Matthew Henry

Marcos 12

Argumento

Neste capítulo, temos:

I. A parábola da vinha arrendada a lavradores ingratos, representando o pecado e a ruína da igreja judaica, vv. 1-12.

II. O silenciamento por Cristo dos que pensavam apanhá-lo numa armadilha com uma pergunta sobre pagar tributo a César, vv. 13-17.

III. Seu silenciamento dos saduceus, que tentavam embaraçar a doutrina da ressurreição, vv. 18-27.

IV. Seu colóquio com um escriba sobre o primeiro e grande mandamento da lei, vv. 28-34.

V. O embaraço causado por ele aos escribas com uma pergunta sobre Cristo ser o Filho de Davi, vv. 35-37.

VI. O aviso que deu ao povo para tomar cuidado com os escribas, vv. 38-40.

VII. Seu elogio à pobre viúva que lançou suas duas moedas pequenas no tesouro, vv. 41-44.

Versículos 1 a 12

A Vinha e os Lavradores.

Cristo anteriormente mostrara em parábolas como tinha o desígnio de estabelecer a igreja do evangelho. Agora começa a mostrar em parábolas como poria de lado a igreja judaica, em cujo tronco aquela poderia ter sido enxertada, mas sobre cujas ruínas foi edificada.

Tivemos esta parábola exatamente como a temos aqui, Mateus 21:33. Podemos observar aqui:

I. Os que desfrutam dos privilégios da igreja visível têm uma vinha arrendada a eles, capaz de grande aproveitamento, e de cujos ocupantes se espera justamente renda.

Quando Deus mostrou sua palavra a Jacó, seus estatutos e juízos a Israel (Salmos 147:19), quando estabeleceu seu templo entre eles, seu sacerdócio e suas ordenanças, então lhes arrendou a vinha que plantara. Cercou-a e nela construiu uma torre, v. 1.

Os membros da igreja são arrendatários de Deus, e têm tanto um bom Senhorio quanto um bom negócio, e podem viver bem dele, a menos que sua própria culpa os impeça.

II. Àqueles a quem Deus arrenda sua vinha envia seus servos, para lhes lembrar suas justas expectativas deles, v. 2.

Não era apressado em suas exigências, nem exigia demais. Pois não mandou buscar a renda até que pudessem produzi-la, na estação. Nem lhes deu o trabalho de convertê-la em dinheiro, mas estava disposto a recebê-la em espécie.

III. É triste pensar no tratamento vil que os fiéis ministros de Deus receberam, em todas as épocas, daqueles que desfrutaram dos privilégios da igreja, e não produziram fruto correspondente.

Os profetas do Antigo Testamento foram perseguidos até pelos que usavam o nome de igreja do Antigo Testamento. Bateram neles, e os despediram vazios (v. 3); isso era mau.

Feriram-nos, e os despediram vergonhosamente maltratados (v. 4); isso era pior. Ou melhor: por fim chegaram a tal altura de maldade que os mataram, v. 5.

IV. Não era surpresa que os que maltratavam os profetas maltratassem o próprio Cristo. Deus por fim lhes enviou seu Filho, seu muito amado. Por isso, era tanto maior a bondade dele ao enviá-lo. Como foi bondade de Jacó enviar José para visitar seus irmãos, Gênesis 37:14.

E poderia ser esperado que aquele a quem seu Mestre amava eles também respeitassem e amassem (v. 6): “Reverenciarão meu filho, e, em reverência a ele, pagarão sua renda”.

Mas, em vez de reverenciá-lo por ser o filho e herdeiro, por isso o odiaram, v. 7. Porque Cristo, ao chamar ao arrependimento e à reforma, fazia suas exigências com mais autoridade que os profetas, estavam tanto mais enfurecidos contra ele, e decidiram matá-lo.

Queriam monopolizar todo o poder da igreja para si mesmos, e queriam que todo o respeito e obediência do povo fossem prestados só a eles: “A herança será nossa; seremos senhores supremos, e teremos todo o domínio”.

Há uma herança que, se tivessem devidamente reverenciado o Filho, poderia ter sido deles, uma herança celestial. Mas a desprezaram, e queriam ter sua herança na riqueza, e pompa, e poderes deste mundo.

Assim o tomaram, e o mataram. Ainda não o tinham feito, mas o fariam em pouco tempo. E o lançaram fora da vinha, recusaram admitir seu evangelho quando se foi. De modo nenhum concordaria com seu esquema, e assim o lançaram fora com desdém e detestação.

V. Por atos tão pecaminosos e vergonhosos nada pode ser esperado senão uma condenação temível (v. 9): “O que fará, por isso, o Senhor da vinha?” É fácil dizer o quê, pois nada mais provocador poderia ser feito:

  1. Virá e destruirá os lavradores, que queria salvar. Quando apenas negavam o fruto, não lhes penhorava bens pela renda, nem os desapossava e expulsava por falta de pagamento.

Mas, quando mataram seus servos e seu Filho, decidiu destruí-los. E isso se cumpriu quando Jerusalém foi devastada, e a nação judaica extirpada e feita desolação.

  1. Dará as vinhas a outros. Se não tiver a renda deles, a terá de outro povo, pois Deus não perderá por ninguém. Isso se cumpriu na admissão dos gentios, e na abundância de fruto que o evangelho produziu em todo o mundo, Colossenses 1:6.

