Matthew Henry

Lucas 16

Argumento

O objetivo do discurso de Cristo neste capítulo é despertar e estimular a todos nós a usar este mundo sem abusar dele. Devemos administrar todas as nossas posses e desfrutes aqui de modo que nos favoreçam, e não nos prejudiquem, no outro mundo; pois farão uma coisa ou outra, conforme o uso que lhes dermos agora.

I. Se fizermos o bem com elas e empregarmos o que temos em obras de piedade e caridade, colheremos o benefício disso no mundo vindouro. Ele mostra isso na parábola do administrador injusto, que soube aproveitar tão bem os bens de seu senhor que, quando foi afastado da administração, tinha uma fonte de sustento confortável à qual recorrer.

Temos a própria parábola, vv. 1-8; sua explicação e aplicação, vv. 9-13; e o desprezo com que os fariseus receberam a doutrina que Cristo lhes pregou. Por isso ele os censurou severamente e acrescentou outras declarações importantes, vv. 14-18.

II. Se, em vez de fazer o bem com o que desfrutamos neste mundo, fizermos dessas coisas alimento e combustível de nossas paixões, do nosso luxo e da nossa sensualidade, e negarmos socorro aos pobres, certamente pereceremos para sempre. As coisas deste mundo, assim usadas indevidamente, apenas aumentarão nossa miséria e nosso tormento.

Ele mostra isso na outra parábola, a do rico e Lázaro. Ela também tem uma intenção ulterior: despertar a todos nós para que atentemos para o aviso dado pela palavra escrita, sem esperar mensagens diretas do outro mundo, vv. 19-31.

Versículos 1 a 18

O Administrador Injusto.

Enganamo-nos se imaginamos que o desígnio da doutrina de Cristo e da santa religião era ou nos distrair com ideias sobre os mistérios divinos ou nos entreter com ideias sobre as misericórdias divinas. Não: a revelação divina de ambos no evangelho se destina a nos comprometer e estimular à prática dos deveres cristãos.

Entre eles está, tanto quanto qualquer outro, o dever de beneficência e de fazer o bem aos que necessitam de algo que tenhamos ou possamos fazer por eles. Nosso Salvador nos exorta a isso aqui, lembrando-nos de que somos apenas administradores da multiforme graça de Deus.

Visto que em diversos casos temos sido infiéis e perdido o favor de nosso Senhor, é sábio pensar em como, por outro meio, podemos fazer com que o que temos no mundo produza bom resultado. Não se devem forçar as parábolas além de sua intenção principal.

Por isso, não devemos concluir daqui que alguém possa nos valer quando estivermos sob o desagrado de nosso Senhor, mas que, em geral, devemos empregar o que temos em obras de piedade e caridade, para que o reencontremos com conforto do outro lado da morte e do túmulo.

Se quisermos agir com sabedoria, devemos ser diligentes e trabalhadores no emprego de nossas riquezas em atos de piedade e caridade, a fim de promover nosso bem-estar futuro e eterno. Os homens do mundo são assim diligentes ao empregá-las para obter o maior lucro temporal, fazer amigos com elas e garantir outros interesses terrenos. Assim diz o Dr. Clarke. Consideremos agora:

I. A própria parábola, na qual todos os filhos dos homens são apresentados como administradores do que têm neste mundo; e somos apenas administradores. Tudo o que temos pertence a Deus; temos apenas o uso das coisas, segundo a orientação de nosso grande Senhor e para sua honra.

O rabino Kimchi, citado pelo Dr. Lightfoot, diz: “Este mundo é uma casa; o céu, o telhado; as estrelas, as luzes; a terra, com seus frutos, uma mesa posta; o Senhor da casa é o Deus santo e bendito; o homem é o administrador, em cujas mãos são entregues os bens desta casa; se ele se conduzir bem, encontrará favor aos olhos de seu Senhor; se não, será afastado da administração”. Agora:

  1. Aqui está a desonestidade desse administrador. Ele desperdiçou os bens do seu senhor, apropriou-se deles, empregou-os indevidamente ou, por descuido, permitiu que se perdessem e sofressem estrago. Por isso foi acusado perante seu senhor, v. 1.

Todos estamos sujeitos à mesma acusação. Não aproveitamos devidamente o que Deus nos confiou neste mundo, mas pervertemos seu propósito. Para que nosso Senhor não nos julgue por isso, convém que julguemos a nós mesmos.

  1. Sua demissão do cargo. Seu senhor o chamou e disse: “Como é que ouço isso a teu respeito? Eu esperava coisas melhores de ti”. Fala como alguém entristecido por descobrir que o administrador o decepcionou e por se ver obrigado a dispensá-lo de seu serviço. Perturba-o ouvir isso; mas o administrador não pode negar a acusação.

Portanto, não há remédio: precisa prestar contas e, em pouco tempo, partir, v. 2. Isso se destina a nos ensinar:

(1.) Que todos nós em breve seremos afastados da nossa administração neste mundo; não desfrutaremos para sempre das coisas de que desfrutamos agora. A morte virá e nos dispensará da administração. Ela nos privará das capacidades e oportunidades que hoje temos de fazer o bem, e outros virão ocupar nosso lugar e terão essas mesmas coisas.

(2.) Que nossa demissão da administração pela morte é justa e merecida, pois desperdiçamos os bens de nosso Senhor e, assim, perdemos a confiança que ele depositou em nós. Portanto, não podemos nos queixar de nenhuma injustiça que nos seja feita.

(3.) Que, quando nos for tirada a administração, teremos de prestar contas dela ao nosso Senhor: depois da morte, o juízo. Fomos devidamente avisados tanto da demissão quanto da prestação de contas, e devemos pensar nelas com frequência.

  1. Sua sabedoria tardia. Agora começou a pensar: “Que farei?”, v. 3. Teria sido bom considerar isso antes de, por sua infidelidade, perder tão tolamente um bom cargo. Mas é melhor pensar tarde do que nunca. Repare: uma vez que todos fomos avisados de que em breve seremos afastados da administração, cabe-nos pensar no que faremos então.

Ele precisa viver; como obterá o sustento? (1.) Sabe que não tem em si um grau suficiente de laboriosidade para ganhar a vida trabalhando: “Não posso cavar; não posso ganhar meu pão com meu trabalho”. Mas por que não pode cavar? Não parece ser velho nem aleijado; a verdade é que é preguiçoso.

Seu “não posso” é um “não quero”; a incapacidade que o aflige não é natural, mas moral. Se seu senhor, ao afastá-lo da administração, o tivesse mantido a seu serviço como trabalhador e posto um capataz sobre ele, teria feito com que cavasse. Não pode cavar porque nunca se habituou a isso.

Isso indica que não podemos obter sustento para nossa alma mediante nenhum trabalho deste mundo, nem, de fato, fazer algo proveitoso por nossa alma por qualquer capacidade própria. (2.) Sabe que não tem humildade suficiente para conseguir pão mendigando: “Tenho vergonha de mendigar”. Estas foram as palavras de seu orgulho, como as anteriores foram as de sua preguiça.

Aqueles a quem Deus, em sua providência, incapacitou de ajudar a si mesmos não devem ter vergonha de pedir socorro a outros. Esse administrador tinha mais motivos para se envergonhar de cometer embuste contra seu senhor do que de mendigar o pão.

(3.) Portanto, decide fazer amigos entre os devedores de seu senhor, ou entre os arrendatários atrasados no aluguel que haviam assinado notas da dívida: “Já decidi o que farei, v. 4. Meu senhor me expulsa de sua casa, e não tenho casa própria para onde ir. Conheço os arrendatários de meu senhor e já lhes fiz muitos favores; agora lhes farei mais um.

“Isso os deixará tão obrigados a mim que me receberão em suas casas e me oferecerão o melhor que puderem. Enquanto eu viver, ou ao menos até encontrar situação melhor, ficarei hospedado às custas deles, indo de uma boa casa para outra”.

O meio que empregaria para fazer deles seus amigos era cancelar uma parte considerável da dívida que tinham com seu senhor e lançar nas contas um valor muito menor. Assim, chamou um que devia a seu senhor cem medidas de azeite, mercadoria com que pagava o aluguel: “Toma tua conta”, disse ele, “aqui está; assenta-te depressa e escreve cinquenta”, v. 6. Desse modo, reduziu a dívida à metade.

