Matthew Henry

Lucas 21

Argumento

Neste capítulo temos:

I. A atenção que Cristo deu e a aprovação que concedeu a uma viúva pobre que lançou duas pequenas moedas no tesouro, vv. 1-4.

II. Uma predição de acontecimentos futuros, em resposta às perguntas de seus discípulos a respeito deles, vv. 5-7:

  1. Do que aconteceria entre aquele momento e a destruição de Jerusalém: falsos cristos surgindo, guerras sangrentas e perseguições dos seguidores de Cristo, vv. 8-19.

  2. Daquela própria destruição, vv. 20-24.

  3. Da segunda vinda de Jesus Cristo para julgar o mundo, sob o tipo e a figura daquela, vv. 25-33.

III. Uma aplicação prática disso, por meio de advertência e conselho (vv. 34-36), e um relato da pregação de Cristo e da presença do povo para ouvi-la, v. 37, 38.

Versículos 1 a 4

Cristo Elogia a Viúva Pobre.

Tivemos antes em Marcos esta breve passagem da história. É assim registrada duas vezes, para nos ensinar:

  1. Que a caridade aos pobres é uma questão principal na religião. Nosso Senhor Jesus aproveitou todas as ocasiões para elogiá-la e recomendá-la. Acabara de mencionar a barbaridade dos escribas, que devoravam viúvas pobres (Lucas 20).

Talvez isso se destine a agravar a barbaridade deles: as viúvas pobres eram as melhores benfeitoras dos fundos públicos que os escribas administravam.

  1. Que Jesus Cristo tem seus olhos sobre nós para observar o que damos aos pobres e o que contribuímos para obras de piedade e caridade. Cristo, embora concentrado em sua pregação, levantou os olhos para ver que dádivas eram lançadas no tesouro, v. 1.

Observa se damos muito e com generosidade, em proporção ao que temos, ou se damos de modo mesquinho e miserável. Ou melhor: observa se damos por caridade e de bom grado, ou de má vontade e com relutância.

Isso deve nos fazer temer ficar aquém de nosso dever nessa questão. Os homens podem ser enganados por desculpas que Cristo sabe serem frívolas. Isso deve nos animar a abundar nela, sem desejar que os homens saibam. Basta que Cristo saiba. Ele vê em secreto e recompensará abertamente.

  1. Que Cristo observa e aceita a caridade dos pobres de maneira particular. Aqueles que nada têm para dar podem, contudo, fazer muito em caridade, servindo e ajudando os pobres e pedindo esmolas em favor dos que não podem ajudar a si mesmos nem pedir por si mesmos.

Mas aqui estava alguém que era pobre e, ainda assim, deu ao tesouro o pouco que tinha. Eram apenas duas pequenas moedas, que juntas perfaziam um quadrante. Cristo, porém, exaltou essa dádiva como um ato de caridade superior a todos os demais: “Ela lançou mais do que todos eles”.

Cristo não a censura por imprudência, por dar aquilo de que ela própria precisava, nem por vaidade, por ofertar ao tesouro junto dos ricos. Antes, elogia sua generosidade e sua disposição de entregar o pouco que tinha para a glória de Deus, nascidas de sua fé na providência divina e de sua confiança de que Deus cuidaria dela. Jehovah-jireh, o Senhor proverá.

  1. Que devemos respeitar tudo quanto possa ser chamado de ofertas de Deus e contribuir alegremente para isso conforme nossas forças e até além delas. “Estes lançaram nas ofertas de Deus.”

O que é dado para o sustento do ministério e do evangelho, para a difusão e propagação da religião, a educação dos jovens, a soltura dos presos, o socorro das viúvas e estrangeiros e o sustento de famílias pobres é dado às ofertas de Deus e assim será aceito e recompensado.

Versículos 5 a 19

Juízos Preditos.

Veja aqui: I. Com que admiração alguns falavam da pompa e magnificência exterior do templo, e também eram alguns dos próprios discípulos de Cristo. Chamavam sua atenção para como ele era adornado de belas pedras e dádivas, v. 5.

O exterior era construído com belas pedras e, por dentro, era embelezado e enriquecido com os presentes oferecidos para esse propósito e pendurados nele. Pensavam que seu Mestre deveria ser tão afetado por essas coisas quanto eles e lamentar tanto sua destruição quanto eles.

Quando falamos do templo, deve ser da presença de Deus nele, das ordenanças de Deus administradas nele e da comunhão que seu povo ali tem com ele. É uma coisa mesquinha, quando falamos da igreja, deixar nosso discurso se deter em suas pompas e rendas e nas dignidades e poderes de seus oficiais e governantes, pois a filha do rei é toda gloriosa por dentro.

II. Com que desprezo Cristo falava delas e com que certeza de que todas seriam devastadas muito em breve (v. 6). “Quanto às coisas que vocês contemplam, aquelas coisas queridas pelas quais estão tão apaixonados, eis que virão os dias, e alguns que agora vivem podem viver para vê-los, nos quais não ficará pedra sobre pedra.”

