Marcos 10
Argumento
Neste capítulo, temos:
I. A disputa de Cristo com os fariseus a respeito do divórcio, vv. 1-12.
II. O acolhimento bondoso que deu às crianças pequenas que lhe foram trazidas para serem abençoadas, vv. 13-16.
III. Sua prova do homem rico que perguntou o que precisava fazer para chegar ao céu, vv. 17-22.
IV. Seu discurso com seus discípulos, nessa ocasião, a respeito do perigo das riquezas (vv. 23-27), e da vantagem de ser empobrecido por sua causa, vv. 28-31.
V. A notícia repetida que deu aos seus discípulos dos seus sofrimentos e morte que se aproximavam, vv. 32-34.
VI. O conselho que deu a Tiago e João de pensarem em sofrer com ele, antes que em reinar com ele, vv. 35-45.
VII. A cura de Bartimeu, um pobre homem cego, vv. 46-52. De todas essas passagens da história tivemos antes a substância, Mateus 19; 20.
Versículos 1 a 12
A Doutrina do Divórcio.
Nosso Senhor Jesus era Pregador itinerante, não permanecia muito tempo num lugar. Pois toda a terra de Canaã era sua paróquia, ou diocese, e, por isso, queria visitar cada parte dela, e dar instruções aos que estavam nos seus cantos mais distantes.
Aqui o temos nas fronteiras da Judeia, do outro lado do Jordão, a leste, assim como o encontramos, não faz muito, nas fronteiras extremas para o oeste, perto de Tiro e Sidom.
Assim seu circuito era como o do sol, de cuja luz e calor nada fica oculto. Agora aqui o temos:
I. Procurado pelo povo, v. 1. Onde quer que estivesse, acorriam após ele em multidões. Vieram a ele novamente, como tinham feito quando anteriormente estivera nestas partes, e, como costumava, ensinou-lhes novamente.
Repare: pregar era a prática constante de Cristo. Era o que estava acostumado a fazer, e, aonde quer que chegasse, fazia como costumava.
Em Mateus se diz: “Curou-os”. Aqui se diz: “Ensinou-lhes”. Suas curas eram para confirmar sua doutrina, e recomendá-la, e sua doutrina era para explicar suas curas, e ilustrá-las.
“Ensinou-lhes novamente.” Repare: até os que Cristo ensinou precisam ser ensinados novamente. Tal é a plenitude da doutrina cristã que continuamente há mais a aprender. E tal é nosso esquecimento que precisamos ser lembrados do que de fato sabemos.
II. Temos os fariseus disputando com ele, eles que invejavam o progresso das suas armas espirituais, e faziam tudo que podiam para obstruí-lo e opor-se a ele. Para desviá-lo, deixá-lo perplexo e criar preconceitos nas pessoas contra ele. Aqui está:
- Uma questão que levantaram a respeito do divórcio (v. 2): “É lícito a um homem repudiar sua mulher?” Essa teria sido uma boa pergunta, se tivesse sido bem apresentada, e com um desejo humilde de conhecer a mente de Deus nesta matéria.
Mas a propuseram pondo-o à prova, buscando uma ocasião contra ele e uma oportunidade de expô-lo, fosse qual fosse o lado que tomasse na questão. Os ministros precisam estar em guarda, para que, sob a alegação de serem consultados, não sejam apanhados numa armadilha.
- A resposta de Cristo a eles com uma pergunta (v. 3): “O que Moisés vos ordenou?” Perguntou-lhes isso para testemunhar seu respeito pela lei de Moisés, e mostrar que não veio destruí-la.
E para comprometê-los com um respeito universal e imparcial pelos escritos de Moisés, e com a comparação de uma parte deles com outra.
- O relato correto que deram do que encontraram na lei de Moisés, expressamente a respeito do divórcio, v. 4. Cristo perguntou: “O que Moisés vos ordenou?”
Reconhecem que Moisés apenas permitiu, ou tolerou, que um homem escrevesse à sua mulher uma carta de divórcio, e a repudiasse, Deuteronômio 24:1.
“Se quiserem fazê-lo, precisam fazê-lo por escrito, entregue na própria mão dela, e assim repudiá-la, e nunca voltar a ela novamente.”
- A resposta que Cristo deu à sua pergunta, na qual mantém a doutrina que anteriormente estabelecera neste caso (Mateus 5:32): que quem repudia sua mulher, exceto por fornicação, faz com que ela cometa adultério. E, para esclarecer isso, aqui mostra:
(1.) Que o motivo pelo qual Moisés, na sua lei, tolerou o divórcio era tal que não deveriam fazer uso dessa permissão. Pois foi somente pela dureza dos seus corações (v. 5), para que, se não lhes fosse tolerado divorciar-se das suas mulheres, não as assassinassem.
De modo que ninguém deve repudiar sua mulher, a não ser que esteja disposto a reconhecer que seu coração era tão duro a ponto de precisar desta permissão.
(2.) Que o relato que Moisés, nesta história, dá da instituição do casamento fornece tal motivo contra o divórcio que equivale a uma proibição dele.
De modo que, se a pergunta for: “O que Moisés ordenou?” (v. 3), deve-se responder: “Embora por uma disposição temporária consentisse o divórcio aos judeus, contudo por um motivo eterno o proibia a todos os filhos de Adão e Eva, e isso é o que precisamos manter”. Moisés nos diz:
[1.] Que Deus fez o homem macho e fêmea, um macho e uma fêmea. De modo que Adão não podia repudiar sua mulher e tomar outra, pois não havia outra para tomar. Isso era uma indicação a todos os seus filhos de que não deviam fazê-lo.
[2.] Quando este macho e esta fêmea foram, pela ordenança de Deus, unidos em santo casamento, a lei era que um homem precisava deixar seu pai e mãe, e apegar-se à sua mulher (v. 7).
