Marcos 4
Argumento
Neste capítulo temos:
I. A parábola da semente e dos quatro tipos de solo (vv. 1-9), sua explicação (vv. 10-20) e sua aplicação (vv. 21-25).
II. A parábola da semente que cresce gradualmente, mas sem que se perceba (vv. 26-29).
III. A parábola do grão de mostarda e um relato geral das parábolas de Cristo (vv. 30-34).
IV. O milagre de Cristo ao acalmar de repente uma tempestade no mar (vv. 35-41).
Versículos 1 a 20
A Parábola do Semeador.
O capítulo anterior começou com Cristo entrando na sinagoga (v. 1); este começa com Cristo ensinando novamente à beira-mar. Assim, mudou seu método para que, se possível, todos fossem alcançados e tocados.
Para atender às pessoas refinadas e mais elegantes, que tinham assentos, os melhores lugares na sinagoga, e não gostavam de ouvir sermão em nenhum outro lugar, ele não pregava sempre à beira-mar; quando podia, ia muitas vezes à sinagoga e ensinava ali.
Ainda assim, para atender aos pobres, à multidão que não conseguia espaço na sinagoga, não pregava sempre ali, mas voltava a ensinar à beira-mar, onde todos podiam ouvi-lo. Assim somos devedores tanto aos sábios quanto aos ignorantes (Romanos 1:14).
Parece que aqui surgiu uma nova conveniência, ainda não usada, embora ele já tivesse pregado à beira-mar (Marcos 2:13): ficar de pé num barco enquanto os ouvintes permaneciam em terra. Como o mar interior de Tiberíades não tem marés, não havia vazante nem enchente que os perturbasse.
Parece-me que Cristo levar sua doutrina para um barco e pregá-la dali prenunciava o envio do evangelho às ilhas dos gentios e o embarque do reino de Deus, essa rica carga, para longe da nação judaica, a fim de ser enviado a um povo que produziria mais frutos dele. Observe aqui:
I. O modo de ensinar que Cristo usou com a multidão (v. 2). Ensinou-lhes muitas coisas por parábolas ou comparações, que os atraíam a ouvir.
As pessoas gostam que lhes falem em sua própria linguagem, e os ouvintes desatentos se agarram a uma comparação simples, tirada de coisas comuns; guardam-na e a repetem mesmo depois de esquecer, ou talvez nunca terem compreendido, a verdade que ela deveria explicar e ilustrar.
Mas, se não se esforçassem para investigá-la, ela apenas os divertiria: vendo, não perceberiam (v. 12). Assim, ao mesmo tempo que satisfazia a curiosidade deles, a parábola era castigo por sua estupidez. Fechavam voluntariamente os olhos à luz; por isso Cristo, com justiça, a punha na lanterna velada de uma parábola.
Essa lanterna tinha o lado luminoso voltado para quem aplicava a parábola a si mesmo e se dispunha a ser guiado por ela; para quem só queria brincar com ela por algum tempo, dava apenas lampejos ocasionais e o deixava na escuridão.
É justo Deus dizer aos que não querem ver que não verão e ocultar a luz dos olhos daqueles que olham ao redor com grande descuido, mas nunca olham adiante com preocupação pelas coisas que dizem respeito à sua paz.
II. O modo de explicar que usou com os discípulos. Quando ficou sozinho, não apenas os doze, mas também outros que estavam com eles aproveitaram a ocasião para perguntar o significado das parábolas (v. 10).
Eles descobriram que era bom ficar perto de Cristo: quanto mais perto, melhor; e que era bom estar com os doze, conviver com os que eram íntimos dele. Cristo lhes contou que era um privilégio especial terem sido instruídos no mistério do reino de Deus (v. 11). O segredo do Senhor estava com eles.
Aquilo que apenas divertia os outros os instruía; cada parábola aumentava o conhecimento deles. Entendiam melhor o modo como Cristo pretendia estabelecer seu reino no mundo, enquanto os outros eram dispensados sem aprender nada. Repare: quem conhece o mistério do reino dos céus deve reconhecer que isso lhe foi dado.
Recebe tanto a luz quanto a visão de Jesus Cristo, que, depois da ressurreição, abriu as Escrituras e o entendimento (Lucas 24:27, 45).