Observe: ele tinha pressa de fazer isso: “Assenta-te depressa e faze-o, para que não nos apanhem negociando e suspeitem de nós”. Chamou outro que devia a seu senhor cem medidas de trigo; da conta dele, cancelou a quinta parte e lhe mandou escrever oitenta, v. 7. Provavelmente fez o mesmo com outros, reduzindo mais ou menos a dívida conforme o favor que esperava deles.

Veja aqui como são incertas as nossas posses neste mundo. São ainda mais incertas para os que mais possuem, pois estes entregam a outros todo o cuidado com seus bens e, assim, lhes dão o poder de cometer embuste contra eles, porque não querem se dar ao trabalho de ver com os próprios olhos.

Veja também quanta traição pode haver até entre aqueles a quem se confia algo. Como é difícil encontrar alguém em quem se possa depositar confiança! Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Embora esse administrador seja afastado por ter agido desonestamente, continua a agir assim. É muito raro que as pessoas corrijam uma falta, mesmo quando sofrem por causa dela.

  1. A aprovação disso: o senhor elogiou o administrador injusto porque agiu com sabedoria, v. 8. Pode tratar-se do senhor daquele servo, que não podia deixar de se indignar com sua desonestidade, mas admirava sua engenhosidade e sagacidade em benefício próprio.

Se entendermos assim, porém, a parte final do versículo precisa ser palavra de nosso Senhor; por isso penso que todo o versículo se refere a ele. Cristo disse, por assim dizer: “Recomendem-me um homem como este, que sabe agir em benefício próprio, aproveitar a oportunidade presente e se preparar para uma necessidade futura”.

Ele não o elogia por ter enganado seu senhor, mas por ter agido com sabedoria em benefício próprio. Contudo, talvez nisso também tenha feito bem a seu senhor e agido com justiça para com os arrendatários.

Sabia que lhes havia imposto negócios onerosos, de modo que não podiam pagar o aluguel. Pressionados por sua severidade, ficaram em atraso, e eles e suas famílias estavam perto da ruína. Por isso, ao partir, fez o que devia fazer tanto por justiça quanto por caridade: não só aliviou parte do que deviam, mas também reduziu o aluguel futuro.

“Quanto deves?” pode significar: “Qual é o aluguel que pagas? Vem, vou estabelecer contigo um negócio mais leve, embora não mais leve do que o que deverias ter”. Antes se dedicava inteiramente ao seu senhor; agora começa a pensar nos arrendatários, para obter o favor deles depois de perder o do senhor.

A redução do aluguel seria um favor duradouro e teria mais probabilidade de conquistá-los do que apenas a redução das dívidas atrasadas. Essa previsão dele para obter sustento confortável neste mundo envergonha nossa falta de previsão para o outro mundo.

Os filhos deste mundo, que o escolhem e nele têm sua porção, são mais sábios em sua geração: agem com mais ponderação e zelam melhor por seus interesses e vantagens terrenos do que os filhos da luz, que desfrutam do evangelho, em sua própria geração, isto é, no que diz respeito à alma e à eternidade.

Repare: (1.) Devemos imitar, nos interesses de nossa alma, a sabedoria das pessoas do mundo nos assuntos deste mundo. Seu princípio é aproveitar as oportunidades, fazer primeiro o que é mais necessário, guardar no verão e na colheita para o inverno, aceitar um bom negócio quando oferecido e confiar nos fiéis, não nos falsos. Ah, se fôssemos assim sábios nos assuntos espirituais!

(2.) Os filhos da luz costumam ser superados pelos filhos deste mundo. Não que os filhos deste mundo sejam verdadeiramente sábios; são sábios apenas em sua geração. Mas nela são mais sábios do que os filhos da luz na sua.

Embora nos tenham dito que em breve seremos afastados da administração, não nos preparamos, como se fôssemos ficar aqui para sempre e não houvesse outra vida depois desta. Não somos tão cuidadosos em nos preparar para o futuro quanto foi esse administrador.

Como filhos da luz, aquela luz à qual a vida e a imortalidade são trazidas pelo evangelho, não podemos deixar de ver diante de nós outro mundo. Ainda assim, não nos preparamos para ele nem enviamos para lá, como deveríamos, nossos melhores bens e nossos melhores afetos.

II. A aplicação dessa parábola e as conclusões tiradas dela, v. 9: “Eu vos digo, a vós, meus discípulos” (pois a eles se dirige a parábola, v. 1), “embora tenhais pouco neste mundo, considerai como podeis fazer o bem com esse pouco”. Observe:

  1. A que nosso Senhor Jesus nos exorta aqui: a nos prepararmos para ser recebidos com conforto na felicidade do outro mundo, fazendo bom uso das nossas posses e desfrutes neste: “Fazei para vós amigos com o mamom da injustiça, como o administrador, com os bens de seu senhor, fez dos arrendatários amigos seus”.

A sabedoria dos homens deste mundo consiste em administrar o dinheiro de modo que obtenham benefício dele mais tarde, não só no presente. Por isso o emprestam a juros, compram terras com ele e o aplicam neste ou naquele fundo.

Devemos aprender com eles a usar o dinheiro para que ele nos beneficie mais tarde, no outro mundo, assim como eles esperam que o seu os beneficie mais tarde neste mundo. Lancemo-lo, portanto, sobre as águas para que o encontremos novamente depois de muitos dias, Eclesiastes 11:1.

Em nosso caso, embora tudo o que temos seja bem do nosso Senhor, enquanto o distribuirmos entre os arrendatários dele e em benefício deles, isso está tão longe de ser considerado uma injustiça contra ele que é tanto um dever para com ele quanto uma medida sábia para nós mesmos.

Repare: (1.) As coisas deste mundo são o mamom da injustiça, ou o falso mamom. Não apenas porque muitas vezes são obtidas por fraude e injustiça, mas porque aqueles que confiam nelas para obter satisfação e felicidade certamente serão enganados: as riquezas são perecíveis e decepcionarão os que depositam nelas suas expectativas.

(2.) Embora não se deva confiar nesse mamom da injustiça para alcançar a felicidade, ele pode e deve ser usado a serviço da busca daquilo que constitui nossa felicidade. Embora não possamos encontrar nele verdadeira satisfação, podemos fazer amigos com ele; não por compra ou mérito, mas por recomendação.

Assim, podemos fazer de Deus e de Cristo nossos amigos, dos bons anjos e santos nossos amigos, e dos pobres nossos amigos. É desejável ter quem nos favoreça na prestação de contas e no estado futuro.

(3.) Na morte, todos nós faliremos: hotan eklipete, quando vocês sofrem um eclipse. A morte nos eclipsa. Diz-se que um comerciante faliu quando se tornou insolvente. Todos nós faliremos assim em breve: a morte fecha a loja e sela a mão. Todos os nossos confortos e desfrutes na terra nos faltarão; a carne e o coração desfalecem.

(4.) Nossa grande preocupação deve ser assegurar que, ao falharmos na morte, sejamos recebidos nas habitações eternas do céu. As habitações no céu são eternas, não feitas por mãos, mas eternas, 2 Coríntios 5:1.

Cristo foi à frente para preparar um lugar para os que lhe pertencem e ali está pronto para recebê-los. O seio de Abraão está pronto para recebê-los; quando uma guarda de anjos os leva para lá, um coro de anjos também está pronto para recebê-los ali.

Os santos pobres que foram antes para a glória receberão aqueles que, neste mundo, atenderam às suas necessidades.

(5.) Esta é uma boa razão para usar o que temos no mundo para a honra de Deus e o bem dos nossos irmãos: assim poderemos, com eles, armazenar um bom título, uma boa garantia, um bom fundamento para o tempo futuro, para a eternidade futura. Veja 1 Timóteo 6:17-19, que explica isso aqui.

  1. Com que razões ele insiste nessa exortação para abundarmos em obras de piedade e caridade:

(1.) Se não fizermos uso correto das dádivas da providência de Deus, como poderemos esperar dele os confortos presentes e futuros que são dádivas de sua graça espiritual? Nosso Salvador os compara aqui.

Mostra que, embora não se possa pensar que nosso uso fiel das coisas deste mundo mereça qualquer favor da parte de Deus, nossa infidelidade no uso delas pode, com justiça, ser considerada perda daquela graça necessária para nos levar à glória. É isso que nosso Salvador mostra aqui, vv. 10-14.

[1.] As riquezas deste mundo são as menores; a graça e a glória são as maiores. Se formos infiéis nas menores, usando as coisas deste mundo para fins diferentes daqueles para os quais nos foram dadas, pode-se recear, com razão, que também seremos infiéis nas dádivas da graça de Deus.