Isso indica não só a proximidade da relação, mas sua perpetuidade. Ele se apegará à sua mulher de modo a não ser separado dela.
[3.] O resultado da relação é que, embora sejam dois, contudo são um, são uma carne, v. 8. A união entre eles é a mais íntima que pode existir e, como o Dr. Hammond o expressa, algo sagrado que não deve ser violado.
[4.] O próprio Deus os uniu. Ele não só, como Criador, os preparou para serem consolos e ajudas apropriadas um para o outro, mas também, em sabedoria e bondade, designou os que assim são unidos para viverem juntos em amor até que a morte os separe.
O casamento não é invenção dos homens, mas instituição divina e, por isso, deve ser religiosamente observado, tanto mais porque é figura da união mística inseparável entre Cristo e sua igreja.
Agora, de tudo isso deduz que os homens não devem separar de si suas mulheres, que Deus colocou tão perto deles. O laço que o próprio Deus atou não deve ser desatado levianamente.
Os que se divorciam das suas mulheres por toda ofensa fariam bem em considerar o que seria deles se Deus tratasse com eles de modo semelhante. Veja Isaías 50:1; Jeremias 3:1.
- O discurso de Cristo com seus discípulos, em particular, sobre esta matéria, vv. 10-12. Era uma vantagem para eles terem oportunidade de comunhão pessoal com Cristo, não só sobre mistérios do evangelho, mas sobre deveres morais, para obterem maiores esclarecimentos.
Nada mais se relata deste colóquio particular além da lei que Cristo estabeleceu neste caso: que é adultério um homem repudiar sua mulher e casar com outra; é adultério contra a mulher que repudia, uma injustiça contra ela, uma quebra do seu contrato com ela, v. 11.
Acrescenta: se uma mulher repudiar seu marido, isto é, fugir dele, deixá-lo por anuência, e casar com outro, comete adultério (v. 12). E não será desculpa alguma ela dizer que isso foi com a anuência do seu marido.
Sabedoria e graça, santidade e amor, reinando no coração, tornarão fáceis aqueles mandamentos que à mente carnal podem ser como um jugo pesado.
Versículos 13 a 16
O Amor de Cristo às Crianças Pequenas.
Considera-se indicação de disposição bondosa e terna reparar nas crianças pequenas. E isso era notável em nosso Senhor Jesus, o que anima não só as crianças pequenas a recorrerem a Cristo quando são muito novas.
Mas também anima as pessoas adultas que estão conscientes da sua fraqueza e infantilidade, e de serem, por múltiplas debilidades, indefesas e inúteis, como crianças pequenas. Aqui temos:
I. Crianças pequenas trazidas a Cristo, v. 13. Seus pais, ou quem quer que fossem os que as criavam, as trouxeram a ele para que as tocasse, em sinal de ordenar e conferir uma bênção sobre elas.
Não parece que precisassem de qualquer cura corporal, nem eram capazes de ser ensinadas. Mas parece:
Que os responsáveis por elas se preocupavam sobretudo com suas almas, sua parte melhor, que deve ser a principal preocupação de todos os pais pelos filhos. Pois essa é a parte principal, e os filhos estarão bem se suas almas estiverem bem.
Criam que a bênção de Cristo faria bem às almas delas. E, por isso, a ele as trouxeram, para que pudesse tocá-las, sabendo que poderia alcançar seus corações quando nada que seus pais lhes dissessem, ou fizessem em seu favor, os alcançaria.
Podemos apresentar nossos filhos a Cristo, agora que está no céu, pois dali pode alcançá-los com sua bênção.
Nisso podemos exercer fé na plenitude e extensão da sua graça e nas indicações bondosas que sempre deu de favor à descendência dos fiéis, no teor da aliança com Abraão e na promessa a nós e aos nossos filhos, especialmente naquela grande promessa de derramar seu Espírito sobre nossa descendência e sua bênção sobre nossos descendentes, Isaías 44:3.
II. O desestímulo que os discípulos deram à apresentação de crianças a Cristo. Repreendiam os que as traziam, como se tivessem certeza de conhecer a mente do seu Mestre nesta matéria, embora ele recentemente os tivesse avisado a não desprezar os pequeninos.
III. O ânimo que Cristo deu a isso:
- Recebeu muito mal que seus discípulos as mantivessem afastadas. “Quando o viu, ficou muito descontente”, v. 14. “O que vocês querem dizer? Vão me impedir de fazer o bem, de fazer o bem à geração que surge, aos cordeiros do rebanho?”
Cristo fica muito irado com seus próprios discípulos se desestimulam alguém a vir até ele ou a trazer-lhe os filhos.
Ordenou que fossem trazidos a ele, e nada fosse dito ou feito para impedi-las. Permitam que as crianças pequenas, assim que forem capazes, venham a mim, para me oferecerem suas súplicas, e receberem instruções de mim. As crianças pequenas são bem-vindas cedo ao trono da graça com seus hosanas.
Reconheceu-as como membros da sua igreja, como tinham sido da igreja judaica. Veio estabelecer o reino de Deus entre os homens, e tomou esta ocasião para declarar que esse reino admitia crianças pequenas como seus súditos, e lhes dava direito aos privilégios de súditos.
Ou melhor: o reino de Deus deve ser mantido por essas crianças. Precisam ser acolhidas quando são crianças pequenas, para que possam ser preservadas para o futuro, para sustentar o nome de Cristo.
- Que precisa haver algo da índole e disposição das crianças pequenas em todos os que Cristo reconhecerá e abençoará. Precisamos receber o reino de Deus como crianças pequenas (v. 15).
Isto é, precisamos estar dispostos para com Cristo e sua graça como as crianças pequenas para com seus pais, amas e mestres. Precisamos querer saber, como crianças, precisamos aprender como crianças (essa é a idade de aprender), e ao aprender precisamos crer: Oportet discentem credere, um aprendiz precisa crer.
