Matthew Henry

Lucas 20

Argumento

Neste capítulo temos:

I. A resposta de Cristo à pergunta dos principais sacerdotes sobre sua autoridade, vv. 1-8.

II. A parábola da vinha arrendada a lavradores injustos e rebeldes, vv. 9-19.

III. A resposta de Cristo à pergunta que lhe fizeram sobre a legitimidade de pagar tributo a César, vv. 20-26.

IV. Sua defesa, contra as objeções insensatas dos saduceus, daquela grande doutrina fundamental das instituições judaica e cristã: a ressurreição dos mortos e o estado futuro, vv. 27-38.

V. Sua pergunta que deixou os escribas perplexos sobre o Messias ser Filho de Davi, vv. 39-44.

VI. A advertência que deu aos discípulos para tomarem cuidado com os escribas, vv. 45-47.

Já encontramos todas essas passagens em Mateus e Marcos e, por isso, não precisamos nos estender aqui sobre elas, exceto quanto aos detalhes que não encontramos ali.

Versículos 1 a 8

Os Inimigos de Cristo Perplexos.

Nesta passagem da história, nada se acrescenta aqui ao que encontramos nos outros evangelistas, exceto no primeiro versículo, em que se nos diz:

I. Que ele ensinava o povo no templo e pregava o evangelho. Repare: Cristo era pregador de seu próprio evangelho. Não apenas comprou a salvação para nós, mas também a anunciou a nós. Isso é uma grande confirmação da verdade do evangelho e nos dá abundante ânimo para recebê-lo.

É sinal de que Cristo desejava muito que ele fosse recebido. Isso também honra os pregadores do evangelho, seu cargo e seu trabalho, por mais que sejam desprezados pelo mundo vão. Honra os pregadores que falam ao povo: Cristo, ao pregar o evangelho, acomodou-se à capacidade das pessoas e as ensinou.

Observe que, enquanto pregava o evangelho ao povo, foi interrompido desse modo. Repare: Satanás e seus agentes fazem tudo o que podem para impedir a pregação do evangelho ao povo, pois nada enfraquece mais a influência do reino de Satanás.

II. Que se diz aqui que seus inimigos vieram sobre ele: epestesan. A palavra é usada apenas aqui e indica:

  1. Que pensavam surpreendê-lo com essa pergunta. Vieram sobre ele de repente, esperando apanhá-lo sem resposta pronta, como se isso não fosse algo em que ele próprio já houvesse pensado.

  2. Que pensavam amedrontá-lo com a pergunta. Vieram sobre ele em grupo, com violência. Mas como poderia ser aterrorizado pela cólera dos homens, quando tinha em seu próprio poder contê-la e fazê-la redundar em seu louvor? Da própria história podemos aprender:

(1.) Que não devemos estranhar que até aquilo que está demonstrado de modo evidente seja disputado e questionado como duvidoso por aqueles que fecham os olhos à luz. Os milagres de Cristo mostravam claramente com que autoridade ele fazia essas coisas e autenticavam sua comissão; contudo, é justamente essa autoridade que aqui é levada a julgamento.

(2.) Que aqueles que questionam a autoridade de Cristo, se forem interrogados sobre os princípios mais claros e evidentes da religião, terão sua insensatez manifesta a todos. Cristo respondeu a esses sacerdotes e escribas com uma pergunta sobre o batismo de João, simples o bastante para que até a pessoa mais humilde do povo a respondesse: “Era do céu ou dos homens?”

Todos sabiam que era do céu; não havia nele nenhum caráter ou tendência terrenos, mas tudo era celestial e divino. Essa pergunta os deixou perplexos, fez com que encalhassem e serviu para envergonhá-los diante do povo.

(3.) Que não é estranho que aqueles governados pela reputação e pelos interesses terrenos aprisionem as verdades mais claras e sufoquem e abafem as convicções mais fortes. Foi o que fizeram esses sacerdotes e escribas: para preservar sua reputação, não quiseram reconhecer que o batismo de João era do céu.

Não tinham outro motivo para não dizer que era dos homens senão o medo do povo. Que bem se pode esperar de homens com tal disposição?

