Mateus 11
Argumento
Neste capítulo temos: I. A diligência constante e incansável de nosso Senhor Jesus em sua grande obra de pregar o evangelho, v. 1. II. Sua conversa com os discípulos de João sobre o fato de ele ser o Messias, vv. 2-6. III. O testemunho honroso que Cristo deu a respeito de João Batista, vv. 7-15.
IV. O triste relato que ele faz daquela geração em geral e de alguns lugares em particular, quanto ao resultado tanto do ministério de João como do seu próprio, vv. 16-24. V. Sua ação de graças ao Pai pelo método sábio e gracioso que adotara para revelar os grandes mistérios do evangelho, v. 25, 26.
VI. Seu chamado e convite gracioso aos pobres pecadores para que venham a ele e sejam governados, ensinados e salvos por ele, vv. 27-30. Em nenhum outro lugar encontramos mais advertência no terror dos ais do evangelho, nem mais encorajamento na doçura de sua graça, do que neste capítulo, que nos põe diante da vida e da morte, da bênção e da maldição.
Versículos 1 a 6
Os Discípulos de João Procuram Cristo.
Alguns associam o primeiro versículo deste capítulo ao anterior e fazem dele, não sem razão, a conclusão daquele.
- O sermão de ordenação que Cristo pregou aos discípulos no capítulo anterior é chamado aqui de suas ordens a eles. Repare: as comissões de Cristo implicam ordens. Pregar o evangelho não lhes foi apenas permitido, mas ordenado. Não se tratava de algo deixado à escolha deles; a necessidade lhes fora imposta (1 Coríntios 9:16).
As promessas que lhes fez estão incluídas nessas ordens, pois a aliança da graça é uma palavra que ele ordenou (Salmos 105:8). Ele terminou de lhes dar ordens, etelesendiatasson. Repare: as instruções de Cristo são completas. Ele leva sua obra até o fim.
- Depois de dizer aos discípulos tudo o que tinha a dizer, Cristo partiu dali. Parece que eles relutavam muito em deixar o Mestre, até que ele mesmo partiu e se separou deles, assim como a ama retira a mão para que a criança aprenda a andar sozinha. Cristo queria ensiná-los a viver e a trabalhar sem sua presença física.
Foi conveniente para eles que Cristo se ausentasse por algum tempo, para prepará-los para sua longa partida. Com a ajuda do Espírito, as próprias mãos lhes seriam suficientes (Deuteronômio 33:7), e eles não permaneceriam crianças para sempre. Temos poucas notícias do que fizeram então para cumprir a comissão.
Sem dúvida, saíram pelo país, provavelmente pela Judeia, pois até então o evangelho fora pregado sobretudo na Galileia. Anunciaram a doutrina de Cristo e realizaram milagres em seu nome, mas ainda dependiam dele de modo mais imediato e não passavam muito tempo longe dele. Assim foram preparados, pouco a pouco, para sua grande obra.
- Cristo partiu para ensinar e pregar nas cidades às quais enviara seus discípulos antes dele para realizar milagres (Mateus 10:1-8). Desse modo, despertava a expectativa do povo e preparava o caminho para ser recebido.
Assim foi preparado o caminho do Senhor: João preparou-o conduzindo as pessoas ao arrependimento, mas não realizou milagres. Os discípulos foram além e fizeram milagres para confirmar a mensagem.
Repare: o arrependimento e a fé preparam as pessoas para as bênçãos do reino dos céus, que Cristo concede. Observe: ao dar-lhes poder para fazer milagres, Cristo ocupou-se em ensinar e pregar, como se essa fosse a atividade mais honrosa das duas. Os milagres serviam à pregação. Curar os enfermos era salvar corpos; pregar o evangelho visava salvar almas.
Cristo ordenara aos discípulos que pregassem (Mateus 10:7), mas não deixou de pregar pessoalmente. Pô-los para trabalhar, não para poupar a si mesmo, mas para aliviar a região, e não ficou menos ocupado por empregá-los. Como são diferentes dele aqueles que põem outros sob o jugo apenas para permanecer ociosos!
Repare: o aumento do número de trabalhadores na obra do Senhor não deve servir de desculpa para nossa negligência, mas de estímulo à diligência. Quanto mais ocupados os outros estiverem, mais ocupados deveremos estar; ainda assim, todo esforço será pouco diante de tanta coisa a fazer.
Observe: ele foi pregar nas cidades deles, lugares populosos; lançou a rede do evangelho onde havia mais peixes para recolher. A sabedoria clama nas cidades (Provérbios 1:21), à entrada da cidade (Provérbios 8:3), nas cidades dos judeus, até daqueles que o menosprezaram, embora fossem os primeiros a receber a oferta.
Não sabemos o que ele pregou, mas provavelmente tratou do mesmo assunto do Sermão do Monte. Em seguida, registra-se uma mensagem que João Batista enviou a Cristo e a resposta que recebeu (vv. 2-6). Já vimos que Jesus soube dos sofrimentos de João (Mateus 4:12). Agora sabemos que João, na prisão, ouve falar das obras de Cristo.
João ouviu na prisão o que Cristo fazia e, sem dúvida, alegrou-se com isso, pois era verdadeiro amigo do Noivo (João 3:29). Repare: quando um instrumento útil é posto de lado, Deus sabe levantar muitos outros em seu lugar. A obra prosseguiu, apesar da prisão de João, e isso não aumentou sua aflição, mas trouxe muito consolo ao seu cativeiro.
Nada conforta mais o povo de Deus na angústia do que ouvir falar das obras de Cristo, sobretudo experimentá-las na própria alma. Isso transforma uma prisão em palácio. De um modo ou de outro, Cristo fará chegar os sinais de seu amor àqueles que sofrem por motivo de consciência.
João não podia ver as obras de Cristo, mas tinha prazer em ouvir a respeito delas. Bem-aventurados os que não viram, apenas ouviram e, ainda assim, creram.
Ao ouvir falar das obras de Cristo, João Batista enviou-lhe dois discípulos. O que se passou entre eles e Jesus é relatado aqui. Temos:
I. A pergunta que deveriam apresentar: “És tu aquele que havia de vir, ou devemos esperar outro?” Era uma pergunta séria e importante: “És o Messias prometido ou não? És o Cristo? Dize-nos.”
A pergunta pressupõe que o Messias viria. Um dos nomes pelos quais os santos do Antigo Testamento o conheciam era aquele que vem ou que há de vir (Salmos 118:26). Ele já veio, mas ainda esperamos outra vinda sua.
Eles insinuam que, se Jesus não fosse o Messias, esperariam outro. Repare: não devemos cansar-nos de esperar aquele que há de vir, nem dizer que não mais o esperaremos até desfrutarmos de sua presença. Ainda que demore, esperemos por ele, pois aquele que há de vir virá, embora não em nosso tempo.
Eles também insinuam que, se forem convencidos de que Jesus é o Messias, não permanecerão céticos: ficarão satisfeitos e não esperarão outro.
Por isso perguntam: “És tu aquele?” João já dissera a respeito de si mesmo: “Eu não sou o Cristo” (João 1:20). Agora:
(1.) Alguns pensam que João enviou a pergunta para obter certeza para si próprio. É verdade que já dera um nobre testemunho sobre Cristo: declarara que ele era o Filho de Deus (João 1:34), o Cordeiro de Deus (v. 29), aquele que batizaria com o Espírito Santo (v. 33) e o enviado de Deus (João 3:34). Eram declarações grandiosas.
No entanto, desejava ter certeza ainda maior e mais plena de que Jesus era o Messias prometido e esperado havia tanto tempo. Repare: nos assuntos que dizem respeito a Cristo e à salvação que ele nos dá, é bom ter certeza.
Cristo não apareceu com a pompa e o poder exteriores que dele se esperavam. Seus próprios discípulos tropeçaram nisso, e talvez João também. Cristo percebeu algo dessa dificuldade no fundo da pergunta quando disse: “Bem-aventurado aquele que não se escandalizar por minha causa”. Repare: até para homens bons é difícil resistir aos erros correntes.
(2.) A dúvida de João também podia nascer de suas circunstâncias. Estava preso e talvez fosse tentado a pensar: se Jesus é mesmo o Messias, por que eu, seu amigo e precursor, fui lançado nessa aflição e deixado nela por tanto tempo? Por que ele nunca me procura, nunca me visita nem me envia mensagem, não pergunta por mim e nada faz para aliviar minha prisão ou apressar minha libertação?
Sem dúvida, havia uma boa razão para o Senhor Jesus não visitar João na prisão: evitar que parecesse existir um pacto entre os dois. Mas João interpretou isso como descaso, e sua fé em Cristo pode ter sofrido um abalo. Repare:
[1.] Mesmo onde existe fé verdadeira, pode haver uma mistura de incredulidade. Nem sempre os melhores são igualmente fortes.
[2.] As aflições sofridas por causa de Cristo, sobretudo quando se prolongam sem alívio, são provas de fé que às vezes se mostram difíceis demais para suportar.
[3.] A incredulidade que resta nos homens bons pode, numa hora de tentação, atingir a raiz e pôr em dúvida as verdades mais fundamentais, tidas até então por firmes. O Senhor rejeitará para sempre? Esperemos, porém, que a fé de João não tenha falhado nisso; ele apenas desejava fortalecê-la e confirmá-la.
Repare: até os melhores santos precisam da melhor ajuda que puderem obter para fortalecer a fé e armar-se contra as tentações à incredulidade. Abraão creu e, ainda assim, pediu um sinal (Gênesis 15:6, 8); Gideão fez o mesmo (Juízes 6:36).
Mas (3.) outros pensam que João enviou os discípulos com essa pergunta, não tanto para obter certeza para si, mas para dá-la a eles. Observe: embora João estivesse preso, permaneceram ligados a ele, prestaram-lhe assistência e estavam prontos a receber suas instruções. Amavam-no e não queriam abandoná-lo.
Ora, [1.] tinham pouco conhecimento e fé vacilante; precisavam de instrução e confirmação. Nesse assunto, estavam um tanto predispostos contra Jesus: zelosos por seu mestre, tinham ciúme de nosso Mestre. Relutavam em reconhecer Jesus como o Messias porque ele ofuscava João; relutavam até em crer no próprio mestre quando julgavam que falava contra si e contra eles.
Homens bons tendem a deixar que seus interesses influenciem seus julgamentos. João queria corrigir os equívocos dos discípulos e desejava que tivessem tanta certeza quanto ele.
Repare: os fortes devem levar em conta as fraquezas dos fracos e fazer o que puderem para ajudá-los. Aqueles a quem não conseguirmos ajudar por nós mesmos, devemos encaminhar a quem pode fazê-lo. “Quando fores convertido, fortalece os teus irmãos.”
[2.] João sempre procurara encaminhar seus discípulos a Cristo, como quem os faz passar da escola elementar à academia. Talvez previsse a proximidade da própria morte e quisesse aproximá-los mais de Cristo, sob cuja guarda precisaria deixá-los. Repare: o trabalho dos ministros é conduzir todos a Cristo.
