Marcos 5
Argumento
Neste capítulo temos:
I. A expulsão da legião de demônios do homem possesso por Cristo, e sua permissão para que entrassem nos porcos, vv. 1-20.
II. A cura da mulher com hemorragia por Cristo, no caminho, enquanto ia ressuscitar a filha de Jairo, vv. 21-43.
Tivemos antes a história destes três milagres (Mateus 8:28, etc.; Mateus 9:18, etc.), mas aqui ela é relatada mais plenamente.
Versículos 1 a 20
A Expulsão da Legião.
Temos aqui um exemplo de como Cristo despojou o homem forte armado e dispôs dele como quis, para mostrar que era mais forte do que ele. Fez isso quando chegou à outra margem, para onde atravessou em meio a uma tempestade. Sua ocupação ali era resgatar esta pobre criatura das mãos de Satanás. E, depois de fazê-lo, voltou.
Assim veio do céu à terra e voltou, em meio a uma tempestade, para resgatar das mãos do diabo um remanescente da humanidade, embora apenas um pequeno remanescente, e não considerou mal empregados os seus esforços.
Em Mateus, diz-se que eram dois homens possuídos por demônios; aqui, que era um homem possuído por um espírito impuro. Se havia dois, havia um, e Marcos não diz que havia apenas um. De modo que esta diferença não pode nos dar nenhum motivo justo de ofensa. É provável que um deles fosse muito mais notável que o outro e tivesse dito o que foi relatado. Agora observe aqui:
I. A condição miserável daquele pobre homem: estava sob o poder de um espírito impuro. O diabo se apossara dele, e o efeito não era, como em muitos, uma melancolia silenciosa, mas um frenesi violento. Ele estava louco de fúria. Sua condição parece ter sido pior que a de qualquer dos possessos que eram pacientes de Cristo.
- Morava entre os túmulos, entre as sepulturas dos mortos. Os túmulos deles ficavam fora das cidades, em lugares desolados (Jó 3:14), o que dava grande vantagem ao diabo. Pois ai daquele que está só.
Talvez o diabo o levasse às sepulturas para fazer as pessoas imaginarem que as almas dos mortos se transformavam em demônios e faziam o dano que era feito, para assim os demônios se eximirem da culpa pelo dano. Tocar numa sepultura contaminava (Números 19:16). O espírito impuro conduz as pessoas àquela companhia que as macula e assim conserva seu domínio sobre elas.
Ao resgatar almas do poder de Satanás, Cristo salva os vivos de entre os mortos.
- Era muito forte e indomável. “Ninguém podia prendê-lo”, como é necessário, tanto para o próprio bem deles quanto para a segurança dos outros, que sejam presos aqueles que perderam o juízo. Não só as cordas não o seguravam: correntes e grilhões de ferro tampouco, v. 3, 4.
É muito deplorável a situação dos que precisam ser presos assim; entre todos os infelizes deste mundo, são os mais dignos de compaixão. Mas a situação dele era a pior de todas, pois o diabo tinha nele tanta força que o homem não podia ser preso.
Isso mostra o triste estado das almas dominadas pelo diabo, desses filhos da desobediência em quem atua o espírito impuro. Alguns pecadores notoriamente obstinados se parecem com esse louco.
Nisso todos se parecem com o cavalo e a mula, que precisam ser contidos com freio e rédea; mas alguns se parecem com o jumento selvagem, que não se deixa conter assim.
As ordens e maldições da lei são como correntes e grilhões que impedem os pecadores de seguir seus caminhos perversos, mas eles rompem essas amarras, prova do poder do diabo que age neles.
- Era terror e tormento para si mesmo e para todos ao redor (v. 5). O diabo é um senhor cruel para os que mantém cativos, um verdadeiro tirano. Dia e noite aquele infeliz andava pelos montes e entre as sepulturas, gritando e cortando-se com pedras, ou lamentando sua própria condição deplorável, ou em fúria e indignação contra o céu.
