Matthew Henry

Lucas 19

Argumento

Neste capítulo temos:

I. A conversão de Zaqueu, o publicano, em Jericó, vv. 1-10.

II. A parábola das libras que o rei confiou a seus servos e de seus cidadãos rebeldes, vv. 11-27.

III. A entrada de Cristo montado em triunfo (tal triunfo como foi) em Jerusalém; e sua lamentação na perspectiva da ruína daquela cidade, vv. 28-44.

IV. Seu ensino no templo e a expulsão dos compradores e vendedores dele, vv. 45-48.

Versículos 1 a 10

A Conversão de Zaqueu.

Muitos, sem dúvida, foram convertidos à fé em Cristo sem que os evangelhos conservem relato deles; mas a conversão de alguns cuja condição tinha algo extraordinário é registrada, como essa de Zaqueu.

Cristo passou por Jericó, v. 1. Essa cidade foi construída sob uma maldição, contudo Cristo a honrou com sua presença, pois o evangelho tira a maldição. Embora não devesse ter sido construída, ainda assim não era por isso pecado morar nela quando construída.

Cristo agora ia do outro lado do Jordão a Betânia, perto de Jerusalém, para ressuscitar Lázaro; quando ia fazer uma boa obra, maquinava fazer muitas pelo caminho. Fazia bem tanto à alma quanto ao corpo das pessoas; temos aqui um exemplo do primeiro. Observe:

I. Quem e o que era esse Zaqueu. Seu nome revela que era judeu. Zacai era um nome comum entre os judeus; tinham um rabino famoso com esse nome, aproximadamente nessa época. Observe:

  1. Sua profissão e o posto em que estava: era chefe entre os publicanos, arrecadador-geral; outros publicanos eram oficiais sob ele; era, como alguns pensam, arrendatário da arrecadação dos impostos alfandegários.

Frequentemente lemos de publicanos que vinham a Cristo; mas aqui estava um que era chefe dos publicanos, tinha autoridade e perguntava por ele. Deus tem seu remanescente entre todas as classes de pessoas. Cristo veio salvar até o chefe dos publicanos.

  1. Suas circunstâncias no mundo eram muito consideráveis: era rico. Os publicanos inferiores geralmente eram homens de fortunas arruinadas e de baixa posição social; mas aquele que era chefe dos publicanos reunira bom patrimônio.

Cristo recentemente mostrara quão árduo é para os ricos entrar no reino de Deus, contudo imediatamente apresenta um exemplo num rico que estivera perdido e foi encontrado, sem ter sido reduzido à penúria como o filho pródigo.

II. Como entrou no caminho de Cristo e qual foi a ocasião de seu conhecimento dele:

  1. Tinha grande curiosidade de ver Jesus, que tipo de homem era, tendo ouvido muito falar dele, v. 3.

É natural para nós procurarmos ver, se pudermos, aqueles cuja fama encheu nossos ouvidos, por sermos propensos a imaginar que há algo extraordinário em seu rosto; pelo menos poderemos dizer depois que vimos tais e tais grandes homens. Mas o olho não se satisfaz com ver.

Deveríamos agora procurar ver Jesus com os olhos da fé, ver quem é; deveríamos nos dirigir às santas ordenanças com isso diante dos olhos: “Queremos ver Jesus”.

  1. Não podia satisfazer sua curiosidade nisso porque era pequeno e a multidão era grande. Cristo não procurava se exibir, não era carregado nos ombros dos homens (como o papa em procissão) para que todos pudessem vê-lo; nem ele nem seu reino vieram de modo ostensivo.

Não andava numa carruagem aberta como os príncipes, mas, como um de nós, se perdia numa multidão; pois aquele era o dia de sua humilhação.

Zaqueu era baixo de estatura, e todos ao seu redor o ultrapassavam, de modo que não conseguia ver Jesus. Muitos que são pequenos de estatura têm almas grandes e são vivos de espírito.

Quem não preferiria ser um Zaqueu a um Saul, embora este fosse mais alto por cabeça e ombros que todos ao seu redor? Os pequenos de estatura não se preocupem em lhe acrescentar côvados.

  1. Porque não queria decepcionar sua curiosidade, esqueceu sua seriedade como chefe dos publicanos, correu à frente como um menino e subiu num sicômoro para vê-lo.

Repare: aqueles que sinceramente desejam ver Cristo usarão os meios apropriados para conseguir vê-lo, vencerão muita dificuldade e oposição e estarão dispostos a ter trabalho para vê-lo.

Aqueles que se acham pequenos devem aproveitar todas as vantagens que puderem para se elevar à visão de Cristo, sem vergonha de reconhecer que precisam delas, e todas mal bastam. Os anões não percam a esperança de, com boa ajuda, mirando alto, alcançar alto.

III. A atenção que Cristo deu a Zaqueu, o chamado que lhe fez a um conhecimento ulterior (v. 5) e a eficácia desse chamado, v. 6:

  1. Cristo se convidou à casa de Zaqueu, sem duvidar de suas boas-vindas calorosas ali; ou melhor: onde quer que Cristo venha, assim como traz consigo o necessário para ser recebido, também suscita as próprias boas-vindas; abre o coração e o inclina a recebê-lo.

Cristo olhou para cima na árvore e viu Zaqueu. Zaqueu veio olhar para Cristo e decidiu reparar particularmente nele, mas pouco pensou em Cristo reparar nele.

Essa era uma honra grande demais e muito acima de seu mérito para que pensasse nela. Veja como Cristo o precedeu com as bênçãos de sua bondade e superou suas expectativas; veja como animou começos muito fracos e os ajudou a avançar.

Aquele que tinha vontade de conhecer Cristo será conhecido por ele; aquele que só procurava vê-lo será admitido a ter comunhão com ele. Repare: aqueles que são fiéis num pouco receberão a confiança de mais.

Às vezes aqueles que vêm ouvir a palavra de Cristo, como Zaqueu, só por curiosidade, além do que pensavam, têm sua consciência despertada e seu coração mudado.

Cristo o chamou pelo nome, Zaqueu, pois conhece seus escolhidos pelo nome; não estão em seu livro? Poderia perguntar como Natanael (João 1:48): “De onde me conheces?” Mas antes que subisse no sicômoro, Cristo o viu e conheceu.

Mandou-o se apressar e descer. Aqueles que Cristo chama devem descer, devem se humilhar e não pensar em subir ao céu por qualquer justiça sua própria; devem se apressar e descer, pois as demoras são perigosas.