Poderíamos recebê-las em vão; por isso nos serão negadas: “Quem é fiel no mínimo também é fiel no muito”. Quem serve a Deus e faz o bem com seu dinheiro servirá a Deus e fará o bem com talentos mais nobres e valiosos: a sabedoria, a graça, os dons espirituais e as garantias do céu.

Mas quem enterra o único talento da riqueza deste mundo nunca aproveitará os cinco talentos das riquezas espirituais. Deus retém sua graça dos cobiçosos deste mundo mais do que percebemos.

[2.] As riquezas deste mundo são enganosas e incertas; são o mamom injusto, que se afasta de nós rapidamente. Se quisermos tirar proveito dele, precisamos agir depressa. Se não o fizermos, como poderemos esperar que nos sejam confiadas as riquezas espirituais, as únicas riquezas verdadeiras (v. 11)?

Convençamo-nos de que são ricos na verdade, e muito ricos, os que são ricos na fé e para com Deus, ricos em Cristo, nas promessas e nas garantias do céu. Portanto, guardemos nelas nosso tesouro, esperemos delas nossa porção e cuidemos delas em primeiro lugar, isto é, do reino de Deus e da sua justiça.

Então, se outras coisas nos forem acrescentadas, usemo-las in ordine ad spiritualia — com referência às coisas espirituais. Usando-as bem, poderemos nos apegar ainda mais às verdadeiras riquezas e estar aptos a receber ainda mais graça de Deus.

Pois Deus dá ao homem que é bom diante dele, isto é, ao homem generoso e caridoso, sabedoria, conhecimento e alegria, Eclesiastes 2:26. Ou seja, ao homem fiel no uso do mamom injusto, ele dá as verdadeiras riquezas.

[3.] As riquezas deste mundo pertencem a outro. São ta allotria, não nossas, pois são estranhas à alma, à sua natureza e aos seus interesses. Não são nossas porque são de Deus; o direito dele a elas é anterior e superior ao nosso. A propriedade permanece com ele; somos apenas usufrutuários.

Pertencem a outro: recebemo-las de outros e as usamos em favor de outros. Que proveito tem o dono dos bens que se multiplicam, além de contemplá-los com os olhos, enquanto também aumenta o número dos que os consomem? Em breve teremos de deixá-los para outros, e não sabemos para quem.

Mas as riquezas espirituais e eternas são nossas, pois entram na alma que as possui, e dela não podem ser separadas. São a boa parte que nunca nos será tirada. Se fizermos de Cristo, das promessas e do céu algo nosso, teremos o que podemos chamar verdadeiramente de nosso.

Como poderemos, porém, esperar que Deus nos enriqueça com essas coisas se não o servirmos com nossas posses neste mundo, das quais somos apenas administradores?

(2.) Não temos outro modo de provar que somos servos de Deus senão nos entregar inteiramente ao serviço dele. Assim, faremos do mamom, isto é, de todos os nossos ganhos neste mundo, um instrumento que nos sirva no serviço de Deus, v. 13.

Nenhum servo pode servir a dois senhores cujas ordens sejam tão incompatíveis quanto as de Deus e as do mamom. Se alguém amar o mundo e a ele se apegar, inevitavelmente odiará a Deus e o desprezará. Fará com que todas as suas alegações religiosas se curvem aos seus interesses e desígnios terrenos, e usará as coisas de Deus como ajuda para servir e buscar o mundo.

Por outro lado, se alguém amar a Deus e a ele se apegar, odiará o mundo em comparação com ele, sempre que Deus e o mundo entrarem em rivalidade, e o desprezará. Fará com que todos os seus negócios e êxitos neste mundo contribuam, de um modo ou de outro, para o seu progresso na religião; e usará as coisas do mundo para servir a Deus e buscar sua salvação.

A questão está exposta claramente diante de nós: “Não podeis servir a Deus e ao mamom”. Seus interesses são tão distintos que seus serviços jamais poderão ser conciliados. Portanto, se decidirmos servir a Deus, precisaremos renunciar e repudiar o serviço do mundo.

  1. Aqui nos é contado como os fariseus receberam essa doutrina de Cristo e que repreensão ele lhes deu:

(1.) Ridicularizaram-no perversamente, v. 14. Os fariseus, que eram cobiçosos, ouviram todas essas coisas e não puderam contradizê-lo, mas zombaram dele. Consideremos isso: [1.] Como pecado deles e fruto de sua cobiça, que era o pecado dominante deles, a sua própria iniquidade.

Repare: muitos que fazem grande profissão de religião, têm muito conhecimento e se dedicam intensamente às práticas de devoção acabam arruinados pelo amor ao mundo. Nada endurece mais o coração contra a palavra de Cristo.

Esses fariseus cobiçosos não suportaram que se tocasse naquilo que era sua Dalila, seu desejo carnal preferido. Por isso zombaram dele: exemykterizon auton — torceram o nariz para ele, ou assoaram o nariz sobre ele. É uma expressão do máximo desprezo e desdém imagináveis; a palavra do Senhor era para eles motivo de descrédito, Jeremias 6:10.

Riram dele por contrariar tanto a opinião e os costumes do mundo, ao tentar recuperá-los de um pecado ao qual estavam decididos a se apegar. Repare: é comum fazerem troça da palavra de Deus os que estão decididos a não se deixar governar por ela. Mas por fim descobrirão que não poderão descartá-la tão facilmente.

[2.] Como sofrimento dele. Nosso Senhor Jesus suportou não apenas a contradição dos pecadores, mas também seu desprezo; zombaram dele o dia inteiro. Aquele que falou como ninguém jamais falou foi alvo de escárnio e zombaria, para que seus ministros fiéis, cuja pregação é ridicularizada injustamente, não desalentem por isso.

Não é vergonha ser alvo de riso, mas merecê-lo. Os apóstolos de Cristo foram ridicularizados, e não é de admirar: o discípulo não é maior que seu Senhor.

(2.) Ele os censurou com justiça, não por terem zombado dele, pois sabia desprezar a vergonha, mas por enganarem a si mesmos com aparências e cores de piedade, embora desconhecessem o poder dela, v. 15. Aqui estão:

[1.] Seu exterior de aparência convincente; ou melhor: esplêndido. Primeiro, justificavam a si mesmos diante dos homens. Negavam todo mal de que fossem acusados, até pelo próprio Cristo. Reivindicavam ser vistos como homens de santidade e devoção singulares e se justificavam nessa alegação.

“Vós sois os que fazem isso como ninguém jamais fez. Tendes por ocupação conquistar a opinião dos homens e, com razão ou sem ela, vos justificareis diante do mundo; sois conhecidos por isso.” Segundo, eram muito estimados entre os homens.

As pessoas não apenas os absolviam de qualquer culpa que lhes atribuíssem, mas os aplaudiam e veneravam, não só como homens bons, mas como os melhores entre os homens. Suas opiniões eram consideradas oráculos, suas orientações eram tomadas como leis, e suas práticas, como normas invioláveis.

[2.] Seu interior odioso, que estava sob os olhos de Deus: “Ele conhece o vosso coração, que é uma abominação à sua vista, pois está cheio de todo tipo de perversidade”. Repare: primeiro, é tolice justificar a nós mesmos diante dos homens e achar que basta ninguém conhecer o mal que há em nós para sermos defendidos e absolvidos no juízo do grande dia.

Deus conhece nosso coração e, por isso, conhece em nós um mal que ninguém mais pode conhecer. Saber que Deus conhece nosso coração, e quanto engano há nele, deve refrear a opinião que temos de nós mesmos e nossa autoconfiança. Temos motivos para nos humilhar e desconfiar de nós mesmos.

Segundo, é tolice julgar pessoas e coisas pela opinião que os homens têm delas e seguir a corrente da avaliação comum. Aquilo que é muito estimado entre os homens, que julgam pela aparência exterior, talvez seja uma abominação à vista de Deus, que vê as coisas como são e cujo juízo, sabemos, é conforme a verdade.

Em contrapartida, há aqueles que os homens desprezam e condenam, mas que são aceitos e aprovados por Deus, 2 Coríntios 10:18.

(3.) Ele se voltou dos fariseus para os publicanos e pecadores, que tinham mais probabilidade de ser tocados por seu evangelho do que aqueles fariseus cobiçosos e presunçosos, v. 16:

“A lei e os profetas vigoraram, de fato, até João. A dispensação do Antigo Testamento, restrita a vós, judeus, continuou até o surgimento de João Batista. Parecia que detínheis o monopólio da justiça e da salvação. Isso vos enche de orgulho e vos traz estima entre os homens: sois estudiosos da lei e dos profetas.

