Matthew Henry

Mateus 10

Argumento

Este capítulo contém um sermão de ordenação que nosso Senhor Jesus pregou ao elevar os doze discípulos à posição e à dignidade de apóstolos.

No fim do capítulo anterior, havia incentivado os discípulos e outras pessoas a orar para que Deus enviasse trabalhadores. Aqui temos uma resposta imediata àquela oração: enquanto ainda falam, ele os ouve e atende.

Aquilo que pedimos conforme a orientação de Cristo nos será concedido. Agora temos aqui:

I. A comissão geral que receberam, v. 1.

II. Os nomes daqueles a quem a comissão foi dada, vv. 2-4.

III. As instruções que receberam, muito completas e específicas:

  1. Sobre os serviços a prestar: a pregação, a realização de milagres, a quem deviam dirigir-se, como deviam comportar-se e em que ordem proceder, vv. 5-15.

  2. Sobre os sofrimentos que enfrentariam: o que sofreriam e de quem, os conselhos sobre como agir quando perseguidos e os incentivos para suportar alegremente as aflições, vv. 16-42.

Embora essas instruções se destinassem primeiramente aos apóstolos, são úteis a todos os ministros de Cristo. Por sua palavra, Cristo está com eles e estará sempre, até o fim do mundo.

Versículos 1 a 4

O Envio dos Apóstolos.

Somos informados aqui:

I. Quem eram aqueles que Cristo ordenou como apóstolos ou embaixadores: eram seus discípulos, v. 1. Havia algum tempo, ele os chamara para ser discípulos, seguidores próximos e companheiros constantes. Então lhes dissera que os faria pescadores de homens, promessa que agora cumpria.

Repare: Cristo costuma conceder honras e graças gradualmente. A luz de ambas, como a luz da manhã, brilha cada vez mais. Durante todo esse tempo, Cristo havia mantido os doze:

  1. Em período de prova. Embora soubesse o que há no ser humano e conhecesse desde o princípio o que havia neles (João 6:70), escolheu esse caminho para dar exemplo à igreja.

Repare: como o ministério é uma grande responsabilidade, convém que as pessoas sejam provadas por algum tempo antes de recebê-lo. “Sejam primeiro provados”, 1 Timóteo 3:10.

Portanto, não se deve impor as mãos precipitadamente sobre ninguém. Primeiro, que a pessoa seja observada como candidata em período de prova, um proposant, termo usado pelas igrejas francesas, pois os pecados de alguns se revelam antes, e os de outros, depois, 1 Timóteo 5:22, 24.

  1. Em período de preparação. Durante esse tempo, Cristo os capacitava para a grande tarefa. Repare: aqueles a quem ele destina e chama para algum trabalho são antes preparados e capacitados, em certa medida, para realizá-lo. Preparou-os:

(1.) Ao tomá-los para estar consigo. Repare: a melhor preparação para o ministério é conhecer Jesus Cristo e ter comunhão com ele. Quem deseja servi-lo deve primeiro estar com ele (João 12:26). Cristo foi revelado não apenas a Paulo, mas também nele, antes que saísse a pregá-lo aos gentios, Gálatas 1:16.

Essa comunhão com Cristo, requisito para o ministério, precisa ser mantida por atos vivos de fé e pelo exercício frequente da oração e da meditação.

(2.) Ao ensiná-los. Estavam com ele como alunos, e ele lhes ensinava em particular, além do benefício que recebiam de suas pregações públicas.

Abria-lhes as Escrituras e lhes abria o entendimento para compreendê-las. A eles fora dado conhecer os mistérios do reino dos céus, e para eles esses mistérios se tornaram claros.

Repare: quem pretende ensinar precisa primeiro aprender. Deve receber para poder dar e ser capaz de ensinar a outros, 2 Timóteo 2:2. As verdades do evangelho precisam ser confiadas às pessoas antes que elas sejam encarregadas de ministrá-lo.

Dar autoridade para ensinar a quem não tem capacidade é zombar de Deus e da igreja. É enviar uma mensagem pelas mãos de um tolo, Provérbios 26:6. Cristo ensinou os discípulos antes de enviá-los (Mateus 5:2) e, mais tarde, quando ampliou a comissão deles, deu-lhes instruções mais completas, Atos 1:3.

II. Qual foi a comissão que lhes deu:

  1. Chamou-os para junto de si, v. 1. Antes os chamara para segui-lo; agora os chama para aproximar-se, acolhe-os numa intimidade maior e não deseja que permaneçam à distância de antes. Assim serão exaltados os que se humilham.

Dizia-se que os sacerdotes sob a lei se aproximavam de Deus mais que o povo. O mesmo pode ser dito dos ministros do evangelho: são chamados a aproximar-se de Cristo. Isso é uma honra, mas também deve inspirar-lhes temor, lembrando que Cristo será santificado naqueles que se chegam a ele.

É digno de nota que, quando os discípulos precisavam ser instruídos, aproximavam-se de Cristo por iniciativa própria, Mateus 5:1. Agora, para serem ordenados, foi ele quem os chamou. Repare: convém que os discípulos de Cristo estejam mais prontos a aprender do que a ensinar.

Conscientes da própria ignorância, devemos procurar oportunidades de receber ensino. Pela mesma razão, antes de assumir a tarefa de ensinar outros, devemos esperar um chamado claro, pois ninguém deve tomar para si essa honra.

  1. Deu-lhes poder, exousian, autoridade em seu nome para ordenar às pessoas que obedeçam e, como confirmação dessa autoridade, para ordenar também aos demônios que se sujeitem. Repare: toda autoridade legítima procede de Jesus Cristo. Todo poder lhe foi dado sem limite, e os poderes subordinados são estabelecidos por ele.

Cristo repartiu um pouco de sua honra com os ministros, como Moisés repartiu um pouco da sua com Josué. Repare: é prova incontestável da plenitude do poder que Cristo exercia como Mediador o fato de poder comunicá-lo aos que empregava, capacitando-os a realizar em seu nome os mesmos milagres que ele realizava.

Deu-lhes poder sobre espíritos impuros e sobre toda espécie de enfermidade. Repare: o propósito do evangelho era vencer o Diabo e curar o mundo.

Esses pregadores foram enviados sem nenhuma vantagem exterior que os recomendasse. Não possuíam riquezas, instrução formal nem títulos de honra, e sua posição social era muito humilde. Precisavam, portanto, de algum poder extraordinário que os colocasse acima dos escribas.

(1.) Deu-lhes poder para expulsar os espíritos impuros. Repare: o poder confiado aos ministros de Cristo se dirige diretamente contra o Diabo e seu reino.

Como espírito impuro, ele atua tanto nos erros de doutrina (Apocalipse 16:13) quanto na devassidão da conduta (2 Pedro 2:10); em ambas as áreas, os ministros têm uma tarefa contra ele.

Cristo lhes deu poder para expulsá-lo do corpo das pessoas. Isso representava a destruição de seu reino espiritual e de todas as obras do Diabo, propósito para o qual o Filho de Deus se manifestou.

(2.) Deu-lhes poder para curar toda espécie de enfermidade. Autorizou-os a realizar milagres que confirmassem sua doutrina, provando que ela vinha de Deus.

Deviam também realizar milagres úteis que ilustrassem a doutrina, mostrando que ela não é apenas digna de confiança, mas de plena aceitação, pois o propósito do evangelho é curar e salvar.

Muitos milagres de Moisés trouxeram destruição; os que Maomé alegou fazer eram para ostentação. Os milagres de Cristo e aqueles que mandou os apóstolos realizar, porém, serviam todos para edificação. Demonstram que ele é não apenas o grande Mestre e Governante, mas também o grande Redentor do mundo.

Observe a ênfase na extensão do poder concedido: alcançava toda espécie de enfermidade e doença, sem excluir sequer as consideradas incuráveis e que envergonhavam os médicos. Repare: na graça do evangelho há bálsamo para cada ferida e remédio para cada enfermidade.

Não existe doença espiritual tão maligna ou arraigada que o poder de Cristo seja insuficiente para curá-la. Portanto, que ninguém diga não haver esperança nem que sua brecha seja tão larga quanto o mar e não possa ser curada.

III. O número e os nomes daqueles que receberam a comissão. Foram feitos apóstolos, isto é, mensageiros. Anjo e apóstolo significam, nesse sentido, a mesma coisa: alguém enviado com uma missão, um embaixador.

Todos os ministros fiéis são enviados por Cristo, mas aqueles que ele enviou primeiro e sem intermediários recebem de modo especial o nome de apóstolos, os principais ministros de Estado de seu reino.

Seu ofício ainda estava no início. Foi quando Cristo subiu ao alto que designou alguns como apóstolos, Efésios 4:11. O próprio Cristo é chamado apóstolo (Hebreus 3:1), pois foi enviado pelo Pai e, da mesma maneira, enviou os seus, João 20:21. Os profetas eram chamados mensageiros de Deus.

  1. Eram doze, número que remete às tribos de Israel e aos filhos de Jacó, patriarcas dessas tribos. A igreja do evangelho deve ser o Israel de Deus; os judeus precisavam ser os primeiros convidados a entrar nela. Os apóstolos deveriam ser pais espirituais, gerando descendência para Cristo.

Israel segundo a carne seria rejeitado por sua incredulidade. Por isso os doze foram designados pais de outro Israel. Por sua doutrina, julgariam as doze tribos de Israel, Lucas 22:30. Eram as doze estrelas que formavam a coroa da igreja (Apocalipse 12:1) e os doze fundamentos da nova Jerusalém (Apocalipse 21:12, 14).

Essas coisas eram prefiguradas pelas doze pedras preciosas no peitoral de Arão, pelos doze pães sobre a mesa dos pães da proposição e pelas doze fontes de água em Elim.

Formavam o célebre júri, ao qual Paulo foi acrescentado, tornando-o um grande júri, convocado para examinar a causa entre o Rei dos reis e toda a humanidade. Neste capítulo, recebem sua incumbência daquele a quem foi confiado todo julgamento.

  1. Seus nomes ficaram registrados aqui, para sua honra. Tinham, porém, motivo maior para alegrar-se: seus nomes estavam escritos no céu (Lucas 10:20), enquanto os nomes ilustres e poderosos dos grandes deste mundo estão enterrados no pó. Observe:

(1.) Sobre alguns desses doze apóstolos não sabemos pelas Escrituras mais do que o nome, como Bartolomeu e Simão, o cananeu. Ainda assim, foram servos fiéis de Cristo e de sua igreja. Repare: nem todos os bons ministros de Cristo alcançam a mesma fama, nem seus atos recebem o mesmo destaque.

(2.) Seus nomes aparecem em pares, pois a princípio foram enviados dois a dois. Dois são melhores do que um: podiam ajudar-se mutuamente e, juntos, servir melhor a Cristo e às almas. Aquilo de que um se esquecesse, o outro lembraria, e toda palavra seria confirmada pela boca de duas testemunhas.

Três dos pares eram formados por irmãos: Pedro e André, Tiago e João, e o outro Tiago e Lebeu. Repare: a amizade e a comunhão entre parentes devem ser mantidas e postas a serviço da religião. É excelente quando os irmãos segundo a natureza também são irmãos pela graça, de modo que os dois vínculos se fortaleçam.