Pessoas em frenesi muitas vezes se ferem e se destroem. O que é o ser humano quando a razão é destronada e Satanás ocupa o trono? Na fúria, os adoradores de Baal se cortavam, como este louco na sua. A voz de Deus é: “Não faças prejuízo a ti mesmo”. A voz de Satanás é: “Faze a ti mesmo todo o prejuízo que puderes”.
Ainda assim, despreza-se a palavra de Deus e atende-se à de Satanás. Talvez ele só cortasse os pés nas pedras afiadas sobre as quais corria descalço.
II. Sua aproximação de Cristo (v. 6). Quando viu Jesus ao longe, chegando à praia, correu e o adorou. Costumava correr furioso contra os outros, mas correu reverentemente para Cristo. Isso foi obra da mão invisível de Cristo, algo que correntes e grilhões não poderiam fazer: sua fúria foi contida de repente.
Até o diabo, naquela pobre criatura, foi obrigado a tremer diante de Cristo e curvar-se a ele; ou, antes, o pobre homem veio adorar Cristo, percebendo a necessidade que tinha da ajuda dele. Naquele instante, o poder de Satanás dentro dele e sobre ele foi suspenso.
III. A palavra de ordem que Cristo deu ao espírito impuro para abandonar sua posse (v. 8): “Sai dele, espírito impuro”. Ele fez o homem desejar alívio ao capacitá-lo a correr e adorá-lo; então exerceu seu poder para socorrê-lo. Se Cristo operar em nós para que oremos de coração por libertação de Satanás, operará essa libertação em nosso favor.
Temos aqui um exemplo do poder e da autoridade com que Cristo ordenava aos espíritos impuros, e eles lhe obedeciam (Marcos 1:27). Ele disse: “Sai do homem”. O desígnio do evangelho de Cristo é expulsar os espíritos impuros da alma das pessoas: “Sai do homem, espírito impuro, para que o Espírito Santo entre, tome posse do coração e tenha domínio nele.”
IV. O temor que o diabo sentia de Cristo. O homem correu e o adorou, mas foi o diabo dentro dele que gritou em alta voz, usando a língua daquele pobre homem: “O que tenho eu contigo?” (v. 7), como fizera o outro espírito impuro (Marcos 1:24).
Chama Deus de Deus Altíssimo, acima de todos os outros deuses. Os fenícios e as nações vizinhas de Israel conheciam Deus pelo nome Elion, o Altíssimo, e é assim que o diabo o chama.
Reconhece Jesus como Filho de Deus. Repare: não é estranho ouvir as melhores palavras saírem das piores bocas.
Só pelo Espírito Santo se pode dizer isso de certa maneira (1 Coríntios 12:3), contudo isso pode ser dito, de certo modo, pelo espírito impuro. Não se deve julgar as pessoas pelo que dizem levianamente; “pelos seus frutos os conhecereis”. A piedade dos dentes para fora é algo fácil.
O hipócrita que fala da maneira mais bonita não pode dizer melhor que chamar Jesus de Filho de Deus. E contudo isso o diabo fez.
Nega qualquer desígnio contra Cristo: “O que tenho eu contigo?” “Não preciso de ti, não alego precisar; desejo nada ter a ver contigo; não posso resistir diante de ti, e não quero cair.”
Suplica que afaste sua cólera: “Eu te conjuro”, isto é, “suplico-te com insistência, por tudo o que é sagrado; peço-te por Deus, por cuja permissão me apossei deste homem, que, embora me expulses daqui, contudo não me atormentes, que não me impeças de fazer dano em outro lugar.”
“Embora eu saiba que fui sentenciado, contudo não me envies às cadeias das trevas, nem me impeças de ir de um lado para outro para devorar.”
V. O relato que Cristo tomou deste espírito impuro a respeito do seu nome. Isso não aparece em Mateus.
Cristo perguntou: “Qual é o teu nome?” Não porque não pudesse chamar pelo nome todas as estrelas caídas, assim como as estrelas da manhã.
Mas pergunta para que os presentes se impressionassem com o enorme número e o poder daqueles espíritos malignos do inferno, como tinham razão de fazer, quando a resposta foi: “Meu nome é Legião, pois somos muitos”.