“Este edifício, que parece tão belo que se pensaria que ninguém poderia, por compaixão, derrubá-lo, e que parece tão forte que se pensaria que ninguém seria capaz de derrubá-lo, ainda assim será inteiramente arruinado.”

“Isso será feito assim que o templo espiritual da igreja do evangelho (a substância daquela sombra) começar a florescer no mundo”. Se pela fé prevíssemos o estrago e o murchar de toda glória exterior, não fixaríamos nossos corações nela como fazem os que não podem ver, ou não querem olhar, tão longe adiante.

III. Com que curiosidade os que estavam ao seu redor perguntam acerca do tempo em que seria essa grande devastação: “Mestre, quando serão essas coisas?”, v. 7.

É natural para nós cobiçar conhecer as coisas futuras e seu tempo, que não é para nós saber, quando deveríamos nos preocupar mais em perguntar qual é nosso dever na perspectiva dessas coisas e como podemos nos preparar para elas, que é para nós saber.

Perguntam que sinal haverá quando essas coisas acontecerem. Não pedem um sinal presente para confirmar a própria predição e levá-los a crer nela (a palavra de Cristo era suficiente para isso), mas quais serão os sinais futuros do cumprimento próximo da predição, pelos quais possam ser lembrados dela. Cristo lhes havia ensinado a observar esses sinais dos tempos.

IV. Com que clareza e plenitude Cristo responde às suas perguntas, até onde era necessário dirigi-los em seu dever. Pois todo conhecimento é desejável até onde se destina à prática:

  1. Devem esperar ouvir de falsos cristos e falsos profetas aparecendo e falsas profecias anunciadas (v. 8): “Muitos virão em meu nome”. Não quer dizer em nome de Jesus, embora houvesse alguns enganadores que alegavam ter sido enviados por ele (como em Atos 19:13), mas usurpando o título e o caráter do Messias.

Muitos alegavam ser os libertadores da igreja e nação judaicas dos romanos e fixar o tempo em que seria realizada a libertação, pelo que multidões foram atraídas a uma armadilha, para sua ruína.

Dirão: hoti ego eimi, “Eu sou ele”, ou “Eu sou”, como se assumissem aquele nome incomunicável de Deus pelo qual ele se fez conhecer quando veio libertar Israel do Egito, “Eu sou”.

Para animar as pessoas a segui-los, acrescentavam: “Aproxima-se o tempo em que o reino será restaurado a Israel, e todos que me seguirem participarão dele”. Ora, quanto a isso, dá-lhes uma precaução necessária:

(1.) “Tomai cuidado para não serdes enganados”. “Não imaginem que eu próprio virei novamente em glória exterior para tomar posse do trono dos reinos. Não: vocês não devem esperar tal coisa, pois meu reino não é deste mundo”.

Quando perguntaram ansiosa e ardentemente: “Mestre, quando serão essas coisas?”, a primeira palavra que Cristo disse foi: “Tomai cuidado para não serdes enganados”.

Repare: os que mais investigam as coisas de Deus (embora seja muito bom ser assim) estão em maior perigo de ser iludidos e têm maior necessidade de estar de guarda.

(2.) “Não vades após eles”. “Vocês sabem que o Messias veio e não devem procurar nenhum outro. Por isso nem sequer os ouçam nem tenham nada a fazer com eles”. Se temos certeza de que Jesus é o Cristo e sua doutrina é o evangelho de Deus, devemos ser surdos a todas as indicações de outro Cristo e outro evangelho.

  1. Devem esperar ouvir de grandes comoções nas nações e muitos juízos terríveis infligidos aos judeus e seus vizinhos:

(1.) Haverá guerras sangrentas (v. 10): “Nação se levantará contra nação”, uma parte da nação judaica contra outra, ou, antes, a inteira contra os romanos.

Animados pelos falsos cristos, tentarão perversamente livrar-se do jugo romano tomando armas contra os poderes romanos. Quando rejeitaram a liberdade com que Cristo os teria tornado livres, foram deixados por sua própria conta para agarrar sua liberdade civil por caminhos pecaminosos, que por isso não poderiam ser bem-sucedidos.

(2.) Haverá terremotos, grandes terremotos, em diversos lugares, que não apenas assustarão as pessoas, mas destruirão cidades e casas e sepultarão muitos em suas ruínas.

(3.) Haverá fomes e pestes, os efeitos comuns da guerra, que destrói os frutos da terra e, expondo os homens ao mau tempo e reduzindo-os a uma alimentação ruim, ocasiona doenças infecciosas. Deus tem várias maneiras de castigar um povo que o provoca.

As quatro espécies de juízos dos quais os profetas do Antigo Testamento tão frequentemente falam também são ameaçadas pelos profetas do Novo Testamento. Pois, embora juízos espirituais sejam mais comumente infligidos nos tempos do evangelho, ainda assim Deus também usa juízos temporais.