“Mas, desde que João Batista apareceu, o reino de Deus é pregado. É uma dispensação do Novo Testamento que não atribui valor algum a alguém por ser doutor da lei. Todos se esforçam para entrar no reino do evangelho, gentios assim como judeus; ninguém se julga obrigado, por boa educação, a deixar que seus superiores entrem primeiro.

“Ninguém espera até que os governantes e fariseus o conduzam para lá. Não se trata tanto de uma constituição política nacional, como era a ordem judaica, quando a salvação vinha dos judeus. Tornou-se um assunto pessoal de cada um.

“Por isso, todo aquele que se convence de que tem uma alma a salvar e uma eternidade para a qual se preparar se empenha em entrar, para não perder a oportunidade por ficar se distraindo e cumprindo formalidades”.

Alguns dão a isso este sentido: eles ridicularizavam Cristo por falar com desprezo das riquezas. Pensavam: não havia, na lei e nos profetas, muitas promessas de riquezas e de outros bens temporais? E muitos dos melhores servos de Deus, como Abraão e Davi, não eram muito ricos?

“É verdade”, diz Cristo, “era assim. Mas agora que o reino de Deus começou a ser pregado, as coisas tomam um novo rumo: bem-aventurados são os pobres, os que choram e os perseguidos”.

Os fariseus, para retribuir ao povo a alta opinião que tinha deles, admitiam que seguisse uma religião barata, fácil e formal. “Mas”, diz Cristo, “agora que o evangelho é pregado, os olhos do povo se abrem. Já não podem venerar os fariseus como antes, nem se contentar com a indiferença religiosa em que foram criados; avançam com santa impetuosidade para entrar no reino de Deus”.

Repare: os que querem ir para o céu precisam se empenhar, lutar contra a corrente e avançar contra a multidão que caminha na direção oposta.

(4.) Contudo, ele continua a rejeitar qualquer intenção de invalidar a lei, v. 17: “É mais fácil passarem o céu e a terra”, parelthein — passarem, desaparecerem —, embora os fundamentos da terra e as colunas do céu estejam tão firmemente estabelecidos, “do que falhar um só til da lei”.

A lei moral está confirmada e ratificada, e nem um til dela falha. Os deveres que ela ordena continuam sendo deveres; os pecados que ela proíbe continuam sendo pecados. Ou melhor, seus preceitos são explicados e reforçados pelo evangelho, que revela seu caráter mais espiritual.

A lei cerimonial é aperfeiçoada nas cores do evangelho. Nem um til dela falha, pois ela se encontra impressa no evangelho. Embora sua força como lei tenha sido retirada, sua figura como símbolo brilha ali intensamente, como testemunha a epístola aos Hebreus.

A lei tolerava algumas coisas para evitar danos maiores. O evangelho, de fato, retirou essa permissão, mas sem nenhum prejuízo ou descrédito para a lei. Com isso, reconduziu tais assuntos à intenção original da lei, como no caso do divórcio, v. 18, que vimos antes em Mateus 5:32; 19:9.

Cristo não consentirá nos divórcios, pois seu evangelho visa atingir a raiz amarga dos desejos e paixões corrompidos dos homens, matá-los e arrancá-los. Portanto, não devem ser tolerados tanto quanto aquela permissão os tolerava. Quanto mais forem tolerados, mais impetuosos e obstinados se tornarão.

Versículos 19 a 31

O Rico e Lázaro.

Assim como a parábola do filho pródigo nos apresentou a graça do evangelho, que dá ânimo a todos nós, esta nos apresenta a cólera vindoura e tem o desígnio de nos despertar. Dormem muito profundamente no pecado aqueles que não querem ser despertados por ela.

Os fariseus zombaram do sermão de Cristo contra o mundanismo; agora essa parábola tinha o propósito de tornar sérios aqueles zombadores. O evangelho de Cristo tende tanto a nos reconciliar com a pobreza e a aflição quanto a nos armar contra as tentações ao mundanismo e à sensualidade.

Essa parábola, ao abrir a cortina e nos deixar ver qual será o fim de ambos no outro mundo, avança muito na realização dessas duas grandes intenções.

Não é como as outras parábolas de Cristo, nas quais coisas espirituais são representadas por comparações tiradas das coisas mundanas, como a do semeador e da semente, a do filho pródigo e, na verdade, todas as outras, exceto esta e a das ovelhas e dos bodes.

Aqui as próprias coisas espirituais são representadas numa narrativa ou descrição do diferente estado dos bons e dos maus neste mundo e no outro. Contudo, não precisamos chamá-la de história de um acontecimento particular.

É um fato verdadeiro a cada dia que pessoas pobres e piedosas, negligenciadas e pisadas pelos homens, morrem, saem de suas misérias e vão à felicidade e alegria celestiais, que suas dores anteriores tornam mais agradáveis para elas.

É um fato que os ricos epicureus, que vivem no luxo e são impiedosos para com os pobres, morrem e vão para um estado de tormento insuportável, tanto mais penoso e terrível por causa da vida sensual que viveram; e que não há como obter qualquer alívio de seus tormentos.

Isso é uma parábola? Que comparação há nisso? O discurso entre Abraão e o rico é, de fato, apenas uma ilustração da descrição para torná-la mais comovente, como o de Deus e Satanás na história de Jó.

Nosso Salvador veio nos familiarizar com outro mundo e mostrar a relação deste mundo com aquele; aqui faz isso. Nessa descrição, pois é assim que prefiro chamá-la, podemos observar:

I. A diferente condição de um rico perverso e de um pobre piedoso neste mundo. Sabemos que, como alguns em tempos recentes, os judeus antigos estavam prontos a fazer da prosperidade uma das marcas da igreja verdadeira, de um homem bom e de alguém favorecido pelo céu.

Assim, dificilmente podiam pensar favoravelmente sobre um pobre. Cristo se empenhava em corrigir esse engano em todas as ocasiões, e aqui de modo muito completo. Temos aqui:

  1. Um homem perverso, que será miserável para sempre, no auge da prosperidade (v. 19): “Havia certo homem rico”. Pelo latim, costumamos chamá-lo de Dives: um rico.

Mas, como observa o bispo Tillotson, não lhe é dado nome, como ao pobre, pois dar nome a algum rico particular numa descrição como essa teria sido odioso e capaz de provocar e despertar má vontade.

Outros, porém, observam que Cristo não quis dar ao rico tanta honra a ponto de nomeá-lo. Talvez, ao dar às suas terras seu próprio nome, pensasse que ele sobreviveria por muito tempo ao do mendigo à sua porta; contudo, este é preservado aqui, enquanto o do rico está sepultado no esquecimento.

Agora nos é dito sobre esse rico:

(1.) Que “se vestia de púrpura e linho fino”, e esse era seu adorno. Tinha linho fino para seu prazer, sem dúvida limpo todos os dias; roupa de linho para a noite e para o dia. Tinha púrpura para ostentar, pois era a roupa dos príncipes, o que fez alguns conjecturarem que Cristo tinha Herodes em vista. Nunca saía sem grande magnificência.

(2.) Comia deliciosa e suntuosamente todos os dias. Sua mesa tinha todas as variedades e iguarias que a natureza e a arte podiam fornecer; o aparador era ricamente adornado de prataria; seus servos à mesa usavam librés ricas; e os convidados à mesa eram, sem dúvida, aqueles que julgava honrá-la.

Bem, e que prejuízo havia em tudo isso? Não é pecado ser rico, vestir púrpura e linho fino, nem manter uma mesa abundante, se os bens de um homem permitem isso. Tampouco nos é dito que adquiriu seus bens por fraude, opressão ou extorsão, não, nem que se embriagava ou embriagava outros. Mas:

[1.] Cristo queria mostrar com isso que um homem pode ter grande quantidade da riqueza, pompa e prazer deste mundo e, contudo, permanecer e perecer para sempre sob a cólera e a maldição de Deus.

Não podemos concluir da vida grandiosa dos homens nem que Deus os ama por lhes dar tanto, nem que eles amam Deus por lhes dar tanto; a felicidade não consiste nessas coisas.

[2.] Que a abundância e o prazer são uma tentação muito perigosa e, para muitos, fatal ao luxo, à sensualidade e ao esquecimento de Deus e do outro mundo. Esse homem poderia ter sido feliz se não tivesse posses e desfrutes tão grandes.