Em particular, temos aqui:
- A parábola do semeador, como em Mateus 13:3 e seguintes. Ele começa (v. 3) com “Escutem” e termina (v. 9) com “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Repare: as palavras de Cristo exigem atenção, e os que falam por ele podem exigi-la e devem despertá-la.
Mesmo aquilo que ainda não entendemos plenamente, ou não entendemos corretamente, devemos ouvir com cuidado, crendo que é compreensível e importante, para que enfim o entendamos. Descobriremos que as palavras de Cristo contêm mais do que parecia à primeira vista.
- A explicação dada aos discípulos. Antes de explicar, Cristo lhes fez uma pergunta que não aparece em Mateus (v. 13): “Vocês não entendem esta parábola? Não sabem o que significa? Como, então, entenderão todas as parábolas?” (1.) “Se não entendem esta, que é tão clara, como entenderão outras parábolas mais obscuras?”
“Se ficam confusos e encalhados com esta, que apresenta tão claramente os diferentes resultados da palavra pregada entre os ouvintes, algo que vocês mesmos podem perceber com facilidade, como entenderão as parábolas que depois falarão da rejeição dos judeus e do chamado dos gentios, assunto de que vocês não têm a menor ideia?”
Repare: isso deve nos estimular a orar e nos esforçar para obter conhecimento, pois há muitas coisas que precisamos conhecer. Se não entendemos as verdades claras do evangelho, como dominaremos as mais difíceis? Vita brevis, ars longa — a vida é breve, a arte é longa.
Se corremos com os homens a pé e eles nos cansaram e venceram, como competiremos com cavalos? (Jeremias 12:5). (2.) “Se vocês não entendem esta parábola, que pretende orientá-los a ouvir a palavra e tirar proveito dela, como aproveitarão o que ainda ouvirão?”
“Ela ensina a prestar atenção à palavra e a deixar-se tocar por ela, para que possam entendê-la. Se não a acolherem, não saberão usar a chave que lhes dará acesso a todo o restante.” Se não entendemos as regras que devemos seguir para tirar proveito da palavra, como tiraremos proveito de qualquer outra regra?
Observe: antes de explicar a parábola, [1.] ele mostra como era triste a condição daqueles que não eram instruídos no significado da doutrina de Cristo: “A vocês é dado, mas a eles não.” Repare: para valorizarmos os privilégios que temos como discípulos de Cristo, ajuda considerar o estado deplorável dos que não os têm.
Especialmente porque estão fora do caminho habitual da conversão, para que não se convertam e seus pecados não sejam perdoados (v. 12). Somente os convertidos têm os pecados perdoados; a miséria das almas não convertidas é permanecerem sob a culpa não perdoada.
[2.] Ele mostra que era vergonhoso precisarem de explicações tão específicas da palavra que ouviram, sem compreendê-la de imediato. Quem deseja crescer em conhecimento precisa reconhecer a própria ignorância.
Depois de prepará-los assim, dá-lhes a interpretação da parábola do semeador, como já vimos em Mateus. Observemos apenas:
Primeiro, no grande campo da igreja, a palavra de Deus é distribuída indiscriminadamente: “O semeador semeia a palavra” (v. 14); semeia ao acaso, junto a todas as águas, em todo tipo de solo (Isaías 32:20), sem saber onde cairá nem que fruto dará. Ele a espalha para que se multiplique.
Por algum tempo, o próprio Cristo semeou, indo de lugar em lugar para ensinar e pregar; agora envia seus ministros e semeia pelas mãos deles. Os ministros são semeadores e precisam da habilidade e do discernimento do lavrador (Isaías 28:24-26).
Não devem observar os ventos e as nuvens (Eclesiastes 11:4, 6), mas olhar para Deus, que dá semente ao semeador (2 Coríntios 9:10).
Segundo, entre os muitos que ouvem e leem o evangelho e convivem com ele, comparativamente poucos o recebem de modo a produzir seus frutos: apenas um em cada quatro chega a bom resultado. É triste pensar quanto da preciosa semente da palavra de Deus se perde e é semeada em vão; mas chegará o dia em que se prestará conta dos sermões desperdiçados.