(4.) Que àqueles que sepultam o conhecimento que possuem é negado, com justiça, mais conhecimento. Foi justo que Cristo se recusasse a dar a esses homens uma explicação de sua autoridade: sabiam que o batismo de João era do céu, mas não quiseram crer nele nem reconhecer o que sabiam, v. 7, 8.

Versículos 9 a 19

Os Lavradores e a Vinha.

Cristo contou essa parábola contra os que estavam decididos a não reconhecer sua autoridade, por mais completas e convincentes que fossem as provas dela. Ela vem muito oportunamente mostrar que, ao questionarem a autoridade de Cristo, perderam a sua própria.

Ao rejeitarem o senhor de sua vinha, invalidaram o contrato pelo qual a arrendavam e abriram mão de todo o direito que tinham a ela.

I. Aqui nada se acrescenta à parábola que encontramos antes em Mateus e Marcos. Seu objetivo é mostrar que a nação judaica, ao perseguir os profetas e, por fim, o próprio Cristo, provocou Deus a lhe retirar todos os privilégios de sua igreja e a abandoná-la à ruína. A parábola nos ensina:

  1. Que aqueles que desfrutam dos privilégios da igreja visível são como arrendatários e lavradores encarregados de cuidar de uma vinha e pagar o aluguel por ela. Deus, ao estabelecer no mundo a religião revelada e as ordenanças instituídas, plantou uma vinha e a arrendou ao povo entre o qual está seu tabernáculo, v. 9.

Eles têm trabalho a fazer na vinha, trabalho necessário e constante, mas agradável e proveitoso. Ao passo que o homem foi condenado, por causa do pecado, a cultivar a terra, os que têm lugar na igreja são restaurados à tarefa que Adão tinha na inocência: cultivar o jardim e guardá-lo. Pois a igreja é um paraíso, e Cristo, a árvore da vida nele.

Também têm frutos da vinha para apresentar ao Senhor da vinha. Há aluguéis a pagar e serviços a prestar. Embora não sejam proporcionais ao valor da propriedade, esses serviços precisam ser prestados e os aluguéis precisam ser pagos.

  1. Que o trabalho dos ministros de Deus é chamar os que desfrutam dos privilégios da igreja a produzir frutos correspondentes. São os cobradores do aluguel de Deus, que lembram aos lavradores suas dívidas atrasadas; ou melhor, lembram-lhes que têm um proprietário que espera notícias deles e alguma demonstração de que reconhecem sua dependência dele e suas obrigações para com ele, v. 10.

Os profetas do Antigo Testamento foram enviados com essa missão à igreja judaica: exigir dela o dever e a obediência que devia a Deus.

  1. Que muitas vezes os servos fiéis de Deus têm por destino ser maltratados miseravelmente pelos próprios arrendatários dele. Foram espancados e tratados vergonhosamente por aqueles que decidiram mandá-los embora de mãos vazias.

Os que estão decididos a não cumprir seu dever para com Deus não suportam ser chamados a cumpri-lo. Alguns dos melhores homens do mundo receberam dele o tratamento mais duro pelos melhores serviços que lhe prestaram.

  1. Que Deus enviou seu Filho ao mundo para continuar o mesmo trabalho de que os profetas haviam sido incumbidos: recolher para Deus os frutos da vinha. Seria de esperar que o reverenciassem e recebessem.

Os profetas falaram como servos: “Assim diz o Senhor”. Mas Cristo falou como Filho, entre os seus: “Em verdade vos digo”. Seria de esperar que uma honra tão grande quanto a de lhes enviar o Filho os conquistasse.

  1. Que aqueles que rejeitam os ministros de Cristo rejeitariam o próprio Cristo se ele viesse a eles. Isso foi posto à prova, e se viu que os perseguidores e assassinos de seus servos, os profetas, eram também seus perseguidores e assassinos. Disseram: “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo”.

Depois que mataram os servos, outros servos foram enviados. “Mas, se ao menos pudermos matar o filho, nunca haverá outro filho a ser enviado. Então essas cobranças deixarão de nos incomodar, e poderemos possuir a vinha tranquilamente para nós mesmos.”

Os escribas e fariseus prometiam a si mesmos que, se conseguissem tirar Cristo do caminho, dominariam para sempre a igreja judaica. Por isso deram o passo ousado: lançaram-no fora da vinha e o mataram.

