Matthew Henry

Marcos 6

Argumento

Temos neste capítulo uma grande variedade de passagens dignas de observação a respeito do nosso Senhor Jesus. A substância de todas elas tivemos antes em Mateus, mas temos diversas circunstâncias que não encontramos ali. Aqui está:

I. Cristo desprezado pelos seus conterrâneos, porque era um deles, e conheciam, ou pensavam conhecer, sua origem, vv. 1-6.

II. A legítima autoridade que deu aos seus apóstolos sobre espíritos impuros, e um relato da atuação deles, vv. 7-13.

III. Uma estranha noção que Herodes e outros tinham de Cristo, ocasião em que temos a história do martírio de João Batista, vv. 14-29.

IV. O retiro de Cristo para um lugar deserto com seus discípulos; as multidões que o seguiram até lá para receber instrução dele; e a alimentação de cinco mil pessoas por Cristo com cinco pães e dois peixes, vv. 30-44.

V. O andar de Cristo sobre o mar até seus discípulos, e a abundância de curas que realizou do outro lado da água, vv. 45-56.

Versículos 1 a 6

O Desprezo Derramado sobre Cristo.

Aqui:

I. Cristo faz uma visita à sua própria terra, o lugar não do seu nascimento, mas da sua educação. Essa era Nazaré, onde estavam seus parentes. Ele tinha corrido perigo de vida entre eles (Lucas 4:29), e contudo veio para junto deles novamente.

De modo tão extraordinário ele espera para conceder graça e busca a salvação dos seus inimigos. Aonde ele ia, mesmo quando corria perigo, seus discípulos o seguiam (v. 1). Tinham deixado tudo para segui-lo aonde quer que fosse.

II. Ali pregou na sinagoga deles, no dia de sábado, v. 2. Parece que ali não havia tanta afluência a ele como em outros lugares, de modo que não teve oportunidade de pregar até que se reuniram no dia de sábado. E então expôs uma porção da Escritura com grande clareza.

Nas assembleias religiosas, nos dias de sábado, a palavra de Deus deve ser pregada segundo o exemplo de Cristo. Damos glória a Deus recebendo instrução dele.

III. Eles não podiam deixar de reconhecer aquilo que era muito honroso a respeito dele:

  1. Que falava com grande sabedoria, e que essa sabedoria lhe fora dada, pois sabiam que não tinha uma educação erudita.

  2. Que fazia obras poderosas, fazia-as com suas próprias mãos, para a confirmação da doutrina que ensinava. Reconheciam as duas grandes provas da origem divina do seu evangelho: a sabedoria divina que aparecia na sua elaboração, e o poder divino que era exercido para ratificá-lo e recomendá-lo. E, contudo, embora não pudessem negar as premissas, não queriam admitir a conclusão.

IV. Apesar disso, empenhavam-se em depreciá-lo e em levantar preconceitos contra ele na mente das pessoas. Toda essa sabedoria e todas essas obras poderosas não teriam valor algum porque recebeu educação em casa, nunca viajou, não frequentou universidade nem foi criado aos pés de nenhum dos doutores deles (v. 3).

“Não é este o Carpinteiro?” Em Mateus, censuram-no por ser filho do carpinteiro, pois seu suposto pai, José, exercia esse ofício.

Mas, ao que parece, podiam dizer mais: “Não é este o Carpinteiro?” Nosso Senhor Jesus provavelmente se ocupava nesse trabalho com seu pai, antes de entrar no seu ministério público, ao menos às vezes trabalhando por jornada:

  1. Assim ele queria humilhar-se e abrir mão da própria reputação, como alguém que assumiu a forma de servo e veio servir. A tal ponto se humilhou nosso Redentor quando veio resgatar-nos da nossa condição humilde.

  2. Assim ele queria ensinar-nos a aborrecer a ociosidade e a encontrar algo para fazer neste mundo; a preferir trabalhos humildes e árduos, dos quais só se obtém o sustento, a entregar-nos à preguiça.

Nada é mais pernicioso para os jovens do que adquirir o hábito de ficar à toa. Os judeus tinham uma boa regra para isso: seus jovens destinados aos estudos aprendiam também algum ofício, como Paulo, que fazia tendas, para terem com que ocupar o tempo e, se necessário, ganhar o pão.

  1. Assim ele queria dar honra aos artífices desprezados, e animar os que comem do trabalho das suas mãos, embora os grandes homens os olhem com desprezo.

Outra censura era a origem humilde de seus parentes: “Ele é filho de Maria; seus irmãos e irmãs estão aqui conosco; conhecemos sua família e seus parentes”. Por isso, embora admirados com sua doutrina (v. 2), ainda assim se ofenderam com sua pessoa (v. 3), olharam-no com preconceito e desprezo e não aceitaram sua doutrina, por mais bem recomendada que fosse.

Podemos pensar que, se não tivessem conhecido sua linhagem, mas ele tivesse caído entre eles das nuvens, sem pai, sem mãe e sem ascendência, o teriam recebido com algum respeito maior?

Na verdade, não: na Judeia, onde não conheciam sua origem, fizeram justamente disso uma objeção contra ele (João 9:29): “Quanto a este indivíduo, não sabemos de onde é”. A incredulidade obstinada nunca carecerá de desculpas.

V. Vejamos como Cristo suportou este desprezo:

  1. Em parte o desculpou, como algo comum, e que podia ser esperado, embora sem razão ou justiça (v. 4). Um profeta não é desprezado em lugar algum senão na sua própria terra.

Pode haver algumas exceções a esta regra. Sem dúvida, muitos venceram esse preconceito, mas ordinariamente vale que os ministros raramente são tão aceitáveis e bem-sucedidos na sua própria terra como entre estranhos.

A familiaridade nos anos mais jovens gera desprezo; o avanço de alguém que era inferior gera inveja. E os homens dificilmente porão entre os guias das suas almas aqueles cujos pais estavam prontos a pôr com os cães dos seus rebanhos.

Por isso, num caso assim, não devemos considerar o tratamento penoso: é comum, e Cristo também o recebeu. A sabedoria nos orienta a buscar outro solo.

  1. Fez algum bem entre eles, apesar dos desdéns que lhe impunham, pois é bondoso até com os maus e ingratos: pôs as mãos sobre alguns poucos enfermos e os curou.

Repare: é generoso, e conveniente aos seguidores de Cristo, contentar-se com o prazer e a satisfação de fazer o bem, embora lhes seja injustamente negado o louvor disso.

  1. Contudo, ali não pôde fazer obras tão poderosas, ao menos não tantas, como em outros lugares, por causa da incredulidade que prevalecia entre as pessoas, em razão dos preconceitos que seus líderes lhes incutiam contra Cristo, v. 5.

É uma expressão estranha, como se a incredulidade atasse as mãos da própria onipotência. Ele teria feito tantos milagres ali quantos fizera em outros lugares, mas não pôde, porque as pessoas não queriam recorrer a ele, nem suplicar por seus favores.

Ele poderia tê-los realizado, mas elas perderam o direito à honra de vê-los realizados em seu favor. Repare: pela incredulidade e pelo desprezo de Cristo, os homens interrompem a corrente dos seus favores para eles, e põem uma tranca na sua própria porta.

  1. Admirou-se por causa da incredulidade deles, v. 6. Nunca encontramos Cristo admirando-se senão da fé dos gentios que eram estranhos, como o centurião (Mateus 8:10), e a mulher de Samaria, e da incredulidade dos judeus que eram seus próprios conterrâneos.

Repare: a incredulidade daqueles que desfrutam dos meios de graça é algo extremamente espantoso.

  1. Percorreu a aldeia, ensinando. Se não podemos fazer o bem onde queremos, precisamos fazê-lo onde podemos, e ficar contentes se pudermos ter alguma oportunidade, embora apenas nas aldeias, de servir a Cristo e às almas.

Às vezes o evangelho de Cristo encontra melhor acolhimento nas aldeias do campo, onde há menos riqueza, e pompa, e alegria, e sutileza, do que nas cidades populosas.

Versículos 7 a 13

A Comissão Apostólica.

Aqui está:

I. A comissão dada aos doze apóstolos para pregar e realizar milagres. É a mesma que encontramos com mais detalhes em Mateus 10. Marcos não os nomeia aqui, como Mateus faz, porque já os havia nomeado antes, quando foram chamados pela primeira vez para estar em sua companhia (Marcos 3:16-19).

Até então, os apóstolos haviam convivido com Cristo e se sentado aos pés dele; tinham ouvido sua doutrina e visto seus milagres. Agora ele decide fazer uso deles: haviam recebido para dar e aprendido para ensinar; por isso, começou a enviá-los.

Não deveriam estar sempre estudando na academia para adquirir conhecimento, mas precisavam pregar pelo país e fazer o bem com o conhecimento que haviam adquirido.

Embora ainda não estivessem tão preparados quanto viriam a estar, deveriam começar a trabalhar de acordo com a capacidade que tinham naquele momento e, mais tarde, aperfeiçoar-se ainda mais. Observe aqui:

  1. Que Cristo os enviou de dois em dois, como Marcos observa. Foram juntos a cada lugar para que toda palavra fosse confirmada pela boca de duas testemunhas e para que um fizesse companhia ao outro entre estranhos.

Também podiam fortalecer as mãos uns dos outros, animar-se mutuamente, ajudar-se quando algo desse errado e dar apoio um ao outro. Todo soldado comum tem seu companheiro; e é uma máxima aprovada que dois são melhores que um. Cristo queria assim ensinar seus ministros a se associarem e a se ajudarem, tanto oferecendo quanto recebendo ajuda.

  1. Que lhes deu poder sobre espíritos impuros. Comissionou-os a atacar o reino do diabo e, como amostra de que sua doutrina quebraria o domínio dele sobre as almas, capacitou-os a expulsá-lo dos corpos dos possessos.

O doutor Lightfoot sugere que curavam doenças e expulsavam demônios pelo Espírito, mas pregavam somente o que haviam aprendido da boca de Cristo.

  1. Que lhes ordenou que não levassem provisões consigo, nem alimento nem dinheiro, para que, onde quer que chegassem, parecessem homens pobres, que não pertenciam a este mundo, e assim pudessem chamar as pessoas, com mais propriedade, a se afastarem deste mundo e se voltarem para outro.

Quando mais tarde os mandou levar bolsa e alforje (Lucas 22:36), isso não indicava, como observa o doutor Lightfoot, que seu cuidado por eles tivesse diminuído; indicava, sim, que enfrentariam tempos e acolhida piores do que na primeira missão.

Em Mateus e Lucas, são proibidos de levar bordões consigo, isto é, bastões de combate; em Marcos, porém, são instruídos a não levar nada além de um bordão para caminhar, como os peregrinos usavam.

Não deviam calçar sapatos, mas apenas sandálias, que eram as solas de sapatos amarradas aos pés, semelhantes a sapatilhas ou chinelos. Deviam vestir o traje mais simples e prático que pudessem e não levar sequer duas túnicas, pois ficariam pouco tempo fora e voltariam antes do inverno. Aqueles a quem pregassem lhes dariam alegremente o que lhes faltasse.

  1. Instruiu-os a fazer da primeira casa em que se hospedassem em cada cidade a sua base (v. 10): “Permaneçam ali até saírem daquele lugar. E, sabendo que vêm numa missão que basta para torná-los bem-vindos, tenham tanta consideração pelos primeiros anfitriões que confiem que não os consideram um fardo.”

  2. Pronunciou uma condenação muito severa contra os que rejeitassem o evangelho que pregavam (v. 11): “Se alguém não os receber ou sequer quiser ouvi-los, saiam dali (se um não quiser, outro quererá) e sacudam o pó debaixo dos pés, como testemunho contra eles.”

“Façam-lhes saber que receberam uma oferta plena de vida e felicidade; o pó é testemunha disso. Mas, como a recusaram, nunca devem esperar outra. Que se contentem com o próprio pó, pois essa será a sua condenação.”

Aquele pó, como o do Egito (Êxodo 9:9), se tornará uma praga para eles, e sua condenação no grande dia será mais intolerável que a de Sodoma, pois os anjos foram enviados a Sodoma e maltratados ali.

Contudo, isso não traria culpa nem ruína tão grandes quanto o desprezo e os maus-tratos aos apóstolos de Cristo, que trazem consigo as ofertas da graça do evangelho.

II. A conduta dos apóstolos no cumprimento de sua comissão. Embora tivessem consciência de sua grande fraqueza e não esperassem vantagem alguma neste mundo, saíram, em obediência à ordem do Mestre e confiando na força dele, como Abraão, sem saber aonde iam. Observe aqui:

  1. A doutrina que pregavam: diziam que as pessoas deviam arrepender-se (v. 12), mudar de pensamento e reformar a vida, considerando a proximidade do reino do Messias.

Repare: o grande desígnio dos pregadores do evangelho e a principal finalidade da pregação do evangelho devem ser conduzir as pessoas ao arrependimento, a um coração novo e a um novo modo de vida.

Não entretinham as pessoas com especulações curiosas; diziam-lhes que deviam arrepender-se dos pecados e voltar-se para Deus.

  1. Os milagres que realizavam. O poder que Cristo lhes dera sobre os espíritos impuros não foi ineficaz, nem o receberam em vão; usaram-no, pois expulsaram muitos demônios (v. 13) e ungiram com óleo muitos enfermos e os curaram.

Alguns pensam que usavam o óleo como remédio, segundo o costume dos judeus; penso, porém, que o usavam como sinal de cura milagrosa, por ordem de Cristo, embora isso não seja mencionado. Mais tarde, esse uso foi adotado pelos anciãos da igreja, a quem o Espírito concedera o dom de curar (Tiago 5:14).

É certo neste caso e, portanto, provável naquele, que a unção dos doentes com óleo é própria daquele poder extraordinário, que cessou há muito tempo; por isso, o sinal também deve cessar com ele.

Versículos 14 a 29

A Morte de João Batista.

Aqui está: I. As ideias absurdas que o povo tinha a respeito de nosso Senhor Jesus (v. 15). Seus conterrâneos não conseguiam crer em nada grandioso a seu respeito, porque conheciam seus parentes pobres.

Outros, porém, que não estavam dominados por esse preconceito contra ele, ainda preferiam crer em qualquer coisa a aceitar a verdade: que ele era o Filho de Deus e o verdadeiro Messias.

Diziam: “É Elias”, a quem esperavam; ou: “É um profeta”, um dos profetas do Antigo Testamento que ressuscitara e voltara a este mundo; ou ainda: “É como um dos profetas”, um profeta recentemente levantado, igual aos do Antigo Testamento.

II. A opinião de Herodes a respeito dele. Herodes ouviu falar de seu nome e de sua fama, do que dizia e do que fazia, e disse: “Certamente é João Batista” (v. 14). “Tão certo quanto estamos aqui, é João, a quem decapitei” (v. 16).

“Ele ressuscitou dos mortos; embora não tivesse feito milagres enquanto esteve conosco, depois de passar algum tempo em outro mundo voltou com poder maior, e agora realiza obras poderosas.”

Repare: 1. Onde há uma fé ociosa, geralmente há uma imaginação ativa. O povo dizia: “É um profeta ressuscitado dos mortos”; Herodes dizia: “É João Batista ressuscitado dos mortos”.

Ao que parece, esperava-se que um profeta ressuscitasse para realizar obras poderosas, e isso não era considerado impossível nem improvável; por isso suspeitaram prontamente, ainda que não fosse verdade.

Mais tarde, porém, quando isso se cumpriu em Cristo e foi comprovado de maneira incontestável, essa verdade foi obstinadamente contestada e negada. Os que mais deliberadamente rejeitam a verdade geralmente são os mais crédulos diante de erros e fantasias.

  1. Os que combatem a causa de Deus serão derrotados, mesmo quando se julgam vencedores; não alcançarão seu intento, pois a palavra do Senhor permanece para sempre.

Os que se alegraram quando as testemunhas foram mortas ficaram igualmente perturbados quando, três ou quatro dias depois, elas ressuscitaram na pessoa de seus sucessores (Apocalipse 11:10, 11). O pecador impenitente e não reformado que escapar da espada de Jeú será abatido por Eliseu.

  1. A consciência culpada não precisa de acusador nem de atormentador além de si mesma. Herodes se acusa do assassinato de João, algo que talvez ninguém mais ousasse lhe imputar: “Eu o decapitei”. O terror disso o fez imaginar que Cristo era João ressuscitado.

Temia João enquanto ele vivia e, agora que pensava ter se livrado dele, temia-o dez vezes mais depois de morto. Seria tão ruim ser assombrado por fantasmas e fúrias quanto pelos horrores de uma consciência acusadora.

Portanto, quem quiser conservar uma paz sem perturbação precisa conservar uma consciência pura (Atos 24:16).

  1. Pode haver o terror de uma forte convicção sem a realidade de uma conversão salvadora. Esse Herodes, que tinha tal opinião a respeito de Cristo, mais tarde procurou matá-lo (Lucas 13:31) e o desprezou (Lucas 23:11). De modo que não se deixaria persuadir nem mesmo por alguém ressuscitado dos mortos; não, nem por João Batista ressuscitado dos mortos.

III. O relato da morte de João Batista por Herodes, inserido nesta ocasião, como também em Mateus. Aqui podemos observar:

  1. A grande estima e reverência que Herodes tivera por algum tempo por João Batista, relato encontrado somente neste evangelista (v. 20). Vemos aqui até onde alguém pode avançar rumo à graça e à glória e, ainda assim, ficar aquém de ambas e perecer eternamente.

(1.) Herodes temia João, sabendo que era um homem justo e santo. É possível que alguém tenha grande reverência por homens bons, sobretudo por bons ministros, e até pelo que há de bom neles, mas seja ele próprio mau.

Observe: [1.] João era justo e santo; para que um homem seja plenamente bom, são necessárias tanto a justiça quanto a santidade: santidade para com Deus e justiça para com as pessoas.

João estava mortificado para este mundo e, assim, era um bom amigo tanto da justiça quanto da santidade. [2.] Herodes sabia disso, não apenas pela fama geral, mas por conhecê-lo pessoalmente.

Quem tem pouca justiça e santidade pode, ainda assim, reconhecê-las e respeitá-las nos outros. [3.] Por isso, Herodes o temia e o honrava. A santidade e a justiça impõem reverência, e muitos que não são bons respeitam os que são.

(2.) Herodes o observava: alguns entendem que o protegia da maldade dos inimigos; é mais provável, porém, que apreciasse sua conduta exemplar, notasse o que havia nele de digno de louvor e o elogiasse diante dos que estavam à sua volta. Mostrava que observava o que João dizia e fazia.

(3.) Herodes o ouvia pregar, o que era uma grande condescendência, considerando quão humilde era a aparência de João. Ouvir o próprio Cristo pregar em nossas ruas será uma defesa fraca no grande dia (Lucas 13:26).

(4.) Herodes praticava muitas das coisas que João lhe ensinava em suas pregações. Não era apenas ouvinte da palavra, mas em parte praticante. Abandonou alguns pecados que João repreendia e se comprometeu com certos deveres; mas não basta praticar muitas coisas se não respeitamos todos os mandamentos.

(5.) Herodes o ouvia com prazer. Não o ouvia com terror, como Félix ouviu Paulo, mas com satisfação. Há uma alegria superficial que um hipócrita pode sentir ao ouvir a palavra. Ezequiel era para seus ouvintes como uma bela canção (Ezequiel 33:32), e o “solo pedregoso recebeu a palavra com alegria” (Lucas 8:13).

  1. A fidelidade de João para com Herodes ao lhe apontar suas faltas. Herodes havia se casado com a mulher de seu irmão Filipe (v. 17). Sem dúvida, todos no país o censuravam e o repreendiam por isso; João, porém, o repreendeu e lhe disse claramente: “Não te é lícito ter a mulher de teu irmão”.

Esse era o pecado próprio de Herodes, do qual não conseguia abrir mão, embora praticasse muitas coisas ensinadas por João; por isso João o mencionou de modo específico.

Embora Herodes fosse rei, João não o poupou, assim como Elias não poupou Acabe quando lhe disse: “Mataste e também tomaste posse?” Embora tivesse influência sobre Herodes e pudesse temer que essa franqueza a destruísse, João o repreendeu, pois “fiéis são as feridas feitas por um amigo” (Provérbios 27:6).

Há porcos que se voltam e despedaçam os que lhes lançam pérolas; contudo, em geral, “Quem repreende alguém” (se a pessoa repreendida tiver algum bom senso) “encontrará depois mais favor do que quem lisonjeia com a língua” (Provérbios 28:23).

Era perigoso ofender Herodes e ainda mais Herodias, mas João correria o risco em vez de falhar no dever. Repare: os ministros que querem ser considerados fiéis no serviço de Deus não devem temer as pessoas.

Se procuramos agradá-las além do que contribui para o bem espiritual delas, não somos servos de Cristo.

  1. O ódio que Herodias passou a ter por João por causa disso (v. 19). Ela estava em desavença com ele e queria matá-lo; como não conseguiu, fez com que fosse preso (v. 17). Herodes o respeitava até que João tocou na questão de Herodias.

Muitos dizem honrar a profecia, mas só querem ouvir palavras agradáveis; gostam de boas pregações, desde que elas não cheguem perto demais do pecado que amam. Quando esse pecado é denunciado, não suportam.

Não admira que o mundo odeie os que testemunham que suas obras são más. É melhor que os pecadores persigam agora os ministros por sua fidelidade do que os amaldiçoem eternamente por sua infidelidade.

  1. A trama para decapitar João.

Inclino-me a pensar que Herodes também participava da trama, apesar de fingir desagrado e surpresa, e que ele e Herodias tinham combinado tudo; pois se diz que chegou um dia conveniente (v. 21), próprio para tal propósito.

(1.) Haveria um baile na corte, no aniversário do rei, com um jantar para seus nobres, altos oficiais e principais autoridades da Galileia. (2.) Para dar brilho à ocasião, a filha de Herodias dançaria em público, e Herodes fingiria ficar encantado com a dança.

Os que estivessem sentados com ele não poderiam deixar de fingir o mesmo, por deferência ao rei. (3.) Então o rei lhe faria uma promessa extravagante: dar-lhe qualquer coisa que pedisse, até metade do reino.

Mas, se entendida corretamente, essa promessa não alcançaria o objetivo planejado, pois a cabeça de João Batista valia mais que todo o reino de Herodes.

A promessa foi selada com um juramento, para que não houvesse como voltar atrás: ele lhe jurou: “Tudo o que pedires, eu te darei”. Mal consigo crer que faria uma promessa tão irrestrita sem saber o que ela pediria.

(4.) Instruída por sua mãe, Herodias, a moça pediu a cabeça de João Batista. Deveriam trazê-la numa bandeja, como um brinquedo para ela (v. 24, 25).

Não poderia haver demora nem tempo perdido: ela a queria imediatamente. (5.) Herodes consentiu, e a execução foi realizada na mesma hora, enquanto todos ainda estavam reunidos. É difícil crer que o rei faria isso se não tivesse decidido de antemão.

Mas ele finge: [1.] relutar muito, dizendo que não o teria feito por nada no mundo se não tivesse sido surpreendido por uma promessa dessas. “O rei ficou profundamente triste”; isto é, fingiu estar triste, disse que estava e fez essa expressão.

Era tudo encenação: na verdade, estava satisfeito por ter encontrado um pretexto para se livrar de João. Qui nescit dissimulare, nescit regnare — quem não sabe dissimular não sabe reinar. Ainda assim, sentiu tristeza; não podia fazê-lo sem grande pesar e relutância.

A consciência natural não permite que as pessoas pequem sem dificuldade: o próprio ato as atormenta. O que será, então, refletir sobre ele? [2.] Herodes finge levar muito a sério a obrigação de cumprir seu juramento.

Mas, se a moça tivesse pedido apenas um quarto do reino, não tenho dúvida de que ele teria encontrado um meio de escapar ao juramento. A promessa foi feita precipitadamente e não podia obrigá-lo a praticar uma injustiça.

Juramentos pecaminosos devem ser objeto de arrependimento e, portanto, não devem ser cumpridos; arrepender-se é desfazer o mal que fizemos, tanto quanto estiver ao nosso alcance.

Quando Teodósio, o imperador, foi instado por um suplicante a cumprir uma promessa, respondeu: “Eu disse isso, mas não prometi fazê-lo se fosse injusto”.

Se supusermos que Herodes nada sabia do plano quando fez a promessa precipitada, é provável que os que estavam à sua volta o tenham levado a cumpri-la apenas para sustentar a encenação. Ele o fez por causa dos que se sentavam com ele, cuja companhia o envaidecia e a quem queria agradar a qualquer custo.

Assim, os príncipes se tornam escravos daqueles cujo respeito cobiçam, valorizando-se e buscando segurança por meio deles. Nenhum súdito de Herodes o temia tanto quanto ele temia seus nobres, altos oficiais e principais autoridades. O rei enviou um carrasco, um soldado de sua guarda.

Tiranos sanguinários têm carrascos prontos a obedecer a seus decretos mais cruéis e injustos. Assim Saul tinha Doeg à mão para atacar os sacerdotes do Senhor quando os próprios guardas se recusaram.

  1. O efeito disso foi: (1.) Que toda a corte perversa de Herodes festejou, porque aquele profeta os atormentava. A cabeça foi entregue à moça e, por meio dela, à mãe (v. 28). (2.) Que a comunidade santa dos discípulos de João ficou toda em lágrimas.

Eles pouco esperavam que isso acontecesse; mas, quando souberam, foram buscar o corpo abandonado e o sepultaram. Herodes poderia tê-lo encontrado ali, se quisesse, quando se assustou com a fantasia de que João Batista ressuscitara dos mortos.

Versículos 30 a 44

O Milagre dos Pães e dos Peixes.

Nestes versículos, temos:

I. O retorno dos apóstolos a Cristo, depois de terem sido enviados por ele (v. 7) para pregar e realizar milagres.

Por algum tempo, eles se espalharam por diversas regiões do país; mas, cumpridas as tarefas que lhes cabiam, reuniram-se de comum acordo para comparar relatos e foram até Jesus, o centro de sua unidade, para lhe contar o que haviam feito conforme a missão recebida.

Assim como o servo enviado para convidar as pessoas ao banquete, depois de receber as respostas dos convidados, voltou e contou tudo ao seu senhor, os apóstolos também lhe relataram tudo o que haviam feito e ensinado.

Os ministros prestarão contas tanto do que fazem quanto do que ensinam; devem cuidar da própria alma e zelar pela alma dos outros, como quem terá de prestar contas (Hebreus 13:17). Não façam nem ensinem coisa alguma que não estejam dispostos a relatar e repetir ao Senhor Jesus.

Os ministros fiéis se alegram quando podem recorrer a Cristo quanto à doutrina e à conduta, ambas talvez difamadas pelas pessoas. Cristo lhes permite falar com franqueza e expor seu caso, contando-lhe tudo: o tratamento que receberam, os resultados e as decepções.

II. O cuidado afetuoso de Cristo com o descanso deles depois do cansaço (v. 31). Percebendo que estavam quase exaustos e sem fôlego, disse: “Vinde vós, à parte, para um lugar deserto e descansai um pouco”.

Ao que parece, os discípulos de João trouxeram a Cristo a triste notícia da morte de seu mestre quase ao mesmo tempo que os discípulos de Jesus voltaram para lhe contar o resultado da missão.

Repare: Cristo percebe o susto de alguns discípulos e o cansaço de outros, e providencia o alívio adequado para ambos: descanso para os exaustos e refúgio para os aterrorizados.

Com que bondade e compaixão Cristo lhes diz: “Vinde descansar!” Repare: os servos mais ativos de Cristo não podem estar sempre ocupados; têm um corpo que exige algum repouso e um intervalo para respirar.

Não poderemos servir a Deus sem cessar, dia e noite, antes de chegarmos ao céu, onde nunca deixam de louvá-lo (Apocalipse 4:8). O Senhor cuida do corpo e leva em conta a sua constituição; não só lhe permite tempo para descansar, como também nos lembra de descansar: “Vem, povo meu, entra nos teus aposentos.”

“Volta ao teu descanso.” Os que trabalham com diligência e fidelidade podem retirar-se para descansar com alegria. O sono de quem trabalha é doce.

Observe: 1. Cristo os chama para irem sozinhos a um lugar à parte; se levassem alguém consigo, teriam algo a dizer ou fazer em favor dessa pessoa. Se precisavam descansar, tinham de ficar a sós.

  1. Ele não os convida para uma propriedade campestre aprazível, com belas construções e jardins, mas para um lugar deserto, com poucos recursos, preparado pela natureza, e não pela arte, para o silêncio e o descanso.

Isso condizia com as demais circunstâncias de sua vida: não admira que quem tinha um barco como púlpito tivesse um deserto como lugar de repouso. 3. Ele os chama para descansar apenas um pouco. Não deviam esperar um descanso longo, apenas recuperar o fôlego e voltar ao trabalho. O povo de Deus não terá descanso permanente antes de chegar ao céu.

  1. A razão apresentada não era tanto o trabalho contínuo, mas a constante agitação em que agora viviam; por isso, não conseguiam organizar o trabalho. Muitos iam e vinham, e eles não tinham tempo nem para comer.

Basta estabelecer e respeitar um tempo adequado para cada tarefa, e muito trabalho poderá ser feito com facilidade; mas, se as pessoas estiverem sempre indo e vindo, sem regra nem método, até pouco trabalho causará muita dificuldade.

  1. Eles se retiraram de barco, sem atravessar a água, mas costeando até o deserto de Betsaida (v. 32).

Ir pela água era muito menos cansativo do que ir por terra. Partiram em segredo para ficarem a sós. Até as pessoas mais públicas desejam ter momentos de privacidade.

III. O empenho do povo em segui-lo. Foi indelicado fazer isso quando Cristo e os discípulos desejavam retirar-se por um bom motivo; ainda assim, o povo não foi repreendido nem mandado de volta, mas recebido com alegria.

Repare: a falta de boas maneiras é facilmente perdoada em quem segue a Cristo, quando é compensada por muito afeto. Seguiram-no por iniciativa própria, sem serem chamados. Não havia horário marcado, encontro combinado nem sino tocando; contudo, voavam como uma nuvem e como pombas para suas janelas.

Saíram das cidades, deixando casas, lojas, ocupações e negócios para ouvi-lo pregar. Seguiram-no a pé, embora ele tivesse partido por mar e, assim, parecesse menosprezá-los e tentar afastá-los para pô-los à prova; ainda assim, apegaram-se a ele.

Correram a pé e se apressaram tanto que chegaram antes dos discípulos, reunindo-se junto a Cristo com apetite pela palavra de Deus. Mais ainda: seguiram-no até um lugar deserto, desprezível e inconveniente. A presença de Cristo transforma um deserto em paraíso.

IV. O acolhimento que Cristo lhes deu (v. 34). Ao ver a multidão, em vez de se irritar porque o perturbavam quando queria ficar a sós, como muitos fariam, até mesmo pessoas boas, compadeceu-se dela e a olhou com preocupação, pois era como ovelha sem pastor.

O povo parecia bem-disposto e dócil como ovelhas, disposto a aprender, mas não tinha pastor que o conduzisse e guiasse pelo caminho certo, nem que o alimentasse com boa doutrina.

Por compaixão, Cristo não apenas curou os enfermos, como diz Mateus, mas também lhes ensinou muitas coisas; podemos ter certeza de que eram todas verdadeiras, boas e apropriadas para aprenderem.

V. A provisão que fez para todos: recebeu generosamente como convidados todos os que o ouviam e lhes ofereceu um grande banquete, de fato extraordinário, pois era milagroso.

  1. Os discípulos sugeriram que a multidão fosse mandada para casa. Quando o dia já avançava e a noite se aproximava, disseram: “Este lugar é deserto, e já é tarde. Mande-os embora para que comprem pão” (v. 35, 36). Foram os discípulos que sugeriram isso a Cristo; não vemos que a própria multidão tenha pedido.

Ninguém disse: “Mande-nos embora”, embora estivessem com fome; valorizavam as palavras de Cristo mais do que o alimento necessário e se esqueciam de si enquanto o ouviam. Os discípulos, porém, pensaram que seria bondoso dispensá-los.

Repare: quem tem boa disposição fará mais e perseverará por mais tempo no que é bom do que poderíamos esperar.

  1. Cristo ordenou que todos fossem alimentados (v. 37): “Dai-lhes vós de comer”. Embora a aglomeração deles impedisse Cristo e os discípulos de comer (v. 31), ele não os mandaria embora com fome para se vingar.

Para nos ensinar a tratar com bondade quem é rude conosco, ordenou que providenciassem alimento para eles. O pão que Cristo e os discípulos levaram ao deserto para fazer uma refeição tranquila, ele quis repartir com todos. Assim, mostrou hospitalidade.

Eles se dedicaram ao alimento espiritual de sua palavra, e Cristo cuidou para que também não lhes faltasse o alimento material. O caminho do dever é também o caminho da segurança e do sustento.

Deixemos Deus encher os reservatórios com chuva do céu e fazer uma fonte até no vale de Baca para os que seguem rumo a Sião, avançando de força em força (Salmos 84:6, 7).

A Providência, quando não é posta à prova, mas devidamente recebida com confiança, nunca falhou aos servos fiéis de Deus; muitas vezes os revigorou com socorro oportuno e surpreendente. Muitas vezes se viu no monte do Senhor, Jeová-Jiré, que o Senhor proverá aos que esperam nele.

  1. Os discípulos objetaram que isso era impraticável: “Vamos comprar duzentos denários de pão e dar de comer a eles?” Por causa da fraqueza da fé, em vez de esperar instruções de Cristo, complicaram a situação com planos próprios.

Era incerto se tinham duzentos denários consigo, se o lugar poderia fornecer tanto pão de repente caso tivessem o dinheiro, e se essa quantidade bastaria para uma multidão tão grande. Moisés também objetou: “Serão abatidos para eles os rebanhos e as manadas?” (Números 11:22).

Cristo lhes mostraria a insensatez de fazer planos por conta própria para que valorizassem ainda mais a provisão dele.

  1. Cristo realizou o milagre, para satisfação de todos. Eles haviam levado cinco pães para abastecer o barco, e talvez tenham pescado dois peixes pelo caminho; esse era o cardápio.

Era pouco até para Cristo e os discípulos, mas deviam repartir tudo, como a viúva deu suas duas moedas e como, em profunda pobreza, a igreja da Macedônia foi abundante na generosidade. Muitas vezes encontramos Cristo sendo recebido à mesa de outras pessoas, jantando com um amigo e ceando com outro.

Aqui, porém, ele oferece o jantar a uma grande multidão às próprias custas. Isso mostra que, quando outros o serviam com seus bens, isso não se devia a que lhe faltasse outro meio de prover para si. Se tivesse fome, não precisaria lhes dizer.

Aceitar isso fazia parte da humilhação a que teve por bem submeter-se; tampouco convinha à finalidade dos milagres realizá-los em benefício próprio. Observe:

(1.) A comida era simples. Não havia iguarias nem variedade, embora Cristo pudesse tê-las servido se quisesse. Assim nos ensinaria a nos contentar com o alimento de que precisamos, sem desejar pratos requintados. Se temos o necessário, não importa que nos falte o que satisfaz o paladar ou a curiosidade.

Por amor, Deus dá alimento para a nossa fome; em sua cólera, dá alimento para satisfazer nossos desejos (Salmos 78:18). A promessa aos que temem o Senhor é que serão alimentados; não que terão um banquete. Se Cristo e os discípulos se contentavam com coisas simples, nós também podemos.

(2.) Os convidados estavam bem organizados. Sentaram-se em grupos sobre a relva verde (v. 39), organizados em grupos de cem e de cinquenta (v. 40), para que o alimento fosse distribuído com mais facilidade e ordem, pois Deus é Deus de ordem, e não de confusão. Assim se cuidou para que todos recebessem o suficiente, ninguém fosse esquecido, nem recebesse mais do que convinha.

(3.) Pediram uma bênção sobre a comida. “Ele olhou para o céu e abençoou.” Cristo não chamou um discípulo para pedir a bênção; ele mesmo o fez (v. 41). Por meio dessa bênção, os pães se multiplicaram de modo extraordinário, assim como os peixes.

Todos comeram e ficaram satisfeitos, embora fossem cinco mil pessoas (v. 42, 44). O milagre tinha significado: mostra que Cristo veio ao mundo para ser o grande provedor, assim como o grande curador; não apenas para restaurar, mas para preservar e alimentar a vida espiritual.

Nele há o bastante para todos os que vêm a ele, o suficiente para encher a alma e os tesouros. Ninguém é mandado embora de mãos vazias por Cristo, exceto os que vêm cheios de si mesmos.

(4.) Cuidaram dos pedaços que sobraram e encheram doze cestos. Embora Cristo pudesse dispor de pão à vontade, ensinou-nos assim a não desperdiçar nenhuma das boas criaturas de Deus, lembrando-nos de quantos passam necessidade e de que talvez, algum dia, precisemos dos pedaços que jogamos fora.

Versículos 45 a 56

Cristo Caminhando sobre o Mar.

Esta passagem da história já tivemos em Mateus 14:22, etc.; só foi omitido aqui o que ali se relatou a respeito de Pedro. Temos aqui:

I. A dispersão da multidão: Cristo obrigou os discípulos a seguir adiante de barco para Betsaida, pretendendo acompanhá-los por terra, como eles supunham. O povo não queria se dispersar, de modo que ele levou algum tempo e esforço para mandá-lo embora.

Como agora tinham feito uma boa refeição, não tinham pressa de deixá-lo. Mas, enquanto estamos neste mundo, não temos aqui cidade permanente, nem mesmo na comunhão com Cristo. O banquete eterno está reservado para o estado futuro.

II. Cristo se retirou para um monte, a fim de orar. Observe:

  1. Ele orou; embora tivesse tanto trabalho de pregação em mãos, ainda assim se dedicava muito à oração. Orava com frequência e por muito tempo, o que nos anima a depender da intercessão que ele faz por nós à direita do Pai, aquela intercessão contínua.

  2. Ele foi sozinho orar. Embora não precisasse se retirar para evitar distração ou ostentação, ainda assim, para nos dar exemplo e nos animar em nossas súplicas secretas a Deus, orou sozinho. Como não tinha um aposento reservado, subiu a um monte para orar. Um homem bom nunca está menos sozinho do que quando está sozinho com Deus.

III. Os discípulos estavam aflitos no mar. O vento era contrário (v. 48), de modo que remavam com esforço e não conseguiam avançar. Isso foi uma amostra das agruras que deveriam esperar quando, mais tarde, ele os enviasse a pregar o evangelho.

Seria como enviá-los ao mar naquela hora, com o vento contra eles: deveriam esperar remar com esforço e trabalhar duro para lutar contra uma corrente tão forte. Também deveriam esperar ser sacudidos pelas ondas e perseguidos pelos inimigos.

Ao expô-los agora, ele pretendia treiná-los para tais dificuldades, a fim de que aprendessem a suportar as agruras. A igreja muitas vezes é como um navio no mar, sacudido por tempestades e sem consolo.

Podemos ter Cristo a nosso favor e, ainda assim, o vento e a maré contra nós; mas é um consolo para os discípulos de Cristo em meio à tempestade que seu Mestre esteja no monte celestial, intercedendo por eles.

IV. Cristo lhes fez uma visita bondosa sobre a água. Ele poderia ter detido os ventos de onde estava ou enviado um anjo para socorrê-los; mas escolheu ajudá-los da maneira mais afetuosa possível e, por isso, foi ele mesmo até eles.

  1. Ele não veio antes da quarta vigília da noite, isto é, somente depois das três da manhã; mas então veio. Repare: ainda que as visitas de Cristo ao seu povo demorem muito, por fim ele virá. A situação extrema deles lhe dá oportunidade para aparecer em seu favor no momento mais oportuno.

Embora a salvação demore, devemos esperar por ela; no fim, falará, na quarta vigília da noite, e não falhará.

  1. Ele veio caminhando sobre as águas. O mar estava então agitado pelas ondas, e, ainda assim, Cristo veio andando sobre ele, pois, embora as águas levantem a voz, o Senhor nas alturas é mais poderoso, Salmos 93:3, 4. Nenhuma dificuldade pode impedir as graciosas manifestações de Cristo em favor do seu povo quando chega o tempo determinado.

Ele encontrará ou abrirá caminho através do mar mais tempestuoso para libertá-los, Salmos 42:7, 8.

  1. Ele teria passado por eles, isto é, voltou o rosto e seguiu seu caminho como se quisesse ir adiante, sem reparar neles. Fez isso para despertá-los a clamar por ele. Repare: a Providência, quando age de propósito e diretamente em socorro do povo de Deus, às vezes parece passar ao largo deles e não dar atenção à sua situação.

Eles pensaram que ele passaria por eles, mas podemos ter certeza de que não teria passado.

  1. Eles ficaram assustados ao vê-lo, supondo que fosse uma aparição. Todos o viram e ficaram perturbados (v. 50), pensando que fosse algum demônio ou espírito maligno que os assombrava e provocara aquela tempestade. Muitas vezes nos afligimos e nos assustamos com fantasmas, criaturas da nossa própria fantasia e imaginação.

  2. Ele os animou e silenciou seus temores, dando-se a conhecer a eles. Falou familiarmente com eles, dizendo: “Tende bom ânimo, sou eu; não temais”. Repare:

(1.) Não conhecemos Cristo até que ele tenha por bem revelar-se a nós. “Sou eu; eu, o seu Mestre; eu, o seu amigo; eu, o seu Redentor e Salvador. Sou eu, que vim a uma terra atribulada e agora a um mar tempestuoso para cuidar de vocês”.

(2.) Conhecer Cristo como ele é em si mesmo e está perto de nós basta para tornar alegres os discípulos de Cristo, mesmo em meio à tempestade, e já sem medo. Se é assim, por que estou desse modo? Se é Cristo quem está com você, tenha bom ânimo, não tenha medo. Nossos temores logo se dissipam quando nossos enganos são corrigidos, sobretudo os enganos a respeito de Cristo.

Veja Gênesis 21:19; 2 Reis 6:15-17. A presença de Cristo conosco num dia tempestuoso basta para nos dar bom ânimo, embora haja nuvens e escuridão ao nosso redor. Ele disse: “Sou eu”. Não lhes diz quem é, pois não havia necessidade; eles conheciam sua voz, assim como as ovelhas conhecem a voz do próprio pastor, João 10:4.

Com que prontidão a esposa diz, uma e outra vez: “É a voz do meu amado!”, Cantares de Salomão 2:8; 5:2. Ele disse: ego eimi — “Eu sou ele”, ou “Eu sou”. Esse é o nome de Deus quando vem libertar Israel, Êxodo 3:14. Assim também é o nome de Cristo agora que vem libertar seus discípulos.

Quando Cristo disse “Sou eu” aos que vieram prendê-lo à força, eles foram derrubados, João 18:6. Quando diz “Sou eu” aos que vêm prendê-lo pela fé, eles são levantados e consolados.

  1. Ele subiu ao barco para estar com eles, embarcando na mesma embarcação, e assim os deixou perfeitamente tranquilos. Basta que tenham o Mestre com eles, e tudo vai bem. Assim que entrou no barco, o vento cessou.

Na tempestade anterior em que estiveram, lemos: “Ele se levantou, repreendeu os ventos e disse ao mar: ‘Cala-te, aquieta-te’” (Marcos 4:39); aqui, porém, não lemos que tenha dado uma ordem formal: apenas o vento cessou de repente. Repare: nosso Senhor Jesus certamente fará sempre sua própria obra com eficácia, embora nem sempre com a mesma solenidade e manifestações visíveis.

Ainda que não ouçamos a ordem, se o vento cessa assim e desfrutamos a bonança, digamos que é porque Cristo está no barco e seu decreto saiu antes que o percebêssemos, Cantares de Salomão 6:12. Quando chegarmos ao céu com Cristo, o vento cessará imediatamente; nas regiões celestiais não há tempestades.

  1. Eles ficaram mais surpresos e espantados com esse milagre do que convinha, e havia no fundo desse espanto algo realmente censurável. Ficaram sobremaneira assombrados, em completo êxtase, como se aquilo fosse algo novo e inexplicável, como se Cristo nunca tivesse feito algo semelhante antes e não houvesse motivo para esperar que o fizesse agora.

Deveriam admirar o poder de Cristo e, com isso, ter sua crença confirmada de que ele é o Filho de Deus. Mas por que toda essa perturbação? Porque não tinham considerado o milagre dos pães. Se lhe tivessem dado o devido peso, não teriam ficado tão surpresos agora, pois multiplicar o pão foi uma demonstração do seu poder tão grande quanto andar sobre as águas.

Eles eram estranhamente estúpidos e irrefletidos, e seu coração estava endurecido; caso contrário, não teriam considerado incrível que Cristo pudesse ordenar a bonança. É por não compreendermos devidamente as obras anteriores de Cristo que nos deixamos levar ao pensar nas obras presentes, como se nunca tivesse havido algo semelhante.

V. Quando chegaram à terra de Genesaré, situada entre Betsaida e Cafarnaum, o povo os recebeu muito bem. Os homens daquele lugar reconheceram Jesus imediatamente (v. 54) e sabiam que grandes obras ele realizava onde quer que fosse, que era um curador universal.

Sabiam também que ele costumava ficar pouco tempo em cada lugar e, por isso, estavam empenhados em aproveitar a oportunidade daquela visita bondosa que lhes fazia. Percorreram toda a região ao redor com a maior rapidez possível e começaram a transportar em leitos os doentes que não podiam ir por conta própria; não havia perigo de pegarem frio quando esperavam ser curados (v. 55).

Aonde quer que fosse, ele ficava cercado de enfermos: nas cidades, nos povoados e nas aldeias ao redor. Puseram os doentes nas ruas, para que ele passasse por ali, e suplicaram que lhes permitisse tocar, ainda que fosse apenas a orla de sua roupa.

Foi o que fez a mulher com fluxo de sangue, por meio de quem, ao que parece, esse método de aproximação foi introduzido pela primeira vez. E todos os que tocaram a orla ficaram curados.

Não vemos que desejassem ser ensinados por ele; queriam apenas ser curados. Se os ministros pudessem curar as doenças do corpo das pessoas, que multidões os acompanhariam! Mas é triste pensar que a maioria dos homens se preocupa muito mais com o corpo do que com a alma.


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