A mente de uma criança é papel branco (tabula rasa, mero espaço em branco); pode-se escrever nela o que quiser. Assim nossas mentes precisam ser para a pena do bendito Espírito.
As crianças estão sob governo; assim precisamos estar. “Senhor, o que queres que eu faça?” Precisamos receber o reino de Deus como o menino Samuel: “Fala, Senhor, pois teu servo ouve”.
As crianças pequenas dependem da sabedoria e do zelo dos seus pais, são carregadas nos seus braços, vão aonde eles as enviam, e tomam o que lhes fornecem.
E assim precisamos receber o reino de Deus, com humilde entrega de nós mesmos a Jesus Cristo, e dependência tranquila dele, tanto para força quanto para justiça, para instrução, provisão e uma porção.
- Recebeu as crianças e lhes deu o que foi desejado (v. 16). Tomou-as nos seus braços, em sinal do seu interesse afetuoso por elas; pôs suas mãos sobre elas, como foi desejado, e as abençoou.
Veja como excedeu os desejos desses pais. Suplicaram que as tocasse, mas fez mais:
(1.) Tomou-as nos seus braços. Agora se cumpriu a Escritura (Isaías 40:11): “Reunirá os cordeiros nos seus braços, e os carregará no seu peito”. Houve um tempo em que o próprio Cristo foi tomado nos braços do velho Simeão, Lucas 2:28.
E agora tomou estas crianças, sem se queixar do peso (como Moisés, quando lhe foi mandado carregar Israel, aquela criança irritadiça, no seu peito, como um pai que cria carrega a criança de peito, Números 11:12), mas agradando-se disso.
Se de modo correto trouxermos nossos filhos a Cristo, ele os tomará, não só nos braços do seu poder e providência, mas nos braços da sua compaixão e graça (como em Ezequiel 16:8). Debaixo deles estão os braços eternos.
(2.) Pôs suas mãos sobre elas, indicando que lhes concedia seu Espírito (pois essa é a mão do Senhor) e que as separava para si mesmo.
(3.) Abençoou-as com as bênçãos espirituais que veio dar. Nossos filhos são felizes se ao menos têm a bênção do Mediador como sua porção.
É verdade que não lemos que batizou essas crianças. O batismo não estava plenamente estabelecido como a porta de admissão à igreja até depois da ressurreição de Cristo.
Mas afirmou sua condição de membros visíveis da igreja, e por outro sinal lhes conferiu aquelas bênçãos que agora são designadas para ser transmitidas e conferidas pelo batismo, o selo da promessa, que é a nós e aos nossos filhos.
Versículos 17 a 31
Um Jovem Promissor que Não Alcança o Céu.
I. Aqui está um encontro promissor entre Cristo e um jovem. Assim se diz que era (Mateus 19:20, 22), e um governante (Lucas 18:18), pessoa de posição. Há aqui algumas circunstâncias que não tivemos em Mateus, que tornam seu pedido a Cristo muito promissor:
- Veio correndo a Cristo, o que indicava sua humildade. Pôs de lado a gravidade e grandeza de um governante quando veio a Cristo. Assim também manifestou seu fervor e insistência. Correu como alguém com pressa, e desejoso de estar em comunhão com Cristo.
Agora tinha oportunidade de consultar este grande Profeta nas coisas que pertenciam à sua paz, e não quis deixar escapar a oportunidade.
Veio a ele quando estava no caminho, na companhia de outras pessoas. Não insistiu num colóquio particular com ele à noite, como Nicodemos, embora, como ele, fosse governante. Mas, quando o encontrar fora, abraçará essa oportunidade de consultá-lo, e não ficará envergonhado, Cantares de Salomão 8:1.
Ajoelhou-se diante dele, em sinal do grande apreço e veneração que tinha por ele, como mestre vindo de Deus, e do seu desejo fervoroso de receber seu ensino.
Dobrou o joelho ao Senhor Jesus, como alguém que não só lhe prestaria reverência agora, mas lhe renderia obediência sempre. Dobrou o joelho como alguém que pretendia dobrar a alma a ele.
- Seu pedido a ele era sério e de peso: “Bom Mestre, o que farei para que possa herdar a vida eterna?” A vida eterna era um artigo do seu credo, embora então negada pelos saduceus, um partido predominante. Pergunta o que fará agora para ser feliz para sempre.
A maioria dos homens pergunta pelo bem a obter neste mundo (Salmos 4:6), qualquer bem. Ele pergunta pelo bem a fazer neste mundo para desfrutar o maior bem no outro mundo. Não: “Quem nos fará ver o bem?” Mas: “Quem nos fará fazer o bem?”
Pergunta pela felicidade no caminho do dever. O summum bonum, bem principal que Salomão buscava, era aquele bem para os filhos dos homens que eles deveriam fazer, Eclesiastes 2:3. Ora, isso era:
(1.) Uma pergunta muito séria em si mesma. Era sobre coisas eternas, e o seu próprio interesse nessas coisas. Repare: começa a haver alguma esperança pelas pessoas quando começam a perguntar ansiosamente o que farão para chegar ao céu.
(2.) Foi proposta à pessoa certa, alguém em todos os aspectos apto a respondê-la, sendo ele mesmo o Caminho, a Verdade e a Vida, o verdadeiro caminho para a vida, para a vida eterna; que veio do céu de propósito, primeiro para abrir em nosso favor, e depois para abrir para nós, primeiro para fazer, e depois para dar a conhecer, o caminho para o céu.
Repare: os que querem saber o que farão para ser salvos precisam recorrer a Cristo, e perguntar-lhe. É peculiar à religião cristã tanto mostrar a vida eterna quanto mostrar o caminho para ela.
(3.) Foi proposta com um bom desígnio: ser instruído. Encontramos esta mesma pergunta feita por um doutor da lei, não ajoelhado, mas levantando-se (Lucas 10:25), com um mau desígnio, de provocar desavenças com ele. Tentou-o, dizendo: “Mestre, o que farei?”