Zaqueu não deve hesitar, mas se apressar; sabe que não é questão que precise de consideração se deveria acolher tal hóspede em sua casa. Deve descer, pois Cristo pretende hoje parar para se alimentar em sua casa e ficar uma hora ou duas com ele. Eis que está à porta e bate.

  1. Zaqueu ficou muito alegre de ter tal honra concedida à sua casa (v. 6): “Apressou-se, desceu e o recebeu alegremente”; recebê-lo em sua casa foi indicação e sinal de recebê-lo em seu coração.

Repare: quando Cristo nos chama, devemos nos apressar em responder a seus chamados; quando vem a nós, devemos recebê-lo alegremente. “Levantai vossas cabeças, ó portas”.

Bem podemos receber alegremente aquele que traz todo bem consigo e, quando toma posse da alma, abre ali fontes de alegria que fluirão pela eternidade.

Quantas vezes Cristo nos disse: “Abre-me”, quando, com a esposa, demos desculpas! Cantares de Salomão 5:2, 3. A prontidão de Zaqueu para receber Cristo nos envergonhará.

Não temos agora Cristo para acolher em nossas casas, mas temos seus discípulos, e o que se faz a eles ele recebe como feito a si mesmo.

IV. A ofensa que o povo sentiu com essa saudação bondosa entre Cristo e Zaqueu. Aqueles judeus de alma estreita e censuradores murmuraram, dizendo que fora ser hóspede de um homem pecador, para hamartolo andri: com um homem pecaminoso; e não eram eles mesmos homens pecaminosos?

Não era a missão de Cristo no mundo buscar e salvar homens pecadores? Mas consideram Zaqueu pecador acima de todos os homens que habitavam em Jericó, pecador com quem não era apropriado ter comunhão. Agora foi muito injusto culpar Cristo por ir à sua casa; pois:

  1. Embora fosse publicano e muitos dos publicanos fossem homens maus, não se seguia por isso que todos fossem assim. Devemos tomar cuidado para não condenar homens em bloco ou pela fama comum, pois no tribunal de Deus cada homem será julgado como é.

  2. Embora tivesse sido pecador, não se seguia por isso que fosse agora tão mau quanto fora; embora soubessem que sua vida passada era má, Cristo poderia conhecer como boa sua disposição presente. Deus consente que haja espaço para arrependimento, e assim devemos fazer.

  3. Embora fosse agora pecador, não deveriam culpar Cristo por ir a ele, pois não estava em perigo de receber prejuízo de um pecador, mas tinha grandes esperanças de fazer bem a um pecador; aonde deveria ir o médico senão aos enfermos? Contudo, veja como o que é bem feito pode ser mal interpretado.

V. As provas que Zaqueu deu publicamente de que, embora tivesse sido pecador, era agora penitente e verdadeiro convertido, v. 8.

Não espera ser justificado por suas obras como o fariseu que se vangloriou do que fizera, mas por suas boas obras, mediante a graça de Deus, evidenciará a sinceridade de sua fé e arrependimento; aqui declara qual era sua decisão.

Fez essa declaração em pé, para ser visto e ouvido pelos que murmuravam contra Cristo por vir à sua casa; com a boca se faz confissão de arrependimento assim como de fé.

Estava em pé, o que indica que falou deliberadamente e com solenidade, como num voto a Deus. Dirigiu-se nisso a Cristo, não ao povo (não seriam seus juízes), mas ao Senhor, e estava como que diante de seu tribunal.

O que fazemos de bom devemos fazer como para ele; devemos recorrer a ele e mostrar-lhe nossa integridade em todos os nossos bons propósitos e resoluções.

Faz aparecer que há mudança em seu coração (e isso é arrependimento), pois há mudança em seu caminho. Suas resoluções são de deveres da segunda tábua; pois Cristo, em todas as ocasiões, lhes dava grande ênfase; são tais que se ajustam à sua condição e caráter, pois neles melhor aparecerá a verdade de nosso arrependimento.

  1. Zaqueu tinha bom patrimônio e, enquanto até então nele guardava tesouro para si mesmo e prejudicava a si mesmo, agora decide que no futuro será inteiramente para Deus e fará bem a outros com ele: “Eis, Senhor, a metade de meus bens dou aos pobres”.

Não: “Darei por meu testamento quando morrer”, mas: “Dou agora”. Provavelmente ouvira da ordem com que Cristo pusera outro rico à prova, vender o que tinha e dar aos pobres (Mateus 19:21), e como ele rompeu com Cristo por isso.

“Mas eu não farei assim”, diz Zaqueu; “concordo com isso à primeira palavra; embora até agora tenha sido sem caridade para com os pobres, agora os auxiliarei e darei tanto mais por ter negligenciado o dever tanto tempo, até a metade de meus bens”.

É proporção muito grande para ser separada para obras de piedade e caridade. Os judeus costumavam dizer que a quinta parte da renda anual de um homem era muito razoável para usos piedosos, e aproximadamente essa parte a lei orientava.

Mas Zaqueu iria muito mais longe e daria metade aos pobres, o que o obrigaria a reduzir todas as suas despesas extravagantes, assim como a redução dessas despesas o capacitaria a auxiliar muitos com suas superfluidades.

Se ao menos fôssemos mais temperantes e negássemos a nós mesmos, seríamos mais caridosos; se nos contentássemos com menos, teríamos mais para dar aos que precisam. Menciona isso aqui como fruto de seu arrependimento. Repare: convém muito aos convertidos a Deus ser caridosos com os pobres.

  1. Zaqueu tinha consciência de não ter obtido tudo que tinha honesta e justamente, mas parte por meios indiretos e ilegais, e do que obtivera por tais meios promete fazer restituição:

“Se tomei alguma coisa de algum homem por falsa acusação, ou se injusticiei algum homem no exercício de meu ofício como publicano, exigindo mais que o designado, prometo restituir-lhe quatro vezes”.

Essa era a restituição que um ladrão deveria fazer, Êxodo 22:1:

(1.) Parece claramente reconhecer que fizera injustiça; seu ofício como publicano lhe dava oportunidade de fazer injustiça, iludindo os comerciantes para ganhar favor junto ao governo.

Os verdadeiros penitentes reconhecerão não só em geral ser culpados diante de Deus, mas refletirão particularmente sobre aquilo que foi sua própria iniquidade e que, por motivo de sua ocupação e emprego no mundo, mais facilmente os assediou.

(2.) Que fizera injustiça por falsa acusação; essa era a tentação dos publicanos, sobre a qual João Batista particularmente os avisara, Lucas 3:14.

Tinham a atenção do governo, e tudo seria interpretado de maneira forçada em favor da arrecadação, o que lhes dava oportunidade de satisfazer sua vingança se tivessem má vontade contra um homem.