Alguns dizem que uma legião de soldados romanos tinha seis mil homens; outros, doze mil e quinhentos. Mas o número de uma legião, como o de um regimento entre nós, nem sempre era o mesmo. Ora, isso indica que os demônios, os poderes infernais, são:
- Poderes militares. Uma legião é um número de soldados em armas.
Os demônios guerreiam contra Deus e sua glória, contra Cristo e seu evangelho, contra as pessoas, sua santidade e felicidade. Devemos resistir e lutar contra eles (Efésios 6:12).
- Que são numerosos. Ele admite, ou antes se vangloria: “Somos muitos”, como se esperasse que fossem numerosos demais para que o próprio Cristo os enfrentasse.
Que multidões de espíritos apóstatas havia, e todos inimigos de Deus e do homem, quando aqui havia uma legião posta para manter guarnição numa pobre criatura miserável contra Cristo! Muitos se levantam contra nós.
- Que são unânimes. São muitos demônios, e contudo apenas uma legião empenhada na mesma causa perversa.
Por isso, era totalmente infundada a objeção dos fariseus de que Satanás expulsava Satanás e estava dividido contra si mesmo. Não foi um demônio daquela legião que traiu os demais: todos disseram como um só homem: “O que tenho eu contigo?”
- Que são muito poderosos. Quem pode resistir a uma legião?
Sozinhos, não somos páreo para nossos inimigos espirituais; mas, no Senhor e no poder da sua força, seremos capazes de resistir contra eles, embora haja legiões deles.
- Que há ordem entre eles, como há numa legião.
Há principados, potestades e dominadores das trevas deste mundo, o que pressupõe seres de escalão inferior: o diabo e seus anjos, o dragão e os seus, o príncipe dos demônios e seus súditos. Isso torna esses inimigos ainda mais temíveis.
VI. A súplica daquela legião para que Cristo lhe permitisse entrar numa manada de porcos que pastava perto dos montes (v. 11), aqueles montes que os endemoninhados frequentavam, v. 5. Seu pedido era:
- Que não os mandasse para fora daquela região (v. 10), não apenas que não os prendesse nem confinasse na prisão infernal, e assim os atormentasse antes do tempo, mas que não os banisse daquela região, como poderia fazer com justiça, pois tinham sido tamanho terror para ela, e feito tanto dano por meio daquele pobre homem.
Pareciam ter afeição particular por aquela região; ou, antes, rancor especial contra ela. E ter liberdade para andar de um lado para outro pelo restante da terra não bastará (Jó 1:7), a menos que lhes seja concedida a extensão daqueles montes como pastagem, Jó 39:8. Mas por que desejavam ficar ali?
Grotius diz que naquela região viviam muitos judeus apóstatas, que se haviam excluído da aliança de Deus e, assim, dado a Satanás poder sobre eles. Alguns sugerem que, tendo adquirido por experiência o conhecimento das disposições e dos costumes das pessoas daquela região, poderiam mais eficazmente fazer-lhes dano por suas tentações.
- Que lhes permitisse entrar nos porcos.
Ao destruí-los, esperavam fazer mais dano às almas de todas as pessoas da região do que poderiam fazendo morada no corpo de uma pessoa; por isso não pediram permissão para entrar num indivíduo, sabendo que Cristo não permitiria.
VII. A permissão que Cristo lhes deu para entrar nos porcos, e a imediata destruição dos porcos por isso. Ele lhes deu permissão (v. 13), não os proibiu nem conteve; deixou que fizessem o que queriam.
Assim, quis mostrar aos gadarenos que os demônios são inimigos poderosos e maliciosos, para que procurassem fazê-lo seu Amigo, pois só ele podia controlá-los e vencê-los, e já mostrara que podia.
Imediatamente os espíritos impuros entraram nos porcos, animais impuros pela lei, que naturalmente gostam de chafurdar na lama, o lugar mais adequado a eles.
Os que, como os porcos, se deleitam na lama dos desejos sensuais são morada apropriada para Satanás; são como Babilônia, “habitação de todo espírito impuro, e uma gaiola de toda ave impura e detestável” (Apocalipse 18:2), ao passo que almas puras são habitação do Espírito Santo.
