Matthew Henry

Lucas 7

Argumento

Neste capítulo temos:

I. Cristo confirmando a doutrina que havia pregado no capítulo anterior por dois milagres gloriosos: a cura de alguém à distância, o servo do centurião (vv. 1-10), e a ressurreição de alguém que estava morto, o filho da viúva de Naim, vv. 11-18.

II. Cristo confirmando a fé de João, então na prisão, e de alguns de seus discípulos, ao lhe enviar um breve relato dos milagres que realizou em resposta a uma pergunta recebida dele (vv. 19-23). A isso acrescenta um testemunho honroso a respeito de João e uma justa censura aos homens daquela geração pelo desprezo que mostraram por ele e sua doutrina, vv. 24-35.

III. Cristo consolando uma pobre penitente que se dirigiu a ele banhada em lágrimas de tristeza piedosa pelo pecado, assegurando-lhe que seus pecados estavam perdoados, e justificando-se no favor que lhe mostrou contra as objeções capciosas de um fariseu orgulhoso, vv. 36-50.

Versículos 1 a 10

A Cura do Servo do Centurião.

Há alguma diferença entre o relato da cura do servo do centurião aqui e o de Mateus 8:5, etc. Ali se diz que o centurião foi até Cristo; aqui, que primeiro lhe enviou alguns anciãos dos judeus (v. 3) e, depois, alguns outros amigos, v. 6.

Mas há uma regra segundo a qual se diz que fazemos aquilo que realizamos por intermédio de outra pessoa: Quod facimus per alium, id ipsum facere judicamur.

Podia-se dizer que o centurião fez o que realizou por seus representantes, assim como alguém toma posse por meio de seu procurador. É provável, porém, que o próprio centurião tenha vindo por fim, quando Cristo lhe disse (Mateus 8:13): “Como creste, assim te seja feito”.

Diz-se aqui que nosso Senhor Jesus realizou esse milagre quando havia terminado todas as suas palavras aos ouvidos do povo, v. 1. Cristo falou publicamente; quem quisesse podia vir ouvi-lo: “Em segredo nada falei”, João 18:20.

Para dar uma prova inegável da autoridade de sua palavra pregada, ele agora dá uma prova incontestável do poder e da eficácia de sua palavra que cura.

Aquele que exercia domínio tão imperioso no reino da natureza que podia ordenar às doenças que se retirassem sem dúvida tem soberania semelhante no reino da graça para ordenar deveres desagradáveis à carne e ao sangue e obrigar à sua observância sob as maiores penalidades.

Esse milagre ocorreu em Cafarnaum, onde se realizaram a maioria das obras poderosas de Cristo, Mateus 11:23. Observe agora:

I. O servo do centurião que estava doente era querido por seu senhor, v. 2. Foi motivo de elogio para o servo que, por sua diligência e fidelidade e por sua preocupação evidente com o senhor e os interesses dele, como consigo e com os seus próprios interesses, tenha conquistado a estima e o amor do senhor. Os servos devem procurar tornar-se queridos por seus senhores.

Também foi motivo de elogio para o senhor que, ao ter um bom servo, soubesse dar-lhe valor. Muitos senhores orgulhosos e autoritários acham que fazem um favor suficiente a seus melhores servos por não os repreenderem, espancarem nem tratarem com crueldade, quando deveriam tratá-los com bondade e cuidado e zelar por seu bem-estar e consolo.

II. O senhor, quando ouviu falar de Jesus, decidiu recorrer a ele, v. 3. Os senhores devem cuidar especialmente de seus servos quando adoecem, sem abandoná-los nessa ocasião. Esse centurião pediu que Cristo viesse curar seu servo.

Hoje podemos recorrer a Cristo no céu por meio da oração fiel e fervorosa, e devemos fazê-lo quando há doença em nossa família, pois Cristo continua sendo o grande Médico.

III. Ele enviou alguns anciãos dos judeus a Cristo para expor o caso e interceder por ele, julgando que isso seria uma demonstração maior de respeito a Cristo do que ir pessoalmente, pois era um gentio incircunciso com quem, pensava ele, Cristo, como profeta, não desejaria ter comunhão.

Por isso enviou judeus, que reconhecia como favorecidos do Céu; não judeus comuns, mas anciãos, pessoas investidas de autoridade, para que a dignidade dos mensageiros honrasse aquele a quem eram enviados. Balaque enviou príncipes a Balaão.

IV. Os anciãos dos judeus intercederam de coração pelo centurião: rogaram-lhe com insistência (v. 4), eram muito insistentes com ele, defendendo em favor do centurião algo que este jamais teria alegado em favor de si mesmo: que era digno de receber tal benefício. Se algum gentio era apto a receber semelhante favor, certamente era ele.

O centurião disse: “Não sou digno nem sequer de uma visita” (Mateus 8:8); os anciãos dos judeus, porém, o consideravam digno da cura. Assim, a honra sustentará o humilde de espírito. Que outro o louve, e não sua própria boca.

Insistiam particularmente nisto: embora fosse gentio, ele desejava sinceramente o bem da nação e da religião judaicas, v. 5. Julgavam necessário remover os preconceitos que Cristo teria contra ele como gentio, romano e oficial do exército, tanto quanto seria preciso fazê-lo entre eles próprios. Por isso mencionaram:

  1. Que tinha afeição pelo povo judeu: “Ele ama nossa nação” (o que poucos gentios faziam). Provavelmente havia lido o Antigo Testamento, do qual era fácil passar a estimar muito a nação judaica, favorecida pelo Céu acima de todos os povos.

Repare: Até os conquistadores e os que detêm poder devem conservar afeição pelos conquistados e pelos que estão sob seu poder.

  1. Que tinha afeição pelo culto deles: construiu-lhes uma sinagoga nova em Cafarnaum, pois viu que a anterior estava arruinada ou era pequena demais para comportar o povo e que os moradores não tinham recursos para construir outra por conta própria.

Assim testemunhou sua reverência pelo Deus de Israel, sua crença de que ele é o único Deus vivo e verdadeiro e seu desejo, como o de Dario, de beneficiar-se das orações do Israel de Deus, Esdras 6:10.