(3.) Promete restituir quatro vezes, até onde pudesse recordar ou descobrir por seus livros contábeis que injustiçara algum homem.

Não diz: “Se eu for processado e obrigado a isso, farei restituição” (alguns são honestos quando não podem evitar); mas o fará voluntariamente: será meu próprio ato e minha iniciativa.

Repare: aqueles que são convencidos de ter feito injustiça não podem evidenciar a sinceridade de seu arrependimento senão fazendo restituição.

Observe: não pensa que dar metade de seu patrimônio aos pobres compensará a injustiça que fez. Deus odeia roubo para holocaustos, e devemos primeiro agir justamente e então amar a misericórdia.

Não é caridade, mas hipocrisia, dar aquilo que não é nosso; não devemos considerar nosso aquilo que não obtivemos honestamente, nem aquilo que deixaria de ser nosso depois de pagas todas as dívidas e feita a restituição pelos danos causados.

VI. A aprovação e aceitação por Cristo da conversão de Zaqueu, pelas quais também afastou de si qualquer acusação por ter ido ser hóspede dele, v. 9, 10:

  1. Declara-se que Zaqueu é agora um homem feliz. Agora se voltou do pecado para Deus; agora deu boas-vindas a Cristo em sua casa e se tornou homem honesto, caridoso e bom: “Hoje veio salvação a esta casa”.

Agora que é convertido, na prática é salvo, salvo de seus pecados, da culpa e do domínio deles; todos os benefícios da salvação são seus. Cristo veio à sua casa e, onde Cristo vem, traz salvação consigo.

É e será o Autor da salvação eterna para todos os que o reconhecem como Zaqueu fez. Contudo, isso não é tudo. A salvação hoje vem à sua casa:

(1.) Quando Zaqueu se torna convertido, será, mais que antes, bênção para sua casa. Trará os meios de graça e salvação à sua casa, pois é agora filho de Abraão de fato e, por isso, como Abraão, ensinará à sua família a guardar o caminho do Senhor.

Aquele que é ávido por ganho perturba sua própria casa e traz maldição sobre ela (Habacuque 2:9), mas aquele que é caridoso com os pobres beneficia a própria casa e traz bênção sobre ela e salvação a ela, pelo menos temporal, Salmos 112:3.

(2.) Quando o próprio Zaqueu é trazido a Cristo, sua família também se torna relacionada a Cristo, seus filhos são admitidos como membros de sua igreja, e assim a salvação vem à sua casa, por ser filho de Abraão.

Por isso tem participação na aliança de Deus com Abraão, aquela bênção de Abraão que vem sobre os publicanos, sobre os gentios, mediante a fé, de que Deus será Deus para eles e para seus filhos.

Por isso, quando crê, a salvação vem à sua casa, como à do carcereiro a quem se disse: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, e tua casa”, Atos 16:31.

Zaqueu é por nascimento filho de Abraão, mas, por ser publicano, era considerado pagão; são postos no mesmo nível, Mateus 18:17.

Como tal, os judeus se esquivavam de ter comunhão com ele e esperavam que Cristo fizesse assim; mas mostra que, sendo verdadeiro penitente, tornou-se rectus in curia: íntegro no tribunal, tão bom filho de Abraão como se nunca tivesse sido publicano, o que por isso não deveria ser mencionado contra ele.

  1. O que Cristo fizera para torná-lo, em particular, homem feliz estava de acordo com o grande desígnio e intenção de sua vinda ao mundo, v. 10. Com a mesma razão antes justificara sua comunhão com publicanos, Mateus 9:13.

Ali alegou que viera chamar pecadores ao arrependimento; agora, que viera “buscar e salvar aquilo que estava perdido”, to apololos: a coisa perdida. Observe:

(1.) A condição deplorável dos filhos dos homens: estavam perdidos; aqui a raça inteira da humanidade é mencionada como um corpo.

Repare: o mundo inteiro da humanidade, pela queda, tornou-se mundo perdido: perdido como uma cidade quando passa para o lado dos rebeldes, como um viajante quando perde seu caminho num deserto, como um enfermo quando sua doença é incurável ou como um prisioneiro quando se profere sentença contra ele.

(2.) O desígnio gracioso do Filho de Deus: veio buscar e salvar, buscar para salvar.

Veio do céu à terra (longa viagem) buscar aquilo que estava perdido (que vagueara e se desviara) e trazê-lo de volta (Mateus 18:11, 12), e salvar aquilo que estava perdido, que perecia e estava de certo modo destruído e eliminado.

Cristo assumiu a causa quando fora dada por perdida: assumiu fazer voltar a si aqueles que estavam perdidos para Deus e para toda a bondade.

Observe: Cristo veio a este mundo perdido para buscá-lo e salvá-lo. Seu desígnio era salvar quando não havia salvação em nenhum outro. Em cumprimento desse desígnio, buscou, empregou todos os meios promissores para efetuar aquela salvação.

Busca aqueles que não valia a pena procurar; busca aqueles que não o buscavam nem perguntavam por ele, como Zaqueu aqui.

Versículos 11 a 27

O Nobre e Seus Servos.

Nosso Senhor Jesus está agora a caminho de Jerusalém, para sua última Páscoa, quando sofreria e morreria; agora aqui nos é contado:

I. Como as expectativas de seus amigos se elevaram nessa ocasião: pensavam que o reino de Deus apareceria imediatamente, v. 11. Os fariseus o esperavam por esse tempo (Lucas 17:20) e, parece, os próprios discípulos de Cristo também; mas ambos tinham noção equivocada dele.

Os fariseus pensavam que deveria ser introduzido por algum outro príncipe ou potentado temporal. Os discípulos pensavam que seu Mestre o introduziria, mas com pompa e poder temporais.

Com o poder que tinha de operar milagres, sabiam que poderia revestir-se disso em pouco tempo, quando quisesse. Jerusalém, concluíam, deveria ser a sede de seu reino e, por isso, agora que vai diretamente para lá, não duvidam de em pouco tempo vê-lo no trono ali.

Repare: até homens bons estão sujeitos a enganos acerca do reino de Cristo e a formar noções erradas dele, e estão prontos a pensar que aparecerá imediatamente aquilo que está reservado para o futuro.

II. Como suas expectativas foram contidas e os enganos em que se baseavam foram corrigidos; faz isso em três coisas:

  1. Esperavam que aparecesse em sua glória agora, imediatamente, mas lhes diz que não deve ser publicamente instalado em seu reino por um bom tempo.

É como certo nobre, anthropos tis eugenes: certo homem de nascimento elevado (assim o dr. Hammond), pois é o Senhor do céu e tem direito ao reino por nascimento; mas vai a uma região distante para receber para si um reino.