Quando os demônios entraram nos porcos, todos imediatamente enlouqueceram e se precipitaram no mar próximo, onde se afogaram, num total de dois mil. O homem que possuíam apenas se cortava, pois Deus tinha dito que ele estava nas mãos deles, contanto que poupassem sua vida. Mas assim ficou claro que, se o diabo não tivesse sido contido dessa maneira, o pobre homem teria se afogado.
Veja quanto devemos à providência de Deus, e ao ministério dos anjos bons, por nossa preservação dos espíritos malignos.
VIII. A notícia de tudo isso se espalhou imediatamente por toda a região. Os que cuidavam dos porcos correram aos donos para dar o relato do que estava sob seu encargo, v. 14. Isso reuniu as pessoas para ver o que acontecera. E:
- Quando viram quão maravilhosamente o pobre homem fora curado, conceberam daí veneração por Cristo, v. 15.
Reconheceram o homem possuído, que conheciam bem, pois muitas vezes se assustaram ao vê-lo; e agora ficaram igualmente surpresos ao vê-lo sentado, vestido e em perfeito juízo. Quando Satanás foi expulso, ele voltou a si e imediatamente tornou a ser dono de si mesmo.
Repare: pessoas sérias e sensatas, que vivem com ordem e reflexão, mostram assim que, pelo poder de Cristo, o poder do diabo foi quebrado em sua alma. A visão os assustou, espantou-os e os obrigou a reconhecer o poder de Cristo e que ele é digno de temor. Mas:
- ao descobrirem que haviam perdido os porcos, passaram a desgostar de Cristo e preferiram que ele saísse a tê-lo entre eles. Pediram que deixasse a região, pois julgavam que nenhum bem que ele pudesse fazer compensaria a perda de tantos porcos, talvez gordos e prontos para o mercado.
Os demônios conseguiram o que queriam, pois nada ajuda esses espíritos malignos a dominar almas pecadoras com mais eficácia do que o amor ao mundo. Temiam que Cristo permanecesse e lhes trouxesse outro castigo; ao passo que, se ao menos abandonassem seus pecados, ele tinha vida e felicidade para eles.
Mas, relutantes em abandonar ou seus pecados ou seus porcos, preferiram abandonar seu Salvador. Assim fazem os que, em vez de largar um desejo vil, abrem mão do lugar que têm em Cristo e das suas expectativas em relação a ele. Deveriam ter raciocinado: “Se ele tem tanto poder sobre os demônios e todas as criaturas, é bom fazê-lo nosso Amigo.”
“Se os demônios têm permissão para ficar em nossa região (v. 10), peçamos também que ele fique, pois só ele pode controlá-los.” Em vez disso, quiseram afastá-lo ainda mais. Que interpretações estranhas os corações carnais fazem dos justos juízos de Deus!
Em vez de serem conduzidos a ele, como deveriam, afastam-no ainda mais, embora tenha dito: “Não me provoqueis, e não vos farei mal” (Jeremias 25:6).
IX. Um relato da conduta do pobre homem depois de sua libertação:
- Desejou acompanhar Cristo (v. 18), talvez com medo de que o espírito maligno voltasse a dominá-lo; ou, antes, porque desejava ser instruído por Cristo e não queria ficar entre aquelas pessoas pagãs que lhe pediram que partisse.
Os libertos do espírito maligno não podem deixar de desejar conhecer e conviver com Cristo.
- Cristo não quis permitir que fosse com ele, para que isso não parecesse ostentação e para mostrar-lhe que podia tanto protegê-lo quanto instruí-lo à distância.
E, além disso, tinha outro trabalho para ele fazer. Precisava ir para casa, para seus amigos, e contar-lhes que grandes coisas o Senhor fizera em seu favor, o Senhor Jesus fizera. Para que Cristo fosse honrado, e seus vizinhos e amigos fossem edificados, e convidados a crer em Cristo.
Precisava reparar particularmente antes na compaixão de Cristo do que no seu poder, pois é nisso que ele especialmente se gloria. Precisava contar-lhes que compaixão o Senhor tivera dele em sua miséria.
