Levítico 5
Argumento
Este capítulo, e parte do seguinte, tratam da oferta pela transgressão.
A diferença entre esta e a oferta pelo pecado não estava tanto nos sacrifícios em si, e no modo de conduzi-los, quanto nas ocasiões em que eram oferecidos.
Ambas eram destinadas a fazer expiação pelo pecado; mas a oferta pelo pecado era mais geral, ao passo que a oferta pela transgressão se aplicava a alguns casos particulares.
Observe o que se diz aqui:
I. Quanto à transgressão. Se um homem pecar:
Escondendo o que sabe, quando é conjurado, v. 1.
Tocando alguma coisa imunda, v. 2, 3.
Jurando, v. 4.
Desviando as coisas santas, vv. 14-16.
Em qualquer pecado de fraqueza, vv. 17-19.
Há outros casos em que estas ofertas deviam ser oferecidas, Levítico 6:2-4; 14:12; 19:21; Números 6:12.
II. Quanto às ofertas pela transgressão:
Do rebanho, v. 5, 6.
De aves, vv. 7-10.
De farinha, vv. 11-13; mas principalmente um carneiro sem defeito, v. 15, etc.
Versículos 1 a 6
Lei da Oferta pelo Pecado. (a.C. 1490.)
I. As ofensas aqui supostas são:
- O homem esconder a verdade quando foi juramentado como testemunha, para dizer a verdade, toda a verdade e nada além da verdade.
Os juízes entre os judeus tinham poder para conjurar não só as testemunhas, como entre nós, mas o suspeito (ao contrário de uma regra da nossa lei, de que ninguém é obrigado a acusar a si mesmo), como se vê no sumo sacerdote conjurando o nosso Salvador, que então respondeu, embora antes estivesse calado, Mateus 26:63, 64.
Ora (v. 1), “se uma alma pecar” (isto é, uma pessoa, porque a alma é o homem), se ouvir a voz de juramento (isto é, se for conjurado a testemunhar o que sabe, por um juramento do Senhor sobre ele, 1 Reis 8:31), se, em tal caso, por medo de ofender alguém que ou foi seu amigo ou pode ser seu inimigo, recusa-se a prestar depoimento, ou o presta apenas em parte, “levará a sua iniquidade”.
E esse é um fardo pesado, que, se não se tomar alguma providência para removê-lo, afundará o homem no mais profundo inferno.
Quem ouve a maldição (isto é, quem é assim conjurado) “e não a denuncia” (isto é, abafa o seu depoimento e não o profere), esse é parceiro do pecador e “odeia a sua própria alma”; veja Provérbios 29:24.
Que todos os que forem chamados alguma vez a dar testemunho pensem nesta lei, sejam francos e abertos no seu depoimento e tomem cuidado para não se esquivarem da verdade. Um juramento do Senhor é coisa sagrada, e não se brinca com ele.
- O homem tocar em qualquer coisa que fosse cerimonialmente imunda, v. 2, 3.
Se um homem, contaminado por tal toque, entrava no santuário sem pensar, ou se descuidava de lavar-se conforme a lei, então devia considerar-se sob culpa e tinha de trazer a sua oferta.
Ainda que o seu tocar na coisa imunda contraísse apenas uma contaminação cerimonial, contudo o seu descuido em lavar-se conforme a lei era tal exemplo ou de desleixo ou de desprezo que contraía uma culpa moral.
Se a princípio isso lhe estiver oculto, contudo, quando ele o souber, será culpado.
Repare: assim que Deus, pelo seu Espírito, convence a nossa consciência de algum pecado ou dever, temos de aderir sem demora à convicção e levá-la adiante, como aqueles que não se envergonham de reconhecer o próprio erro anterior.
- O juramento temerário.
Se um homem se obriga por juramento a fazer ou não fazer tal coisa, e o cumprimento do seu juramento depois se mostra ou ilícito ou impraticável, com o que fica desobrigado, ainda assim tem de trazer uma oferta para expiar a sua insensatez em jurar tão temerariamente, como Davi, que jurou matar Nabal.
E era então que ele devia dizer diante do anjo que foi um erro, Eclesiastes 5:6.
“Será culpado numa destas coisas” (Levítico 5:4): culpado se não cumprir o seu juramento e, contudo, se a matéria dele fosse má, culpado se cumprir.
É a dilemas miseráveis como estes que alguns homens se lançam pela própria temeridade e insensatez; sigam por onde quiserem, a consciência deles fica ferida, o pecado os encara de frente, tão tristemente estão eles presos nas palavras da própria boca.
Este é um dilema mais triste que o dos leprosos: “Se ficarmos sentados, morremos; se nos mexermos, morremos.” Sabedoria e vigilância de antemão evitariam esses apertos.