Cristo deve ir ao céu, sentar-se à direita do Pai ali e receber dele honra e glória antes que o Espírito fosse derramado, pelo qual seu reino seria estabelecido na terra, e antes que uma igreja fosse estabelecida para ele no mundo gentio.

Deve receber o reino e então retornar. Cristo retornou quando o Espírito foi derramado, quando Jerusalém foi destruída, época em que aquela geração, tanto de amigos quanto de inimigos, com quem pessoalmente tivera comunhão, já havia desaparecido por completo pela morte e partido para prestar contas.

Mas seu principal retorno aqui mencionado é aquele no grande dia, que ainda esperamos. Aquilo que pensavam que apareceria imediatamente, Cristo lhes diz que não aparecerá até que esse mesmo Jesus levado ao céu volte de modo semelhante; veja Atos 1:11.

  1. Esperavam que seus apóstolos e acompanhantes diretos fossem elevados à dignidade e honra, que todos fossem feitos príncipes e nobres, conselheiros privados e juízes, e tivessem toda a pompa e cargos da corte e da cidade.

Mas Cristo aqui lhes diz que, em lugar disso, destinava-os a ser homens de negócios; não devem esperar outro cargo neste mundo senão aquele da parte comercial da cidade; colocaria um capital em suas mãos, para que o empregassem pessoalmente, servindo-o e ao interesse de seu reino entre os homens.

Essa é a verdadeira honra de um cristão e de um ministro, a qual, se formos, como devemos, verdadeiramente ambiciosos por ela, nos capacitará a olhar todas as honras temporais com santo desprezo.

Os apóstolos sonhavam sentar-se à sua direita e esquerda em seu reino, desfrutando descanso depois de sua labuta presente e honra depois do desprezo presente contra eles, e se agradavam com esse sonho.

Mas Cristo lhes diz aquilo que, se entendessem corretamente, os encheria de cuidados, preocupações e pensamentos sérios, em lugar daqueles ambiciosos com que enchiam sua cabeça:

(1.) Têm agora grande trabalho a fazer. Seu Mestre os deixa para receber seu reino e, ao partir, dá a cada um uma libra, que a margem de nossas Bíblias comuns nos diz equivaler em nossa moeda a três libras e meia coroa.

Isso significa a mesma coisa que os talentos na parábola paralela a essa (Mateus 25): todos os dons de que os apóstolos de Cristo foram dotados, as vantagens e capacidades que tinham de servir aos interesses de Cristo no mundo e os dons de outros, tanto ministros quanto cristãos, semelhantes a eles em grau inferior.

Mas talvez seja assim representado na parábola para torná-los mais humildes; sua honra neste mundo é só aquela de negociantes, e não de comerciantes de primeira ordem, que têm vastos capitais para começar, mas de pobres negociantes, que devem ter muito cuidado e trabalho para fazer algo do que têm.

Deu essas libras a seus servos, não para comprarem librés luxuosas, muito menos mantos e um aparato esplêndido para se exibirem, como esperavam, mas com esta incumbência: “Ocupai-vos até que eu venha”.

Ou, como poderia ser muito melhor traduzido: “Negociai até que eu venha”, Pragmateusasthe: estejam ocupados. Assim a palavra propriamente significa.

“Vocês são enviados a pregar o evangelho, estabelecer uma igreja para Cristo no mundo, trazer as nações à obediência da fé e edificá-las nela. Receberão poder para fazer isso, pois serão cheios do Espírito Santo”, Atos 1:8.

Quando Cristo soprou sobre os onze discípulos dizendo: “Recebei o Espírito Santo”, então lhes entregou dez libras.

“Agora”, diz, “ocupai-vos de vosso trabalho e fazei dele uma ocupação; aplicai-vos a ele seriamente e perseverai nele. Empenhai-vos em fazer todo o bem que podeis à alma dos homens e reuni-los a Cristo”. Repare:

[1.] Todos os cristãos têm trabalho a fazer para Cristo neste mundo, especialmente os ministros; os primeiros não foram batizados nem os últimos ordenados para ser ociosos.

[2.] Aqueles chamados ao trabalho para Cristo ele provê com dons necessários para seu trabalho; por outro lado, daqueles a quem dá poder espera serviço. Entrega as libras com esta incumbência: “Vão trabalhar, vão negociar”.

“A manifestação do Espírito é dada a cada homem para proveito”, 1 Coríntios 12:7. Conforme cada um recebeu o dom, assim o ministre, 1 Pedro 4:10.

[3.] Devemos continuar a nos ocupar de nosso trabalho até que nosso Mestre venha, quaisquer dificuldades ou oposições que encontremos nele; só aqueles que perseveram até o fim serão salvos.

(2.) Em breve têm grandes contas a prestar. Esses servos são chamados a ele para mostrar que uso fizeram dos dons com que foram dignificados, que serviço fizeram em favor de Cristo e que bem à alma dos homens, para que soubesse o que cada homem ganhara negociando. Repare:

[1.] Aqueles que negociam diligente e fielmente no serviço de Cristo ganharão. Não podemos dizer isso dos negócios do mundo; muitos negociantes trabalhadores tiveram perdas; mas aqueles que negociam por Cristo ganharão; embora Israel não seja reunido, ainda assim serão gloriosos.

[2.] A conversão de almas é ganhá-las; cada verdadeiro convertido é ganho líquido para Jesus Cristo.

Os ministros são apenas agentes dele e devem lhe dar relato de que peixes apanharam na rede do evangelho, que convidados persuadiram a vir à ceia das bodas; isto é, o que ganharam negociando. Agora observe:

Primeiro, o bom relato dado por alguns servos e a aprovação do senhor a eles. Dois desses são apresentados como exemplos, v. 16, 19:

  1. Ambos haviam feito aproveitamentos consideráveis, mas não igualmente; um ganhara dez libras por seu negócio e outro cinco.

Aqueles que são diligentes e fiéis ao servir Cristo geralmente são abençoados ao ser feitos bênçãos para os lugares onde vivem. Verão o trabalho de parto de sua alma e não trabalharão em vão. Contudo, todos igualmente fiéis não são igualmente bem-sucedidos.

Talvez, embora ambos fossem fiéis, se indique que um deles se esforçou mais e se aplicou mais estreitamente ao seu trabalho que o outro e teve sucesso correspondente.

O bendito Paulo certamente era esse servo que ganhou dez libras, o dobro do que qualquer outro fez, pois trabalhou mais abundantemente que todos e pregou plenamente o evangelho de Cristo.

