mortos (pois se diz que os mortos são formados debaixo das águas, Jó 26:5), Cristo voltaria à vida no terceiro dia e sairia do sepulcro para espalhar o evangelho entre os gentios.

  1. Cristo aproveita a ocasião para apresentar o triste caráter e a condição da geração em que vivia. Ela se recusava a ser reformada e, por isso, não podia deixar de ser arruinada. Ele descreve como seu caráter aparecerá no dia do juízo, à luz de todas as revelações e das sentenças definitivas daquele dia.

Pessoas e coisas agora aparecem sob cores falsas, e aqui o caráter e a condição de cada um podem mudar. Portanto, se quisermos avaliá-los corretamente, devemos tomar como medida o juízo final. As coisas são, de fato, aquilo que são eternamente. Cristo apresenta o povo judeu:

(1.) Como geração que seria condenada pelos homens de Nínive. O arrependimento deles diante da pregação de Jonas se levantaria no juízo contra os judeus (v. 41). A ressurreição de Cristo seria para os judeus o sinal do profeta Jonas, mas não teria sobre eles o mesmo efeito feliz que o sinal de Jonas tivera sobre os ninivitas.

Estes foram levados a um arrependimento que evitou sua ruína. Os judeus, porém, se endureceriam numa incredulidade que apressaria a deles. No dia do juízo, o arrependimento dos ninivitas será citado como agravante do pecado e, por consequência, da condenação daqueles a quem Cristo pregou então e daqueles a quem Cristo é pregado hoje. A razão é esta: Cristo é maior que Jonas.

[1.] Jonas era apenas um homem, sujeito às mesmas paixões, inclusive às mesmas paixões pecaminosas, que nós; Cristo, porém, é o Filho de Deus.

[2.] Jonas era estrangeiro em Nínive e chegou a pessoas de outra nação, que tinham preconceito contra sua terra. Cristo, porém, veio aos seus quando pregou aos judeus, e vem ainda mais claramente aos seus quando é pregado entre cristãos professos, chamados pelo seu nome.

[3.] Jonas pregou apenas um sermão curto, sem grande solenidade, enquanto passava pelas ruas. Cristo renovava seus chamados, sentava-se e ensinava, inclusive nas sinagogas.

[4.] Jonas anunciou somente cólera e ruína dentro de quarenta dias, sem dar instruções, orientações nem incentivos para o arrependimento. Cristo, porém, além de advertir-nos do perigo, mostrou em que precisamos nos arrepender e assegurou que seremos aceitos se nos arrependermos, pois o reino dos céus está próximo.

[5.] Jonas não fez milagre algum para confirmar sua doutrina, nem demonstrou boa vontade para com os ninivitas. Cristo, porém, realizou muitos milagres, todos eles de misericórdia. Ainda assim, os ninivitas se arrependeram com a pregação de Jonas, ao passo que os judeus não foram movidos pela pregação de Cristo.

Repare: a bondade de alguns que dispõem de menos auxílio e vantagens para suas almas agravará a maldade daqueles que têm muito mais. Os que, à luz do crepúsculo, descobrem o que pertence à sua paz envergonharão os que tateiam ao meio-dia.

(2.) Como geração que seria condenada pela rainha do sul, a rainha de Sabá (v. 42). Os ninivitas os envergonhariam por não se arrependerem; a rainha de Sabá, por não crerem em Cristo. Ela veio de uma terra distante para ouvir a sabedoria de Salomão. Contudo, há pessoas que não se deixam persuadir a vir ouvir a sabedoria de Cristo, embora ele seja em tudo maior que Salomão.

[1.] A rainha de Sabá não recebeu convite para ir a Salomão nem promessa de que seria bem recebida. Nós, porém, somos convidados a ir a Cristo, sentar-nos a seus pés e ouvir sua palavra. [2.] Salomão era apenas um homem sábio; Cristo, porém, é a própria sabedoria, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria.

[3.] A rainha de Sabá teve de superar muitas dificuldades. Era mulher, sem aptidão para viajar, e a jornada era longa e perigosa. Era rainha: o que aconteceria com seu país durante sua ausência? Nós não temos preocupações como essas que nos impeçam.