Não são tanto as boas palavras quanto sua boa intenção que Cristo olha.
- Cristo animou este pedido:
(1.) Auxiliando sua fé, v. 18. Chamou-o bom Mestre. Cristo queria que com isso significasse que o considerava Deus, pois ninguém é bom senão um, isto é, Deus, que é um, e seu nome um, Zacarias 14:9.
Nossa palavra inglesa God sem dúvida tem afinidade com good. Assim como os hebreus nomeiam Deus por seu poder, Elohim, o Deus forte, assim nós por sua bondade, o Deus bom.
(2.) Dirigindo sua prática (v. 19). Guarde os mandamentos; e você sabe quais são. Menciona os seis mandamentos da segunda tábua, que prescrevem nosso dever para com nosso próximo.
Inverte a ordem, colocando o sétimo mandamento antes do sexto, para indicar que o adultério é pecado não menos hediondo que o próprio assassinato. O quinto mandamento é aqui colocado por último, como aquele que deve ser especialmente lembrado e observado, para nos manter em todos os demais.
Em lugar do décimo mandamento, “Não cobiçarás”, nosso Salvador aqui coloca: “Não defraudes”. Me apostereses, isto é, diz o Dr. Hammond, “Contentar-te-ás com o que é teu, e não procurarás aumentá-lo pela diminuição do que é de outros homens”.
É regra de justiça não nos elevarmos ou enriquecermos fazendo injustiça ou injúria a qualquer outro.
- O jovem prometia alcançar o céu, tendo estado livre de quaisquer violações abertas e grosseiras dos mandamentos divinos. Até aqui podia dizer em alguma medida (v. 20): “Mestre, todos estes observei desde minha juventude”. Pensava que o fizera, e seus vizinhos pensavam assim também.
Repare: a ignorância da extensão e natureza espiritual da lei divina faz as pessoas se considerarem em condição melhor do que realmente estão. Paulo estava vivo sem a lei. Mas, quando a viu como espiritual, viu-se como carnal, Romanos 7:9, 14.
Contudo, quem podia dizer que estava livre de pecado escandaloso foi mais longe que muitos no caminho para a vida eterna. Mas, embora nada saibamos contra nós mesmos, contudo não somos por isso justificados, 1 Coríntios 4:4.
- Cristo tinha afeição por ele. “Jesus, olhando para ele, o amou”, v. 21. Agradava-lhe constatar que o jovem tinha vivido sem dar ofensa, e agradava-lhe ver que perguntava como viver melhor que isso.
Cristo particularmente ama ver jovens, e pessoas ricas, perguntando o caminho para o céu, com seus rostos voltados para lá.
II. Aqui está uma separação dolorosa entre Cristo e este jovem:
- Cristo lhe deu um mandamento de prova, pelo qual apareceria se sinceramente visava à vida eterna, e avançava para ela. Parecia ter seu coração muito voltado para ela, e, se assim for, é o que deve ser. Mas tem de fato seu coração voltado para ela? Levem-no à pedra de toque:
(1.) Pode achar no seu coração disposição para separar-se das suas riquezas pelo serviço de Cristo? Tem um bom patrimônio, e agora, em breve, na primeira fundação da igreja cristã, a necessidade do caso exigirá que os que têm terras as vendam e ponham o dinheiro aos pés dos apóstolos.
E como aceitará isso? Atos 4:34, 35. Depois de algum tempo, tribulação e perseguição surgirão por causa da palavra. E deverá ser forçado a vender os seus bens, ou tê-los tomados de si, e como gostará disso?
Saiba o pior agora. Se não quiser cumprir estes termos, abandone suas alegações. Tanto vale no começo quanto no fim. “Venda tudo que você tem além do que é necessário para seu sustento.”
Provavelmente não tinha família para sustentar. Por isso, seja pai para os pobres, e os faça seus herdeiros. Todo homem, segundo sua capacidade, precisa socorrer os pobres, e contentar-se, quando houver ocasião, em restringir-se para fazê-lo.
A riqueza mundana nos é dada não só como sustento para arcar com nossas despesas através deste mundo, segundo nosso lugar nele, mas como talento, para ser usado e empregado para a glória do nosso grande Mestre no mundo. Ele o ordenou de tal modo que sempre tivéssemos os pobres conosco como seus recebedores.
(2.) Pode achar no seu coração disposição para passar pelos serviços mais árduos e custosos aos quais possa ser chamado como discípulo de Cristo, e depender dele para uma recompensa no céu?
Pergunta a Cristo o que deveria fazer a mais do que fez para obter a vida eterna. E Cristo lhe pergunta se de fato tem aquela firme crença na vida eterna, e aquele elevado apreço por ela, que parece ter.
Crê realmente que há um verdadeiro tesouro no céu suficiente para compensar tudo que pode deixar, ou perder, ou gastar por Cristo? Está disposto a tratar com Cristo a crédito? Pode dar-lhe crédito por tudo que possui, e estar disposto a suportar uma cruz presente na expectativa de uma coroa futura?
- Diante disso se afastou (v. 22). Ficou triste com aquele dito. Estava pesaroso por não poder ser seguidor de Cristo em termos mais fáceis do que deixar tudo para segui-lo; por não poder agarrar a vida eterna, e conservar a posse dos seus bens temporais também.
Mas, como não podia cumprir os termos do discipulado, foi suficientemente honesto para não alegar ser discípulo. “Foi embora com dor.” Aqui apareceu a verdade daquilo (Mateus 6:24): “Não podeis servir a Deus e a mamom”.
Ao passo que se apegava a mamom, na prática desprezava Cristo, como fazem todos os que preferem o mundo a ele. Faz uma oferta pelo que deseja no mercado, contudo vai embora entristecido, e o deixa, porque não pode tê-lo pelo seu próprio preço.
