Matthew Henry

Marcos 7

Argumento

Neste capítulo temos: I. A controvérsia de Cristo com os escribas e fariseus sobre comer alimentos sem lavar as mãos (vv. 1-13), e as instruções necessárias que deu ao povo nessa ocasião e explicou mais detalhadamente aos discípulos (vv. 14-23). II. A cura da filha endemoninhada da mulher cananeia (vv. 24-30). III. O socorro a um homem surdo que tinha dificuldade para falar (vv. 31-37).

Versículos 1 a 23

As Tradições dos Anciãos; A Pior Mácula Vem de Dentro.

Um grande desígnio da vinda de Cristo era pôr de lado a lei cerimonial que Deus fizera e acabar com ela. Para abrir caminho para isso, ele começa pela lei cerimonial que os homens haviam feito e acrescentado à lei feita por Deus, e libera os seus discípulos da obrigação de cumpri-la.

Aqui ele faz isso plenamente, por ocasião da ofensa que os fariseus sentiram contra eles pela violação dessa lei. Diz-se que esses fariseus e escribas, com quem ele teve essa controvérsia, desceram de Jerusalém à Galileia, oitenta ou cem milhas, para procurar desavenças com o nosso Salvador ali, onde supunham que ele tivesse a maior influência e reputação.

Se tivessem vindo de tão longe para serem ensinados por ele, o seu zelo teria sido elogiável. Mas vir de tão longe para se opor a ele e deter o progresso do seu evangelho era grande perversidade.

Ao que parece, os escribas e fariseus de Jerusalém alegavam não só uma preeminência acima do clero do interior, mas uma autoridade sobre ele. Por isso mantinham as suas visitações e enviavam inquisidores para o meio deles, como fizeram com João quando ele apareceu, João 1:19.

Agora, nesta passagem podemos observar:

I. Qual era a tradição dos anciãos: por ela, todos recebiam a ordem de lavar as mãos antes de comer. Um costume asseado, sem prejuízo algum; e, contudo, ser excessivamente meticuloso nisso, mesmo como costume, revela um zelo grande demais pelo corpo, que é da terra.

Mas eles punham a religião nisso e não queriam deixá-lo indiferente, como era por sua própria natureza. As pessoas tinham liberdade para fazê-lo ou não; mas eles interpunham a sua autoridade e ordenavam que todos o fizessem sob pena de excomunhão. Mantinham isso como tradição dos anciãos.

Os papistas alegam zelo pela autoridade e antiguidade da igreja e dos seus cânones, e falam muito de concílios e pais, quando, na realidade, só o zelo pela sua própria riqueza, influência e domínio os governa. Assim era com os fariseus.

Temos aqui um relato da prática dos fariseus e de todos os judeus, v. 3, 4:

  1. Lavavam as mãos frequentemente; lavavam-nas, pygme. Os críticos encontram muito trabalho nessa palavra, alguns entendendo que ela denota a frequência das suas lavagens (assim a traduzimos); outros pensam que significa o esforço que faziam ao lavar as mãos.

Lavavam com grande zelo, lavavam as mãos até os pulsos (assim entendem alguns); levantavam as mãos quando estavam molhadas, para que a água pudesse correr até os seus cotovelos.

  1. Lavavam-se particularmente antes de comer pão, isto é, antes de se sentarem para uma refeição solene; pois essa era a regra. Deviam assegurar-se de lavar as mãos antes de comer o pão sobre o qual pediam uma bênção.

“Quem come o pão sobre o qual recitam a bênção, Bendito seja aquele que produz pão, deve lavar as mãos antes e depois”, ou então era considerado maculado.

  1. Tinham zelo especial em lavar as mãos quando voltavam dos mercados; dos tribunais, segundo alguns. Significa qualquer lugar de reunião onde houvesse pessoas de toda espécie e, podia-se supor, alguns pagãos ou judeus sob uma contaminação cerimonial, por se aproximarem dos quais julgavam estar contaminados.

Diziam: “Fica à parte, não te aproximes de mim, sou mais santo do que tu”, Isaías 65:5. Dizem que a regra dos rabinos era que, se lavassem bem as mãos pela manhã, como a primeira coisa que fizessem, isso serviria para o dia inteiro, desde que permanecessem sozinhos.