- Tomado de alegria, o homem proclamou por toda a região as grandes coisas que Jesus fizera por ele (v. 20).
Esta é uma dívida que temos tanto para com Cristo quanto para com nossos irmãos, para que ele seja glorificado e eles edificados. E veja qual foi o efeito disso: “Todos se admiraram”, mas poucos foram além. Muitos não podem deixar de admirar as obras de Cristo, mas não o seguem com a admiração que deveriam.
Versículos 21 a 34
A Cura da Hemorragia.
Como os gadarenos pediram que Cristo deixasse sua região, ele não ficou para incomodá-los por muito tempo. Mas imediatamente foi pela água, como viera, de volta à outra margem (v. 21), e ali muita gente se reuniu a ele. Repare: se há alguns que rejeitam Cristo, contudo há outros que o recebem e lhe dão boas-vindas.
Um evangelho desprezado atravessará o mar e irá aonde será melhor acolhido. Agora, entre os muitos que recorreram a ele:
I. Aqui está alguém que vem abertamente pedir uma cura para uma criança doente. E não é ninguém menos que um dos chefes da sinagoga, que presidia o culto ali; ou, como pensam alguns, um dos juízes do tribunal consistorial, que havia em cada cidade e era composto de vinte e três pessoas. Mateus não lhe dá nome; aqui ele é chamado Jairo, ou Jair (Juízes 10:3).
Embora fosse chefe, aproximou-se de Cristo com grande humildade e reverência. Ao vê-lo, caiu a seus pés e o honrou como alguém realmente maior do que parecia. E, com grande insistência, suplicou-lhe muito, como alguém empenhado, como alguém que não só valorizava a misericórdia pela qual vinha, mas sabia que não podia obtê-la em nenhum outro lugar.
O caso era este: tinha uma filhinha de cerca de doze anos, a querida da família, que estava à beira da morte. Mas crê que, se Cristo ao menos vier e puser suas mãos sobre ela, ela voltará até das portas da sepultura.
Disse primeiro, quando chegou: “Ela está morrendo” (assim Marcos). Mas depois, ao receber nova informação que lhe foi enviada, diz: “Ela está morta agora mesmo” (assim Mateus). Mas continua a insistir no seu pedido; veja Lucas 8:42-49. Cristo prontamente concordou e foi com ele (v. 24).
II. Aqui está outra, que vem clandestinamente roubar uma cura (se posso dizer assim) para si mesma. E obteve o alívio pelo qual veio. A cura aconteceu no caminho, enquanto Cristo ia ressuscitar a filha do chefe, seguido por uma multidão. Veja como Cristo aproveitava o tempo e não desperdiçava nenhum de seus preciosos momentos.
Muitos de seus discursos e alguns de seus milagres aconteceram pelo caminho. Devemos fazer o bem, não só quando nos sentamos em casa, mas quando andamos pelo caminho, Deuteronômio 6:7. Agora observe:
- A situação lamentável daquela mulher. Há doze anos sofria de hemorragia constante, o que sem dúvida a deixara muito fraca, amargara o conforto da sua vida e ameaçava matá-la em pouco tempo. Recebera dos médicos a melhor orientação que pudera obter e usara os muitos remédios e tratamentos que prescreveram.
Enquanto tinha algo para lhes dar, eles a mantiveram na esperança de que poderiam curá-la; mas, depois que gastou tudo com eles, deram-na por incurável. Veja aqui:
(1.) Que pele por pele, e tudo o que um homem tem, dará pela vida e pela saúde. Ela gastou tudo o que tinha com médicos.
(2.) É ruim para aqueles pacientes cujos médicos são sua pior doença, que sofrem por seus médicos em vez de serem aliviados por eles.
(3.) Os que não melhoram com remédios geralmente pioram, e a doença ganha mais terreno.
(4.) É comum as pessoas não recorrerem a Cristo até terem experimentado em vão todos os outros ajudantes, e os acharem, como certamente acharão, médicos sem valor. E ele será encontrado como refúgio seguro até pelos que o fazem seu último refúgio.