Um negócio exige o acordo de duas partes. Propostas não são casamentos. O que arruinou este jovem foi ter muitos bens. Assim a prosperidade dos insensatos os destrói, e os que passam seus dias em riqueza são tentados a dizer a Deus: “Afasta-te de nós”. Ou aos seus corações: “Afastem-se de Deus”.
III. Aqui está o discurso de Cristo com seus discípulos. Somos tentados a desejar que Cristo tivesse suavizado aquele dito que assustou este jovem cavalheiro, afastando-o de segui-lo, e por uma explicação tivesse retirado sua dureza.
Mas conhecia os corações de todos os homens. Não queria cortejá-lo para ser seu seguidor porque era homem rico e governante. Mas, se quiser ir, que vá. Cristo não manterá homem algum contra sua vontade.
E, por isso, não encontramos Cristo chamando-o de volta, mas tomou esta ocasião para instruir seus discípulos em duas coisas:
- A dificuldade da salvação dos que têm abundância deste mundo. Porque há poucos que têm muito a deixar e podem ser persuadidos a deixá-lo por Cristo, ou a gastá-lo fazendo o bem:
(1.) Cristo afirma isso aqui. Olhou ao redor para seus discípulos, porque queria que todos reparassem no que dizia, para que por isso pudessem ter seus julgamentos corretamente informados, e seus erros corrigidos quanto à riqueza mundana, que tendiam a superestimar.
“Quão dificilmente os que têm riquezas entrarão no reino de Deus!”, v. 23. Têm muitas tentações com que lutar, e muitas dificuldades a superar, que não estão no caminho das pessoas pobres.
Mas explica-se, v. 24, onde chama os discípulos de filhos, porque como tais deveriam receber seu ensino, e sua porção de coisas melhores do que aquelas às quais este jovem deixou Cristo para apegar-se.
E, ao passo que dissera: quão dificilmente os que têm riquezas chegarão ao céu, aqui lhes diz que o perigo surgia não tanto de terem riquezas quanto de confiarem nelas, e depositarem nelas sua confiança, esperando delas proteção, provisão e uma porção.
Dizendo ao seu ouro aquilo que deveriam dizer só ao seu Deus: “Tu és minha esperança”, Jó 31:24. Os que têm tal apreço pela riqueza do mundo nunca serão levados a dar um apreço correto a Cristo e sua graça.
Os que têm muitas riquezas, por mais numerosas que sejam, mas não confiam nelas, que veem a sua vaidade e sua absoluta insuficiência para fazer uma alma feliz, superaram a dificuldade, e podem facilmente separar-se delas por Cristo.
Mas, por menos que tenham, se puserem seus corações nesse pouco, e colocarem nele sua felicidade, isso os manterá longe de Cristo.
Reforça esta afirmação com o v. 25: é mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha que um homem rico, que confia nas riquezas, ou se inclina a fazê-lo, entrar no reino de Deus.
A desproporção aqui parece tão grande (embora quanto mais assim for, mais corresponde à intenção) que alguns se empenharam em aproximar um pouco o camelo e o olho da agulha:
[1.] Alguns imaginam que poderia haver algum portão pequeno, ou porta, de Jerusalém, comumente conhecido pelo nome de olho da agulha por sua estreiteza. Por ele um camelo não podia passar a menos que fosse descarregado e levado a ajoelhar-se, como aqueles camelos, Gênesis 24:11.
Assim um homem rico não pode chegar ao céu a menos que esteja disposto a separar-se do peso da sua riqueza mundana, e abaixar-se aos deveres de uma religião humilde, e assim entrar pela porta estreita.
[2.] Outros sugerem que a palavra que traduzimos como camelo às vezes significa cabo grosso, que, embora não possa passar pelo olho de uma agulha, contudo tem grande afinidade com ele.
Um homem rico, comparado com o pobre, é como um cabo para um único fio: mais forte, mas não tão flexível. E não passará pelo olho da agulha a menos que seja destorcido.
Assim o rico precisa ser solto e desembaraçado das suas riquezas, e então há alguma esperança por ele, de que, fio a fio, possa passar pelo olho da agulha. De outro modo, serve apenas para lançar âncora na terra.
(2.) Esta verdade era muito surpreendente para os discípulos. “Espantaram-se com suas palavras”, v. 24. Ficaram espantados além da medida, e diziam entre si: “Quem, então, pode ser salvo?”
Sabiam quais eram geralmente os sentimentos dos mestres judeus, que afirmavam que o Espírito de Deus escolhe residir nos homens ricos. Ou melhor: sabiam que abundância de promessas havia no Antigo Testamento de coisas boas temporais.
Sabiam igualmente que todos ou são ricos, ou gostariam de sê-lo, e que os ricos têm oportunidades tanto maiores de fazer o bem. E, por isso, ficaram admirados de ouvir que seria tão árduo para pessoas ricas ir ao céu.
(3.) Cristo os reconciliou com isso, referindo-o ao poder onipotente de Deus para ajudar até as pessoas ricas a superar as dificuldades no caminho da sua salvação (v. 27).
Olhou para eles para atrair sua atenção, e disse: “Com os homens é impossível. Os ricos não podem, por sua própria habilidade ou resolução, superar essas dificuldades. Mas a graça de Deus pode fazê-lo, pois com ele todas as coisas são possíveis.”
Se os justos mal são salvos, muito mais podemos dizer assim dos ricos. E, por isso, quando quaisquer chegarem ao céu, precisam dar toda a glória a Deus, que opera neles tanto o querer quanto o fazer.
- A grandeza da salvação dos que têm apenas um pouco deste mundo, e o deixam por Cristo. Fala disso na ocasião em que Pedro menciona o que ele e o restante dos discípulos tinham deixado para segui-lo: “Eis”, diz ele, “deixamos tudo para seguir-te”, v. 28.