  1. Ambos reconheceram suas obrigações para com seu Mestre por lhes confiar essas capacidades e oportunidades de lhe prestar serviço: “Senhor, não é minha diligência, mas tua libra que ganhou dez libras”.

Repare: Deus deve ter toda a glória de todos os nossos ganhos; não a nós, mas a ele deve ser o louvor, Salmos 115:1.

Paulo, que ganhou as dez libras, reconhece: trabalhei, contudo não eu. Pela graça de Deus sou o que sou e faço o que faço; sua graça não foi em vão, 1 Coríntios 15:10. Não falará do que fizera, mas do que Deus fizera por ele, Romanos 15:18.

  1. Ambos foram elogiados por sua fidelidade e diligência: “Bem feito, bom servo”, v. 17. Ao outro disse de modo semelhante, v. 19.

Repare: aqueles que fazem o que é bom receberão louvor por isso. Faça bem e Cristo lhe dirá: “Bem feito”; se ele diz “Bem feito”, pouco importa quem diga outra coisa. Veja Gênesis 4:7.

  1. Foram elevados a cargos em proporção ao aproveitamento que fizeram: “Porque foste fiel num muito pouco e não disseste: ‘Tão bom ficar sentado quanto ir negociar com uma libra, que se pode fazer com capital tão pequeno?', mas humilde e honestamente te aplicaste ao seu aproveitamento, tem autoridade sobre dez cidades”.

Repare: aqueles que se contentam em começar baixo estão num bom caminho para subir. Aquele que usou bem o ofício de diácono adquire para si bom grau, 1 Timóteo 3:13. Duas coisas são assim prometidas aos apóstolos:

(1.) Que, quando tiverem se esforçado para plantar muitas igrejas, terão satisfação e honra de presidi-las e governar entre elas; receberão grande respeito e terão grande influência no amor e estima dos bons cristãos.

Aquele que guarda a figueira comerá seu fruto; aquele que trabalha na palavra e doutrina será considerado digno de dupla honra.

(2.) Que, quando tiverem servido sua geração segundo a vontade de Cristo, embora atravessem este mundo desprezados e pisados, e talvez saiam dele sob desonra e perseguição como os apóstolos, ainda assim no outro mundo reinarão como reis com Cristo, se sentarão com ele em seu trono e terão poder sobre as nações, Apocalipse 2:26.

A felicidade do céu será elevação muito maior para um bom ministro ou cristão do que seria para um pobre negociante, que com muito esforço ganhara dez libras líquidas, ser feito governador de dez cidades.

Aquele que ganhara apenas cinco libras tinha domínio sobre cinco cidades. Isso indica que há graus de glória no céu; cada vaso estará igualmente cheio, mas não será igualmente grande. Os graus de glória ali serão conforme os graus de utilidade aqui.

Segundo, o mau relato dado por um deles e a sentença proferida contra ele por sua preguiça e infidelidade, v. 20, etc.:

  1. Reconheceu não ter negociado com a libra que lhe fora confiada (v. 20): “Senhor, eis aqui tua libra; é verdade que não a aumentei, mas também não a diminuí; guardei-a seguramente num lenço”.

Isso representa o descuido daqueles que têm dons, mas nunca se empenham em fazer bem com eles. Para eles tanto faz os interesses do reino de Cristo afundarem ou flutuarem, retrocederem ou avançarem; por sua parte, não se importarão com isso, não se darão ao trabalho, não farão despesas nem correrão risco.

São servos que guardam sua libra num lenço aqueles que consideram suficiente dizer não terem causado prejuízo no mundo, mas não fizeram bem.

  1. Justificou sua omissão com uma alegação que piorou a questão, não a melhorou (v. 21): “Temi-te porque és homem austero”, rigoroso e severo, anthropos austeros ei. Austero é a própria palavra grega: um homem áspero: “Tomas o que não depositaste”.

Pensava que seu senhor impunha agruras a seus servos quando exigia e esperava o aproveitamento de suas libras, e que era colher onde não semeara; ao passo que realmente era colher onde semeara e, como o agricultor, esperar em proporção ao que semeara.

Não tinha motivo para temer a austeridade de seu senhor nem culpar suas expectativas, mas era mero fingimento, desculpa frívola e infundada para sua ociosidade, para a qual não havia aparência alguma de motivo.

Repare: as alegações dos que professam a fé e são preguiçosos, quando examinadas, contribuirão mais para sua vergonha do que para sua justificação.

  1. Sua desculpa é voltada contra ele: “De tua própria boca te julgarei, servo ímpio”, v. 22. Será condenado por seu crime, mas condenará a si mesmo por sua alegação.

“Se consideraste árduo eu esperar o lucro de teu negócio, que teria sido o lucro maior, ainda assim, se tivesses alguma consideração por meu interesse, poderias ter colocado meu dinheiro no banco, em algum dos fundos, para que eu tivesse não só o meu, mas o meu com juros, que, embora vantagem menor, teria sido alguma”.

Se não ousava negociar por medo de perder o principal e assim ter de responder ao seu senhor pela perda, como alega, ainda assim isso não seria desculpa para não o aplicar a juros, onde estaria seguro.

Repare: quaisquer que sejam as alegações dos que professam a fé e são preguiçosos para desculpar sua preguiça, seu verdadeiro motivo é a indiferença dominante aos interesses de Cristo e seu reino e sua frieza nisso.

Não se importam se a religião ganha ou perde terreno, desde que ao menos possam viver tranquilos.

  1. Sua libra lhe é tirada, v. 24. É apropriado perderem seus dons aqueles que não querem usá-los, e não se confiar mais naqueles que agiram falsamente.

Aqueles que não querem servir seu Mestre com o que lhes concede, por que se lhes permitiria servir a si mesmos com isso? “Tirai-lhe a libra”.

  1. É dada àquele que tinha dez libras. Quando os presentes objetaram isso por ele ter tanto já (“Senhor, tem dez libras”, v. 25), se responde (v. 26): “A cada um que tem será dado”. É regra de justiça:

(1.) Que sejam mais animados aqueles que foram mais diligentes, e aqueles que mais se empenharam em fazer bem tenham ampliadas suas oportunidades de fazer bem e sejam postos numa esfera de utilidade mais alta e extensa. Àquele que ganhou será dado mais para ser capaz de ganhar mais.

(2.) Que aqueles que têm seus dons como se não tivessem, que os têm sem propósito, que não fazem bem com eles, sejam privados deles.

Àqueles que procuram aumentar a graça que têm, Deus concederá mais; aqueles que a negligenciam e permitem que decline não podem esperar outra coisa senão que Deus também a deixe diminuir.