[3.] Que satisfazer o corpo e buscar sua comodidade e seu prazer arruína muitas almas e seus interesses. É verdade que comer bons alimentos e vestir boas roupas é lícito; mas também é verdade que frequentemente se tornam alimento e combustível do orgulho e do luxo, e assim se transformam em pecado para nós.

[4.] Que banquetearmos a nós mesmos e a nossos amigos e, ao mesmo tempo, esquecermos as angústias dos pobres e aflitos provoca muito a Deus e condena a alma. O pecado desse rico não estava tanto em sua roupa ou alimentação, mas em prover apenas para si.

  1. Aqui está um homem piedoso, que será feliz para sempre, na profundidade da adversidade e da angústia (v. 20): “Havia certo mendigo, chamado Lázaro”. Um mendigo com esse nome, eminentemente devoto e em grande angústia, provavelmente era bem conhecido entre os bons naquele tempo: um mendigo, suponhamos alguém como Eleazar ou Lázaro.

Alguns consideram Eleazar um nome apropriado para qualquer pobre, pois significa a ajuda de Deus, à qual precisam recorrer os destituídos de outras ajudas. Esse pobre foi reduzido ao último extremo, tão miserável nas coisas exteriores quanto você facilmente pode imaginar um homem neste mundo.

(1.) Seu corpo estava cheio de feridas, como o de Jó. Estar doente e fraco no corpo é grande aflição; mas as feridas são mais dolorosas para o paciente e mais repugnantes para aqueles ao seu redor.

(2.) Foi obrigado a mendigar seu pão e se contentar com as sobras que podia obter à porta dos ricos. Estava tão ferido e aleijado que não podia ir por si mesmo, mas era carregado por alguma mão compassiva e colocado à porta do rico.

Repare: Os que não podem ajudar os pobres com sua bolsa deveriam ajudá-los com seus esforços; os que não podem lhes emprestar um dinheiro deveriam lhes emprestar uma mão; os que não têm com que lhes dar deveriam levá-los, ou ir em favor deles, àqueles que têm.

Lázaro, em sua angústia, nada tinha de seu para subsistir, nenhum parente a quem recorrer, nem a comunidade local cuidava dele. É um exemplo da degeneração da igreja judaica naquele tempo que um homem piedoso como Lázaro fosse deixado perecer por falta do alimento necessário. Agora observe:

[1.] Suas expectativas da mesa do rico: desejava ser alimentado com as migalhas, v. 21. Não esperava uma porção da mesa dele, embora devesse recebê-la, uma das melhores, mas seria grato pelas migalhas debaixo da mesa, os restos de alimento deixados pelo rico; ou melhor, as sobras de seus cães.

Os pobres usam súplicas e precisam se contentar com o que podem obter. Isso é mencionado para mostrar:

Primeiro, qual era a angústia e qual a disposição do pobre. Era pobre, mas pobre de espírito, pobre com contentamento. Não ficava à porta do rico se queixando, gritando e fazendo barulho, mas desejando, em silêncio e com modéstia, ser alimentado com as migalhas.

Esse miserável era um homem bom e tinha o favor de Deus. Repare: Frequentemente alguns dos mais queridos santos e servos de Deus têm por destino ser muito afligidos neste mundo, enquanto os perversos prosperam e têm abundância; veja Salmos 73:7, 10, 14.

Aqui está um filho de cólera e herdeiro do inferno sentado na casa, comendo suntuosamente; e um filho de amor e herdeiro do céu deitado à porta, perecendo de fome. Deve-se então julgar o estado espiritual dos homens por sua condição exterior?

Segundo, qual era a disposição do rico para com ele. Não nos é dito que o maltratava, o proibia de ficar à porta ou lhe fazia qualquer prejuízo, mas se indica que o desprezava. Não se importava com ele nem cuidava dele.

Aqui havia um verdadeiro alvo da caridade, muito comovente, que falava por si; era apresentado à sua própria porta. O pobre tinha bom caráter e boa conduta, e tudo o que poderia recomendá-lo. Uma pequena coisa seria grande bondade para ele.

Contudo, o rico não reparava em sua situação, não mandava acolhê-lo e alojá-lo no celeiro ou em alguma construção anexa, mas o deixava deitado ali.

Repare: Não basta deixar de oprimir e pisar os pobres; seremos considerados administradores infiéis dos bens de nosso Senhor no grande dia se não os socorrermos e auxiliarmos. O motivo dado para a condenação mais temível é: “Eu estava com fome, e vós não me destes alimento”.

Admiro-me de como os ricos que leram o evangelho de Cristo e dizem crer nele podem ser tão despreocupados, como frequentemente são, com as necessidades e misérias dos pobres e aflitos.

[2.] O tratamento que recebeu dos cães: “Os cães vinham e lambiam suas feridas”. Talvez o rico mantivesse um canil de cães de caça, ou outros cães, para sua diversão e para satisfazer sua fantasia. Eram plenamente alimentados, enquanto o pobre Lázaro não obtinha o suficiente para se manter vivo.

Repare: Terão muito por que responder depois os que alimentam seus cães, mas negligenciam os pobres. Agrava muito a falta de caridade de muitos ricos que gastem em suas fantasias e insensatezes aquilo que supriria a necessidade e alegraria o coração de muitos bons cristãos em angústia.

Ofendem a Deus, ou melhor, desprezam a natureza humana aqueles que mimam seus cães e cavalos e deixam morrer de fome as famílias de seus pobres vizinhos. Esses cães vinham lamber as feridas do pobre Lázaro, o que pode ser entendido:

Primeiro, como agravamento de sua miséria. Suas feridas eram sanguinolentas, o que atraía os cães para lambê-las, como lamberam o sangue de Nabote e de Acabe, 1 Reis 21:19. Lemos da língua dos cães mergulhada no sangue dos inimigos, Salmos 68:23.

Atacavam-no enquanto ainda estava vivo, como se já estivesse morto. Ele não tinha forças para afastá-los, nem algum servo seria tão cortês a ponto de contê-los. Os cães eram como seu dono e pensavam comer suntuosamente quando se regalavam com sangue humano.

Ou, segundo, pode ser entendido como algum alívio para ele em sua miséria; alla kai: o dono tinha o coração duro para com ele, mas os cães vinham lamber suas feridas, o que as amaciava e aliviava. Não se diz que as sugavam, mas que as lambiam, o que lhes fazia bem. Os cães eram mais bondosos com ele do que seu dono.

II. Aqui está a diferente condição desse pobre piedoso e desse rico perverso na morte e depois dela. Até aqui o perverso parece ter vantagem, mas Exitus acta probat: esperemos um pouco para ver o fim disso:

  1. Ambos morreram (v. 22): “O mendigo morreu”; “o rico também morreu”. A morte é o destino comum dos ricos e pobres, piedosos e ímpios; nela se encontram. Um morre em pleno vigor, outro na amargura de sua alma, mas ambos se deitarão igualmente no pó, Jó 21:26.

A morte não favorece nem o rico por suas riquezas nem o pobre por sua pobreza. Os santos morrem para pôr fim às suas dores e entrar em suas alegrias. Os pecadores morrem para prestar contas. Ricos e pobres precisam se preparar para a morte, pois ela espera ambos.

Mors sceptra ligonibus æquat: a morte mistura o cetro com a pá.

------æquo pulsat pede pauperum tabernas,

Regumque turres.

Com passo igual, o destino imparcial

Bate tanto à porta do palácio como à da cabana.

  1. O mendigo morreu primeiro. Deus frequentemente tira os piedosos do mundo enquanto deixa os perversos florescerem continuamente. Foi uma vantagem para o mendigo que suas misérias terminassem tão depressa; como não encontrou outro abrigo nem lugar de descanso, foi escondido na sepultura, onde os cansados descansam.

  2. O rico morreu e foi sepultado. Nada se diz do sepultamento do pobre. Cavaram um buraco em qualquer lugar e jogaram seu corpo nele, sem solenidade alguma; foi sepultado com o sepultamento de um jumento.

Ou melhor: já seria bom se aqueles que deixaram os cães lamber suas feridas não os tivessem deixado roer seus ossos. Mas o rico teve um funeral pomposo, foi exposto com magnificência, teve um cortejo de pranteadores para acompanhá-lo à sepultura e um monumento imponente erguido sobre ela.

Provavelmente teve um discurso fúnebre em seu louvor, de seu generoso modo de viver e da boa mesa que mantinha, elogiada pelos que nela tinham banqueteado.