  1. Que matar Cristo completou a medida da iniquidade judaica e trouxe sobre eles uma ruína sem remédio. Não se podia esperar outra coisa senão que Deus destruísse aqueles lavradores perversos. Começaram deixando de pagar o aluguel, depois passaram a espancar e matar os servos e, por fim, o próprio jovem Senhor deles.

Repare: os que vivem negligenciando seu dever para com Deus não sabem a que graus de pecado e destruição estão se lançando.

II. Acrescenta-se aqui à aplicação da parábola algo que não encontramos antes: o pedido deles para que não se cumprisse a condenação contida nela, v. 16. Ao ouvi-la, disseram: “Deus não permita”. Me genoito — “Que isso não aconteça” — é como se deve ler.

Embora tivessem de reconhecer que tal pecado merecia tal castigo e que era de esperar que ele viesse, não suportavam ouvi-lo. Repare: uma prova da insensatez e estupidez dos pecadores é que prosseguem e persistem em seus caminhos pecaminosos mesmo quando preveem e temem a destruição que está no fim deles.

Veja como enganam a si mesmos ao pensar que podem evitá-la com um frio “Deus não permita”, quando nada fazem para preveni-la. Isso tornará a ameaça sem efeito? Não; saberão qual palavra permanecerá, a de Deus ou a deles. Observe agora o que Cristo disse em resposta a esse pedido infantil para que não viesse sua ruína:

  1. Ele os contemplou. Só este evangelista registra isso, v. 17. Olhou para eles com pena e compaixão, entristecido por vê-los enganar a si mesmos rumo à própria ruína. Contemplou-os para ver se corariam de sua insensatez ou se poderia perceber no rosto deles algum sinal de abrandamento.

  2. Remeteu-os às Escrituras: “Que é, então, isso que está escrito? Como podeis escapar do juízo de Deus, se não podeis impedir a exaltação daquele que desprezais e rejeitais? A palavra de Deus disse que a pedra que os edificadores rejeitaram se tornou a principal da esquina”.

O Senhor Jesus será exaltado à direita do Pai. Todo juízo e todo poder lhe foram confiados. Ele é a pedra angular e a pedra do topo da igreja; sendo assim, seus inimigos não podem esperar outra coisa senão ser destruídos.

Até aqueles que o menosprezam, tropeçam nele e se sentem ofendidos por ele serão quebrados; isso será sua ruína. Quanto aos que não apenas o rejeitam, mas o odeiam e perseguem, como fizeram os judeus, ele cairá sobre eles e os esmagará em pedaços, reduzindo-os a pó. A condenação dos perseguidores rancorosos será muito mais severa do que a dos incrédulos descuidados.

Por fim, somos informados de como os principais sacerdotes e escribas se enfureceram por causa dessa parábola, v. 19: “Perceberam que ele havia contado essa parábola contra eles”; e de fato havia. Uma consciência culpada não precisa de acusador.

Mas, em vez de cederem ao convencimento da consciência, enfureceram-se contra aquele que despertara o leão adormecido em seu peito e procuraram agarrá-lo. Suas inclinações corrompidas se rebelaram contra suas convicções e venceram.

Não foi por terem diante dos olhos qualquer temor de Deus ou de sua cólera que deixaram de atacá-lo naquele momento e agarrá-lo pelo pescoço, mas apenas porque temiam o povo. Estavam prestes a confirmar suas palavras: “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo”.

Repare: quando o coração dos filhos dos homens está plenamente decidido a praticar o mal, nem os avisos mais claros sobre o pecado que estão prestes a cometer e suas consequências causam impressão neles.

Cristo lhes diz que, em vez de beijarem o Filho de Deus, o matariam. Deveriam ter respondido: “O quê? É teu servo um cão?” Mas, na prática, dizem: “Pois é isso mesmo que faremos; ataquemo-lo agora”. Embora peçam para não sofrer o castigo do pecado, logo em seguida planejam cometê-lo.

Versículos 20 a 26

Os Inimigos de Cristo Perplexos.

Temos aqui Cristo escapando de uma armadilha que seus inimigos lhe prepararam ao propor uma pergunta sobre o tributo. Encontramos essa passagem antes, tanto em Mateus quanto em Marcos. Aqui está:

I. O dano que planejavam causar-lhe, relatado aqui mais plenamente do que antes. O plano era entregá-lo ao poder e à autoridade do governador, v. 20. Eles próprios não podiam matá-lo pela via da lei, nem fazê-lo de outro modo senão por meio de um tumulto popular, com o qual não podiam contar.