Aqueles que desejam conhecer com certeza a doutrina de Cristo devem procurar o próprio Cristo, que veio dar entendimento. Quem deseja crescer na graça precisa fazer perguntas.
II. A resposta de Cristo à pergunta (vv. 4-6). Não foi tão direta e explícita quanto quando disse: “Eu, que falo contigo, sou ele”. Ainda assim, foi uma resposta verdadeira, dada pelos fatos. Cristo quer que examinemos cuidadosamente as provas convincentes das verdades do evangelho e nos esforcemos para extrair conhecimento.
- Ele lhes aponta o que ouviram e viram e lhes manda contar a João, para que este tenha ocasião de instruí-los melhor e convencê-los com o próprio testemunho deles: vão contar-lhe o que vocês ouvem e veem. Repare: podemos e devemos recorrer aos sentidos naquilo que lhes diz respeito.
Por isso, a doutrina papista da presença real não concorda com a verdade que há em Jesus, pois Cristo nos remete ao que ouvimos e vemos. Vão contar a João:
(1.) O que veem do poder dos milagres de Cristo: veem como, pela palavra de Jesus, os cegos recebem a vista, os coxos andam, e assim por diante. Seus milagres eram feitos publicamente, diante de todos, pois não temiam o exame mais rigoroso e imparcial. Veritas non quaerit angulos: a verdade não busca esconderijos. Devemos considerá-los:
[1.] Como atos de poder divino. Somente o Deus da natureza poderia governar e superar assim as forças naturais. Abrir os olhos dos cegos é mencionado especialmente como prerrogativa de Deus (Salmos 146:8). Os milagres são, portanto, o grande selo do céu, e a doutrina à qual se prendem deve vir de Deus: seu poder jamais contradirá sua verdade.
Tampouco se pode imaginar que ele ponha seu selo numa mentira. Ainda que se aleguem prodígios mentirosos para provar doutrinas falsas, os milagres verdadeiros demonstram uma comissão divina. Os de Cristo eram assim e não deixam dúvida de que Deus o enviou e de que sua doutrina vinha daquele que o enviou.
[2.] Como cumprimento de uma profecia divina. Fora anunciado que nosso Deus viria e então os olhos dos cegos se abririam (Isaías 35:5, 6). Se as obras de Cristo concordam com as palavras do profeta, como claramente concordam, sem dúvida ele é o Deus por quem esperávamos, que virá com recompensa. É dele que tanto precisamos.
(2.) Contem-lhe o que ouvem da pregação do evangelho, que acompanha os milagres. A fé, embora confirmada pela visão, vem pelo ouvir. Contem-lhe:
[1.] Que os pobres pregam o evangelho, como alguns leem a passagem. O fato de Cristo empregar na fundação de seu reino homens pobres, sem nenhuma vantagem terrena, prova sua missão divina. Eles jamais teriam alcançado seu propósito se não fossem conduzidos por um poder divino.
[2.] Que o evangelho é pregado aos pobres. O público de Cristo era formado por aqueles que os escribas e fariseus desprezavam e tratavam com desdém. Os rabinos não queriam instruí-los porque eles não podiam pagar. Os profetas do Antigo Testamento foram enviados sobretudo aos reis e príncipes, mas Cristo pregou às congregações dos pobres.
Fora profetizado que os pobres do rebanho esperariam por ele (Zacarias 11:11). Repare: a bondosa condescendência e compaixão de Cristo pelos pobres provam que era ele quem traria ao mundo as ternas misericórdias de nosso Deus. Fora anunciado que o Filho de Davi seria o Rei dos pobres (Salmos 72:2, 4, 12, 13).
Ou podemos entender a passagem como referente não tanto aos pobres deste mundo, mas aos pobres de espírito. Assim se cumpre Isaías 61:1: “Ele me ungiu para pregar alegres notícias aos mansos”. Repare: sua doutrina ser de fato evangelho é prova da missão divina de Cristo: boas notícias para quem é verdadeiramente humilhado pela tristeza de seus pecados e verdadeiramente humilde ao negar a si mesmo.
A essas pessoas sua mensagem se ajusta, pois Deus sempre declarou ter misericórdia reservada para elas.
[3.] Que os pobres recebem o evangelho e são transformados por ele. São evangelizados: recebem e acolhem o evangelho, são por ele levedados e entregues a ele como a um molde. Repare: a eficácia extraordinária do evangelho prova sua origem divina. Os pobres são transformados por ele.
Os profetas se queixavam de que os pobres não conheciam o caminho do Senhor (Jeremias 5:4). Não conseguiam exercer sobre eles uma influência benéfica; o evangelho de Cristo, porém, encontrou caminho até suas mentes sem instrução.
- Ele declara bem-aventurados aqueles que não se escandalizam por causa dele (v. 6). As provas da missão de Cristo são tão claras que quem não nutre preconceito deliberado contra ele nem se escandaliza nele, como diz a palavra, não pode deixar de acolher sua doutrina e ser abençoado nele. Repare:
(1.) Há em Cristo muitas coisas com que pessoas ignorantes e irrefletidas tendem a se escandalizar; por causa de certas circunstâncias, rejeitam a essência de seu evangelho. Sua aparência humilde, sua criação em Nazaré, a pobreza de sua vida, a condição desprezada de seus seguidores e o menosprezo que lhe demonstravam os poderosos são alguns exemplos.
Acrescentem-se o rigor de sua doutrina, a oposição que ela faz à carne e ao sangue e os sofrimentos que acompanham a profissão de seu nome. Essas coisas afastam muitos que, de outro modo, não poderiam deixar de reconhecer muito de Deus nele. Assim, ele foi posto para queda de muitos, até em Israel (Lucas 2:34), como pedra de tropeço (1 Pedro 2:8).
(2.) Felizes são os que vencem esses obstáculos: são bem-aventurados. A expressão indica que é difícil superar tais preconceitos e perigoso não fazê-lo. Quanto àqueles que, apesar dessa oposição, creem em Cristo, sua fé resultará ainda mais em louvor, honra e glória.
Versículos 7 a 13
O Testemunho de Cristo sobre João.
Temos aqui o grande elogio que nosso Senhor Jesus fez a João Batista, não só para restabelecer a honra de João, mas também para reavivar sua obra. Alguns discípulos de Cristo talvez aproveitassem a pergunta que João enviara para censurá-lo como fraco, vacilante e incoerente. Para impedir isso, Cristo dá este testemunho sobre ele.
Repare: é nosso dever zelar pela reputação dos irmãos e não só remover, mas também evitar de antemão, suspeitas e pensamentos ruins a respeito deles. Devemos aproveitar todas as ocasiões, especialmente as que revelam alguma fraqueza, para falar bem dos que são dignos de louvor e dar-lhes o fruto de suas obras.
Quando João Batista aparecia em público e Cristo vivia em particular e recolhimento, João deu testemunho de Cristo. Agora que Cristo aparecia publicamente e João estava sob uma nuvem, Cristo deu testemunho de João.
Repare: quem já tem prestígio consolidado deve usá-lo para ajudar o crédito e a reputação de outros que o merecem, mas cujo temperamento ou circunstâncias presentes os impedem de obtê-lo. Isso é dar honra a quem a honra é devida.
João se humilhara para honrar a Cristo (João 1:20; 3:30; Mateus 3:11); reduzira-se a nada para que Cristo fosse Tudo. Agora Cristo o honra com esse testemunho. Repare: quem se humilha será exaltado, e Cristo honrará os que o honram. Aos que o confessam diante dos homens, ele também confessará, às vezes diante dos homens ainda neste mundo.
João já havia concluído seu testemunho; agora Cristo o elogia. Repare: Cristo reserva honra aos seus servos para quando terminam o trabalho (João 12:26).
Agora, a respeito desse elogio a João, observe:
I. Que Cristo falou de João de modo tão honroso não na presença dos discípulos deste, mas quando eles partiram, logo depois de irem embora (Lucas 7:24). Não queria nem parecer bajular João, nem que lhe relatassem esses elogios.
Repare: embora devamos estar prontos a dar a todos o louvor devido, para animá-los, precisamos evitar tudo o que pareça bajulação ou possa enchê-los de orgulho. Aqueles que se desapegaram do mundo em outros aspectos ainda têm dificuldade para suportar o próprio louvor. O orgulho é uma inclinação corrupta que não devemos alimentar nem nos outros nem em nós mesmos.
II. Que as palavras de Cristo sobre João visavam não só louvá-lo, mas beneficiar o povo, reavivando a lembrança de seu ministério. Muitos o haviam acompanhado, mas agora, como costuma acontecer nessas situações, estava estranhamente esquecido: haviam se alegrado em sua luz por um tempo, e apenas por um tempo (João 5:35).
“Agora considerem: o que vocês foram ver no deserto? Façam a si mesmos essa pergunta.” 1. João pregava no deserto, e as pessoas acorriam em multidões para ouvi-lo, apesar de ser um lugar distante e inconveniente. Se os mestres forem afastados para lugares isolados, é melhor procurá-los do que ficar sem eles.
Se a pregação de João valia tanto esforço para ir ouvi-la, certamente valia algum cuidado para recordá-la. Quanto maiores as dificuldades que vencemos para ouvir a palavra, mais devemos preocupar-nos em aproveitá-la.
- As pessoas foram vê-lo: mais para alimentar os olhos com a aparência incomum de sua pessoa do que para alimentar a alma com seus ensinamentos salutares; mais por curiosidade do que por consciência.
Repare: muitos que vão ouvir a palavra querem mais ver e ser vistos do que aprender e ser ensinados. Querem ter assunto para conversar, mais do que adquirir sabedoria para a salvação. Cristo lhes pergunta: “O que vocês foram ver?” Repare: aqueles que ouvem a palavra prestarão contas de suas intenções e do aproveitamento que fizeram dela.
Pensamos que, terminado o sermão, terminam os cuidados. Não: é então que começa a parte maior da responsabilidade. Em breve se perguntará: “O que vocês faziam naquela ocasião, naquela ordenança? O que os levou até lá? Foi o costume, a companhia ou o desejo de honrar a Deus e receber algum bem?”
“O que trouxeram de lá? Que conhecimento, graça e consolo? O que foram ver?” Repare: quando vamos ler e ouvir a palavra, devemos certificar-nos de que temos o propósito correto.
III. Vejamos em que consistiu o elogio a João. Eles não sabem responder à pergunta de Cristo. Pois bem, diz ele: “Eu lhes direi que tipo de homem era João Batista.”
- “Era um homem firme e resoluto, não um caniço sacudido pelo vento. Vocês vacilaram em sua opinião a respeito dele, mas ele não vacilou. Não vacilava em seus princípios nem era inconstante em sua conduta; distinguia-se pela firmeza e pela constante coerência consigo mesmo.” Os fracos como caniços serão sacudidos como caniços, mas João era forte em espírito (Efésios 4:14).
Quando soprava favorável o vento do aplauso popular, por um lado, e a tempestade da ira de Herodes se tornava violenta e turbulenta, por outro, João continuava o mesmo, em qualquer tempo. O testemunho que dera de Cristo não era o testemunho de um caniço, de um homem que pensa de um jeito hoje e de outro amanhã. Não era testemunho de biruta.