O centurião construiu a sinagoga aos seus próprios custos e despesas e provavelmente empregou na construção seus soldados da guarnição local para afastá-los da ociosidade. Repare: Construir lugares de reunião para o culto religioso é obra muito boa e demonstra amor a Deus e a seu povo; quem pratica boas obras desse tipo é digno de dupla honra.

V. Jesus Cristo estava muito disposto a mostrar bondade ao centurião. Foi imediatamente com eles (v. 6), embora o homem fosse gentio; pois é ele o Salvador somente dos judeus? Não é também dos gentios? Sim, também dos gentios, Romanos 3:29.

O centurião não se julgava digno de visitar Cristo (v. 7); Cristo, porém, considerou-o digno de sua visita, pois os que se humilham serão exaltados.

VI. Quando soube que Cristo lhe dava a honra de ir à sua casa, o centurião deu novas provas tanto de sua humildade quanto de sua fé. Assim, a aproximação de Cristo estimula as graças dos santos.

Quando Jesus já não estava longe da casa e o centurião soube disso, em vez de preparar a casa para recebê-lo, enviou amigos ao encontro dele com novas manifestações:

  1. De sua humildade: “Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de tamanha honra, porque sou gentio”.

Isso revela tanto sua opinião humilde a respeito de si mesmo, apesar da importância de sua posição, quanto sua elevada opinião a respeito de Cristo, apesar da posição humilde dele no mundo. Sabia honrar um profeta de Deus, embora desprezado e rejeitado pelos homens.

  1. De sua fé: “Senhor, não te incomodes, pois sei que não é necessário. Podes curar meu servo sem entrar debaixo do meu teto, por aquele poder onipotente ao qual nenhum pensamento pode ser oculto. Dize numa palavra, e meu servo será curado”.

O centurião estava muito longe da ideia de Naamã de que o profeta devia vir, pôr-se diante do paciente, mover a mão sobre ele e assim curá-lo, 2 Reis 5:11.

Ele ilustra sua fé com uma comparação tirada de sua profissão e está certo de que Cristo pode ordenar à doença que se retire tão facilmente quanto ele dá ordens a qualquer um de seus soldados; pode enviar um anjo com a incumbência de curar o servo tão facilmente quanto ele envia um soldado em missão, v. 8.

Cristo tem poder soberano sobre todas as criaturas e todas as suas ações; pode alterar o curso da natureza conforme lhe agrada, corrigir seus distúrbios e reparar sua deterioração nos corpos humanos, pois todo poder lhe foi dado.

VII. Nosso Senhor Jesus ficou maravilhosamente satisfeito com a fé do centurião, e ainda mais admirado por ele ser gentio. E, tendo a fé do centurião assim honrado a Cristo, veja como Cristo a honrou (v. 9): voltou-se, como quem estava admirado, e disse ao povo que o seguia: “Não encontrei fé tão grande, não, nem mesmo em Israel”.

Repare: Cristo quer que os que o seguem observem e reparem nos grandes exemplos de fé que às vezes lhes são apresentados, especialmente quando aparecem entre pessoas que, em sua profissão, não o seguem tão de perto quanto eles. Assim, a força da fé dessas pessoas pode envergonhar-nos e tirar-nos da fraqueza e das vacilações da nossa.

VIII. A cura foi realizada imediatamente e por completo (v. 10). Os enviados sabiam que haviam obtido o que sua missão buscava e, por isso, voltaram e encontraram o servo são, sem qualquer resquício da doença.

Cristo tomará conhecimento da condição aflitiva dos servos pobres e estará pronto a socorrê-los, pois não faz acepção de pessoas. Os gentios tampouco são excluídos do benefício de sua graça; ou melhor, essa foi uma amostra da fé muito maior que se encontraria entre eles, quando o evangelho fosse anunciado, do que entre os judeus.

Versículos 11 a 18

A Viúva de Naim.

Temos aqui a história de Cristo ressuscitando em Naim o filho de uma viúva, que havia morrido e era levado para ser sepultado. Mateus e Marcos não mencionaram esse acontecimento; Mateus apenas o registrou de modo geral na resposta de Cristo aos discípulos de João: os mortos eram ressuscitados, Mateus 11:5. Observe:

I. Onde e quando esse milagre ocorreu. Foi no dia seguinte à cura do servo do centurião, v. 11. Cristo fazia o bem todos os dias e nunca teve motivo para lamentar ter perdido um dia. Ocorreu à porta de uma pequena cidade, ou povoado, chamada Naim, não longe de Cafarnaum, provavelmente a mesma cidade chamada Nais, da qual Jerônimo fala.

II. Quem o presenciou. O milagre foi tão bem atestado quanto possível, pois aconteceu à vista de duas multidões que se encontraram na porta da cidade ou perto dela. Uma multidão de discípulos e outras pessoas acompanhava Cristo (v. 11), e outra, de parentes e vizinhos, acompanhava o funeral do jovem, v. 12.

Havia, assim, testemunhas em número suficiente para confirmar a verdade do milagre, que fornecia prova maior da autoridade divina de Cristo do que a cura de doenças; pois nenhum poder da natureza, nem meio algum, pode ressuscitar os mortos.

III. Como nosso Senhor Jesus o realizou:

  1. A pessoa ressuscitada era um jovem, ceifado pela morte no começo de seus dias, caso comum: o homem surge como uma flor e é cortado. Todos concordavam que estava realmente morto. Não podia haver conluio, pois Cristo entrava na cidade e não o vira antes de encontrá-lo sobre o esquife.

Era levado para fora da cidade, pois os lugares de sepultamento dos judeus ficavam fora de suas cidades e a certa distância delas. Esse jovem era o único filho de sua mãe, e ela era viúva. Dependia dele como bastão para sua velhice, mas ele se mostrou um caniço quebrado; assim é todo homem, mesmo em seu melhor estado.

Como são numerosas, variadas e profundamente calamitosas as aflições dos aflitos neste mundo! Que vale de lágrimas ele é! Que Boquim, lugar de pranteadores! Podemos imaginar quão profunda era a tristeza dessa pobre mãe pelo único filho. A tristeza por um filho único é mencionada como expressão da maior dor, Zacarias 12:10.