(4.) Haverá visões temíveis e grandes sinais do céu, aparências incomuns nas nuvens, cometas e estrelas flamejantes, que assustam os observadores comuns e sempre foram considerados de mau agouro e presságios de algo mau.

Ora, quanto a estes, a precaução que lhes dá é: “Não se aterrorizem. Outros ficarão assustados com eles, mas vocês não fiquem assustados, v. 9. Quanto às visões temíveis, não deixem que elas os assustem, pois olham acima dos céus visíveis para o trono do governo de Deus nos céus mais altos.”

“Não vos espanteis com os sinais do céu, pois os pagãos se espantam com eles”, Jeremias 10:2. “Quanto às fomes e pestes, vocês caem nas mãos de Deus, que prometeu aos seus que nos dias de fome serão satisfeitos e que os guardará da peste nociva. Confiem, portanto, nele e não tenham medo.”

“Ou melhor: quando ouvirem de guerras, quando por fora há lutas e por dentro medos, ainda assim então vocês não se aterrorizem. Sabem o pior que qualquer desses juízos pode lhes fazer e, por isso, não tenham medo deles. Pois”:

[1.] “É de seu interesse aproveitar ao máximo o que existe, pois todos os seus medos não podem alterá-lo. Essas coisas devem acontecer primeiro. Não há remédio. Será sua sabedoria tranquilizar-se, acomodando-se a elas”.

[2.] “Há coisa pior adiante. Não se adulem com uma fantasia de que logo verão um fim dessas perturbações, não, nem tão cedo quanto pensam. O fim não é logo, não é de repente. Não se aterrorizem, pois, se tão depressa começarem a desanimar, como se sustentarão sob o que ainda está diante de vocês?”

  1. Devem esperar ser eles próprios sinais e maravilhas em Israel. Sua perseguição seria um prognóstico da destruição da cidade e do templo, que ele agora predissera. Ou melhor: esse seria o primeiro sinal da ruína que viria sobre os judeus.

“Antes de todas essas coisas, lançarão as mãos sobre vocês. O juízo começará na casa de Deus. Vocês devem sofrer primeiro, para aviso a eles, para que, se tiverem alguma ponderação, possam considerar: se isso se faz à árvore verde, o que se fará à seca? Veja 1 Pedro 4:17, 18.”

“Mas isso não é tudo. Isso deve ser considerado não apenas como o sofrimento dos perseguidos, mas como o pecado dos perseguidores. Antes que os juízos de Deus sejam trazidos sobre eles, encherão a medida de sua iniquidade lançando as mãos sobre vocês”.

Repare: a ruína de um povo é sempre introduzida por seu pecado, e nada introduz ruína mais certa ou mais dolorosa do que o pecado da perseguição. É um sinal de que a cólera de Deus vem ao máximo sobre um povo quando sua cólera contra os servos de Deus chega ao máximo. Ora, quanto a isso:

(1.) Cristo lhes diz que coisas duras sofreriam por causa de seu nome, de sentido muito semelhante ao que lhes dissera quando primeiro os chamou a segui-lo, Mateus 10. Deviam conhecer seu salário, para que pudessem se sentar e calcular o custo.

São Paulo, que era o maior trabalhador e sofredor de todos eles, não estando agora entre eles, foi informado pelo próprio Cristo de que grandes coisas sofreria por causa de seu nome (Atos 9:16). Tão necessário é que todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus contem com perseguição.

Os cristãos, tendo sido eles próprios originalmente judeus e continuamente conservando igual veneração com eles pelo Antigo Testamento e todos os elementos essenciais de sua religião, e diferindo apenas em cerimônia, poderiam esperar tratamento justo entre eles. Mas Cristo lhes diz para não esperar isso: “Não: eles serão os mais prontos a persegui-los”.

[1.] “Usarão contra vocês o poder de sua própria igreja. Entregarão vocês às sinagogas, para serem açoitados ali e estigmatizados com seus anátemas”.

[2.] “Incitarão os magistrados contra vocês. Entregarão vocês às prisões, para serem levados diante de reis e governantes por causa do meu nome e ser castigados por eles”.

[3.] “Seus próprios parentes os trairão (v. 16), seus pais, irmãos, parentes e amigos, de modo que não saberão em quem depositar confiança nem onde estar seguros”.

[4.] “Sua religião será tornada crime capital, e serão chamados a resistir até o sangue. Eles farão matar alguns de vocês. Tão longe devem estar de esperar honra e riqueza que devem esperar apenas a morte em suas formas mais assustadoras, a morte em toda sua pompa terrível. Ou melhor”:

[5.] “Sereis odiados por todos os homens por causa do meu nome”. Isso é pior que a própria morte e foi cumprido quando os apóstolos foram não apenas designados à morte, mas feitos espetáculo ao mundo e considerados como a sujeira do mundo e a escória de todas as coisas, que todos detestam, 1 Coríntios 4:9, 13.

Eram odiados por todos os homens, isto é, todos os maus, que não podiam suportar a luz do evangelho (porque descobria seus atos maus) e por isso odiavam os que introduziam aquela luz, lançavam-se contra eles e os teriam despedaçado.