Muitos que ouviram o próprio Cristo pregar em suas ruas ouvirão dele, mais tarde, que devem afastar-se. Portanto, os que fazem da religião apenas ouvir, como se isso por si só os salvasse, enganam a si mesmos e constroem a esperança sobre a areia (Tiago 1:22).
Terceiro, muitos se comovem bastante com a palavra no momento, mas não recebem dela benefício duradouro. Os movimentos da alma em resposta ao que ouvem são apenas um lampejo, como o crepitar dos espinhos debaixo da panela.
Lemos sobre hipócritas que se agradam de conhecer os caminhos de Deus (Isaías 58:2); sobre Herodes, que ouvia João com prazer (Marcos 6:20); sobre outros que se alegraram com sua luz (João 5:35); sobre aqueles para quem Ezequiel era como uma bela canção (Ezequiel 33:32).
Os representados pelo solo pedregoso receberam a palavra com alegria, mas não chegaram a nada.
Quarto, a palavra não deixa impressões dominantes e duradouras na mente das pessoas porque o coração delas não está devidamente preparado para recebê-la. A culpa é delas, não da palavra. Alguns são ouvintes descuidados e esquecidos, e não recebem nenhum benefício; a palavra entra por um ouvido e sai pelo outro.
Outros têm seus convencimentos vencidos pelas próprias corrupções e perdem as boas impressões que a palavra causou; assim, não recebem benefício duradouro.
Quinto, o diabo se ocupa muito dos ouvintes displicentes e descuidados, como as aves do céu rondam a semente que fica na superfície.
Quando o coração, como o caminho, não foi arado nem humilhado e fica exposto a ser pisado por qualquer passante, como acontece com quem recebe muita gente, o diabo age como as aves: vem depressa e leva a palavra antes que percebamos. Portanto, quando essas aves descem sobre os sacrifícios, devemos fazer como Abrão e afugentá-las (Gênesis 15:11).
Talvez não consigamos impedir que voem sobre nossa cabeça, mas não devemos deixá-las fazer ninho no coração.
Sexto, muitos não são escandalizados abertamente a ponto de abandonar sua profissão de fé, como fizeram os representados pelo solo pedregoso; ainda assim, têm a eficácia dela sufocada às escondidas, até que nada reste. Persistem numa profissão de fé estéril e hipócrita, que nada produz, e acabam indo para o inferno com a mesma certeza, embora de modo menos evidente.
Sétimo, impressões que não são mantidas não duram: desaparecem em tempos de sofrimento e provação, como pegadas na areia do mar, apagadas pela próxima maré de perseguição. Quando a iniquidade aumenta, o amor de muitos pelos caminhos de Deus esfria.
Muitos que mantêm a profissão de fé em dias tranquilos a perdem na tempestade, como os que saem ao mar apenas por prazer e voltam quando o vento se levanta. A ruína dos hipócritas é não terem raiz; não agem com base num princípio vivo e firme, nem cuidam do trabalho do coração. Sem isso, a religião nada é; cristão é aquele que o é interiormente.
Oitavo, muitos são impedidos de tirar proveito da palavra de Deus pela abundância de bens deste mundo. Muitas boas lições de humildade, caridade, renúncia de si e dedicação às coisas celestiais são sufocadas e perdidas pela satisfação excessiva com o mundo, que tende a surgir naqueles a quem ele sorri.
Assim, muitos que professam a fé e poderiam ter amadurecido acabam como as vacas magras e as espigas mirradas do faraó.
Nono, quem não está sobrecarregado com as preocupações do mundo e o engano das riquezas ainda pode perder o benefício de sua profissão de fé por causa dos desejos de outras coisas.
Marcos acrescenta essa ideia: os desejos voltados para outras coisas, como explica o doutor Hammond, são apetite desordenado por aquilo que agrada aos sentidos ou à imaginação. Quem possui pouco do mundo ainda pode arruinar-se ao satisfazer os desejos do corpo.
Décimo, Deus espera e exige fruto daqueles que desfrutam do evangelho: fruto correspondente à semente, isto é, disposição de espírito e modo de vida de acordo com o evangelho; graças cristãs exercidas diariamente e deveres cristãos cumpridos devidamente. Esse é o fruto, e ele aumentará o nosso saldo.
Por fim, não se espera bom fruto senão de boa semente. Se a semente cair em boa terra, se o coração for humilde, santo e voltado para o céu, haverá bom fruto, às vezes até cem por um, uma colheita como a de Isaque (Gênesis 26:12).
Versículos 21 a 34
O Avanço Gradual do Evangelho.
As lições que nosso Salvador pretende nos ensinar aqui por meio de parábolas e figuras são estas:
I. Que os que são bons devem considerar a obrigação que têm de fazer o bem, isto é, como na parábola anterior, produzir fruto. Deus espera que retribuamos com gratidão os dons que nos deu e os empreguemos de modo útil em nós, pois (v. 21) alguém traz uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto ou da cama? Não, mas para colocá-la no candeeiro.
Os apóstolos foram ordenados a receber o evangelho não apenas para si, mas para o bem dos outros, a fim de comunicá-lo a eles. Todos os cristãos, conforme recebem um dom, devem colocá-lo a serviço dos outros. Repare: 1. Os dons e as graças fazem do homem uma candeia, “a candeia do Senhor” (Provérbios 20:27), acesa pelo Pai das luzes.
Os mais ilustres são apenas candeias, luzes fracas em comparação com o Sol da justiça. A candeia ilumina pouco e por pouco tempo, apaga-se facilmente, e queima e se consome sem parar. 2. Muitos que são acesos como candeias põem-se debaixo de uma cama ou de um cesto: não manifestam a graça em si mesmos nem a comunicam aos outros.
Têm bens e não os usam para fazer o bem; têm membros, sentidos, inteligência e talvez conhecimento, mas ninguém se beneficia disso. Têm dons espirituais, mas não os usam; como uma vela dentro de uma urna, ardem só para si.
- Os que são acesos como candeias devem colocar-se no candeeiro, isto é, aproveitar todas as oportunidades para fazer o bem, como pessoas criadas para a glória de Deus e para servir as comunidades a que pertencem. Não nascemos para nós mesmos.
A razão apresentada é que não há nada oculto que não venha a ser manifestado, ou melhor, que não deva ser manifestado (assim talvez se deva ler; v. 22). Nenhum tesouro de dons e graças é confiado a alguém sem o propósito de ser comunicado.
O evangelho não foi revelado em segredo aos apóstolos para ser escondido, mas para ser divulgado a todo o mundo. Embora Cristo explicasse as parábolas aos discípulos em particular, pretendia assim torná-los mais úteis em público. Foram ensinados para que ensinassem.
É uma regra geral que a ministração do Espírito é dada a cada um para proveito, não apenas próprio, mas também dos outros.
II. Os que ouvem a palavra do evangelho devem prestar atenção ao que ouvem e fazer bom uso disso, pois seu bem-estar ou sua desgraça dependem disso. Cristo repete o que já dissera: “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça” (v. 23). Que ouça com atenção o evangelho de Cristo.
Mas isso não basta; acrescenta-se: “Tenham cuidado com o que ouvem” (v. 24), e deem a devida atenção ao que ouviram. O doutor Hammond traduz: “Considerem o que ouvem.” Repare: o que ouvimos não nos faz bem se não o considerarmos.
Os que devem ensinar outros precisam observar com cuidado as coisas de Deus e prestar atenção à mensagem que entregarão, para serem precisos. Também devemos tomar cuidado com o que ouvimos, examinando tudo para reter o que é bom. Precisamos ser cautelosos e ficar de guarda para não sermos iludidos. Para reforçar essa cautela, considere:
Deus nos tratará como nós o tratamos, conforme explica o doutor Hammond: “Com a medida com que medirem vocês serão medidos. Se vocês forem servos fiéis a ele, ele será um Senhor fiel a vocês; com o íntegro, ele se mostrará íntegro.”
Se fizermos bom uso dos talentos que nos foram confiados, eles aumentarão. Se empregarmos o conhecimento que temos para a glória de Deus e o benefício dos outros, ele crescerá visivelmente, como o capital de um negócio quando é posto em circulação. “A vocês que ouvem, mais será dado; a vocês que têm, será dado” (v. 25).
Se os discípulos entregarem à igreja aquilo que receberam do Senhor, serão conduzidos mais profundamente ao segredo do Senhor. Dons e graças se multiplicam quando são exercitados, e Deus prometeu abençoar a mão diligente.
- Se não usarmos o que temos, perderemos até isso. “Ao que não tem”, isto é, ao que não faz bem algum com o que tem e, portanto, tem em vão, como se não tivesse, “até o que tem lhe será tirado.” Enterrar um talento é trair uma confiança e equivale a perdê-lo; dons e graças enferrujam quando não são usados.
III. A boa semente do evangelho, semeada no mundo e no coração, produz aos poucos efeitos maravilhosos, sem alarde (v. 26 e seguintes): “Assim é o reino de Deus”; assim é o evangelho quando é semeado e recebido como semente em boa terra.
- Ela brotará. Embora pareça perdida e enterrada sob os torrões, encontrará ou abrirá caminho por eles. A semente lançada à terra germinará. Basta que a palavra de Cristo tenha no coração o lugar que deve ter, e ela se manifestará, como a sabedoria do alto se manifesta numa boa conduta.
Depois que um campo é semeado, quão depressa sua superfície muda! Que aspecto alegre e agradável tem quando se cobre de verde!
- O lavrador não sabe explicar como ela brota. É um dos mistérios da natureza: “A semente brota e cresce, sem que ele saiba como” (v. 27). Ele vê que cresceu, mas não sabe de que modo, nem qual foi a causa e o processo do crescimento.
Tampouco sabemos como o Espírito, por meio da palavra, transforma o coração, assim como não explicamos o sopro do vento, cujo som ouvimos, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Sem dúvida, grande é o mistério da piedade: como Deus, manifestado em carne, veio a ser crido no mundo (1 Timóteo 3:16).
- Depois de semear, o lavrador nada faz para que a semente brote. “Ele dorme e se levanta, noite e dia”: vai dormir à noite e se levanta pela manhã; talvez nem sequer pense no cereal que semeou ou olhe para ele, mas segue com seus prazeres ou outros afazeres.
Ainda assim, a terra produz fruto por si, conforme o curso normal da natureza e pelo poder combinado do Deus da natureza. Assim, quando é recebida com fé, a palavra da graça se torna no coração uma obra de graça, e os pregadores nada contribuem para isso.
O Espírito de Deus a faz avançar enquanto dormem, sem poder trabalhar (Jó 33:15-16), ou quando se levantam para cuidar de outras coisas. Os profetas não vivem para sempre, mas a palavra que pregaram continua agindo quando estão no túmulo (Zacarias 1:5-6).
O orvalho que faz a semente crescer não espera pelo homem nem pelos filhos dos homens (Miquéias 5:7).
- Ela cresce gradualmente: primeiro o broto, depois a espiga e, por fim, o grão maduro na espiga (v. 28). Depois de brotar, avança; a natureza seguirá seu curso, assim como a graça. O reino de Cristo, tanto no mundo quanto no coração, cresce e continuará a crescer. Mesmo que o começo seja pequeno, o fim aumentará muito.
Ainda que você semeie não o corpo que será, mas apenas um grão nu, Deus dará a cada semente o seu próprio corpo. No início há apenas um broto tenro, que a geada pode queimar ou um pé pode esmagar, mas ele cresce até a espiga e o grão maduro. Natura nil facit per saltum — a natureza nada faz aos saltos.
Deus conduz sua obra sem que se perceba e sem alarde, mas de maneira irresistível e infalível.
- Por fim, ela chega à maturidade (v. 29): quando o fruto aparece, isto é, quando amadurece e está pronto para ser entregue ao dono, ele passa a foice. Isso indica: (1.) Cristo agora aceita os serviços que lhe são prestados por um coração sincero e movido por um bom princípio.
Quando o evangelho começa a dar fruto e a agir na alma, Cristo recolhe uma colheita de honra para si. Veja João 4:35. (2.) Cristo os recompensará na vida eterna.
Quando os que recebem corretamente o evangelho terminarem seu caminho, chegará a colheita; serão recolhidos como trigo ao celeiro de Deus (Mateus 13:30), como feixe de cereal no tempo próprio.