Se alguns de quem esperávamos bem se mostram maus, não se segue que outros não serão melhores. Cristo se animava com isso no seu empreendimento. Embora Israel não seja reunido, não reunido a ele, mas reunido contra ele, contudo serei glorioso (Isaías 49:5, 6), como Luz para iluminar os gentios.

  1. Sua oposição à exaltação de Cristo não será obstáculo a ela (v. 10, 11). A pedra que os construtores rejeitaram, apesar disso, tornou-se a principal pedra da esquina, é altamente elevada como Pedra principal, e de uso e influência necessários como Pedra de esquina.

Deus colocará Cristo como seu Rei sobre seu santo monte de Sião, apesar do projeto dos que romperiam suas amarras. E todo o mundo verá e reconhecerá isso como obra do Senhor, em justiça para com os judeus, e em compaixão para com os gentios.

A exaltação de Cristo foi obra do Senhor. E é obra dele exaltá-lo nos nossos corações, e estabelecer ali seu trono. E, se isso é feito, não pode deixar de ser maravilhoso aos nossos olhos.

Ora, que efeito teve esta parábola nos principais sacerdotes e escribas, cujo convencimento era seu desígnio? Sabiam que falava esta parábola contra eles, v. 12. Não podiam deixar de ver seus próprios rostos no seu espelho.

E alguém pensaria que lhes mostrava seu pecado tão hediondo, e sua ruína tão certa e grande, que deveria tê-los assustado para conformarem-se com Cristo e seu evangelho. Deveria ter conseguido o intento de levá-los ao arrependimento, ao menos fazê-los desistir do seu propósito malicioso contra ele. Mas, em vez disso:

(1.) Procuravam agarrá-lo, e fazê-lo imediatamente seu prisioneiro, e assim cumprir o que acabara de dizer que fariam a ele, v. 8.

(2.) Nada os conteve disso senão o temor que tinham do povo. Não reverenciavam Cristo, nem tinham qualquer temor de Deus diante dos seus olhos. Mas tinham medo de que, se agarrassem Cristo publicamente, a multidão se levantasse e os agarrasse, e resgatasse Cristo.

(3.) Deixaram-no, e foram pelo seu caminho. Se não podiam causar-lhe prejuízo, decidiram que ele não lhes faria bem. E, por isso, saíram do alcance da sua poderosa pregação, para que não fossem convertidos e curados.

Repare: se os preconceitos dos homens não são vencidos pela evidência da verdade, são apenas confirmados. E, se as corrupções do coração não são subjugadas por censuras fiéis, são apenas enfurecidas e exasperadas. Se o evangelho não é sabor de vida para vida, será sabor de morte para morte.

Versículos 13 a 17

A Pergunta a Respeito do Tributo.

Quando os inimigos de Cristo, que tinham sede de seu sangue, não puderam encontrar ocasião contra ele no que dizia contra eles, tentaram apanhá-lo numa armadilha, fazendo-lhe perguntas. Aqui o vemos tentado, ou melhor, atacado, com uma pergunta sobre a legitimidade de pagar tributo a César. Tivemos esta narrativa em Mateus 22:15.

I. As pessoas que empregaram foram os fariseus e os herodianos, homens que, nesta questão, se opunham uns aos outros, e, contudo, concordavam contra Cristo, v. 13. Os fariseus eram grandes defensores da liberdade dos judeus. Se ele dissesse que era lícito dar tributo a César, inflamariam o povo contra ele, e os herodianos os ajudariam secretamente nisso.

Os herodianos eram grandes defensores do poder romano. Se ele desaprovasse o pagamento de tributo a César, inflamariam o governador contra ele. Sim, e ainda os fariseus, contrariando seus próprios princípios, se uniriam a eles nisso. Não é novidade que os que divergem em outras coisas se unam numa conspiração contra Cristo.

II. Alegavam desejar que ele resolvesse um caso de consciência, de grande importância naquela conjuntura. Alegavam ter elevada opinião da sua capacidade de resolvê-lo, v. 14. Encheram-no de elogios, chamaram-no de Mestre e reconheceram-no como Mestre do caminho de Deus, Mestre dele em verdade, alguém que ensinava o que era bom sobre princípios de verdade.

Ele não se deixaria levar por sorrisos ou expressões de desagrado a desviar-se um passo das regras de equidade e bondade: “Não te importas com ninguém, nem consideras a pessoa dos homens; não temes ofender ou o príncipe desconfiado, de um lado, ou o povo desconfiado, do outro.”

“És correto, sempre correto, e declaras corretamente o bem e o mal, a verdade e a falsidade.” Se falavam conforme pensavam de Cristo, ao dizerem que sabiam que ele estava certo, persegui-lo e matá-lo como enganador era pecar contra o conhecimento. Conheciam-no e, contudo, crucificaram-no.

De qualquer modo, o testemunho de um homem será tomado com a maior força contra ele próprio, e pela própria boca são julgados. Sabiam que ele ensinava o caminho de Deus em verdade e, contudo, rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos. As profissões e alegações dos hipócritas serão apresentadas como prova contra eles, e eles mesmos se condenarão.