“Fizeram bem”, diz Cristo, “e no fim se provará que fizeram bem em favor de si mesmos. Serão abundantemente recompensados. E não só vocês serão ressarcidos, que deixaram apenas um pouco, mas os que têm tanto quanto for, mesmo tanto quanto este jovem tinha.”
“Ele não podia persuadir-se a abandoná-lo por Cristo. Contudo eles terão muito mais que um equivalente por isso.”
(1.) Supõe-se que a perda seja muito grande. Ele especifica:
[1.] Riqueza mundana. Casas são colocadas aqui primeiro, e terras por último. Se um homem abandonar sua casa, que deveria ser para sua habitação, e sua terra, que deveria ser para seu sustento, e assim se fizer mendigo e excluído.
Esta tem sido a escolha dos santos sofredores. Adeus, casas e terras, por mais convenientes e desejáveis, recebidas como herança dos pais, em favor da casa que é do céu, e da herança dos santos na luz, onde há muitas moradas.
[2.] Parentes queridos. Pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs. Neles, tanto quanto em qualquer bênção temporal, está ligado o conforto da vida. Sem eles o mundo seria um deserto.
Contudo, quando precisamos ou abandoná-los ou abandonar Cristo, precisamos lembrar que temos uma relação mais próxima com Cristo do que com qualquer criatura. E, por isso, para ficar em boa relação com ele, precisamos contentar-nos em romper com todo o mundo, e dizer ao pai e à mãe, como Levi: Não conheci vocês.
A maior prova da constância de um homem bom é quando seu amor a Cristo se encontra em disputa com um amor que é lícito. Ou melhor: que é seu dever.
É fácil para alguém assim abandonar uma concupiscência por Cristo, pois tem dentro de si aquilo que se levanta contra ela. Mas abandonar um pai, um irmão, uma mulher por Cristo, isto é, abandonar os que sabe que precisa amar, é árduo.
E contudo precisa fazê-lo, antes que negar ou renegar Cristo. Assim grande é a perda suposta. Mas é por causa de Cristo, para que seja honrado, e do evangelho, para que seja promovido e propagado. Não é o sofrimento, mas a causa, que faz o mártir. E, por isso:
(2.) A vantagem será grande:
[1.] Receberão cem vezes mais neste tempo, casas, e irmãos, e irmãs. Não in specie, mas aquilo que é equivalente. Terá abundância de conforto enquanto viver, suficiente para compensar todas as suas perdas.
Sua relação com Cristo, sua comunhão com os santos, e seu direito à vida eterna serão para ele irmãos, e irmãs, e casas, e tudo. A providência de Deus deu a Jó o dobro do que tivera.
Mas os cristãos sofredores terão cem vezes mais nos consolos do Espírito que adoçam seus consolos provenientes das criaturas. Mas observe: acrescenta-se aqui em Marcos, “com perseguições”.
Até quando ganham por Cristo, continuem a esperar sofrer em seu favor, e não estar fora do alcance da perseguição até chegarem ao céu.
Ou melhor: as perseguições parecem entrar aqui entre as coisas recebidas neste tempo presente. Pois a vocês é dado não só crer em Cristo, mas também sofrer por seu nome. Contudo isso não é tudo:
[2.] Terão vida eterna no mundo futuro. Se recebem cem vezes mais neste mundo, alguém pensaria que não deveriam ser animados a esperar mais alguma coisa.
Contudo, como se isso fosse coisa pequena, terão vida eterna de quebra. Isso é mais que dez mil vezes, contadas dez mil vezes, por todas as suas perdas.
Mas, porque falavam tanto, e realmente mais do que lhes convinha, sobre deixar tudo por Cristo, lhes diz, embora fossem chamados primeiro, que haveria discípulos chamados depois deles que teriam precedência sobre eles.
Como São Paulo, que nasceu fora de tempo, e contudo trabalhou mais abundantemente que todo o restante dos apóstolos, 1 Coríntios 15:10. Então os primeiros foram últimos, e os últimos primeiros.
Versículos 32 a 45
A Previsão de Cristo dos Seus Sofrimentos.
Aqui está:
I. A previsão de Cristo dos seus próprios sofrimentos. Nessa corda tocava muito, embora aos ouvidos dos seus discípulos soasse muito áspera e desagradável:
- Veja aqui quão ousado era. Quando subiam a Jerusalém, Jesus ia adiante deles, como o capitão da nossa salvação, que agora seria aperfeiçoado por sofrimentos, v. 32.
Assim se mostrou pronto a prosseguir no seu empreendimento, até quando chegou à parte mais árdua dele. Agora que o tempo estava próximo, disse: “Eis que venho”. Tão longe estava de recuar que agora, mais que nunca, avançava.
“Jesus ia adiante deles, e ficaram espantados.” Começavam agora a considerar em que perigo iminente se lançavam quando iam a Jerusalém. Quão malicioso o Sinédrio que ali se reunia era contra seu Mestre e eles. E estavam prontos a tremer ao pensar nisso.
Por isso, para lhes dar ânimo, Cristo ia adiante deles. “Venham”, diz ele, “certamente se arriscarão onde seu Mestre se arrisca”.
Repare: quando nos vemos entrando em sofrimentos, dá ânimo ver nosso Mestre ir adiante de nós. Ou: ia adiante deles, e, por isso, ficaram espantados. Admiravam ver com que alegria e prontidão prosseguia, embora soubesse que ia sofrer e morrer.
Repare: a coragem e constância de Cristo em prosseguir no seu empreendimento por nossa salvação são, e serão, a admiração de todos os seus discípulos.
Veja aqui quão temerosos e desalentados seus discípulos estavam. “Enquanto seguiam, tinham medo”, medo por si mesmos, apreensivos do seu próprio perigo. E com justiça poderiam envergonhar-se de estarem assim com medo. A coragem do seu Mestre deveria ter posto ânimo neles.