IV. A obra da graça começa pequena, mas acaba grande e importante (vv. 30-32): “A que compararei o reino de Deus, agora prestes a ser estabelecido pelo Messias? Como farei vocês compreenderem o método que foi planejado para ele?”
Cristo fala como quem pondera e consulta consigo mesmo para encontrar uma comparação adequada: “Com que comparação o compararemos?” Buscará uma imagem nos movimentos do sol ou nas revoluções da lua? Não; a comparação vem desta terra: é como um grão de mostarda.
Antes, ele a comparara à semente semeada; agora escolhe aquela semente para mostrar:
- Que o começo do reino do evangelho seria muito pequeno, como uma das menores sementes. Quando uma igreja cristã foi plantada na terra para Deus, estava toda reunida num só aposento, e o número dos nomes era apenas cento e vinte (Atos 1:15), assim como os filhos de Israel que desceram ao Egito eram apenas setenta pessoas.
No começo, a obra da graça na alma é apenas um dia de pequenas coisas, uma nuvem não maior que a mão de um homem.
Nunca se empreendeu tarefa tão grandiosa com um grupo tão pequeno quanto a de fazer discípulos entre todas as nações pelo ministério dos apóstolos; nem houve obra destinada a terminar em glória tão grande que começasse de modo tão fraco e improvável. “Quem me gerou estes?”
- Que sua perfeição será muito grande: “Quando cresce, fica maior do que todas as hortaliças.” O reino do evangelho no mundo aumentará e se espalhará até as nações mais distantes da terra, e durará até as eras mais remotas. A igreja lançou grandes ramos, fortes, extensos e frutíferos.
A obra da graça na alma produz resultados poderosos enquanto cresce; mas como será quando estiver aperfeiçoada no céu? A diferença entre um grão de mostarda e uma árvore grande não é nada comparada à diferença entre um jovem convertido na terra e um santo glorificado no céu. Veja João 12:24.
Depois de especificar essas parábolas, o historiador conclui com este relato geral da pregação de Cristo: ele lhes anunciava a palavra por meio de muitas parábolas como essas (v. 33), provavelmente nos remetendo ao relato mais completo desse tipo de parábola que encontramos em Mateus 13. Falava por parábolas conforme eles conseguiam ouvir.
Tirava as comparações de coisas familiares e acessíveis à compreensão deles, e as expressava de maneira simples, adaptando-se à capacidade deles. Embora não revelasse o mistério das parábolas, falava de modo fácil, para que mais tarde pudessem recordar aquelas palavras em benefício próprio.
Naquele momento, porém, não lhes falava sem parábola (v. 34). A glória do Senhor estava coberta por uma nuvem, e Deus fala conosco na linguagem dos seres humanos, para que, se não entendermos de imediato, possamos compreender pouco a pouco.
Os próprios discípulos entenderam mais tarde palavras de Cristo cujo sentido não haviam captado corretamente no começo. Mas, quando estavam sozinhos, ele lhes explicava essas parábolas.
Gostaríamos de ter recebido essa explicação, como a da parábola do semeador, mas ela não era tão necessária, pois, quando a igreja se expandisse, explicaria essas parábolas para nós sem dificuldade.
Versículos 35 a 40
Cristo e Seus Discípulos na Tempestade.
Este milagre de Cristo, que acalmou a tempestade para socorrer os discípulos, já apareceu em Mateus 8:23 e seguintes, mas aqui é contado com mais detalhes. Observe:
- Aconteceu no mesmo dia em que ele pregara de dentro de um barco, quando chegou a tarde (v. 35). Depois de trabalhar o dia inteiro na palavra e na doutrina, em vez de repousar, expôs-se ao perigo, ensinando-nos a não esperar descanso contínuo antes de chegarmos ao céu. O fim de uma labuta talvez seja apenas o começo de uma sacudida.
Observe, porém, que o barco que Cristo usou como púlpito fica sob sua proteção especial e, embora em perigo, não pode afundar. Ele cuida de modo particular do que é usado para Cristo.