O mundo perverso, que odiava ser reformado, odiava Cristo, o grande Reformador, e todos os seus, por sua causa. Os governantes da igreja judaica sabiam muito bem que, se o evangelho fosse aceito entre os judeus, seu poder usurpado e abusado chegaria ao fim.

Levantaram todas as suas forças contra ele, deram-lhe má reputação, encheram as mentes do povo de preconceitos contra ele e assim tornaram seus pregadores e professantes odiosos à multidão.

(2.) Ele os anima a se sustentar sob suas provas e prosseguir em seu trabalho, apesar da oposição que encontrariam:

[1.] Deus tirará de seus sofrimentos glória tanto para si mesmo quanto para eles: “Isso se tornará para vós um testemunho”, v. 13. “Serem postos assim como alvo e publicamente perseguidos fará que sejam mais observados e sua doutrina e milagres mais investigados.”

“Serem levados diante de reis e governantes lhes dará oportunidade de pregar o evangelho a eles, que de outro modo nunca teriam chegado ao alcance de ouvi-lo.”

“Sofrerem tais coisas severas e serem tão odiados pelos piores homens, homens das vidas mais viciosas, será testemunho de que são bons, senão não teriam homens tão maus por seus inimigos.”

“Sua coragem, alegria e constância sob seus sofrimentos serão um testemunho em seu favor de que creem no que pregam, que são sustentados por um poder divino e que o Espírito de Deus e de glória repousa sobre vocês”.

[2.] “Deus ficará ao seu lado, os reconhecerá e os ajudará em suas provas. Vocês são seus defensores e serão bem equipados com instruções, v. 14, 15.”

“Em vez de pôr seus corações a trabalhar para maquinar uma resposta a denúncias, acusações formais, artigos, acusações e interrogatórios que serão apresentados contra vocês nos tribunais eclesiásticos e civis, ao contrário, fixem isto no coração, gravem-no nele e empenhem-se em persuadir o próprio coração a não ensaiar de antemão o que responderão.”

“Não dependam de seu próprio talento e engenhosidade, sua própria prudência e sagacidade, e não desconfiem nem desesperem das ajudas diretas e extraordinárias da graça divina.”

“Não pensem em se livrar na causa de Cristo como fariam numa causa sua própria, por suas próprias capacidades e aplicação, com a ajuda comum da Providência divina. Mas prometam a si mesmos, pois eu lhes prometo, a ajuda especial da graça divina”: “Eu vos darei uma boca e sabedoria”.

Isso prova que Cristo é Deus, pois dar sabedoria é prerrogativa de Deus, e ele é aquele que fez a boca do homem. Repare:

Primeiro, boca e sabedoria juntas tornam um homem completamente apto tanto para serviços quanto para sofrimentos. Sabedoria para saber o que dizer, e uma boca com que dizê-lo como deve ser dito.

É uma grande felicidade ter tanto conteúdo quanto palavras com que honrar a Deus e fazer o bem, ter na mente um depósito bem provido de coisas novas e velhas e uma porta de expressão pela qual expô-las.

Segundo, aqueles que defendem a causa de Cristo podem depender dele para lhes dar boca e sabedoria, seja qual for o modo em que são chamados a defendê-la, especialmente quando são levados diante de magistrados por causa de seu nome.

Não é dito que ele enviará um anjo do céu para responder em favor deles, embora pudesse fazer isso, mas que lhes dará boca e sabedoria para capacitá-los a responder por si mesmos.

Isso lhes presta maior honra, exige que usem os dons e graças com que Cristo os equipa e resulta mais na glória de Deus, que silencia o inimigo e o vingador pelas bocas de criancinhas e crianças de peito.

Terceiro, quando Cristo dá às suas testemunhas boca e sabedoria, são capacitadas a dizer tanto em favor dele quanto de si mesmas aquilo que todos os seus adversários não são capazes de contradizer ou a que não são capazes de resistir, de modo que são silenciados e confundidos.

Isso foi notavelmente cumprido imediatamente depois do derramamento do Espírito, por quem Cristo deu aos seus discípulos essa boca e sabedoria, quando os apóstolos foram levados diante dos sacerdotes e governantes e lhes responderam de modo a envergonhá-los, Atos 4; 5; 6.

[3.] “Vocês não sofrerão estrago real por todas as agruras que lhes impuserem” (v. 18): “Não perecerá um cabelo da vossa cabeça”. Alguns perderão suas cabeças e, contudo, não perderão um cabelo?

É uma expressão proverbial que denota a maior isenção de dano e segurança imagináveis. É frequentemente usada tanto no Antigo Testamento quanto no Novo nesse sentido. Alguns pensam que se refere à preservação das vidas de todos os cristãos entre os judeus quando estes foram exterminados pelos romanos.

Os historiadores nos dizem que nenhum cristão pereceu naquela devastação. Outros a conciliam com a morte de multidões na causa de Cristo e a tomam figuradamente no mesmo sentido em que Cristo diz: “Aquele que perde sua vida por minha causa a encontrará”.