Sua constância é indicada em João 1:20: “confessou e não negou, mas confessou”; depois, permaneceu fiel ao que dissera (João 3:28). Por isso, a pergunta enviada por seus discípulos não devia ser interpretada como dúvida quanto à verdade do que ele afirmara antes. As pessoas acorriam a João justamente porque ele não era como um caniço.
Repare: no fim, nada se perde com a firme decisão de prosseguir no trabalho, sem cortejar os sorrisos nem temer as caras fechadas das pessoas.
- Ele era um homem que negava a si mesmo e se desapegara deste mundo. “Vestia roupas finas? Se assim fosse, vocês não teriam ido ao deserto para vê-lo, mas ao palácio. Foram ver um homem vestido de pelo de camelo e com um cinto de couro na cintura. Sua aparência e suas roupas mostravam que ele havia morrido para toda a pompa do mundo e para os prazeres dos sentidos.”
“Sua roupa combinava com o deserto onde vivia e com a doutrina do arrependimento que ali pregava. Vocês não podem imaginar que alguém tão alheio aos prazeres da corte mudaria de opinião diante dos terrores da prisão e agora passaria a questionar se Jesus é o Messias!” Repare: os que viveram uma vida de renúncia têm menor probabilidade de abandonar a religião por causa da perseguição.
João não vestia roupas finas. Há homens que as vestem, mas estão nos palácios dos reis. Repare: convém que as pessoas sejam coerentes com seu caráter e sua condição em toda a sua apresentação. Os pregadores não devem querer parecer pessoas da corte, nem os que vivem em casas comuns devem ambicionar as roupas finas dos que moram em palácios. A prudência nos ensina a manter a coerência.
João parecia rude e desagradável, mas as multidões o seguiam. Repare: a lembrança do zelo anterior com que ouvíamos a palavra de Deus deve animar-nos no trabalho presente e a prosseguir nele. Não se diga que fizemos e sofremos tantas coisas em vão, que corremos e trabalhamos em vão.
- Seu maior elogio se referia ao cargo e ao ministério, que lhe traziam mais honra que quaisquer dons ou qualidades pessoais. Por isso, Cristo se estende mais nesse ponto, com um elogio completo.
(1.) Ele era profeta e, sim, mais que profeta (v. 9). Assim falou dele aquele que era o grande Profeta, de quem todos os profetas dão testemunho. João dissera de si mesmo que não era aquele profeta, o grande profeta, o próprio Messias. Agora Cristo, juiz plenamente competente, diz que João era mais que profeta.
João reconheceu-se inferior a Cristo, e Cristo o reconheceu superior a todos os demais profetas. Observe: o precursor de Cristo não era rei, mas profeta, para que não parecesse que o reino do Messias tinha seu fundamento no poder terreno. Como precursor imediato, porém, João era um profeta extraordinário, mais que os profetas do Antigo Testamento.
Todos eles agiram virtuosamente, mas João superou a todos. Eles viram de longe o dia de Cristo, e sua visão ainda levaria muito tempo para cumprir-se. João, porém, viu o dia clarear, viu o sol nascer e falou ao povo do Messias como alguém que estava entre eles.
Os profetas falaram de Cristo; João apontou para ele. Disseram: “Uma virgem conceberá”; ele disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”
(2.) Era aquele cuja vinda como precursor de Cristo fora anunciada (v. 10): “Este é aquele de quem está escrito”. Os outros profetas profetizaram a respeito dele; por isso, era maior que eles. Malaquias profetizou acerca de João: “Eis que envio meu mensageiro diante da tua face”.
Nisso, parte da honra de Cristo foi concedida a João: os profetas do Antigo Testamento falaram e escreveram a seu respeito. Todos os santos têm essa honra: seus nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro. Ser o anunciador de Cristo era, para João, um cargo mais elevado que o de todos os profetas.
Era um mensageiro enviado para uma grande missão, um mensageiro entre mil, que derivava sua honra daquele de quem era mensageiro: ele é meu mensageiro, enviado por Deus. Sua tarefa era preparar o caminho de Cristo e dispor as pessoas a receber o Salvador, mostrando-lhes o pecado, a miséria e a necessidade de um Salvador.
João dissera isso de si mesmo (João 1:23), e agora Cristo o dizia a respeito dele. Com isso, Cristo pretendia não só honrar o ministério de João, mas despertar novamente no povo o interesse por ele, como ministério que preparava o caminho para o Messias.
Repare: grande parte da beleza das dispensações de Deus está na ligação e coerência entre elas e na relação de umas com as outras. João foi elevado acima dos profetas do Antigo Testamento porque veio imediatamente antes de Cristo. Repare: quanto mais perto alguém está de Cristo, mais verdadeiramente honrado é.
(3.) Entre os nascidos de mulher, não havia maior que João Batista (v. 11). Cristo sabia avaliar as pessoas segundo o grau de seu valor e põe João acima de todos os que vieram antes dele, de todos os nascidos de mulher pela geração natural.
De todos os que Deus levantou e chamou a qualquer serviço em sua igreja, João foi o mais eminente, superando até Moisés. Começou a pregar a doutrina evangélica da remissão dos pecados aos verdadeiramente arrependidos e recebeu revelações do céu mais notáveis que qualquer um deles: viu o céu aberto e o Espírito Santo descer.
Seu ministério também teve grande sucesso; quase toda a nação acorreu a ele. Ninguém surgiu com projeto tão grande ou missão tão nobre quanto os dele, nem tinha tantos motivos para esperar uma recepção favorável. Muitas pessoas nascidas de mulher tinham posição de destaque no mundo, mas Cristo preferiu João a elas.
Repare: a grandeza não deve ser medida pelas aparências e pelo esplendor exterior. Os maiores homens são os maiores santos e as maiores bênçãos: como João, são grandes diante do Senhor (Lucas 1:15).
Apesar disso, esse grande elogio a João contém uma ressalva surpreendente: “Aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele”. [1.] No reino da glória. João era um homem grande e bom, mas ainda vivia em estado de fraqueza e imperfeição. Por isso, não alcançava a condição dos santos glorificados e dos espíritos dos justos aperfeiçoados.
Repare: primeiro, há graus de glória no céu; alguns ali são menores que outros. Embora todos os vasos estejam igualmente cheios, nem todos têm o mesmo tamanho e a mesma capacidade. Segundo, o menor santo no céu é maior, sabe mais, ama mais, louva mais a Deus e recebe mais dele que o maior santo neste mundo.
Os santos na terra são excelentes (Salmos 16:3), mas os do céu são muito mais excelentes. Os melhores deste mundo são menores que os anjos (Salmos 8:5); os menores ali são iguais aos anjos. Isso deve fazer-nos desejar esse estado bendito, no qual o fraco será como Davi (Zacarias 12:8).
[2.] Aqui, porém, é preferível entender o reino dos céus como o reino da graça: a dispensação do evangelho na plenitude de seu poder e pureza. Ho mikroteros, aquele que é menor nesse reino, é maior que João.
Alguns entendem que se refere ao próprio Cristo, que era mais jovem e, na opinião de alguns, menor que João. Cristo sempre falou de si com humildade: “Sou verme, e não homem”. Contudo, era maior que João. Assim, isso concorda com o que João Batista disse (João 1:15): “Aquele que vem depois de mim é preferido antes de mim”.
É melhor, porém, entender a expressão como referente aos apóstolos e ministros do Novo Testamento, os profetas evangélicos. A comparação deles com João não diz respeito à santidade pessoal, mas ao cargo. João pregava que Cristo viria; eles pregavam que Cristo não apenas viera, mas fora crucificado e glorificado.
João chegou à aurora do dia do evangelho e nisso superou os profetas anteriores, mas foi retirado antes do meio-dia: antes que o véu se rasgasse, antes da morte e da ressurreição de Cristo e do derramamento do Espírito. Assim, até o menor dos apóstolos e evangelistas, recebendo revelações maiores e sendo empregado numa missão maior, supera João.
João não fez milagres; os apóstolos realizaram muitos. Essa preferência se fundamenta na superioridade da dispensação do Novo Testamento sobre a do Antigo. Portanto, os ministros do Novo Testamento são superiores porque seu ministério também o é (2 Coríntios 3:6, etc.).
João era um maximum quod sic, o maior de sua ordem; foi tão longe quanto a dispensação sob a qual vivia permitia. Mas minimum maximi est majus maximo minimi: o menor da ordem mais elevada é superior ao primeiro da mais baixa. Um anão sobre uma montanha vê mais longe que um gigante no vale.
Repare: toda a verdadeira grandeza humana deriva da manifestação graciosa de Cristo às pessoas e é definida por ela. Os melhores homens não são melhores do que Cristo se agrada em torná-los.
Quanta razão temos para agradecer porque vivemos nos dias do reino dos céus, com tantas vantagens de luz e amor! Quanto maiores as vantagens, maiores serão as contas a prestar se recebermos em vão a graça de Deus.
(4.) O grande elogio de João Batista foi o fato de Deus reconhecer seu ministério e torná-lo maravilhosamente bem-sucedido em quebrar o gelo e preparar as pessoas para o reino dos céus. Desde os dias em que João Batista apareceu pela primeira vez até então, período pouco superior a dois anos, muito bem havia sido feito. O movimento era rápido ao aproximar-se de Cristo, o Centro.
“O reino dos céus sofre violência”, biazetai-vim patitur, como a violência de um exército que toma uma cidade de assalto ou de uma multidão que irrompe numa casa. Assim, “os violentos o tomam à força”. O sentido disso aparece na passagem paralela de Lucas 16:16: “Desde então o reino de Deus é pregado, e todo homem se esforça para entrar nele”.
Multidões são alcançadas pelo ministério de João e se tornam seus discípulos. E trata-se de:
[1.] Uma multidão improvável. Pessoas que pareciam não ter direito algum a esse reino lutavam por um lugar nele e, assim, pareciam intrusas, como se praticassem uma entrada ilícita, conforme diz nossa lei: uma entrada indevida e forçada.
Quando os filhos do reino são excluídos e muitos vêm do oriente e do ocidente para entrar, então o reino sofre violência. Compare Mateus 21:31, 32. Os publicanos e as prostitutas creram em João, rejeitado pelos escribas e fariseus. Assim, entraram no reino de Deus antes deles, passando-lhes à frente enquanto estes perdiam tempo.
Repare: não é falta de educação chegar ao céu antes dos nossos superiores. É um grande mérito do evangelho, desde sua infância, ter levado à santidade muitos de quem pouco se esperava.
[2.] Uma multidão insistente. Essa violência indica a força, o vigor e a intensidade do desejo e do esforço daqueles que acompanhavam o ministério de João; de outro modo, não teriam viajado tão longe para ouvi-lo. Mostra-nos também o fervor e o zelo exigidos de quem pretende alcançar o céu por meio de sua religião.