Ele mesmo propôs que navegassem à noite, pois não queria perder tempo: “Passemos para a outra margem”, pois veremos no capítulo seguinte que há trabalho a fazer ali. Cristo andava por toda parte fazendo o bem, e nenhuma dificuldade no caminho devia impedi-lo. Também devemos nos esforçar assim para servi-lo e servir à nossa geração segundo a vontade dele.
Não partiram antes de despedir a multidão, isto é, antes de dar a cada um o que viera buscar e atender a todos os pedidos; ele não mandou ninguém para casa queixando-se de ter ido até ele em vão. Ou então os despediram com uma bênção solene, pois Cristo veio ao mundo não apenas para pronunciar a bênção, mas para ordená-la e concedê-la.
Levaram-no consigo tal como estava, com a mesma roupa que usava ao pregar, sem uma capa para cobri-lo, embora devesse tê-la para se aquecer quando navegasse à noite, sobretudo depois de pregar. Não devemos concluir disso que podemos descuidar da saúde; podemos aprender, porém, a não ser excessivamente exigentes e preocupados com o corpo.
A tempestade foi tão forte que o barco se encheu de água (v. 37), não por ter aberto uma fenda, mas talvez em parte pela chuva, pois a palavra usada aqui significa uma tempestade de vento e chuva. De qualquer modo, como o barco era pequeno, as ondas o invadiram até enchê-lo.
Repare: não é novidade que o barco em que Cristo e seus discípulos, Cristo, seu nome e seu evangelho estão embarcados seja muito sacudido e colocado em perigo.
- Havia com ele outros barquinhos, que sem dúvida compartilhavam o sofrimento e o perigo. Provavelmente, levavam os que queriam acompanhar Cristo, para aproveitar a pregação e os milagres do outro lado. A multidão foi embora quando ele partiu, mas alguns se arriscaram a navegar com ele.
Seguem corretamente o Cordeiro os que o acompanham aonde quer que vá. Quem espera encontrar felicidade em Cristo deve estar disposto a partilhar sua sorte e correr os mesmos riscos que ele. Pode-se embarcar com ousadia e alegria na companhia de Cristo, ainda que se preveja uma tempestade.
- Cristo dormia durante a tempestade. Aqui nos dizem que estava na parte de trás do barco, o lugar do piloto: deitado ao leme. Isso indica, como o senhor George Herbert o expressa:
Quando ventos e ondas investem contra minha quilha, Ele a preserva, ele a governa, Mesmo quando o barco parece cambalear mais. As tempestades são o triunfo de sua perícia; Embora feche os olhos, não fecha o coração.
Havia ali um travesseiro, como o barco de um pescador poderia oferecer. Ele dormiu para pôr à prova a fé dos discípulos e estimular a oração. Na provação, a fé deles se mostrou fraca e as orações, fortes.
Repare: às vezes, quando a igreja está em meio à tempestade, Cristo parece dormir, indiferente às tribulações de seu povo e alheio às suas orações, sem aparecer logo para socorrê-lo. Na verdade, ele é um Deus que se oculta (Isaías 45:15).
Mas, assim como quando demora, sua demora não é de fato demora (Habacuque 2:3), quando dorme, não está dormindo. O guarda de Israel nem sequer cochila (Salmos 121:3-4). Ele dormia, mas seu coração estava desperto, como o da esposa (Cantares de Salomão 5:2).
- Os discípulos se animaram por terem Cristo com eles; acharam melhor aproveitar sua presença, apelar a ele e remar com a oração, em vez de usar os outros remos. Sua confiança estava em terem o Mestre consigo: o barco que tem Cristo dentro pode ser sacudido, mas não afunda; a sarça que tem Deus dentro pode arder, mas não será consumida.
César encorajou o piloto do barco que o levava com estas palavras: Cæsarem vehis, et fortunam Cæsaris — “Você leva César e a fortuna de César.” Acordaram Cristo. Se a necessidade não exigisse, não teriam despertado o Mestre antes que ele quisesse (Cantares de Salomão 2:7), mas sabiam que ele os perdoaria por essa interrupção.
Quando Cristo parece dormir numa tempestade, as orações do seu povo o despertam. Quando não sabemos o que fazer, nossos olhos devem voltar-se para ele (2 Crônicas 20:12). Podemos estar no fim dos nossos recursos, mas não no fim da nossa fé, enquanto temos um Salvador a quem recorrer.