[4.] Ela não podia ter certeza de que valeria a pena viajar tão longe com esse propósito. A fama costuma engrandecer as pessoas, e talvez houvesse em seu país ou em sua corte sábios suficientes para instruí-la. Ainda assim, ao ouvir a fama de Salomão, quis vê-lo. Nós, porém, não vamos a Cristo em meio a incertezas desse tipo.

[5.] Ela veio dos confins da terra, mas temos Cristo entre nós e sua palavra perto de nós: eis que ele está à porta e bate. [6.] Ao que parece, a sabedoria que a rainha de Sabá buscava era apenas filosofia e política; a sabedoria encontrada em Cristo, porém, é sabedoria para a salvação.

[7.] Ela podia somente ouvir a sabedoria de Salomão; ele não podia conceder-lhe sabedoria. Cristo, porém, dará sabedoria aos que vierem a ele. Mais ainda: o próprio Cristo será feito por Deus Sabedoria para eles.

Por tudo isso, se não ouvirmos a sabedoria de Cristo, a prontidão com que a rainha de Sabá veio ouvir a sabedoria de Salomão se levantará contra nós no juízo e nos condenará, pois Jesus Cristo é maior que Salomão.

(3.) Como geração resolvida a continuar sob a posse e o poder de Satanás, apesar de todos os métodos empregados para expulsá-lo e resgatá-la. Ela é comparada a alguém de quem o diabo saiu, mas a quem volta com força dobrada (vv. 43-45). O diabo é aqui chamado de espírito imundo, pois perdeu toda a pureza, tem prazer em toda espécie de impureza e a promove entre os homens. Agora:

[1.] A parábola representa o diabo possuindo o corpo das pessoas. Cristo acabara de expulsar um demônio, e eles disseram que ele próprio tinha um demônio. Isso deu ocasião para mostrar quanto estavam sob o poder de Satanás.

Essa é mais uma prova de que Cristo não expulsava demônios por um pacto com o diabo, pois nesse caso o demônio logo teria voltado. Mas a expulsão realizada por Cristo era definitiva e impedia seu retorno. Encontramos Cristo ordenando ao espírito maligno que saísse e não voltasse a entrar (Marcos 9:25).

Provavelmente o diabo costumava, às vezes, brincar assim com as pessoas que possuía: saía e depois retornava com mais fúria. Por isso, os intervalos de lucidez delas geralmente eram seguidos por acessos mais violentos.

Quando o diabo sai, fica inquieto, pois não dorme sem antes ter causado dano (Provérbios 4:16). Anda por lugares secos, como alguém muito melancólico, buscando descanso sem encontrá-lo até voltar.

Quando Cristo expulsou a legião daquele homem, os demônios pediram licença para entrar nos porcos. Nessa ocasião, não passaram muito tempo em lugares secos: foram imediatamente para o lago.

[2.] A aplicação da parábola faz dela uma representação da igreja e da nação judaicas como corpo: “Assim acontecerá a esta geração perversa”, que agora resiste ao evangelho de Cristo e acabará por rejeitá-lo.

O diabo, expulso de muitos judeus pelo trabalho de Cristo e de seus discípulos, procurou descanso entre os pagãos, de cujas pessoas e templos os cristãos o expulsariam em toda parte; assim entende o dr. Whitby. Ou talvez não encontrasse em nenhum outro lugar do mundo pagão moradas tão agradáveis e desejáveis para si quanto no coração dos judeus; assim entende o dr. Hammond.

Portanto, entraria neles de novo, pois Cristo não encontrara acolhida entre eles. Sua perversidade monstruosa e incredulidade obstinada os deixavam mais prontos do que nunca a recebê-lo.

Então o diabo tomaria posse duradoura desse povo, cuja condição provavelmente se tornaria ainda mais desesperadamente condenável, segundo o dr. Hammond, do que era antes da vinda de Cristo ou seria caso Satanás nunca tivesse sido expulso.

O corpo dessa nação é apresentado aqui, em primeiro lugar, como povo apóstata. Depois do cativeiro na Babilônia, começaram a reformar-se, abandonaram os ídolos e demonstraram certa aparência de religião. Mas logo voltaram a se corromper.