Diz-se do perverso que é levado à sepultura com grande aparato e colocado no túmulo, e que, se fosse possível, os torrões do vale lhe seriam tornados doces, Jó 21:32, 33. Quão alheia à felicidade do homem é a cerimônia de um funeral!

  1. O mendigo morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Quanto a honra feita à sua alma, por essa escolta até seu descanso, excedeu a honra feita ao rico, levando seu corpo com tanta magnificência à sepultura! Observe:

(1.) Sua alma existia num estado de separação do corpo. Não morreu nem adormeceu com o corpo; sua lâmpada não se apagou com ele, mas vivia, agia e sabia o que fazia e o que lhe era feito.

(2.) Sua alma passou a outro mundo, o mundo dos espíritos; voltou a Deus, que a deu, à sua terra natal. Isso está implícito em ser levada. O espírito do homem sobe.

(3.) Os anjos cuidaram dela; foi levada pelos anjos. Eles são espíritos ministradores aos herdeiros da salvação, não apenas enquanto vivem, mas quando morrem. Têm um encargo a respeito deles, para sustentá-los nas mãos, não apenas em suas idas e vindas pela terra, mas em sua grande viagem à morada duradoura no céu.

São tanto seus guias quanto seus guardas através de regiões desconhecidas e inseguras. A alma do homem, se não estiver acorrentada a esta terra e presa por ela como as almas não santificadas, tem em si uma virtude elástica, pela qual salta para cima assim que se livra do corpo.

Mas Cristo não confiará os seus a isso e, portanto, enviará mensageiros especiais para trazê-los a si. Poderíamos pensar que um anjo bastasse, mas aqui há mais, como muitos foram enviados para Elias. Amásis, rei do Egito, tinha sua carruagem puxada por reis; mas o que era aquela honra comparada a esta?

Os santos sobem pela virtude da ascensão de Cristo, mas essa escolta de anjos é acrescentada para magnificência e decoro. Os santos serão trazidos para casa não apenas em segurança, mas com honra.

O que eram os carregadores no funeral do rico, embora provavelmente de primeira posição, comparados aos de Lázaro? Os anjos não receavam tocá-lo, pois suas feridas estavam no corpo, não na alma; ela foi apresentada a Deus sem mancha, ruga ou coisa semelhante.

“Agora, benditos anjos”, disse um homem bom que estava expirando, “agora venham cumprir seu ofício”.

(4.) Foi levada ao seio de Abraão. Os judeus expressavam de três maneiras a felicidade dos justos na morte: vão para o jardim do Éden; vão para debaixo do trono da glória; vão para o seio de Abraão. Essa é a expressão que nosso Salvador usa aqui.

Abraão era o pai dos fiéis. Para quem deveriam ser reunidas as almas dos fiéis senão para ele, que, como um pai terno, as põe em seu seio, sobretudo em sua primeira chegada, para lhes dar boas-vindas e revigorá-las quando acabam de chegar das dores e fadigas deste mundo?

Foi levado a seu seio, isto é, para banquetear com ele, pois nos banquetes se diz que os convidados se reclinam sobre o peito uns dos outros; e os santos no céu se sentam com Abraão, Isaque e Jacó.

Abraão era um homem grande e rico; contudo, no céu não desdenha de pôr o pobre Lázaro em seu seio. Santos ricos e pobres se encontram no céu.

Esse pobre Lázaro, que não podia ser admitido dentro da porta do rico, é conduzido à sala de refeições, ao quarto do palácio celestial. É posto no seio de Abraão aquele a quem o rico glutão desdenhava de colocar com os cães de seu rebanho.

  1. A próxima notícia que você ouve do rico, depois do relato de sua morte e sepultamento, é que “no inferno levantou os olhos, estando em tormento”, v. 23:

(1.) Seu estado é muito miserável. Está no inferno, no hades, no estado das almas separadas, e ali está na maior miséria e angústia possível.

Assim como as almas dos fiéis, imediatamente depois de libertas do peso da carne, estão em alegria e felicidade, assim as almas perversas e não santificadas, imediatamente depois de tiradas pela morte dos prazeres da carne, estão em miséria e tormento sem fim, sem proveito e sem remédio.

Esse tormento será muito aumentado e completado na ressurreição. O rico se dedicara inteiramente aos prazeres do mundo dos sentidos; estava totalmente ocupado com eles e os aceitava como sua porção. Portanto, era inteiramente inapto para os prazeres do mundo dos espíritos.

Para uma mente carnal como a sua, eles de fato não seriam prazer, nem poderia saboreá-los; portanto, é naturalmente excluído deles. Contudo, isso não é tudo: tinha o coração duro para com os pobres de Deus.

Assim, não apenas é privado da misericórdia, mas recebe juízo sem misericórdia e sofre tanto um castigo de dor quanto um castigo de privação.

(2.) A miséria de seu estado é agravada pelo conhecimento da felicidade de Lázaro. Levanta os olhos e vê Abraão de longe, e Lázaro em seu seio. A alma está em tormento, e os olhos da mente se levantam. Agora começou a ponderar o que havia acontecido a Lázaro.

Não o encontra onde ele próprio está. Ou melhor: vê-o claramente, com tanta certeza como se o visse com seus olhos físicos, de longe no seio de Abraão.

Já tivemos esse agravamento das misérias dos condenados (Lucas 13:28): “Vereis Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas no reino de Deus, e vós mesmos lançados fora”.

[1.] Viu Abraão de longe. Ver Abraão pareceria uma visão agradável, mas vê-lo de longe era uma visão atormentadora. Perto de si via demônios e companheiros condenados, visões assustadoras e dolorosas; de longe via Abraão. Repare: Toda visão no inferno agrava o sofrimento.

[2.] Viu Lázaro em seu seio. Aquele Lázaro que tratara com tanto desdém e desprezo, como indigno de sua atenção, agora o vê elevado e digno de inveja. Vê-lo trouxe à sua mente sua própria conduta cruel e bárbara para com ele; e vê-lo naquela felicidade tornou mais penosa sua própria miséria.

III. Aqui está o relato do que se passou entre o rico e Abraão no estado separado, um estado de separação um do outro e de ambos deste mundo.

Embora seja provável que não venha a haver nem haja tais diálogos ou discursos entre os santos glorificados e os pecadores condenados, ainda assim é muito apropriado representar por esses diálogos a mente e os sentimentos tanto de uns como de outros. Isso costuma ser feito nas descrições, sobretudo nas destinadas a ser tocantes e comoventes.

Encontramos pecadores condenados atormentados na presença do Cordeiro (Apocalipse 14:10) e os servos fiéis de Deus olhando para os que transgrediram a aliança, onde seu verme não morre e seu fogo não se apaga (Isaías 66:23, 24). Portanto, não é incoerente supor um discurso como esse. Nele temos:

  1. O pedido que o rico fez a Abraão por alguma diminuição de sua miséria presente, v. 24. Vendo Abraão de longe, clamou a ele, clamou em alta voz, como alguém insistente e como alguém em dor e miséria, misturando gritos a suas petições para reforçá-las despertando compaixão.

Quem costumava mandar em alta voz agora suplica em alta voz, mais alto do que Lázaro jamais fez à sua porta. Os cânticos de suas orgias e festas se transformaram todos em lamentações. Observe aqui:

(1.) O título que dá a Abraão: “Pai Abraão”. Repare: Muitos no inferno podem chamar Abraão de pai; eram sua descendência segundo a carne. Ou melhor: muitos eram, em nome e profissão, filhos da aliança feita com Abraão.

Talvez esse rico, em sua alegria carnal, tivesse ridicularizado Abraão e sua história, como fazem os escarnecedores dos últimos dias; agora, porém, lhe dá um título de respeito: “Pai Abraão”.

Repare: Vem o dia em que os perversos ficarão satisfeitos em buscar a proximidade dos justos e reivindicar parentesco com eles, embora agora os desprezem.

Abraão, nessa descrição, representa Cristo, pois todo juízo é confiado a ele, e Abraão fala aqui sua mente. Os que agora desprezam Cristo em breve procurarão seu favor: “Senhor, Senhor”.

(2.) A descrição que lhe faz de sua deplorável condição presente: “Sou atormentado nesta chama”. É do tormento de sua alma que se queixa e, portanto, de um fogo que atua sobre almas.

Tal fogo é a cólera de Deus, que se prende à consciência culpada; tal fogo é o horror da mente e as censuras de um coração que se acusa e condena a si mesmo. Nada é mais doloroso e terrível para o corpo do que ser atormentado pelo fogo; por isso as misérias e agonias das almas condenadas são assim representadas.