Repare: quem deseja entrar no reino dos céus precisa esforçar-se para entrar. Esse reino sofre uma violência santa: é preciso negar a si mesmo, mudar as inclinações e tendências, a disposição e o temperamento da mente. Há sofrimentos árduos a suportar e uma força a exercer sobre a natureza corrompida.
Precisamos correr, lutar, combater e agonizar; ainda assim, será pouco diante do prêmio a conquistar e da oposição externa e interna a vencer. “Os violentos o tomam à força.” Quem deseja ter parte na grande salvação avança para ela com forte desejo, quer alcançá-la custe o que custar, sem julgar duras as condições nem largar aquele a quem se agarra sem receber a bênção (Gênesis 32:26).
Quem deseja confirmar sua vocação e eleição deve empenhar-se. O reino dos céus nunca se destinou a favorecer a comodidade dos que perdem tempo, mas a ser o descanso dos que trabalham. É uma visão bendita! Como seria bom vermos um número maior de pessoas que, em vez de afastar os outros do reino dos céus com uma disputa irada, se empenhassem santamente para entrar nele!
(5.) O ministério de João foi o início do evangelho, como é considerado em Marcos 1:1 e Atos 1:22. Isso se mostra de duas maneiras:
[1.] Em João, a dispensação do Antigo Testamento começou a morrer (v. 13). Até então, esse ministério continuara com plena força e eficácia, mas naquele momento começou a declinar. Embora a obrigação imposta pela lei de Moisés só fosse removida na morte de Cristo, as revelações do Antigo Testamento começavam a dar lugar à manifestação mais clara de que o reino dos céus estava próximo.
Como a luz do evangelho, assim como a da natureza, devia preceder sua lei e preparar-lhe o caminho, as profecias do Antigo Testamento chegaram ao fim antes de seus preceitos. Foi um fim finis perficiens, não interficiens: conclusão por cumprimento, não por cessação.
Portanto, quando Cristo diz “Todos os profetas e a lei profetizaram até João”, mostra-nos, primeiro, como a luz do Antigo Testamento foi estabelecida: na lei e nos profetas, que falaram de Cristo e de seu reino, ainda que obscuramente. Observe: diz-se que a lei, assim como os profetas, profetizava sobre aquele que viria.
Cristo começou por Moisés (Lucas 24:27). Foi anunciado tanto pelos sinais mudos da obra mosaica como pelas vozes mais claras dos profetas; foi apresentado não só pelas previsões em palavras, mas também por figuras pessoais e reais.
Bendito seja Deus por termos a doutrina do Novo Testamento para explicar as profecias do Antigo e as profecias do Antigo para confirmar e ilustrar a doutrina do Novo (Hebreus 1:1). Como os dois querubins, olham um para o outro.
A lei foi dada por Moisés havia muito tempo; antes de João, não surgira profeta por trezentos anos. Ainda assim, diz-se que tanto a lei como os profetas profetizaram até João, pois a lei continuava a ser observada e os escritos de Moisés e dos profetas continuavam a ser lidos.
Repare: a Escritura ensina até hoje, embora seus autores já tenham partido. Moisés e os profetas morreram; os apóstolos e evangelistas morreram (Zacarias 1:5), mas “a palavra do Senhor permanece para sempre” (1 Pedro 1:25). A Escritura continua a falar expressamente, embora seus escritores estejam calados no pó.
Segundo, como essa luz foi deixada de lado: ao dizer que profetizaram até João, Cristo indica que a glória deles foi ofuscada por uma glória superior, e suas previsões, substituídas pelo testemunho de João: “Eis o Cordeiro de Deus!” Mesmo antes do nascer do sol, a luz da manhã faz as velas parecerem fracas.
As profecias sobre um Cristo que viria ficaram ultrapassadas quando João disse: “Ele veio”.
[2.] Em João começou a raiar o dia do Novo Testamento, pois (v. 14): “Este é Elias, que havia de vir”. João era como a argola que unia os dois Testamentos. Assim como Noé foi Fibula utriusque mundi, o elo entre os dois mundos, João foi utriusque Testamenti, o elo entre os dois Testamentos.
A profecia final do Antigo Testamento dizia: “Eis que vos enviarei Elias” (Malaquias 4:5, 6). Essas palavras profetizaram até João; quando se tornaram história, deixaram de profetizar. Primeiro, Cristo apresenta como grande verdade que João Batista é o Elias do Novo Testamento.
Não é Elias in propria persona, em sua própria pessoa, como os judeus carnais esperavam. João negou isso (João 1:21). É alguém que vem no espírito e poder de Elias (Lucas 1:17), semelhante a ele em temperamento e conduta, e que insiste no arrependimento com advertências terríveis. Em especial, como diz a profecia, ele faria voltar o coração dos pais aos filhos.
Segundo, Cristo apresenta essa verdade como algo que não seria facilmente compreendido por aqueles que fixavam as expectativas no reino temporal do Messias e numa preparação condizente com ele. Cristo duvida de que a acolham: “Se o quiserdes receber”. Isso não significa que deixaria de ser verdade se não a recebessem.
Antes, ele os repreende por seus preconceitos, pois relutavam em receber as maiores verdades quando estas contrariavam suas opiniões, por mais favoráveis que fossem aos seus interesses. Ou: “Se o receberem, ou receberem o ministério de João como o do Elias prometido, ele será para vocês um Elias, para convertê-los e prepará-los para o Senhor”.
Repare: conforme são recebidas, as verdades do evangelho se tornam aroma de vida ou de morte. Cristo é Salvador, e João é Elias, para aqueles que recebem a verdade a respeito deles.
Por fim, nosso Senhor Jesus encerra o discurso com uma exigência solene de atenção (v. 15): “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Isso indica que essas coisas eram obscuras e difíceis de entender, exigindo atenção; eram também de grande importância e consequência, merecendo-a plenamente.
“Que todos reparem nisso: se João é o Elias profetizado, então está em curso uma grande transformação; o reino do Messias está às portas, e o mundo logo será surpreendido por uma mudança feliz. Essas coisas exigem séria reflexão; por isso, todos vocês devem dar ouvidos ao que digo.”
Repare: as coisas de Deus dizem respeito a todos e são de grande importância. Quem tem ouvidos para ouvir qualquer coisa deve ouvi-las. Isso também indica que Deus só exige de nós o uso correto e o aproveitamento das faculdades que já nos deu: pede que ouçam aqueles que têm ouvidos e que usem a razão aqueles que a possuem.
Por isso, as pessoas são ignorantes não por lhes faltar capacidade, mas por lhes faltar vontade. Não ouvem porque, como a víbora surda, tapam os ouvidos.
Versículos 16 a 24
Cristo Repreende Corazim e Outras Cidades.
Cristo vinha elogiando João Batista e seu ministério, mas aqui interrompe de repente esse elogio e passa a repreender aqueles que desfrutaram em vão tanto do ministério de João como do seu próprio e do de seus apóstolos. Quanto àquela geração, podemos observar a quem ele a compara (vv. 16-19); quanto aos lugares específicos que menciona, com quem os compara (vv. 20-24).
I. Quanto àquela geração, o povo judeu daquele tempo. Muitos, de fato, se esforçavam para entrar no reino dos céus; a maioria, porém, persistia na incredulidade e na obstinação. João era um homem grande e bom, mas a geração em que viveu era extremamente estéril e inútil, indigna dele.
Repare: a maldade dos lugares em que vivem bons ministros ressalta, por contraste, a beleza deles. Noé foi elogiado por ser justo em sua geração. Depois de elogiar João, Cristo condena os que o tiveram entre si e não aproveitaram seu ministério. Repare: quanto mais digno de louvor é o ministro que desprezam, mais culpados são eles; isso ficará evidente no dia de prestar contas.
Nosso Senhor Jesus apresenta esse fato numa parábola, embora fale como quem tem dificuldade de encontrar uma comparação adequada: “A que compararei esta geração?” Repare: não há absurdo maior que ter boa pregação ao alcance e jamais tirar proveito dela. É difícil dizer com que se parecem essas pessoas.
A comparação vem de um costume das crianças judias em suas brincadeiras. Como costuma acontecer, imitavam os adultos nos casamentos e funerais, alegrando-se e lamentando-se; mas, como tudo era brincadeira, nada as comovia. Tampouco o ministério de João Batista ou o de Cristo impressionou aquela geração.
Ele se refere especialmente aos escribas e fariseus, que tinham opinião orgulhosa de si mesmos. Por isso, para humilhá-los, compara-os a crianças e compara sua conduta a brincadeiras infantis.
A parábola se explica melhor quando a examinamos juntamente com sua aplicação nestas cinco observações.
Repare: 1. O Deus do céu emprega vários meios e métodos adequados para converter e salvar pobres almas. Ele quer que todos sejam salvos e, para isso, não deixa de tentar recurso algum. Seu grande objetivo é derreter nossa vontade para que se conforme à vontade de Deus; para isso, comove-nos com as revelações que fez de si mesmo.
Como há diferentes sentimentos sobre os quais agir, ele emprega diferentes modos de agir. Embora distintos entre si, todos visam ao mesmo fim; em todos, Deus executa o mesmo desígnio. Na parábola, isso é chamado de tocar flauta para nós e de nos dirigir um lamento.
Ele nos tocou flauta nas preciosas promessas do evangelho, próprias para despertar esperança; e nos dirigiu um lamento nas terríveis ameaças da lei, próprias para despertar temor. Assim, queria assustar-nos para que saíssemos dos pecados e atrair-nos a si.
Tocou flauta para nós nas providências bondosas e misericordiosas; dirigiu-nos um lamento nas providências calamitosas e aflitivas, contrapondo umas às outras. Ensinou seus ministros a mudar o tom da voz (Gálatas 4:20): às vezes, falar com trovões do monte Sinai; outras, com voz mansa e suave do monte Sião.
A explicação da parábola apresenta a diferença de caráter entre o ministério de João e o de Cristo, as duas grandes luzes daquela geração.
(1.) De um lado, João veio até eles lamentando, sem comer nem beber. Não convivia familiarmente com as pessoas nem costumava comer em companhia delas, mas comia sozinho em sua cela no deserto, onde se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.
Seria de esperar que isso os influenciasse, pois uma vida tão austera e abnegada concordava bem com a doutrina que ele pregava. O ministro cuja conduta corresponde à doutrina é o que tem maior probabilidade de fazer o bem; ainda assim, nem mesmo a pregação de tal ministro é sempre eficaz.
(2.) De outro lado, o Filho do Homem veio comendo e bebendo; assim tocou flauta para eles. Cristo convivia livremente com todos os tipos de pessoa, sem buscar rigor ou austeridade especiais. Era afável e acessível, não evitava companhia alguma e muitas vezes participava de refeições tanto com fariseus como com publicanos.
Assim procurava conquistar aqueles que a reserva de João não alcançara: os que não se deixavam impressionar pelo semblante severo de João seriam atraídos pelo sorriso de Cristo. Foi com Cristo que Paulo aprendeu a tornar-se tudo para todos (1 Coríntios 9:22).
