Matthew Henry

Levítico 8

Argumento

Este capítulo nos dá o relato da consagração solene de Arão e dos seus filhos ao ofício sacerdotal:

I. Foi feita publicamente, e a congregação foi convocada para ser testemunha dela, vv. 1-4.

II. Foi feita exatamente conforme a determinação de Deus, v. 5:

  1. Eles foram lavados e vestidos, vv. 6-9, 13.

  2. O tabernáculo e os utensílios dele foram ungidos, e depois os sacerdotes, vv. 10-12.

  3. Uma oferta pelo pecado foi oferecida por eles, vv. 14-17.

  4. Um holocausto, vv. 18-21.

  5. O carneiro da consagração, vv. 22-30.

  6. A continuação desta solenidade por sete dias, v. 31, etc.

Versículos 1 a 12

A Consagração de Arão e dos Seus Filhos. (a.C. 1490.)

Deus tinha dado ordens a Moisés para consagrar Arão e os seus filhos ao ofício sacerdotal, quando ele esteve com Deus a primeira vez no monte Sinai, Êxodo 28 e 29, onde temos também as instruções particulares que ele recebeu sobre como fazê-lo. Agora, aqui temos:

I. As ordens repetidas. O que ali foi mandado fazer é aqui mandado fazer agora, v. 2, 3. O tabernáculo tinha acabado de ser levantado, que, sem os sacerdotes, seria como um candelabro sem vela.

A lei a respeito dos sacrifícios tinha acabado de ser dada, mas não podia ser observada sem sacerdotes, pois, embora Arão e os seus filhos tivessem sido indicados para o ofício, não podiam oficiar enquanto não fossem consagrados.

Isso, contudo, não devia ser feito antes que o lugar do seu ministério estivesse preparado e as ordenanças fossem instituídas, para que pudessem dedicar-se ao trabalho tão logo fossem consagrados e soubessem que estavam ordenados não só para a honra e o proveito, mas também para os deveres do sacerdócio.

Arão e os seus filhos eram parentes próximos de Moisés, e por isso ele não quis consagrá-los enquanto não tivesse ordens ulteriores, para que não parecesse ansioso demais por trazer honra à sua família.

II. A congregação convocada, à porta, isto é, no átrio do tabernáculo, v. 4.

Os anciãos e os homens principais da congregação, que representavam o corpo do povo, foram convocados a comparecer, pois o átrio só comportaria uns poucos dos muitos milhares de Israel. Foi feito assim publicamente:

  1. Porque era uma transação solene entre Deus e Israel. Os sacerdotes deviam ser ordenados em favor dos homens nas coisas que pertencem a Deus, para manter uma relação constante e intermediar todos os assuntos entre o povo e Deus.

Por isso era conveniente que ambos os lados comparecessem à porta do tabernáculo do encontro para reconhecer a determinação.

  1. Os espectadores da solenidade não podiam deixar de ser tomados, à vista dela, de grande veneração pelos sacerdotes e pelo ofício deles, o que era necessário entre um povo tão miseravelmente propenso à inveja e ao descontentamento como era este.

Foi estranho que algum dos que foram testemunhas do que aqui se fez viesse depois a dizer, como alguns deles disseram: “Tomais demais sobre vós, filhos de Levi”; mas o que teriam dito se aquilo tivesse sido feito clandestinamente?

Repare: é muito conveniente e útil que os ministros sejam ordenados publicamente, plebe praesente — na presença do povo comum, segundo o uso da igreja primitiva.

III. A comissão lida, v. 5. Moisés, que era o representante de Deus nesta solenidade, apresentou as suas ordens diante da congregação: “Esta é a coisa que o Senhor ordenou que se fizesse.”

Embora Deus o tivesse coroado rei em Jesurum, quando fez o seu rosto resplandecer à vista de todo o Israel, contudo ele não instituiu nem designou coisa alguma no culto de Deus senão o que o próprio Deus tinha ordenado.

O sacerdócio que ele lhes transmitiu foi aquele que tinha recebido do Senhor. Repare: todos os que ministram nas coisas santas devem ter os olhos no mandamento de Deus como sua regra e sua autorização, pois é só na observância dele que podem esperar ser reconhecidos e aceitos por Deus.

Assim devemos poder dizer, em todos os atos de culto religioso: “Esta é a coisa que o Senhor ordenou que se fizesse.”

IV. A cerimônia realizada segundo o ritual divino:

  1. Arão e os seus filhos foram lavados com água (v. 6), para significar que deviam agora purificar-se de todas as disposições e inclinações pecaminosas, e dali em diante manter-se puros.

Cristo lava dos seus pecados, no seu próprio sangue, aqueles a quem faz reis e sacerdotes para o nosso Deus (Apocalipse 1:5, 6); e os que se aproximam de Deus devem ser lavados com água pura, Hebreus 10:22.