(3.) Seu pedido a Abraão, em consideração dessa miséria: “Tem misericórdia de mim”. Repare: Vem o dia em que os que fazem pouco caso da misericórdia divina suplicarão intensamente por ela.

Ah, por misericórdia, misericórdia, quando o dia da misericórdia terminou e suas ofertas não são mais feitas! Quem não teve misericórdia de Lázaro ainda espera que Lázaro tenha misericórdia dele, “pois”, pensa, “Lázaro tem natureza melhor do que eu jamais tive”.

O favor particular que suplica é: “Envia Lázaro, para que molhe a ponta de seu dedo na água e refresque minha língua”:

[1.] Aqui se queixa especialmente do tormento da língua, como se ali fosse mais atormentado do que em qualquer outra parte, o castigo correspondendo ao pecado.

A língua é um dos órgãos da fala; seu tormento o faz lembrar de todas as palavras perversas que falou contra Deus e os homens: suas maldições, juramentos, blasfêmia, todas as palavras duras e imundas. Por suas palavras é condenado e, portanto, em sua língua é atormentado.

A língua também é um dos órgãos do paladar; portanto, seus tormentos lhe lembrarão seu gosto desordenado pelos deleites dos sentidos, que fazia rolar debaixo da língua.

[2.] Deseja uma gota de água para refrescar a língua. Não diz: “Pai Abraão, ordena minha libertação dessa miséria, ajuda-me a sair desta cova”, pois perdera inteiramente a esperança disso. Pede a menor coisa que poderia pedir: uma gota de água para refrescar a língua por um momento.

[3.] Às vezes se suspeita que tivesse nisso um desígnio mau contra Lázaro e esperasse, se o tivesse ao seu alcance, impedi-lo de voltar ao seio de Abraão. O coração cheio de fúria contra Deus é cheio de fúria contra o povo de Deus.

Mas pensemos mais caridosamente até de um pecador condenado e suponhamos que pretendesse mostrar respeito por Lázaro, como alguém a quem agora ficaria satisfeito em dever um favor.

Dá seu nome porque o conhece e pensa que Lázaro não ficará indisposto a lhe prestar esse bom serviço por causa da antiga amizade. Grotius cita aqui Platão descrevendo os tormentos das almas perversas. Entre outras coisas, ele diz:

“Continuamente clamam desvairadas àqueles que assassinaram ou a quem de qualquer modo fizeram injúria, pedindo-lhes que perdoem as injustiças que lhes fizeram.” Repare: Vem o dia em que os que agora odeiam e desprezam o povo de Deus ficariam satisfeitos em receber bondade dele.

  1. A resposta que Abraão deu a esse pedido. Em geral, não o concedeu. Não quis consentir em lhe dar uma gota de água para refrescar a língua. Repare: Os condenados no inferno não terão a menor redução ou diminuição de seu tormento.

Se agora aproveitarmos o dia de nossas oportunidades, podemos ter satisfação plena e duradoura nas correntes de misericórdia; mas, se agora desprezarmos a oferta, será inútil esperar no inferno a menor gota de misericórdia. Veja como esse rico é justamente pago em sua própria moeda.

A quem negou uma migalha é negada uma gota. Agora nos é dito: “Pedi, e vos será dado”; mas, se deixarmos escapar este tempo aceitável, podemos pedir sem que nos seja dado.

Mas isso não é tudo: se Abraão apenas tivesse dito: “Você não terá nada que reduza seu tormento”, teria sido triste. Contudo, diz muito que acrescentaria ao tormento e tornaria a chama mais quente, pois tudo no inferno será atormentador:

(1.) Chama-o de filho, um título bondoso e cortês; mas aqui serve apenas para agravar a recusa de seu pedido, que lhe fechou as entranhas de compaixão de um pai. Fora um filho, mas rebelde, e agora abandonado e deserdado.

Veja a insensatez dos que se apoiam nesse apelo: “Temos Abraão por pai”, quando encontramos no inferno, onde provavelmente ficará para sempre, alguém a quem Abraão chama de filho.

(2.) Faz lembrar qual fora tanto sua própria condição como a de Lázaro durante a vida: “Filho, lembra-te”. Essa é uma palavra penetrante. A memória das almas condenadas será seu atormentador; então a consciência será despertada e estimulada a cumprir seu ofício, que aqui não lhe permitiam cumprir.

Nada levará mais óleo às chamas do inferno do que “Filho, lembra-te”. Agora os pecadores são chamados a lembrar, mas não lembram, não querem; encontram maneiras de evitar isso. “Filho, lembra-te de teu Criador, teu Redentor, lembra-te de teu último fim.”

Mas podem dar ouvidos surdos a esses lembretes e esquecer o propósito de sua memória. Portanto, sua miséria eterna justamente surgirá de um “Filho, lembra-te” a que não poderão dar ouvidos surdos. Que terrível badalada soará em nossos ouvidos!

“Filho, lembra-te dos muitos avisos que te foram dados para não vires a este lugar de tormento, aos quais não quiseste dar atenção. Lembra-te das boas ofertas de vida e glória eternas que te foram feitas e que não quiseste aceitar!” Mas aquilo de que aqui é lembrado é:

[1.] “Que em tua vida recebeste tuas coisas boas.” Não lhe diz que abusara delas, mas que as recebera: “Lembra-te de quanto Deus foi um benfeitor generoso para ti, quão pronto estava a fazer-te bem. Portanto, não podes dizer que ele te deve algo, não, nem uma gota de água.

“Recebeste o que te deu, e foi só isso; nunca lhe deste um recibo, reconhecendo essas coisas com gratidão. Muito menos fizeste qualquer retribuição agradecida por elas ou as aproveitaste. Foste a sepultura das bênçãos de Deus, onde foram enterradas, não seu campo, onde foram semeadas.

“Recebeste tuas coisas boas; recebeste-as e as usaste como se fossem tuas próprias e não fosses de modo algum responsável por elas. Ou, antes, eram as coisas que escolheste como tuas coisas boas, que aos teus olhos eram as melhores, com que te contentavas e que tomavas como tua porção.

“Tiveste alimento, bebida e roupas dos mais ricos e finos, e nessas coisas puseste tua felicidade; eram tua recompensa, teu consolo, a moeda que aceitaste como pagamento, e a recebeste. Buscavas as coisas boas de tua vida e não pensavas em coisas melhores em outra vida; portanto, não tens motivo para esperá-las.

“O dia de tuas coisas boas passou e se foi, e agora é o dia de tuas coisas más, de recompensa por todos os teus atos maus. Já recebeste a última gota das taças de misericórdia que podias esperar receber como tua parte; nada resta senão taças de cólera sem mistura.”

[2.] “Lembra-te também das coisas más que Lázaro recebeu. Invejas sua felicidade aqui, mas pensa em quão grande parte de misérias teve durante a vida. Tiveste tanto bem quanto se poderia pensar caber no destino de um homem tão mau, e ele tanto mal quanto se poderia pensar caber no destino de um homem tão bom.

“Recebeu suas coisas más; suportou-as pacientemente, recebeu-as da mão de Deus, como fez Jó.” Jó 2:10: “Receberemos o bem da mão do Senhor e não receberemos também o mal?” “Recebeu-as como remédio designado para curar suas enfermidades espirituais, e a cura se realizou.”

Assim como os perversos têm coisas boas apenas nesta vida e, na morte, são separados de todo bem para sempre, assim os piedosos têm coisas más apenas nesta vida e, na morte, ficam para sempre fora de seu alcance.

Ao fazê-lo lembrar de ambas as coisas, Abraão desperta sua consciência para lembrar-lhe como tratara Lázaro quando se regalava em suas coisas boas e Lázaro gemia sob suas coisas más. Não pode esquecer que então não quis ajudar Lázaro; como esperar que Lázaro agora o ajudasse?

Se Lázaro depois tivesse enriquecido durante a vida e ele empobrecido, Lázaro julgaria seu dever auxiliá-lo, e não repreendê-lo por sua antiga falta de bondade. Mas, no estado futuro de recompensa e retribuição, aqueles que agora são tratados, tanto por Deus como pelos homens, melhor do que merecem devem esperar ser recompensados cada um conforme suas obras.

(3.) Faz lembrar a felicidade presente de Lázaro e sua própria miséria. Mas agora a situação se inverteu e assim precisa permanecer para sempre: “Agora ele é consolado, e tu és atormentado”. Não precisava ser informado de que era atormentado; sentia isso às suas custas.