Cristo dá esse aviso necessário a seus discípulos para que, enquanto ficam ávidos por honras na terra, não negligenciem seu trabalho e assim deixem de alcançar sua felicidade no céu.

  1. Outra coisa que esperavam era que, quando aparecesse o reino de Deus, o corpo da nação judaica imediatamente aderiria a ele e se submeteria a ele, e todas as suas aversões a Cristo e seu evangelho imediatamente desapareceriam.

Mas Cristo lhes diz que, depois de sua partida, a maioria deles persistiria em sua obstinação e rebelião, e isso seria sua ruína. Isso é mostrado aqui:

(1.) Na mensagem que seus cidadãos enviaram atrás dele, v. 14. Não só se opuseram a ele enquanto estava em obscuridade, mas, quando fora à glória para ser investido em seu reino, então continuaram sua inimizade contra ele, protestaram contra seu domínio e disseram: “Não queremos que este homem reine sobre nós”:

[1.] Isso se cumpriu na incredulidade predominante dos judeus depois da ascensão de Cristo e do estabelecimento do reino do evangelho.

Não quiseram submeter seu pescoço a seu jugo nem tocar a ponta de seu cetro de ouro. Disseram: quebremos suas amarras, Salmos 2:1-3; Atos 4:26.

[2.] Expressa a linguagem de todos os incrédulos; poderiam ficar satisfeitos que Cristo os salvasse, mas não querem que reine sobre eles; ao passo que Cristo é Salvador só daqueles para quem é príncipe e que estão dispostos a lhe obedecer.

(2.) Na sentença proferida contra eles em seu retorno: “Trazei aqui aqueles meus inimigos”, v. 27. Quando seus súditos fiéis são elevados a cargos e recompensados, então se vingará de seus inimigos e particularmente da nação judaica, cuja condenação é aqui lida.

Quando Cristo estabeleceu seu reino do evangelho e assim deu reputação ao ministério do evangelho, então vem acertar contas com os judeus; então se lembra contra eles que particularmente rejeitaram e protestaram contra seu ofício real quando disseram: “Não temos rei senão César”, nem quiseram reconhecê-lo como rei.

Recorreram a César e a César irão; César será sua ruína. Então o reino de Deus apareceu quando se tomou vingança daqueles inimigos irreconciliáveis de Cristo e de seu governo; foram trazidos e abatidos diante dele.

Nunca se fez tanta matança em qualquer guerra quanto nas guerras dos judeus. Aquela nação viveu para ver o cristianismo vitorioso no mundo gentio, apesar de sua inimizade e oposição contra ele, e então foi removida como escória.

A cólera de Cristo veio sobre eles até o extremo (1 Tessalonicenses 2:15, 16), e sua destruição redundou em grande honra para Cristo e em paz para a igreja. Mas isso é aplicável a todos os outros que persistem em sua incredulidade e, sem dúvida, perecerão nela. Repare:

[1.] Ruína completa certamente será a porção de todos os inimigos de Cristo; no dia da vingança todos serão trazidos e abatidos diante dele.

Tragam-nos aqui para ser feitos espetáculo aos santos e anjos; veja Josué 10:22, 24. Tragam-nos aqui para verem a glória e felicidade de Cristo e seus seguidores, que odiaram e perseguiram.

Tragam-nos aqui para terem seus apelos frívolos rejeitados e receberem sentença segundo seus méritos. Tragam-nos e os abatam diante de mim, como Agague diante de Samuel.

O Salvador que desprezaram ficará ao lado e os verá abatidos e não intervirá em seu favor.

[2.] Aqueles que não querem que Cristo reine sobre eles serão considerados e tratados como seus inimigos.

Estamos prontos a pensar que ninguém é inimigo de Cristo senão perseguidores do cristianismo ou pelo menos escarnecedores; mas vocês veem que serão considerados assim aqueles que não gostam das condições da salvação, não querem se submeter ao jugo de Cristo, mas serão seus próprios senhores.

Repare: quem não for governado pela graça de Cristo inevitavelmente será arruinado pela cólera de Cristo.

Versículos 28 a 39

A Entrada de Cristo em Jerusalém.

Temos aqui o mesmo relato da entrada de Cristo montado em alguma espécie de triunfo (tal como foi) em Jerusalém que tivemos antes em Mateus e Marcos; por isso observemos aqui somente:

I. Jesus Cristo estava pronto e disposto a sofrer e morrer por nós. Prosseguiu, impelido em espírito, a Jerusalém, sabendo muito bem as coisas que lhe aconteceriam ali, e contudo foi à frente, subindo a Jerusalém, v. 28.

Era o primeiro da companhia, como se ansiasse por estar no lugar, entrar na luta, tomar posição no campo e começar a agir. Estava tão pronto a sofrer e morrer por nós, e recuaremos de algum serviço que somos capazes de fazer em favor dele?

II. Não era de modo algum incompatível nem com a humildade de Cristo nem com seu estado presente de humilhação fazer uma entrada pública em Jerusalém pouco antes de morrer. Assim tornou-se mais observado, para que a ignomínia de sua morte aparecesse maior.

III. Cristo tem direito ao domínio sobre todas as criaturas e pode usá-las quando e como lhe agrada. Nenhum homem pode opor a Cristo seu direito de propriedade sobre os próprios bens, pois o direito dele é anterior e superior.

Cristo mandou buscar uma jumenta e seu jumentinho da manjedoura de seu dono e senhor quando precisou de seu serviço, e podia fazê-lo, pois todos os animais da floresta são seus, e os animais mansos também.

IV. Cristo tem o coração de todos os homens tanto sob seus olhos quanto em sua mão. Podia influenciar os donos da jumenta e do jumentinho a anuir em que fossem levados, assim que lhes fosse dito que o Senhor precisava deles.

V. Aqueles que vão nas missões de Cristo certamente terão sucesso (v. 32): os enviados encontraram o que lhes dissera que encontrariam, e os donos dispostos a abrir mão deles.

É consolo para os mensageiros de Cristo que voltarão com aquilo que foram buscar, se de fato o Senhor precisa disso.

VI. Os discípulos de Cristo, que lhe buscam de outros aquilo de que precisa e que não têm, não deveriam considerar isso suficiente, mas tudo que eles próprios têm com que possa ser servido e honrado, deveriam estar prontos a servi-lo com isso.

Muitos podem estar dispostos a acompanhar Cristo às custas de outros, sem se importar em ter alguma despesa com ele pessoalmente; mas aqueles discípulos não só lhe buscaram o jumentinho, mas lançaram suas próprias roupas sobre ele e estavam dispostos a que fossem usadas como seus arreios.