Veja aqui que método tomou para silenciar seus medos. Não procurou fazer a situação parecer melhor do que era, nem alimentá-los com esperanças de que ele pudesse escapar da tempestade. Mas lhes contou novamente o que tantas vezes lhes contara antes: as coisas que lhe aconteceriam.
Sabia o pior disso, e, por isso, prosseguia assim ousadamente, e os deixará saber o pior disso. Venham, não tenham medo. Pois:
(1.) Não há remédio, a matéria está determinada, e não pode ser evitada.
(2.) Só o Filho do homem sofrerá. O tempo do sofrimento deles não estava agora próximo; ele agora proverá sua segurança.
(3.) Ressuscitará. O desfecho dos seus sofrimentos será glorioso para ele mesmo, e vantajoso para todos os que são seus, v. 33, 34.
O método e os detalhes dos sofrimentos de Cristo são aqui previstos mais extensamente que em qualquer outra previsão: que será primeiro entregue por Judas aos principais sacerdotes e escribas; que o condenarão à morte.
Mas, não tendo poder de matá-lo, o entregarão aos gentios, às autoridades romanas, e zombarão dele, e o açoitarão, e cuspirão nele, e o matarão.
Cristo tinha perfeita previsão, não só da sua própria morte, mas de todas as circunstâncias agravantes dela. E contudo assim saiu ao seu encontro.
II. A correção que fez a dois dos seus discípulos pelo seu pedido ambicioso. Esta história é muito semelhante à que tivemos em Mateus 20:20.
Só que ali se diz que fizeram seu pedido por sua mãe; aqui se diz que o fizeram pessoalmente. Ela os introduziu e apresentou sua petição, e então a apoiaram, e anuíram a ela. Repare:
- Assim como de um lado há alguns que não usam, assim de outro lado há alguns que abusam dos grandes ânimos que Cristo nos deu na oração.
Disse: “Pedi, e vos será dado”. E é uma fé elogiável pedir as grandes coisas que prometeu. Mas foi presunção culpável nesses discípulos fazer exigência tão ilimitada ao seu Mestre: “Queremos que faças em nosso favor tudo que desejarmos”.
Muito melhor seria deixarmos com ele fazer em nosso favor o que julga adequado, e fará mais que podemos desejar, Efésios 3:20.
- Precisamos ser cautelosos ao fazer promessas gerais. Cristo não queria comprometer-se a fazer em seu favor tudo que desejavam, mas queria saber deles o que desejavam: “O que quereis que eu faça em vosso favor?”
Queria que prosseguissem no seu pedido, para que fossem levados a envergonhar-se dele.
- Muitos foram levados a uma armadilha por falsas noções do reino de Cristo, como se fosse deste mundo, e como os reinos dos potentados deste mundo.
Tiago e João concluem: se Cristo ressuscitar, precisa ser rei, e, se for rei, seus apóstolos precisam ser pares. E um destes de boa vontade seria o Primus par regni, primeiro par do reino, e o outro logo abaixo dele, como José na corte de Faraó, ou Daniel na de Dario.
A honra mundana é algo reluzente com que os olhos dos próprios discípulos de Cristo foram tantas vezes deslumbrados. Ao passo que ser bom deveria ser mais nosso zelo que parecer grande, ou ter preeminência.
Nossa fraqueza e falta de visão aparecem tanto nas nossas orações quanto em qualquer coisa. Não podemos ordenar nossa fala quando falamos com Deus, por causa da escuridão, tanto a respeito dele quanto de nós mesmos. É insensatez prescrever a Deus o que fazer, e sabedoria aceitar o que ele determina.
É vontade de Cristo que nos preparemos para sofrimentos, e deixemos com ele recompensar-nos por eles. Não precisa ser lembrado, como Assuero, dos serviços do seu povo, nem pode esquecer sua obra de fé e trabalho de amor.
Nosso zelo precisa ser ter sabedoria e graça para saber como sofrer com ele. E então podemos confiar nele para prover da melhor maneira como reinaremos com ele, e quando, e onde, e quais serão os graus da nossa glória.
III. A correção que fez ao restante dos discípulos por sua inquietação nisso. Começaram a ficar muito descontentes, a ter indignação contra Tiago e João, v. 41.
Estavam irados com eles por buscarem precedência, não porque isso conviesse tão mal aos discípulos de Cristo, mas porque cada um esperava tê-la para si mesmo.
Quando o cínico pisou no tapete de Alexandre, com Calco fastum Alexandri, “agora piso no orgulho de Alexandre”, foi oportunamente corrigido com Sed majori fastu, “mas com um orgulho ainda maior, o teu próprio”.
Assim estes revelaram sua própria ambição no seu descontentamento com a ambição de Tiago e João. E Cristo tomou esta ocasião para avisá-los contra ela, e a todos os seus sucessores no ministério do evangelho, vv. 42-44.
Chamou-os para junto de si de modo familiar, para lhes dar um exemplo de condescendência justo quando censurava sua ambição, e ensinar-lhes a nunca mandar seus discípulos manter distância. Mostra-lhes:
- Que geralmente se abusava do domínio no mundo (v. 42). Aqueles que pareciam governar os gentios, que têm o nome e título de governantes, exercem senhorio sobre eles. Isso é tudo que estudam e visam.
Não tanto protegê-los, e prover seu bem-estar, quanto exercer autoridade sobre eles. Exigem ser obedecidos, visam ser arbitrários, e ter sua vontade em tudo.
Sic volo, sic jubeo, stat pro ratione voluntas, assim quero, assim ordeno; minha vontade é minha lei. Seu zelo é o que obterão dos seus súditos para sustentar sua própria pompa e grandeza, não o que farão em favor deles.
- Que, por isso, não deve ser admitido na igreja. “Não será assim entre vocês. Os que forem postos sob seu encargo precisam ser como ovelhas sob o encargo do pastor, que deve cuidar delas e alimentá-las, e ser seu servo.”