Também sabia que quem estava no seio de Abraão não podia deixar de ser consolado ali. Contudo, Abraão lhe faz lembrar disso para que, comparando uma coisa com outra, observasse a justiça de Deus ao recompensar com tribulação os que perturbam seu povo, e com descanso os perturbados, 2 Tessalonicenses 1:6, 7. Observe:

[1.] O céu é consolo, e o inferno, tormento; o céu é alegria, e o inferno, choro, lamento e dor em sua plenitude.

[2.] Assim que deixa o corpo, a alma vai ou ao céu ou ao inferno, ao consolo ou ao tormento, imediatamente. Não dorme nem vai ao purgatório.

[3.] O céu será céu de fato para os que chegam lá através de muitas e grandes calamidades neste mundo. Quanto aos que tinham graça, mas pouco do consolo dela aqui, e talvez suas almas recusassem ser consoladas, ainda assim, quando adormecem em Cristo, você pode dizer com verdade:

“Agora são consolados; agora todas as suas lágrimas são enxugadas e todos os seus temores desapareceram.” No céu há consolo eterno.

Por outro lado, o inferno será inferno de fato para os que chegam lá do meio de todos os deleites e prazeres dos sentidos. Para eles a tortura é maior, como se descreve serem as calamidades temporais para a mulher terna e delicada, que não poria nem a planta do pé no chão por sua ternura e delicadeza, Deuteronômio 28:56.

(4.) Assegura-lhe que é inútil pensar em obter alívio pelo ministério de Lázaro, pois (v. 26), além de tudo isso, pior ainda, “entre nós e vós há um grande abismo fixado”, intransponível, um enorme precipício. Assim, não pode haver comunicação entre os santos glorificados e os pecadores condenados:

[1.] O santo mais bondoso no céu não pode visitar a congregação dos mortos e condenados para consolar ou auxiliar ali qualquer dos que antes eram seus amigos. “Os que querem passar daqui para vocês não podem.”

“Não podem interromper a contemplação da face de seu Pai nem abandonar o serviço em torno de seu trono para buscar água para vocês; isso não faz parte de seu trabalho.”

[2.] O pecador mais atrevido no inferno não pode forçar sua saída dessa prisão nem transpor o grande abismo. Não podem passar para nós os que desejariam vir de lá.

Não se pode esperar isso, pois a porta da misericórdia está fechada e a ponte, levantada; não há saída sob palavra de honra ou fiança, não, nem por uma hora.

Neste mundo, bendito seja Deus, não há abismo fixado entre o estado de natureza e o de graça; podemos passar de um para outro, do pecado para Deus. Mas, se morrermos em nossos pecados, se nos lançarmos na cova da destruição, não há saída.

É uma cova sem água e sem redenção. O decreto e o conselho de Deus fixaram esse abismo, que todo o mundo não pode desfazer. Isso deixa essa criatura miserável entregue ao desespero; agora é tarde demais para qualquer mudança de condição ou o menor alívio.

Isso poderia ter sido evitado a tempo, mas agora não pode ser remediado por toda a eternidade. O estado dos pecadores condenados é fixado por uma sentença irreversível e inalterável. Uma pedra é rolada à porta da cova e não pode ser rolada de volta.

  1. O pedido ulterior que fez a seu pai Abraão. Não em favor de si mesmo; sua boca está fechada, e não tem uma palavra para responder à recusa de uma gota de água por Abraão.

Os pecadores condenados são levados a saber que a sentença sob a qual estão é justa e não podem aliviar sua própria miséria apresentando qualquer objeção contra ela.

Como não consegue uma gota de água para refrescar a língua, podemos supor que a roeu de dor, como se diz daqueles sobre os quais uma das taças da cólera de Deus é derramada, Apocalipse 16:10.

Os gritos e clamores que podemos supor que agora soltasse eram horrendos. Mas, tendo oportunidade de falar com Abraão, a aproveitará em favor de seus parentes que deixou para trás, visto que não pode aproveitá-la para sua própria vantagem. Quanto a isso:

(1.) Suplica que Lázaro seja enviado à casa de seu pai, numa missão ali: “Peço-te, pois, pai”, v. 27. Novamente chama Abraão, e nesse pedido é insistente: “Peço-te. Ah, não me negues isso!” Quando estava na terra, poderia ter orado e sido ouvido; agora, porém, ora em vão.

“Portanto, porque me negaste o pedido anterior, certamente serás tão compassivo a ponto de não negar este.” Ou: “Portanto, porque há um grande abismo fixado e não há saída daqui depois que se chega, ah, envia alguém para impedir que venham aqui”.

Ou: “Embora haja um grande abismo fixado entre ti e mim, como não há tal abismo entre ti e eles, envia alguém até lá. Envia-o de volta à casa de meu pai; sabe suficientemente bem onde fica, esteve lá muitas vezes, tendo-lhe sido negadas as migalhas que caíam da mesa.”

“Sabe que tenho cinco irmãos ali; se aparecer a eles, o reconhecerão e darão atenção ao que disser, pois sabiam que era um homem honesto. Que lhes testemunhe; que lhes diga em que condição estou e que a ela me trouxe meu luxo, minha sensualidade e minha falta de misericórdia para com os pobres.”

“Que lhes avise para não andar em meus passos nem continuar no caminho em que os conduzi e deixei, para que não venham também a este lugar de tormento”, v. 28.

Alguns observam que fala apenas de cinco irmãos, de onde concluem que não tinha filhos; caso contrário, os teria mencionado. Isso agravava sua falta de caridade, pois não tinha filhos para sustentar. Agora queria que fossem detidos em seu curso pecaminoso.

Não diz: “Permite-me ir a eles para lhes testemunhar”, pois sabia que havia um abismo fixado e não tinha esperança de uma permissão tão favorável a si mesmo. Sua ida os assustaria a ponto de perderem o juízo.

Mas: “Envia Lázaro, cuja visita será menos terrível, mas cujo testemunho bastará para amedrontá-los e afastá-los de seus pecados”. Desejava impedir sua ruína em parte por ternura para com eles, pelos quais não podia deixar de conservar afeição natural.

Conhecia sua disposição, tentações, ignorância, incredulidade e falta de ponderação, e desejava impedir a destruição para a qual corriam.

Mas era em parte por ternura para consigo mesmo, pois sua vinda àquele lugar de tormento apenas agravaria a miséria dele, que ajudara a lhes mostrar o caminho até ali, como a visão de Lázaro ajudava a agravar sua miséria.

Quando os parceiros no pecado se tornam participantes do sofrimento, como joio atado em feixes para o fogo, serão um terror uns para os outros.

(2.) Abraão lhe nega também esse favor. Nenhum pedido é concedido no inferno. Os que fazem da oração do rico a Abraão uma justificação para orar aos santos falecidos precisam procurar provas muito longe, quando a prática de um pecador condenado deve ser considerada um exemplo.

Também têm pouco ânimo para seguir o exemplo, quando todas as suas orações foram feitas em vão. Abraão os deixa ao testemunho de Moisés e dos profetas, os meios comuns de convencimento e conversão; têm a palavra escrita, que podem ler e ouvir ser lida.

“Apliquem-se àquela palavra segura de profecia, pois Deus não sairá do método comum de sua graça em favor deles.” Aqui está seu privilégio: “Têm Moisés e os profetas”; e seu dever: “Que os ouçam e creiam no que dizem, e isso bastará para guardá-los deste lugar de tormento”.

Isso mostra que há evidência suficiente no Antigo Testamento, em Moisés e nos profetas, para convencer os que os ouvirem imparcialmente de que há outra vida depois desta e um estado de recompensas e castigos para os homens bons e maus.

Era disso que o rico queria que seus irmãos tivessem certeza; para isso são encaminhados a Moisés e aos profetas.

(3.) Insiste ainda mais em seu pedido (v. 30): “Não, pai Abraão, permite-me insistir nisso. É verdade que têm Moisés e os profetas; se ao menos lhes dessem a devida atenção, isso bastaria. Mas não dão, não querem dar.”

“Contudo, pode-se esperar que, se alguém dos mortos fosse a eles, se arrependessem; isso lhes daria um convencimento mais palpável. Estão acostumados a Moisés e aos profetas e, portanto, lhes dão menos atenção.”

“Mas isso seria algo novo, mais capaz de alarmá-los. Certamente os levaria a se arrepender e mudar seu hábito perverso e seu modo de vida.” Repare: Homens insensatos tendem a julgar qualquer método de convencimento melhor do que o escolhido e designado por Deus.


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