Sua dor era ainda mais profunda por ser viúva, atingida por uma perda após outra e privada de todo o seu consolo. Muitas pessoas da cidade a acompanhavam, lamentando sua perda para consolá-la.

  1. Ao ressuscitá-lo, Cristo mostrou tanto sua piedade quanto seu poder, para dar uma demonstração de ambos, que brilham tão intensamente na redenção do homem.

(1.) Veja quão terna é sua compaixão pelos aflitos (v. 13). Quando o Senhor viu a pobre viúva acompanhando o filho até o sepulcro, compadeceu-se dela. Ninguém lhe fizera pedido algum em favor dela, nem sequer para que lhe dissesse palavras de consolo; contudo, ex mero motu — apenas pela bondade de sua natureza —, ele se afligiu por ela.

O caso despertava piedade, e ele o olhou com piedade. O que seus olhos viram comoveu seu coração, e ele lhe disse: “Não chores”. Repare: Cristo se importa com os que choram e sofrem e muitas vezes os precede com a bênção de sua bondade.

Em seu amor e em sua piedade, assumiu a obra de nossa redenção e salvação, Isaías 63:9. Que imagem agradável isso nos dá da compaixão do Senhor Jesus e da abundância de suas ternas misericórdias, que podem nos consolar muito quando estamos tristes!

Que as pobres viúvas se consolem em suas tristezas sabendo que Cristo tem piedade delas e conhece suas almas na adversidade; se outros desprezam sua dor, ele não a despreza. Cristo disse: “Não chores”, e podia dar-lhe uma razão que ninguém mais podia: “Não chores por um filho morto, pois imediatamente ele se tornará vivo”.

Essa razão era exclusiva do caso dela. Contudo, há uma razão comum a todos os que dormem em Jesus e igualmente eficaz contra a dor desordenada e excessiva por sua morte: eles ressuscitarão, ressuscitarão em glória. Portanto, não devemos nos entristecer como os que não têm esperança, 1 Tessalonicenses 4:13.

Que Raquel, que chora por seus filhos, contenha as lágrimas dos olhos, “pois há esperança para o teu fim”, diz o Senhor, “de que teus filhos voltarão aos seus limites”, Jeremias 31:17. Que nossa comoção nessas ocasiões seja contida e acalmada pela consideração da compaixão de Cristo.

(2.) Veja quão triunfantes são suas ordens até sobre a própria morte (v. 14). Ele se aproximou e tocou o esquife, ou caixão, dentro do qual, ou sobre o qual, jazia o morto; para ele isso não seria contaminação. Assim indicou aos carregadores que não prosseguissem: tinha algo a dizer ao jovem morto.

“Livra-o de descer à cova; encontrei um resgate”, Jó 33:24. Então os que o levavam pararam e provavelmente baixaram o esquife dos ombros até o chão e abriram o caixão, caso estivesse fechado.

Depois, com solenidade, como alguém que tinha autoridade e a quem pertenciam os livramentos da morte, disse: “Jovem, eu te digo: levanta-te”. O jovem estava morto e não podia levantar-se por seu próprio poder, assim como não podem os que estão espiritualmente mortos em transgressões e pecados.

Ainda assim, não havia nenhum absurdo em Cristo ordenar-lhe que se levantasse, pois um poder acompanhava a palavra para lhe dar vida. O chamado do evangelho a todos, em especial aos jovens, é: Levantem-se, levantem-se dentre os mortos, e Cristo lhes dará luz e vida.

O domínio de Cristo sobre a morte ficou evidente pelo efeito imediato de sua palavra (v. 15): “O que estava morto sentou-se”. Recebemos graça de Cristo? Mostremos isso. Outra prova de vida foi que ele começou a falar; sempre que Cristo nos dá vida espiritual, abre nossos lábios para a oração e o louvor.

Por fim, Cristo não obrigou o jovem a quem dera vida nova a acompanhá-lo como discípulo para servi-lo — embora o jovem lhe devesse até a própria pessoa —, muito menos a segui-lo como troféu ou espetáculo para que Cristo obtivesse honra por meio dele. Entregou-o à mãe para cuidar dela como convinha a um filho dedicado.

Os milagres de Cristo eram milagres de misericórdia, e este foi um grande ato de misericórdia para com a viúva. Agora ela estava consolada em proporção ao tempo em que fora afligida, e muito mais, pois podia olhar para esse filho como particularmente favorecido pelo Céu, com prazer maior do que teria se ele não houvesse morrido.

IV. O efeito que o milagre teve sobre as pessoas (v. 16). O temor veio sobre todos: ficaram assustados ao ver, em plena rua, um morto levantar-se vivo de seu caixão à ordem de um homem. Todos se admiraram com seu milagre e glorificaram a Deus. Deve-se temer tanto o Senhor e sua bondade quanto o Senhor e sua grandeza.

Concluíram: “Um grande profeta se levantou entre nós, o grande profeta que esperamos há tanto tempo. Sem dúvida, quem pode assim soprar vida num morto é divinamente inspirado; nele Deus visitou seu povo para redimi-lo, como se esperava”, Lucas 1:68.

Isso seria, de fato, vida dentre os mortos para todos os que esperavam a consolação de Israel. Quando almas mortas são assim ressuscitadas para a vida espiritual, pelo poder divino que acompanha o evangelho, devemos glorificar a Deus e considerar isso uma visita graciosa a seu povo.

O relato desse milagre foi levado:

  1. De modo geral, por toda a região (v. 17). A notícia de que ele era o grande profeta se espalhou nas asas da fama por toda a Judeia, que ficava bem longe, e por toda a Galileia, a região ao redor. A maioria soube disso, mas poucos creram nele e se entregaram a ele.

Muitos ouvem falar do evangelho de Cristo, mas não têm em sua alma o seu perfume nem o seu sabor.

  1. Em particular, o relato foi levado cuidadosamente a João Batista, então na prisão (v. 18). Seus discípulos vieram e lhe deram o relato de tudo.

Assim ele saberia que, embora estivesse preso, a palavra do Senhor não estava presa; a obra de Deus prosseguia, ainda que João tivesse sido posto de lado.