VII. Os triunfos de Cristo são o assunto dos louvores de seus discípulos.

Quando Cristo se aproximou de Jerusalém, Deus pôs de repente no coração de toda a multidão dos discípulos, não só dos doze, mas muitos mais, que eram discípulos em sentido amplo, que se alegrassem e louvassem a Deus (v. 37).

Espalhar suas roupas no caminho (v. 36) era expressão comum de alegria, como na festa dos tabernáculos. Observe:

  1. Qual era o assunto ou ocasião de sua alegria e louvor. Louvavam a Deus por todas as obras poderosas que tinham visto, todos os milagres que Cristo operara, especialmente a ressurreição de Lázaro, que é particularmente mencionada, João 12:17, 18.

Isso trouxe outras à mente, pois novos milagres e misericórdias deveriam reviver a lembrança dos anteriores.

  1. Como expressaram sua alegria e louvor (v. 38): “Bendito o rei que vem em nome do Senhor”. Cristo é o rei; vem em nome do Senhor, revestido de autoridade divina, comissionado do céu para dar lei e tratar de paz.

“Bendito seja ele”. Louvemo-lo, Deus o prospere. É bendito para sempre, e falaremos bem dele. “Paz no céu”.

Que o Deus do céu envie paz e sucesso ao seu empreendimento, e então haverá “glória nas alturas”. Resultará na glória do Deus Altíssimo; os anjos, habitantes gloriosos do mundo superior, lhe darão a glória disso.

Compare esse cântico dos santos na terra com o dos anjos, Lucas 2:14. Ambos concordam em dar glória a Deus nas alturas. Ali se concentram os louvores de ambos.

Os anjos dizem: “Paz na terra”, alegrando-se com o benefício que os homens na terra têm por Cristo; os santos dizem: “Paz no céu”, alegrando-se com o benefício que os anjos têm por Cristo.

Tal é a comunhão que temos com os santos anjos que, assim como se alegram com a paz na terra, assim nos alegramos com a paz no céu, a paz que Deus faz em seus lugares elevados (Jó 25:2), e ambos em Cristo, que reconciliou todas as coisas consigo mesmo, sejam coisas na terra ou coisas no céu.

VIII. Os triunfos de Cristo e os louvores alegres de seus discípulos a eles são a irritação dos fariseus orgulhosos, inimigos dele e de seu reino.

Havia alguns fariseus entre a multidão tão longe de se juntar a eles que se enfureceram contra eles; sendo Cristo um exemplo famoso de humildade, pensavam que não admitiria aclamações como essas e por isso esperavam que repreendesse seus discípulos, v. 39. Mas é honra de Cristo que, assim como despreza o desdém dos orgulhosos, assim aceita os louvores dos humildes.

IX. Quer os homens louvem Cristo ou não, ele será louvado, será louvado e deve ser louvado (v. 40): se estes ficassem calados e não falassem os louvores do reino do Messias, as pedras imediatamente clamariam, antes que Cristo não fosse louvado.

Isso foi, na prática, literalmente cumprido quando, ao vituperarem Cristo na cruz em vez de louvá-lo, e seus próprios discípulos caírem em profundo silêncio, a terra tremeu e as rochas se partiram.

Os fariseus silenciariam os louvores de Cristo, mas não podem alcançar seu objetivo; pois, assim como Deus pode das pedras levantar filhos a Abraão, assim pode da boca daqueles filhos aperfeiçoar louvor.

Versículos 41 a 48

A Condenação de Jerusalém Lamentada; a Condenação de Jerusalém Predita.

O grande Embaixador do céu está aqui fazendo sua entrada pública em Jerusalém, não para ser respeitado ali, mas rejeitado; sabia em que ninho de víboras se lançava, contudo veja aqui dois exemplos de seu amor por aquele lugar e de seu cuidado por ele:

I. As lágrimas que derramou pela ruína próxima da cidade (v. 41): “Quando se aproximou, contemplou a cidade e chorou sobre ela”.

Provavelmente foi quando descia a encosta do monte das Oliveiras, de onde tinha plena visão da cidade, de sua grande extensão e das muitas estruturas majestosas nela; seus olhos afetaram seu coração, e seu coração novamente seus olhos. Veja aqui:

  1. O espírito terno que Cristo tinha; nunca lemos que riu, mas frequentemente o encontramos em lágrimas.

Nesse mesmo lugar seu pai Davi chorou, e aqueles que estavam com ele, embora ele e eles fossem homens de guerra. Há casos em que não é rebaixamento para os mais valentes dos homens derreter-se em lágrimas.

  1. Que Jesus Cristo chorou em meio a seus triunfos, chorou quando todos ao seu redor se alegravam, para mostrar quão pouco era elevado pelo aplauso e aclamação do povo.

Assim nos ensinaria a nos alegrar com tremor e como se não nos alegrássemos. Se a Providência não manchar a beleza de nossos triunfos, nós próprios podemos ver motivo para maculá-la com nossas tristezas.

  1. Que chorou sobre Jerusalém. Repare: há cidades sobre as quais chorar, e nenhuma deve ser mais lamentada que Jerusalém, que fora a cidade santa e a alegria de toda a terra, se estiver degenerada.

Mas por que Cristo chorou ao ver Jerusalém? Foi porque: “Ali está a cidade na qual devo ser traído e preso, açoitado e cuspido, condenado e crucificado”? Não: ele próprio nos dá o motivo de suas lágrimas:

(1.) Jerusalém não aproveitou o dia de suas oportunidades. Chorou e disse: se você tivesse conhecido, até você, pelo menos neste seu dia, se ao menos agora conhecesse, enquanto o evangelho lhe é pregado e por ele a salvação lhe é oferecida.

Se por fim pensasse e entendesse as coisas que pertencem à sua paz, fazer sua paz com Deus e assegurar seu próprio bem-estar espiritual e eterno; mas você não conhece o dia de sua visitação, v. 44.

A maneira de falar é abrupta: “Se tivesses conhecido!” “Quem me dera que tivesses”, como alguns entendem; como aquele “Quem me dera que meu povo me tivesse ouvido”, Salmos 81:13; Isaías 48:18.

Ou: “Se tivesses conhecido, bem”; como aquilo da figueira, Lucas 13:9. Quão feliz teria sido para você! Ou: “Se tivesses conhecido, terias chorado por ti mesma, e eu não teria ocasião de chorar por ti, mas antes me alegraria”.

O que diz põe toda a culpa da ruína iminente de Jerusalém sobre ela própria. Repare:

[1.] Há coisas que pertencem à nossa paz que todos temos interesse em conhecer e entender; o caminho pelo qual a paz é feita, as ofertas de paz feitas, as condições sob as quais podemos ter o benefício da paz.