Mas, se fossem para alguma companhia, ao voltar não deviam nem comer nem orar até terem lavado as mãos. Assim os anciãos ganhavam uma reputação de santidade entre o povo, e assim exerciam e mantinham autoridade sobre as suas consciências.

  1. Acrescentavam a isso a lavagem de copos, potes e vasos de bronze, que suspeitavam terem sido usados por pagãos ou pessoas contaminadas. Ou melhor: até das próprias mesas sobre as quais comiam o seu alimento.

Havia muitos casos em que, pela lei de Moisés, lavagens eram designadas; mas eles acrescentavam outras e impunham a observância das suas próprias imposições tanto quanto a das instituições de Deus.

II. Qual era a prática dos discípulos de Cristo: eles conheciam a lei e o uso comum; mas compreendiam tão bem a sua própria posição que não queriam ficar presos a isso. Comiam pão com mãos maculadas, isto é, não lavadas, v. 2.

Chamavam comer com mãos não lavadas de comer com mãos maculadas. Assim os homens mantêm as suas vaidades supersticiosas, dando um nome ruim a tudo que as contradiz.

Os discípulos sabiam (é provável) que os fariseus estavam de olho neles, e, contudo, não queriam agradá-los pela conformidade com as suas tradições, mas usavam a sua liberdade como em outras ocasiões e comiam pão com mãos não lavadas.

Nisso a sua justiça, por mais que pudesse parecer ficar aquém, realmente excedia a dos escribas e fariseus, Mateus 5:20.

III. A ofensa que os fariseus sentiram com isso: encontraram motivo de censura (v. 2). Censuraram-nos como profanos e homens de conduta dissoluta, ou antes, como homens que não queriam se submeter ao poder da igreja para decretar ritos e cerimônias, e que, por isso, eram rebeldes, facciosos e cismáticos.

Levaram uma queixa contra eles ao seu Mestre, esperando que ele os detivesse e lhes ordenasse que se conformassem. Pois aqueles que gostam das suas próprias invenções e imposições comumente estão prontos para recorrer a Cristo, como se ele lhes desse apoio e como se a sua autoridade devesse intervir para impô-las e repreender aqueles que não se conformam a elas.

Não perguntam: “Por que os seus discípulos não fazem como nós?” (Embora fosse isso que quisessem dizer, ambicionando fazer de si próprios o padrão.)

Mas: “Por que eles não andam segundo a tradição dos anciãos?” v. 5. A isso era fácil responder que, por receberem a doutrina de Cristo, tinham mais entendimento que todos os seus mestres, sim, e ainda mais que os antigos, Salmos 119:99, 100.

IV. A defesa deles por Cristo, na qual:

  1. Ele discute com os fariseus a autoridade pela qual essa cerimônia era imposta. Eles eram os mais apropriados para conversar sobre isso, pois eram os seus grandes defensores.

Mas ele não falou disso publicamente à multidão (como aparece ao chamar o povo para junto de si, v. 14), para que não parecesse incitá-los à facção e ao descontentamento com os seus governantes. Dirigiu, porém, essa censura às pessoas envolvidas; pois a regra é: Suum cuique, cada um tenha o que é seu.

(1.) Ele os censura pela sua hipocrisia ao alegarem honrar a Deus, quando, na realidade, não tinham tal desígnio nas suas observâncias religiosas (v. 6, 7). Honram-me com os seus lábios; alegam que é para a glória de Deus que impõem essas coisas, para se distinguirem dos pagãos.

Mas, na realidade, o seu coração está longe de Deus e é governado apenas pela ambição e pela cobiça. Queriam que, por isso, fossem considerados como quem se consagra ao Senhor, seu Deus, como povo santo, quando, na realidade, isso era a coisa mais distante do seu pensamento.

Contentavam-se com o exterior de todos os seus exercícios religiosos, e neles os seus corações não eram retos para com Deus, e isso era adorar a Deus em vão. Pois nem ele se agradava dessas devoções falsas, nem eles tiravam proveito delas.

(2.) Ele os censura por porem a religião nas invenções e ordens dos seus anciãos e governantes; ensinavam como doutrinas as tradições dos homens.