“Nem um cabelo de sua cabeça perecerá sem”, primeiro: “Que eu tome conhecimento disso”. Para esse fim dissera (Mateus 10:30): “Os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. É mantido um relato deles, de modo que nenhum perecerá sem que ele sinta sua falta.

Segundo: “Será em troca de uma contrapartida valiosa”. Não consideramos perdido ou perecendo aquilo que é empregado para bons propósitos e dará um resultado favorável. Se abrirmos mão do próprio corpo por causa do nome de Cristo, não perece, mas é bem empregado.

Terceiro: “Será abundantemente recompensado. Quando vierem fazer o balanço de lucro e perda, descobrirão que nada pereceu, mas, ao contrário, que têm grande ganho em confortos presentes, especialmente nas alegrias de uma vida eterna”. Assim, embora possamos sofrer perdas a serviço de Cristo, não teremos, não podemos ter perdas por causa dele no fim.

[4.] “É, portanto, seu dever e interesse, em meio aos seus próprios sofrimentos e aos da nação, manter santa sinceridade e serenidade de mente, que os conservará sempre tranquilos” (v. 19): “Na vossa paciência possuí vossas almas”, obtenham e conservem a posse de suas almas.

Alguns o leem como promessa: “Vocês podem possuir ou possuirão suas almas”. Tudo dá no mesmo. Repare:

Primeiro, é nosso dever e interesse em todos os momentos, especialmente em tempos perigosos e de prova, assegurar a posse de nossas próprias almas. Não apenas que não sejam destruídas e perdidas para sempre, mas que agora não sejam desordenadas nem nossa posse delas perturbada e interrompida.

“Possuam suas almas, sejam senhores de si mesmos, conservem a autoridade e domínio da razão e mantenham sob controle os tumultos da paixão, para que nem dor nem medo tiranizem sobre vocês, nem os tirem da posse e desfrute de si mesmos”.

Em tempos difíceis, quando não podemos conservar a posse de mais nada, asseguremos então aquilo que pode ser assegurado e conservemos a posse de nossas almas.

Segundo, é pela paciência, a paciência cristã, que conservamos a posse de nossas próprias almas. “Em tempos de sofrimento, ponham a paciência de sentinela para preservar suas almas. Por ela mantenham suas almas serenas e numa boa disposição, e impeçam todas aquelas impressões que os agitariam e os poriam de mau humor”.

Versículos 20 a 28

Juízos Preditos.

Tendo-lhes dado uma ideia dos tempos durante cerca de trinta e oito anos seguintes, ele aqui passa a lhes mostrar em que todas aquelas coisas finalmente resultariam: a destruição de Jerusalém e a completa dispersão da nação judaica, que seria um pequeno dia de juízo, um tipo e figura da segunda vinda de Cristo.

Esta não foi tão plenamente mencionada aqui como na passagem paralela (Mateus 24), mas indicada. Pois a destruição de Jerusalém seria como a destruição do mundo para aqueles cujos corações estavam ligados a ela.

I. Diz-lhes que veriam Jerusalém sitiada, cercada de exércitos (v. 20), os exércitos romanos. Quando vissem isso, poderiam concluir que sua devastação estava próxima, pois nisso o cerco terminaria infalivelmente, embora pudesse ser longo. Repare: assim como na misericórdia, assim no juízo, quando Deus começa, concluirá.

II. Avisa-os, mediante esse sinal dado, a agir por sua própria segurança (v. 21): “Então aqueles que estão na Judeia deixem o país e fujam aos montes; aqueles que estão no meio dela” (de Jerusalém) “saiam antes que a cidade seja estreitamente fechada e” (como dizemos agora) “antes que as trincheiras sejam abertas.”

“E aqueles que estão nos campos e aldeias ao redor não entrem na cidade pensando estar seguros ali. Abandonem uma cidade e país que veem que Deus abandonou e entregou à ruína. Sai dela, povo meu.”

III. Prediz a terrível devastação que seria feita da nação judaica (v. 22). Aqueles são os dias de vingança tão frequentemente mencionados pelos profetas do Antigo Testamento, que completariam a ruína daquele povo provocador.

Todas as suas predições devem agora ser cumpridas, e o sangue de todos os mártires do Antigo Testamento deve agora ser exigido. Todas as coisas que estão escritas devem por fim ser cumpridas. Depois de dias de paciência por muito tempo abusada, virão dias de vingança, pois adiamentos de execução não são perdões.

A grandeza daquela destruição é apresentada:

  1. Pela causa que a inflige. É cólera sobre este povo, a cólera de Deus, que acenderá esse fogo devorador e consumidor.

  2. Pelo terror particular que seria para grávidas e pobres mães que amamentam. Ai delas, não apenas porque estão mais sujeitas a sustos e menos capazes de agir por sua própria segurança, mas porque lhes será um tormento muito grande pensar em ter dado à luz e amamentado filhos para os assassinos.