Mas, se não o sabiam nem criam nisso, mentiram a Deus com a boca e o lisonjearam com a língua.

III. A pergunta que fizeram foi: “É lícito dar tributo a César ou não?” Queriam parecer desejosos de conhecer seu dever. Como uma nação que praticasse a justiça, pedem a Deus os preceitos da justiça. Na realidade, só desejavam saber o que ele diria, esperando que, qualquer lado que tomasse na questão, pudessem encontrar ocasião para acusá-lo.

Nada tem maior probabilidade de enredar ministros do que levá-los a intrometer-se em controvérsias sobre direitos civis e a estabelecer os limites entre o príncipe e o súdito. É conveniente que isso seja feito, mas de modo algum convém que lhes caiba fazê-lo.

Pareciam entregar a decisão desta questão a Cristo. E ele, de fato, era apto para decidi-la, pois por ele reinam os reis e os príncipes decretam justiça. Fizeram a pergunta com justiça: “Daremos ou não daremos?” Pareciam resolvidos a aceitar sua decisão.

“Se disseres que devemos pagar tributo, nós o faremos, ainda que isso nos reduza à mendicância. Se disseres que não devemos, não o faremos, ainda que por isso sejamos considerados traidores.” Muitos pareciam desejosos de fazê-lo, como aqueles homens soberbos, Jeremias 42:20.

IV. Cristo decidiu a questão e escapou da armadilha, remetendo-os às concessões nacionais que já haviam feito e que os impediam de discutir esse assunto, vv. 15-17. Conhecia a hipocrisia deles, a malícia de seu coração contra ele, enquanto com a boca demonstravam todo esse amor.

A hipocrisia, por mais habilmente conduzida, não pode ser escondida do Senhor Jesus. Ele vê o caco de barro coberto com escória de prata.

Sabia que pretendiam enredá-lo e, por isso, maquinou a questão de modo a enredá-los e obrigá-los, pelas próprias palavras, a fazer o que não queriam: pagar seus impostos com honestidade e tranquilidade; e, contudo, ao mesmo tempo, resguardar-se contra as suas objeções.

Fez que reconhecessem que a moeda corrente de sua nação era romana, tendo a imagem do imperador de um lado e sua inscrição no verso. Sendo assim:

  1. César podia exigir seu dinheiro para o benefício público, porque tinha a guarda e a direção do Estado, no qual devia ter custeadas as suas despesas: “Dai a César o que é de César.” A circulação do dinheiro vem dele como de uma fonte e, por isso, deve retornar a ele. Na medida em que lhe pertence, deve ser-lhe entregue.

Até que ponto lhe pertence e pode ser exigido por ele deve ser julgado pela constituição do governo, conforme ela é e conforme estabeleceu a prerrogativa do príncipe e a propriedade do súdito.

  1. César não podia dominar a consciência deles, nem alegava fazê-lo; não propunha alteração alguma em sua religião. “Pagai, portanto, vosso tributo sem murmuração nem discussão, mas cuidai de dar a Deus o que é de Deus.” Talvez se referisse à parábola que acabara de apresentar, na qual os condenara por não entregarem os frutos ao Senhor da vinha, v. 2.

Muitos que parecem cuidadosos em dar aos homens o que lhes é devido não cuidam de dar a Deus a glória devida ao seu nome. Entretanto, nosso coração e nossos melhores afetos lhe são tão devidos quanto o aluguel ao senhorio ou o tributo ao príncipe.

Todos os que ouviram Cristo se admiraram da prudência de sua resposta e da franqueza com que evitou a armadilha. Mas duvido que algum fosse levado por ela, como deveria, a entregar a Deus a si mesmo e sua devoção. Muitos elogiarão a inteligência de um sermão sem se deixarem governar pelas leis divinas desse sermão.

Versículos 18 a 27

A Pergunta dos Saduceus.

Os saduceus, que eram os deístas daquela época, atacam aqui nosso Senhor Jesus. Ao que parece, não tinham, como os escribas, fariseus e principais sacerdotes, algum desígnio malicioso contra sua pessoa. Não eram fanáticos e perseguidores, mas céticos e incrédulos; seu desígnio era contra sua doutrina, para impedir sua propagação.

Negavam que houvesse ressurreição, mundo de espíritos ou qualquer estado de recompensas e castigos depois da morte. Cristo se dedicara a estabelecer e provar essas grandes verdades fundamentais que eles negavam, levando sua compreensão muito além de tudo o que antes se alcançara. Por isso, empenharam-se em embaraçar sua doutrina.

I. Veja aqui o método que empregam para enredá-la. Citam a antiga lei segundo a qual, se um homem morresse sem descendentes, seu irmão era obrigado a casar-se com sua viúva, v. 19. Supõem um caso em que, segundo essa lei, sete irmãos foram, sucessivamente, maridos de uma mulher, v. 20.

Provavelmente esses saduceus, conforme sua habitual profanação, pretendiam com isso ridicularizar aquela lei e assim expor ao desprezo toda a estrutura da instituição mosaica, como absurda e inconveniente na prática. Os que negam verdades divinas geralmente se empenham em depreciar leis e ordenanças divinas.