Quando deveriam insistir com o povo nos grandes princípios da religião, impunham os cânones da sua igreja e julgavam se as pessoas eram ou não judias conforme elas se conformassem ou não a eles, sem nenhuma consideração sobre se viviam ou não em obediência às leis de Deus.

Era verdade que havia diversas lavagens impostas pela lei de Moisés (Hebreus 9:10), destinadas a significar aquela purificação interior do coração, das concupiscências mundanas e carnais, que Deus exige como absolutamente necessária à nossa comunhão com ele.

Mas, em vez de proverem a substância, acrescentavam presunçosamente à cerimônia e eram muito meticulosos na lavagem de potes e copos. E observe, ele acrescenta: “Muitas outras coisas semelhantes fazeis”, v. 8. Repare: A superstição é uma coisa sem fim.

Se uma invenção e instituição humana for admitida, embora pareça tão inocente quanto se queira, como essa de lavar as mãos, eis que vem uma tropa, uma porta se abre para muitas outras coisas semelhantes.

(3.) Ele os censura por porem de lado o mandamento de Deus e o ignorarem, sem insistirem nele na sua pregação, e, na sua disciplina, serem coniventes com a sua violação, como se não tivesse mais força, v. 8. Repare: O dano das imposições é que, com muita frequência, aqueles que são zelosos por elas têm pouco zelo pelos deveres essenciais da religião.

Mas podem vê-los postos de lado com satisfação. Ou melhor: rejeitavam o mandamento de Deus, v. 9. Vocês realmente anulam e abolem o mandamento de Deus; e até pelas suas tradições tornam sem efeito a palavra de Deus, v. 13.

Os estatutos de Deus não só ficarão esquecidos, como leis antiquadas e obsoletas, mas, na prática, ficarão revogados, para que as suas tradições possam vigorar. A eles fora confiado expor a lei e impô-la; e, sob a alegação de usar esse poder, violavam a lei e dissolviam as suas amarras, destruindo o texto com o comentário.

Ele lhes dá um exemplo particular disso, e um flagrante: Deus ordenou que os filhos honrassem os seus pais, não só pela lei de Moisés, mas, antes dela, pela lei da natureza. E quem vituperar, ou falar mal de pai ou mãe, “morra a morte”, v. 10.

Daí é fácil inferir que é dever dos filhos, se os seus pais forem pobres, socorrê-los conforme a sua capacidade. E se aqueles filhos que amaldiçoam os seus pais são dignos de morrer, muito mais aqueles que os fazem morrer de fome.

Mas, se um homem ao menos se conformar em todos os pontos à tradição dos anciãos, eles lhe encontrarão um expediente pelo qual possa ser liberado dessa obrigação, v. 11.

Se os seus pais estiverem passando necessidade e ele tiver com que ajudá-los, mas não tiver vontade de fazê-lo, jure pelo Corbã, isto é, pelo ouro do templo e pela oferta sobre o altar, que os seus pais não tirarão proveito dele, que não os socorrerá.

E, se lhe pedirem qualquer coisa, diga-lhes isso, e basta; como se, pela obrigação desse voto perverso, tivesse se liberado da obrigação da santa lei de Deus. Assim o entende o dr. Hammond; e diz-se que um antigo cânon dos rabinos estabelecia que os votos têm validade em coisas ordenadas pela lei, assim como em coisas indiferentes.

De modo que, se um homem fizer um voto que não possa ser ratificado sem quebrar um mandamento, o voto deve ser ratificado e o mandamento violado; assim o dr. Whitby. Uma doutrina como essa é ensinada pelos papistas, liberando os filhos de toda obrigação para com os seus pais pelos seus votos monásticos e pela sua entrada na religião, como a chamam.

Ele conclui: “E muitas coisas semelhantes fazeis”. Onde os homens pararão, uma vez que tenham feito a palavra de Deus ceder à sua tradição?

Esses ávidos impositores de tais cerimônias, a princípio, só faziam pouco caso dos mandamentos de Deus em comparação com as suas tradições, mas depois tornavam nulos os mandamentos de Deus, se estes estivessem em disputa com elas.

Tudo isso, na prática, Isaías profetizou a respeito deles. O que ele disse dos hipócritas do seu próprio tempo era aplicável aos escribas e fariseus, v. 6.

Repare: Quando vemos e nos queixamos da perversidade dos tempos presentes, não examinamos com sabedoria o assunto se dissermos que todos os dias anteriores foram melhores que estes, Eclesiastes 7:10. Os piores hipócritas e malfeitores tiveram os seus predecessores.

  1. Ele instrui o povo sobre os princípios nos quais essa cerimônia se fundamentava. Era necessário que essa parte do seu discurso fosse pública, pois se relacionava à prática diária e destinava-se a corrigir um grande engano ao qual o povo fora levado pelos seus anciãos.

Por isso chamou o povo para junto de si (v. 14) e lhes ordenou que ouvissem e entendessem. Repare: Não basta que o povo comum ouça, mas deve entender o que ouve.

Quando Cristo quis derrubar a tradição dos fariseus sobre lavar-se antes de comer, atacou a opinião que era a sua raiz. Repare: Costumes corruptos são mais bem curados pela correção de noções corruptas.

Agora, aquilo em que ele procura esclarecê-los é qual a contaminação pela qual corremos o perigo de sofrer estrago, v. 15:

(1.) Não pelo alimento que comemos, embora seja comido com mãos não lavadas; ele só vem de fora e passa através de um homem. Mas:

(2.) É pela manifestação da corrupção que está nos nossos corações. A mente e a consciência são maculadas, incorre-se em culpa, e nos tornamos odiosos aos olhos de Deus por aquilo que sai de nós: os nossos pensamentos e afetos perversos, palavras e ações; estes nos maculam, e só estes. O nosso zelo deve, por isso, ser lavar o nosso coração da perversidade.

  1. Ele dá aos seus discípulos, em particular, uma explicação das instruções que deu ao povo. Perguntaram-lhe, quando o tiveram sozinho, a respeito da parábola (v. 17); pois, para eles, ao que parece, era uma parábola. Agora, em resposta à sua investigação:

(1.) Ele censura a sua lentidão: “Também sois assim sem entendimento? Também sois lentos, tão lentos quanto o povo que não pode entender, tão lentos quanto os fariseus que não querem? Sois assim tão lentos?” Ele não espera que entendam tudo: “Mas sois tão fracos que não entendeis isto?”

(2.) Ele lhes explica essa verdade, para que pudessem percebê-la, e então creriam nela, pois trazia consigo a sua própria evidência. Algumas verdades provam a si próprias, se ao menos forem corretamente explicadas e apreendidas.

Se entendermos a natureza espiritual de Deus e da sua lei, e o que é ofensivo a ele e nos torna inadequados para a comunhão com ele, logo perceberemos:

[1.] Que aquilo que comemos e bebemos não pode nos macular a ponto de exigir alguma lavagem religiosa. Vai para o estômago e passa pelas diversas digestões e secreções que a natureza designou, e o que possa haver nele de maculador é evacuado e desaparece.

Os alimentos para o ventre, e o ventre para os alimentos, mas Deus destruirá tanto um quanto os outros. Mas:

[2.] É aquilo que sai do coração, do coração corrupto, que nos macula. Assim como, pela lei cerimonial, tudo (quase) que sai de um homem o macula (Levítico 15:2; Deuteronômio 23:13), assim aquilo que sai da mente de um homem é o que o macula diante de Deus e exige uma lavagem religiosa (v. 21).

“De dentro, do coração dos homens”, de cuja bondade eles se gabam, e que julgam ser a melhor parte deles, daí procede aquilo que macula, daí vem todo o dano.

Assim como uma fonte corrupta lança correntes corruptas, assim um coração corrupto lança raciocínios corruptos, apetites e paixões corruptos, e todas aquelas palavras e ações perversas que são produzidas por eles.

Diversos pormenores são especificados, como em Mateus. Tivemos um ali que não está aqui, e é dar falso testemunho; mas sete são mencionados aqui, para serem acrescentados àqueles que tivemos ali.

Primeiro, Cobiças, pois está no plural; pleonexiai, desejos imoderados de mais riqueza do mundo e das gratificações dos sentidos, e continuamente mais, continuamente clamando: Dá, dá. Por isso lemos de “um coração exercitado em práticas de cobiça”, 2 Pedro 2:14.

Segundo, Perversidade, poneriai; malícia, ódio e má vontade, um desejo de fazer dano e um prazer no dano feito.

Terceiro, Engano; que é perversidade coberta e disfarçada, para que possa ser cometida com maior segurança e eficácia.

Quarto, Lascívia; aquela imundícia e conversa insensata que o apóstolo condena; o olho cheio de adultério, e todas as carícias impudicas.

Quinto, O olho mau; o olho invejoso e o olho cobiçoso, ressentindo-se do bem que damos aos outros ou fazemos em favor deles (Provérbios 23:6), ou sentindo dor pelo bem que eles fazem ou desfrutam.

Sexto, Orgulho, hyperephania; exaltar-nos, na nossa própria presunção, acima dos outros, e olhar os outros de cima com escárnio e desprezo.

Sétimo, Insensatez, aphrosyne; imprudência, irreflexão. Alguns entendem isso especialmente como vanglória jactanciosa, que São Paulo chama de insensatez (2 Coríntios 11:1, 19), porque aqui ela está ligada ao orgulho. Eu antes a entendo como aquela precipitação ao falar e agir que é a causa de tanto mal.

Pensar mal é posto primeiro, como a fonte de todas as nossas faltas por ação, e não pensar é posto por último, como a fonte de todas as nossas faltas por omissão. A respeito de tudo isso, ele conclui (v. 23):

  1. Que vêm de dentro, da natureza corrupta, da mente carnal, do tesouro mau no coração. Com justiça se diz que o interior é pura perversidade; necessariamente deve ser assim, quando tudo isso vem de dentro.

  2. Que maculam o homem; tornam-no inapto para a comunhão com Deus, trazem uma mancha sobre a consciência; e, se não forem mortificados e arrancados pela raiz, excluirão os homens da nova Jerusalém, na qual nenhuma coisa impura entrará.

Versículos 24 a 30

A Mulher Siro-Fenícia.

Veja aqui:

I. Quão humildemente Cristo teve por bem ocultar-se. Nunca um homem foi tão aclamado como ele na Galileia.

Por isso, para nos ensinar que, embora não devamos recusar nenhuma oportunidade de fazer o bem, tampouco devemos ser ávidos por aplausos populares, levantou-se dali e foi às fronteiras de Tiro e Sidom.

Ali era pouco conhecido. E ali entrou, não numa sinagoga ou lugar de reunião, mas numa casa particular, e não queria que ninguém o soubesse, pois fora predito a seu respeito: “Não contenderá nem clamará, nem sua voz será ouvida nas ruas”.

Não que não estivesse disposto a pregar e curar aqui, assim como em outros lugares, mas para isso queria ser procurado. Repare: assim como há tempo de aparecer, assim há tempo de retirar-se.

Ou não queria ser conhecido porque estava nas fronteiras de Tiro e Sidom, entre gentios, aos quais não queria mostrar-se tão prontamente como às tribos de Israel, cuja glória ele seria.

II. Quão graciosamente, apesar disso, teve por bem manifestar-se. Embora não quisesse levar uma colheita de curas milagrosas àquelas partes, contudo, ao que parece, veio de propósito deixar cair um punhado, deixar cair esta única cura da qual temos aqui um relato.

Ele não podia ficar oculto, pois, embora uma vela possa ser posta debaixo de um alqueire, o sol não pode. Cristo era conhecido demais para ficar muito tempo incognito, oculto, em qualquer lugar.

O óleo de alegria com que era ungido, como o unguento da mão direita, se denunciaria, e encheria a casa com seu perfume. Os que tinham apenas ouvido sua fama não podiam conversar com ele sem logo dizer: “Este deve ser Jesus”. Agora observe:

  1. O apelo que lhe fez uma pobre mulher em angústia e perturbação. Era gentia, grega, estranha à comunidade de Israel, alheia à aliança da promessa. Era, por linhagem, siro-fenícia, e não era de modo algum prosélita da religião judaica.

Tinha uma filha, uma filha jovem, que estava possessa pelo diabo. Quão numerosas e dolorosas são as calamidades às quais as crianças pequenas estão sujeitas! Seu pedido era:

(1.) Muito humilde, insistente e importuno. Ela ouviu falar dele, veio e caiu aos seus pés. Repare: os que querem obter misericórdia de Cristo precisam lançar-se aos seus pés. Precisam confiar sua causa a ele, humilhar-se diante dele e entregar-se para ser governados por ele.

Cristo nunca afastou de si ninguém que caiu aos seus pés. Isso uma pobre alma trêmula pode fazer, que não tem ousadia e confiança para lançar-se nos seus braços.

(2.) Era muito particular. Ela lhe diz do que carecia. Cristo permitia que os pobres suplicantes falassem com ele com essa liberdade. Ela lhe suplicou que expulsasse o diabo da sua filha, v. 26.

Repare: a maior bênção que podemos pedir a Cristo em favor dos nossos filhos é que quebre o poder de Satanás, isto é, o poder do pecado, nas almas deles. E, particularmente, que expulse o espírito impuro, para que possam ser templos do Espírito Santo, e ele possa habitar neles.

  1. O desânimo que deu a este pedido (v. 27). Disse-lhe: “Deixa que primeiro os filhos se fartem; deixem que os judeus tenham todos os milagres realizados em seu favor de que precisam, eles que são, de modo particular, o povo escolhido de Deus”.

“E não se lance o que era destinado a eles àqueles que não são da família de Deus, e não têm aquele conhecimento dele, e participação nele, que eles têm. E que são como cães em comparação com eles, vis e profanos.”

“E que são como cães para eles, rosnando contra eles, rancorosos para com eles, e prontos para atacá-los.” Repare: onde Cristo sabe que a fé dos pobres suplicantes é forte, às vezes se agrada em prová-la, e levá-la ao limite.

Mas seu dizer: “Deixa que primeiro os filhos se fartem”, indica que havia misericórdia reservada para os gentios, e não distante. Pois os judeus já começavam a ficar empanturrados com o evangelho de Cristo, e alguns deles tinham desejado que saísse das suas fronteiras.

Os filhos começam a brincar com seu alimento, e suas sobras, aquilo que rejeitam, seriam um banquete para os gentios. Os apóstolos seguiram esta regra: “Deixa que primeiro os filhos se fartem, que os judeus tenham a primeira oportunidade; e, se suas almas fartas detestarem este favo de mel, eis que nos voltaremos para os gentios!”

  1. A volta que ela deu a esta palavra de Cristo, que era contra ela, e seu aproveitamento dela para torná-la favorável a si, v. 28. Ela disse: “Sim, Senhor, reconheço que é verdade que o pão dos filhos não deve ser lançado aos cães. Mas nunca lhes foram negadas as migalhas desse pão.”

“Ou melhor: isso lhes pertence, e lhes é concedido um lugar debaixo da mesa, para que possam estar prontos a recebê-las. Não peço um pão, não, nem mesmo um bocado, somente uma migalha; não me negues isso.”

Ela fala assim, não por desvalorizar a misericórdia, ou fazer pouco caso dela em si, mas por engrandecer a abundância de curas milagrosas com que ouvira que os judeus eram banquetados. Em comparação com elas, uma única cura era apenas como uma migalha.

Os gentios não vêm em multidões, como os judeus; eu venho sozinha. Talvez ela tivesse ouvido que Cristo recentemente alimentara cinco mil de uma vez. Depois disso, mesmo quando tinham recolhido os pedaços, não podia deixar de haver algumas migalhas sobrando para os cães.

  1. A concessão que Cristo então fez do seu pedido. Ela é assim humilde, assim fervorosa? “Por causa desta palavra, vai pelo teu caminho”; você terá aquilo que veio buscar; “o diabo saiu da tua filha” (v. 29).

Isso nos anima a orar e não desfalecer, a continuar perseverantes na oração, sem duvidar que conseguiremos o intento por fim. A visão no fim falará, e não mentirá.

Ao dizer que aquilo estava feito, Cristo efetivamente o realizou, assim como, em outras ocasiões, ao dizer: “Seja feito”. Pois (v. 30) ela voltou para casa confiando na palavra de Cristo de que sua filha estava curada. E assim constatou: o diabo tinha saído.

Repare: Cristo pode vencer Satanás à distância. E não foi só quando os endemoninhados o viram que cederam ao seu poder (como em Marcos 3:11), mas quando não o viram. Pois o Espírito do Senhor não está preso nem limitado.

Encontrou a filha sem se debater nem se agitar, mas deitada tranquilamente na cama, repousando e esperando a volta da mãe para alegrar-se com ela por estar tão bem.