  3. Pela confusão geral que haveria por toda a nação. Haverá grande angústia na terra, pois os homens não saberão que caminho tomar nem como ajudar a si mesmos.

IV. Descreve o resultado das lutas entre os judeus e os romanos e a que finalmente chegarão. Em resumo:

  1. Multidões deles cairão ao fio da espada. Calcula-se que naquelas guerras dos judeus caíram pela espada mais de um milhão e cem mil. O cerco de Jerusalém foi, na prática, uma execução militar.

  2. Os demais serão levados cativos, não a uma nação, como quando foram conquistados pelos caldeus, o que lhes dava oportunidade de permanecer juntos, mas a todas as nações, o que lhes tornou impossível corresponder-se uns com os outros, muito menos formar um só corpo.

  3. A própria Jerusalém foi pisada pelos gentios. Os romanos, quando se fizeram senhores dela, a devastaram inteiramente, como cidade rebelde e má, prejudicial a reis e províncias e, por isso, odiosa a eles.

V. Descreve os grandes sustos em que as pessoas geralmente estariam. Muitas visões assustadoras haverá no sol, lua e estrelas, prodígios nos céus, e aqui neste mundo inferior, o mar e as ondas rugindo, com terríveis tempestades e tormentas, como não eram conhecidas e acima da operação comum das causas naturais.

Seu efeito será confusão e consternação universais na terra, “Angústia das nações com perplexidade”, v. 25. O dr. Hammond entende por nações os diversos governos ou tetrarquias da nação judaica, Judeia, Samaria e Galileia. Estes serão levados ao último extremo.

Os corações dos homens desfalecerão de medo (v. 26), apopsychonton anthropon, homens inteiramente sem vida, desalentados, sem alma, desfalecendo de medo.

Assim são mortos o dia inteiro aqueles por quem os apóstolos de Cristo o foram (Romanos 8:36), isto é, estão o dia inteiro com medo de ser mortos. Afundam sob aquilo que pesa sobre eles e, contudo, continuam tremendo de medo de algo pior e olhando para aquelas coisas que vêm sobre o mundo.

Quando o juízo começa na casa de Deus, não terminará ali. Será como se todo o mundo estivesse se despedaçando, e onde poderá alguém estar seguro então? Os poderes do céu serão abalados, e então as colunas da terra não podem deixar de tremer.

Assim serão inteiramente dissolvidos a presente constituição política, religião, leis e governo judaicos por uma série de calamidades sem paralelo, acompanhadas da máxima confusão. Assim diz o dr. Clarke.

Mas nosso Salvador usa essas expressões figuradas porque no fim do tempo serão literalmente cumpridas, quando os céus forem enrolados como um rolo e todos os seus poderes não apenas abalados, mas quebrados, e a terra e todas as obras que nela estão serão queimadas, 2 Pedro 3:10, 12.

Assim como aquele dia era todo terror e destruição para os judeus incrédulos, assim será o grande dia para todos os incrédulos.

VI. Faz disso uma espécie de aparição do Filho do homem: “Então verão o Filho do homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória”, v. 27. A destruição de Jerusalém foi de maneira particular um ato do juízo de Cristo, o juízo confiado ao Filho do homem.

Sua religião nunca poderia ser inteiramente estabelecida senão pela destruição do templo e pela abolição do sacerdócio e sistema levíticos, pelos quais até os judeus convertidos e também muitos gentios continuamente ansiavam, até que o templo e o sistema levítico fossem destruídos.

Assim, podia justamente ser considerada uma vinda do Filho do homem em poder e grande glória, contudo não visivelmente, mas nas nuvens. Pois, ao executar tais juízos, nuvens e escuridão estão ao seu redor. Ora, isso era:

  1. Uma evidência da primeira vinda do Messias. Assim alguns o entendem. Então os judeus incrédulos serão convencidos, quando for tarde demais, de que Jesus era o Messias.

Aqueles que não queriam vê-lo vindo no poder de sua graça para salvá-los serão feitos vê-lo vindo no poder de sua cólera para destruí-los. Aqueles que não queriam que reinasse sobre eles o terão triunfando sobre eles.

  1. Era um penhor de sua segunda vinda. Então, nos terrores daquele dia, verão o Filho do homem vindo numa nuvem e todos os terrores do último dia. Verão uma amostra dele, uma fraca semelhança dele. Se isso é tão terrível, o que será aquilo?

VII. Anima todos os discípulos fiéis em relação aos terrores daquele dia (v. 28). “Quando essas coisas começarem a acontecer, quando Jerusalém for sitiada e tudo se juntar para a destruição dos judeus, então vocês olhem para cima, quando outros olham para baixo.”

“Olhem em direção ao céu, em fé, esperança e oração, e levantem suas cabeças com alegria e confiança, pois sua redenção se aproxima”.

  1. Quando Cristo veio destruir os judeus, veio redimir os cristãos perseguidos e oprimidos por eles. Então as igrejas tiveram descanso.

  2. Quando vier julgar o mundo no último dia, redimirá todos os seus de todas as suas aflições. A perspectiva daquele dia é tão agradável a todos os bons cristãos quanto terrível aos perversos e ímpios.

A própria morte deles é assim. Quando veem aquele dia se aproximando, podem levantar suas cabeças com alegria, sabendo que sua redenção se aproxima, sua ida para junto do Redentor.

VIII. Aqui está uma palavra de predição que olha além da destruição da nação judaica, que não é facilmente entendida. Temos no v. 24: “Jerusalém será pisada pelos gentios até que os tempos dos gentios sejam cumpridos”:

  1. Alguns a entendem daquilo que passou. Assim o dr. Hammond. Os gentios que conquistaram Jerusalém conservarão sua posse, e ela será puramente gentia até que os tempos dos gentios sejam cumpridos, até que grande parte do mundo gentio tenha se tornado cristã.

Então, depois que Jerusalém tiver sido reconstruída pelo imperador Adriano, com a exclusão de todos os judeus dela, muitos dos judeus se tornarão cristãos, se juntarão aos cristãos gentios para estabelecer uma igreja em Jerusalém, que florescerá ali por muito tempo.

  1. Outros a entendem daquilo que ainda virá. Assim o dr. Whitby. Jerusalém será possuída pelos gentios, de uma espécie ou outra, na maior parte do tempo, até vir o tempo em que as nações que ainda permanecem incrédulas abracem a fé cristã, quando os reinos deste mundo se tornarem reinos de Cristo e então todos os judeus forem convertidos.

Jerusalém será habitada por eles, e nem eles nem sua cidade serão mais pisados pelos gentios.

Versículos 29 a 38

Juízos Preditos.

Aqui, no fim desse discurso:

I. Cristo designa seus discípulos para observar os sinais dos tempos, pelos quais poderiam julgar, se tivessem os olhos nas instruções anteriores, com tanta certeza e segurança quanto poderiam julgar a aproximação do verão pelo brotar das árvores, vv. 29-31.

Assim como no reino da natureza há uma cadeia de causas, assim no reino da providência há uma consequência de um desfecho sobre outro. Quando vemos uma nação enchendo a medida de sua iniquidade, podemos concluir que sua ruína está próxima.

Quando vemos a ruína dos poderes perseguidores se apressando, podemos daí concluir que o reino de Deus está perto, que, quando a oposição a ele for removida, ganhará terreno.

Assim como podemos legitimamente prognosticar a mudança das estações quando causas secundárias começaram a operar, assim podemos, no dispor dos desfechos, esperar algo incomum quando Deus já se levantou de sua santa habitação (Zacarias 2:13). Então permaneçam quietos e vejam sua salvação.

II. Dá-lhes a incumbência de considerar aquelas coisas nem duvidosas nem distantes (pois então não fariam uma devida impressão neles), mas certas e muito próximas. A destruição da nação judaica:

  1. Estava próxima (v. 32): “Esta geração não passará até que tudo seja cumprido”. Havia alguns agora vivos que a veriam, alguns que agora ouviam sua predição.

  2. Era certa. A sentença era irreversível. Era uma consumação determinada. O decreto havia saído (v. 33). “Céu e terra passarão antes de qualquer palavra minha. Ou melhor: certamente passarão, mas minhas palavras não. Quer elas os atinjam, quer não, terão efeito, e nenhuma delas cairá no chão”, 1 Samuel 3:19.

III. Ele os previne contra a segurança presunçosa e a sensualidade, pelas quais se tornariam inaptos para os tempos de prova que vinham, e esses tempos se tornariam grande surpresa e terror para eles (v. 34, 35): “Tomai cuidado convosco”.

Essa é a palavra de comando dada a todos os discípulos de Cristo. “Tomem cuidado consigo mesmos, para não serem dominados pelas tentações nem traídos por suas próprias corrupções”. Repare: não podemos estar seguros se estivermos presunçosamente tranquilos. Compete-nos em todos os momentos, mas especialmente em alguns, ser muito cautelosos. Veja aqui:

  1. Qual é nosso perigo: que o dia da morte e juízo venha sobre nós sem percebermos, quando não o esperamos e não estamos preparados para ele. Esse perigo é que, quando somos chamados a encontrar nosso Senhor, seja encontrada como a coisa mais distante de nossos pensamentos aquela que deveria sempre ser posta mais perto de nossos corações.

O perigo é que venha sobre nós como uma armadilha, pois assim virá sobre a maioria dos homens, que moram na terra e se ocupam apenas de coisas terrenas e não têm comunhão com o céu. Para eles será como uma armadilha. Veja Eclesiastes 9:12.

Será um terror e uma destruição para eles. Provocará neles um susto inexprimível e os prenderá firmemente para uma condenação ainda mais assustadora.

  1. Qual é nosso dever, considerando esse perigo: devemos tomar cuidado para que nossos corações não sejam sobrecarregados, para que não sejam carregados e sobrecarregados e assim tornados inaptos e incapazes de fazer o que deve ser feito na preparação para a morte e o juízo.

Duas coisas contra as quais devemos vigiar, para que nossos corações não sejam sobrecarregados com elas:

(1.) Satisfazer os apetites do corpo e consentir em nos entregar às gratificações dos sentidos em excesso. “Tomai cuidado para não serdes sobrecarregados com glutonaria e embriaguez”, o uso imoderado de alimento e bebida.

Estas carregam o coração, não apenas com a culpa assim contraída, mas pela má influência que tais desordens do corpo têm sobre a mente. Tornam os homens insensíveis e sem vida para seu dever, mortos e apáticos em seu dever. Entorpecem a consciência e fazem a mente não ser afetada pelas coisas mais tocantes.

(2.) A busca desordenada das coisas boas deste mundo. O coração é sobrecarregado com as preocupações desta vida. A primeira é a armadilha daqueles que são dados aos seus prazeres. Esta é a armadilha dos homens de negócios que se propõem a ser ricos.

Precisamos guardar ambos os lados, não apenas para que nossos corações não sejam assim sobrecarregados no momento em que vem a morte, mas para que não sejam a qualquer momento. Nossa precaução contra o pecado e nosso zelo por nossas próprias almas devem ser constantes.

IV. Aconselha-os a se preparar e ficar prontos para esse grande dia, v. 36. Veja aqui:

  1. Qual deve ser nosso alvo: que possamos ser considerados dignos de escapar de todas essas coisas, que, quando os juízos de Deus estiverem por toda parte, possamos ser preservados de sua malignidade.

Que ou não sejamos envolvidos na calamidade comum, ou ela não seja para nós o que é para outros. Que no dia da morte possamos escapar de seu aguilhão, que é a cólera de Deus e a condenação do inferno.

Contudo, devemos visar não apenas escapar disso, mas permanecer diante do Filho do homem. Não apenas permanecer absolvidos diante dele como nosso Juiz (Salmos 1:5), ter ousadia no dia de Cristo (isso é suposto em escaparmos de todas aquelas coisas), mas permanecer diante dele para servi-lo como nosso Mestre.

Permanecer continuamente diante de seu trono e “servi-lo dia e noite em seu templo” (Apocalipse 7:15), sempre contemplar sua face, como os anjos, Mateus 18:10. Aqui se diz que os santos são considerados dignos, como antes, Lucas 20:35.

Deus, pela boa obra de sua graça neles, os torna aptos para essa felicidade e, pela boa vontade de sua graça para com eles, os considera dignos dela. Mas, como Grotius diz aqui, grande parte de nossa dignidade está num reconhecimento de nossa própria indignidade.

  1. Como devemos agir para alcançar esses alvos: “Vigiai, portanto, e orai sempre”. Vigiar e orar devem andar juntos, Neemias 4:9. Os que querem escapar da cólera vindoura e ter certeza das alegrias vindouras devem vigiar e orar, e devem fazê-lo sempre, devem fazer disso a ocupação constante de suas vidas:

(1.) Manter uma guarda sobre si mesmos. “Vigiem contra o pecado, vigiem para cumprir cada dever e aproveitar toda oportunidade de fazer o bem. Estejam despertos e permaneçam despertos na expectativa da vinda de seu Senhor, para estar na disposição correta de recebê-lo e lhe dar boas-vindas”.

(2.) Manter sua comunhão com Deus. “Orem sempre. Estejam sempre numa disposição habitual para esse dever. Mantenham tempos estabelecidos para ele. Abundem nele. Orem em todas as ocasiões”. Serão considerados dignos de viver uma vida de louvor no outro mundo aqueles que vivem uma vida de oração neste mundo.

V. Nos últimos dois versículos temos um relato de como Cristo ocupou seu tempo durante aqueles três ou quatro dias entre sua entrada triunfal em Jerusalém e a noite em que foi traído:

  1. Estava o dia inteiro ensinando no templo. Cristo pregava nos dias de semana, assim como nos sábados. Era um pregador incansável. Pregava diante da oposição e em meio àqueles que sabia procurarem ocasião contra ele.

  2. À noite saía para se alojar na casa de um amigo, no monte das Oliveiras, cerca de uma milha fora da cidade. É provável que tivesse alguns amigos na cidade que alegremente o teriam alojado.

Mas queria se retirar à tarde do ruído da cidade, para ter mais tempo para devoção secreta, agora que sua hora estava perto.

  1. De manhã cedo estava novamente no templo, onde oferecia um ensino matinal aos que estavam dispostos a acompanhá-lo. O povo estava pronto para ouvir alguém que via pronto para pregar (v. 38).

Todos vinham cedo de manhã, afluindo ao templo como pombas às suas janelas para ouvi-lo, embora os principais sacerdotes e escribas fizessem tudo que podiam para predispô-los contra ele.

Às vezes o gosto e o deleite que pessoas sérias, honestas e simples têm pela boa pregação devem ser mais valorizados e tomados como critério do que a opinião dos espirituosos e instruídos e dos que estão em autoridade.


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