(3.) Pedro aparece primeiro porque foi o primeiro a ser chamado, ou porque era o mais pronto entre eles e, em todas as ocasiões, se fazia porta-voz dos demais, e porque seria apóstolo da circuncisão.

Isso, porém, não lhe deu poder sobre os outros apóstolos. Não existe o menor sinal de que, nesse grupo sagrado, tivesse recebido ou reivindicado alguma supremacia.

(4.) Mateus, que escreveu este evangelho, aparece aqui ao lado de Tomé (v. 3). Dois detalhes diferem das listas de Marcos e Lucas, Marcos 3:18; Lucas 6:15. Nelas, Mateus vem primeiro; essa ordem sugere que foi ordenado antes de Tomé.

Em sua própria lista, porém, ele põe Tomé primeiro. Repare: convém que os discípulos de Cristo deem preferência uns aos outros em honra.

Nas outras listas, é chamado apenas Mateus. Aqui se apresenta como Mateus, o publicano, cobrador de pedágios ou impostos, chamado daquele trabalho mal-afamado para ser apóstolo.

Repare: convém que os que receberam honra em Cristo se lembrem da rocha de que foram talhados. Devem recordar muitas vezes o que eram antes do chamado de Cristo, para que sejam mantidos humildes e a graça divina seja ainda mais glorificada. Mateus, o apóstolo, fora Mateus, o publicano.

(5.) Simão é chamado cananeu, ou melhor, canita, de Caná da Galileia, sua provável cidade natal. Também é chamado Simão, o Zelote, sentido que alguns atribuem à palavra Kananites.

(6.) Judas Iscariotes aparece sempre por último, com a marca sombria junto ao nome: “que também o traiu”. Isso indica que Cristo sabia desde o princípio que ele era um miserável, tinha um demônio e viria a ser traidor.

Ainda assim, incluiu-o entre os apóstolos para que sua igreja não se surpreendesse nem desanimasse se escândalos terríveis surgissem até nas melhores comunidades.

Já houve manchas assim em nossas festas de amor: joio no meio do trigo, lobos entre as ovelhas. Chegará, porém, um dia de revelação e separação, quando os hipócritas serão desmascarados e excluídos.

Nem o apostolado nem os demais apóstolos se tornaram piores pelo fato de Judas ser um dos doze, enquanto sua maldade permaneceu oculta e não se manifestou.

Versículos 5 a 15

Instruções aos Apóstolos.

Temos aqui as instruções que Cristo deu a seus discípulos quando lhes confiou a comissão. Não importa se essa incumbência lhes foi transmitida num discurso contínuo ou se os diversos pontos lhes foram mencionados em ocasiões diferentes: nessa incumbência ele lhes deu ordens.

A bênção que Jacó deu a seus filhos é chamada de ordem que lhes deu; junto com estas ordens, Cristo ordenou uma bênção. Observe:

I. As pessoas a quem os enviou. Esses embaixadores recebem orientação quanto aos lugares aonde devem ir:

  1. Não aos gentios nem aos samaritanos. Não deviam tomar o caminho dos gentios nem qualquer estrada que saísse da terra de Israel, fossem quais fossem as tentações. O evangelho não devia ser levado aos gentios antes de os judeus o recusarem.

Quanto aos samaritanos, descendentes da população mestiça que o rei da Assíria estabelecera na região de Samaria, sua terra ficava entre a Judeia e a Galileia. Assim, os apóstolos não podiam evitar passar pelo caminho dos samaritanos, mas não deviam entrar em nenhuma de suas cidades.

Cristo evitara manifestar-se aos gentios e samaritanos; por isso, os apóstolos não deviam pregar-lhes. Se o evangelho fica oculto a algum lugar, Cristo também se oculta dele. Essa restrição valia apenas para a primeira missão: mais tarde, foram designados para ir ao mundo inteiro e ensinar todas as nações.

  1. Mas às ovelhas perdidas da casa de Israel. Cristo restringiu a elas o próprio ministério (Mateus 15:24), pois era ministro da circuncisão (Romanos 15:8). Portanto, a elas deviam limitar-se os apóstolos, que eram apenas seus acompanhantes e agentes. A primeira oferta da salvação devia ser feita aos judeus (Atos 3:26).

Repare: Cristo tinha um cuidado especial e muito terno pela casa de Israel; eram amados por causa dos patriarcas (Romanos 11:28). Olhava para eles com compaixão, como ovelhas perdidas que ele, como pastor, devia recolher dos desvios do pecado e do erro. Neles se extraviaram e, se não fossem trazidas de volta, vagariam sem fim. Veja Jeremias 2:6.

Os gentios também tinham sido como ovelhas perdidas (1 Pedro 2:25). Cristo descreve assim aqueles a quem envia os apóstolos para despertá-los à diligência em seu trabalho. Eram enviados às ovelhas perdidas da casa de Israel, entre as quais eles próprios ainda há pouco se encontravam; não podiam deixar de sentir compaixão deles e desejar ajudá-los.

II. A obra de pregação que lhes designou. Não os enviou sem uma mensagem; não: “Enquanto fordes, pregai” (v. 7). Deviam ser pregadores itinerantes e, por onde passassem, anunciar o início do evangelho, dizendo: “O reino dos céus está próximo”.

Isso não significa que nada mais devessem dizer, mas que esse seria o tema de sua pregação, a ser desenvolvido. Deviam fazer saber ao povo que o reino do Messias, o Senhor vindo do céu, estava prestes a ser estabelecido conforme as Escrituras. Daí decorria que as pessoas deviam arrepender-se de seus pecados e abandoná-los para serem admitidas aos privilégios desse reino.

Lemos que eles saíram e pregaram que as pessoas se arrependessem (Marcos 6:12). Essa era a maneira apropriada de usar e aplicar a doutrina da proximidade do reino dos céus. Por isso, o povo devia esperar para breve mais notícias desse Messias há muito aguardado e estar pronto para receber sua doutrina, crer nele e submeter-se ao seu jugo.

Essa pregação era como a luz da manhã, anunciando a aproximação do sol nascente. Como era diferente da pregação de Jonas, que proclamava a ruína próxima! (Jonas 3:4). Esta proclama a salvação próxima dos que temem a Deus: “misericórdia e verdade se encontram” (Salmos 85:9-10); isto é, o reino dos céus está próximo.

Não se trata tanto da presença física do rei, na qual não se deve fixar a atenção, mas de um reino espiritual que será estabelecido no coração das pessoas quando sua presença corporal for retirada.

Essa era a mesma mensagem que João Batista e Cristo haviam pregado antes. Repare: as pessoas precisam que as boas verdades lhes sejam apresentadas com insistência, repetidas vezes. Se forem pregadas e recebidas com sentimentos renovados, serão para nós como novas. Cristo, no evangelho, é “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hebreus 13:8).

Mais tarde, de fato, quando o Espírito foi derramado e a igreja cristã se formou, chegou o reino dos céus do qual agora se dizia que estava próximo. Ainda assim, esse reino deve continuar a ser o assunto de nossa pregação: agora que chegou, devemos anunciar às pessoas que chegou até elas e expor-lhes seus preceitos e privilégios.

Há também um reino de glória por vir. Devemos falar dele como próximo e, levando isso em conta, animar as pessoas à diligência.

III. O poder que lhes deu para operar milagres como confirmação de sua doutrina (v. 8). Ao enviá-los para pregar a mesma doutrina que pregara, capacitou-os a confirmá-la com os mesmos selos divinos, que jamais poderiam ser postos numa mentira.

Isso não é necessário agora que o reino de Deus chegou: pedir milagres hoje é lançar de novo o alicerce quando o edifício já está erguido. A questão foi estabelecida, e a doutrina de Cristo, suficientemente atestada pelos milagres que ele e seus apóstolos fizeram. Pedir mais sinais é tentar a Deus. Recebem aqui instrução:

  1. Para empregar seu poder em fazer o bem: não “Vão remover montanhas” nem “Façam descer fogo do céu”, mas “Curai os enfermos, purificai os leprosos”. São enviados como bênçãos públicas para mostrar ao mundo que o amor e a bondade eram o espírito e o caráter do evangelho que pregariam e do reino que estabeleceriam.

Isso mostraria que serviam ao Deus que é bom e faz o bem, cuja misericórdia alcança todas as suas obras. Mostraria também que a doutrina que pregavam se destinava a curar almas enfermas e levantar os que estavam mortos em pecado.

Talvez por isso se mencione ressuscitar mortos: embora não leiamos que ressuscitaram alguém antes da ressurreição de Cristo, contudo foram instrumentos para conduzir muitos à vida espiritual.

  1. Para fazer o bem gratuitamente: “De graça recebestes, de graça dai”. Quem tinha poder para curar todas as doenças tinha oportunidade de enriquecer: quem não compraria curas tão fáceis e certas, fosse qual fosse o preço?

Por isso, são advertidos a não lucrar com o poder de operar milagres. Deviam curar gratuitamente, exemplificando ainda mais a natureza e o caráter do reino do evangelho, formado não só de graça, mas de graça gratuita. Gratia gratis data (Romanos 3:24): “gratuitamente pela sua graça”. Comprem remédios sem dinheiro e sem preço (Isaías 55:1).

O motivo é que eles receberam gratuitamente. O poder de curar enfermos nada lhes custou; por isso, não deviam tirar dele vantagem secular para si. Simão, o mágico, não teria oferecido dinheiro pelos dons do Espírito Santo se não esperasse ganhar dinheiro com eles (Atos 8:18).

Repare: considerar a gratuidade com que Cristo nos faz o bem deve levar-nos a fazer o bem aos outros gratuitamente.

IV. O sustento que devia ser providenciado para eles nessa missão. Ao enviar um embaixador, é preciso considerar quem arcará com os custos da embaixada. Quanto a isso:

  1. Não deviam preparar recursos por conta própria (v. 9, 10): “Não providencieis ouro nem prata”. Assim como não deviam enriquecer com o trabalho, também não deviam gastar nele o pouco que possuíam de seu. Isso dizia respeito apenas à missão presente, e Cristo queria ensiná-los:

(1.) A agir sob a orientação da prudência humana. Fariam então apenas uma breve viagem e logo voltariam ao Mestre e à sua base; por que, portanto, se sobrecarregar com coisas de que não precisariam?

(2.) A agir na dependência da Providência divina. Deviam aprender a viver sem inquietar-se pela vida (Mateus 6:25, etc.). Repare: dentre todas as pessoas, as que saem a serviço de Cristo têm as maiores razões para confiar nele quanto ao alimento necessário. Certamente não deixará faltar nada àqueles que trabalham para ele.

Aqueles a quem emprega são postos sob proteção especial e têm direito a provisões especiais. Os servos contratados de Cristo terão pão suficiente e de sobra. Enquanto permanecermos fiéis a Deus e ao nosso dever, cuidando de fazer bem nosso trabalho, podemos lançar sobre ele todos os demais cuidados.

Jeová-Jiré: que o Senhor providencie para nós e para os nossos conforme lhe parecer adequado.

  1. Podiam esperar que aqueles a quem eram enviados lhes fornecessem o necessário (v. 10): “Digno é o trabalhador do seu alimento”. Não deviam esperar ser alimentados por milagres, como Elias; podiam, porém, contar com Deus para inclinar o coração das pessoas a quem fossem, a fim de que os tratassem com bondade e os sustentassem.