Versículos 31 a 37

A Cura de uma Pessoa Surda e Muda.

Nosso Senhor Jesus raramente ficava muito tempo num lugar, pois sabia onde estava o seu trabalho e acompanhava as suas mudanças.

Quando curara a filha da mulher de Canaã, fizera o que tinha de fazer naquele lugar; por isso, deixou imediatamente aquela região e voltou para o mar da Galileia, em cujos arredores estava a sua residência habitual.

Contudo, não foi diretamente para lá, mas deu uma volta pelo meio da região da Decápolis, que ficava em sua maior parte do outro lado do Jordão. Nosso Senhor Jesus fazia caminhadas tão longas quando andava fazendo o bem.

Agora, temos aqui a história de uma cura que Cristo realizou, que não é registrada por nenhum outro dos evangelistas; é a de alguém que era surdo e mudo.

I. O caso dele era triste, v. 32. Houve quem lhe trouxesse alguém que era surdo; alguns pensam que nascera surdo, e então naturalmente devia ser mudo. Outros pensam que, por alguma doença ou desastre, ele se tornara surdo ou, pelo menos, duro de ouvido; e tinha um impedimento na sua fala.

Era mogilalos; alguns pensam que era completamente mudo; outros, que só conseguia falar com grande dificuldade para si próprio, e de modo que mal fosse entendido por aqueles que o ouviam.

Tinha a língua presa, de modo que era perfeitamente inapto para a conversa, e privado tanto do prazer quanto do proveito dela. Não tinha a satisfação, quer de ouvir outras pessoas falarem, quer de dizer o que ele próprio pensava.

Aproveitemos essa ocasião para agradecer a Deus por nos preservar o sentido da audição, especialmente para que possamos ouvir a palavra de Deus; e a faculdade da fala, especialmente para que possamos falar os louvores de Deus. E olhemos com compaixão para aqueles que são surdos ou mudos e tratemo-los com grande ternura.

Os que levaram esse pobre homem a Cristo suplicaram-lhe que pusesse a sua mão sobre ele, como os profetas faziam com aqueles a quem abençoavam em nome do Senhor.

Não se diz que lhe suplicaram que o curasse, mas que pusesse a sua mão sobre ele, para tomar conhecimento do seu caso e exercer o seu poder para fazer por ele o que tivesse por bem.

II. A sua cura foi solene, e algumas das suas circunstâncias foram singulares:

  1. Cristo o levou à parte, afastando-o da multidão, v. 33. Em geral, realizava os seus milagres publicamente, diante de todo o povo, para mostrar que suportariam o escrutínio e a inspeção mais rigorosos.

Mas fez este em particular, para mostrar que não buscava a sua própria glória e para nos ensinar a evitar tudo que tenha sabor de ostentação. Aprendamos de Cristo a ser humildes e a fazer o bem onde nenhum olho vê, a não ser o daquele que é todo olho.

  1. Ao realizar essa cura, usou ações mais significativas que de costume:

(1.) Pôs os seus dedos nos ouvidos dele, como se fosse lavá-los com uma seringa e tirar aquilo que os obstruía.

(2.) Cuspiu no seu próprio dedo e então tocou a língua dele, como se fosse umedecer a sua boca e assim soltar aquilo com que a sua língua estava presa.

Essas coisas não eram causas que pudessem contribuir minimamente para a sua cura, mas apenas sinais do exercício daquele poder que Cristo tinha em si para curá-lo, para animar a fé dele e a dos que o trouxeram.

A aplicação partiu toda dele próprio; foram os seus próprios dedos que pôs nos ouvidos dele, e a sua própria saliva que pôs na língua dele; pois só ele cura.

  1. Olhou para o céu, para dar ao seu Pai o louvor pelo que fazia; pois buscava o louvor do Pai e fazia a vontade do Pai, e, como Mediador, agia em dependência dele e com os olhos voltados para ele.

Assim significou que fazia isso por um poder divino, um poder que tinha como o Senhor vindo do céu e que trouxera consigo de lá. Pois o Senhor fez o ouvido que ouve e o olho que vê, e pode até refazer ambos.

Também, por isso, orientou o seu paciente, que podia ver, embora não pudesse ouvir, a olhar para o céu em busca de socorro. Moisés, com a sua língua gaguejante, é orientado a olhar nessa direção (Êxodo 4:11): “Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo ou o surdo, ou o que vê ou o cego? Não fui eu, o Senhor?”

  1. Ele suspirou, não como se encontrasse alguma dificuldade para realizar esse milagre ou obter do seu pai poder para fazê-lo. Mas assim expressou a sua compaixão pelas misérias da vida humana e a sua simpatia para com os aflitos nas suas aflições, como alguém que, ele próprio, era tocado pelo sentimento das suas fraquezas.

E, quanto a esse homem, suspirou, não porque estivesse pouco disposto a lhe fazer essa bondade ou a fizesse com relutância. Mas suspirou por causa das muitas tentações às quais ele ficaria exposto, e dos pecados de que correria perigo, os pecados da língua, depois da restauração da sua fala, dos quais antes estava livre.

Seria melhor continuar com a língua presa, a menos que tivesse graça para guardar a sua boca como com um freio, Salmos 39:1.

  1. Disse: “Ephphatha”, isto é, “Abre-te”. Isso não tinha nada que parecesse feitiço ou encantamento, como os que usavam aqueles que tinham espíritos familiares, que piavam e murmuravam, Isaías 8:19.

Cristo fala como alguém que tem autoridade, e o poder acompanhava a palavra. “Abre-te” servia às duas partes da cura: “Abram-se os ouvidos, abram-se os lábios, ouça e fale ele livremente, e seja retirada a restrição”.

E o efeito correspondeu (v. 35); “Imediatamente os seus ouvidos se abriram, e o cordão da sua língua foi solto”, e tudo estava bem. E feliz aquele que, assim que teve a sua audição e fala, teve o bendito Jesus tão perto dele para conversar com ele.

Agora, essa cura foi:

(1.) Uma prova de que Cristo era o Messias; pois fora predito que, pelo seu poder, os ouvidos dos surdos seriam desimpedidos e a língua dos mudos seria levada a cantar, Isaías 35:5, 6.

(2.) Foi uma amostra das operações do seu evangelho sobre as mentes dos homens. A grande ordem do evangelho e da graça de Cristo aos pobres pecadores é Ephphatha, “Abre-te”.

Grotius aplica-a assim: que os impedimentos internos da mente são removidos pelo Espírito de Cristo, como aqueles impedimentos corporais foram pela palavra do seu poder.

Ele abre o coração, como fez com o de Lídia, e por isso abre o ouvido para receber a palavra de Deus e abre a boca em oração e louvores.

  1. Ordenou que isso fosse mantido muito em particular, mas foi tornado muito público:

(1.) Foi a sua humildade que o levou a ordenar-lhes que não contassem a ninguém, v. 36. A maioria dos homens proclamará a sua própria bondade ou, pelo menos, desejará que outros a proclamem.

Mas Cristo, embora ele próprio não corresse perigo de se ensoberbecer com isso, sabendo que nós corremos, queria assim nos dar um exemplo de abnegação, como em outras coisas, assim especialmente no louvor e no aplauso. Devemos ter prazer em fazer o bem, mas não em que isso seja conhecido.

(2.) Foi o zelo deles que, embora ele lhes ordenasse não dizer nada a respeito, ainda assim os levou a divulgá-lo, antes que Cristo quisesse que fosse divulgado. Mas tinham intenções honestas, e por isso, deve ser considerado antes um ato de indiscrição que um ato de desobediência, v. 36.

Mas aqueles que contaram e aqueles que ouviram ficaram espantados além da medida, hyperperissos, mais que acima da medida. Ficaram extraordinariamente impressionados com isso, e todos diziam isto, era o veredito comum: “Ele fez todas as coisas bem” (v. 37).

Ao passo que havia aqueles que o odiavam e perseguiam como malfeitor, eles estão prontos a testemunhar em favor dele, não só que não fez mal algum, mas que fez muito bem, e o fez bem, com modéstia e humildade e com muita devoção, e tudo de graça, sem dinheiro e sem preço, o que acrescentou muito ao brilho das suas boas obras.

“Faz tanto os surdos ouvirem quanto os mudos falarem”; e isso é bom, é bom para eles, é bom para os seus parentes, para quem tinham sido um fardo; e por isso são indesculpáveis aqueles que falam mal dele.


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