- A forte fé que ela tinha no poder de Cristo para curá-la. Disse consigo mesma, embora não pareça que algum exemplo anterior a tenha encorajado a pensar assim: “Se eu apenas tocar na roupa dele, ficarei curada” (v. 28).
Acreditava que Cristo curava não como profeta, por um poder recebido de Deus, mas como Filho de Deus, por um poder que lhe era próprio. Seu caso era tal que, por pudor, não podia contá-lo a ele publicamente, como outros contavam suas queixas; por isso desejava uma cura reservada, e sua fé correspondia à sua situação.
- O efeito maravilhoso produzido por essa fé. Ela chegou por trás dele no meio da multidão e, com muita dificuldade, conseguiu tocar em sua roupa. Imediatamente sentiu que a cura acontecera (v. 29). A hemorragia secou, e num instante ela se sentiu perfeitamente bem em todo o corpo, tão bem quanto em qualquer momento da vida.
Isso mostra que a cura foi completamente milagrosa; quem se recupera nesses casos por meios naturais recobra as forças devagar e gradualmente, não per saltum, de uma vez. Mas a obra de Deus é perfeita. Repare: os que Cristo cura da doença do pecado, essa hemorragia, não podem deixar de experimentar em si uma transformação geral para melhor.
- A procura de Cristo por sua paciente oculta, e o ânimo que lhe deu ao descobri-la. Cristo sabia em si mesmo que dele saíra poder (v. 30), não por qualquer diminuição de vigor causada pelo esgotamento desse poder, mas antes pela vivacidade de seu espírito ao exercê-lo e pelo prazer inato e inseparável que sentia em fazer o bem.
E, desejando ver sua paciente, perguntou, não com irritação, como alguém ofendido, mas com ternura e preocupação: “Quem tocou na minha roupa?” Os discípulos quase ridicularizaram a pergunta não sem uma aparência de dureza e falta de decoro (v. 31): “As multidões te apertam, e dizes: ‘Quem me tocou?’”, como se fosse uma pergunta imprópria.
Cristo deixou passar a afronta e olhou ao redor para ver quem fizera aquilo. Não para culpá-la por sua presunção, mas para elogiar e animar sua fé, e por seu próprio ato e ação garantir e confirmar a cura, e ratificar para ela aquilo que tinha obtido furtivamente. Não precisava que ninguém o informasse, pois logo voltou os olhos para ela.
Repare: assim como os atos secretos de pecado, os atos secretos de fé são conhecidos pelo Senhor Jesus, e estão sob seu olhar. Se os crentes recebem poder de Cristo, por mais discretamente que seja, ele sabe e se agrada disso.
Então a pobre mulher se apresentou ao Senhor Jesus (v. 33), com medo e tremendo, sem saber como ele reagiria. Repare: os pacientes de Cristo muitas vezes tremem quando têm motivos para triunfar. Ela poderia ter-se aproximado com confiança, sabendo o que fora feito nela. Contudo, sabendo isso, teme e treme.
Foi uma surpresa, e ainda não era, como deveria ter sido, uma surpresa agradável. No entanto, prostrou-se diante dele. Repare: nada é melhor para os que temem e tremem do que se lançar aos pés do Senhor Jesus, humilhar-se diante dele e confiar-se a ele. Ela lhe contou toda a verdade.
Repare: não devemos ter vergonha de reconhecer o que acontece em segredo entre Cristo e nossa alma. Mas, quando chamados a isso, precisamos mencionar, para seu louvor e o ânimo de outros, o que ele fez por nossa alma e como experimentamos o poder curador que dele recebemos.
E a consideração de que nada pode ficar escondido de Cristo deve nos levar a confessar tudo a ele.
Veja que palavra de ânimo ele lhe dirigiu (v. 34): “Filha, a tua fé te tornou sã.” Repare: Cristo honra a fé porque a fé honra Cristo. Mas veja como o que é feito pela fé na terra é confirmado no céu.
Cristo diz: “Sê sã da tua enfermidade”. Repare: se nossa fé puser o selo do seu amém no poder e na promessa de Deus, dizendo: “Assim é, e assim seja para mim”, a graça de Deus porá o selo do seu amém nas orações e esperanças da fé, dizendo: “Assim seja, e assim será para ti”.