Como não podiam ser seus juízes, se rebaixariam de bom grado ao papel de seus promotores e acusadores e apresentariam pessoalmente a denúncia contra ele. Esperavam alcançar seu objetivo se conseguissem apenas provocar o governador contra ele.

Repare: tem sido um artifício comum dos dirigentes religiosos perseguidores transformar os poderes civis em instrumentos de sua malícia e obrigar os reis da terra a fazer seu trabalho sujo. Se não fossem instigados, esses governantes teriam deixado seus vizinhos viver em paz ao seu lado.

Foi o que Pilatos fez com Cristo até que os principais sacerdotes e escribas o apresentaram a ele. Mas assim, por causa da política amaldiçoada deles, devia cumprir-se a palavra de Cristo: ele seria entregue às mãos dos gentios.

II. As pessoas que empregaram. Mateus e Marcos nos disseram que eram discípulos dos fariseus, acompanhados de alguns herodianos. Aqui se acrescenta que eram espiões, que deveriam fingir ser homens justos.

Repare: não é novidade que homens maus finjam ser justos e encubram os projetos mais perversos com as alegações mais sedutoras e plausíveis. O diabo pode transformar-se em anjo de luz, e um fariseu pode aparecer com as roupas e falar a linguagem de um discípulo de Cristo. Um espião precisa disfarçar-se.

Esses espiões precisavam fingir que valorizavam o juízo de Cristo e dependiam dele como de um oráculo. Por isso, tinham de pedir seu conselho numa questão de consciência. Repare: os ministros precisam manter-se em guarda contra alguns que fingem ser homens justos e precisam ser sábios como serpentes quando estiverem em meio a uma geração de víboras e escorpiões.

III. A pergunta que fizeram, com a qual esperavam apanhá-lo numa armadilha:

  1. Seu preâmbulo é muito cortês: “Mestre, sabemos que falas e ensinas corretamente”, v. 21. Assim pensavam adulá-lo para que falasse com eles com liberdade e franqueza imprudentes, alcançando seu objetivo.

Os orgulhosos que gostam de ser elogiados serão levados a fazer qualquer coisa por aqueles que apenas os adulam e lhes falam gentilmente. Mas estavam muito enganados os que pensavam iludir desse modo o humilde Jesus.

Ele não se agradou do testemunho desses hipócritas, nem se considerou honrado por ele. É verdade que não faz acepção de pessoas, mas também é verdade que conhece o coração de todos. Conhecia o deles e as sete abominações que ali estavam, embora falassem amavelmente.

Era certo que ensinava verdadeiramente o caminho de Deus. Mas sabia que eram indignos de ser ensinados por ele, pois vieram para se apoderar de suas palavras, não para deixar que elas se apoderassem deles.

  1. Seu caso é muito delicado: “É lícito a nós” (isto se acrescenta aqui em Lucas) “pagar tributo a César? A nós, judeus, descendência livre de Abraão, a nós, que pagamos o tributo do Senhor, é lícito pagar tributo a César?” O orgulho e a ganância os faziam relutar em pagar impostos; então queriam transformar a questão em dúvida sobre sua licitude.

Se Cristo dissesse que era lícito, o povo não receberia bem a resposta. Esperavam que aquele que se apresentava como Messias começasse por libertá-los do jugo romano e os apoiasse na recusa de pagar tributo a César.

Se, porém, dissesse que não era lícito, como esperavam que dissesse (pois pensavam que, se não fosse essa sua opinião, não seria tão querido pelo povo), teriam algo de que acusá-lo perante o governador, que era o que queriam.

IV. Como escapou da armadilha que lhe prepararam: “Percebeu sua astúcia”, v. 23. Repare: os que são mais astutos em seus planos contra Cristo e seu evangelho não conseguem esconder esses planos de seu conhecimento, por mais arte que empreguem.

Ele pode enxergar através dos disfarces mais sagazes e, assim, romper as armadilhas mais perigosas, pois certamente é em vão que se estende uma rede à vista de qualquer ave.

