Lucas 15
Argumento
Os maus costumes, dizemos, geram boas leis. Assim, neste capítulo, a murmuração dos escribas e fariseus contra a graça de Cristo e o favor que mostrou aos publicanos e pecadores deu ocasião a uma revelação mais plena dessa graça do que talvez de outro modo tivéssemos tido nestas três parábolas que temos neste capítulo.
O objetivo de todas é o mesmo: mostrar não apenas o que Deus havia dito e jurado no Antigo Testamento, que não tinha prazer na morte e ruína dos pecadores, mas que tinha grande prazer em seu retorno e arrependimento, e se alegra no acolhimento gracioso que lhes dá por isso. Aqui está:
I. A ofensa que os fariseus sentiram contra Cristo por ter comunhão com homens pagãos e publicanos e pregar seu evangelho a eles, v. 1, 2.
II. Sua justificação disso pelo desígnio e tendência própria dessa ação, que em muitos havia sido seu efeito: levá-los a se arrepender e reformar suas vidas. Não poderia haver serviço prestado a Deus mais agradável e aceitável do que esse, o que ele mostra nas parábolas:
Da ovelha perdida que foi trazida para casa com alegria, vv. 4-7.
Da prata perdida que foi encontrada com alegria, vv. 8-10.
Do filho perdido que havia sido pródigo, mas retornou à casa de seu pai e foi recebido com grande alegria, embora seu irmão mais velho, como esses escribas e fariseus, se sentisse ofendido com isso, vv. 11-32.
Versículos 1 a 10
A Ovelha e a Moeda de Prata Perdidas.
Aqui está: I. O comparecimento assíduo dos publicanos e pecadores à pregação de Cristo. Grandes multidões de judeus iam com ele (Lucas 14:25), com tamanha certeza de admissão no reino de Deus que ele achou necessário lhes dizer aquilo que abalaria suas esperanças vãs.
Aqui multidões de publicanos e pecadores se aproximaram dele, com um medo humilde e modesto de serem rejeitados por ele. A eles achou necessário dar ânimo, especialmente porque havia algumas pessoas altivas e arrogantes que os olhavam com desaprovação.
Os publicanos, que recolhiam o tributo pago aos romanos, talvez fossem, alguns deles, homens maus. Mas todos eram sistematicamente difamados por causa dos preconceitos da nação judaica contra seu ofício.
Às vezes são colocados junto com prostitutas (Mateus 21:32), aqui e em outros lugares com pecadores, aqueles que eram abertamente viciosos, que mantinham relações com prostitutas, libertinos conhecidos. Alguns pensam que os pecadores aqui mencionados eram pagãos e que Cristo estava agora do outro lado do Jordão, ou na Galileia dos gentios.
Estes se aproximaram, quando talvez a multidão dos judeus que o havia seguido tivesse se afastado (por seu discurso no fim do capítulo anterior). Assim, depois os gentios tiveram sua vez de ouvir os apóstolos, quando os judeus os rejeitaram.
Aproximaram-se dele, tendo medo de chegar mais perto do que apenas ao alcance da voz. Aproximaram-se dele, não, como alguns faziam, para solicitar curas, mas para ouvir sua excelente doutrina.
Repare: em todas as nossas aproximações de Cristo devemos ter isto diante dos olhos: ouvi-lo, ouvir as instruções que nos dá e suas respostas às nossas orações.
II. A ofensa que os escribas e fariseus sentiram com isso. Murmuraram e usaram isso para desacreditar nosso Senhor Jesus: “Este homem recebe pecadores e come com eles”, v. 2:
- Estavam irados porque aos publicanos e pagãos eram concedidos os meios da graça, eram chamados a se arrepender e animados a esperar perdão mediante arrependimento.
Pois consideravam seu caso desesperador e pensavam que ninguém senão os judeus tinha o privilégio de se arrepender e ser perdoado, embora os profetas pregassem arrependimento às nações, e Daniel particularmente a Nabucodonosor.
- Pensavam que era um rebaixamento de Cristo e incompatível com a dignidade de seu caráter familiarizar-se com esse tipo de gente, admiti-los em sua companhia e comer com eles.
Por vergonha, não podiam condená-lo por pregar a eles, embora fosse aquilo com que mais se encolerizavam. Por isso o desacreditavam por comer com eles, o que era mais expressamente contrário à tradição dos anciãos.
A censura cairá não apenas sobre as pessoas mais inocentes e mais excelentes, mas sobre as ações mais inocentes e mais excelentes, e não devemos achar isso estranho.
III. A justificação de Cristo disso, mostrando que, quanto piores fossem essas pessoas a quem pregava, mais glória resultaria para Deus e mais alegria haveria no céu, se por sua pregação fossem levadas ao arrependimento.
Seria uma visão mais agradável no céu ver gentios levados à adoração do Deus verdadeiro do que ver judeus continuarem nela, e ver publicanos e pecadores viverem um tipo de vida ordeira do que ver escribas e fariseus continuarem a viver tal vida. Aqui ele ilustra isso por duas parábolas, cuja explicação é a mesma em ambas.
- A parábola da ovelha perdida. Tivemos algo semelhante em Mateus 18:12. Ali se destinava a mostrar o cuidado que Deus tem com a preservação dos santos, como motivo por que não devemos ofendê-los. Aqui se destina a mostrar o prazer que Deus tem na conversão dos pecadores, como motivo por que devemos nos alegrar nela. Temos aqui:
(1.) O caso de um pecador que prossegue em caminhos pecaminosos. Ele é como uma ovelha perdida, uma ovelha desgarrada. Está perdido para Deus, que não tem dele a honra e o serviço que deveria ter. Perdido para o rebanho, que não tem comunhão com ele.
Perdido para si mesmo: não sabe onde está, vagueia sem fim, está continuamente exposto aos animais de rapina, sujeito a sustos e terrores, fora dos cuidados do pastor e sem os pastos verdes. Não pode por conta própria encontrar o caminho de volta ao aprisco.
(2.) O cuidado que o Deus do céu tem pelos pobres pecadores que vagueiam. Ele continua cuidando das ovelhas que não se desgarraram. Estão seguras no deserto. Mas é preciso ter um cuidado particular por essa ovelha perdida.
Embora tenha cem ovelhas, um rebanho considerável, ainda assim não perderá aquela uma, mas vai atrás dela e mostra abundância de cuidado:
[1.] Em encontrá-la. Segue-a, perguntando por ela e procurando-a ao redor, até encontrá-la. Deus segue os pecadores desviados com os chamados de sua palavra e as contendas de seu Espírito, até que por fim são influenciados a pensar em retornar.
[2.] Em trazê-la para casa. Embora a encontre cansada e talvez maltratada e desgastada por seus vagueios, e incapaz de suportar ser conduzida para casa, ainda assim não a deixa perecer nem diz: “Não vale a pena levá-la para casa”.
Mas a coloca sobre seus ombros e, com grande ternura e trabalho, a traz ao aprisco. Isso é muito aplicável à grande obra de nossa redenção. A humanidade havia se desgarrado, Isaías 53:6.
O valor da raça inteira para Deus não era tanto quanto o de uma ovelha para aquele que tinha cem. Que perda teria sido para Deus se todos tivessem sido deixados para perecer?
Há um mundo de santos anjos que são como as noventa e nove ovelhas, um rebanho nobre. Contudo, Deus envia seu Filho para “buscar e salvar o que estava perdido”, Lucas 19:10.
Diz-se que Cristo reúne os cordeiros em seus braços e os carrega em seu seio, indicando sua compaixão e ternura para com pobres pecadores. Aqui se diz que os carrega sobre seus ombros, indicando o poder com que os sustenta e mantém erguidos. Nunca podem perecer aqueles que ele carrega sobre seus ombros.
(3.) O prazer que Deus tem nos pecadores que se arrependem e retornam. Coloca-a sobre seus ombros, alegrando-se por não ter perdido seu trabalho na busca. A alegria é maior porque começava a perder a esperança de encontrá-la.
Chama seus amigos e vizinhos, os pastores que guardam seus rebanhos ao seu redor, dizendo: “Alegrem-se comigo”. Talvez entre as canções pastorais que os pastores costumavam cantar houvesse uma para tal ocasião, da qual estas palavras pudessem ser o refrão: “Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha que estava perdida”.
Ao passo que nunca cantavam: “Alegrem-se comigo, pois não perdi nenhuma”. Observe: ele a chama de sua ovelha, embora desgarrada, uma ovelha que vagueia. Tem direito a ela (todas as almas são minhas) e reivindicará o que é seu e recuperará seu direito.
Por isso ele próprio a procura: “Eu a encontrei”. Não enviou um servo, mas seu próprio Filho, o grande e bom Pastor, que encontrará o que busca e será encontrado por aqueles que não o buscam.
- A parábola da moeda de prata perdida:
(1.) Supõe-se aqui que quem perde é uma mulher, que lamentará mais intensamente sua perda e se alegrará mais intensamente ao encontrar o que perdera do que talvez um homem faria. Por isso ela serve melhor ao propósito da parábola. Tem dez moedas de prata e delas perde apenas uma.
Que isso mantenha em nós pensamentos elevados da bondade divina, apesar da pecaminosidade e miséria do mundo da humanidade. Há nove para um, ou melhor: na parábola anterior há noventa e nove para um, da criação de Deus, que conservam sua integridade, em quem Deus é louvado e nunca foi desonrado.
Ah, os seres incontáveis, pelo que sabemos mundos incontáveis de seres, que nunca se perderam nem se afastaram das leis e fins de sua criação!
(2.) O que se perde é uma moeda de prata, drachmen, a quarta parte de um siclo. A alma é prata, de valor e valia intrínsecos, não metal vil, como ferro ou chumbo, mas prata, cujas minas são minas reais.
A palavra hebraica para prata é tomada de sua desejabilidade. É moeda de prata, pois assim era a dracma. Está cunhada com a imagem e inscrição de Deus e, por isso, deve ser entregue a ele.
Contudo, comparativamente, é apenas de pequeno valor. Eram apenas sete pence e meio, indicando que, se os homens pecadores forem deixados para perecer, Deus não sofreria perda. Essa prata estava perdida na sujeira.
Uma alma mergulhada no mundo, e oprimida pelo amor a ele e pela preocupação com ele, é como uma moeda na sujeira. Qualquer um diria: “É mil vezes lamentável que fique ali”.
(3.) Aqui há muito cuidado e esforço empregados na busca dela. A mulher acende uma vela para olhar atrás da porta, debaixo da mesa e em cada canto da casa, varre a casa e busca diligentemente até encontrá-la.
Isso representa os vários meios e métodos que Deus usa para trazer as almas perdidas para casa, a si mesmo. Acendeu a vela do evangelho, não para mostrar a si mesmo o caminho até nós, mas para nos mostrar o caminho até ele, para nos revelar a nós mesmos.
Varreu a casa pelos convencimentos da palavra. Busca diligentemente, seu coração está nisso, em trazer as almas perdidas a si mesmo.
(4.) Aqui há muita alegria por encontrá-la: “Alegrai-vos comigo, porque encontrei a moeda que havia perdido”, v. 9. Aqueles que se alegram desejam que outros se alegrem com eles. Aqueles que estão contentes querem que outros estejam contentes com eles.
Ela estava feliz por ter encontrado a moeda, embora viesse a gastá-la recebendo aqueles que chamou para se alegrar com ela. A surpresa agradável de encontrá-la a colocou, por ora, numa espécie de êxtase. Heureka, heureka, encontrei, encontrei, é a linguagem da alegria.
- A explicação dessas duas parábolas tem o mesmo sentido (v. 7, 10): Há alegria no céu, “alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende”, como fizeram aqueles publicanos e pecadores, alguns deles ao menos (e, se apenas um deles se arrependesse, Cristo consideraria que valia a pena).
Essa alegria é maior do que por um grande número de justos, que não precisam de arrependimento. Observe:
(1.) O arrependimento e a conversão dos pecadores na terra são matéria de alegria e regozijo no céu. É possível que os maiores pecadores sejam levados ao arrependimento. Enquanto há vida, há esperança, e não se deve perder a esperança dos piores.
Os piores pecadores, se se arrependerem e se voltarem, encontrarão misericórdia. Contudo, isso não é tudo:
[1.] Deus se deleitará em lhes mostrar misericórdia, considerará sua conversão um retorno por toda a despesa que teve com eles. Sempre há alegria no céu. Deus se alegra em todas as suas obras, mas particularmente nas obras de sua graça.
Ele se alegra em fazer bem aos pecadores penitentes, com todo o seu coração e toda a sua alma. Alegra-se não apenas na conversão de igrejas e nações, mas até por um pecador que se arrepende, embora apenas um.
[2.] Os anjos bons ficarão felizes porque é mostrada misericórdia aos pecadores. Estão longe de se ressentir disso, embora aqueles de sua natureza que pecaram sejam deixados para perecer e nenhuma misericórdia lhes seja mostrada.
Os anjos estarão felizes, embora aqueles pecadores que se arrependem, de condição tão baixa e que foram tão vis, venham, mediante seu arrependimento, a ser admitidos à comunhão com eles e em breve feitos semelhantes a eles e iguais a eles.
A conversão dos pecadores é a alegria dos anjos, e eles alegremente se tornam espíritos ministradores a eles para seu bem, mediante sua conversão. A redenção da humanidade era matéria de alegria na presença dos anjos, pois cantavam: “Glória a Deus nas alturas”, Lucas 2:14.
(2.) Há mais alegria por um pecador que se arrepende e passa a ser religioso, saindo de um curso de vida que fora notoriamente vil e vicioso, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento.
[1.] Mais alegria pela redenção e salvação do homem caído do que pela preservação e confirmação dos anjos que permanecem firmes e de fato não precisavam de arrependimento.
[2.] Mais alegria pela conversão dos pecadores dos gentios e daqueles publicanos que agora ouviam Cristo pregar do que por todos os louvores e devoções, e todos os “Deus, eu te agradeço” dos fariseus e dos outros judeus que se justificavam a si mesmos.
Eles pensavam que não precisavam de arrependimento e que, por isso, Deus deveria alegrar-se abundantemente neles e vangloriar-se deles como os que mais eram sua honra.
Mas Cristo lhes diz que era completamente diferente, que Deus era mais louvado no coração penitente e quebrantado de um daqueles pecadores desprezados e invejados, e se agradava mais dele, do que em todas as longas orações que os escribas e fariseus faziam, que não podiam ver nada errado em si mesmos.
Ou melhor: [3.] Mais alegria pela conversão de um grande pecador assim, um fariseu como Paulo havia sido em seu tempo, do que pela conversão regular de alguém que sempre se conduzira decorosamente e bem e comparativamente não precisa de arrependimento, não precisa de uma mudança tão universal da vida como aqueles grandes pecadores precisam.
Não que não seja melhor não se desgarrar. Mas a graça de Deus, tanto no poder quanto na compaixão dessa graça, se manifesta mais na recondução dos grandes pecadores do que na condução daqueles que nunca se desgarraram.
Muitas vezes aqueles que foram grandes pecadores antes de sua conversão se mostram mais eminentemente e zelosamente bons depois, de que Paulo é um exemplo, e por isso nele Deus foi grandemente glorificado, Gálatas 1:24.
Aqueles a quem muito é perdoado amarão muito. Isso é dito à maneira dos homens. Somos movidos por uma alegria mais palpável pela recuperação do que perdêramos do que pela continuidade do que sempre desfrutamos, pela saúde recuperada após a doença do que pela saúde sem doença. É como vida dentre os mortos.
Um curso constante de religião pode em si mesmo ser mais valioso e, contudo, um súbito retorno de um curso mau e caminho de pecado pode proporcionar um prazer mais surpreendente.
Ora, se há tal alegria no céu pela conversão dos pecadores, então os fariseus eram muito estranhos a um espírito celestial. Faziam tudo que podiam para impedi-la e sentiam dor com ela, e se exasperavam com Cristo quando ele fazia uma obra que, entre todas as outras, era a mais agradável ao Céu.
Versículos 11 a 32
O Filho Pródigo.
Temos aqui a parábola do filho pródigo, cujo objetivo é o mesmo das anteriores: mostrar como é agradável a Deus a conversão dos pecadores, dos grandes pecadores, e como está pronto a receber e acolher tais pessoas mediante seu arrependimento.
Mas as circunstâncias da parábola apresentam muito mais ampla e plenamente as riquezas da graça do evangelho do que aquelas apresentavam; ela tem sido, e será enquanto o mundo existir, de utilidade indizível aos pobres pecadores, tanto para orientá-los quanto para animá-los a se arrepender e retornar a Deus. Agora:
I. A parábola representa Deus como Pai comum de toda a humanidade, de toda a família de Adão. Todos somos sua descendência, todos temos um Pai, e um Deus nos criou, Malaquias 2:10.