Embora nunca tenham recaído na idolatria, caíram em toda espécie de impiedade e profanação, pioraram cada vez mais e acrescentaram a todas as outras maldades o desprezo deliberado e a oposição a Cristo e ao seu evangelho.

Em segundo lugar, é apresentado como povo marcado para a ruína. Uma nova ordem estava sendo selada contra aquela nação hipócrita, povo da cólera de Deus, como em Isaías 10:6. Sua destruição pelos romanos provavelmente seria maior do que qualquer outra, pois seus pecados haviam sido mais flagrantes. Foi então que a cólera caiu sobre eles até o extremo (1 Tessalonicenses 2:15, 16).

Que isso sirva de advertência a todas as nações e igrejas, para que tomem cuidado para não abandonar o primeiro amor, não deixar cair uma boa obra de reforma iniciada entre elas nem voltar à perversidade que pareciam ter abandonado. O estado final de tais pessoas será pior que o primeiro.

Versículos 46 a 50

Quem São os Parentes de Cristo.

Muitas palavras excelentes e úteis saíram da boca de nosso Senhor Jesus em ocasiões específicas. Até suas digressões ensinavam, assim como seus discursos preparados. É o caso aqui.

Observe: I. Como a mãe e os irmãos de Cristo interromperam sua pregação. Ficaram do lado de fora, querendo falar com ele (vv. 46-47), e seu pedido chegou até ele através da multidão. Não precisamos investigar quais irmãos vieram com a mãe, talvez os que não criam nele (João 7:5), nem qual era o assunto deles.

Talvez quisessem apenas fazê-lo parar, por receio de que se fatigasse, ou adverti-lo para que não ofendesse os fariseus com suas palavras nem se envolvesse em dificuldades, como se pudessem ensinar-lhe sabedoria.

  1. Ele ainda falava ao povo. Repare: a pregação de Cristo era uma conversa, simples, acessível e familiar, adequada à capacidade e às necessidades dos ouvintes. Suas palavras haviam sido contestadas e, mesmo assim, continuou a falar. Repare: a oposição que encontramos no trabalho não deve afastar-nos dele.

Deixou de falar com os fariseus ao perceber que não lhes faria bem, mas continuou a falar às pessoas comuns. Elas não eram tão presunçosas quanto os fariseus a respeito do próprio conhecimento e estavam dispostas a aprender.

  1. A mãe e os irmãos ficaram do lado de fora, querendo falar com ele, quando deveriam estar dentro, querendo ouvi-lo. Tinham a vantagem da convivência diária e particular com Jesus e, por isso, prestavam menos atenção à pregação pública dele.

Repare: com frequência, os que mais perto estão dos meios de conhecimento e graça são os mais negligentes. A familiaridade e a facilidade de acesso geram certo desprezo. Tendemos a adiar o que podemos fazer hoje por pensar que poderemos fazê-lo qualquer dia, esquecendo que só do presente temos certeza; o amanhã não nos pertence.

Há verdade demais no provérbio comum: “Quanto mais perto da igreja, mais longe de Deus”. É uma pena que isso aconteça.

  1. Não apenas se recusaram a ouvi-lo, mas também interromperam outros que o ouviam com prazer. O Diabo era inimigo declarado da pregação de nosso Salvador. Procurara frustrá-la com as objeções insensatas dos escribas e fariseus. Como não conseguiu o que queria dessa forma, tentou interrompê-la por meio da visita inoportuna dos parentes.

Repare: muitas vezes encontramos impedimentos e obstáculos ao nosso trabalho nos amigos que nos cercam e somos desviados dos assuntos espirituais por obrigações sociais. Até quem sinceramente nos deseja bem e deseja o bem da obra pode, por falta de discernimento, tornar-se um amigo que nos atrapalha e um impedimento ao dever.

Pedro foi uma pedra de tropeço para Cristo ao dizer: “Mestre, poupa-te”, quando pensava agir com grande solicitude. A mãe de nosso Senhor queria falar com ele. Parece que ainda não aprendera a mandar no Filho, como a iniquidade e a idolatria da Igreja de Roma mais tarde pretenderam ensinar-lhe. Tampouco era tão isenta de erro e insensatez quanto afirmam.