Não lhes deu resposta direta, mas os censurou por tentarem iludi-lo: “Por que me tentais?” Pediu uma moeda, dinheiro corrente entre os comerciantes: “Mostrai-me um denário”. Perguntou de quem era a moeda, de quem era a marca que trazia e quem a cunhara. Reconheceram: “É dinheiro de César”.

“Então”, diz Cristo, “primeiro deveríeis ter perguntado se era lícito pagar e receber entre vós o dinheiro de César e admiti-lo como instrumento de vosso comércio. Mas, como o aceitastes por consentimento comum, vossa própria conduta resolve a questão.”

“Sem dúvida, deveis pagar tributo a quem vos forneceu essa facilidade para o comércio, vos protege nele e empresta a sanção de sua autoridade ao valor de vosso dinheiro.”

“Deveis, portanto, dar a César o que é de César. Nos assuntos civis, deveis sujeitar-vos às autoridades civis. Se César protege vossos direitos civis por meio das leis e da administração da justiça, deveis pagar-lhe tributo. Mas nos assuntos sagrados somente Deus é vosso Rei.”

“Não sois obrigados a seguir a religião de César. Deveis dar a Deus o que é de Deus, adorar e reverenciar somente a ele, e não qualquer imagem de ouro que César erga.” E devemos adorá-lo e reverenciá-lo do modo que ele determinou, não segundo as invenções de César. Só Deus tem autoridade para dizer: “Meu filho, dá-me teu coração”.

V. A confusão em que, por isso, ficaram, v. 26:

  1. A armadilha foi desfeita; “Não conseguiram apoderar-se de suas palavras diante do povo”. Não acharam nada com que provocar contra ele o governador ou o povo.

  2. Cristo foi honrado; até a cólera do homem é levada a louvá-lo. “Admiraram-se de sua resposta”, tão prudente e irrepreensível, e que dava tamanha prova da sabedoria e sinceridade que fazem resplandecer o rosto.

  3. Suas bocas foram fechadas; “calaram-se”. Não tinham nenhuma objeção e não ousaram fazer-lhe outra pergunta, para que ele não os envergonhasse e expusesse.

Versículos 27 a 38

A Objeção dos Saduceus.

Já encontramos antes esse diálogo com os saduceus tal como está aqui, exceto que a descrição que Cristo faz do estado futuro é aqui um pouco mais ampla e completa. Observe:

I. Em todas as épocas houve homens de mente corrompida que tentaram subverter os princípios fundamentais da religião revelada. Assim como hoje há deístas, que se chamam livres-pensadores, mas na verdade são falsos pensadores, havia saduceus no tempo de nosso Salvador.

Eles zombavam da doutrina da ressurreição dos mortos e da vida no mundo vindouro, embora essas coisas fossem claramente reveladas no Antigo Testamento e fossem artigos da fé judaica.

Os saduceus negavam qualquer ressurreição, qualquer estado futuro; anastasis pode ter esse sentido. Negavam não apenas o retorno do corpo à vida, mas a continuação da vida da alma, um mundo de espíritos e um estado de recompensa e retribuição pelo que foi feito no corpo. Retire-se isso, e toda a religião cai por terra.

II. É comum que os que pretendem minar alguma verdade de Deus a embaracem e a sobrecarreguem de dificuldades. Assim fizeram os saduceus. Ao tentarem enfraquecer a fé do povo na doutrina da ressurreição, apresentaram, supondo-a verdadeira, uma pergunta que julgavam impossível responder de modo satisfatório de qualquer maneira.

O caso de uma mulher que teve sete maridos talvez tivesse realmente acontecido; ao menos poderia ter acontecido. Na ressurreição, de qual deles seria esposa? Mas isso não importava, pois, quando a morte encerra essa relação, ela não é retomada.

III. Há uma grande diferença entre o estado dos filhos dos homens na terra e o dos filhos de Deus no céu, uma enorme dessemelhança entre este mundo e aquele. Prejudicamos a nós mesmos e à verdade de Cristo quando formamos nossas ideias sobre aquele mundo dos espíritos a partir dos prazeres que hoje temos neste mundo dos sentidos.

  1. Os filhos dos homens neste mundo “casam e são dados em casamento”, hyioi tou aionos toutou — os filhos desta era, desta geração. Tanto os bons quanto os maus se casam e dão os filhos em casamento.