Versículos 19 a 35

A Mensagem de João a Jesus; O Ministério de João e de Cristo.

Todo este discurso acerca de João Batista, ocasionado pela pergunta que ele enviou para saber se Jesus era ou não o Messias, já aparece, quase como é relatado aqui, em Mateus 11:2-19.

I. Temos aqui a mensagem que João Batista enviou a Cristo e a resposta que recebeu. Observe:

  1. A grande questão que devemos investigar a respeito de Cristo é se ele é aquele que devia vir para redimir e salvar os pecadores ou se devemos esperar outro, v. 19, 20. Temos certeza de que Deus prometeu a vinda de um Salvador, um Salvador ungido; temos igual certeza de que cumprirá o que prometeu no tempo devido.

Se este Jesus é o Messias prometido, nós o receberemos e não esperaremos outro; mas, se não for, continuaremos a esperar e, embora ele demore, aguardaremos por ele.

  1. A fé do próprio João Batista, ou pelo menos a de seus discípulos, precisava ser confirmada quanto a isso. Cristo ainda não se declarara publicamente como sendo de fato o Cristo; ou melhor, não queria que seus discípulos, que sabiam quem ele era, falassem disso até que as provas se completassem em sua ressurreição.

Os grandes homens da igreja judaica não o haviam reconhecido, nem ele conquistara apoio que parecesse capaz de colocá-lo no trono de Davi, seu pai. Nada do poder e da grandeza com que se esperava que o Messias aparecesse podia ser visto nele.

Portanto, não é estranho que perguntassem: “És tu o Messias?”, sem duvidar de que, caso não fosse, ele lhes indicaria outro a quem esperar.

  1. Cristo deixou que suas próprias obras o louvassem nas portas, dizendo quem ele era e provando-o. Enquanto os mensageiros de João estavam com ele, realizou muitas curas milagrosas naquela mesma hora — o que talvez indique que permaneceram apenas uma hora com ele. Quanto trabalho Cristo realizou em tão pouco tempo! v. 21.

Curou muitos de suas enfermidades e doenças do corpo e livrou outros de espíritos malignos que afetavam a mente, seja com frenesi, seja com melancolia; a muitos cegos deu visão. Multiplicou as curas para que não restasse motivo para suspeitar de fraude. Então lhes ordenou (v. 22) que fossem contar a João o que haviam visto.

João e os mensageiros poderiam facilmente raciocinar como fez até o povo comum (João 7:31): “Quando o Cristo vier, fará mais milagres do que este homem fez?” Essas curas que o viram realizar não apenas confirmavam sua missão, mas também explicavam em que ela consistia.

O Messias devia vir para curar um mundo enfermo, dar luz e visão aos que estão assentados nas trevas e restringir e vencer os espíritos malignos. Vocês veem que Jesus faz isso aos corpos das pessoas e, portanto, devem concluir que ele é aquele que devia vir para fazê-lo às almas delas; não devem esperar outro.

A seus milagres no reino da natureza ele acrescenta este no reino da graça (v. 22): “Aos pobres é pregado o evangelho”. Os mensageiros sabiam que o Messias faria isso, pois ele fora ungido para pregar o evangelho aos mansos (Isaías 61:1) e salvar as almas dos pobres e necessitados, Salmos 72:13.

Julguem, portanto, se podem esperar outro que corresponda mais plenamente aos atributos do Messias e às grandes intenções de sua vinda.

  1. Ele lhes deu uma indicação do perigo de as pessoas se deixarem levar pelo preconceito contra ele, apesar das provas evidentes de que era o Messias (v. 23): “Bem-aventurado é todo aquele que não se escandalizar em mim”, ou não tropeçar por minha causa.

Estamos aqui em condição de teste e prova; condiz com ela que, assim como há argumentos suficientes para confirmar a verdade aos que a investigam com honestidade e imparcialidade e têm a mente preparada para recebê-la, também haja objeções capazes de encobri-la para os descuidados, mundanos e sensuais.

A criação de Cristo em Nazaré, sua residência na Galileia, a condição humilde de sua família e de seus parentes, sua pobreza e a posição desprezada de seus seguidores eram, entre outras coisas, pedras de tropeço para muitos; todos os milagres que fez não foram capazes de ajudá-los a vencê-las.

Bem-aventurado é quem não se deixa vencer por esses preconceitos, pois é sábio, humilde e bem disposto. Isso mostra que Deus o abençoou: é pela graça divina que ele é ajudado a passar sobre essas pedras de tropeço; e será de fato abençoado, abençoado em Cristo.

II. Temos aqui o elevado elogio que Cristo fez a João Batista, não enquanto os mensageiros ainda estavam presentes, para não parecer que o adulava, mas depois que partiram (v. 24). Assim faria o povo perceber os benefícios que havia recebido pelo ministério de João e dos quais sua prisão o privara.

Que considerassem agora o que tinham saído ao deserto para ver e quem era aquele de quem tanto se falava e que despertara espanto tão grande e geral. “Venham”, diz Cristo, “eu lhes direi”.

  1. Era um homem de coerência inabalável, um homem de firmeza e constância. Não era um caniço agitado pelo vento, inclinando-se ora para um lado, ora para outro, mudando com cada rajada; era firme como uma rocha, não inconstante como um caniço. Se pudesse ter se curvado a Herodes como um caniço e se conformado à corte, poderia ter sido favorecido ali; mas nada disso o moveu.

  2. Era um homem de abnegação sem igual, grande exemplo de mortificação e desprezo pelo mundo. Não usava roupas finas nem vivia no luxo (v. 25); ao contrário, morava no deserto e se vestia e alimentava conforme esse modo de vida. Em vez de enfeitar e mimar o corpo, ele o dominava e o mantinha em sujeição.

  3. Era profeta, com missão e instruções recebidas diretamente de Deus, não de homem nem por intermédio de homem. Era sacerdote de nascimento, mas isso nunca é destacado, pois sua glória como profeta eclipsava a honra de seu sacerdócio.

Ou melhor: era mais, era muito mais que profeta (v. 26), mais que qualquer profeta do Antigo Testamento; eles falavam de Cristo como alguém distante, e João falava dele como alguém à porta.