Com sua liberdade, nosso Senhor Jesus não condenava João de maneira alguma, assim como João não o condenava, embora suas maneiras fossem muito diferentes. Repare: por mais certos que estejamos da bondade da nossa própria prática, ainda assim não devemos usá-la para julgar os outros.
Pode haver grande diversidade de operações onde é o mesmo Deus quem realiza tudo em todos (1 Coríntios 12:6). Essas variadas manifestações do Espírito são dadas a cada pessoa para o bem comum (1 Coríntios 12:7).
Observe, sobretudo, que Deus concede dons diferentes aos ministros. A capacidade e a disposição de uns se inclinam para um caminho; as de outros, para outro. Alguns são Boanerges, filhos do trovão; outros são como Barnabés, filhos da consolação. Mas todas essas coisas são realizadas pelo mesmo Espírito (1 Coríntios 12:11).
Por isso, não devemos condenar uns ou outros, mas elogiar a ambos e louvar a Deus por ambos. Ele experimenta diferentes modos de tratar pessoas de temperamentos diversos, para que os pecadores se tornem dóceis ou fiquem sem desculpa. Seja qual for o resultado, Deus será glorificado.
Repare: 2. Para muitos, os diferentes métodos que Deus emprega para converter pecadores não dão fruto nem produzem efeito: “Não dançastes; não vos lamentastes”. Vocês não foram devidamente tocados nem por um nem pelo outro.
Como acontece com os remédios, cada meio tem uma intenção específica que precisa ser atendida e uma impressão própria à qual é preciso se submeter, para que se cumpra o propósito maior e comum.
Se as pessoas não aceitam ser governadas pelas leis, convidadas pelas promessas nem atemorizadas pelas ameaças; se as coisas mais grandiosas não as despertam, as mais doces não as atraem, as mais terríveis não as fazem estremecer e as mais claras não as sensibilizam, o que mais se pode fazer?
Se não dão ouvidos nem à Escritura, nem à razão, nem à experiência, nem à providência, nem à consciência, nem ao próprio interesse, que resta? “O fole se queimou, o chumbo foi consumido e o fundidor trabalha em vão”; os homens os chamarão de “prata rejeitada” (Jeremias 6:29-30).
O trabalho dos ministros é empregado em vão (Isaías 49:4) e, perda muito maior, a graça de Deus é recebida em vão (2 Coríntios 6:1). Repare: quando veem pouco resultado de seu trabalho, os ministros fiéis encontram algum consolo em saber que até os melhores pregadores e as melhores pregações do mundo já deixaram de alcançar o fim desejado. Quem creu em nossa mensagem?
Se o arco de grandes comandantes como Cristo e João tantas vezes voltou vazio do sangue dos mortos e da gordura dos valentes (2 Samuel 1:22), não admira que o nosso também volte vazio e que profetizemos com tão pouco resultado a ossos secos.
Repare: 3. Em geral, aqueles que não aproveitam os meios da graça são perversos e censuram os ministros por meio dos quais recebem esses meios. Como não obtêm bem para si, procuram fazer aos outros todo o mal possível, levantando e espalhando preconceitos contra a palavra e seus fiéis pregadores.
Os que não querem conformar-se a Deus nem andar após ele o afrontam e andam em oposição a ele. Foi o que fez aquela geração. Decididos a não crer em Cristo e João nem reconhecê-los, como deveriam, como os melhores homens, empenharam-se em maltratá-los e apresentá-los como os piores.
(1.) Sobre João Batista, disseram: “Tem demônio”. Atribuíram seu rigor e sua reserva à melancolia e a alguma espécie ou grau de possessão satânica. “Por que dar atenção a ele? É um pobre hipocondríaco, cheio de fantasias e dominado por uma imaginação perturbada.”
(2.) Quanto a Jesus Cristo, atribuíram sua convivência livre e atenciosa a um vício ainda pior: o luxo e a satisfação dos desejos da carne. “Eis aí um glutão e beberrão!” Não poderia haver acusação mais suja e odiosa. Era a acusação feita ao filho rebelde: “É um glutão e beberrão” (Deuteronômio 21:20).
Contudo, nenhuma acusação poderia ser mais falsa e injusta: Cristo não agradou a si mesmo (Romanos 15:3), e ninguém jamais viveu com tamanha abnegação, renúncia e desprezo pelo mundo. Aquele que não tinha mancha e era separado dos pecadores é apresentado como aliado deles e contaminado por eles.
Repare: nem a inocência mais pura nem a excelência sem igual nos protegem sempre das acusações alheias. Até os melhores dons e atos de alguém, bem-intencionados e apropriados para edificação, podem tornar-se motivo de descrédito. Nossas melhores ações podem virar nossas piores acusações, como aconteceu com o jejum de Davi (Salmos 69:10).
Em certo sentido, era verdade que Cristo era amigo de publicanos e pecadores: o melhor amigo que já tiveram. Veio ao mundo salvar pecadores, grandes pecadores, até o principal deles. Assim falou com profundo sentimento aquele que fora, não publicano e pecador, mas fariseu e pecador.
Essa amizade, porém, é e será eternamente motivo de louvor para Cristo; os que a transformaram em acusação perderam o benefício dela.
Repare: 4. A causa da grande falta de fruto e da perversidade das pessoas diante dos meios da graça é que se parecem com crianças sentadas nas praças. São tão tolas, teimosas, desatentas e brincalhonas quanto crianças. Se mostrassem entendimento de adultos, ainda haveria esperança para elas.
A praça onde se sentam é, para alguns, lugar de ociosidade (Mateus 20:3); para outros, lugar de negócios mundanos (Tiago 4:13); para todos, lugar de barulho ou distração. Se perguntarmos por que as pessoas tiram tão pouco proveito dos meios da graça, descobriremos que são preguiçosas e levianas e não gostam de se esforçar.
Ou descobriremos que a cabeça, as mãos e o coração delas estão cheios do mundo, cujas preocupações sufocam a palavra e, por fim, sua alma (Ezequiel 33:31; Amós 8:5). Procuram afastar os pensamentos de tudo o que é sério. Estão nas praças e ali permanecem; seu coração se fixa nessas coisas, e decidem apegar-se a elas.
Repare: 5. Embora muitos, na verdade a maioria, desprezem e abusem dos meios da graça, há um remanescente que, pela graça, tira proveito deles e corresponde a seus propósitos, para a glória de Deus e o bem da própria alma. “Mas a sabedoria é justificada por seus filhos.” Cristo é a Sabedoria; nele estão escondidos tesouros de sabedoria. Os santos são os filhos que Deus lhe deu (Hebreus 2:13).
O evangelho é sabedoria, a sabedoria do alto. Os verdadeiros crentes nascem de novo por meio dele e também nascem do alto. São filhos sábios, sábios para si mesmos e para seus verdadeiros interesses, diferentes das crianças tolas sentadas nas praças.
Esses filhos da sabedoria justificam a sabedoria: correspondem aos desígnios da graça de Cristo, atendem às suas intenções e são devidamente afetados e marcados pelos diferentes métodos que ela emprega. Assim demonstram a sabedoria de Cristo ao escolhê-los. Lucas 7:29 explica isso: os publicanos justificaram a Deus, recebendo o batismo de João e, depois, abraçando o evangelho de Cristo.
Repare: o êxito dos meios da graça justifica a sabedoria de Deus ao escolhê-los contra os que o acusam de insensatez por isso. A cura de cada paciente que segue as ordens do médico comprova a sabedoria do médico. Por isso Paulo não se envergonha do evangelho de Cristo: seja o que for para outros, para os que creem ele é o poder de Deus para a salvação (Romanos 1:16).
A cruz de Cristo, que para outros é loucura e pedra de tropeço, torna-se para os chamados a sabedoria e o poder de Deus (1 Coríntios 1:23-24). Eles fazem do conhecimento da cruz o ponto mais alto de sua ambição (1 Coríntios 2:2) e de sua eficácia a razão suprema de sua glória (Gálatas 6:14). Assim a sabedoria é justificada por seus filhos.
Os filhos da sabedoria são suas testemunhas no mundo (Isaías 43:10) e serão apresentados como testemunhas naquele dia, quando a sabedoria, agora justificada pelos santos, será glorificada neles e admirada em todos os que creem (2 Tessalonicenses 1:10).
Se a incredulidade de alguns desacredita Cristo, chamando-o de mentiroso, a fé de outros o honrará, pondo seu selo na afirmação de que ele é verdadeiro e também sábio (1 Coríntios 1:25). Façamos isso ou não, acontecerá: não apenas a justiça de Deus, mas também sua sabedoria, será justificada quando ele falar e julgar.
Esse é, portanto, o relato que Cristo faz daquela geração. Ela não desapareceu, mas continua por meio de outras semelhantes. Como acontecia então, aconteceu desde então e ainda acontece: alguns creem no que foi dito, e outros não creem (Atos 28:24).
II. Quanto aos lugares específicos em que Cristo passou mais tempo. O que dissera em geral sobre aquela geração ele aplicou particularmente a esses lugares, para comovê-los. Então começou a repreendê-los (v. 20). Começara a pregar-lhes muito antes (Mateus 4:17), mas somente agora começou a repreendê-los.
Repare: não se devem empregar métodos duros e desagradáveis antes de recorrer aos mais brandos. Cristo não se inclina à repreensão: dá generosamente e sem repreender, até que os pecadores, por sua obstinação, o obriguem a fazê-lo.
A sabedoria primeiro convida; quando seus convites são desprezados, então repreende (Provérbios 1:20, 24). Quem começa por repreensões não segue o método de Cristo. Observe agora:
- O pecado de que são acusados. Não era um pecado contra a lei moral, pois nesse caso poderiam recorrer ao evangelho para encontrar alívio. Era um pecado contra o evangelho, a lei que oferece o remédio: a falta de arrependimento. Foi por isso que Cristo os repreendeu, ou censurou, como pela coisa mais vergonhosa e ingrata possível: não se arrependeram.
Repare: a recusa deliberada de arrepender-se é o grande pecado que condena multidões que desfrutam do evangelho, e será, mais que qualquer outro, o motivo pelo qual serão repreendidas por toda a eternidade. A grande mensagem pregada por João Batista, por Cristo e pelos apóstolos era o arrependimento.
O grande objetivo de tocar flauta e dirigir lamentos era levar as pessoas a mudar de mente e de conduta, abandonar os pecados e voltar-se para Deus. Elas, porém, não se deixaram levar a isso. Cristo não diz que não creram, pois muitas tinham alguma espécie de fé em que ele era um mestre vindo de Deus; diz que não se arrependeram. Sua fé não transformou o coração nem reformou a vida.
Cristo os censurava pelos outros pecados para conduzi-los ao arrependimento. Como não se arrependeram, repreendeu-os por essa recusa em ser curados. Repreendeu-os para que eles próprios se repreendessem e finalmente reconhecessem a loucura dessa recusa: só ela torna desesperadora a triste situação e incurável a ferida.