O pedido deles a Cristo é expresso aqui com muita ênfase: “Mestre, não te importa que pereçamos?” Admito que isso soa um tanto áspero, mais como uma censura por ele dormir do que como um pedido para que acordasse.
Não encontro desculpa, exceto a grande familiaridade que ele lhes permitia e a liberdade que lhes concedia, além da aflição do momento, que os apavorou a ponto de não saberem o que diziam. Fazem grande injustiça a Cristo os que suspeitam que ele não se importa com seu povo quando está em aflição.
Não é assim; ele não quer que ninguém pereça, muito menos qualquer um de seus pequeninos (Mateus 18:14).
- Temos aqui, e não em Mateus, a ordem com que Cristo repreendeu a tempestade (v. 39): “Silêncio! Aquiete-se!” (Siōpa, pephimōso: fique em silêncio, fique mudo). Que o vento não ruja mais e o mar não se enfureça. Assim ele acalma o barulho do mar e o ruído das ondas; dá-se ênfase especial ao seu barulho (Salmos 65:7; 93:3-4).
Esse ruído ameaça e aterroriza; não queremos ouvi-lo mais. (1.) É uma ordem para nós.
Quando nosso coração perverso se parece com o mar agitado, que não pode sossegar (Isaías 57:20), quando nossas paixões se exaltam e ficam indomáveis, imaginemos ouvir a lei de Cristo dizer: “Fique em silêncio, fique mudo.” Não pensemos de modo confuso nem falemos sem cuidado.
Aquietemo-nos. (2.) É uma palavra de consolo: por mais alto e forte que seja a tempestade da aflição, Jesus Cristo pode acalmá-la com uma palavra. Quando há lutas do lado de fora, medos por dentro e tumulto no espírito, Cristo pode criar o fruto dos lábios: paz. Se ele disser “Silêncio! Aquiete-se!”, logo haverá grande calmaria.
Ordenar aos mares é prerrogativa de Deus (Jeremias 31:35); assim, Cristo prova que é Deus. Quem fez os mares pode aquietá-los.
- A censura de Cristo por causa do medo deles vai além da que aparece em Mateus. Lá se lê: “Por que vocês estão com medo?”; aqui: “Por que estão tão assustados?” Pode haver motivo para algum medo, mas não para um medo tão intenso.
Lá se lê: “Homens de pouca fé”; aqui: “Como é que vocês não têm fé?” Não que os discípulos fossem completamente sem fé; criam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Mas, naquele momento, o medo prevaleceu tanto que pareciam não ter fé alguma. Ela não estava ao alcance deles quando precisaram dela; era como se não a tivessem.
“Como é que, nesta situação, vocês não têm fé? Como pensam que eu não lhes daria ajuda oportuna e eficaz?” Quem alimenta a ideia de que Cristo não se importa se seu povo perecer tem razão para desconfiar da própria fé; Cristo tem razão em se ofender com esse pensamento.
Por fim, o efeito que esse milagre causou nos discípulos é expresso de modo diferente. Em Mateus, diz-se que os homens ficaram admirados; aqui, que sentiram grande temor. O original diz: “Temeram com grande temor.” Agora a fé corrigiu o medo deles. Quando temeram o vento e o mar, faltou-lhes a reverência que deviam ter por Cristo.
Mas, quando viram uma demonstração do poder dele sobre os elementos, passaram a temê-los menos e a temê-lo mais. Temiam ter ofendido Cristo com seu medo incrédulo e procuraram honrá-lo. Antes, temiam o poder e a cólera do Criador na tempestade, e esse medo trazia tormento e espanto; agora temiam o poder e a graça do Redentor na calmaria.
Temeram o Senhor e sua bondade; isso lhes trouxe prazer e satisfação, e assim glorificaram Cristo, como os marinheiros de Jonas, que, quando o mar deixou de se enfurecer, temeram muito o Senhor e lhe ofereceram sacrifício (Jonas 1:16). Ofereceram esse sacrifício em honra de Cristo. Disseram: “Que tipo de homem é este?” Certamente é mais do que um homem, pois até os ventos e os mares lhe obedecem.