  1. Era o arauto e precursor do Messias e havia sido profetizado no Antigo Testamento (v. 27): “Este é aquele de quem está escrito” (Malaquias 3:1): “Eis que envio meu mensageiro diante de tua face”. Antes de enviar o próprio Mestre, Deus enviou um mensageiro para anunciar sua chegada e preparar as pessoas para recebê-lo.

Se o Messias aparecesse como príncipe temporal, papel em que os judeus carnais o esperavam, seu mensageiro teria surgido ou com a pompa de um general ou com o brilho de um arauto de armas.

Mas o fato de o mensageiro enviado adiante dele preparar seu caminho pregando o arrependimento e a reforma do coração e da vida das pessoas era uma indicação prévia e bastante clara da natureza espiritual do reino de Cristo. Certamente não era deste mundo um reino introduzido desse modo.

  1. Por isso, João era tão grande que realmente não houve profeta maior que ele. Os profetas eram os maiores dentre os nascidos de mulher, mais honrados que reis e príncipes; João era o maior de todos os profetas.

O país não percebia quão valioso, quão inestimável, era o homem que tinha quando João Batista andava pregando e batizando. Ainda assim, o menor no reino de Deus é maior que ele.

O menor ministro do evangelho, que recebeu do Senhor a misericórdia de ser hábil e fiel em seu trabalho, ou o mais humilde dos apóstolos e primeiros pregadores do evangelho, exerce um ofício mais honroso que João Batista, por servir numa dispensação mais excelente.

O mais humilde dentre os que seguem o Cordeiro excede em muito o maior dos que vieram antes dele. Portanto, os que vivem sob a dispensação do evangelho terão de prestar contas em proporção ainda maior.

III. Temos aqui a justa censura aos homens daquela geração, que não foram transformados pelo ministério de João Batista nem pelo do próprio Jesus Cristo.

  1. Cristo mostra aqui como João Batista foi desprezado enquanto pregava e batizava. (1.) Os que lhe demonstravam algum respeito eram apenas pessoas comuns que, aos olhos da parte elegante da humanidade, lhe trariam mais descrédito que prestígio, v. 29.

O povo, de fato, a multidão vulgar da qual se dizia: “Este povo, que não conhece a lei, é maldito” (João 7:49), e os publicanos, homens de má fama por geralmente serem homens de má conduta ou serem tidos como tais, foram batizados com o batismo de João e se tornaram seus discípulos.

Embora fossem monumentos gloriosos da graça divina, esses homens não engrandeciam João aos olhos do mundo. Por seu arrependimento e reforma, porém, justificavam a Deus, justificavam sua conduta e a sabedoria dela ao designar alguém como João Batista para precursor do Messias.

Com isso mostravam que não havia método melhor a adotar, pois o ministério de João não fora em vão para eles, qualquer que fosse o resultado para os outros.

(2.) Os grandes homens de sua igreja e nação, os refinados e os políticos, que lhe teriam dado algum prestígio aos olhos do mundo, causaram-lhe toda a desonra que puderam. Ouviram-no, é verdade, mas não foram batizados por ele, v. 30.

Os fariseus, de maior reputação por sua religião e devoção, e os intérpretes da lei, célebres por sua instrução, especialmente pelo conhecimento das Escrituras, rejeitaram o conselho de Deus em prejuízo de si mesmos; frustraram-no e receberam em vão a graça de Deus pelo batismo de João.

Ao enviar aquele mensageiro entre eles, Deus tinha o bondoso propósito de lhes fazer o bem e tinha o desígnio de sua salvação por meio dele. Se tivessem aceitado o conselho de Deus, teria sido em benefício próprio: teriam sido abençoados para sempre.

Mas o rejeitaram e não quiseram segui-lo; isso agiu contra eles e para sua própria ruína. Perderam o benefício que lhes fora destinado e, além disso, privaram-se da graça de Deus, levantaram uma barreira diante da própria porta e se excluíram do reino do Messias ao recusar a disciplina que os prepararia para ele.

Não apenas se excluíram, mas também impediram outros, colocando-se em seu caminho.

  1. Cristo mostra a estranha perversidade dos homens daquela geração em suas objeções tanto a João quanto a Cristo e nos preconceitos que conceberam contra os dois.

(1.) Trataram como brincadeira os meios que Deus empregava para lhes fazer o bem (v. 31): “A que compararei os homens desta geração? Que imagem suficientemente absurda posso imaginar para representá-los? São, então, como crianças sentadas na praça, que não dão atenção a nada sério e estão tão cheias de brincadeira quanto podem estar”.

“Como se Deus estivesse apenas brincando com eles em todos os meios que empregava para lhes fazer o bem, assim como as crianças brincam umas com as outras na praça (v. 32), descartavam tudo com zombaria e se impressionavam com isso tanto quanto com uma encenação”.

Essa é a ruína de multidões: nunca conseguem convencer-se a tratar com seriedade as questões da própria alma. Homens idosos sentados no Sinédrio eram apenas como crianças sentadas na praça, tão pouco afetados pelas coisas de que dependia sua paz eterna quanto as pessoas se interessam por brincadeiras infantis.

Ah, que estupidez e vaidade espantosas as deste mundo cego e ímpio! Que o Senhor os desperte de sua segurança.

(2.) Sempre encontravam alguma coisa para criticar. [1.] João Batista era um homem reservado e austero, que vivia muito isolado. Deviam admirá-lo por sua humildade, sobriedade e abnegação e ouvi-lo como homem de reflexão e contemplação; mas aquilo que era seu louvor foi transformado em seu descrédito.

Como não veio comendo nem bebendo de modo tão livre, abundante e alegre quanto os outros, vocês dizem: “Ele tem demônio; é um homem melancólico, está possuído como o endemoninhado que morava entre os túmulos, embora não seja bem tão descontrolado quanto ele”.

[2.] Nosso Senhor Jesus tinha uma conduta mais livre e aberta: veio comendo e bebendo, v. 34. Ia comer com os fariseus, embora soubesse que não gostavam dele, e com os publicanos, embora soubesse que não lhe davam prestígio; ainda assim, na esperança de fazer o bem tanto a uns quanto a outros, mantinha comunhão familiar com eles.

Isso mostra que os ministros de Cristo podem ter temperamentos e disposições muito diferentes, maneiras muito diferentes de pregar e viver, e ainda assim ser todos bons e úteis; há diversidade de dons, mas cada um é dado para proveito.

Portanto, ninguém deve fazer de si mesmo o padrão para todos os outros nem julgar severamente quem não age exatamente do mesmo modo. João Batista deu testemunho de Cristo, e Cristo elogiou João Batista, embora suas maneiras de viver fossem opostas. Os inimigos comuns dos dois, porém, censuraram ambos.

Os mesmos homens que apresentaram João como mentalmente transtornado por não vir comendo nem bebendo apresentaram nosso Senhor Jesus como moralmente corrompido por vir comendo e bebendo: ele é glutão e beberrão. A má vontade nunca fala bem.

Veja a malícia dos ímpios e como atribuem a pior interpretação a tudo que encontram no evangelho, em seus pregadores e nos que o professam. Pensam com isso depreciá-los, mas, na verdade, destroem a si mesmos.

  1. Ele mostra que, apesar disso, Deus será glorificado na salvação de um remanescente escolhido (v. 35): “A sabedoria é justificada por todos os seus filhos”. Há aqueles que são dados à sabedoria como seus filhos; pela graça de Deus, serão levados a sujeitar-se à direção e ao governo dela.

Com isso justificarão a sabedoria nos meios que ela emprega para conduzi-los à sujeição, pois esses meios são eficazes para eles e, assim, revelam-se bem escolhidos. Os filhos da sabedoria são unânimes nisso, todos e cada um: todos se agradam dos meios de graça que a sabedoria divina emprega e não os estimam menos porque alguns os ridicularizam.

Versículos 36 a 50

Cristo na Casa do Fariseu.

Não se sabe quando nem onde ocorreu este episódio. Este evangelista observa a ordem cronológica em seu relato menos rigorosamente do que os outros. Mas o episódio aparece aqui por causa da censura de que Cristo era amigo de publicanos e pecadores.

Mostra que ele tinha comunhão com eles somente para lhes fazer o bem e conduzi-los ao arrependimento e que aqueles a quem admitia perto de si eram reformados, ou estavam num caminho promissor para isso.

Não se sabe quem era a mulher que aqui demonstrou tamanho afeto por Cristo. Costuma-se dizer que era Maria Madalena, mas não encontro fundamento para isso na Escritura. Ela é descrita (Lucas 8:2 e Marcos 16:9) como alguém de quem Cristo expulsou sete demônios; isso, porém, não é mencionado aqui e, portanto, é provável que não fosse ela. Observe agora:

I. A recepção cortês que um fariseu deu a Cristo e a bondosa aceitação dela por Jesus (v. 36). Um dos fariseus o convidou para comer com ele, seja por pensar que ter semelhante hóspede à mesa lhe daria prestígio, seja porque sua companhia seria agradável para ele, sua família e seus amigos.

Esse fariseu evidentemente não cria em Cristo, pois não queria reconhecê-lo como profeta (v. 39). Ainda assim, nosso Senhor Jesus aceitou o convite, entrou em sua casa e se sentou para comer, para que vissem que se permitia estar com fariseus assim como com publicanos, na esperança de lhes fazer o bem.

Quem tem sabedoria e graça suficientes para instruir as pessoas preconceituosas contra Cristo e sua religião e argumentar com elas pode se arriscar mais na companhia delas do que outras pessoas.

II. O grande respeito que uma pobre pecadora arrependida demonstrou por Cristo enquanto ele comia na casa do fariseu. Era uma mulher da cidade conhecida como pecadora, uma gentia e uma prostituta, segundo suspeito, conhecida como tal e de má fama.

Sabia que Jesus estava comendo na casa do fariseu. Convertida de seu modo perverso de viver pela pregação dele, veio reconhecer a dívida de gratidão que tinha para com ele. Não encontrando outra oportunidade de fazê-lo, lavou-lhe os pés e os ungiu com um unguento perfumado que trouxera para esse fim.

À mesa, as pessoas se reclinavam de modo que os pés ficavam em parte para trás. A mulher não olhou Cristo no rosto, mas chegou por trás e realizou o serviço de uma criada, cuja função era lavar os pés dos hóspedes (1 Samuel 25:41) e preparar os unguentos.

No que essa boa mulher fez, podemos observar:

  1. Sua profunda humilhação pelo pecado. Ficou atrás dele chorando. Seus olhos haviam sido entradas e saídas do pecado; agora ela os transforma em fontes de lágrimas. O rosto, talvez antes coberto de pinturas, estava manchado pelo choro. Os cabelos, antes trançados e adornados, agora lhe serviam de toalha.

Temos motivo para pensar que já havia se entristecido pelo pecado antes. Porém, agora que podia estar na presença de Cristo, a ferida voltou a sangrar e sua tristeza se renovou. Repare: Convém aos arrependidos, sempre que se aproximam de Cristo, renovar a tristeza piedosa e a vergonha pelo pecado, quando ele já está aplacado, Ezequiel 16:63.

  1. Seu forte afeto pelo Senhor Jesus. Nosso Senhor Jesus deu especial atenção ao fato de que ela muito amava, v. 42, 47. Lavou-lhe os pés como sinal de sua pronta disposição de realizar até o serviço mais humilde com que pudesse honrá-lo.

Ou melhor: lavou-os com suas lágrimas, lágrimas de alegria. Estava tomada de emoção por se encontrar tão perto do Salvador a quem sua alma amava. Beijou-lhe os pés como quem não se julgava digna dos beijos de sua boca, desejados pela noiva, Cantares de Salomão 1:2.

Era um beijo tanto de adoração quanto de afeto. Enxugou-lhe os pés com os cabelos, como alguém inteiramente dedicada à honra dele. Seus olhos dariam a água para lavá-los, e seus cabelos seriam a toalha para enxugá-los.