Mas isso era apenas incidental; seu desígnio era expor ao ridículo a doutrina da ressurreição. Supõem que, se houver um estado futuro, ele deve ser semelhante a este. Então, pensam eles, a doutrina fica embaraçada ou com o absurdo invencível de uma mulher ter sete maridos nesse estado, ou com a dificuldade insolúvel de saber de qual deles ela será esposa.

Veja com que sutileza esses hereges minam a verdade. Não a negam nem dizem que não pode haver ressurreição. Ou melhor, não parecem duvidar dela, nem perguntam de quem será esposa se houver ressurreição, como o diabo disse a Cristo: “Se tu és o Filho de Deus.”

Mas, como se esses animais do campo fossem mais sutis que a própria serpente, alegam reconhecer a verdade, como se não fossem saduceus, não, nem mesmo eles! Quem disse que negavam a ressurreição? Dão por certo que há ressurreição e querem parecer desejosos de receber instrução sobre ela, quando na realidade planejam dar-lhe um golpe fatal e pensam consegui-lo.

Repare: é artifício comum de hereges e saduceus embaraçar e enredar a verdade que não têm o descaramento de negar.

II. Veja aqui o método que Cristo emprega para esclarecer e estabelecer esta verdade, que eles tentavam obscurecer e abalar. Era uma questão importante e, por isso, Cristo não a trata superficialmente, mas a desenvolve, para que, se eles não fossem reconduzidos ao caminho certo, contudo, outros fossem confirmados.

  1. Acusa os saduceus de erro e atribui esse erro à ignorância deles. Os que zombam da doutrina da ressurreição, como alguns fazem em nossa época, querem passar pelos únicos entendidos, por serem os únicos livres-pensadores. Na realidade, são os insensatos de Israel e os pensadores mais escravizados e preconceituosos do mundo.

“Porventura não errais vós em razão disso?” Vocês mesmos não podem deixar de perceber isso e que a causa de seu erro é:

(1.) Que não conhecem as Escrituras. Isso não significa que os saduceus não as tivessem lido; talvez fossem versados nelas. Contudo, podia-se dizer verdadeiramente que não conheciam as Escrituras, porque não conheciam seu sentido e significado, mas lhes davam falsas interpretações.

Ou não recebiam as Escrituras como palavra de Deus, mas opunham-lhes seus próprios raciocínios corrompidos e não queriam crer em nada além do que podiam ver. Repare: o conhecimento correto das Escrituras, fonte da qual agora procede toda a religião revelada e fundamento sobre o qual ela se edifica, é a melhor proteção contra o erro. Guarde a verdade, a verdade das Escrituras, e ela guardará você.

(2.) Que não conhecem o poder de Deus. Não podiam deixar de saber que Deus é todo-poderoso, mas não queriam aplicar essa doutrina a esta questão. Abandonavam a verdade diante das objeções quanto à sua impossibilidade. Todas teriam sido respondidas se apenas se apegassem à doutrina da onipotência de Deus, para a qual nada é impossível.

Portanto, o que Deus falou uma vez devemos ouvir duas vezes: ouvir e crer, ouvir e aplicar: “O poder pertence a Deus”, Salmos 62:11; Romanos 4:19-21. O mesmo poder que fez a alma e o corpo e os preservou enquanto estavam juntos pode preservar o corpo em segurança e a alma em atividade quando separados, e pode reuni-los novamente.

Pois eis que o braço do Senhor não está encurtado. O poder de Deus se vê no retorno da primavera (Salmos 104:30), no reviver do grão (João 12:24), na restauração de um povo abatido à prosperidade (Ezequiel 37:12-14) e na ressurreição milagrosa de tantos, tanto no Antigo como no Novo Testamento.

Especialmente se vê na ressurreição de Cristo (Efésios 1:19, 20). Todas essas coisas são garantias de nossa ressurreição pelo mesmo poder (Filipenses 3:21), segundo a poderosa operação pela qual ele é capaz de sujeitar a si todas as coisas.

  1. Anula toda a força da objeção deles, apresentando a doutrina do estado futuro em sua verdadeira luz (v. 25): “Quando ressuscitarem dentre os mortos, nem se casam, nem se dão em casamento.” É insensato perguntar de qual dos sete ela será esposa. Pois a relação entre marido e mulher, embora instituída no paraíso terrestre, não será conhecida no celestial.

Turcos e incrédulos esperam prazeres sensuais em seu paraíso de tolos. Mas os cristãos conhecem coisas melhores: carne e sangue não herdarão o reino de Deus (1 Coríntios 15:50). E esperam coisas melhores: mesmo plena satisfação no amor e na semelhança de Deus (Salmos 17:15).

São como os anjos de Deus no céu, e sabemos que estes não têm esposas nem filhos. Não admira que nos confundamos com absurdos intermináveis quando medimos nossas ideias do mundo dos espíritos pelos assuntos deste mundo dos sentidos.

III. Fundamenta a doutrina do estado futuro e da bem-aventurança dos justos nesse estado na aliança de Deus com Abraão, que Deus teve por bem reconhecer depois da morte de Abraão, v. 26, 27. Apela às Escrituras: “Não tendes lido no livro de Moisés?” Temos alguma vantagem ao tratar com aqueles que leram as Escrituras.