- O que agravava o pecado: eram as cidades onde se realizara a maior parte de seus milagres, pois Cristo havia residido principalmente naquela região por algum tempo. Repare: alguns lugares desfrutam dos meios da graça em maior abundância, poder e pureza que outros.
Deus age livremente em todas as suas disposições, tanto como Deus da natureza quanto como Deus da graça, seja ela comum ou distintiva. Os milagres de Cristo deveriam tê-los levado não só a receber sua doutrina, mas também a obedecer à sua lei. A cura das doenças do corpo deveria ter conduzido à cura de suas almas, mas não produziu esse efeito.
Repare: quanto mais fortes os motivos que temos para arrepender-nos, mais grave é a recusa e mais severa será a prestação de contas. Cristo mantém o registro das obras poderosas feitas entre nós e também das obras da graça feitas em nosso favor, que igualmente deveriam levar-nos ao arrependimento (Romanos 2:4).
(1.) Corazim e Betsaida são citadas aqui (vv. 21-22); cada uma recebe seu ai: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!” Cristo veio ao mundo para abençoar-nos; se sua bênção for desprezada, porém, ele tem ais reservados, e seus ais são os mais terríveis de todos.
As duas cidades ficavam junto ao mar da Galileia, a primeira na margem oriental e a segunda na ocidental. Eram lugares ricos e populosos. Filipe, o tetrarca, havia pouco elevara Betsaida à condição de cidade; dela Cristo escolhera pelo menos três apóstolos. Tamanho favor haviam recebido esses lugares!
Como não reconheceram o tempo de sua visitação, caíram sob esses ais. A condenação lhes aderiu tão firmemente que pouco depois declinaram e se reduziram a povoados insignificantes e obscuros. O pecado arruína cidades de maneira tão fatal, e a palavra de Cristo se cumpre de modo tão certo!
Corazim e Betsaida são comparadas aqui a Tiro e Sidom, duas cidades marítimas muito mencionadas no Antigo Testamento. Haviam sido arruinadas, mas começavam a florescer de novo. Faziam fronteira com a Galileia, mas tinham péssima reputação entre os judeus por causa da idolatria e de outras maldades.
Cristo às vezes foi à região de Tiro e Sidom (Mateus 15:21), mas nunca a essas cidades. Os judeus teriam ficado muito indignados se ele o fizesse. Por isso, para convencê-los e humilhá-los, Cristo mostra:
[1.] Que Tiro e Sidom não teriam sido tão ruins quanto Corazim e Betsaida. Se tivessem ouvido a mesma palavra e visto os mesmos milagres, teriam se arrependido muito antes, como Nínive, com pano de saco e cinzas.
Cristo, que conhece todos os corações, sabia que, se tivesse ido morar e pregar ali, teria feito mais bem do que no lugar onde estava. Ainda assim, permaneceu por algum tempo onde estava, para animar seus ministros a fazer o mesmo, ainda que não vejam o resultado que desejam.
Repare: entre os filhos da desobediência, uns são mais fáceis de alcançar que outros. A recusa de arrepender-se por parte daqueles que desfrutam abundantemente dos meios da graça se agrava não só porque muitos que têm acesso aos mesmos meios são alcançados, mas também porque muitos outros teriam sido alcançados se tivessem recebido as mesmas oportunidades. Veja Ezequiel 3:6-7.
Nosso arrependimento é lento e tardio; o deles teria vindo rapidamente, havia muito tempo. O nosso tem sido superficial e fraco; o deles teria sido profundo e sério, com pano de saco e cinzas.
Ainda assim, devemos observar com reverência diante da soberania divina que os habitantes de Tiro e Sidom perecerão justamente em seus pecados, embora, se tivessem recebido os meios da graça, teriam se arrependido. Deus não é devedor de ninguém.
[2.] Portanto, Tiro e Sidom não serão tão infelizes quanto Corazim e Betsaida: haverá mais tolerância para aquelas cidades no dia do juízo (v. 22).
Repare, primeiro: no dia do juízo, o destino eterno dos seres humanos será decidido por uma sentença infalível e imutável, com felicidade ou miséria e os diferentes graus de cada uma. Por isso se chama juízo eterno (Hebreus 6:2), pois decide o estado eterno.
Segundo: nesse juízo, todos os meios da graça desfrutados durante o período de prova certamente entrarão na prestação de contas. A pergunta não será apenas quão maus fomos, mas quão melhores poderíamos ter sido se não fosse por nossa própria culpa (Isaías 5:3-4).
Terceiro: embora a condenação de todos os que perecem seja intolerável, a daqueles a quem foram revelados de modo mais pleno e claro o poder e a graça de Cristo e que, ainda assim, não se arrependeram será a mais intolerável de todas.
A luz e a mensagem do evangelho despertam as faculdades e ampliam a capacidade de todos os que as veem e ouvem, seja para receber as riquezas da graça divina, seja, se essa graça for desprezada, para receber um derramamento mais abundante da cólera divina.
Se a autocensura é o tormento do inferno, será de fato um inferno para quem teve uma oportunidade tão favorável de chegar ao céu. Filho, lembra-te disso.
(2.) Cafarnaum recebe aqui uma condenação enfática (v. 23): “E tu, Cafarnaum, ergue a mão e ouve a tua sentença”. Entre todas as cidades de Israel, Cafarnaum foi honrada com a residência mais frequente de Cristo. Era como a antiga Siló, o lugar que ele escolhera para ali pôr seu nome, e teve destino semelhante ao dela (Jeremias 7:12, 14).
Os milagres de Cristo eram ali o pão de cada dia; por isso, como o antigo maná, foram desprezados e chamados de pão leve. Cristo lhes havia lido muitas lições doces e consoladoras da graça, com pouco resultado; por isso, agora lhes lê uma terrível lição de cólera. Quem não quiser ouvir as primeiras será levado a sentir a última.
Temos aqui a sentença de Cafarnaum:
[1.] Apresentada de forma absoluta: “Tu, que foste exaltada até o céu, descerás até o inferno”. Repare, primeiro: os que desfrutam do evangelho em seu poder e pureza são assim exaltados até o céu.
Recebem nisso grande honra no presente e grande vantagem para a eternidade; são elevados em direção ao céu. Se, apesar disso, ainda se apegam à terra, só podem culpar a si mesmos por não terem sido elevados ao céu.
Segundo: as vantagens e honras do evangelho, quando mal utilizadas, fazem os pecadores afundar ainda mais no inferno. Longe de nos salvar, os privilégios externos, se o coração e a vida não corresponderem a eles, apenas agravarão a prestação de contas. Quanto mais alto o precipício, mais fatal a queda. Não sejamos, portanto, orgulhosos, mas temamos; nem preguiçosos, mas diligentes. Veja Jó 20:6-7.
[2.] Apresentada em comparação com a sentença de Sodoma, lugar talvez mais conhecido do que qualquer outro tanto pelo pecado quanto pela ruína. Ainda assim, Cristo nos diz:
Primeiro: os meios de que Cafarnaum desfrutou teriam salvado Sodoma. Se aqueles milagres tivessem sido realizados entre os sodomitas, por piores que fossem, eles teriam se arrependido. Sua cidade teria permanecido até hoje como monumento da misericórdia que poupa, em vez de ser, como agora, monumento da justiça que destrói (Judas 1:7).
Repare: mediante o arrependimento verdadeiro por meio de Cristo, até o maior pecado será perdoado e a maior ruína evitada, inclusive a de Sodoma. Anjos foram enviados a Sodoma, mas ela não permaneceu. Se Cristo tivesse sido enviado, teria permanecido.
Como é bom para nós, então, que o mundo vindouro esteja sujeito a Cristo e não aos anjos! (Hebreus 2:5). Ló não teria parecido zombar se tivesse realizado milagres.
Segundo: por isso a ruína de Sodoma no grande dia será menor que a de Cafarnaum. Sodoma terá muito pelo que responder, mas não pelo pecado de desprezar a Cristo, como Cafarnaum. Se o evangelho se torna cheiro de morte, um cheiro que mata, torna-se duplamente assim: de morte para morte, morte tão grave (2 Coríntios 2:16).
Cristo dissera o mesmo de todos os lugares que não recebem seus ministros nem acolhem seu evangelho (Mateus 10:15): haverá mais tolerância para a terra de Sodoma do que para aquela cidade.
Nós, que hoje temos a palavra escrita nas mãos, ouvimos o evangelho pregado, recebemos a administração de suas ordenanças e vivemos sob a dispensação do Espírito, temos vantagens não inferiores às de Corazim, Betsaida e Cafarnaum. A prestação de contas no grande dia corresponderá a essas vantagens.
Por isso se disse, com razão, que os que professam a fé nesta época, quer cheguem ao céu quer ao inferno, serão os maiores devedores em qualquer dos dois lugares. Se chegarem ao céu, terão a maior dívida com a misericórdia divina pelos abundantes meios que os conduziram até lá. Se forem ao inferno, terão a maior dívida com a justiça divina pelos abundantes meios que poderiam tê-los afastado dali.
Versículos 25 a 30
O Convite de Cristo às Almas Sobrecarregadas.
Nestes versículos, Cristo olha para o céu e dá graças a seu Pai pela soberania e segurança da aliança da redenção. Também olha ao redor, para a terra, e oferece a todos os filhos dos homens aos quais esta mensagem chegar os privilégios e benefícios da aliança da graça.
I. Cristo aqui dá graças a Deus pelo favor concedido às criancinhas a quem os mistérios do evangelho foram revelados (vv. 25-26). “Jesus respondeu e disse.” É chamado de resposta, embora nenhuma palavra anterior tenha sido registrada além das suas, porque responde de modo muito consolador às considerações tristes que precedem esse trecho e lhes serve de contrapeso.
O pecado e a ruína daquelas cidades desventuradas sem dúvida entristeciam o Senhor Jesus. Ele não podia deixar de chorar por elas, como chorou por Jerusalém (Lucas 19:41). Por isso, consola-se com este pensamento e, para torná-lo ainda mais consolador, transforma-o em ação de graças: apesar de tudo, há um remanescente, ainda que formado por criancinhas, a quem as coisas do evangelho são reveladas.
Embora Israel não seja reunido, ele ainda será glorioso. Repare: podemos encontrar grande ânimo ao olhar para Deus quando, ao nosso redor, só vemos coisas desanimadoras. É triste ver como a maioria das pessoas despreza a própria felicidade, mas é consolador pensar que Deus, sábio e fiel, apesar disso, garantirá eficazmente os interesses de sua própria glória.
“Jesus respondeu e disse: Graças te dou.” Repare: a ação de graças é uma resposta apropriada aos pensamentos sombrios e inquietantes, e pode ser um meio eficaz de silenciá-los.
Cânticos de louvor são remédios poderosos para almas abatidas e ajudarão a curar a melancolia. Quando não temos outra resposta pronta para as sugestões da tristeza e do medo, podemos recorrer a esta: “Graças te dou, ó Pai”. Bendigamos a Deus porque nossa situação não é pior.
Nesta ação de graças de Cristo, podemos observar:
- Os títulos que ele dá a Deus: “Ó Pai, Senhor do céu e da terra.” Repare: (1.) em todas as nossas aproximações de Deus, tanto no louvor como na oração, é bom vê-lo como Pai e apegar-nos a essa relação, não só ao pedir as misericórdias de que precisamos, mas também ao agradecer pelas que recebemos.
As misericórdias são duas vezes mais doces e mais capazes de ampliar o coração em louvor quando as recebemos como sinais do amor de um Pai e dádivas de sua mão: “Dando graças ao Pai” (Colossenses 1:12). Convém que os filhos sejam gratos e digam “Obrigado, Pai” com a mesma prontidão com que dizem “Por favor, Pai”.
(2.) Quando nos aproximamos de Deus como Pai, devemos lembrar ao mesmo tempo que ele é Senhor do céu e da terra. Isso nos obriga a chegar com reverência, pois é o Senhor soberano de tudo, e também com confiança, pois pode fazer por nós tudo de que precisamos ou que podemos desejar, defendendo-nos de todo mal e suprindo-nos com todo bem.
Cristo, em Melquisedeque, havia muito tempo bendissera a Deus como Dono, ou Senhor, do céu e da terra. Em todas as nossas ações de graças pelas misericórdias que correm até nós, devemos atribuir-lhe a glória da plena suficiência que há na fonte delas.
- O motivo da ação de graças: “Porque escondeste estas coisas dos sábios e prudentes e, contudo, as revelaste às criancinhas.” Estas coisas: ele não especifica quais, mas se refere às grandes coisas do evangelho, às coisas que dizem respeito à nossa paz (Lucas 19:42).
Falava delas com tamanha ênfase, “estas coisas”, porque ocupavam seu coração e devem ocupar o nosso. Todas as demais coisas são como nada em comparação com elas.
Repare: (1.) As grandes verdades do evangelho eterno estiveram e continuam ocultas a muitos sábios e prudentes, pessoas destacadas no conhecimento e na habilidade para os assuntos do mundo. Alguns dos maiores estudiosos e estadistas foram os que menos conheceram os mistérios do evangelho. O mundo, com sua sabedoria, não conheceu a Deus (1 Coríntios 1:21).
Ou melhor: há oposição ao evangelho por meio de um “conhecimento falsamente assim chamado” (1 Timóteo 6:20). Os mais experientes nas coisas perceptíveis aos sentidos e nos assuntos seculares costumam ser os menos experientes nas questões espirituais.
Pode-se mergulhar fundo nos mistérios da natureza e do governo e, ainda assim, ignorar e entender mal os mistérios do reino dos céus por não ter experimentado seu poder.
(2.) Enquanto os sábios e prudentes deste mundo permanecem no escuro quanto aos mistérios do evangelho, até as criancinhas em Cristo recebem o conhecimento santificador e salvador dessas verdades: “Tu as revelaste às criancinhas.”
Assim eram os discípulos de Cristo: homens de origem e educação humildes, não eruditos, nem peritos nas artes, nem políticos, homens sem instrução e sem conhecimento formal (Atos 4:13).
Assim, os segredos da sabedoria, que são duplos em relação ao que existe (Jó 11:6), são dados a conhecer a criancinhas e bebês, para que da boca deles seja estabelecida a força (Salmos 8:2) e, desse modo, aperfeiçoado o louvor de Deus. Não foram escolhidos os eruditos do mundo para pregar o evangelho, mas as coisas consideradas insensatas pelo mundo (1 Coríntios 2:6, 8, 10).
(3.) Essa diferença entre os prudentes e as criancinhas é obra do próprio Deus. [1.] É ele quem escondeu essas coisas dos sábios e prudentes. Deu-lhes dons, conhecimento e muita compreensão humana, mais que a outros; eles, porém, se orgulharam dessas capacidades, contentaram-se com elas e não buscaram mais nada.
Por isso, Deus lhes nega com justiça o Espírito de sabedoria e revelação, e, embora ouçam as novas do evangelho, elas lhes parecem algo estranho.
Deus não é o Autor da ignorância e do erro deles; deixa-os entregues a si mesmos, e seu pecado se torna seu castigo. Nisso o Senhor é justo. Veja João 12:39, 40; Romanos 11:7, 8; Atos 28:26, 27.
Se tivessem honrado a Deus com a sabedoria e a prudência recebidas, ele lhes teria dado o conhecimento dessas coisas superiores. Mas, porque empregaram seus dons a serviço das próprias paixões, ele lhes ocultou essa compreensão.
[2.] É ele quem revelou essas coisas às criancinhas. As coisas reveladas pertencem a nossos filhos (Deuteronômio 29:29). Ele lhes dá entendimento para receber essas verdades e as impressões que causam. Assim resiste aos soberbos e concede graça aos humildes (Tiago 4:6).
(4.) Essa maneira de agir deve ser atribuída à soberania divina. O próprio Cristo a atribuiu a ela: “Assim é, ó Pai, porque assim te pareceu bem.” Aqui, Cristo se submete à vontade do Pai nessa questão: “Assim é”.
Que Deus escolha os meios que quiser para glorificar-se e faça de nós os instrumentos que desejar para levar adiante sua própria obra. Sua graça lhe pertence; ele pode concedê-la ou retê-la como lhe aprouver.
Não podemos dizer por que Pedro, um pescador, seria feito apóstolo, e Nicodemos, fariseu e governante dos judeus, não, embora também cresse em Cristo. Foi assim, porém, que pareceu bem a Deus. Cristo disse isso na presença dos discípulos para lhes mostrar que não foram honrados e distinguidos por mérito próprio, mas exclusivamente pelo beneplácito de Deus. Foi ele quem os fez diferentes.
(5.) Devemos reconhecer essa forma de distribuir a graça divina, como nosso Senhor Jesus a reconheceu, com plena gratidão. Temos de agradecer a Deus: [1.] Porque essas coisas são reveladas. O mistério oculto durante eras e gerações foi manifestado; não a uns poucos, mas para ser anunciado ao mundo inteiro.
[2.] Porque são reveladas às criancinhas. Os mansos e humildes são adornados com essa salvação, e a honra é concedida àqueles sobre quem o mundo derrama desprezo. [3.] A misericórdia para com eles é engrandecida pelo fato de essas coisas estarem ocultas aos sábios e prudentes: os favores que distinguem são os que mais suscitam gratidão.
Assim como Jó adorou o nome do Senhor ao perder e ao receber, podemos adorá-lo tanto por esconder essas coisas dos sábios e prudentes quanto por revelá-las às criancinhas.
Não porque a desgraça daqueles seja motivo de louvor, mas porque esse é um meio de humilhar o eu, abater os pensamentos orgulhosos, calar toda a carne e fazer brilhar mais intensamente o poder e a sabedoria divinos. Veja 1 Coríntios 1:27, 31.
II. Cristo aqui oferece graciosamente a todos os benefícios do evangelho. São essas as coisas reveladas às criancinhas (v. 25, etc.). Observe aqui:
- O prefácio solene que introduz esse chamado ou convite, tanto para atrair nossa atenção quanto para nos animar a aceitá-lo. Para termos forte consolação ao buscar refúgio na esperança posta diante de nós, Cristo apresenta sua autoridade e suas credenciais. Veremos que tem poder para fazer essa oferta. Ele coloca duas coisas diante de nós (v. 27):
(1.) Sua comissão recebida do Pai: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai.” Como Deus, Cristo é igual ao Pai em poder e glória; como Mediador, porém, recebe dele poder e glória, e todo o julgamento lhe foi confiado.
Está autorizado a estabelecer uma nova aliança entre Deus e os homens e a oferecer paz e felicidade ao mundo apóstata nas condições que julgar adequadas. Foi santificado e selado para ser o único Plenipotenciário encarregado de planejar e firmar esse grande acordo.
Para isso, possui todo o poder no céu e na terra (Mateus 28:18), poder sobre toda a carne (João 17:2) e autoridade para executar o julgamento (João 5:22, 27). Isso nos anima a ir a Cristo: ele foi encarregado de nos receber e nos dar aquilo que buscamos, e todas as coisas lhe foram entregues para esse fim por aquele que é Senhor de tudo. Todo poder e todo tesouro estão em suas mãos.
Observe: o Pai entregou tudo o que tem nas mãos do Senhor Jesus. Basta que entreguemos tudo o que temos nas mãos dele para que a questão fique resolvida.
Deus o constituiu grande Árbitro, bendito Mediador, para pôr a mão sobre ambas as partes. Cabe-nos aceitar essa decisão, submeter-nos à arbitragem do Senhor Jesus para resolver essa triste controvérsia e assumir o compromisso de acatar sua sentença.
(2.) Sua intimidade com o Pai: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; nem alguém conhece o Pai, senão o Filho.” Isso nos dá uma satisfação adicional e abundante.
Os embaixadores costumam ter não só as comissões que apresentam, mas também as instruções que guardam consigo para usar conforme a necessidade nas negociações. Nosso Senhor Jesus tinha ambas: não só autoridade, mas capacidade para cumprir a missão.
Na condução da grande obra de nossa redenção, o Pai e o Filho são as partes principalmente envolvidas; entre eles está o conselho da paz (Zacarias 6:13). Por isso, é motivo de grande ânimo ter a certeza de que se compreendem perfeitamente nessa questão. O Pai conhecia o Filho, e o Filho conhecia o Pai, ambos de modo perfeito. Podemos chamar a isso de consciência mútua entre o Pai e o Filho.
Assim, não poderia haver engano ao estabelecer esse acordo, como tantas vezes acontece entre os homens. A incompreensão mútua desfaz contratos e frustra as medidas adotadas. O Filho repousava no seio do Pai desde a eternidade; era à secretioribus, membro de seu conselho reservado (João 1:18). Estava junto dele como alguém educado em sua companhia (Provérbios 8:30).
Por isso, ninguém conhece o Pai senão o Filho e, acrescenta Cristo, “aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Repare: [1.] A felicidade dos homens está em conhecer a Deus; isso é vida eterna e a perfeição dos seres racionais.
[2.] Os que desejam conhecer a Deus devem recorrer a Jesus Cristo. A luz do conhecimento da glória de Deus brilha no rosto de Cristo (2 Coríntios 4:6). Devemos a Cristo toda a revelação que temos da vontade e do amor de Deus Pai desde o pecado de Adão. Não há relacionamento consolador entre o Deus santo e o homem pecador a não ser em um Mediador e por meio dele (João 14:6).
- Aqui está a oferta que nos é feita, junto com o convite para aceitá-la. Depois de um prefácio tão solene, podemos esperar algo grandioso. É uma palavra fiel, inteiramente digna de aceitação, palavras pelas quais podemos ser salvos. Somos convidados a procurar Cristo como nosso Sacerdote, Príncipe e Profeta para sermos salvos e, para isso, governados e ensinados por ele.
(1.) Devemos ir a Jesus Cristo como nosso Descanso e repousar nele (v. 28): “Vinde a mim, todos os que trabalhais.” Observe: [1.] Quem são os convidados: todos os que trabalham e estão sobrecarregados. Essa é uma palavra oportuna para o cansado (Isaías 50:4).