Grande parte de nossa ocupação neste mundo é formar e sustentar famílias e prover para elas. Muito de nosso prazer neste mundo está nos relacionamentos, em esposas e filhos; a natureza nos inclina a isso.

O casamento foi instituído para o conforto da vida humana aqui, neste estado em que carregamos o corpo conosco. Também é remédio contra a fornicação, para que os desejos naturais não se tornem brutais, mas fiquem sob direção e controle.

Os filhos deste mundo morrem e deixam a cena. Por isso se casam e dão os filhos em casamento, para que o mundo dos homens receba os reforços de que precisa: enquanto uma geração passa, outra vem.

Também querem ter descendentes seus a quem deixar o fruto de seu trabalho. Em especial, assim os eleitos de Deus das épocas futuras podem vir ao mundo, pois é uma descendência piedosa que se busca pelo casamento, Malaquias 2:15: descendência que servirá ao Senhor e será para ele uma geração.

  1. O mundo vindouro é inteiramente diferente; chama-se aquele mundo para dar-lhe ênfase e destaque. Repare: há mais de um mundo, um mundo presente e visível e um futuro e invisível.

Cabe a cada um de nós comparar os mundos, este e aquele, e dar preferência em nossos pensamentos e cuidados àquele que a merece. Observe agora:

(1.) Quem serão os habitantes daquele mundo: “Os que forem considerados dignos de alcançá-lo”. Isto é, aqueles que têm parte no mérito de Cristo, que o comprou para nós, e em quem o Espírito, cuja tarefa é nos preparar para ele, produziu a santidade adequada.

Não têm dignidade legal por causa de algo que neles haja ou que tenham feito, mas dignidade evangélica por causa do preço inestimável que Cristo pagou pela redenção da propriedade adquirida.

É uma dignidade imputada pela qual somos glorificados, assim como há uma justiça imputada pela qual somos justificados. Kataxiothentes: são tornados adequados àquele mundo.

A inadequação presente na natureza corrompida é removida, e a graça de Deus conforma as disposições da alma àquele estado. Pela graça são feitos e considerados dignos de alcançar aquele mundo. Isso indica alguma dificuldade em buscá-lo e o perigo de não alcançá-lo. Devemos correr de modo que o alcancemos.

“Alcançarão a ressurreição dentre os mortos”, isto é, a ressurreição bendita. Pois a ressurreição para condenação, como Cristo a chama em João 5:29, é mais uma ressurreição para a morte, uma segunda morte, uma morte eterna, do que uma ressurreição dentre os mortos.

(2.) Não podemos expressar nem conceber a condição feliz dos habitantes daquele mundo, 1 Coríntios 2:9. Veja o que Cristo diz aqui a respeito dela:

[1.] “Nem se casam nem são dados em casamento”. Os que entraram na alegria de seu Senhor estão inteiramente ocupados com ela e não precisam da alegria que o noivo encontra na noiva.

O amor naquele mundo de amor é todo seráfico e de tal natureza que ofusca e faz desaparecer até os amores mais puros e agradáveis com que nos deleitamos neste mundo dos sentidos. Onde o próprio corpo será espiritual, todos os prazeres dos sentidos serão banidos.

Onde há santidade perfeita, não há necessidade do casamento como proteção contra o pecado. Na nova Jerusalém nada entra que contamine.

[2.] “Não podem mais morrer”; isso também explica por que não se casam. Neste mundo sujeito à morte, o casamento é necessário para preencher os lugares deixados vagos pela morte. Mas onde não há sepultamentos, não são necessários casamentos.

O que coroa o conforto daquele mundo é que ali não há mais morte. Neste mundo, ela mancha toda a beleza e enfraquece todos os confortos. Aqui a morte reina; dali é excluída para sempre.

[3.] “São iguais aos anjos”. Nos outros evangelistas se disse que “são como os anjos”, os angeloi. Aqui se diz que são “iguais aos anjos”, isangeloi: pares dos anjos. Possuem glória e felicidade em nada inferiores às dos santos anjos.

Terão a mesma visão, serão empregados na mesma obra e partilharão as mesmas alegrias com os santos anjos. Os santos, ao chegarem ao céu, serão naturalizados. Embora sejam estrangeiros por natureza, obtiveram essa liberdade por um alto preço pago por Cristo em favor deles.