As coisas que pertencem à nossa paz são aquelas relativas ao nosso bem-estar presente e futuro; devemos conhecê-las e aplicá-las a nós mesmos.

[2.] Há um tempo de visitação quando aquelas coisas que pertencem à nossa paz podem ser conhecidas por nós e conhecidas para bom propósito.

Quando desfrutamos dos meios de graça em grande abundância e a palavra de Deus nos é pregada poderosamente, quando o Espírito contende conosco e nossa própria consciência é surpreendida e despertada, então é o tempo de visitação, que temos interesse em aproveitar.

[3.] Para aqueles que negligenciaram por muito tempo o tempo de sua visitação, se por fim, se por último, neste seu dia, seus olhos forem abertos e pensarem, tudo ainda estará bem. Não serão recusados aqueles que vêm à vinha na décima primeira hora.

[4.] É a espantosa insensatez de multidões que desfrutam dos meios de graça, e lhes será de consequência fatal, não aproveitarem o dia de suas oportunidades.

As coisas de sua paz lhes são reveladas, mas não são atendidas nem consideradas; escondem seus olhos delas, como se não valesse a pena reparar nelas.

Não estão cientes do tempo aceito e do dia da salvação; deixam escapar esse tempo e perecem por mero descuido. Ninguém é tão cego quanto aqueles que não querem ver; nem têm as coisas de sua paz mais certamente escondidas de seus olhos que aqueles que lhes viram as costas.

[5.] O pecado e a insensatez daqueles que persistem no desprezo da graça do evangelho são grande dor para o Senhor Jesus e deveriam ser assim para nós.

Olha com olhos chorosos para almas perdidas que continuam impenitentes e correm precipitadamente para sua própria ruína; prefere que se voltem e vivam a prosseguirem e morrerem, pois não quer que ninguém pereça.

(2.) Jerusalém não pode escapar do dia de sua desolação. As coisas de sua paz estão agora de certa forma escondidas de seus olhos; logo estarão.

Não que depois disso o evangelho não lhes fosse pregado pelos apóstolos; toda a casa de Israel foi chamada a conhecer com certeza que Cristo era sua paz (Atos 2:36), e multidões foram convencidas e convertidas.

Mas, quanto ao corpo da nação e à sua parte dirigente, foram selados sob incredulidade; Deus lhes dera o espírito de sono, Romanos 11:8.

Tinham tanto preconceito e estavam tão enfurecidos contra o evangelho e aqueles poucos que então o abraçaram que nada menos que um milagre da graça divina (como o que converteu Paulo) operaria sobre eles.

Não se podia esperar que tal milagre fosse operado, e assim foram justamente entregues à cegueira e dureza judiciais. As coisas pacíficas não estão escondidas dos olhos de pessoas particulares; mas é tarde demais para pensar agora na nação dos judeus, como tal, tornando-se uma nação cristã por abraçar Cristo.

Por isso são marcados para ruína, que Cristo aqui prevê e prediz como consequência certa de rejeitarem Cristo.

Repare: negligenciar a grande salvação frequentemente traz juízos temporais sobre um povo; assim aconteceu a Jerusalém em menos de quarenta anos depois disso, quando tudo que Cristo aqui predisse foi exatamente cumprido:

[1.] Os romanos cercaram a cidade, lançaram uma trincheira em torno dela, a rodearam e mantiveram seus habitantes dentro por todos os lados.

Josefo conta que Tito levantou um muro em tempo muito curto, que rodeou a cidade e cortou todas as esperanças de escapar.

[2.] A nivelaram com o chão. Tito mandou seus soldados escavar a cidade, e toda a sua extensão foi nivelada, exceto três torres; veja a história de Josefo das guerras dos judeus, 5.356-360; 7.1.

Não só a cidade, mas os cidadãos foram nivelados com o chão (“teus filhos dentro de ti”) pelas matanças cruéis feitas contra eles; quase não ficou uma pedra sobre outra.

Isso foi por crucificarem Cristo; foi porque não conheceram o dia de sua visitação. Outras cidades e nações tomem aviso.

II. O zelo que mostrou pela purificação presente do templo. Embora deva ser destruído em breve, não se segue por isso que não se deva cuidar dele enquanto isso:

  1. Cristo retirou dele aqueles que o profanavam. Foi diretamente ao templo e começou a expulsar os compradores e vendedores, v. 45.

Assim (embora fosse representado como inimigo do templo, e esse era o crime de que o acusavam diante do sumo sacerdote) fez aparecer que tinha amor mais verdadeiro pelo templo que aqueles com tanta veneração por seu corbã, seu tesouro, como coisa sagrada; pois sua pureza era mais sua glória que sua riqueza.

Cristo deu motivo para desalojar os comerciantes do templo, v. 46. O templo é casa de oração, separado para comunhão com Deus; os compradores e vendedores o fizeram covil de ladrões pelos negócios fraudulentos que faziam ali, o que de modo algum deveria ser permitido, pois distrairia aqueles que vinham ali orar.

  1. Deu-lhe o melhor uso que jamais recebera, pois ensinava diariamente no templo, v. 47. Repare: não basta as corrupções de uma igreja serem purgadas, mas a pregação do evangelho deve ser animada. Agora, quando Cristo pregou no templo, observe aqui:

(1.) Quão rancorosos eram os governantes da igreja contra ele; quão diligentes em procurar uma oportunidade, ou antes uma alegação, para lhe fazer dano (v. 47).

Os principais sacerdotes e escribas e os chefes do povo, o grande Sinédrio, que deveriam ter dado atenção a ele e convocado também o povo para ouvi-lo, procuravam destruí-lo e matá-lo.

(2.) Quão respeitoso era o povo comum para com ele. Eram muito atentos para ouvi-lo. Passava a maior parte de seu tempo no campo e então não pregava no templo, mas, quando o fazia, o povo lhe prestava grande respeito.

Acompanhavam sua pregação com diligência e não deixavam escapar oportunidade alguma de ouvi-lo, prestavam-lhe atenção com cuidado e não queriam perder uma palavra.

Alguns leem: todo o povo, ao ouvi-lo, tomava seu partido; assim isso vem muito apropriadamente como motivo de seus inimigos não encontrarem o que poderiam fazer contra ele; viam o povo pronto a enfrentá-los se lhe oferecessem qualquer violência.

Até que sua hora viesse, sua influência sobre o povo comum o protegeu; mas, quando sua hora veio, a influência dos principais sacerdotes sobre o povo comum o entregou.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra