Matthew Henry

Levítico 7

Argumento

Aqui está:

I. A lei da oferta pela transgressão (vv. 1-7), com mais algumas instruções a respeito do holocausto e da oferta de manjares, vv. 8-10.

II. A lei da oferta pacífica:

O comer dela (vv. 11-21), ocasião em que se repete a proibição de comer gordura ou sangue (vv. 22-27), e a porção dela que cabe aos sacerdotes, vv. 28-34.

III. A conclusão dessas instituições, v. 35, etc.

Versículos 1 a 10

Lei da Oferta pela Transgressão. (a.C. 1490.)

Observe aqui:

  1. Quanto à oferta pela transgressão, que, sendo muito da mesma natureza que a oferta pelo pecado, devia ser governada pelas mesmas regras, v. 6.

Quando o sangue e a gordura eram oferecidos a Deus para fazer expiação, os sacerdotes deviam comer a carne, como a da oferta pelo pecado, no lugar santo.

Os judeus têm uma tradição (como a temos do erudito bispo Patrick) a respeito da aspersão do sangue da oferta pela transgressão ao redor sobre o altar:

“Havia uma linha escarlate que corria ao redor do altar exatamente no meio, e o sangue dos holocaustos era aspergido ao redor acima da linha, mas o das ofertas pela transgressão e das ofertas pacíficas, ao redor abaixo da linha.”

Quanto à carne da oferta pela transgressão, o direito a ela pertencia ao sacerdote que a oferecia, v. 7. Quem fazia o trabalho devia receber o salário.

Isso era estímulo para que os sacerdotes se dedicassem com diligência ao altar; quanto mais prontos e ocupados eram, mais recebiam.

Repare: quanto mais diligentes formos nos serviços da religião, mais colheremos das vantagens dela.

Mas qualquer dos sacerdotes, e os varões das suas famílias, podia ser convidado por aquele a quem ela pertencia a participar com ele: “Todo varão entre os sacerdotes comerá dela”, isto é, pode comer dela, “no lugar santo”, v. 6.

E, sem dúvida, era costume regalarem-se uns aos outros com esses proventos do seu ofício, pelos quais a amizade e a comunhão se mantinham entre os sacerdotes. De graça tinham recebido, e de graça deviam dar.

Parece que o ofertante não devia ele mesmo ter parte alguma da sua oferta pela transgressão, como devia ter da sua oferta pacífica; mas ela era toda dividida entre o altar e o sacerdote.

Eles ofereciam ofertas pacíficas em agradecimento pela misericórdia, e então era próprio banquetear-se; mas ofereciam ofertas pela transgressão em tristeza pelo pecado, e então o jejum era mais próprio, em sinal de santo pranto e de uma resolução de se absterem do pecado.

  1. Quanto ao holocausto, determina-se aqui que o sacerdote que o oferecesse devia ficar com a pele (v. 8), da qual sem dúvida podia tirar dinheiro.

“Isto” (dizem os judeus) “se entende apenas dos holocaustos que eram oferecidos por pessoas particulares; porque o lucro das peles dos holocaustos diários em favor da congregação ia para o reparo do santuário.”

Alguns sugerem que esta determinação nos ajudará a entender o fato de Deus ter vestido os nossos primeiros pais com túnicas de peles, Gênesis 3:21.

É provável que os animais de que eram aquelas peles fossem oferecidos em sacrifício como holocaustos, e que Adão fosse o sacerdote que os oferecia.

E então Deus lhe deu as peles, como a paga que lhe cabia, para fazer delas roupas para si e para a sua mulher; em memória do que as peles pertenceram desde então ao sacerdote. E veja Gênesis 27:16.

  1. Quanto à oferta de manjares, se estava preparada, era própria para se comer de imediato; e por isso o sacerdote que a oferecia devia ficar com ela, v. 9.

Se estava seca, não havia tanta ocasião de pressa em usá-la; e por isso devia ser feita uma divisão igual dela entre todos os sacerdotes que estivessem então de serviço, v. 10.

Versículos 11 a 34

Lei da Oferta Pacífica. (a.C. 1490.)

Tudo isto diz respeito às ofertas pacíficas: é a repetição e a explicação do que já tivemos antes, com diversos acréscimos.

I. A natureza e a intenção das ofertas pacíficas são aqui expostas com mais distinção. Elas eram oferecidas ou:

  1. Em gratidão por alguma misericórdia especial recebida, como a recuperação de uma doença, a preservação numa viagem, o livramento no mar, a redenção do cativeiro — todas especificadas em Salmos 107 —, e por elas os homens são convocados a oferecer o sacrifício de ação de graças, Salmos 107:22.

Ou, 2. Em cumprimento de algum voto que o homem fez quando estava em aflição (v. 16), e isto era menos honroso que o anterior, ainda que a omissão dele tivesse sido mais culpável.

Ou, 3. Em súplica por alguma misericórdia especial que o homem buscava e esperava, aqui chamada de oferta voluntária. Esta acompanhava as orações do homem, como a oferta de ação de graças acompanhava os seus louvores.

Não encontramos que os homens estivessem obrigados pela lei, a não ser que se tivessem obrigado por voto, a oferecer estas ofertas pacíficas em tais ocasiões, como estavam obrigados a trazer os seus sacrifícios de expiação em caso de pecado cometido.

Não que a oração e o louvor não sejam dever nosso tanto quanto o arrependimento; mas aqui, nas expressões do seu senso da misericórdia, Deus os deixou mais à sua liberdade do que nas expressões do seu senso do pecado — para provar a generosidade da devoção deles, e para que os seus sacrifícios, sendo ofertas voluntárias, fossem tanto mais louváveis e aceitáveis.

E, obrigando-os a trazer os sacrifícios de expiação, Deus mostraria a necessidade da grande propiciação.

II. Os ritos e as cerimônias a respeito das ofertas pacíficas são aqui tratados mais amplamente:

  1. Se a oferta pacífica era oferecida por ação de graças, uma oferta de manjares devia ser oferecida com ela — bolos de diversos tipos e obreias (v. 12).

E (o que era peculiar às ofertas pacíficas) pão levedado devia ser oferecido, não para ser queimado sobre o altar, o que era proibido (Levítico 2:11), mas para ser comido com a carne do sacrifício, para que nada faltasse para fazer dela um banquete completo e agradável.

Pois o pão sem levedura era menos grato ao paladar; por isso, embora ordenado na páscoa por uma razão particular, nas outras festas foi designado o pão levedado, que era mais leve e mais agradável, para que os homens banqueteassem à mesa de Deus como à sua própria.

E alguns pensam que se exige uma oferta de manjares com toda oferta pacífica, assim como com a de ação de graças, por aquela lei (v. 29) que exige uma oblação junto com ela, para que a mesa fosse tão bem provida quanto o altar.

  1. A carne das ofertas pacíficas, tanto a que era a porção do sacerdote quanto a que era do ofertante, devia ser comida depressa, e não guardada por muito tempo, nem crua nem preparada e fria.

Se era uma oferta pacífica por ação de graças, devia ser toda comida no mesmo dia (v. 15); se era voto, ou oferta voluntária, devia ser comida no mesmo dia ou no dia seguinte, v. 16.

Se sobrasse alguma coisa além do tempo fixado, devia ser queimada (v. 17); e, se alguém comesse do que assim sobrou, a sua conduta seria censurada como falta gravíssima, v. 18.

Embora não fossem obrigados a comê-la no lugar santo, como as ofertas que se chamam santíssimas, mas pudessem levá-la às suas próprias tendas e banquetear-se ali, ainda assim Deus quis, por esta lei, fazê-los conhecer uma diferença entre ela e o outro alimento, e observá-la religiosamente.

Ao passo que podiam guardar outro alimento frio em casa quanto tempo achassem bom, e aquecê-lo de novo se quisessem, e comê-lo três ou quatro dias depois, não podiam fazer assim com a carne das suas ofertas pacíficas: ela tinha de ser comida de imediato.

(1.) Porque Deus não queria que aquela carne santa corresse o risco de apodrecer, ou de ser tomada por larvas de moscas; para evitar isso, ela devia ser “salgada com fogo” (como está a expressão em Marcos 9:49) se fosse guardada, assim como, se fosse usada, devia ser “salgada com sal”.

(2.) Porque Deus não queria que o seu povo fosse mesquinho e avarento, e desconfiado da providência, mas que desfrutasse alegremente o que Deus lhe dá (Eclesiastes 8:15), e fizesse bem com isso, e não se preocupasse ansiosamente com o dia de amanhã.

(3.) A carne das ofertas pacíficas era o banquete que Deus oferecia, e por isso Deus queria dispor dela; e ele manda que seja usada liberalmente para receber os amigos deles, e caritativamente para o socorro dos pobres.

Isso mostra que ele é um benfeitor generoso, que nos dá todas as coisas ricamente para delas desfrutarmos, o pão do dia no seu dia.

Se o sacrifício era de ação de graças, estavam especialmente obrigados a testemunhar assim a sua santa alegria na bondade de Deus pelo seu santo banquete.

Esta lei é feita muito estrita (v. 18): se o ofertante não cuidasse de que toda a sua oferta fosse comida por ele, pela sua família, pelos seus amigos ou pelos pobres, dentro do tempo fixado pela lei, ou, sobrando alguma parte, de queimá-la, então a sua oferta não seria aceita, nem lhe seria imputada.

Queimá-la era o modo mais decente de dispor dela, sendo os sacrifícios sobre o altar consumidos pelo fogo.

Repare: todo o benefício dos nossos serviços religiosos se perde se não os aproveitarmos e não nos conduzirmos direito depois. Eles não são aceitáveis a Deus se não tiverem a devida influência sobre nós mesmos.

Se um homem parecia generoso ao trazer uma oferta pacífica, e depois se mostrava sovina e mesquinho no uso dela, era como se nunca a tivesse trazido; ou melhor: será abominação.

Repare: não há meio-termo entre a aceitação de Deus e a sua repulsa. Se as nossas pessoas e os nossos atos são sinceros e retos, são aceitos; se não, são abominação, Provérbios 15:8.

Quem a come depois do tempo marcado “levará a sua iniquidade”, isto é, será cortado do seu povo, como se explica (Levítico 19:8), onde esta lei é repetida.

Esta lei de comer as ofertas pacíficas antes do terceiro dia, para que não apodrecessem, se aplica à ressurreição de Cristo depois de dois dias, para que, sendo ele o santo de Deus, não visse corrupção, Salmos 16:10.

E alguns pensam que ela nos instrui a participar de Cristo e da sua graça depressa e sem demora, alimentando-nos e banqueteando-nos nele pela fé hoje, “enquanto se chama Hoje” (Hebreus 3:13, 14), porque em breve será tarde demais.

  1. Mas a carne, e os que a comem, devem ser puros:

(1.) A carne não devia tocar nenhuma coisa imunda; se tocasse, não devia ser comida, mas queimada, v. 19.

Se, ao levá-la do altar para o lugar onde era comida, um cão a tocasse, ou ela tocasse um corpo morto ou qualquer outra coisa imunda, ficava então imprópria para ser usada num banquete religioso. Tudo com que honramos o Deus santo tem de ser puro e guardado com cuidado de toda poluição.

É caso julgado (Ageu 2:12) que a carne santa não podia, pelo seu toque, comunicar santidade ao que era comum; mas por esta lei fica determinado que, pelo toque do que era imundo, ela recebia dele poluição, o que dá a entender que a infecção do pecado se comunica mais fácil e mais frequentemente do que o sabor da graça.

(2.) Ela não devia ser comida por nenhuma pessoa imunda. Quando uma pessoa estava, por qualquer motivo, cerimonialmente imunda, era por sua conta e risco que presumisse comer da carne das ofertas pacíficas, v. 20, 21.

As coisas santas são só para pessoas santas; sendo cerimonial a santidade do alimento, ficavam incapacitados de participar dela os que jaziam sob qualquer imundícia cerimonial.

Mas com isto somos ensinados a preservar-nos puros de todas as poluições do pecado, para que tenhamos o benefício e o consolo do sacrifício de Cristo, 1 Pedro 2:1, 2. As nossas consciências têm de ser purificadas das obras mortas, para que sejamos aptos a servir ao Deus vivo, Hebreus 9:14.

Mas se alguém ousar participar da mesa do Senhor sob a poluição de pecado não arrependido, e assim profanar as coisas sagradas, come e bebe juízo para si mesmo, como os que comeram das ofertas pacíficas (v. 20), caso repetido no v. 21, ofertas “que pertencem ao Senhor”.

Tudo o que pertence ao Senhor é sagrado, e tem de ser usado com grande reverência, e não com mãos profanas. Sejam santos, porque Deus é santo, e vocês pertencem a ele.

  1. O comer do sangue e da gordura das entranhas é aqui de novo proibido; e a proibição vem anexada, como antes, à lei das ofertas pacíficas, Levítico 3:17:

(1.) A proibição da gordura parece limitar-se aos animais que eram usados para sacrifício: os novilhos, as ovelhas e os bodes. Mas do corço, do veado e de outros animais limpos eles podiam comer a gordura, pois só aqueles de que se traziam ofertas são mencionados aqui, vv. 23-25.

Isso era para preservar nas mentes deles uma reverência pelo altar de Deus, sobre o qual se queimava a gordura das entranhas.

Os judeus dizem: “Se um homem comer até mesmo uma quantidade de gordura proibida do tamanho de uma azeitona — se o fizer presunçosamente, corre o risco de ser cortado pela mão de Deus; se por ignorância, deve trazer uma oferta pelo pecado, e assim pagar caro pelo seu descuido.”

Comer da carne do que morria por si mesmo, ou do que era despedaçado por feras, era ilícito; mas comer da gordura desses era duplamente ilícito, v. 24.

(2.) A proibição do sangue é mais geral (v. 26, 27), porque a gordura era oferecida a Deus apenas por via de reconhecimento, mas o sangue fazia expiação pela alma, e assim tipificava o sacrifício de Cristo muito mais do que a queima da gordura.

Por isso se lhe devia prestar maior reverência, até que estes tipos tivessem o seu cumprimento na oferta do corpo de Cristo de uma vez por todas.

Os judeus expõem com acerto esta lei como proibindo somente o sangue da vida, como eles o exprimem, e não o que chamamos de suco da carne, pois desse supunham que era lícito comer.

  1. A porção que cabe ao sacerdote nas ofertas pacíficas é aqui prescrita. De cada animal que era oferecido como oferta pacífica, o sacerdote que o oferecia devia ter para si o peito e a espádua direita, vv. 30-34.

Observe aqui: (1.) Que, quando o sacrifício era morto, o próprio ofertante devia, com as suas próprias mãos, apresentar a parte de Deus, para com isso significar que a entregava de bom grado a Deus, e o seu desejo de que ela fosse aceita.

Ele devia, com as suas próprias mãos, levantá-la, em sinal do seu respeito por Deus como o Deus do céu, e depois movê-la de um lado para outro, em sinal do seu respeito por Deus como o Senhor de toda a terra, a quem assim, tão longe quanto podia alcançar, a oferecia, mostrando a sua prontidão e o seu desejo de honrá-lo.

Ora, o que assim era alçado e movido era a gordura, o peito e a espádua direita; tudo era oferecido a Deus. E então ele destinou a gordura ao seu altar, e o peito e a espádua ao seu sacerdote, sendo ambos os seus recebedores.

(2.) Que, quando a gordura era queimada, o sacerdote tomava a sua parte, com a qual ele e a sua família deviam banquetear-se, assim como o ofertante e a sua família.

Na santa alegria e na ação de graças, é bom ter os nossos ministros indo à nossa frente e falando por nós a Deus. A melodia é doce quando o que semeia e os que ceifam se alegram juntos.

Alguns observam um significado nas partes atribuídas aos sacerdotes: o peito e a espádua dão a entender os afetos e as ações, que devem ser dedicados à honra de Deus por todo o seu povo, e também ao serviço da igreja por todos os seus sacerdotes.

Cristo, a nossa grande oferta pacífica, banqueteia todos os seus sacerdotes espirituais com o peito e a espádua, com o mais querido amor e os mais doces e fortes apoios; pois dele é a sabedoria de Deus e o poder de Deus.

Quando Saul foi destinado a rei, Samuel mandou pôr diante dele a espádua da oferta pacífica (1 Samuel 9:24), o que lhe deu um indício de algo grande e sagrado que lhe estava destinado.

Jesus Cristo é a nossa grande oferta pacífica; pois ele se fez sacrifício, não só para expiar o pecado, e assim nos salvar da maldição, mas para comprar uma bênção para nós, e todo bem.

Ao participarmos com alegria dos benefícios da redenção, banqueteamo-nos no sacrifício, e para significar isso foi instituída a ceia do Senhor.

Versículo 35

Aqui está a conclusão destas leis a respeito dos sacrifícios, embora algumas delas sejam depois repetidas e explicadas. Estas devem ser consideradas:

  1. Como concessão aos sacerdotes, v. 35, 36. No dia em que foram ordenados para essa obra e esse ofício, esta provisão foi feita para o sustento confortável deles.

Repare: Deus cuidará de que os que são empregados a serviço dele sejam bem pagos e bem providos.

Os que recebem a unção do Espírito para ministrar ao Senhor terão o seu quinhão, e será quinhão digno, das ofertas do Senhor; porque a obra de Deus é o seu próprio salário, e há uma recompensa presente da obediência na obediência.

  1. Como estatuto perpétuo para o povo: que trouxessem estas ofertas segundo as regras prescritas e dessem de bom grado aos sacerdotes a porção que lhes cabe delas. Deus ordenou aos filhos de Israel que oferecessem as suas oblações, v. 38.

Repare: os atos solenes do culto religioso são ordenados. Não são coisas deixadas à nossa livre escolha, que podemos fazer ou não fazer a nosso bel-prazer; mas estamos sob obrigações indispensáveis de cumpri-los no seu devido tempo, e é por nossa conta e risco se os omitimos.

A observância das leis de Cristo não pode ser menos necessária do que era a observância das leis de Moisés.


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