Embora os que servem ao altar não devam esperar enriquecer por meio dele, contudo podem esperar viver dele e viver confortavelmente (1 Coríntios 9:13-14). É justo que obtenham o sustento de seu trabalho. Os ministros são e devem ser trabalhadores, obreiros; como tais, são dignos do alimento, sem precisar dedicar-se a outra ocupação para ganhá-lo.

Cristo queria que seus discípulos não desconfiassem de Deus nem de seus compatriotas a ponto de duvidar de que obteriam entre eles sustento confortável. Se pregassem ao povo e procurassem fazer-lhe o bem, certamente receberiam comida e bebida suficientes para suas necessidades. Recebendo isso, não deveriam desejar iguarias.

Deus lhes pagará seu salário mais tarde, e ele continuará a acumular-se até lá.

V. Os procedimentos que deviam observar ao lidar com cada lugar (vv. 11-15). Iriam para onde não sabiam, sem terem sido convidados nem esperados, sem conhecer ninguém e sem ser conhecidos por ninguém. Sua terra natal lhes seria como terra estrangeira. Que regra deveriam seguir? Que caminho tomar? Cristo não os enviaria sem instruções completas; aqui estão elas:

  1. São orientados sobre como proceder com pessoas que lhes eram desconhecidas. Como agir:

(1.) Em cidades e povoados desconhecidos: ao chegar a uma localidade, deviam perguntar quem ali era digno. [1.] Pressupõe-se que em todo lugar houvesse algumas pessoas mais dispostas que outras a receber o evangelho e seus pregadores, apesar de ser um tempo de corrupção e apostasia generalizadas.

Repare: mesmo nos piores tempos e lugares, podemos esperar com caridade que haja pessoas que se distinguem e são melhores que seus vizinhos; algumas nadam contra a corrente e são como trigo entre a palha. Havia santos na casa de Nero.

Perguntem quem é digno: quem tem algum temor de Deus diante dos olhos e aproveitou bem a luz e o conhecimento que possui. Mesmo os melhores estão longe de merecer o favor de receber a oferta do evangelho; alguns, contudo, eram mais propensos que outros a acolher favoravelmente os apóstolos e sua mensagem, em vez de pisotear essas pérolas.

Repare: disposições prévias para o bem tanto orientam como animam os ministros no trato com as pessoas. Há maior esperança de que a palavra seja proveitosa para aqueles que já estão tão bem dispostos que a recebem de bom grado; pessoas assim existem aqui e ali.

[2.] Deviam procurar essas pessoas; não investigar quais eram as melhores hospedarias.

Hospedarias públicas não eram lugares apropriados para quem não levava dinheiro (v. 9) nem esperava recebê-lo (v. 8). Deviam procurar hospedagem em casas particulares, com pessoas que os acolhessem bem e não esperassem outra recompensa além daquela que os apóstolos podiam lhes dar: suas orações e sua pregação, a recompensa de um profeta e de um apóstolo.

Repare: quem acolhe o evangelho não deve lamentar seus custos nem prometer a si mesmo lucrar com ele neste mundo. A pergunta não era quem era rico, mas quem era digno; não quem era o cavalheiro mais distinto, mas quem era o melhor homem.

Repare: por onde passarem, os discípulos de Cristo devem perguntar pelas pessoas de bem do lugar e conhecê-las. Quando tomamos Deus por nosso Deus, tomamos seu povo por nosso povo, e os semelhantes se alegrarão com seus semelhantes. Paulo, em todas as viagens, procurava os irmãos, se houvesse algum (Atos 28:14).

Fica implícito que, se perguntassem quem era digno, poderiam descobrir essas pessoas. Quem fosse melhor que os vizinhos seria reconhecido, e qualquer um poderia dizer: ali mora um homem honesto, sóbrio e bom. Esse caráter, como o óleo na mão direita, revela-se e enche a casa com seu perfume. Todos sabiam onde ficava a casa do vidente (1 Samuel 9:18).

[3.] Deviam permanecer na casa daqueles que considerassem dignos. Isso indica que sua estadia em cada cidade seria tão breve que não precisariam mudar de hospedagem. Na casa aonde a providência os conduzisse primeiro, permaneceriam até sair da cidade. Suspeita-se, com razão, que não têm bom propósito aqueles que mudam de alojamento com frequência.

Repare: convém aos discípulos de Cristo aproveitar da melhor maneira o que têm, permanecer nele e não procurar mudança a cada desagrado ou inconveniência.

(2.) Em casas desconhecidas. Quando encontrassem a casa de alguém que julgassem digno, deviam saudá-la ao entrar. “Nessas gentilezas comuns, tomem a iniciativa como sinal de humildade. Não considerem humilhante convidar-se a entrar numa casa nem insistam na formalidade de esperar por um convite. Saúdem a família:”

[1.] “Para dar início a uma conversa mais ampla e, assim, introduzir sua mensagem.” Dos assuntos cotidianos podemos passar sem perceber à comunicação que é boa para a edificação.

[2.] “Para descobrir se são bem-vindos. Perceberão se a saudação é recebida com reserva e frieza ou com uma resposta pronta. Quem não recebe amavelmente sua saudação tampouco receberá amavelmente sua mensagem.” Pois quem é inábil e infiel no pouco também o será no muito (Lucas 16:10).

[3.] “Para conquistar uma boa opinião a seu respeito. Saúdem a família, para que vejam que, embora sejam sérios, não são mal-humorados.” Repare: a religião nos ensina a ser corteses, civilizados e atenciosos com todos com quem lidamos.

Embora os apóstolos saíssem respaldados pela autoridade do próprio Filho de Deus, a instrução que receberam ao entrar numa casa não foi ordenar, mas saudar. Suplicar por amor, em vez de exigir, é o caminho do evangelho (Filemom 1:8-9). As almas primeiro são atraídas a Cristo com cordas humanas e permanecem ligadas a ele por laços de amor (Oseias 11:4).

Quando Pedro apresentou pela primeira vez o evangelho a Cornélio, um gentio, Pedro é que foi saudado primeiro (Atos 10:25). Assim, os gentios buscavam aquilo que os judeus precisavam ser persuadidos a receber.

Depois de saudar a família de modo piedoso, deviam avaliar sua resposta, formar um juízo a respeito dela e agir conforme isso. Repare: os olhos de Deus estão sobre nós para observar como recebemos as pessoas de bem e os bons ministros. Se a casa for digna, que a paz deles venha e permaneça sobre ela; se não, que retorne a eles (v. 13).

Ao que parece, portanto, mesmo depois de perguntar pelos mais dignos (v. 11), podiam encontrar pessoas indignas. Repare: embora seja sábio ouvir a opinião pública, é insensato depender dela. Devemos exercer discernimento e ver com os próprios olhos. A sabedoria do prudente é compreender seu próprio caminho. Essa regra tem dois propósitos:

Primeiro, tranquilizar os apóstolos. A saudação comum era: “Paz seja convosco”. Usada por eles, tornava-se uma mensagem do evangelho: desejavam a paz de Deus, a paz do reino dos céus. Poderiam hesitar em pronunciar indistintamente essa bênção sobre todos, já que muitos eram inteiramente indignos dela; a regra esclarecia essa dúvida.

Cristo lhes diz que deveriam fazer essa oração do evangelho por todos, assim como a oferta do evangelho era feita a todos sem distinção. Deviam deixar a Deus, que conhece o coração e o verdadeiro caráter de cada pessoa, a decisão sobre o resultado da oração.

Se a casa fosse digna, colheria o benefício da bênção. Se não fosse, nenhum prejuízo teria ocorrido, e os apóstolos não perderiam o benefício dela; a bênção voltaria a eles, como voltaram a Davi suas orações por inimigos ingratos (Salmos 35:13).

Repare: convém-nos julgar a todos com caridade, orar de coração por todos e tratar a todos com cortesia. Essa é a nossa parte; quanto ao efeito que isso terá sobre eles, deixemos que Deus o determine, pois essa é a parte dele.

Segundo, orientá-los. “Se, pela resposta à saudação, ficar claro que são de fato dignos, permaneçam mais tempo em sua companhia e deixem sua paz vir sobre eles: preguem-lhes o evangelho, a paz por Jesus Cristo. Caso contrário, se os tratarem com rudeza e lhes fecharem a porta, deixem a paz voltar a vocês, na medida em que depender de vocês.

Retirem o que disseram e deem-lhes as costas. Ao desprezar essa saudação, tornaram-se indignos dos demais favores de vocês e privaram-se deles.” Repare: grandes bênçãos muitas vezes se perdem por um descuido que parece pequeno e insignificante, quando as pessoas estão sendo provadas por sua conduta.

Assim Esaú perdeu o direito de primogenitura (Gênesis 25:34), e Saul, o reino (1 Samuel 13:13-14).

  1. Aqui recebem instruções sobre como agir com aqueles que se recusassem a acolhê-los. Considera-se o caso (v. 14) dos que não os receberiam nem ouviriam suas palavras. Os apóstolos podiam pensar que, tendo tal doutrina para pregar e tal poder para confirmá-la com milagres, certamente seriam recebidos e acolhidos em toda parte.

Por isso, são avisados de antemão de que alguns os desprezariam e tratariam com desdém a eles e à sua mensagem. Repare: mesmo os melhores e mais poderosos pregadores do evangelho devem esperar encontrar pessoas que nem sequer lhes darão ouvidos ou mostrarão qualquer sinal de respeito.

Muitos fecham os ouvidos até ao som alegre e não escutam a voz dos encantadores, por mais habilmente que encantem. Observe: “Não vos receberão e não ouvirão vossas palavras”. Repare: o desprezo ao evangelho e o desprezo aos seus ministros costumam andar juntos; qualquer um deles será entendido como desprezo a Cristo e receberá o tratamento correspondente.

Nesse caso, temos aqui:

(1.) As instruções dadas aos apóstolos sobre o que fazer. Deviam sair daquela casa ou cidade. Repare: o evangelho não permanece por muito tempo com quem o rejeita. Ao partir, deviam sacudir dos pés o pó:

[1.] Como expressão de repulsa à maldade daquelas pessoas. Era tão abominável que contaminava até o chão por onde andavam; por isso, o pó devia ser sacudido como coisa imunda. Os apóstolos não deviam ter associação nem comunhão com elas, nem levar consigo sequer o pó da cidade.

“A obra dos que se desviam não se apegará a mim” (Salmos 101:3). O profeta não devia comer nem beber em Betel (1 Reis 13:9).

[2.] Como anúncio da cólera de Deus contra elas. O gesto significava que eram baixas e vis como o pó e que Deus as sacudiria de si. O pó dos pés dos apóstolos, deixado para trás, testemunharia contra elas: seria apresentado como prova de que o evangelho lhes fora pregado (Marcos 6:11). Compare Tiago 5:3.

Veja essa prática em Atos 13:51; 18:6. Repare: quem despreza a Deus e seu evangelho será tido em pouca conta.

(2.) A condenação proferida contra aqueles que persistem deliberadamente em recusar a mensagem (v. 15). No dia do juízo haverá mais tolerância para a terra de Sodoma, por mais perversa que tenha sido. Repare:

[1.] Virá um dia de juízo, quando todos os que recusaram o evangelho certamente prestarão contas, por mais que agora zombem dele. Aqueles que não quiseram ouvir a doutrina que os salvaria serão obrigados a ouvir a sentença que os arruinará. Seu julgamento fica adiado até aquele dia.

[2.] Haverá graus diferentes de punição naquele dia. Todas as penas do inferno serão intoleráveis, mas algumas serão mais graves que outras. Alguns pecadores afundarão mais no inferno e receberão mais açoites.

[3.] Naquele dia, a condenação dos que rejeitam o evangelho será mais severa e pesada que a de Sodoma e Gomorra. Diz-se que Sodoma sofre a vingança do fogo eterno (Judas 1:7). Mas essa vingança virá agravada sobre os que desprezam a grande salvação.

Sodoma e Gomorra eram extremamente perversas (Gênesis 13:13). O que completou a medida de sua iniquidade foi o fato de não receberem os anjos enviados a elas, mas os maltratarem (Gênesis 19:4-5), e de não ouvirem suas palavras (Gênesis 19:14). Ainda assim, haverá mais tolerância para elas do que para os que não recebem os ministros de Cristo nem ouvem suas palavras.

A cólera de Deus contra estes será mais ardente, e o remorso deles, mais doloroso. “Filho, lembra-te” soará de modo terrível aos ouvidos de quem recebeu uma oferta justa de vida eterna e escolheu a morte.

A iniquidade de Israel, quando Deus lhe enviou seus servos, os profetas, é apresentada por isso como mais grave que a de Sodoma (Ezequiel 16:48-49). Quanto mais agora, depois de ele lhes enviar seu Filho, o grande Profeta!

Versículos 16 a 42

Instruções aos Apóstolos.

Todos estes versículos tratam dos sofrimentos dos ministros de Cristo em seu trabalho. Aqui eles são ensinados a esperá-los e a se preparar para eles; recebem também orientações sobre como suportá-los e prosseguir no trabalho em meio a eles.

Esta parte do sermão vai além da missão presente dos discípulos. Não vemos que tenham encontrado grandes agruras ou perseguições enquanto Cristo estava com eles, nem estavam muito preparados para suportá-las.

Mas aqui são advertidos das tribulações que enfrentariam após a ressurreição de Cristo, quando sua comissão seria ampliada e o reino dos céus, agora próximo, seria de fato estabelecido.

Naquele momento, eles só imaginavam pompa e poder exteriores. Cristo, porém, lhes diz que devem esperar sofrimentos maiores do que aqueles aos quais tinham sido chamados até então: seriam feitos prisioneiros quando esperavam ser feitos príncipes.

É bom saber de antemão que tribulações poderemos enfrentar, a fim de nos prepararmos e não nos vangloriarmos como quem já tirou a armadura quando ainda está apenas vestindo-a.

Temos aqui, entremeadas, I. Predições de tribulação; e II. Prescrições de conselho e consolo a respeito dela.

I. Temos aqui predições das tribulações que os discípulos enfrentariam no trabalho. Cristo previu os sofrimentos deles, assim como os seus, e ainda assim deseja que prossigam, como ele próprio prosseguiu. Anunciou-lhes essas coisas não só para que as tribulações não os surpreendessem nem abalassem sua fé, mas também para que, ao cumprirem uma predição, confirmassem essa fé.

Ele lhes diz o que sofreriam e de quem viria o sofrimento.

  1. O que sofreriam: coisas árduas, sem dúvida, pois: “Eis que vos envio como ovelhas em meio a lobos” (v. 16). Que pode esperar um rebanho de ovelhas pobres, indefesas e desprotegidas em meio a uma alcateia de lobos vorazes, senão ser atacado e despedaçado?

Repare: os perversos são como lobos; está em sua natureza devorar e destruir. O povo de Deus, sobretudo seus ministros, é como ovelhas entre eles: tem natureza e disposição contrárias, fica exposto a eles e costuma ser sua presa fácil.

Parecia falta de bondade da parte de Cristo expor a tanto perigo aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo. Ele sabia, porém, que a glória reservada para suas ovelhas, quando no grande dia fossem postas à sua direita, compensaria suficientemente seus sofrimentos, assim como seus serviços.

São como ovelhas entre lobos, o que assusta; mas é Cristo quem os envia, o que consola, pois aquele que os envia os protegerá e lhes dará sustentação. Para que soubessem o pior que poderia acontecer, ele lhes diz especificamente o que deviam esperar.

(1.) Deviam esperar ser odiados (v. 22). “Sereis odiados por causa do meu nome”: essa é a raiz de todos os demais sofrimentos, e uma raiz amarga. Repare: o mundo odeia aqueles a quem Cristo ama; os que a corte abençoa, o país amaldiçoa.

Se o mundo odiou Cristo sem motivo (João 15:25), não surpreende que odiasse os que levavam sua imagem e serviam aos seus interesses. Odiamos o que é repugnante, e eles são considerados “o refugo de todas as coisas” (1 Coríntios 4:13). Odiamos o que é nocivo, e eles são considerados perturbadores da terra (1 Reis 18:17) e atormentadores dos seus vizinhos (Apocalipse 11:10).

É penoso ser odiado e alvo de tanta má vontade, mas isso ocorre “por causa do meu nome”. Essa expressão revela o verdadeiro motivo do ódio, quaisquer que sejam as razões alegadas, e consola os que são odiados dessa maneira: a causa é boa, e eles têm um bom amigo que participa da situação deles e toma a afronta como dirigida a si mesmo.

(2.) Deviam esperar ser presos e formalmente acusados como criminosos. A malícia incansável dos inimigos é irresistível: eles não só tentarão, mas conseguirão entregar os discípulos aos conselhos (vv. 17-18), aos tribunais de vereadores ou juízes encarregados da paz pública.

Repare: muitos danos são causados a pessoas boas sob o pretexto da lei e da justiça. “No lugar do juízo havia perversidade”, perversidade perseguidora (Eclesiastes 3:16). Deviam esperar tribulações não só dos magistrados inferiores dos conselhos, mas também dos governadores e reis, os magistrados supremos.

Ser levados à presença deles, sob descrições tão negativas como as que costumavam fazer dos discípulos de Cristo, era terrível e perigoso, pois a cólera do rei é como o rugido de um leão. Encontramos muitos cumprimentos disso em Atos dos Apóstolos.

(3.) Deviam esperar ser mortos (v. 21). Eles os entregariam à morte, uma morte oficial, com pompa e solenidade, quando ela mais se mostra o rei dos terrores. A malícia dos inimigos chega a tal ponto que lhes inflige isso: eles têm sede do sangue dos santos.

A fé e a paciência dos santos permanecem tão firmes que eles esperam tal fim: “Nem considero preciosa para mim a minha vida”. A sabedoria de Cristo o permite, pois sabe fazer do sangue dos mártires o selo da verdade e a semente da igreja.

Por não amar a própria vida até a morte, esse nobre exército venceu Satanás, e o reino de Cristo e seus interesses avançaram muito (Apocalipse 12:11). Foram mortos como criminosos: era essa a intenção dos inimigos. Na verdade, porém, morreram como sacrifícios (Filipenses 2:17; 2 Timóteo 4:6), como holocaustos de reconhecimento para a honra de Deus, de sua verdade e de sua causa.

(4.) Deviam esperar que, em meio a esses sofrimentos, lhes atribuíssem os nomes e as descrições mais odiosos e infamantes que se pudesse imaginar. Os perseguidores se envergonhariam neste mundo se não vestissem primeiro com peles de urso aqueles que entregam ao ataque e não os pintassem com cores que pudessem justificar tamanha crueldade.

A mais negra de todas as descrições que lhes dão aparece aqui: chamam-nos de Belzebu, nome do príncipe dos demônios (v. 25). Apresentam-nos como chefes dos interesses do reino das trevas e, como todos pensam odiar o diabo, tentam assim torná-los odiosos a toda a humanidade.

Veja, com espanto, como este mundo é iludido: [1.] Os inimigos declarados de Satanás são apresentados como amigos dele. Os apóstolos, que derrubavam o reino do diabo, foram chamados de diabos. Assim, os homens lhes atribuíram não só coisas que desconheciam, mas também coisas que detestavam e às quais se opunham diretamente, coisas que eram o exato contrário de sua conduta.

[2.] Os servos declarados de Satanás querem ser considerados inimigos dele e nunca fazem seu trabalho com tanta eficácia como quando alegam combatê-lo. Muitas vezes os que têm maior parentesco com o diabo são os mais propensos a dizer que outros lhe pertencem; aqueles que pintam sua imagem nas roupas alheias o têm reinando no próprio coração.

Felizmente chegará o dia em que, como se diz adiante (v. 26), aquilo que está oculto será trazido à luz.

(5.) Esses sofrimentos são aqui representados pela espada e pela divisão (vv. 34-35). “Não penseis que vim trazer paz”, isto é, paz temporal e prosperidade exterior. Eles pensavam que Cristo viera dar riqueza e poder neste mundo a todos os seus seguidores.

Não: segundo Cristo, ele não veio com o objetivo de lhes dar paz. Podem estar certos da paz no céu, mas não da paz na terra. Cristo veio nos dar paz com Deus, paz na consciência e paz com os irmãos, mas “no mundo tereis tribulação”.

Repare: entendem mal o desígnio do evangelho aqueles que pensam que professá-lo os livrará dos problemas deste mundo. Pelo contrário, tal profissão certamente os exporá a eles.

Se o mundo todo recebesse Cristo, viria então a paz universal; mas, enquanto tantos o rejeitarem (e eles não são somente filhos deste mundo, mas a descendência da serpente), os filhos de Deus, chamados para fora do mundo, deverão esperar sentir os frutos da inimizade deles.

[1.] Não esperem paz, mas espada. Cristo veio dar a espada da palavra, com a qual seus discípulos lutam contra o mundo e que produziu uma obra de conquista (Apocalipse 6:4; 19:21).

Também veio dar a espada da perseguição, com a qual o mundo luta contra os discípulos, pois seu coração é ferido pela espada da palavra (Atos 7:54) e eles são atormentados pelo testemunho das testemunhas de Cristo (Apocalipse 11:10). Essa espada produziu uma obra cruel.

Cristo enviou o evangelho que dá ocasião a que se desembainhe essa espada; nesse sentido, pode-se dizer que enviou a espada. Ele coloca sua igreja numa condição de sofrimento para provar e louvar as graças de seu povo e completar a medida dos pecados dos inimigos.

[2.] Não esperem paz, mas divisão (v. 35): Vim pôr os homens em desacordo. Esse efeito da pregação do evangelho não é culpa do evangelho, mas dos que não o recebem. Quando alguns creem nas coisas anunciadas e outros não, a fé dos que creem condena os que não creem; por isso, os incrédulos se tornam inimigos dos que creem.

Repare: as disputas mais violentas e implacáveis sempre foram as surgidas de diferenças religiosas. Nenhuma inimizade se compara à dos perseguidores; nenhuma firmeza, à dos perseguidos. Assim Cristo diz aos discípulos o que sofreriam, e essas eram palavras duras. Se pudessem suportá-las, poderiam suportar qualquer coisa.

Repare: Cristo nos tratou com justiça e lealdade ao nos contar o pior que podemos encontrar em seu serviço. Ele deseja que façamos o mesmo conosco, sentando-nos para calcular o custo.

  1. Aqui lhes é dito de quem e por quem sofreriam essas coisas difíceis. Certamente o próprio inferno teria de ser solto, e os demônios, espíritos desesperados e sem esperança que não têm parte nem sorte na grande salvação, teriam de encarnar para que se encontrassem inimigos tão rancorosos de uma doutrina cuja essência era a boa vontade para com os homens e a reconciliação do mundo com Deus.

Não: quem poderia imaginar? Todo esse dano aos pregadores do evangelho vem daqueles a quem foram anunciar a salvação. Assim, “os homens sanguinários odeiam o íntegro, mas os justos buscam sua alma” (Provérbios 29:10). O céu encontra tanta oposição na terra porque a terra está tão sujeita ao poder do inferno (Efésios 2:2).

Os discípulos de Cristo teriam de sofrer essas coisas difíceis:

(1.) Dos homens (v. 17). “Acautelai-vos dos homens; precisareis estar de guarda até mesmo contra os que compartilham a natureza de vocês.” Tamanha é a depravação e degeneração dessa natureza (homo homini lupus, o homem é lobo para o homem): astutos e sagazes como homens, mas cruéis e selvagens como animais, inteiramente privados daquilo a que se chama humanidade.

Repare: a fúria e a inimizade perseguidoras transformam homens em brutos, em demônios. Em Éfeso, Paulo lutou contra feras em forma humana (1 Coríntios 15:32). É triste o estado a que chegou o mundo quando seus melhores amigos precisam acautelar-se dos homens.

Agrava as tribulações dos servos sofredores de Cristo o fato de virem daqueles que são osso de seus ossos, feitos do mesmo sangue. Nesse aspecto, os perseguidores são piores que animais: atacam os da própria espécie. Sævis inter se convenit ursis: até os ursos ferozes convivem em paz entre si.

É muito penoso que homens se levantem contra nós (Salmos 124), de quem poderíamos esperar proteção e solidariedade. Homens, e nada mais; meros homens, não santos; homens naturais (1 Coríntios 2:14); homens deste mundo (Salmos 17:14). Os santos são mais que homens e foram resgatados dentre os homens; por isso, são odiados por eles.

Se não for santificada, a natureza humana é a pior do mundo depois da dos demônios. Eles são homens e, portanto, criaturas subordinadas, dependentes e mortais. São homens, mas apenas homens (Salmos 9:20). “Quem és tu, para que temas um homem que morrerá?” (Isaías 51:12).

“Acautelai-vos dos homens”, segundo o dr. Hammond: os conhecidos de vocês, os homens do Sinédrio judaico, que rejeitaram Cristo (1 Pedro 2:4).

(2.) Dos homens que professam a religião, que têm forma de piedade e ostentam religiosidade. Eles os açoitarão nas sinagogas, os lugares em que se reuniam para o culto a Deus e o exercício da disciplina religiosa. Consideravam, portanto, o açoite dos ministros de Cristo uma parte de sua religião.

Paulo foi açoitado cinco vezes nas sinagogas (2 Coríntios 11:24). Sob o pretexto de zelo por Moisés, os judeus foram os mais amargos perseguidores de Cristo e do cristianismo e atribuíram esses ultrajes à sua religião.

Repare: os discípulos de Cristo sofreram muito nas mãos de perseguidores movidos por convicção religiosa. Eles os açoitam nas sinagogas, expulsam-nos e matam-nos, pensando prestar um bom serviço a Deus (João 16:2), e dizem: “Seja glorificado o Senhor” (Isaías 66:5; Zacarias 11:4, 5).

Mas a sinagoga está longe de consagrar a perseguição; sem dúvida, é a perseguição que profana e desacraliza a sinagoga.

(3.) Dos grandes homens e das autoridades. Os judeus não só os açoitavam, o máximo a que se estendia o poder que lhes restava, mas, quando já não podiam ir mais longe, entregavam-nos às autoridades romanas, como fizeram com Cristo (João 18:30).

“Sereis levados à presença de governadores e reis” (v. 18), os quais, por terem mais poder, podem causar maiores danos. Governadores e reis recebem seu poder de Cristo (Provérbios 8:15) e deveriam ser servos dele, protetores da sua igreja e pais que a sustentam. Muitas vezes, porém, usam o poder contra ele: são rebeldes contra Cristo e opressores da igreja.

Os reis da terra se levantam contra o reino dele (Salmos 2:1, 2; Atos 4:25, 26). Repare: muitas vezes foi sorte das pessoas boas ter grandes homens como inimigos.

(4.) De todos os homens (v. 22). “Sereis odiados por todos”: por todos os perversos, que constituem a maioria dos homens, pois o mundo todo jaz na perversidade. São tão poucos os que amam, reconhecem e apoiam a justa causa de Cristo que podemos dizer que os amigos dela são odiados por todos os homens. “Todos se desviaram” e, por isso, “devoram o meu povo” (Salmos 14:3).

Até onde vai a apostasia de Deus, vai também a inimizade contra os santos. Às vezes ela se mostra mais generalizada que em outras ocasiões, mas algo desse veneno se esconde no coração de todos os filhos da desobediência. O mundo os odeia porque segue a besta com admiração (Apocalipse 13:3). Todo homem é mentiroso e, portanto, odeia a verdade.

(5.) Dos próprios parentes. “O irmão entregará o irmão à morte” (v. 21). Por esse motivo, um homem entrará em conflito com o próprio pai. Até pessoas do sexo mais fraco e afetuoso serão perseguidoras e perseguidas: a filha perseguidora estará contra a mãe crente, embora se esperasse que a afeição natural e o dever filial impedissem ou logo extinguissem a desavença.

Não admira, então, que a nora se levante contra a sogra, pois ali, com frequência excessiva, a frieza do amor procura ocasião para disputa (v. 35). Em geral, “os inimigos do homem serão os da sua própria casa” (v. 36).

Aqueles que deveriam ser seus amigos ficarão furiosos porque ele abraçou o cristianismo, sobretudo porque permanece fiel quando começam as perseguições, e se juntarão aos perseguidores.

Repare: os mais fortes laços de amor e dever entre parentes muitas vezes foram rompidos por inimizade contra Cristo e sua doutrina. Tal foi o poder do preconceito contra a verdadeira religião e do zelo por uma religião falsa que todas as outras considerações, as mais naturais e sagradas, as mais cativantes e afetuosas, foram sacrificadas a esses Moloques.

Os que se enfurecem contra o Senhor e seus ungidos rompem até essas amarras e lançam fora essas cordas (Salmos 2:2, 3). A esposa de Cristo sofre muito com a ira dos filhos da própria mãe (Cantares de Salomão 1:6). Sofrer nas mãos desses parentes é ainda mais penoso. Nada fere mais do que isto: “Eras tu, homem igual a mim” (Salmos 55:12, 13).

A inimizade deles costuma ser a mais implacável: “Um irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte” (Provérbios 18:19). Os relatos de mártires, antigos e modernos, estão cheios desses exemplos. Em suma, fica claro que todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus devem sofrer perseguição, e que devemos esperar entrar no reino de Deus por muitas tribulações.

II. Junto dessas predições de tribulação, temos aqui conselhos e consolos para a hora da provação. Ele os envia sabendo que estarão expostos ao perigo, mas bem armados de instruções e incentivos suficientes para sustentá-los e ajudá-los a atravessar todas essas provações. Reunamos o que ele diz:

  1. A título de conselho e orientação sobre vários assuntos:

(1.) “Sede prudentes como as serpentes” (v. 16). “Podeis sê-lo”, segundo alguns, que tomam isso apenas como permissão; “podeis ser tão cautelosos quanto quiserdes, desde que sejais inofensivos como as pombas”.

É melhor, porém, entender essas palavras como preceito, que nos recomenda a sabedoria do prudente, aquela que lhe permite entender seu caminho. É útil sempre, sobretudo em tempos de sofrimento.

“Portanto, porque estais expostos como ovelhas entre lobos, sede prudentes como as serpentes: não astutos como as raposas, cuja esperteza consiste em enganar os outros, mas como as serpentes, cuja cautela serve apenas para defender-se e buscar a própria segurança.”

Os discípulos de Cristo são odiados e perseguidos como serpentes, e procura-se arruiná-los; por isso, precisam da prudência da serpente.

Repare: Cristo quer que seu povo e seus ministros, tão expostos às tribulações deste mundo, não se exponham a elas sem necessidade, mas empreguem todos os meios justos e lícitos para se preservar.

Cristo nos deu exemplo dessa prudência (Mateus 21:24, 25; 22:17, 18, 19; João 7:6, 7), além das muitas vezes em que escapou das mãos dos inimigos até chegar sua hora. Veja um exemplo da prudência de Paulo em Atos 23:6, 7.

Na causa de Cristo, não devemos nos apegar à vida nem aos seus confortos, mas tampouco podemos desperdiçá-los. A serpente age com prudência ao proteger a cabeça para que não seja esmagada, ao fechar o ouvido à voz do encantador (Salmos 58:4, 5) e ao se abrigar nas fendas das rochas. Nesses aspectos, podemos ser prudentes como as serpentes.

Precisamos ter prudência para não atrair tribulações sobre nós mesmos, para ficar calados no tempo mau e para não causar ofensa quando pudermos evitá-la.

(2.) “Sede inofensivos como as pombas.” Sejam brandos, mansos e serenos; não só não causem prejuízo a ninguém, mas também não guardem má vontade contra ninguém. Sejam sem fel, como as pombas; isso sempre deve acompanhar a prudência anterior.

São enviados para o meio de lobos; portanto, devem ser prudentes como as serpentes. Mas são enviados como ovelhas; portanto, devem ser inofensivos como as pombas.

Devemos ser prudentes para não prejudicar a nós mesmos, mas seria melhor sofrer prejuízo do que prejudicar outra pessoa. Devemos usar a mansidão da pomba para suportar vinte injúrias, em vez de usar a astúcia da serpente para causar ou retribuir uma só.

Repare: todos os discípulos de Cristo devem cuidar continuamente de ser inocentes e de não causar ofensa em palavras e atos, sobretudo ao considerar os inimigos que os cercam. Precisamos de um espírito semelhante ao da pomba quando aves de rapina nos rodeiam, para que nem os provoquemos nem nos deixemos provocar por eles.

Davi desejava as asas de uma pomba, com as quais pudesse voar para longe e descansar, em vez das asas de um falcão. O Espírito desceu sobre Cristo como pomba, e todos os crentes participam do Espírito de Cristo: um espírito semelhante ao da pomba, feito para amar, não para guerrear.

(3.) “Acautelai-vos dos homens” (v. 17). “Estejam sempre atentos e evitem as companhias perigosas. Tenham cuidado com o que dizem e fazem e não confiem em excesso na fidelidade de ninguém. Desconfiem das alegações mais convincentes; não confiem no amigo, nem mesmo na esposa que está junto ao peito de vocês” (Miquéias 7:5).

Repare: convém que os que receberam a graça sejam cautelosos, pois aprendemos a deixar de confiar no homem. Vivemos num mundo tão desgraçado que não sabemos em quem confiar. Desde que nosso Mestre foi traído com um beijo por um de seus discípulos, precisamos acautelar-nos dos homens, dos falsos irmãos.

(4.) “Não vos preocupeis com a maneira nem com as palavras que direis” (v. 19). “Quando forem levados perante os magistrados, comportem-se com decoro, mas não se aflijam pensando em como sairão dessa situação. É preciso pensar com prudência, mas não com ansiedade, perplexidade e inquietação. Lancem sobre Deus esse cuidado, assim como o cuidado com o que comerão e beberão.”

“Não estudem para compor belos discursos, ad captandam benevolentiam, a fim de ganhar a simpatia dos ouvintes. Não procurem expressões rebuscadas, floreios de engenho nem períodos trabalhados, que só servem para dourar uma causa ruim; o ouro de uma boa causa não precisa disso. Preocupar-se tanto com isso revela desconfiança na própria causa, como se ela não bastasse para falar por si mesma.”

“Vocês conhecem os fundamentos sobre os quais se apoiam, e então verbaque prævisam rem non invita sequentur: as expressões adequadas virão prontamente.” Jamais alguém falou melhor perante governadores e reis do que os três defensores que não se preocuparam de antemão com o que diriam: “Ó Nabucodonosor, não estamos preocupados em responder-te sobre este assunto” (Daniel 3:16). Veja Salmos 119:46.

Repare: os discípulos de Cristo devem pensar mais em agir bem do que em falar bem, mais em conservar a integridade do que em defendê-la. Non magna loquimur, sed vivimus: a melhor defesa vem de nossa vida, não de palavras jactanciosas.

(5.) “Quando vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra” (v. 23). “Rejeitem, assim, aqueles que rejeitam vocês e sua doutrina, e procurem saber se outros não os receberão, a vocês e a ela. Desse modo, preservem sua segurança.”

Repare: em caso de perigo iminente, os discípulos de Cristo podem e devem proteger-se pela fuga quando Deus, em sua providência, lhes abre uma porta de escape. Quem foge pode lutar de novo. Não há desonra em os soldados de Cristo abandonarem sua posição, desde que não abandonem sua bandeira. Podem sair do caminho do perigo, mas não do caminho do dever.

Observe o cuidado de Cristo por seus discípulos ao lhes providenciar lugares de retirada e abrigo. Ele dispõe as coisas de modo que a perseguição não se enfureça em todos os lugares ao mesmo tempo: quando uma cidade se torna quente demais para eles, outra lhes é reservada como sombra mais fresca e pequeno santuário. É um favor que deve ser aproveitado, não desprezado.

Há, porém, uma condição permanente: não se deve recorrer a meios pecaminosos e ilícitos para escapar, pois então não se trata de uma porta aberta por Deus. Temos muitos exemplos dessa regra na história de Cristo e de seus apóstolos. Para aplicá-los a cada caso particular, a sabedoria e a integridade são guias proveitosos.

(6.) “Não os temais” (v. 26), porque eles só podem matar o corpo (v. 28). Repare: é dever e interesse dos discípulos de Cristo não temer nem mesmo seus maiores adversários. Os que realmente temem a Deus não precisam temer o homem; os que receiam o menor pecado não precisam recear a maior tribulação.

O temor do homem é uma armadilha: uma armadilha perturbadora, que tira nossa paz, e uma armadilha enredadora, que nos arrasta ao pecado. Por isso, é preciso vigiar, lutar e orar contra esse temor.

Por mais difíceis que sejam os tempos, furiosos os inimigos e ameaçadores os desfechos, ainda assim não precisamos temer; ainda assim não temeremos ainda que a terra seja removida, pois pela graça temos um Deus tão bom, uma causa tão boa e uma esperança tão boa.

Sim: é fácil dizer isso. Mas, quando chega a provação, o cavalete de tortura e outros suplícios, as masmorras e galés, os machados e cadafalsos, as chamas e a lenha são coisas terríveis. Bastam para fazer tremer e recuar o coração mais valente, sobretudo quando é evidente que poucos passos de afastamento permitiriam evitá-las. Para nos fortalecer contra essa tentação, temos aqui:

[1.] Uma boa razão contra esse temor, fundada no poder limitado dos inimigos. Eles matam o corpo; esse é o limite extremo a que sua fúria pode chegar. Até aí podem ir, se Deus permitir, mas não além. Não podem matar a alma nem causar-lhe prejuízo; e a alma é o ser humano.

Isso mostra que a alma não adormece na morte, como alguns imaginam, nem é privada de pensamento e percepção; caso contrário, matar o corpo seria matar também a alma. A alma é morta quando se separa de Deus e de seu amor, que são sua vida, e se torna um vaso de sua cólera. Isso, porém, está fora do alcance do poder dos inimigos.

Tribulação, angústia e perseguição podem nos separar de todo o mundo, mas não podem nos separar de Deus nem nos fazer deixar de amá-lo ou de ser amados por ele (Romanos 8:35, 37).

Se nos preocupássemos mais com a alma como nossa joia, temeríamos menos os homens, cujo poder não pode roubá-la de nós. Eles só podem matar o corpo, que logo morreria por si mesmo, não a alma, que desfrutará de si e de seu Deus apesar deles.

Só podem esmagar o estojo. Um pagão desafiou um tirano com estas palavras: Tunde capsam Anaxarchi, Anaxarchum non lædis: você pode maltratar o invólucro de Anaxarchus, mas não pode ferir o próprio Anaxarchus. A pérola de grande valor permanece intacta.

Sêneca se propõe a demonstrar que ninguém pode ferir um homem sábio e bom, porque nem mesmo a morte lhe causa um mal verdadeiro. Si maximum illud ultra quod nihil habent iratæ leges, aut sævissimi domini minantur, in quo imperium suum fortuna consumit, æquo placidoque animo accipimus, et scimus mortem malum non esse ob hoc, ne injuriam quidem:

Se enfrentarmos com calma e serenidade aquele extremo final, além do qual as leis ofendidas e os tiranos impiedosos nada mais podem infligir, e no qual a fortuna encerra seu domínio, saberemos que a morte não é um mal, pois não causa sequer a menor injúria. Sêneca, De Constantia.

[2.] Um bom remédio contra o temor: temer a Deus. “Temei aquele que pode destruir tanto a alma quanto o corpo no inferno.” Repare: em primeiro lugar, o inferno é a destruição da alma e do corpo, não de sua existência, mas do bem-estar de ambos. É a ruína do ser humano inteiro; se a alma se perde, o corpo também se perde.

Pecaram juntos; o corpo serviu à alma como tentador e instrumento no pecado, e os dois devem sofrer juntos eternamente.

Em segundo lugar, essa destruição vem do poder de Deus: ele pode destruir. É uma destruição que procede de seu poder glorioso (2 Tessalonicenses 1:9). Nela, ele fará conhecido seu poder, não só sua autoridade para proferir a sentença, mas também sua capacidade de executá-la (Romanos 9:22).

Em terceiro lugar, Deus deve, portanto, ser temido até pelos melhores santos deste mundo. Conhecendo os terrores do Senhor, persuadimos os homens a respeitá-lo. Se sua cólera corresponde ao temor que inspira, então o temor que lhe temos deve corresponder à sua cólera, sobretudo porque ninguém conhece o poder de sua ira (Salmos 90:11).

Quando Adão, ainda inocente, foi levado a temer por uma ameaça, nenhum discípulo de Cristo deve pensar que dispensa o freio do santo temor. Feliz é o homem que teme sempre. O Deus de Abraão, que então já estava morto, é chamado de “o Temor de Isaque”, que ainda vivia (Gênesis 31:42, 53).

Em quarto lugar, o temor de Deus e de seu poder reinando na alma é um antídoto soberano contra o temor dos homens. É melhor cair sob o desagrado do mundo inteiro do que sob o desagrado de Deus. Portanto, além de ser o mais correto em si mesmo, obedecer a Deus antes que aos homens é o mais seguro para nós (Atos 4:19).

Os que temem um homem mortal se esquecem do Senhor, seu Criador (Isaías 51:12, 13; Neemias 4:14).

(7.) “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz” (v. 27). “Sejam quais forem os perigos que enfrentarem, prossigam no trabalho, divulgando e proclamando o evangelho eterno ao mundo inteiro. Essa é a tarefa de vocês; dediquem-se a ela. O desígnio dos inimigos não é apenas destruí-los, mas sufocar o evangelho. Portanto, sejam quais forem as consequências, anunciem-no.”

“O que vos digo, dizei-o.” Repare: o que os apóstolos nos transmitiram é o mesmo que receberam de Jesus Cristo (Hebreus 2:3). Disseram o que ele lhes disse: isso, tudo isso e nada além disso. Esses embaixadores receberam instruções em particular, nas trevas, ao ouvido, em lugares reservados e em parábolas.

Cristo disse muitas coisas abertamente e, em segredo, não disse nada que divergisse do que pregou em público (João 18:20). Mas as instruções específicas que deu aos discípulos após a ressurreição, a respeito das coisas pertencentes ao reino de Deus, foram sussurradas ao ouvido (Atos 1:3), pois nessa época ele não se mostrou abertamente.

Eles, porém, devem apresentar publicamente sua mensagem, à luz e sobre os telhados. A doutrina do evangelho interessa a todos (Provérbios 1:20, 21; 8:2, 3); portanto, quem tem ouvidos para ouvir, ouça. A primeira indicação da acolhida dos gentios na igreja ocorreu sobre um telhado (Atos 10:9).

Repare: nenhuma parte do evangelho de Cristo precisa ser escondida por motivo algum. Todo o conselho de Deus deve ser revelado (Atos 20:27). Mesmo diante da multidão mais variada, deve ser apresentado com clareza e por inteiro.

  1. A título de consolo e incentivo. Muito se diz aqui com esse objetivo, e tudo isso é pouco diante das muitas dificuldades com que teriam de lidar ao longo do ministério e de sua fraqueza presente. Sem um apoio poderoso, mal conseguiriam suportar sequer a perspectiva de tal tratamento. Por isso, Cristo lhes mostra por que devem ter bom ânimo.

(1.) Há aqui uma palavra própria desta missão presente (v. 23): “Não tereis percorrido as cidades de Israel antes que venha o Filho do Homem”. Deviam pregar que o reino do Filho do Homem, o Messias, estava próximo; deviam orar: “Venha o teu reino”.

Ora, não terminariam de percorrer todas as cidades de Israel com essa oração e essa pregação antes que o reino viesse, na exaltação de Cristo e no derramamento do Espírito.

Era um consolo: [1.] Aquilo que diziam se cumpriria. Anunciavam que o Filho do Homem estava vindo e, de fato, ele viria. Cristo confirmará a palavra de seus mensageiros (Isaías 44:26).

[2.] Cumprir-se-ia rapidamente. Repare: os trabalhadores de Cristo encontram consolo no fato de que seu tempo de trabalho será breve e logo terminará. O trabalhador contratado tem o seu dia; em pouco tempo, a obra e a guerra se completarão.

[3.] Então seriam elevados a uma posição mais alta. Quando o Filho do Homem viesse, seriam revestidos de maior poder do alto. Agora eram enviados como agentes e representantes; pouco depois, sua comissão seria ampliada e seriam enviados como representantes plenipotenciários ao mundo inteiro.