Por mais limpos que estivessem antes, e ainda que nenhuma sujeira se visse neles, contudo tinham de ser lavados, para significar a sua purificação do pecado, com que as suas almas estavam poluídas, por mais limpos que fossem os seus corpos.

  1. Foram vestidos com as vestes santas: Arão com as suas (vv. 7-9), que prefiguravam a dignidade de Cristo, o nosso grande sumo sacerdote, e os seus filhos com as deles (v. 13), que prefiguravam o decoro dos cristãos, que são sacerdotes espirituais.

Cristo usa o peitoral do juízo e a coroa santa, pois o sumo sacerdote da igreja é o seu profeta e o seu rei.

Todos os crentes estão vestidos com o manto da justiça e cingidos com o cinto da verdade, da resolução e da aplicação constante; e as suas cabeças estão atadas, como diz a palavra aqui, com a tiara, ou diadema, de beleza, a beleza da santidade.

  1. O sumo sacerdote foi ungido e, ao que parece, as coisas santas foram ungidas ao mesmo tempo. Alguns pensam que elas foram ungidas antes, mas que a unção delas é mencionada aqui porque Arão foi ungido com o mesmo óleo com que elas foram ungidas.

Mas o modo como isso é relatado aqui torna mais que provável que tenha sido feito ao mesmo tempo, e que os sete dias empregados na consagração do altar tenham coincidido com os sete dias da consagração dos sacerdotes.

No tabernáculo e em todos os seus utensílios foi posto um pouco do óleo da unção com o dedo de Moisés (v. 10), e assim também no altar (v. 11). Estes deviam santificar o ouro e a oferta (Mateus 23:17-19), e por isso tinham eles mesmos de ser assim santificados.

Mas ele o derramou em maior quantidade sobre a cabeça de Arão (v. 12), até escorrer pelas orlas das suas vestes, pois sua unção prefigurava a unção de Cristo com o Espírito, que não lhe foi dado por medida. Contudo, todos os crentes também receberam a unção, que põe neles um caráter indelével, 1 João 2:27.

Versículos 14 a 30

A aliança do sacerdócio devia ser feita por sacrifício, como as demais alianças, Salmos 50:5. E assim Cristo foi consagrado pelo sacrifício de si mesmo, de uma vez por todas.

Sacrifícios de cada tipo deviam ser oferecidos em favor dos sacerdotes, para que com tanto mais ternura e cuidado oferecessem os dons e sacrifícios do povo, com compaixão dos ignorantes e dos que andavam desviados.

Não deviam desprezar aqueles por quem ofereciam sacrifícios, lembrando-se de que eles mesmos tinham tido sacrifícios oferecidos por si, estando rodeados de fraqueza.

  1. Um novilho, o maior dos sacrifícios, era oferecido como oferta pelo pecado (v. 14), para que assim se fizesse expiação e eles não levassem nada da culpa dos pecados do seu estado anterior para a nova condição que agora deviam assumir.

Quando Isaías foi enviado para ser profeta, foi-lhe dito, para seu consolo: “A tua iniquidade é tirada”, Isaías 6:7.

Os ministros, que devem anunciar a outros a remissão dos pecados, devem empenhar-se em assegurar primeiro, para si mesmos, que os seus próprios pecados estão perdoados.

Aqueles a quem foi confiado o ministério da reconciliação devem primeiro estar eles mesmos reconciliados com Deus, para que possam tratar das almas dos outros como das suas próprias.

  1. Um carneiro era oferecido em holocausto, vv. 18-21.

Com isso davam a Deus a glória desta grande honra que agora lhes era conferida e lhe rendiam louvor por ela, como Paulo agradeceu a Cristo Jesus por tê-lo posto no ministério, 1 Timóteo 1:12. Também significavam a dedicação de si mesmos e de todos os seus serviços à honra de Deus.

  1. Outro carneiro, chamado de carneiro da consagração, era oferecido como oferta pacífica, v. 22, etc.

Parte do sangue dele era posta sobre os sacerdotes, nas orelhas, nos polegares e nos dedos dos pés, e parte era aspergida sobre o altar. Assim, por assim dizer, Moisés os casou com o altar, ao qual deviam dedicar-se todos os seus dias.

Todas as cerimônias a respeito desta oferta, como as anteriores, foram determinadas por mandamento expresso de Deus. E, se compararmos este capítulo com Êxodo 29, veremos que a realização da solenidade concorda exatamente com o preceito que está ali, e em nada varia.

Por isso, aqui, como no relato que tivemos do tabernáculo e dos seus vasos, repete-se vezes e mais vezes: “Como o Senhor ordenou a Moisés”.