Em todos os aspectos, terão privilégios iguais aos dos que nasceram livres, os anjos, habitantes nativos daquele país. Serão companheiros dos anjos e terão comunhão com esses espíritos benditos que muito os amam, além de uma multidão incontável da qual agora já se aproximam pela fé, pela esperança e pelo amor.

[4.] “São filhos de Deus”; por isso são como os anjos, chamados filhos de Deus. Na herança dos filhos, completar-se-á a adoção dos filhos. Assim, diz-se que os crentes aguardam a adoção, isto é, a redenção do corpo, Romanos 8:23. Enquanto o corpo não for resgatado do túmulo, a adoção não estará completa.

“Agora somos filhos de Deus”, 1 João 3:2. Temos a natureza e a disposição de filhos, mas isso não será aperfeiçoado até chegarmos ao céu.

[5.] “São filhos da ressurreição”, isto é, são feitos capazes das ocupações e alegrias do estado futuro. Nasceram para aquele mundo, pertencem àquela família, receberam aqui sua formação para ele e ali receberão sua herança nele.

“São filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição”. Repare: Deus reconhece como seus filhos somente os filhos da ressurreição, nascidos do alto, ligados ao mundo dos espíritos e preparados para aquele mundo, os filhos daquela família.

IV. É verdade indiscutível que há outra vida depois desta, e essa verdade foi revelada de modo notável nos primeiros tempos da igreja, v. 37, 38. Moisés mostrou isso como lhe foi mostrado na sarça, e o mostrou a nós quando chama o Senhor, como o próprio Senhor se chama, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.

Abraão, Isaque e Jacó já estavam mortos para o nosso mundo; haviam partido dele muitos anos antes, e seus corpos se tinham tornado pó na caverna de Macpela. Como, então, Deus poderia dizer, não “Eu era”, mas “Eu sou o Deus de Abraão”?

Seria absurdo que o Deus vivo e Fonte da vida continuasse ligado a eles como seu Deus se nada mais restasse deles além do que jazia naquela caverna, indistinguível do pó comum. Portanto, devemos concluir que então existiam em outro mundo, pois “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos”.

Lucas acrescenta: “Porque todos vivem para ele”, isto é, todos os que, como eles, são verdadeiros crentes. Embora estejam mortos, ainda assim vivem. Suas almas, que voltam a Deus, que as deu, Eclesiastes 12:7, vivem para ele como o Pai dos espíritos.

Seus corpos voltarão a viver no fim dos tempos pelo poder de Deus. Pois “ele chama as coisas que não são como se fossem”, porque é o Deus que vivifica os mortos, Romanos 4:17.

Mas há ainda mais nisso. Quando Deus se chamou o Deus desses patriarcas, queria dizer que era sua felicidade e porção, um Deus todo-suficiente para eles, Gênesis 17:1, sua “recompensa muito grande”, Gênesis 15:1.

Pela história deles, é claro que Deus jamais lhes deu neste mundo tudo o que corresponderia ao verdadeiro propósito e à plena extensão dessa grande promessa. Portanto, deve haver outra vida depois desta, na qual ele lhes dará o que representará a quitação integral da promessa de ser o Deus deles.

Ele é capaz de fazê-lo, pois todos vivem para ele, e possui os meios de fazer feliz cada alma que vive para ele: o bastante para todos e o bastante para cada um.

Versículos 39 a 47

Os Escribas Confundidos.

Os escribas estudavam a lei e a expunham ao povo. Tinham reputação de sábios e dignos de honra, mas a maioria era inimiga de Cristo e de seu evangelho. Aqui alguns deles estavam presentes junto a Jesus; nestes versículos encontramos quatro coisas a seu respeito que já havíamos visto:

I. Eles elogiam a resposta que Cristo deu aos saduceus acerca da ressurreição: alguns escribas disseram: “Mestre, disseste bem”, v. 39. Cristo recebeu de seus adversários o testemunho de que falara bem.

Os escribas eram inimigos dele porque não se conformava às tradições dos anciãos. Contudo, quando defendeu as práticas fundamentais da religião, até eles elogiaram sua atuação e reconheceram que falara bem. Muitos que se dizem cristãos nem sequer chegam a ter essa disposição.