(2.) Há aqui muitas palavras referentes ao trabalho deles em geral e às tribulações que enfrentariam nele. São palavras boas e consoladoras.

[1.] Seus sofrimentos serviriam de testemunho contra eles e contra os gentios (v. 18). Quando os tribunais judaicos os entregassem aos governadores romanos para que os matassem, o fato de serem conduzidos de um tribunal a outro tornaria seu testemunho mais público.

Também lhes daria a oportunidade de levar o evangelho aos gentios, além de levá-lo aos judeus. Mais ainda: testemunhariam a eles e contra eles pelas próprias tribulações que suportassem.

Repare: o povo de Deus, em especial seus ministros, é testemunha dele (Isaías 43:10), não só no trabalho que realiza, mas também no sofrimento que suporta. Por isso são chamados de mártires, testemunhas de Cristo que atestam a certeza e o valor indiscutíveis de suas verdades. Por testemunharem a favor dele, testemunham contra os que se opõem a ele e ao seu evangelho.

Os sofrimentos dos mártires, assim como testemunham a verdade do evangelho que professam, também testemunham a inimizade dos perseguidores. Dos dois modos, constituem um testemunho contra eles e serão apresentados como prova no grande dia, quando os santos julgarão o mundo. A razão da sentença será: “Visto que fizestes isso a estes, a mim o fizestes”.

Se os sofrimentos são um testemunho, com quanta alegria devem ser suportados! Pois o testemunho não estará concluído até que cheguem aqueles acontecimentos (Apocalipse 11:7). Se forem testemunhas de Cristo, certamente ele custeará suas despesas.

[2.] Em todas as ocasiões teriam a presença especial de Deus e a ajuda direta do seu Espírito Santo, sobretudo quando fossem chamados a testemunhar perante governadores e reis. “Naquela mesma hora vos será dado o que haveis de dizer”, disse Cristo.

Seus discípulos foram escolhidos entre os que o mundo considera insensatos; eram homens sem instrução e conhecimento formal. Por isso, podiam, com razão, desconfiar de sua capacidade, sobretudo quando fossem chamados perante homens poderosos.

Quando Moisés foi enviado ao faraó, queixou-se: “Não sou eloquente” (Êxodo 4:10). Quando Jeremias foi posto sobre os reinos, objetou: “Sou apenas uma criança” (Jeremias 1:6, 10).

Em resposta a essa objeção, em primeiro lugar, lhes é prometido que receberiam o que dizer, não algum tempo antes, mas naquela mesma hora. Falariam sem preparo prévio e, ainda assim, de maneira tão adequada ao propósito quanto se tivessem estudado muito bem as palavras.

Repare: quando Deus nos chama a falar por ele, podemos confiar que nos ensinará o que dizer, mesmo quando enfrentamos as maiores desvantagens e os maiores desânimos. Em segundo lugar, recebem a garantia de que o bendito Espírito formularia sua defesa: “Não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai, que fala em vós” (v. 20).

Não foram deixados à própria sorte nessa ocasião; Deus assumiu sua causa. Seu Espírito de sabedoria falava neles, assim como, às vezes, sua providência falava por eles de modo maravilhoso. Por ambos os meios, eles se tornavam evidentes até à consciência dos perseguidores. Deus lhes concedeu capacidade não só para falar de maneira apropriada, mas para dizer tudo com santo zelo.

O mesmo Espírito que os auxiliava no púlpito os auxiliava no tribunal. Quem tem tal defensor só pode sair-se bem. A eles Deus diz o que disse a Moisés (Êxodo 4:12): “Vai, e eu estarei com tua boca e com teu coração”.

[3.] “Quem perseverar até o fim será salvo” (v. 22). É muito consolador considerar aqui, em primeiro lugar, que essas tribulações terão fim. Podem durar muito, mas não durarão para sempre. Cristo se consolou com isso, e seus seguidores também podem fazê-lo: “As coisas que dizem respeito a mim têm fim” (Lucas 22:37). Dabit Deus his quoque finem: Deus também porá fim a essas coisas.

Repare: a perspectiva, pela fé, do fim das tribulações será de grande ajuda para nos sustentar durante elas. Os cansados descansarão quando os perversos deixarem de inquietá-los (Jó 3:17). Deus dará o fim esperado (Jeremias 29:11). As tribulações podem parecer intermináveis como os dias de um trabalhador contratado, mas, bendito seja Deus, não são eternas.

Em segundo lugar, enquanto durarem, poderão ser suportadas. Assim como não são eternas, tampouco são insuportáveis; é possível suportá-las até o fim, pois os que sofrem serão sustentados sob elas por braços eternos: a força será proporcional ao dia (1 Coríntios 10:13).

Em terceiro lugar, a salvação será a recompensa eterna de todos os que perseverarem até o fim. O tempo é tempestuoso e o caminho, lamacento, mas o prazer de chegar em casa compensará tudo. Em todas as épocas, a perspectiva, pela fé, da coroa da glória tem sido o remédio que fortalece e sustenta os santos sofredores (2 Coríntios 4:16-18; Hebreus 10:34).

Isso não é apenas incentivo para perseverar, mas também obrigação de perseverar até o fim. Os que aguentam apenas por algum tempo e caem quando chega a tentação correram em vão e perderam tudo o que haviam alcançado. Os que perseveram, porém, e somente eles, têm a certeza do prêmio. Seja fiel até a morte, e então terá a coroa da vida.

[4.] Por mais duro que seja o tratamento dispensado aos discípulos de Cristo, não é pior do que aquele que seu Mestre enfrentou antes deles (vv. 24-25). “O discípulo não está acima do mestre.” Encontramos essa afirmação como razão para não hesitarem em cumprir os deveres mais humildes, nem mesmo em lavar os pés uns dos outros (João 13:16).

Aqui, ela é dada como razão para não tropeçarem nos sofrimentos mais difíceis. A afirmação lhes é recordada em João 15:20.

É um provérbio: “O servo não é melhor do que seu senhor”; portanto, não deve esperar tratamento melhor. Repare: em primeiro lugar, Jesus Cristo é nosso Mestre, o Mestre que nos ensina, e somos seus discípulos para aprender dele.

É também nosso Senhor, que nos governa, e somos seus servos para obedecer-lhe. Ele é o Senhor da casa, oikodespotes, e tem autoridade absoluta sobre a igreja, que é sua família.

Em segundo lugar, Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre, recebeu do mundo um tratamento muito cruel. Chamaram-no de Belzebu, o deus das moscas, nome do chefe dos demônios, com quem diziam que ele mantinha um pacto. É difícil saber o que mais espanta: a maldade dos homens que assim insultaram Cristo ou a paciência de Cristo, que se deixou insultar dessa maneira.

O Deus da glória foi marcado como deus das moscas; o Rei de Israel, como deus de Ecrom; o Príncipe da luz e da vida, como príncipe dos poderes da morte e das trevas. O maior Inimigo e Destruidor de Satanás foi difamado como aliado dele e, ainda assim, suportou tamanha oposição dos pecadores.

Em terceiro lugar, considerar os maus-tratos que Cristo recebeu no mundo deve levar-nos a esperar, preparar-nos para suportar e aguentar com paciência tratamento semelhante.

Não consideremos estranho que os que o odiaram odeiem seus seguidores por causa dele, nem injusto que os que em breve serão semelhantes a ele na glória se tornem agora semelhantes a ele nos sofrimentos. Cristo bebeu primeiro do cálice amargo; estejamos dispostos a beber depois dele. Ao carregar a cruz, tornou-a mais leve para nós.

[5.] “Nada há encoberto que não venha a ser revelado” (v. 26). Entendemos isso, em primeiro lugar, como referência à revelação do evangelho ao mundo inteiro.

“Publiquem-no (v. 27), pois ele será publicado. As verdades que agora estão escondidas dos filhos dos homens como mistérios serão dadas a conhecer a todas as nações, na língua de cada uma” (Atos 2:11). Os confins da terra devem ver essa salvação.

Repare: é um grande incentivo para quem faz a obra de Cristo saber que ela certamente será realizada. É um arado que Deus fará avançar.

Ou, em segundo lugar, podemos entender a afirmação como referência à manifestação da inocência dos servos sofredores de Cristo, chamados de Belzebu. Seu verdadeiro caráter está agora maliciosamente encoberto por cores falsas, mas sua inocência e excelência, embora ocultas, serão reveladas.

Às vezes isso acontece em grande medida neste mundo, quando os acontecimentos posteriores fazem a justiça dos santos brilhar como a luz.

De todo modo, ocorrerá no grande dia, quando sua glória será manifesta ao mundo inteiro, anjos e homens, para quem agora servem de espetáculo (1 Coríntios 4:9). Todo o descrédito deles será removido, e suas graças e seus serviços, agora ocultos, serão revelados (1 Coríntios 4:5).

Repare: sob todas as calúnias e críticas humanas, o povo de Deus encontra consolo no fato de que, no último dia, haverá uma ressurreição dos nomes, além da ressurreição dos corpos, quando os justos brilharão como o sol. Que os ministros de Cristo revelem fielmente suas verdades e deixem a cargo dele revelar, no tempo devido, a integridade deles.

[6.] A providência de Deus acompanha de modo especial os santos em seus sofrimentos (vv. 29-31). É bom voltar aos nossos primeiros princípios, sobretudo à doutrina da providência universal de Deus, que se estende a todas as criaturas e a todos os seus atos, até os menores e mais insignificantes.

A luz da natureza nos ensina isso, e tal verdade consola todos os homens, especialmente os bons, que podem, pela fé, chamar esse Deus de Pai e sabem que ele cuida deles com ternura. Veja aqui:

Em primeiro lugar, a extensão geral da providência a todas as criaturas, até às menores e menos consideradas, aos pardais (v. 29). Esses pequenos animais são tidos por tão insignificantes que um só não tem preço: é preciso ter dois para valer um quarto de pêni; na verdade, pode-se comprar cinco por meio pêni (Lucas 12:6).

Ainda assim, não ficam fora do cuidado divino: “Nenhum deles cairá em terra sem vosso Pai”. Isso significa:

  1. Eles não pousam no chão em busca de alimento, para apanhar um grão de cereal, sem que o Pai celestial, por sua providência, o tenha posto à disposição deles. Na passagem paralela, Lucas 12:6, diz-se: “Nenhum deles é esquecido diante de Deus”; não são esquecidos a ponto de ficar sem sustento. Ele os alimenta (Mateus 6:26). Ora, quem alimenta os pardais não deixará os santos morrer de fome.

  2. Eles não caem mortos no chão, seja de morte natural, seja de morte violenta, sem que Deus o perceba. Embora representem uma parcela tão pequena da criação, até sua morte está sob o olhar da providência divina; muito mais a morte dos discípulos de Cristo.

Observe: as aves que voam alto, quando morrem, caem ao chão. A morte traz até os mais elevados de volta à terra. Alguns pensam que Cristo alude aqui aos dois pardais usados na purificação do leproso (Levítico 14:4-6). As duas aves são chamadas de pardais na margem do texto; uma delas era morta e, assim, caía ao chão, enquanto a outra era solta.

Parecia coisa do acaso qual das duas seria morta: as pessoas encarregadas escolhiam a que lhes agradasse. A providência de Deus, porém, havia planejado e determinado qual seria. Ora, esse Deus, que cuida tanto dos pardais por serem suas criaturas, cuidará muito mais de vocês, que são seus filhos.