Ungiu-lhe os pés com o unguento, reconhecendo-o assim como o Messias, o Ungido. Ao ungir-lhe os pés, manifestou que concordava com o desígnio de Deus de lhe ungir a cabeça com óleo de alegria. Repare: Todos os verdadeiros arrependidos têm amor afetuoso ao Senhor Jesus.

III. A ofensa que o fariseu sentiu contra Cristo por aceitar o respeito prestado pela pobre penitente (v. 39). Disse consigo mesmo, sem imaginar que Cristo conhecia seus pensamentos: “Se este homem fosse profeta, teria conhecimento suficiente para perceber que esta mulher é pecadora, gentia e de má fama; e seria santo o bastante para não permitir que ela se aproximasse tanto dele”.

Pois, em sua opinião, como poderia uma mulher dessas se aproximar de um profeta sem que seu coração se levantasse contra isso? Veja como as pessoas orgulhosas e estreitas tendem a pensar que os outros devem ser tão altivos e críticos quanto elas.

Se ela tivesse tocado Simão, ele teria dito: “Fica longe de mim, não te aproximes, porque sou mais santo do que tu” (Isaías 65:5). Pensava que Cristo deveria dizer o mesmo.

IV. A defesa que Cristo fez da mulher pelo que ela lhe fez e de si mesmo por aceitá-lo. Cristo conhecia o que o fariseu dizia em pensamento e lhe respondeu: “Simão, tenho algo a te dizer”, v. 40. Embora fosse recebido cordialmente à mesa, ainda ali o censurou pelo que viu de errado nele e não tolerou seu pecado.

Cristo tem algo a dizer àqueles contra quem tem alguma coisa, pois seu Espírito censurará. Simão dispôs-se a ouvi-lo: “Mestre, fala”. Embora não pudesse crer que Jesus fosse profeta, por não ser tão exigente e minucioso quanto ele próprio, podia tratá-lo por cortesia como Mestre, à maneira dos que clamam “Senhor, Senhor”, mas não fazem o que ele diz.

Na resposta ao fariseu, Cristo raciocina assim: é verdade que essa mulher foi pecadora, e ele sabe disso; mas é uma pecadora perdoada, o que pressupõe seu arrependimento. O que ela lhe fez expressava o grande amor que tinha ao Salvador por quem seus pecados foram perdoados.

Se ela foi perdoada apesar de ter sido uma pecadora tão grande, era razoável esperar que amasse seu Salvador mais que os outros e desse provas maiores desse amor. Se o que fez era fruto de seu amor, nascido da consciência de ter recebido perdão, convinha a Cristo aceitá-lo e não convinha ao fariseu ofender-se com isso.

Cristo agora tem nisso uma intenção ulterior. O fariseu duvidava que Jesus fosse profeta; ou melhor, na prática negava-o. Cristo mostra que é mais que profeta, pois tem poder na terra para perdoar pecados e é digno do afeto e do agradecimento dos pecadores arrependidos que receberam perdão. Em sua resposta:

  1. Por uma parábola, ele leva Simão a reconhecer que, quanto maior pecadora essa mulher tivesse sido, maior amor ela deveria mostrar a Jesus Cristo depois de perdoada, vv. 41-43. Um homem tinha dois devedores, ambos insolventes, mas um lhe devia dez vezes mais que o outro.

Perdoou muito livremente os dois: não usou contra eles o rigor da lei, não ordenou que fossem vendidos com os filhos nem os entregou aos torturadores. Ambos perceberam a grande bondade que receberam; qual deles o amaria mais? “Certamente”, diz o fariseu, “aquele a quem mais perdoou”. Julgou corretamente.

Como somos obrigados a perdoar do modo como somos perdoados e esperamos ser, podemos aprender daqui o dever entre devedor e credor.

(1.) Se o devedor tiver algo com que pagar, deve satisfazer o credor. Ninguém pode considerar algo seu nem desfrutá-lo com tranquilidade, a não ser o que lhe pertence depois de quitadas todas as dívidas.

(2.) Se a providência de Deus tornou o devedor incapaz de pagar, o credor não deve tratá-lo com severidade nem impor-lhe todo o rigor da lei, mas perdoá-lo livremente. Summum jus est summa injuria — a lei levada ao extremo do rigor torna-se injusta.

Que o credor sem misericórdia leia a parábola de Mateus 18:23, etc., e trema, pois haverá juízo sem misericórdia para quem não mostrar misericórdia.

(3.) O devedor que encontrou misericórdia em seus credores deve ser muito grato a eles; se não puder retribuir de outro modo, deve amá-los. Alguns devedores insolventes, em vez de gratidão, demonstram rancor aos credores que sofrem perda por causa deles e não lhes dizem uma palavra boa só porque estes reclamam, embora quem perdeu tenha direito de falar.

Esta parábola, porém, fala de Deus como Criador — ou melhor, do próprio Senhor Jesus, pois é ele quem perdoa e é amado pelo devedor — e dos pecadores como devedores. Assim, podemos aprender: [1.] Que o pecado é uma dívida, e os pecadores são devedores ao Deus Todo-Poderoso.

Como criaturas, temos uma dívida, uma dívida de obediência ao mandamento da lei; por não a pagarmos, como pecadores nos tornamos sujeitos à pena. Não pagamos nosso aluguel; ou melhor, desperdiçamos os bens de nosso Senhor e, assim, nos tornamos devedores.

Deus tem direito de ação contra nós pela injúria que lhe causamos e por deixarmos de cumprir nosso dever para com ele.

[2.] Que, por causa do pecado, alguns devem mais a Deus do que outros: um devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. O fariseu era o devedor menor, mas também devedor, mais do que imaginava; na verdade, pensava que Deus era seu devedor, Lucas 18:10, 11. Essa mulher, pecadora notória que causara escândalo, era a devedora maior.

Alguns pecadores são em si mesmos maiores devedores que outros; outros pecadores são maiores devedores por diversas circunstâncias agravantes: pecaram mais aberta e escandalosamente, contra maior luz e conhecimento, mais convicções e advertências, e mais misericórdias e meios.

[3.] Que, seja maior ou menor nossa dívida, ela ultrapassa nossa capacidade de pagar. Os dois não tinham com que pagar, nada absolutamente com que chegar a um acordo, pois a dívida é grande e não temos absolutamente nada para quitá-la.