Aqueles que se queixam do peso da lei cerimonial, jugo intolerável que as tradições dos anciãos tornaram ainda mais pesado (Lucas 11:46), podem vir a Cristo e encontrar alívio. Ele veio libertar sua igreja desse jugo, cancelar a imposição daquelas ordenanças carnais e introduzir uma forma de culto mais pura e espiritual.
O convite, porém, deve ser entendido principalmente como referência ao peso do pecado, tanto à culpa quanto ao poder que exerce. Repare: são convidados a descansar em Cristo todos, e somente aqueles, que percebem o pecado como um fardo e gemem sob seu peso.
Eles não só reconhecem a maldade do pecado, inclusive do seu próprio pecado, mas também têm a alma contrita por causa dele. Estão de fato fartos dos próprios pecados, cansados de servir ao mundo e à carne. Veem que, por causa do pecado, sua condição é triste e perigosa, e sentem dor e temor a esse respeito.
Assim aconteceu com Efraim (Jeremias 31:18-20), o filho pródigo (Lucas 15:17), o publicano (Lucas 18:13), os ouvintes de Pedro (Atos 2:37), Paulo (Atos 9:4, 6, 9) e o carcereiro (Atos 16:29, 30). Essa é uma preparação necessária para o perdão e a paz. O Consolador deve primeiro convencer (João 16:8). Eu dilacerei, e depois curarei.
[2.] O convite em si: “Vinde a mim.” A gloriosa manifestação da grandeza de Cristo que vimos no v. 27, como Senhor de tudo, poderia nos afastar por medo. Veja, porém, como ele estende o cetro de ouro para que possamos tocar sua ponta e viver.
Repare: é dever e interesse dos pecadores cansados e sobrecarregados ir a Jesus Cristo. Precisamos renunciar a tudo o que se opõe a ele ou compete com ele, aceitá-lo como nosso Médico e Advogado e entregar-nos à sua orientação e ao seu governo. Devemos desejar livremente ser salvos por ele, conforme o caminho e as condições que ele próprio estabelece.
“Vem e lança sobre ele o fardo sob o qual estás sobrecarregado.” Esse é o chamado do evangelho: “O Espírito diz: Vem; e a noiva diz: Vem; venha quem tem sede; venha quem quiser.”
[3.] A bênção prometida aos que vêm: “Eu vos darei descanso.” Cristo é nosso Noé, cujo nome significa descanso, pois este nos dará descanso (Gênesis 5:29; 8:9). De fato, “o descanso é bom” (Gênesis 49:15), sobretudo para os que trabalham e estão sobrecarregados (Eclesiastes 5:12).
Repare: Jesus Cristo certamente dará descanso às almas cansadas que chegam a ele com fé viva em busca desse descanso. É descanso do terror do pecado, numa paz de consciência bem fundamentada; descanso do poder do pecado, na boa ordem da alma e no devido governo que exerce sobre si; descanso em Deus e contentamento da alma em seu amor (Salmos 116:6, 7).
É o descanso que permanece para o povo de Deus (Hebreus 4:9), iniciado na graça e aperfeiçoado na glória.
(2.) Devemos ir a Jesus Cristo como nosso Governante e nos submeter a ele (v. 29): “Tomai sobre vós o meu jugo.” Isso deve acompanhar o que foi dito antes, pois Cristo foi exaltado tanto como Príncipe quanto como Salvador, Sacerdote em seu trono. O descanso que promete é libertação do trabalho penoso do pecado, não do serviço a Deus, e nos vincula ao dever que lhe devemos.
Repare: Cristo tem um jugo para nosso pescoço, assim como uma coroa para nossa cabeça, e espera que aceitemos esse jugo e trabalhemos sob ele. Chamar os cansados e sobrecarregados a tomar um jugo sobre si parece acrescentar aflição aos aflitos; mas a pertinência do convite está na palavra meu: “Vocês estão sob um jugo que os cansa; livrem-se dele e experimentem o meu, que lhes trará alívio.”
Diz-se que os servos estão sob o jugo (1 Timóteo 6:1), assim como os súditos (1 Reis 12:10). Tomar o jugo de Cristo é assumir diante dele a condição de servos e súditos e, então, agir conforme essa condição, obedecendo conscienciosamente a todos os seus mandamentos e submetendo-nos alegremente a tudo o que ele dispuser. É obedecer ao evangelho de Cristo e entregar-nos ao Senhor.
É o jugo de Cristo: o que ele determinou, aquele sob o qual ele mesmo trabalhou antes de nós, pois aprendeu a obediência. Pelo seu Espírito, ele também trabalha conosco sob esse jugo, pois “ajuda nossas fraquezas” (Romanos 8:26).
Um jugo traz alguma dificuldade, mas, se o animal precisa puxar a carga, o jugo o ajuda. Os mandamentos de Cristo são todos em nosso benefício; devemos aceitar esse jugo para trabalhar sob ele.
Somos postos sob o jugo para trabalhar e, por isso, devemos ser diligentes. Somos postos sob o jugo para nos submeter e, por isso, devemos ser humildes e pacientes. Somos postos sob o mesmo jugo que nossos conservos e, por isso, devemos preservar a comunhão dos santos. As palavras dos sábios são como aguilhões para os que trabalham sob esse jugo.
Essa é a parte mais difícil de nossa lição e, por isso, é suavizada pela ressalva (v. 30): “Meu jugo é suave e meu fardo é leve.” Não é preciso temê-lo.
[1.] O jugo dos mandamentos de Cristo é suave. É chrestos: não só suave, mas bondoso, como também significa a palavra. É doce e agradável; nele não há nada que fira o pescoço disposto a aceitá-lo, nada que nos cause prejuízo. Pelo contrário, há muito que nos renova. É um jugo revestido de amor.
Essa é a natureza de todos os mandamentos de Cristo: tão razoáveis em si, tão benéficos para nós e todos resumidos numa palavra doce, amor. Tão poderosas são as ajudas que ele nos dá, tão apropriados os incentivos e tão fortes os consolos encontrados no caminho do dever que podemos dizer, na verdade, que é um jugo agradável.
É suave para a nova natureza, muito suave para aquele que tem entendimento (Provérbios 14:6). Pode ser um pouco difícil no começo, mas depois se torna suave; o amor de Deus e a esperança do céu o tornarão suave.
[2.] O fardo da cruz de Cristo é leve, muito leve. Há aflições que vêm de Cristo e nos atingem como seres humanos; há aflições sofridas por Cristo e que nos atingem como cristãos. Estas últimas são o sentido principal. O fardo em si não é motivo de alegria, mas de tristeza; ainda assim, por ser de Cristo, é leve.
Paulo conhecia esse fardo tão bem quanto qualquer pessoa e o chama de “leve aflição” (2 Coríntios 4:17). A presença de Deus (Isaías 43:2), a compaixão de Cristo (Isaías 63:9; Daniel 3:25) e, sobretudo, a ajuda e o consolo do Espírito (2 Coríntios 1:5) tornam leve e fácil sofrer por Cristo.
À medida que as aflições aumentam e se prolongam, também os consolos aumentam e se prolongam. Que isso, portanto, nos reconcilie com as dificuldades e nos ajude a superar os desânimos que podemos encontrar ao trabalhar ou sofrer. Embora possamos perder coisas por Cristo, não sairemos perdendo por causa dele.
(3.) Devemos ir a Jesus Cristo como nosso Mestre e dedicar-nos a aprender dele (v. 29). Cristo estabeleceu uma grande escola e nos convidou a ser seus alunos. Devemos matricular-nos nela, juntar-nos aos seus alunos e acompanhar diariamente as instruções que ele dá por sua palavra e por seu Espírito.
Devemos ocupar-nos muito com o que ele disse, conservando suas palavras prontas para usar em todas as ocasiões. Devemos também conformar-nos ao que ele fez e seguir seus passos (1 Pedro 2:21). Alguns consideram as palavras seguintes, “pois sou manso e humilde de coração”, como a lição específica que devemos aprender pelo exemplo de Cristo.
Precisamos aprender com ele a ser mansos e humildes e mortificar o orgulho e as paixões que nos tornam tão diferentes dele. Devemos aprender de Cristo de tal modo que aprendamos o próprio Cristo (Efésios 4:20), pois ele é tanto Mestre quanto Lição, Guia e Caminho, Tudo em Todos. São dadas duas razões para aprendermos dele:
[1.] “Sou manso e humilde de coração”; portanto, sou apto para ensinar a vocês.
Em primeiro lugar, ele é manso e pode compadecer-se dos ignorantes com quem outros perderiam a paciência. Muitos professores capacitados são impacientes e precipitados, o que desanima bastante os alunos de compreensão lenta. Cristo, porém, sabe suportá-los e abrir-lhes o entendimento.
Sua conduta para com os doze discípulos mostra isso. Tratou-os com brandura e gentileza e procurou ver neles o melhor; embora fossem desatentos e esquecidos, não foi severo ao apontar suas falhas.
Em segundo lugar, ele é humilde de coração. Dispõe-se a ensinar alunos pobres e iniciantes. Escolheu discípulos não na corte nem nas escolas, mas junto ao mar. Ensina os primeiros princípios, alimento que é leite para as criancinhas, e adapta-se às capacidades mais limitadas: ensinou Efraim a andar (Oseias 11:3).
Quem ensina como ele? É um incentivo para nos matricularmos na escola de tal Mestre. Essa humildade e mansidão o qualificam para ensinar; também serão as melhores qualidades dos que aprenderão com ele, pois “guiará os mansos no juízo” (Salmos 25:9).
[2.] “Encontrareis descanso para vossas almas.” Essa promessa vem de Jeremias 6:16, pois Cristo gostava de se expressar na linguagem dos profetas para mostrar a harmonia entre os dois Testamentos.
Repare: em primeiro lugar, o descanso da alma é o mais desejável dos descansos: a alma pode morar em tranquilidade. Em segundo lugar, o único caminho, e um caminho seguro, para encontrar descanso para nossa alma é sentar-nos aos pés de Cristo e ouvir sua palavra. O caminho do dever é o caminho do descanso.
O entendimento encontra descanso no conhecimento de Deus e de Jesus Cristo. Ali fica abundantemente satisfeito, pois encontra no evangelho a sabedoria que toda a criação procurou em vão (Jó 28:12). As verdades que Cristo ensina são tais que podemos confiar-lhes nossa alma.
Os afetos encontram descanso no amor de Deus e de Jesus Cristo e acham neles aquilo que lhes traz satisfação abundante: tranquilidade e segurança para sempre.
Essas satisfações serão aperfeiçoadas e perpetuadas no céu, onde veremos e desfrutaremos de Deus sem mediação. Nós o veremos como ele é e desfrutaremos dele como nosso Deus. Esse descanso está disponível em Cristo para todos os que aprendem dele.
Pois bem, essa é a essência do chamado e da oferta do evangelho. Em poucas palavras, vemos o que o Senhor Jesus exige de nós, e isso está de acordo com o que Deus disse dele mais de uma vez: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo; ouvi-o.”