E assim Cristo, quando se santificou com o seu próprio sangue, tinha em vista nisso a vontade do seu Pai. “Como o Pai me deu mandamento, assim faço”, João 14:31; 10:18; 6:38.

Versículos 31 a 36

Moisés, tendo feito a sua parte na cerimônia, deixa agora que Arão e os seus filhos façam a deles.

I. Eles devem cozer a carne da sua oferta pacífica e comê-la no átrio do tabernáculo, e o que restar devem queimar no fogo, v. 31, 32.

Isso significava o consentimento agradecido deles à consagração: quando Deus deu a Ezequiel a sua comissão, disse-lhe que comesse o rolo, Ezequiel 3:1, 2.

II. Eles não devem sair do átrio do tabernáculo por sete dias, v. 33. Sendo o sacerdócio uma boa milícia, devem assim aprender a “suportar a dureza” e a desembaraçar-se dos assuntos desta vida, 2 Timóteo 2:3, 4.

Consagrados ao seu serviço, devem entregar-se inteiramente a ele e dedicar-se continuamente a essa tarefa. Assim os apóstolos de Cristo foram designados para “esperar a promessa do Pai”, Atos 1:4.

Durante este tempo determinado para a sua consagração, deviam repetir diariamente os mesmos sacrifícios que foram oferecidos no primeiro dia, v. 34.

Isso mostra a imperfeição dos sacrifícios legais, que, porque não podiam tirar o pecado, eram repetidos muitas vezes (Hebreus 10:1, 2), mas aqui eram repetidos sete vezes (número de perfeição), porque prefiguravam aquela única oferta que aperfeiçoou para sempre os que são santificados.

A obra durou sete dias, pois era uma espécie de criação. E este tempo foi determinado em honra do sábado, que provavelmente era o último dia dos sete, para o qual deviam preparar-se durante os seis dias.

Assim o tempo da nossa vida, como os seis dias, deve ser a nossa preparação para a perfeição da nossa consagração a Deus no sábado eterno. Eles permaneciam ali dia e noite (v. 35), e tão constantes devemos ser nós na nossa meditação na lei de Deus, Salmos 1:2.

Eles se aplicavam a guardar “o encargo do Senhor”. Temos, cada um de nós, um encargo a guardar: um Deus eterno a glorificar, uma alma imortal de que cuidar, um dever necessário a cumprir, a nossa geração a servir.

Guardar este encargo deve ser o nosso cuidado diário, pois é o encargo do Senhor nosso Mestre, que em breve nos chamará a prestar contas dele; negligenciá-lo nos expõe ao maior perigo.

Guardem-no para que não morram. É morte, morte eterna, trair a confiança de que estamos encarregados, e a consciência disso deve nos manter em temor.

Por fim, é-nos dito (v. 36) que Arão e os seus filhos fizeram tudo o que foi ordenado. Assim se completou a consagração deles, e assim deram diante do povo o exemplo de uma obediência exata às leis dos sacrifícios recém-dadas; então podiam ensinar o povo com mais propriedade.

Assim foi feita com Arão e os seus filhos “a aliança de paz” (Números 25:12), “de vida e de paz” (Malaquias 2:5).

Mas, depois de todas as cerimônias usadas na consagração deles, havia um ponto de ratificação reservado para ser a honra e o estabelecimento do sacerdócio de Cristo.

Era este: eles foram feitos sacerdotes sem juramento, mas Cristo com juramento (Hebreus 7:21), porque nem tais sacerdotes nem o sacerdócio deles podiam continuar, ao passo que o de Cristo é um sacerdócio perpétuo e imutável.

Os ministros do evangelho são comparados aos que serviam ao altar, pois “ministram acerca das coisas santas” (1 Coríntios 9:13). Eles são a boca de Deus para o povo e a do povo para Deus, os pastores e mestres que Cristo designou para continuarem na igreja até o fim do mundo.

Eles parecem estar em vista naquela promessa que aponta para os tempos do evangelho (Isaías 66:21): “Deles tomarei para sacerdotes e para levitas”.

Ninguém pode tomar para si esta honra, senão aquele que, posto à prova, se encontra revestido e ungido pelo Espírito de Deus com dons e graças que o qualifiquem para ela, e que com propósito de coração se dedica inteiramente ao serviço.

Ele é então separado para o ofício pela palavra e pela oração (pois assim toda coisa é santificada) e pela imposição das mãos dos que se entregam à palavra e à oração, e é recomendado a Cristo como servo e à igreja como mordomo e guia.

E os que assim são solenemente dedicados a Deus não devem apartar-se do serviço dele, mas permanecer fielmente nele todos os seus dias.

E os que assim fazem, e continuam trabalhando na palavra e na doutrina, devem ser considerados dignos de honra dobrada, dobrada em relação à dos sacerdotes do Antigo Testamento.


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