Nem prata nem ouro pagarão nossa dívida, nem sacrifício e oferta, não, nem mesmo milhares de carneiros. Nenhuma justiça própria a pagará, não, nem mesmo o arrependimento e a obediência futuros: já somos obrigados a praticá-los, e é Deus quem os opera em nós.

[4.] Que o Deus do céu está pronto a perdoar, perdoar livremente, os pobres pecadores nos termos do evangelho, por maior que seja sua dívida. Se nos arrependermos e crermos em Cristo, nossa iniquidade não será nossa ruína nem será posta em nossa conta.

Deus proclamou seu nome como gracioso e misericordioso, pronto a perdoar o pecado; tendo seu Filho adquirido perdão para os que se arrependem e creem, seu evangelho o promete a eles, e seu Espírito o sela e lhes dá seu consolo.

[5.] Que os que têm seus pecados perdoados são obrigados a amar aquele que os perdoou; quanto mais lhes é perdoado, mais devem amá-lo. Quanto maiores pecadores foram antes da conversão, maiores santos devem ser depois; mais devem buscar fazer por Deus, e mais seus corações devem dilatar-se na obediência.

Quando Saulo, perseguidor, se tornou Paulo, pregador, trabalhou mais abundantemente.

  1. Ele aplica a parábola aos diferentes temperamentos e condutas do fariseu e da pecadora para com Cristo. Embora o fariseu não admitisse que Cristo era profeta, Cristo parece disposto a admitir que Simão estava em estado de justificação e recebera perdão, ainda que lhe houvesse sido perdoado menos.

De fato, mostrou algum amor por Cristo ao convidá-lo à sua casa, mas nada que se comparasse ao que aquela pobre mulher mostrou. “Observe”, diz Cristo a Simão, “ela recebeu grande perdão; por isso, segundo o seu próprio julgamento, era de esperar que amasse muito mais do que você, e é o que se vê”.

“Vê esta mulher? v. 44. Você a olha com desprezo, mas considere quanto ela é para mim uma amiga mais bondosa do que você. Deveria eu aceitar sua bondade e recusar a dela?”

(1.) “Você não mandou sequer trazer uma bacia de água para eu lavar os pés quando cheguei, cansado e empoeirado da caminhada, o que me traria algum alívio. Ela, porém, fez muito mais: lavou meus pés com lágrimas de afeto por mim, lágrimas de aflição pelo pecado e os enxugou com os cabelos, em sinal de seu grande amor por mim.”

(2.) “Você nem sequer beijou meu rosto”, gesto costumeiro de boas-vindas sinceras e afetuosas a um amigo; “mas esta mulher não cessou de beijar meus pés (v. 45), expressando assim amor tanto humilde quanto afetuoso”.

(3.) “Você não me ofereceu nem um pouco de óleo comum, como de costume, para ungir minha cabeça; mas ela empregou uma caixa de unguento precioso nos meus pés (v. 46). Foi assim que superou você.”

Algumas pessoas criticam o esforço e o custo dos cristãos zelosos na religião porque elas próprias não estão dispostas a chegar ao mesmo ponto, mas resolvem contentar-se com uma religião barata e fácil.

  1. Ele silenciou a objeção do fariseu: “Eu te digo, Simão: os pecados dela, que são muitos, estão perdoados”, v. 47. Reconhece que ela cometera muitos pecados: “Mas foram-lhe perdoados; portanto, não há nada de impróprio em eu aceitar sua bondade. Estão perdoados, pois ela amou muito”.

Deveria ser traduzido “por isso ela amou muito”, pois, pelo teor do discurso de Cristo, é evidente que amar muito não foi a causa, mas o efeito de seu perdão e da consoladora consciência dele. Amamos a Deus porque ele nos amou primeiro; ele não nos perdoou porque primeiro o amamos.

“Mas aquele a quem pouco é perdoado, como a você, pouco ama, como você faz.” Com isso, ele sugere ao fariseu que seu amor por Cristo era tão pequeno que havia motivo para perguntar se realmente o amava com sinceridade; e, por consequência, se seu pecado, embora comparativamente pequeno, lhe fora de fato perdoado.

Em vez de invejarmos a misericórdia que pecadores maiores encontram em Cristo ao se arrependerem, seu exemplo deve nos estimular a examinar se de fato nós mesmos recebemos perdão e amamos a Cristo.

  1. Ele silenciou os temores da mulher, que provavelmente ficara desanimada com a atitude do fariseu, mas não quis ceder a esse desânimo a ponto de afastar-se. (1.) Cristo lhe disse: “Teus pecados estão perdoados”, v. 48.

Repare: Quanto mais expressamos nossa tristeza pelo pecado e nosso amor por Cristo, mais clara é a prova de que nossos pecados foram perdoados; pois é por experimentar uma obra de graça realizada em nós que obtemos a certeza de um ato de graça realizado em nosso favor.

Como foi bem recompensada por seu esforço e seu gasto quando Cristo a despediu com estas palavras: “Teus pecados estão perdoados”! E como elas impediriam eficazmente que voltasse a pecar!

(2.) Havia ali quem contestasse Cristo em pensamento por assumir a prerrogativa de perdoar pecados e declarar pecadores absolvidos (v. 49), assim como outros haviam feito (Mateus 9:3). Ainda assim, Jesus manteve o que dissera.

Pois, assim como ali tinha provado, pela cura do paralítico, que tinha poder para perdoar pecados e, portanto, não quis aqui reparar na objeção, assim agora mostraria que tinha prazer em perdoar pecados, e isso lhe dava alegria: gosta de anunciar perdão e paz aos arrependidos. Disse à mulher: “Tua fé te salvou”, v. 50.

Isso confirmaria e duplicaria seu consolo no perdão do pecado: ela havia sido justificada por sua fé. Todas aquelas expressões de tristeza pelo pecado e amor por Cristo eram efeitos e frutos da fé. Portanto, assim como a fé, dentre todas as graças, é a que mais honra a Deus, Cristo também, dentre todas elas, mais honra a fé.

Repare: Os que sabem que sua fé os salvou podem ir em paz e prosseguir seu caminho com alegria.


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