Era prerrogativa de Cristo, não de sua mãe, fazer tudo com sabedoria, de maneira correta e na ocasião oportuna. Certa vez Cristo lhe perguntou: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” Então se disse que ela guardou aquelas palavras no coração (Lucas 2:49).

Se as tivesse lembrado agora, porém, não o teria interrompido enquanto cuidava dos negócios do Pai. Repare: muitas verdades boas que julgamos ter guardado bem quando as ouvimos ficam inacessíveis quando precisamos usá-las.

II. Como Cristo reagiu à interrupção (vv. 48-50).

  1. Não lhe deu atenção. Estava tão concentrado na obra que não permitiria que consideração alguma, familiar ou social, o afastasse dela. “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” Isso não significa que devamos abandonar o afeto natural ou, sob pretexto de religião, desrespeitar os pais ou tratar outros parentes sem bondade.

Tudo, porém, é belo em seu tempo, e o dever menor deve esperar enquanto cumprimos o maior. Quando o cuidado com os parentes concorre com o serviço de Deus e com uma oportunidade de fazer o bem, devemos dizer a nosso pai: “Não o vi”, como fez Levi (Deuteronômio 33:9).

Os parentes mais próximos devem ser comparativamente odiados, isto é, devemos amá-los menos que a Cristo (Lucas 14:26). Nosso dever para com Deus deve vir primeiro. Aqui Cristo nos deu o exemplo. O zelo pela casa de Deus o consumia a tal ponto que o fazia esquecer-se não só de si mesmo, mas também de seus parentes mais queridos.

Não devemos ofender-nos com os amigos nem atribuir-lhes maldade se preferem agradar a Deus a agradar-nos. Devemos perdoar prontamente as faltas de atenção que se expliquem pelo zelo piedoso pela glória de Deus e pelo bem dos outros.

Ou melhor: devemos renunciar a nós mesmos e à nossa própria satisfação, em vez de fazer qualquer coisa que desvie os amigos do dever para com Deus ou os distraia enquanto o cumprem.

  1. Aproveitou a ocasião para preferir seus discípulos, seus parentes espirituais, aos parentes de sangue como tais. Era uma boa razão para não interromper a pregação a fim de falar com os irmãos. Preferia beneficiar os discípulos a agradar os parentes. Observe:

(1.) A descrição dos discípulos de Cristo. São os que fazem a vontade de seu Pai, não apenas a ouvem, conhecem e comentam, mas a praticam. Fazer a vontade de Deus é a melhor preparação para o discipulado (João 7:17) e sua melhor prova (Mateus 7:21); é isso que nos identifica como verdadeiros discípulos.

Cristo não disse: “Qualquer que fizer a minha vontade”, pois não viera buscar nem cumprir uma vontade própria distinta da do Pai. A vontade de ambos é a mesma. Ele nos remete à vontade do Pai porque, em sua condição e obra presentes, ele próprio se submetia a ela (João 6:38).

(2.) A dignidade dos discípulos de Cristo: “Esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Os que deixaram tudo para segui-lo e acolheram sua doutrina eram-lhe mais queridos que quaisquer parentes segundo a carne. Haviam preferido Cristo à família, deixando o pai (Mateus 4:22; 10:37). Agora, para compensá-los e mostrar que o amor lhes seria retribuído, Cristo os preferia aos próprios parentes.

Não receberam assim, em honra, cem vezes mais? (Mateus 19:29). Era muito afetuoso e animador Cristo dizer: “Eis minha mãe e meus irmãos”. Mas esse privilégio não era só deles: todos os santos recebem essa honra.

Repare: todos os crentes obedientes são parentes próximos de Jesus Cristo. Trazem seu nome, refletem sua imagem, compartilham sua natureza e pertencem à sua família. Ele os ama e convive livremente com eles como parentes; acolhe-os à sua mesa, cuida deles, sustenta-os e garante que nada lhes falte do que lhes convém.

Ao morrer, deixou-lhes uma rica herança. Agora, no céu, mantém contato com eles e, por fim, terá todos consigo. Em nada deixará de cumprir o papel de parente resgatador (Rute 3:13); jamais se envergonhará de seus parentes pobres, mas os reconhecerá diante dos homens, dos anjos e de seu Pai.


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