Entretanto, muitos que as leram as torcem, como esses saduceus, para sua própria destruição. O que ele lhes aponta é o que Deus diz a Moisés na sarça: “Eu sou o Deus de Abraão.” Não apenas era, mas sou; sou a porção e a felicidade de Abraão, um Deus todo-suficiente para ele.

Repare: é absurdo pensar que a relação de Deus com Abraão continuaria e seria assim solenemente reconhecida se Abraão tivesse sido aniquilado. Ou que o Deus vivo fosse a porção e a felicidade de um homem morto, que devesse permanecer assim para sempre. Portanto, vocês devem concluir:

  1. Que a alma de Abraão existe e age em estado de separação do corpo.

  2. Que, portanto, em algum momento, o corpo deve ressuscitar. Pois há na alma humana uma inclinação tão inata para seu corpo que uma separação total e eterna seria incompatível com o sossego e o repouso, muito mais com a bem-aventurança e a alegria das almas que têm o Senhor como seu Deus.

Considerando toda a questão, conclui: “Por isso, vós errais muito.” Os que negam a ressurreição erram muito e isso deve lhes ser dito.

Versículos 28 a 34

O Escriba Promissor.

Os escribas e fariseus, por maus que fossem em outros aspectos, eram inimigos dos saduceus. Seria de esperar que, ouvindo Cristo argumentar tão bem contra os saduceus, o apoiassem, como fizeram com Paulo quando ele se apresentou contra os saduceus (Atos 23:9). Mas isso não aconteceu.

Porque ele não concordava com eles nas cerimônias da religião, sua concordância nas coisas essenciais não lhe conquistou respeito algum entre eles. Aqui, porém, temos o relato de um deles, um escriba que tinha cortesia suficiente para reparar na resposta de Cristo aos saduceus e reconhecer que respondera bem e de modo muito pertinente (v. 28).

Temos motivo para esperar que não se tenha unido aos outros escribas na perseguição a Cristo. Pois aqui o vemos recorrer a Cristo em busca de instrução, de maneira que lhe convinha, sem tentar Cristo, mas desejando aproveitar o seu conhecimento dele.

I. Perguntou: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”, v. 28. Não se refere ao primeiro na ordem, mas em importância e dignidade: “Qual é o mandamento a que devemos prestar atenção especial, cuja observância estabelecerá o fundamento para obedecermos a todos os demais?”

Não que algum mandamento de Deus seja pequeno, pois todos são mandamentos de um grande Deus. Mas alguns são maiores que outros, os preceitos morais maiores que os rituais, e de alguns podemos dizer que são os maiores de todos.

II. Cristo deu-lhe resposta direta a esta pergunta, vv. 29-31. Cristo guiará em juízo os que sinceramente desejam ser instruídos acerca de seu dever e lhes ensinará o seu caminho. Diz-lhe:

  1. Que o grande mandamento de todos, que realmente inclui todos, é amar a Deus de todo o nosso coração:

(1.) Onde há na alma um princípio que governa, há disposição para todos os outros deveres. O amor é o afeto principal da alma; o amor a Deus é a graça principal da alma renovada.

(2.) Onde isso não existe, nada mais que seja bom é feito, nem feito corretamente, nem aceito, nem feito por muito tempo. Amar a Deus de todo o nosso coração nos afastará eficazmente de tudo o que disputa com ele o trono de nossa alma e nos armará contra essas coisas.

Isso nos empenhará em tudo pelo que ele possa ser honrado e com que se agrade. Nenhum mandamento será penoso onde este princípio governa e predomina. Aqui em Marcos, nosso Salvador antepõe a este mandamento a grande verdade doutrinária sobre a qual ele se fundamenta (v. 29): “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é um só Senhor.”

Se crermos firmemente nisso, seguir-se-á que o amaremos de todo o nosso coração. Ele é Jeová, que tem em si todas as perfeições dignas de amor. É nosso Deus, com quem temos relação e para com quem temos obrigações. Portanto, devemos amá-lo, fixar nele nossos afetos, dirigir-lhe nossos desejos e deleitar-nos nele.

Ele é um só Senhor; portanto, deve ser amado de todo o nosso coração. Tem direito exclusivo sobre nós e, por isso, deve ter a posse exclusiva de nós. Se ele é um, nosso coração deve ser um com ele. E, visto que não há outro Deus, nenhum rival deve ser admitido com ele no trono.

  1. Que o segundo grande mandamento é amar o próximo como a nós mesmos (v. 31), tão verdadeira e sinceramente como nos amamos, e nas mesmas manifestações. Devemos demonstrá-lo fazendo aos outros como gostaríamos que nos fizessem.

Devemos amar a Deus mais que a nós mesmos, porque ele é Jeová, um ser infinitamente melhor que nós. Devemos amá-lo de todo o nosso coração, porque é um só Senhor e não há outro semelhante a ele. Assim também devemos amar o próximo como a nós mesmos, porque ele tem a mesma natureza que nós.

Nosso coração é formado do mesmo modo. Meu próximo e eu pertencemos a um corpo, a um convívio, o do mundo humano. Se for um irmão cristão e pertencer ao mesmo convívio sagrado, a obrigação é mais forte. “Não nos criou um só Deus?” Malaquias 2:10. Não nos remiu um só Cristo?

Bem podia Cristo dizer que não há outro mandamento maior que estes. Pois neles se cumpre toda a lei e, se fizermos questão de obedecer-lhes por dever de consciência, todas as demais manifestações de obediência seguirão naturalmente.

III. O escriba anuiu ao que Cristo disse e discorreu sobre isso, v. 32, 33:

  1. Elogia a decisão de Cristo nesta questão: “Bem, Mestre, disseste a verdade.” As afirmações de Cristo não precisavam da confirmação do escriba. Mas este, sendo um homem de autoridade, pensava que seu elogio conferiria algum prestígio ao que Cristo dissera.

Será apresentado como prova contra os que perseguiram Cristo como enganador que um deles mesmos, um de seus próprios escribas, confessou que ele dizia a verdade e a dizia bem. Assim devemos subscrever as palavras de Cristo, confirmando com o nosso selo que são verdadeiras.

  1. Comenta sobre ela. Cristo citara a grande doutrina de que o Senhor nosso Deus é um só Senhor. Ele não só concordou, mas acrescentou: “Não há outro além dele; portanto, não devemos ter outro Deus além dele.” Isso exclui todos os rivais e assegura para ele todo o trono do coração.

Cristo estabelecera a grande lei de amar a Deus de todo o nosso coração. Ele também explica que isso é amá-lo com o entendimento, como quem sabe quantas razões temos para amá-lo. Nosso amor a Deus deve ser inteiro e também inteligente. Devemos amá-lo com todo o entendimento, ex holes tes syneseos, de todo o entendimento.

Todas as nossas capacidades e faculdades racionais devem trabalhar para dirigir os afetos de nossa alma a Deus. Cristo dissera: “Amar a Deus e ao próximo é o maior de todos os mandamentos.” “Sim, e ainda”, diz o escriba, “é melhor, é mais que todos os holocaustos e sacrifícios, mais aceitável a Deus e trará melhor resultado para nós mesmos.”

Alguns sustentavam que a lei dos sacrifícios era o maior de todos os mandamentos. Mas este escriba prontamente concordou com nosso Salvador que a lei do amor a Deus e ao próximo é maior que a do sacrifício, até mesmo que a dos holocaustos, destinados exclusivamente à honra de Deus.

IV. Cristo aprovou o que ele disse e o animou a prosseguir em suas perguntas a ele, v. 34:

  1. Reconheceu que ele entendia bem, até onde chegara; até ali, tudo bem. Jesus viu que respondera prudentemente e se agradou ainda mais disso porque, ultimamente, encontrara tantos, até entre os escribas, homens instruídos, que respondiam imprudentemente, como quem não tinha entendimento nem desejava tê-lo.

Respondeu nounechos, como quem tinha mente, como homem racional e inteligente, como quem estava no pleno uso de suas faculdades. Sua razão não estava cegada, seu juízo não estava desviado e sua reflexão não estava presa pelos preconceitos sob cujo poder estavam tantos outros escribas.

Respondeu como quem se concedia liberdade e tempo para considerar, como quem havia considerado.

  1. Reconheceu que ele estava bem encaminhado para avançar mais: “Não estás longe do reino de Deus, do reino da graça e da glória; estás num caminho promissor para seres cristão, discípulo de Cristo. Pois a doutrina de Cristo insiste principalmente nessas coisas e tem o desígnio e a tendência direta de te conduzir a isso.”

Repare: há esperança de que os que fazem bom uso da luz que possuem e vão até onde ela os conduz sejam levados adiante pela graça de Deus, pelas revelações mais claras que Deus tem para lhes fazer. Não nos é dito o que aconteceu com este escriba.

Mas de bom grado esperaríamos que tivesse entendido a indicação que Cristo lhe deu e que, tendo ouvido dele, com tamanha satisfação, qual era o grande mandamento da lei, tivesse prosseguido perguntando a ele ou a seus apóstolos qual era também o grande mandamento do evangelho.

Contudo, se não o fez, mas parou aqui e não foi além, não devemos estranhar. Pois muitos não estão longe do reino de Deus e, no entanto, nunca chegam lá. Seria de pensar que isso convidasse muitos a consultá-lo; mas teve o efeito contrário: depois disso, ninguém ousava fazer-lhe pergunta alguma.

Tudo o que dizia era falado com tamanha autoridade e majestade que todos se sentiam intimidados diante dele. Os que desejavam aprender tinham vergonha de perguntar, e os que pretendiam levantar objeções tinham medo de perguntar.

Versículos 35 a 40

Cristo, o Filho e Senhor de Davi.

I. Aqui Cristo mostra ao povo como os escribas eram fracos e deficientes em sua pregação e incapazes de resolver as dificuldades encontradas nas Escrituras do Antigo Testamento, que se propunham expor. Dá um exemplo disso, relatado aqui de modo menos completo que em Mateus.

Cristo ensinava no templo. Disse muitas coisas que não foram escritas, mas esta é registrada porque nos estimulará a investigar acerca de Cristo e a perguntar a ele. Pois ninguém pode ter o conhecimento correto dele senão por ele próprio. Não se pode obtê-lo dos escribas, pois logo ficarão sem resposta.

  1. Diziam ao povo que o Messias seria o Filho de Davi (v. 35), e tinham razão. Não só descenderia dos seus lombos, mas ocuparia o seu trono (Lucas 1:32): “O Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai.” A Escritura o dizia muitas vezes, mas o povo o recebia como algo que os escribas diziam.

Entretanto, as verdades de Deus deveriam ser citadas de nossa Bíblia antes que de nossos ministros, pois ali está sua origem. Dulcius ex ipso fonte bibuntur aquæ: as águas são mais doces quando tiradas diretamente de sua fonte.

  1. Contudo, não podiam explicar como, apesar disso, era muito apropriado que Davi, em espírito, o espírito de profecia, o chamasse seu Senhor, como faz em Salmos 110:1. Haviam ensinado ao povo aquilo que, acerca do Messias, honraria sua nação: que seria um ramo de sua família real.

Mas não haviam cuidado de ensinar aquilo que honraria o próprio Messias: que seria o Filho de Deus e, como tal, e de nenhuma outra maneira, o Senhor de Davi. Assim detinham a verdade em injustiça e eram parciais tanto no evangelho como na lei do Antigo Testamento.

Eram capazes de dizer e provar que Cristo seria filho de Davi. Mas, se alguém objetasse perguntando como então o próprio Davi o chamava Senhor, não saberiam evitar a força da objeção. Repare: são indignos de sentar-se na cadeira de Moisés os que, embora capazes de pregar a verdade, não são capazes, em alguma medida, de defendê-la depois de pregá-la e de convencer os contradizentes.

Isso irritou os escribas, por terem sua ignorância assim exposta, e, sem dúvida, os inflamou ainda mais contra Cristo. Mas o povo comum o ouvia com prazer, v. 37. O que pregava era surpreendente e comovente.

Embora lançasse descrédito sobre os escribas, sua pregação instruía o povo, que nunca ouvira pregação semelhante. Provavelmente havia algo de extraordinariamente imponente e cativante em sua voz e maneira de falar, que o recomendava aos afetos do povo comum.

Pois não encontramos que alguém fosse levado a crer nele e a segui-lo. Mas ele era para eles como uma bela canção de alguém que tocasse bem um instrumento, como Ezequiel era para seus ouvintes, Ezequiel 33:32. E talvez alguns desses tenham gritado: “Crucifica-o”, assim como Herodes ouvia João Batista com prazer e, contudo, mandou cortar-lhe a cabeça.

II. Adverte o povo a tomar cuidado para não se deixar iludir pelos escribas nem se contaminar com seu orgulho e hipocrisia. Dizia-lhes em seu ensino: “Guardai-vos dos escribas (v. 38); ficai atentos, para não absorverdes nem suas opiniões peculiares, nem as opiniões do povo a respeito deles.”

A acusação apresentada contra eles na passagem paralela é extensa (Mateus 23); aqui é resumida.

  1. Procuram parecer muito importantes. Pois andam com vestes longas, até os pés, e com elas percorrem as ruas como príncipes, juízes ou homens de toga. Usar essas vestes não era pecado, mas amar usá-las, orgulhar-se delas, valorizar-se por elas e impor respeito por meio delas era fruto do orgulho.

Era como dizer às suas vestes longas, assim como Saul a Samuel: “Honra-me agora diante deste povo.” Cristo queria que seus discípulos andassem com os lombos cingidos.

  1. Procuram parecer muito bons. Pois oram, fazem longas orações, como se fossem muito íntimos do céu e tivessem ali muitos assuntos a tratar. Cuidavam para que se soubesse que oravam, e oravam longamente. Alguns pensam que isso indica que oravam não só por si, mas por outros, sendo nisso muito minuciosos e extensos.

Faziam isso como alegação para parecer amar a oração, não só por causa de Deus, a quem alegavam glorificar com ela, mas por causa do próximo, a quem alegavam servir com ela.

  1. Com isso, visavam promover a si mesmos. Cobiçavam aplausos e gostavam deles. Amavam as saudações nas praças, os primeiros assentos nas sinagogas e os lugares de maior honra nos banquetes. Essas coisas agradavam sua imaginação vaidosa.

Pensavam que recebê-las expressava o apreço dos que os conheciam e lhes conquistava respeito dos que não os conheciam.

  1. Com isso, visavam enriquecer. Devoravam as casas das viúvas, tornando-se donos de seus bens por algum artifício. Para se resguardarem da suspeita de desonestidade, colocavam a máscara da piedade. Para não serem considerados tão maus quanto os piores, esforçavam-se por parecer tão bons quanto os melhores.

Que a fraude e a opressão sejam consideradas piores por haverem profanado e desonrado as longas orações. Mas que as orações, nem mesmo as longas, feitas com humildade e sinceridade, não sejam depreciadas porque alguns assim abusaram delas.

Porém, como a iniquidade assim disfarçada com aparência de piedade é dupla iniquidade, a sua condenação será duplamente pesada: estes receberão grande condenação. Maior que a dos que vivem sem oração, maior que aquela que receberiam pelo mal feito às pobres viúvas, se não o houvessem assim disfarçado. Repare: a condenação dos hipócritas será a maior de todas as condenações.

Versículos 41 a 44

Cristo Elogia a Pobre Viúva.

Esta passagem da história não estava em Mateus, mas está aqui e em Lucas. É o elogio de Cristo à pobre viúva que lançou duas moedas pequenas no tesouro. Nosso Salvador, por ocupado que estivesse pregando, encontrou tempo para reparar nisso. Observe:

I. Havia um fundo público para caridade, ao qual eram levadas contribuições e do qual se faziam distribuições; uma caixa para os pobres, no templo. Pois obras de caridade e obras de piedade muito apropriadamente andam juntas. Onde Deus é honrado por nosso culto, convém que seja honrado pelo socorro aos seus pobres.

Frequentemente encontramos orações e esmolas juntas, como em Atos 10:2, 4. É bom estabelecer depósitos públicos de caridade para convidar e dirigir mãos particulares na doação aos pobres. Ou melhor, é bom que os que têm condições possuam fundos próprios, separando conforme Deus os tenha prosperado (1 Coríntios 16:2).

Assim terão algo pronto para dar quando aparecer alguém que precise de caridade, algo já dedicado a esses usos.

II. Jesus Cristo estava atento a isso. Sentou-se diante do tesouro e observou como o povo lançava dinheiro nele. Não sentia desgosto por não ter nada para lançar, nem por não dispor do que era lançado, mas observava o que se lançava.

Repare: nosso Senhor Jesus repara no que contribuímos para usos piedosos e caridosos, se damos generosamente ou pouco, com alegria ou com relutância e má vontade. Ou melhor, ele olha para o coração. Observa segundo que princípios agimos e quais são nossas intenções ao dar esmolas, e se o fazemos como ao Senhor ou apenas para ser vistos pelos homens.

III. Viu muitos ricos lançarem muito. Era uma bela vista ver ricos caridosos, ver muitos ricos assim e vê-los não apenas lançar, mas lançar muito. Repare: os ricos devem dar ricamente. Se Deus nos dá em abundância, espera que demos em abundância aos pobres.

Não basta os ricos dizerem que dão tanto quanto outros, que talvez tenham muito menos bens deste mundo. Devem dar em proporção ao seu patrimônio. Se não lhes aparecem pessoas necessitadas que requeiram tanto, devem procurá-las e planejar coisas generosas.

IV. Havia uma pobre viúva que lançou duas moedas pequenas, que valem um quadrante (v. 42). Nosso Senhor Jesus a elogiou muito; chamou seus discípulos e mandou que reparassem nisso (v. 43). Disse-lhes que ela dificilmente poderia abrir mão do que deu, pois mal tinha o suficiente para si.

Era todo o seu sustento, tudo o que tinha para viver naquele dia e, talvez, grande parte do que ganhara com seu trabalho no dia anterior. Como sabia que ela agira por uma disposição verdadeiramente caridosa, considerou aquilo mais que tudo o que os ricos lançaram, somado. Pois eles deram de sua abundância, mas ela de sua pobreza, v. 44.

Muitos estariam prontos para censurar esta pobre viúva e pensar que fizera mal. Por que dar a outros quando mal tinha o suficiente para si? A caridade começa em casa. Ou, se queria dar, por que não o entregou a algum pobre que conhecesse?

Que necessidade havia de levar ao tesouro para ser distribuído pelos principais sacerdotes, que, temos motivo para temer, eram parciais em sua distribuição? É tão raro encontrar alguém que não censurasse esta viúva que não podemos esperar encontrar alguém que a imite.

Contudo, nosso Salvador a elogia; portanto, temos certeza de que fez muito bem e sabiamente. Se Cristo diz: “Muito bem”, não importa quem diga o contrário. Daqui devemos aprender:

  1. Que dar esmolas é algo excelentemente bom e muito agradável ao Senhor Jesus. Se formos humildes e sinceros nisso, ele o aceitará graciosamente, embora em algumas circunstâncias não haja toda a prudência do mundo.

  2. Os que têm apenas pouco devem dar esmolas do pouco que possuem. Os que vivem de seu trabalho, apenas com o necessário para cada dia, devem dar aos que precisam, Efésios 4:28.

  3. É muito bom nos restringirmos e negarmos a nós mesmos para podermos dar mais aos pobres. Negar-nos não apenas coisas supérfluas, mas até comodidades, por causa da caridade. Em muitos casos, devemos nos apertar para suprir as necessidades dos outros. Isso é amar o próximo como a nós mesmos.

  4. As obras públicas de caridade devem ser animadas, pois trazem bênçãos públicas sobre uma nação. Embora possa haver alguma má administração delas, contudo, isso não é boa razão para deixarmos de contribuir com nossa parte.

  5. Embora possamos dar apenas pouco em caridade, contudo, se for conforme a nossa capacidade e com coração reto, será aceito por Cristo. Ele exige segundo o que alguém tem, e não segundo o que não tem. Duas moedas pequenas serão registradas e levadas em conta, se dadas de maneira correta, como se fossem duas libras.

  6. Muito se elogia a caridade quando damos não só segundo as nossas condições, mas além das nossas condições, como as igrejas macedônias, cuja profunda pobreza abundou na riqueza de sua generosidade, 2 Coríntios 8:2, 3.

Quando podemos alegremente prover em favor de outros com o nosso próprio sustento necessário, como a viúva de Sarepta para Elias e Cristo para seus cinco mil convidados, e confiar que Deus proverá para nós de outra maneira, isso é digno de agradecimento.


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