II. Eles foram tomados de admiração respeitosa por Cristo, sua sabedoria e autoridade, v. 40: “Não ousaram fazer-lhe pergunta alguma”, porque viram que era forte demais para todos os que discutiam com ele.

Seus discípulos, embora fracos, ousavam perguntar-lhe qualquer coisa porque estavam dispostos a receber sua doutrina. Mas os saduceus, que contradiziam a doutrina e levantavam objeções contra ela, não ousavam fazer-lhe nenhuma pergunta.

III. Ficaram perplexos e encalharam diante de uma pergunta sobre o Messias, v. 41. Muitas passagens das Escrituras mostravam claramente que Cristo seria Filho de Davi; até o cego sabia disso, Lucas 18:39.

Também estava claro que Davi chamava o Messias de seu Senhor, v. 42, 44, seu dono, governante e benfeitor: “O Senhor disse ao meu Senhor”. Deus o disse ao Messias, Salmos 110:1.

Ora, se ele é filho de Davi, por que Davi o chama de Senhor? Se é Senhor de Davi, por que o chamamos de filho dele? Cristo deixou que refletissem sobre isso, mas não conseguiram conciliar a aparente contradição. Graças a Deus, nós conseguimos: Cristo, como Deus, era Senhor de Davi; mas Cristo, como homem, era Filho de Davi.

Ele era tanto a raiz quanto o descendente de Davi, Apocalipse 22:16. Por sua natureza humana, era descendente de Davi, um ramo de sua família; por sua natureza divina, era a raiz de Davi, de quem Davi recebeu seu ser, sua vida e todo o suprimento da graça.

IV. Eles são descritos em seus traços mais sombrios, e os discípulos recebem uma advertência pública para tomar cuidado com eles, vv. 45-47. Encontramos isso tal como está aqui em Marcos 12:38 e de modo mais amplo em Mateus 23. Cristo manda seus discípulos tomar cuidado com os escribas, isto é:

  1. “Tomai cuidado para não serdes atraídos por eles ao pecado, para não aprenderdes seu caminho nem aderirdes às suas práticas. Guardai-vos da disposição que os governa. Não sejais na igreja cristã como eles são na igreja judaica.”

  2. “Tomai cuidado para que não vos causem problemas”, no mesmo sentido em que dissera em Mateus 10:17: “Guardai-vos dos homens, pois vos entregarão aos concílios. Guardai-vos dos escribas, pois farão isso.” “Tomai cuidado com eles, pois:”

(1.) “São orgulhosos e arrogantes. Gostam de andar pelas ruas com longas vestes, como quem está acima das ocupações comuns”, pois os que trabalhavam cingiam a cintura, “e como quem ostenta posição e ocupa os primeiros lugares”. Cedant arma togæ — cedam as armas à toga.

No íntimo, gostavam que as pessoas lhes fizessem reverência nos mercados, para que muitos vissem o respeito que recebiam. Orgulhavam-se muito da precedência que lhes era concedida em todos os lugares de reunião.

Amavam os primeiros assentos nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes. Quando neles se sentavam, olhavam para si mesmos com grande presunção e para todos ao redor com grande desprezo. “Sento-me como rainha”.

(2.) “São gananciosos e opressores, e usam a religião como manto para encobrir seus crimes.” “Devoram as casas das viúvas”: tomam posse de seus bens e, por algum artifício, apropriam-se deles, ou vivem às custas delas e consomem o que possuem.

As viúvas são presa fácil, pois são propensas a se deixar iludir pelas alegações sedutoras deles. “Por ostentação, fazem longas orações”, talvez com as viúvas quando estas estão entristecidas, como se tivessem por elas preocupação não só compassiva, mas piedosa.

Assim procuram conquistar seu favor e pôr as mãos em seu dinheiro e seus bens. Homens tão devotos certamente podem receber em confiança até ouro sem contagem; mas prestarão dele as contas que lhes parecerem convenientes.

Cristo pronuncia sua condenação em poucas palavras: esses receberão um juízo maior. É um castigo dobrado, tanto por maltratarem as pobres viúvas, cujas casas devoraram, quanto por usarem indevidamente a religião, sobretudo a oração.

Serviram-se dela como pretexto para executar com aparência mais convincente e maior eficácia seus planos mundanos e perversos. Pois a piedade fingida é iniquidade duplicada.


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