“Não como cavalos sob a ordem do condutor, que os faz trabalhar e lhes bate, e extrai deles o valor do seu dinheiro. Quem busca ser grande e principal, que se impõe numa dignidade e domínio seculares, será servo de todos.”
“Será insignificante e desprezível aos olhos de todos os que são sábios e bons; quem se exalta será rebaixado.” Ou antes: “Quem quer ser verdadeiramente grande e principal precisa dedicar-se a fazer o bem a todos, precisa abaixar-se aos serviços mais humildes, e trabalhar nos serviços mais árduos.”
“Não só serão os mais honrados depois, mas são os mais honráveis agora aqueles que são os mais úteis.” Para convencê-los disso, põe diante deles seu próprio exemplo (v. 45).
“O Filho do homem submete-se primeiro às maiores agruras e perigos, e então entra na sua glória. E vocês podem esperar chegar a ela por qualquer outro caminho, ou ter mais facilidade e honra do que ele?”
(1.) Toma sobre si a forma de servo, vem não para receber serviço, e ser atendido, mas para servir, e esperar para ser bondoso.
(2.) Vem obediente à morte, e ao seu domínio, pois dá sua vida em resgate por muitos. Morreu em benefício das pessoas boas, e não nos empenharemos em viver em benefício delas?
Versículos 46 a 52
Os Olhos de Bartimeu Abertos.
Esta passagem da história concorda com aquela, Mateus 20:29, etc. Só que ali se fala de dois homens cegos; aqui, e em Lucas 18:35, só de um. Mas, se havia dois, havia um.
Este é nomeado aqui, sendo um mendigo cego de quem se falava muito. Chamava-se Bartimeu, isto é, filho de Timeu, o que alguns pensam significar filho de um homem cego.
Era o filho cego de um pai cego, o que tornava o caso pior, e a cura mais maravilhosa, e tanto mais apropriada para representar as curas espirituais realizadas pela graça de Cristo naqueles que não só nascem cegos, mas nascem dos que são cegos.
I. Este homem cego estava sentado mendigando, como fazem entre nós. Repare: os que pela providência de Deus são incapacitados de obter sustento por seu próprio trabalho, e não têm qualquer outro meio de subsistir, são os objetos mais apropriados de caridade. E deve-se exercer zelo particular por eles.
II. Clamou ao Senhor Jesus por misericórdia: “Tem misericórdia de mim, ó Senhor, Filho de Davi”. A miséria é objeto da misericórdia.
Recomenda o seu próprio caso miserável à compaixão do Filho de Davi, de quem fora predito que, quando viesse salvar-nos, os olhos dos cegos seriam abertos, Isaías 35:5.
Ao virmos a Cristo por ajuda e cura, devemos olhá-lo como o Messias prometido, o Depositário da misericórdia e graça.
III. Cristo o animou a esperar que encontraria misericórdia. Pois parou, e ordenou que fosse chamado. Nunca devemos considerar impedimento no nosso caminho parar, quando é para fazer uma boa obra.
Os que estavam ao seu redor, que a princípio o tinham desanimado, talvez fossem agora os que lhe anunciaram o chamado gracioso de Cristo: “Tem bom ânimo, levanta-te, ele te chama; e, se te chama, te curará”.
Repare: os convites graciosos que Cristo nos faz para virmos a ele são grandes ânimos à nossa esperança de que teremos bom sucesso se viermos a ele, e teremos aquilo pelo qual viemos.
Os culpados, os vazios, os tentados, os famintos, os nus tenham bom ânimo. Pois os chama para serem perdoados, supridos, socorridos, saciados, vestidos, para que tudo se faça em seu favor que seu caso exige.
IV. O pobre homem então apressou-se pelo caminho a Cristo. Lançou fora sua veste exterior solta, e veio a Jesus (v. 50). Lançou fora tudo que pudesse fazê-lo correr o risco de cair, ou de qualquer modo impedi-lo de vir a Cristo, ou retardar seu movimento.
Os que querem vir a Jesus precisam lançar fora a veste da sua própria suficiência, precisam despir-se de toda presunção a respeito dela. E precisam livrar-se de todo peso, e do pecado que, como vestes longas, tão facilmente os envolve, Hebreus 12:1.
V. O favor particular que suplicou era que os seus olhos fossem abertos, para que assim pudesse trabalhar para o seu sustento e não fosse mais um peso para outros.
É algo muito desejável ter capacidade de ganhar nosso próprio pão. E, onde Deus deu aos homens seus membros e sentidos, é vergonha os homens, por sua insensatez e preguiça, se fazerem, na prática, cegos e aleijados.
VI. Este favor recebeu. Seus olhos foram abertos (v. 52). E duas coisas Marcos acrescenta aqui, que indicam:
- Como Cristo lhe fez um favor duplo, colocando a honra disso sobre a sua fé. “Tua fé te tornou são; fé em Cristo como o Filho de Davi, e na sua compaixão e poder; não tua insistência, mas tua fé, pondo Cristo a trabalhar, ou antes Cristo pondo tua fé a trabalhar.”
Aqueles suprimentos são os mais consoladores que são obtidos pela nossa fé.
- Como o homem fez disso um favor duplo para si mesmo. Quando recebeu sua vista, seguiu Jesus pelo caminho. Com isso tornou aparente que estava completamente curado, que não precisava mais de alguém para conduzi-lo, mas podia ir por si mesmo.
E com isso evidenciou a percepção grata que tinha da bondade de Cristo para consigo: quando teve sua vista, fez este uso dela.
Não basta vir a Cristo por cura espiritual, mas, quando somos curados, precisamos continuar a segui-lo, para lhe dar honra e receber instrução dele. Os que têm visão espiritual veem aquela beleza em Cristo que os atrairá eficazmente a correr após ele.