Se um pardal não morre sem o Pai de vocês, muito menos um homem, um cristão, um ministro, meu amigo ou meu filho. Uma ave não cai na rede nem é atingida pelo tiro do caçador, nem acaba sendo vendida no mercado, senão conforme a direção da providência.

Seus inimigos, como caçadores astutos, armam-lhes laços e disparam contra vocês às escondidas. Mas não podem capturá-los nem atingi-los sem a permissão de Deus. Portanto, não tenham medo da morte: seus inimigos não têm contra vocês outro poder além daquele que lhes é dado do alto.

Deus pode quebrar os arcos e as armadilhas deles (Salmos 38:12-15; 64:4, 7) e fazer nossa alma escapar como uma ave (Salmos 124:7). “Não temais, pois” (v. 31). Repare: a doutrina da providência de Deus basta para calar todos os temores de seu povo: “Valeis mais do que muitos pardais”.

Isso é verdade a respeito de todos os homens, pois as demais criaturas foram feitas para o ser humano e postas debaixo de seus pés (Salmos 8:6-8). É ainda mais verdadeiro a respeito dos discípulos de Jesus Cristo, os excelentes da terra, por mais desprezados que sejam, como se não valessem nem um pardal.

Em segundo lugar, o conhecimento particular que a providência tem dos discípulos de Cristo, sobretudo em seus sofrimentos (v. 30): “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. É uma expressão proverbial que descreve a atenção com que Deus observa e acompanha tudo o que diz respeito a seu povo, até os detalhes mais miúdos e menos notados.

Isso não deve provocar investigações curiosas, mas incentivar-nos a viver em dependência contínua do cuidado providencial de Deus, que se estende a todos os acontecimentos sem diminuir a glória infinita nem perturbar o repouso infinito da Mente Eterna. Se Deus conta os cabelos deles, com muito mais razão conta suas cabeças e cuida da vida, do bem-estar e da alma de cada um.

A expressão indica que Deus cuida deles mais do que eles próprios cuidam de si. Preocupam-se em contar dinheiro, bens e gado, mas nunca se preocupam em contar os cabelos, que caem e se perdem sem que deem por falta deles. Deus, porém, conta os cabelos de seu povo, e nem um cabelo da cabeça deles perecerá (Lucas 21:18).

Nem o menor prejuízo lhes será causado sem que haja um propósito valioso: tão preciosos são para Deus seus santos, sua vida e sua morte!

[7.] Em breve, no dia do triunfo, Cristo reconhecerá aqueles que agora o reconhecem no dia da provação; os que o negam serão para sempre desconhecidos e rejeitados por ele (vv. 32-33). Repare: em primeiro lugar, confessar Cristo diante dos homens é nosso dever. Se o cumprirmos, será depois uma honra e uma felicidade indescritíveis.

  1. Nosso dever é não apenas crer em Cristo, mas professar essa fé tanto ao sofrer por ele, quando somos chamados a isso, quanto ao servi-lo. Nunca devemos nos envergonhar da nossa relação com Cristo, de segui-lo nem do que esperamos dele. Assim ficam demonstradas a sinceridade da fé, a glória de seu nome e a edificação de outras pessoas.

  2. Embora agora isso possa nos expor à desonra e às tribulações, seremos abundantemente recompensados na ressurreição dos justos. Será nossa honra e felicidade indescritíveis ouvir Cristo dizer (que mais poderíamos desejar?):

“Eu o confessarei, embora seja um verme pobre e sem valor da terra. Ele é um dos meus, um dos meus amigos e favoritos, que me amou e foi amado por mim; foi comprado com meu sangue e formado pelo meu Espírito. Eu o confessarei diante de meu Pai, quando isso mais o beneficiará.”

“Falarei em favor dele quando comparecer diante de meu Pai para receber sua sentença. Eu o apresentarei e o representarei diante de meu Pai.” Cristo honrará dessa maneira os que o honram. Eles o honram diante dos homens, o que é pouca coisa; ele os honrará diante de seu Pai, o que é uma grande coisa.

Em segundo lugar, é perigoso negar e renegar Cristo diante dos homens. Os que assim procedem serão renegados por ele no grande dia, quando mais precisarem dele. Ele não reconhecerá como servos os que não quiseram reconhecê-lo como Senhor: “Eu vos digo que não vos conheço” (Mateus 7:23).

Nos primeiros séculos do cristianismo, confessar Cristo significava arriscar tudo o que era precioso neste mundo. Por isso, essa confissão punha a sinceridade à prova mais do que em épocas posteriores, quando vieram a acompanhá-la vantagens terrenas.

[8.] O discipulado deles foi estabelecido sobre uma disposição que lhes tornaria os sofrimentos leves e fáceis. Cristo os recebeu como seguidores sob a condição de estarem preparados para sofrer (vv. 37-39). Desde o princípio, disse-lhes que não seriam dignos dele se não estivessem dispostos a renunciar a tudo por sua causa.

As pessoas não hesitam diante das dificuldades inevitáveis de uma profissão quando já contavam com elas ao assumi-la. Ou se submetem alegremente a esses trabalhos e tribulações, ou renunciam aos privilégios e benefícios dessa profissão.

Na profissão cristã, são considerados indignos de sua dignidade e felicidade aqueles que não valorizam o próprio vínculo com Cristo a ponto de preferi-lo a todos os outros interesses. Não podem esperar o lucro de um acordo aqueles que não aceitam suas condições.

Eis como se estabelecem as condições: se a religião vale alguma coisa, vale tudo. Por isso, todos os que creem na verdade dela logo aceitarão seu preço, e aqueles que fazem dela sua ocupação e felicidade subordinarão tudo o mais a ela. Os que não querem Cristo nessas condições podem deixá-lo, correndo o próprio risco.

Repare: é muito animador pensar que, seja o que for que deixemos, percamos ou soframos por Cristo, não fazemos um acordo prejudicial para nós mesmos. Seja o que for que entreguemos por essa pérola de grande valor, podemos nos consolar com a certeza de que ela vale bem o preço pago. A condição é dar preferência a Cristo:

Em primeiro lugar, acima dos parentes mais próximos e queridos: pai ou mãe, filho ou filha. Entre esses parentes, como há pouco espaço para a inveja, costuma haver mais espaço para o amor. Por isso são apresentados como os relacionamentos que mais provavelmente nos comoverão.

Os filhos devem amar os pais, e os pais devem amar os filhos; mas, se os amarem mais do que a Cristo, não serão dignos dele. Assim como o ódio dos parentes, do qual ele falou (v. 21, 35, 36), não deve nos afastar de Cristo, tampouco o amor deles deve nos desviar dele. Os cristãos devem agir como Levi, que disse ao pai: “Não o vi” (Deuteronômio 33:9).

Em segundo lugar, acima do conforto e da segurança. Devemos tomar nossa cruz e segui-lo; de outro modo, não somos dignos dele. Observe aqui: 1. Os que desejam seguir Cristo devem esperar sua cruz e tomá-la. 2. Ao tomar a cruz, devemos seguir o exemplo de Cristo e carregá-la como ele a carregou.

  1. Quando encontramos cruzes, temos grande incentivo em saber que, ao carregá-las, seguimos Cristo, que nos mostrou o caminho. Se o seguirmos fielmente, ele nos conduzirá, através de sofrimentos semelhantes aos dele, até partilharmos da sua glória.

Em terceiro lugar, acima da própria vida (v. 39). “Quem acha sua vida a perderá”: aquele que pensa tê-la encontrado por preservá-la ao negar Cristo a perderá na morte eterna. Mas “quem perde a vida por causa de Cristo”, preferindo entregar a vida a negá-lo, “a achará”: receberá, para seu benefício indescritível, a vida eterna.

Estão mais preparados para a vida futura aqueles que menos se prendem à vida presente.

[9.] O próprio Cristo abraçará tão sinceramente a causa dos discípulos que se mostrará amigo de todos os amigos deles e retribuirá cada bondade que lhes for feita (vv. 40-42). “Quem vos recebe, a mim me recebe.”

Em primeiro lugar, fica implícito que, embora a maioria os rejeitasse, encontrariam alguns que os receberiam e hospedariam. Essas pessoas acolheriam a mensagem no coração e os mensageiros em casa por causa dela.

Para que foi aberto o mercado do evangelho, senão para que, se alguns não o aceitarem, outros o façam? Mesmo nos piores tempos há um remanescente conforme a eleição da graça. Os ministros de Cristo não trabalharão em vão.

Em segundo lugar, Jesus Cristo toma como feito a si mesmo tudo o que se faz a seus ministros fiéis, seja bondade, seja maldade, e considera que ele próprio recebe o tratamento dispensado a eles. “Quem vos recebe, a mim me recebe.” Honra ou desprezo dirigidos a um embaixador refletem honra ou desprezo sobre o príncipe que o enviou; os ministros são embaixadores de Cristo.

Veja como Cristo ainda pode ser acolhido por aqueles que desejam demonstrar-lhe respeito. Seu povo e seus ministros estão sempre conosco; e ele está sempre com eles, até o fim do mundo. Ou melhor, a honra sobe mais alto: “Quem me recebe, recebe aquele que me enviou”. Cristo não só toma essas ações como feitas a ele; por meio de Cristo, Deus também as toma assim.

Ao acolher os ministros de Cristo, não acolhem anjos sem o saber, mas Cristo e, mais ainda, o próprio Deus, também sem o saber, como mostra Mateus 25:37: “Quando te vimos com fome?”

Em terceiro lugar, por menor que seja a bondade feita aos discípulos de Cristo, ela será aceita se houver necessidade e não houver recursos para fazer mais, ainda que seja apenas dar um copo de água fria a um desses pequeninos (v. 42). São pequeninos, pobres e fracos; muitas vezes necessitam de alívio e se alegram com o mínimo. Em situações extremas, um copo de água fria pode ser um grande favor.

Repare: as bondades feitas aos discípulos de Cristo são avaliadas nos registros de Cristo não pelo custo do presente, mas pelo amor e afeto de quem o oferece. Por esse critério, a pequena moeda da viúva não apenas foi aceita como recebeu alto valor (Lucas 21:3, 4). Assim, os que são verdadeiramente ricos em graças podem também ser ricos em boas obras, ainda que sejam pobres neste mundo.

Em quarto lugar, a bondade para com os discípulos de Cristo que ele aceita deve ter Cristo em vista e ser feita por sua causa. Um profeta deve ser recebido em nome de profeta; um justo, em nome de justo; e um desses pequeninos, em nome de discípulo.

Isso não se deve fazer porque são instruídos ou espirituosos, nem porque são nossos parentes ou vizinhos, mas porque são justos e, assim, trazem a imagem de Cristo; porque são profetas e discípulos e, assim, foram enviados por Cristo.

É a consideração a Cristo pela fé que confere valor aceitável às bondades feitas a seus ministros. Cristo não se envolve nessa questão, a menos que primeiro o envolvamos nela.

Ut tibi debeam aliquid pro eo quod præstas, debes non tantum mihi præstare, sed tanquam mihi: se você deseja que eu me sinta em dívida por algum serviço prestado, não basta prestá-lo; é preciso convencer-me de que o faz por minha causa. Sêneca.


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