Dele tivemos nosso ser, nele continuamente o temos e dele recebemos nosso sustento. É nosso Pai, pois tem a incumbência de nos educar e dar nossa porção, e nos incluirá em seu testamento ou nos deixará fora, conforme sejamos ou não filhos obedientes a ele.
Nosso Salvador indica assim àqueles fariseus orgulhosos que esses publicanos e pecadores, que tanto desprezavam, eram seus irmãos, participantes da mesma natureza, e por isso deveriam se alegrar com qualquer bondade que lhes fosse mostrada.
Deus é o Deus, não só dos judeus, mas dos gentios (Romanos 3:29): o mesmo Senhor sobre todos, rico em misericórdia para com todos os que o invocam.
II. Representa os filhos dos homens com diferentes caracteres, embora todos relacionados com Deus como seu Pai comum.
Tinha dois filhos, um deles um jovem firme e sério, reservado e austero, sóbrio ele próprio, mas de modo algum bem-humorado com aqueles ao seu redor; alguém assim se apegaria à sua educação e não seria facilmente desviado dela.
Mas o outro era volúvel e instável, impaciente com a restrição, vagante e disposto a tentar sua sorte, e, se caísse em más mãos, provavelmente seria um libertino, apesar de sua educação virtuosa.
Agora este último representa os publicanos e pecadores, que Cristo procura levar ao arrependimento, e os gentios, aos quais os apóstolos seriam enviados para pregar arrependimento.
O primeiro representa os judeus em geral e particularmente os fariseus, que ele procurava reconciliar com aquela graça de Deus oferecida e concedida aos pecadores.
O filho mais novo é o pródigo, cujo caráter e condição aqui se destinam a representar os de um pecador, de cada um de nós em nosso estado natural, mas especialmente de alguns. Agora devemos observar acerca dele:
- Sua devassidão e vagueio quando era pródigo, e as extravagâncias e misérias em que caiu. Nos é contado:
(1.) Qual foi seu pedido a seu pai (v. 12): disse a seu pai, com bastante orgulho e insolência: “Pai, dá-me”. Poderia ter colocado um pouco mais em sua boca e dito: “Por favor, dá-me”, ou: “Senhor, se te agrada, dá-me”, mas faz uma exigência imperiosa:
“Dá-me a porção de bens que me cabe; não tanto quanto julgas apropriado me atribuir, mas aquilo que me cabe como meu direito”. Repare: é mau, e o começo do pior, quando os homens consideram os dons de Deus como dívidas.
“Dá-me a porção, toda a minha parte de filho que me cabe”; não: “Prova-me com um pouco e vê como posso administrá-lo, e conforme isso confia-me mais”; mas: “Dá-me tudo agora em posse, e nunca esperarei nada em sucessão, nada depois”.
Repare: a grande insensatez dos pecadores, que os arruína, é se contentar em ter sua porção em mãos, receber suas coisas boas agora nesta vida.
Olham só para as coisas que se veem, que são temporais, e cobiçam só uma satisfação presente, mas não se preocupam com a felicidade futura quando aquela estiver gasta e acabada.
Por que desejou ter sua porção em suas próprias mãos? Era para se aplicar aos negócios, negociar com ela e assim aumentá-la? Não: não pensava nisso. Mas:
[1.] Estava cansado do governo de seu pai, da boa ordem e disciplina da família de seu pai, e gostava da liberdade falsamente chamada assim, mas de fato a maior escravidão, pois tal é uma liberdade para pecar.
Veja a insensatez de muitos jovens que são educados religiosamente, mas ficam impacientes com a restrição de sua educação, e nunca se consideram seus próprios senhores, homens independentes, até quebrarem todas as amarras de Deus e lançarem fora suas cordas e, em lugar delas, se prenderem com as cordas de sua própria concupiscência.
Aqui está a origem da apostasia dos pecadores em relação a Deus; não querem se prender às regras do governo de Deus; eles próprios serão como deuses, não conhecendo outro bem e mal senão o que lhes agrada.
[2.] Estava disposto a sair de debaixo dos olhos de seu pai, pois isso sempre era um freio sobre ele e frequentemente o refreava. A relutância em se aproximar de Deus e a disposição de não crer em sua onisciência estão no fundo da maldade dos ímpios.
[3.] Desconfiava da administração de seu pai. Queria ter pessoalmente sua porção de bens, pois pensava que seu pai guardaria para o futuro em seu favor e, para isso, limitaria suas despesas presentes, e não gostava disso.
[4.] Orgulhava-se de si mesmo e tinha grande presunção de sua própria suficiência. Pensava que, se ao menos tivesse sua porção em suas próprias mãos, poderia administrá-la melhor que seu pai e fazer melhor figura com ela.
Mais jovens são arruinados pelo orgulho do que por qualquer concupiscência particular. Nossos primeiros pais arruinaram a si mesmos e a todos os seus por uma ambição insensata de ser independentes e não depender nem mesmo do próprio Deus; isso está no fundo da persistência dos pecadores em seu pecado: querem bastar a si mesmos.
(2.) Quão bondoso seu pai foi para com ele: “Dividiu entre eles seus bens”. Calculou o que tinha para distribuir entre seus filhos e deu ao mais novo sua parte e ofereceu ao mais velho a sua, que deveria ser uma porção dupla.
Mas, ao que parece, este desejou que seu pai continuasse a mantê-la em suas próprias mãos, e podemos ver o que ganhou com isso (v. 31): “Tudo que tenho é teu”. Ganhou tudo por esperar algo em reserva.
Deu ao filho mais novo o que pediu, e o filho não tinha motivo para se queixar de alguma injustiça na divisão; tinha tanto quanto esperava e talvez mais:
[1.] Assim poderia agora ver a bondade de seu pai, sua disposição de agradá-lo e tranquilizá-lo, e que não era um pai tão sem bondade como queria representá-lo quando desejava uma desculpa para ir embora.
[2.] Assim em pouco tempo seria levado a ver sua própria insensatez e que não era um administrador tão sábio para si mesmo como desejava ser considerado.
Repare: Deus é Pai bondoso para todos os seus filhos e dá a todos eles vida, respiração e todas as coisas, até aos maus e ingratos, dieilen autois ton bion: dividiu entre eles vida. Deus nos dar vida é nos colocar em capacidade de servi-lo e glorificá-lo.
(3.) Como se conduziu quando teve sua porção em suas próprias mãos. Pôs-se a gastá-la tão depressa quanto pudesse e, como os pródigos geralmente fazem, em pouco tempo se tornou mendigo: “Não muitos dias depois”, v. 13.
Repare: se Deus nos deixar por pouco que seja a nós mesmos, não demorará a nos afastarmos dele. Quando o freio da graça restritiva é retirado, logo partimos. O que o filho mais novo decidiu foi ir embora imediatamente e, para isso, reuniu tudo. Os pecadores que se desviam de Deus arriscam tudo.
Agora a condição do pródigo nesse seu vagueio nos representa um estado pecaminoso, aquele estado miserável no qual o homem caiu:
[1.] Um estado pecaminoso é um estado de partida e distância de Deus:
Primeiro, a pecaminosidade do pecado é ser uma apostasia de Deus. Partiu da casa de seu pai. Os pecadores fugiram de Deus; prostituem-se afastando-se dele; rompem a lealdade que lhe devem, como um servo que foge de seu serviço ou uma esposa que traiçoeiramente se afasta de seu marido, e dizem a Deus: “Afasta-te”.
Afastam-se dele tanto quanto podem. O mundo é a região distante na qual fixam residência e se sentem em casa; no serviço e desfrute dele gastam tudo.
Segundo, a miséria dos pecadores é estarem longe de Deus, daquele que é a Fonte de todo bem, e irem cada vez mais longe dele. Que é o próprio inferno senão estar longe de Deus?
[2.] Um estado pecaminoso é um estado de gasto: “ali desperdiçou seus bens vivendo em devassidão” (v. 13), devorou-os com prostitutas (v. 30) e em pouco tempo “gastara tudo”, v. 14.
Comprou roupas esmeradas, gastou muito em alimento e bebida, deu banquetes suntuosos, associou-se com aqueles que o ajudaram a dar fim ao que tinha em pouco tempo.
Quanto a este mundo, aqueles que vivem em devassidão desperdiçam o que têm e terão muito pelo que responder, pois gastam em suas concupiscências aquilo que deveria ser para o sustento necessário de si mesmos e de suas famílias. Mas isso deve ser aplicado espiritualmente.
Pecadores obstinados desperdiçam seu patrimônio; pois empregam mal seus pensamentos e todos os poderes de sua alma, gastam mal seu tempo e todas as suas oportunidades, não só enterram, mas desviam os talentos que lhes são confiados para negociar com eles para a honra de seu Mestre.
Os dons da Providência, destinados a capacitá-los a servir a Deus e fazer bem com eles, são feitos alimento e combustível de suas concupiscências. A alma tornada escrava, ou do mundo ou da carne, desperdiça seus bens e vive em devassidão.
“Um pecador destrói muito bem”, Eclesiastes 9:18. O bem que destrói é valioso e não lhe pertence; são os bens de seu Senhor que desperdiça, dos quais deverá prestar contas.
[3.] Um estado pecaminoso é um estado de falta: quando gastara tudo com suas prostitutas, elas o deixaram para procurar outra presa assim; levantou-se grande fome naquela região, tudo era escasso e caro, e começou a passar necessidade, v. 14.
Repare: o desperdício obstinado traz falta lamentável. A vida devassa, com o tempo, talvez em pouco tempo, reduz os homens a um bocado de pão, especialmente quando tempos maus apressam as consequências da má administração, para as quais a boa administração teria feito provisão.
Isso representa a miséria dos pecadores que lançaram fora suas próprias misericórdias: o favor de Deus, sua participação em Cristo, os apelos do Espírito e as advertências da consciência; entregaram isso pelo prazer dos sentidos e pela riqueza do mundo, e então estão prestes a perecer por falta disso.
Aos pecadores faltam as coisas necessárias para sua alma; não têm nem alimento nem vestimenta para ela, nem provisão alguma para o futuro.
Um estado pecaminoso é como uma terra onde reina a fome, grande fome; pois o céu é como bronze (os orvalhos do favor e da bênção de Deus são retidos, e necessariamente nos faltarão coisas boas se Deus nos negá-las).
A terra é como ferro (o coração do pecador, que deveria produzir coisas boas, é seco e estéril e não tem bem em si).
Os pecadores são lastimosa e miseravelmente pobres e, o que agrava isso, trouxeram a si mesmos a essa condição e se mantêm nela recusando os suprimentos oferecidos.
[4.] Um estado pecaminoso é um estado vil e servil. Quando a devassidão desse jovem o levou à falta, sua falta o levou à servidão. Foi e se juntou a um cidadão daquela região, v. 15.
A mesma vida ímpia antes representada pela vida devassa é aqui representada pela vida servil; pois os pecadores são escravos completos. O diabo é o cidadão daquela região; pois está tanto na cidade quanto no campo.
Os pecadores se juntam a ele, contratam-se para seu serviço, para fazer seu trabalho, estar às suas ordens e depender dele para sustento e porção. Aqueles que cometem pecado são servos do pecado, João 8:34.
Como esse jovem de boa posição rebaixou e diminuiu a si mesmo ao se contratar para tal serviço e sob tal senhor! Enviou-o aos campos, não para alimentar ovelhas (haveria algum crédito nessa ocupação; Jacó, Moisés e Davi guardaram ovelhas), mas para alimentar porcos.
A ocupação dos servos do diabo é fazer provisão para a carne, para cumprir suas concupiscências, e isso não é melhor que alimentar porcos vorazes, sujos e barulhentos; como podem almas racionais e imortais mais se desonrar?
[5.] Um estado pecaminoso é um estado de insatisfação perpétua. Quando o pródigo começou a passar necessidade, pensou em ajudar a si mesmo entrando em serviço; deveria se contentar com a provisão que não a casa, mas o campo oferecia; mas era provisão pobre.
Queria encher seu ventre, satisfazer sua fome e nutrir seu corpo com as cascas que os porcos comiam, v. 16. A bela situação a que meu jovem senhor trouxera a si mesmo, ser companheiro dos porcos à mesa!
Repare: aquilo em que os pecadores, quando se afastam de Deus, prometem a si mesmos satisfação certamente os decepcionará; trabalham por aquilo que não satisfaz, Isaías 55:2.
Aquilo que é a pedra de tropeço de sua iniquidade nunca satisfará sua alma nem encherá suas entranhas, Ezequiel 7:19. Cascas são alimento para porcos, mas não para homens.
A riqueza do mundo e os entretenimentos dos sentidos servirão para corpos; mas que são essas coisas para almas preciosas? Nem se ajustam à sua natureza, nem satisfazem seus desejos, nem suprem suas necessidades. Aquele que se contenta com elas “alimenta-se de vento” (Oseias 12:1), “alimenta-se de cinzas”, Isaías 44:20.
[6.] Um estado pecaminoso é um estado que não pode esperar auxílio de criatura alguma. Esse pródigo, quando não podia ganhar seu pão trabalhando, recorreu a mendigar; mas ninguém lhe dava nada, pois sabiam que trouxera toda essa miséria sobre si mesmo, e era libertino e provocador para todos; pobres assim são os que recebem menos pena.
Isso, na aplicação da parábola, indica que aqueles que se afastam de Deus não podem ser ajudados por criatura alguma.
Em vão clamamos ao mundo e à carne (aqueles deuses que servimos); têm aquilo que envenenará uma alma, mas nada têm para lhe dar que a alimente e nutra. Se você recusa a ajuda de Deus, de onde qualquer criatura o ajudará?
[7.] Um estado pecaminoso é um estado de morte: “Este meu filho estava morto”, v. 24, 32. Um pecador não só está morto perante a lei, por estar sob uma sentença de morte, mas também morto em seu estado, morto em transgressões e pecados, destituído de vida espiritual.
Nenhuma união com Cristo, nenhum dos sentidos espirituais exercitado, nenhuma vida para Deus e, por isso, morto. O pródigo na região distante estava morto para seu pai e sua família, separado deles como um membro do corpo ou um ramo da árvore e, por isso, morto, e isso é obra dele próprio.
[8.] Um estado pecaminoso é um estado perdido: este meu filho estava perdido; perdido para tudo que era bom, perdido para toda virtude e honra, perdido para a casa de seu pai; não tinham alegria nele.
Almas separadas de Deus são almas perdidas; perdidas como um viajante fora de seu caminho e, se a misericórdia infinita não se antecipar, logo estarão perdidas como um navio afundado no mar, irrecuperavelmente perdidas.
[9.] Um estado pecaminoso é um estado de loucura e frenesi. Isso é indicado naquela expressão (v. 17): “Quando caiu em si”, que indica que estivera fora de si.
Certamente estava assim quando deixou a casa de seu pai, e muito mais quando se juntou ao cidadão daquela região. Diz-se que a loucura está no coração dos pecadores, Eclesiastes 9:3. Satanás tomou posse da alma; como era furiosamente louco aquele possuído por Legião!
Os pecadores, como aqueles que estão loucos, destroem a si mesmos com concupiscências insensatas e, contudo, ao mesmo tempo enganam a si mesmos com esperanças insensatas; dentre todos os enfermos, são os maiores inimigos de sua própria cura.
- Temos aqui seu retorno desse vagueio, seu retorno penitente novamente a seu pai. Quando chegou ao último extremo, então pensou em quanto lhe interessava ir para casa.
Repare: não devemos perder a esperança dos piores; pois enquanto há vida há esperança. A graça de Deus pode amolecer o coração mais duro e dar um rumo feliz à corrente mais forte de corrupção. Agora observe aqui:
(1.) Qual foi a ocasião de seu retorno e arrependimento. Foi sua aflição; quando passou necessidade, então caiu em si. Repare: as aflições, quando santificadas pela graça divina, tornam-se meios felizes de afastar os pecadores do erro de seus caminhos.
Por elas o ouvido é aberto à disciplina e o coração disposto a receber instruções; são provas palpáveis tanto da vaidade do mundo quanto do caráter danoso do pecado. Aplique isso espiritualmente.
Quando descobrimos a insuficiência das criaturas para nos fazer felizes e tentamos em vão todos os outros caminhos de auxílio para nossa pobre alma, então é tempo de pensar em retornar a Deus.
Quando vemos que todos, exceto Cristo, são consoladores miseráveis, médicos sem valor, para uma alma que geme sob a culpa e o poder do pecado, e ninguém nos dá o que precisamos, então certamente nos aplicaremos a Jesus Cristo.
(2.) Qual foi a preparação para isso; foi a consideração. Disse consigo mesmo, raciocinou consigo mesmo quando recuperou seu juízo: “Quantos empregados de meu pai têm pão suficiente!”
Repare: a consideração é o primeiro passo para a conversão, Ezequiel 18:28. Considera e se volta. Considerar é nos recolher a nós mesmos, refletir sobre nós mesmos, comparar uma coisa com outra e decidir conforme isso. Agora observe o que considerou:
[1.] Considerou quão má era sua condição: “Pereço de fome”. Não só: “Estou com fome”, mas: “Pereço de fome, pois não vejo de que modo esperar auxílio”.
Repare: os pecadores não virão ao serviço de Cristo até serem levados a ver a si mesmos prestes a perecer no serviço do pecado; a consideração disso deveria nos levar a Cristo. Mestre, salve-nos, perecemos.
Embora sejamos assim impelidos a Cristo, não nos rejeitará por isso, nem se considerará desonrado por sermos forçados a ele, mas antes honrado por ser procurado num caso desesperado.
[2.] Considerou quanto sua condição poderia melhorar se ao menos retornasse: quantos empregados de meu pai, os mais humildes de sua família, os próprios diaristas, têm pão suficiente e de sobra, tão boa casa mantém! Repare:
Primeiro, na casa de nosso Pai há pão para toda a sua família. Isso era ensinado pelos doze pães da proposição, que estavam constantemente sobre a mesa santa no santuário, um pão para cada tribo.
Segundo, há suficiente e de sobra, suficiente para todos, suficiente para cada um, suficiente para sobrar àqueles que se juntarem aos membros de sua casa, suficiente e de sobra para caridade. Ainda há lugar; há migalhas que caem de sua mesa, com as quais muitos ficariam felizes e agradecidos.
Terceiro, até os empregados na família de Deus recebem boa provisão; os mais humildes que ao menos se contratem para sua família, para fazer seu trabalho e depender de suas recompensas, receberão boa provisão.
Quarto, a consideração disso deveria animar os pecadores que se desviaram de Deus a pensar em retornar a ele. Assim a adúltera raciocina consigo mesma quando se decepciona com seus novos amantes: “Irei e retornarei a meu primeiro marido, pois então estava melhor comigo do que agora”, Oseias 2:7.
(3.) Qual foi o propósito disso. Já que sua condição é tão má e pode melhorar se retornar a seu pai, sua reflexão chega por fim a esta conclusão: “Levantar-me-ei e irei a meu pai”. Repare: bons propósitos são coisas boas, mas ainda assim é sua realização que importa acima de tudo.
[1.] Decidiu o que fazer: “Levantar-me-ei e irei a meu pai”. Não tomará mais tempo para considerar isso, mas imediatamente se levantará e irá. Embora esteja numa região distante, muito longe da casa de seu pai, ainda assim, por mais longe que seja, retornará.
Cada passo de afastamento de Deus deve ser um passo de volta em retorno a ele. Embora esteja unido a um cidadão dessa região, não faz dificuldade em romper seu trato com ele.
Não somos devedores à carne; não estamos sob obrigação alguma de dar aviso aos nossos feitores egípcios, mas temos liberdade de deixar o serviço quando quisermos.
Observe com que resolução fala: “Levantar-me-ei e irei a meu pai: estou decidido a fazê-lo, seja qual for o desfecho, antes que ficar aqui e morrer de fome”.
[2.] Decidiu o que dizer. O verdadeiro arrependimento é um levantar-se e vir a Deus: “Eis que vimos a ti”. Mas que palavras levaremos conosco? Aqui considera o que dizer.
Repare: em todas as nossas aproximações de Deus, é bom deliberar conosco mesmos de antemão o que diremos, para ordenar nossa causa diante dele e encher nossa boca de razões.
Temos liberdade de falar e devemos considerar seriamente conosco mesmos como podemos usar essa liberdade ao máximo e contudo não abusar dela. Observemos o que se propôs dizer:
Primeiro, confessaria sua falta e insensatez: “Pequei”. Repare: visto que todos pecamos, cabe-nos e muito nos convém reconhecer que pecamos.
A confissão do pecado é exigida e se insiste nela como condição necessária de paz e perdão. Se alegamos inocência, nos submetemos a um julgamento pela aliança da inocência, que certamente nos condenará.
Se culpados, com coração contrito, penitente e obediente, nos remetemos à aliança da graça, que oferece perdão àqueles que confessam seus pecados.
Segundo, agravaria isso e, tão longe de atenuar a questão, poria um peso sobre si mesmo por ela: “Pequei contra o Céu e diante de ti”.
Aqueles que são desobedientes a seus pais terrenos pensem nisso; pecam contra o céu e diante de Deus. Ofensas contra eles são ofensas contra Deus. Todos pensemos nisso como aquilo que torna nosso pecado extremamente pecaminoso e deveria nos tornar extremamente entristecidos por ele:
- O pecado é cometido em desprezo da autoridade de Deus sobre nós: pecamos contra o Céu. Deus é aqui chamado Céu para significar quão altamente é exaltado acima de nós e o domínio que tem sobre nós, pois os Céus governam.
A malignidade do pecado visa alto; é contra o Céu. Diz-se que o pecador ousado pôs sua boca contra os céus, Salmos 73:9. Contudo, é malícia impotente, pois não podemos causar dano aos céus.
Ou melhor: é malícia insensata; aquilo que é lançado contra os céus voltará sobre a cabeça daquele que o lança, Salmos 7:16. O pecado é uma afronta ao Deus do céu, uma perda do direito às glórias e alegrias do céu e uma contradição aos desígnios do reino do céu.
- É cometido em desprezo dos olhos de Deus sobre nós: “Pequei contra o Céu e contudo diante de ti e sob teus olhos”, e não poderia haver afronta maior contra ele.
Terceiro, se julgaria e condenaria por isso e reconheceria ter perdido todos os privilégios da família: “Não sou mais digno de ser chamado teu filho”, v. 19.
Não nega a relação (pois era tudo em que tinha para confiar), mas reconhece que seu pai poderia justamente negar a relação e fechar suas portas contra ele. Tivera, por sua própria exigência, a porção de bens que lhe pertencia e tinha motivo para não esperar mais.
Repare: convém aos pecadores reconhecer que são indignos de receber qualquer favor de Deus e se humilhar e rebaixar diante dele.
Quarto, ainda assim pediria admissão na família, embora fosse no posto mais humilde: “Faze-me como um de teus empregados: isso é suficientemente bom e bom demais para mim”.
Repare: os verdadeiros penitentes têm elevado apreço pela casa de Deus e seus privilégios e ficarão felizes com qualquer lugar, desde que ao menos estejam nela, embora apenas como porteiros, Salmos 84:10.
Se lhe for imposto como mortificação sentar-se com os servos, não só se submeterá, mas o considerará uma elevação a um cargo em comparação com seu estado presente.
Aqueles que retornam a Deus, de quem se rebelaram, não podem deixar de desejar de alguma forma ser empregados para ele e postos em capacidade de servi-lo e honrá-lo: “Faze-me como um empregado, para que mostre que amo a casa de meu pai tanto quanto algum dia a desprezei”.
Quinto, em tudo isso consideraria seu pai como pai: “Levantar-me-ei e irei a meu pai e lhe direi: Pai”. Repare: considerar Deus como Pai e nosso Pai será de grande utilidade em nosso arrependimento e retorno a ele.
Tornará nossa tristeza pelo pecado verdadeira, nossas resoluções contra ele fortes e nos animará a esperar perdão. Deus se deleita em ser chamado Pai tanto pelos penitentes quanto pelos suplicantes. Não é Efraim um filho querido?
(4.) Qual foi a realização desse propósito: “Levantou-se e veio a seu pai”. Pôs sua boa resolução em execução sem demora; bateu enquanto o ferro estava quente e não adiou o pensamento para uma ocasião mais conveniente.
Repare: interessa-nos aderir depressa aos nossos convencimentos. Dissemos que nos levantaríamos e iríamos? Levantemo-nos e venhamos imediatamente.
Não veio até a metade e depois alegou estar cansado e não poder ir mais longe; mas, fraco e cansado como estava, fez a coisa completamente. “Se quiseres retornar, ó Israel, retorna a mim”, e faça suas primeiras obras.
- Temos aqui sua recepção e acolhimento junto a seu pai: veio a seu pai; mas foi bem-vindo? Sim: calorosamente bem-vindo.
A propósito, é um exemplo aos pais cujos filhos foram insensatos e desobedientes: se se arrependerem e se submeterem, não sejam duros e severos com eles, mas sejam governados nesse caso pela sabedoria de cima, que é gentil e fácil de persuadir; nisso sejam seguidores de Deus e misericordiosos como ele é.
Mas isso se destina principalmente a apresentar a graça e misericórdia de Deus para com pobres pecadores que se arrependem e retornam a ele, e sua disposição de perdoá-los. Agora aqui observe:
(1.) O grande amor e afeição com que o pai recebeu o filho: “Quando ainda estava muito longe, seu pai o viu”, v. 20.
Expressou sua bondade antes que o filho expressasse seu arrependimento; pois Deus nos precede com as bênçãos de sua bondade. Antes mesmo de chamarmos, responde; pois sabe o que está em nosso coração. Eu disse: confessarei, e você perdoou. Quão vivas são as imagens apresentadas aqui!
[1.] Aqui estavam olhos de misericórdia, e aqueles olhos tinham visão rápida: “Quando ainda estava muito longe, seu pai o viu”, antes que qualquer outro da família soubesse dele, como se do alto de alguma torre elevada estivesse olhando naquela direção em que seu filho fora, com um pensamento como este:
“Quem me dera ver aquele meu filho miserável vindo para casa!” Isso indica o desejo de Deus pela conversão dos pecadores e sua prontidão para encontrar os que vêm em sua direção.
Olha para os homens quando se desviam dele para ver se retornarão a ele, e percebe a primeira inclinação para ele.
[2.] Aqui estavam entranhas de misericórdia, e aquelas entranhas se moviam dentro dele e ansiavam ao ver seu filho: “Teve compaixão”. A miséria é o objeto da pena, até a miséria de um pecador; embora a tenha trazido sobre si mesmo, ainda assim Deus se compadece.
“Sua alma se entristeceu pela miséria de Israel”, Oseias 11:8; Juízes 10:16.
[3.] Aqui estavam pés de misericórdia, e aqueles pés tinham passos rápidos: “Correu”. Isso denota quão rápido Deus é em mostrar misericórdia. O filho pródigo veio lentamente sob um fardo de vergonha e temor; mas o pai terno correu para encontrá-lo com seus motivos de ânimo.
[4.] Aqui estavam braços de misericórdia, e aqueles braços se estenderam para abraçá-lo: “Lançou-se sobre seu pescoço”.
Embora culpado e merecedor de ser espancado, embora sujo e recém-chegado de alimentar porcos, de modo que qualquer pessoa sem as mais fortes e ternas compaixões de um pai teria repugnância de tocá-lo, ainda assim o toma em seus braços e o coloca em seu seio.
Assim são queridos a Deus os verdadeiros penitentes, assim são bem-vindos ao Senhor Jesus.
[5.] Aqui estavam lábios de misericórdia, e aqueles lábios destilavam como um favo de mel: “Beijou-o”. Esse beijo não só lhe assegurou suas boas-vindas, mas selou seu perdão; suas antigas insensatezes serão todas perdoadas e não mencionadas contra ele, nem uma palavra é dita para repreendê-lo.
Isso era como Davi beijar Absalão, 2 Samuel 14:33. Isso indica quão pronto, livre e disposto está o Senhor Jesus para receber e acolher pobres pecadores que retornam e se arrependem, segundo a vontade de seu Pai.
(2.) A submissão penitente que o pobre pródigo fez a seu pai (v. 21): “Disse-lhe: Pai, pequei”.
Assim como recomenda a bondade do bom pai tê-la mostrado antes que o pródigo expressasse seu arrependimento, assim recomenda o arrependimento do pródigo tê-lo expressado depois que seu pai lhe mostrara tanta bondade.
Quando recebera o beijo que selava seu perdão, ainda assim disse: “Pai, pequei”.
Repare: até aqueles que receberam o perdão de seus pecados e a percepção confortadora de seu perdão devem ter em seu coração sincera contrição por eles, e com sua boca devem fazer confissão penitente deles, até daqueles pecados que têm motivo para esperar que estejam perdoados.
Davi escreveu o salmo cinquenta e um depois que Natã dissera: “O Senhor retirou teu pecado, não morrerás”.
Ou melhor: a percepção confortadora do perdão do pecado deveria aumentar nossa tristeza por ele; é uma tristeza evangélica franca aquela que é aumentada por tal consideração.
Veja Ezequiel 16:63: “Serás envergonhado e confundido quando eu estiver apaziguado para contigo”. Quanto mais vemos a disposição de Deus de nos perdoar, mais difícil deveria ser para nós perdoar a nós mesmos.
(3.) A provisão esplêndida que esse pai bondoso fez para o pródigo que retornava. Prosseguia em sua submissão, mas encontramos uma palavra em seu propósito de dizer (v. 19) que não encontramos que tenha dito (v. 21), e era: “Faze-me como um de teus empregados”.
Não podemos pensar que a esqueceu, muito menos que mudou de ideia e agora estivesse ou menos desejoso de estar na família ou menos disposto a ser empregado ali do que quando fez aquele propósito; mas seu pai o interrompeu, impediu que o dissesse:
“Basta, filho, não fales mais de tua indignidade, és calorosamente bem-vindo e, embora não digno de ser chamado filho, serás tratado como filho querido, como criança agradável”.
Aquele que é assim acolhido de início não precisa pedir para ser feito como um empregado. Assim, quando Efraim se lamentou, Deus o consolou, Jeremias 31:18-20.
É estranho que aqui não haja uma palavra de repreensão: “Por que não ficaste com tuas prostitutas e teus porcos? Nunca pudeste encontrar o caminho de casa até seres trazido para cá a golpes de tua própria vara”.
Não: nada há aqui semelhante a isso; o que indica que, quando Deus perdoa os pecados dos verdadeiros penitentes, os esquece, não se lembra mais deles, não serão mencionados contra eles, Ezequiel 18:22.
Mas isso não é tudo; aqui lhe é feita provisão rica e real, segundo seu nascimento e posição, muito além do que esperava ou poderia esperar.
Teria considerado suficiente e ficado muito agradecido se seu pai ao menos reparasse nele e lhe mandasse ir à cozinha e tomar seu almoço com seus servos; mas Deus faz pelos que retornam a seu dever e se lançam sobre sua misericórdia abundantemente acima do que podem pedir ou pensar.
O pródigo veio para casa entre esperança e temor, temor de ser rejeitado e esperança de ser recebido; mas seu pai não só foi melhor para ele que seus temores, mas melhor que suas esperanças; não só o recebeu, mas o recebeu com respeito.
[1.] Veio para casa em trapos, e seu pai não só o vestiu, mas o adornou. Disse aos servos, que todos atendiam a seu senhor ao saber que seu filho viera: “Trazei a melhor veste e ponde-a nele”.
As piores roupas velhas da casa poderiam ter servido e seriam suficientemente boas para ele; mas o pai não pede um casaco, mas uma veste, a roupa dos príncipes e grandes homens, a melhor veste: ten stolen ten proten.
Há uma dupla ênfase: “Aquela veste, aquela veste principal, sabeis qual quero dizer”; a primeira veste (assim pode ser lido); a veste que usava antes de sair em seu vagueio. Quando os desviados se arrependerem e fizerem suas primeiras obras, serão recebidos e vestidos em suas primeiras vestes.
“Trazei aqui aquela veste e ponde-a nele; terá vergonha de usá-la e pensará que não lhe convém, ele que vem para casa em condição tão suja, mas ponde-a nele e não meramente a ofereçais a ele; e ponde um anel em sua mão, um anel de sinete com as armas da família, como sinal de ser reconhecido como ramo da família”.
Os ricos usavam anéis, e seu pai assim significava que, embora tivesse gasto uma porção, ainda assim, mediante seu arrependimento, lhe destinava outra.
Veio para casa descalço, seus pés talvez doloridos pela viagem e, por isso: “Ponde sapatos em seus pés para lhe dar conforto”. Assim a graça de Deus provê para os verdadeiros penitentes:
Primeiro, a justiça de Cristo é a veste, aquela veste principal, com a qual são vestidos; revestem-se do Senhor Jesus Cristo, são vestidos com aquele Sol. A veste de justiça é a roupa de salvação, Isaías 61:10.
Uma nova natureza é essa melhor veste; os verdadeiros penitentes são vestidos com ela, sendo inteiramente santificados.
Segundo, o penhor do Espírito, por quem somos selados para o dia da redenção, é o anel na mão. Depois que vocês creram, foram selados.
Aqueles que são santificados são adornados e dignificados, recebem poder, como José recebeu quando Faraó lhe deu um anel: “Ponde um anel em sua mão para ser diante dele um memorial constante da bondade de seu pai, para que nunca a esqueça”.
Terceiro, a preparação do evangelho da paz é como sapatos para nossos pés (Efésios 6:15); assim, comparada com isso aqui, significa (diz Grócio) que Deus, quando recebe verdadeiros penitentes em seu favor, os usa para convencer e converter outros por suas instruções, pelo menos por seus exemplos.
Davi, quando perdoado, ensinará aos transgressores os caminhos de Deus, e Pedro, quando convertido, fortalecerá seus irmãos.
Ou indica que prosseguirão alegremente e com resolução no caminho da religião, como um homem faz quando tem sapatos nos pés, mais do que quando está descalço.
[2.] Veio para casa com fome, e seu pai não só o alimentou, mas lhe deu um banquete (v. 23): “Trazei aqui o bezerro gordo, que foi alimentado na baia e por muito tempo reservado para alguma ocasião especial, e matai-o, para que meu filho seja satisfeito com o melhor que temos”.
Alimento frio poderia ter servido, ou as sobras da última refeição; mas terá alimento fresco e quente, e o bezerro gordo nunca poderá ser melhor empregado.
Repare: há excelente alimento providenciado por nosso Pai celestial para todos aqueles que se levantam e vêm a ele. O próprio Cristo é o Pão da Vida; sua carne é verdadeiramente alimento e seu sangue verdadeiramente bebida; nele há um banquete para almas, um banquete de coisas gordurosas.
Foi grande mudança para o pródigo, que pouco antes queria encher seu ventre com cascas. Quão doces serão os suprimentos da nova aliança e os deleites de seus consolos para aqueles que trabalharam em vão por satisfação na criatura! Agora encontrou suas próprias palavras cumpridas: “Na casa de meu pai há pão suficiente e de sobra”.
(4.) A grande alegria e regozijo ocasionados por seu retorno. Trazer o bezerro gordo destinava-se a ser não só um banquete para ele, mas uma festa para a família:
“Comamos todos e nos alegremos, pois é um bom dia; pois este meu filho estava morto quando estava em seu vagueio, mas seu retorno é como vida dentre os mortos, reviveu; pensávamos que estava morto, não tendo ouvido dele por muito tempo, mas eis que vive; estava perdido, o demos por perdido, perdemos a esperança de ouvir dele, mas foi encontrado”. Repare:
[1.] A conversão de uma alma do pecado para Deus é levantar aquela alma da morte para a vida e encontrar aquilo que parecia perdido: é uma mudança grande, maravilhosa e feliz.
Aquilo que em si era morto é vivificado, aquilo que estava perdido para Deus e sua igreja é encontrado, e aquilo que era inútil se torna útil, Filemom 1:11. É uma mudança como aquela na face da terra quando a primavera retorna.
[2.] A conversão dos pecadores é grandemente agradável ao Deus do céu, e todos os que pertencem à sua família devem se alegrar nela; aqueles no céu se alegram, e aqueles na terra deveriam.
Observe: foi o pai que começou a alegria e pôs todos os demais a se alegrar. Por isso devemos ficar felizes com o arrependimento dos pecadores, porque cumpre o desígnio de Deus; é trazer a Cristo aqueles que o Pai lhe deu e nos quais será para sempre glorificado.
“Alegramo-nos por vocês diante de nosso Deus”, com os olhos nele (1 Tessalonicenses 3:9), e vocês são nossa alegria na presença de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Mestre da família, 1 Tessalonicenses 2:19.
A família acompanhou o senhor: “Começaram a se alegrar”. Repare: os filhos e servos de Deus devem reagir às coisas como ele reage.
- Temos aqui a reclamação e inveja do irmão mais velho, descritas como censura aos escribas e fariseus para lhes mostrar a insensatez e maldade de seu descontentamento com o arrependimento e conversão dos publicanos e pecadores e com o favor que Cristo lhes mostrava.
Representa isso de modo a não agravar a questão, mas ainda lhes reconhecendo os privilégios de irmãos mais velhos: os judeus tinham esses privilégios (embora os gentios fossem favorecidos), pois a pregação do evangelho deveria começar em Jerusalém.
Cristo, quando os censurou por suas faltas, ainda assim os abordou suavemente para conduzi-los a uma boa disposição para com os pobres publicanos.
Mas pelo irmão mais velho aqui podemos entender os que são realmente bons e o foram desde a juventude, e nunca se desviaram para qualquer curso vicioso de vida, que comparativamente não precisam de arrependimento.
A tais pessoas essas palavras no fim, “Filho, tu estás sempre comigo”, são aplicáveis sem dificuldade alguma, mas não aos escribas e fariseus. Agora acerca do irmão mais velho, observe:
(1.) Quão insensato e irritado foi por ocasião da recepção de seu irmão e como sentiu aversão por ela.
Parece que estava fora, no campo, na zona rural, quando seu irmão veio, e, quando voltou para casa, a alegria começara; “quando se aproximou da casa, ouviu música e dança”, ou enquanto o almoço era preparado, ou antes depois de comerem e estarem saciados, v. 25.
Perguntou o que essas coisas significavam (v. 26) e foi informado de que seu irmão viera e seu pai lhe fizera um banquete de boas-vindas, e havia grande alegria porque o recebera são e salvo, v. 27.
É apenas uma palavra no original, recebera-o hygiainonta: com saúde, bem tanto no corpo quanto na mente.
Recebeu-o não só bem no corpo, mas como penitente, retornado a seu juízo e bem reconciliado com a casa de seu pai, curado de seus vícios e de sua disposição libertina; de outro modo, não teria sido recebido são e salvo.
Agora isso o ofendeu ao mais alto grau: “Ficou irado e não quis entrar” (v. 28), não só porque estava decidido a não participar da alegria, mas porque mostraria seu desagrado com ela e indicaria a seu pai que deveria ter mantido fora seu irmão mais novo. Isso mostra o que é uma falta comum:
[1.] Nas famílias dos homens. Aqueles que sempre foram um consolo para seus pais pensam que deveriam ter o monopólio dos favores de seus pais e são propensos a ser duros demais com os que transgrediram e a ressentir a bondade de seus pais para com eles.
[2.] Na família de Deus. Aqueles que são comparativamente inocentes raramente sabem ser compassivos para com os que são manifestamente penitentes.
Temos aqui a linguagem de tais pessoas no que o irmão mais velho disse (v. 29, 30); está escrita como aviso aos que pela graça de Deus são preservados de pecado escandaloso e mantidos no caminho da virtude e sobriedade, para que não pequem à semelhança dessa transgressão. Observemos seus detalhes:
Primeiro, vangloriou-se de si mesmo e de sua própria virtude e obediência. Não só não fugira da casa de seu pai, como seu irmão, mas se fizera como servo nela, e havia muito o fazia: “Eis que há tantos anos te sirvo, nem em tempo algum transgredi teu mandamento”.
Repare: é comum demais aqueles que são melhores que seus vizinhos se vangloriarem disso; sim, e ainda se vangloriarem diante do próprio Deus, como se lhes devesse algo por isso.
Sou inclinado a pensar que esse irmão mais velho disse mais que a verdade quando se gloriou de nunca ter transgredido os mandamentos de seu pai; pois então creio que não teria sido tão obstinado como agora era diante dos pedidos de seu pai.
Contudo, admitiremos isso comparativamente; não fora tão desobediente quanto seu irmão. Ah, que necessidade têm os homens bons de tomar cuidado com o orgulho, corrupção que nasce das cinzas de outras corrupções!
Aqueles que serviram a Deus por muito tempo e foram preservados de pecados grosseiros têm muito pelo que ser humildemente agradecidos, mas nada de que se vangloriar orgulhosamente.
Segundo, queixou-se de seu pai, como se não tivesse sido tão bondoso quanto deveria para com ele, que fora tão obediente: “Nunca me deste um cabrito para que pudesse me alegrar com meus amigos”.
Estava de mau humor agora, de outro modo não teria feito essa queixa; pois, sem dúvida, se tivesse pedido tal coisa em qualquer ocasião, poderia tê-la recebido à primeira palavra; temos motivo para pensar que não a desejava, mas matar o bezerro gordo o levou a fazer essa censura irritadiça.
Quando os homens estão irritados, são propensos a censurar de um modo que não fariam se estivessem em seu juízo.
Fora alimentado à mesa de seu pai e muitas vezes se alegrara com ele e com a família; mas seu pai nunca lhe dera sequer um cabrito, que era apenas pequeno sinal de amor comparado com o bezerro gordo.
Repare: aqueles que pensam muito de si mesmos e de seus serviços são propensos a pensar duramente de seu senhor e fazer pouco caso de seus favores.
Devemos reconhecer que somos inteiramente indignos daquelas misericórdias que Deus julgou apropriado nos dar, muito mais daquelas que não julgou apropriado nos dar; por isso não devemos nos queixar.
Queria ter um cabrito para se alegrar com seus amigos fora de casa, ao passo que o bezerro gordo que tanto invejava foi dado a seu irmão, não para se alegrar com seus amigos fora de casa, mas com a família em casa.
A alegria dos filhos de Deus deveria ser com seu pai e sua família, em comunhão com Deus e seus santos, e não com quaisquer outros amigos.
Terceiro, foi muito mal-humorado com seu irmão mais novo e duro no que pensava e dizia acerca dele.
Algumas pessoas boas são propensas a ser surpreendidas nessa falta; ou melhor: a se entregar demais a ela, olhar com desdém aqueles que não preservaram sua reputação tão limpa quanto elas e ser azedas e rabugentas com eles; sim, e ainda embora tenham dado evidências muito boas de seu arrependimento e reforma.
Isso não é o Espírito de Cristo, mas dos fariseus. Observemos os exemplos disso:
- Não entraria, a menos que seu irmão fosse posto para fora; uma casa não comportaria a ele e a seu próprio irmão, nem mesmo a casa de seu pai.
A linguagem disso era aquela do fariseu (Isaías 65:5): “Fica por ti mesmo, não te aproximes de mim, pois sou mais santo que tu”; e (Lucas 18:11): não sou como os outros homens, nem mesmo como este publicano.
Repare: embora devamos evitar o convívio daqueles pecadores que podem nos contaminar, ainda assim não devemos nos esquivar da companhia de pecadores penitentes, de quem podemos receber algo bom.
Viu que seu pai o recebera e contudo não quis entrar até ele. Repare: pensamos bem demais de nós mesmos se não encontramos em nosso coração disposição de receber aqueles que Deus recebeu e admitir em favor, amizade e comunhão conosco aqueles de quem temos motivo para pensar que Deus tem favor e que são recebidos em amizade e comunhão com ele.
- Não queria chamá-lo irmão, mas “este teu filho”, o que soa arrogantemente e não sem censura a seu pai, como se sua indulgência o tivesse feito pródigo: “É teu filho, teu querido”.
Repare: esquecer a relação em que estamos com nossos irmãos, como irmãos, e rejeitar reconhecê-la estão no fundo de todas as nossas negligências de nosso dever para com eles e de nossas contradições àquele dever.
Demos aos nossos parentes, tanto na carne quanto no Senhor, os títulos que lhes pertencem. Os ricos chamem os pobres de irmãos, e os inocentes chamem assim os penitentes.
- Agravou as faltas de seu irmão e fez delas o pior, procurando incitar seu pai contra ele: ele é seu filho, que devorou seus bens com prostitutas.
É verdade que gastara sua própria porção com bastante insensatez (se com prostitutas ou não, não nos é dito antes; talvez fosse apenas a linguagem da inveja e má vontade do irmão mais velho), mas que devorara todos os bens de seu pai era falso; o pai tinha ainda um bom patrimônio.
Agora isso mostra como somos propensos, ao censurar nossos irmãos, a fazer o pior de tudo e apresentá-lo nas cores mais negras, o que não é fazer como desejaríamos que nos fizessem, nem como nosso Pai celestial faz conosco, que não é rigoroso a ponto de registrar as iniquidades.
- Invejou-lhe a bondade que seu pai lhe mostrou: “Mataste para ele o bezerro gordo”, como se fosse um filho como deveria ser.
Repare: é errado invejar aos penitentes a graça de Deus e ter nosso olho mau porque ele é bom.
Assim como não devemos invejar aos piores pecadores os dons da providência comum (“Não inveje teu coração os pecadores”), assim não devemos invejar aos que foram os piores pecadores os dons do amor da aliança mediante seu arrependimento.
Não devemos lhes invejar seu perdão, paz e consolo, não, nem qualquer dom extraordinário que Deus lhes concede, que os torna destacadamente aceitáveis ou úteis.
Paulo, antes de sua conversão, fora pródigo, devorara os bens de seu Pai celestial pela devastação que fez na igreja; contudo, quando depois de sua conversão lhe foram dadas medidas de graça maiores e lhe foi concedida mais honra que aos outros apóstolos, eles que eram os irmãos mais velhos não o invejaram.
Tinham servido a Cristo quando ele o perseguia e não tinham transgredido seu mandamento em tempo algum; não lhe invejaram suas visões e revelações nem sua utilidade mais extensa, mas glorificaram a Deus nele, o que deveria ser um exemplo para nós, como o contrário desse irmão mais velho.
(2.) Vejamos agora quão favorável e amistoso seu pai foi em sua conduta para com ele quando estava assim azedo e mal-humorado. Isso é tão surpreendente quanto o anterior.
Parece-me que a misericórdia e a graça de nosso Deus em Cristo brilham quase tão intensamente em seu terno e gentil suportar dos santos irritadiços, representados pelo irmão mais velho aqui, quanto antes em sua recepção dos pecadores pródigos mediante seu arrependimento, representados pelo irmão mais novo.
Os próprios discípulos de Cristo tinham muitas enfermidades e eram homens sujeitos a paixões semelhantes às dos outros, contudo Cristo os suportou como uma ama a suas crianças. Veja 1 Tessalonicenses 2:7.
[1.] Quando não quis entrar, seu pai saiu e lhe suplicou, abordou-o suavemente, deu-lhe boas palavras e desejou que entrasse. Poderia justamente ter dito:
“Se não quer entrar, que fique fora; fechai as portas contra ele e mandai-o procurar alojamento onde puder encontrá-lo. Não é minha a casa? E não posso fazer nela o que me agrada? Não é meu o bezerro gordo? E não posso fazer com ele o que me agrada?”
Não: assim como foi encontrar o filho mais novo, assim agora vai cortejar o mais velho; não mandou um servo com uma mensagem bondosa para ele, mas foi pessoalmente. Agora:
Primeiro, isso se destina a nos representar a bondade de Deus; quão extraordinariamente gentil e atraente tem sido para aqueles que foram extraordinariamente obstinados e provocadores.
Raciocinou com Caim: “Por que estás encolerizado?” Suportou os modos de Israel no deserto, Atos 13:18.
Com quanta suavidade Deus raciocinou com Elias quando estava irritado (1 Reis 19:4-6), e especialmente com Jonas, cujo caso era muito paralelo a esse aqui, pois estava inquieto com o arrependimento de Nínive e a misericórdia mostrada a ela, como o irmão mais velho aqui.
Aquelas perguntas, “Fazes bem em estar irado?” e “Não deveria eu poupar Nínive?”, não são diferentes dessas contestações do pai ao irmão mais velho aqui.
Segundo, é para ensinar todos os superiores a ser suaves e gentis com seus inferiores, até quando estão em falta e apaixonadamente se justificam nela, e nada pode ser mais provocador.
Contudo, até nesse caso, os pais não provoquem seus filhos a mais cólera, e os senhores deixem de ameaçar, e ambos mostrem toda mansidão.
[2.] Seu pai lhe assegurou que o acolhimento bondoso que deu a seu irmão mais novo nem era alguma censura a ele nem lhe seria prejudicial (v. 31): “Nunca passarás pior por isso nem terás menos por isso”.
“Filho, tu estás sempre comigo; a recepção dele não é rejeição de ti, nem aquilo que se gasta com ele uma diminuição palpável do que te destino; continuarás com direito à pars enitia (assim nossa lei a chama), a porção dupla (assim a lei judaica a chamava)”.
“Serás hæres ex asse (assim a lei romana a chamava): tudo que tenho é teu, por um título irrevogável”.
Se não lhe dera um cabrito para se alegrar com seus amigos, consentira que comesse pão à sua mesa continuamente; é melhor ser feliz com nosso Pai no céu do que alegre com qualquer amigo que temos neste mundo. Repare:
Primeiro, é a felicidade indizível de todos os filhos de Deus, que se mantêm próximos da casa de seu Pai, estarem e ficarem sempre com ele.
Estão assim neste mundo pela fé; estarão assim no outro pelo desfrute; tudo que tem é deles; pois, “se filhos, então herdeiros”, Romanos 8:17.
Segundo, por isso não devemos invejar a outros a graça de Deus para com eles, pois nunca teremos menos por participarem dela.
Se somos verdadeiros crentes, tudo que Deus é, tudo que tem, é nosso; se outros se tornam verdadeiros crentes, tudo que é e tudo que tem é deles também, e contudo não temos menos.
É assim com os que andam na luz e calor do sol: têm todo o benefício que podem ter dele e contudo não menos por outros terem tanto; pois Cristo em sua igreja é como o que se diz da alma no corpo: é tota in toto, o todo no todo, e contudo tota in qualibet parte, o todo em cada parte.