E, por isso: “Vai em paz; fica bem satisfeita de que tua cura foi honestamente obtida, eficazmente realizada, e recebe seu consolo”. Repare: os que pela fé são curados das suas doenças espirituais têm motivo para ir em paz.
Versículos 35 a 43
A Filha de Jairo Ressuscitada.
As doenças e as mortes entraram no mundo por causa do pecado e da desobediência do primeiro Adão; mas pela graça do segundo Adão, ambas são vencidas. Depois de curar uma doença incurável, Cristo prossegue triunfando sobre a morte, assim como no começo do capítulo triunfou sobre um demônio violento.
I. Jairo recebe a triste notícia de que sua filha morreu e, portanto, se Cristo for como os outros médicos, ele chega tarde demais. Enquanto há vida, há esperança e espaço para o uso de meios; quando a vida se vai, não há como trazê-la de volta: “Por que incomodas mais o Mestre?” (v. 35).
Em geral, o pensamento apropriado nessa situação é: “A questão está decidida, a vontade de Deus foi feita, e eu me submeto e me conformo. O Senhor deu e o Senhor tirou. Enquanto a criança estava viva, jejuei e chorei, pois disse: ‘Quem sabe Deus ainda será gracioso comigo, e a criança viverá?’ Mas agora que morreu, por que eu choraria?”
“Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim.” Com palavras assim devemos nos acalmar nessa hora, para que nossa alma seja como uma criança desmamada da sua mãe. Mas ali o caso era extraordinário: a morte da criança não encerra a narrativa, como geralmente acontece.
II. Cristo anima o pai aflito a continuar a esperar que seu pedido a Cristo em favor de sua filha não seria em vão. Cristo tinha se demorado para realizar uma cura no caminho, mas Jairo não sofrerá por isso, nem perderá pelo ganho dos outros: “Não temas, somente crê”. Podemos imaginar Jairo hesitando, sem saber se devia pedir que Cristo continuasse.
Mas não temos tanta necessidade da graça e do consolo de Deus e, por consequência, das orações de nossos ministros e amigos cristãos quando há morte em casa quanto quando há doença? Por isso Cristo logo resolve a questão: “Não tema que minha chegada seja inútil; apenas creia que farei com que isso resulte em bem.” Repare:
- Não devemos desesperar por nossos familiares que morreram nem chorar por eles como os que não têm esperança.
Veja o que se diz a Raquel, que se recusava a ser consolada por seus filhos, supondo que eles não existiam mais: “Refreia tua voz do choro, e teus olhos das lágrimas; pois há esperança no teu fim, de que teus filhos voltarão” (Jeremias 31:16-17). Portanto, não tema nem desfaleça.
- A fé é o único remédio contra a dor e o medo que nos perturbam numa hora dessas: que ela os silencie. “Somente crê.” Mantenha a confiança em Cristo e dependa dele; ele fará o que for melhor. Creia na ressurreição e então não tenha medo.
III. Cristo foi com um grupo escolhido à casa onde estava a menina morta. Por meio da multidão que o acompanhava, ele dera oportunidade à pobre mulher, que ele acabara de curar; depois disso, afastou a multidão e não permitiu que ninguém o acompanhasse, isto é, fosse com ele, exceto seus três discípulos mais íntimos, Pedro, Tiago e João.
Um número suficiente para serem testemunhas do milagre, mas não tal número que levá-los consigo pudesse parecer vanglória.
IV. Cristo ressuscitou a menina. Os detalhes do relato são quase os mesmos que encontramos em Mateus; aqui podemos observar apenas:
Que a menina era muito amada, pois parentes e vizinhos choravam e lamentavam muito. É doloroso ver o que veio como uma flor ser cortado tão cedo e murchar antes de crescer, quando nos entristece aquilo de que dissemos: “Este é que nos consolará.”
Que não havia dúvida de que a menina estava real e verdadeiramente morta. O fato de terem zombado de Cristo por dizer “Ela não está morta, mas dorme”, embora altamente repreensível, serve para comprovar isso.
Que Cristo pôs para fora os que não eram dignos de testemunhar o milagre: faziam muito barulho em sua tristeza e desconheciam tanto as coisas de Deus que não entendiam quando ele falava da morte como sono, ou eram tão zombadores que o ridicularizavam por isso.
Que chamou os pais da menina para testemunharem o milagre, pois levou em conta a fé deles e pretendia consolá-los. Eram os verdadeiros pranteadores, pois eram os pranteadores silenciosos.
Que Cristo ressuscitou a menina com uma palavra de poder, registrada aqui também em siríaco, a língua em que ele falava, para que o fato ficasse mais bem confirmado: Talitha cumi — “Menina, eu te digo: levanta-te.” O doutor Lightfoot diz que os judeus costumavam dizer a um doente a quem davam remédio: “Levante-se da sua doença”, querendo dizer: “Esperamos que você se levante”.
Mas a quem estava morto Cristo disse: “Levante-se dentre os mortos”, isto é: “Ordeno que você se levante”.
Ou melhor: há mais nisso: os mortos não têm poder para se levantar; portanto, esta palavra vem acompanhada do poder que a torna eficaz. Da quod jubes, et jube quod vis — “Dá o que ordenas e ordena o que quiseres.” Cristo age ao ordenar e age por meio da ordem; por isso pode ordenar o que quiser, até que os mortos se levantem.
Assim é o chamado do evangelho aos que estão por natureza mortos em delitos e pecados: não podem levantar-se dessa morte por seu próprio poder mais do que esta criança podia. Ainda assim, a palavra “Desperta, e levanta-te dentre os mortos” não é vazia nem inútil quando logo em seguida se diz: “Cristo te dará luz” (Efésios 5:14).
A vida espiritual é concedida pela palavra de Cristo: “Eu te disse: Vive” (Ezequiel 16:6).
- Que, assim que a vida voltou, a menina se levantou e andou (v. 42). A vida espiritual aparecerá por nos levantarmos do leito da preguiça e do descuido, e por andarmos numa conduta religiosa, por andarmos de um lado para outro no nome e na força de Cristo.
Pode-se esperar até mesmo dos que têm doze anos que andem como pessoas a quem Cristo ressuscitou para a vida, e não segundo a vaidade natural da mente.
Que todos os que viram o milagre e ouviram falar dele admiraram o milagre e aquele que o realizou: “Espantaram-se com grande espanto.” Não podiam deixar de reconhecer que havia ali algo extraordinário e grandioso, mas não sabiam o que pensar nem que conclusão tirar. A admiração deveria ter avançado até se tornar fé viva, mas parou num estupor ou espanto.
Que Cristo procurou manter o milagre em segredo: “Ordenou-lhes rigorosamente que ninguém o soubesse”. Um número suficiente de pessoas já o conhecia, mas ele não queria que fosse divulgado mais amplamente naquele momento.
Porque sua própria ressurreição seria a grande demonstração do seu poder sobre a morte. E, por isso, a divulgação de outras demonstrações devia ser reservada até que aquela grande prova fosse dada.
Que uma parte da evidência seja mantida em segredo até que a outra parte, sobre a qual está o peso principal, seja preparada.
- Que Cristo cuidou para que dessem algo à menina para comer. Isso mostrou que ela não voltara apenas à vida, mas também a um bom estado de saúde, tendo apetite pelo seu alimento. Até as criancinhas recém-nascidas na casa de Cristo desejam o leite puro (1 Pedro 2:1-2).
É notável que, como Cristo, quando primeiro fez o homem, imediatamente providenciou alimento para ele, tirado da terra de que fora formado (Gênesis 1:29); assim agora, quando dera uma nova vida, cuidou para que se desse algo para comer. Pois, se ele deu vida, pode-se confiar nele para dar sustento, pois a vida é mais do que o alimento (Mateus 6:25).
Onde Cristo deu vida espiritual, providenciará o alimento que a sustente e nutra para a vida eterna, pois nunca abandonará nem deixará de cuidar da obra de suas próprias mãos.