II. Ora, nestes casos:
- O ofensor deve confessar o seu pecado e trazer a sua oferta (v. 5, 6); e a oferta não era aceita se não viesse acompanhada de uma confissão penitente e de uma humilde oração por perdão.
Observe: a confissão tem de ser particular — que ele pecou naquela coisa. Assim foi a confissão de Davi (Salmos 51:4), ao reconhecer que fizera aquele mal; e a de Acã (Josué 7:20): “Assim e assim eu fiz.”
O engano está nas generalidades; muitos reconhecem em geral que pecaram, pois isso todos têm de reconhecer, de modo que não é nenhuma censura particular a eles; mas que pecaram nesta coisa, eles se prendem demais à sua honra para admitir.
Mas o caminho para ficar bem seguro do perdão, e bem armado contra o pecado no futuro, é ser particular nas nossas confissões penitentes.
- O sacerdote deve fazer expiação por ele. Assim como a expiação não era aceita sem o arrependimento dele, assim o arrependimento dele não o justificaria sem a expiação.
Assim, na nossa reconciliação com Deus, tanto a parte de Cristo quanto a nossa são necessárias.
Versículos 7 a 13
Faz-se aqui provisão para os pobres do povo de Deus e para o apaziguamento da consciência deles sob o sentimento da culpa. Os que não tinham como trazer um cordeiro podiam trazer, como oferta pelo pecado, um par de rolas ou dois pombinhos.
Ou melhor: se algum fosse tão extremamente pobre que não tivesse como conseguir estes tantas vezes quantas tivesse ocasião, podia trazer meio galão de flor de farinha, e isto seria aceito.
Assim a despesa da oferta pelo pecado foi rebaixada abaixo da de qualquer outra oferta, para nos ensinar que a pobreza de ninguém jamais será obstáculo no caminho do seu perdão. Os mais pobres de todos podem ter expiação feita em favor deles, se não houver impedimento por culpa deles mesmos.
Assim os pobres são evangelizados; e nenhum homem dirá que não tinha com que arcar com as despesas de uma viagem ao céu. Ora:
I. Se o pecador trazia duas rolas, uma devia ser oferecida como oferta pelo pecado e a outra como holocausto, v. 7. Observe:
- Antes de oferecer o holocausto, que era para a honra e o louvor de Deus, ele devia oferecer a oferta pelo pecado, para fazer expiação.
Primeiro devemos cuidar de que a nossa paz seja feita com Deus, e então podemos esperar que os nossos serviços para a glória dele sejam aceitos. A oferta pelo pecado deve abrir caminho para o holocausto.
- Depois da oferta pelo pecado, que fazia expiação, vinha o holocausto, como reconhecimento da grande misericórdia de Deus em designar e aceitar a expiação.
II. Se ele trazia flor de farinha, devia ser oferecido um punhado dela, mas sem azeite nem incenso (v. 11). Não só porque isso a tornaria custosa demais para os pobres, para consolo de quem este sacrifício foi designado, mas porque era uma oferta pelo pecado.
Por isso, para mostrar quão repugnante era o pecado pelo qual ela era oferecida, não devia ser tornada agradável nem ao paladar pelo azeite nem ao olfato pelo incenso.
A falta de sabor da oferta devia dar a entender que o pecador nunca mais devia sentir gosto no seu pecado, como sentira.
Deus, por estes sacrifícios, falava:
Consolo aos que tinham ofendido, para que não se desesperassem nem definhassem na sua iniquidade; mas, feita assim em favor deles a paz com Deus, pudessem ter paz nele.
Advertência, igualmente, para não ofenderem mais, lembrando que coisa dispendiosa e trabalhosa era fazer expiação.
Versículos 14 a 19
Lei da Oferta pela Transgressão. (a.C. 1490.)
Até aqui neste capítulo foram dadas ordens a respeito daqueles sacrifícios que eram tanto ofertas pelo pecado quanto ofertas pela transgressão, pois levam os dois nomes, v. 6.
Aqui temos a lei a respeito dos que eram propriamente e peculiarmente ofertas pela transgressão, oferecidas para expiar as transgressões cometidas contra o próximo, aqueles pecados que comumente chamamos de transgressões.
Ora, as injúrias feitas a outro podem ser ou nas coisas santas ou nas coisas comuns; das primeiras temos a lei nestes versículos, e das últimas no princípio do próximo capítulo.
Se um homem causava dano (como está no v. 16) nas coisas santas do Senhor, com isso cometia uma transgressão contra os sacerdotes, os ministros do Senhor, a quem fora confiado o cuidado dessas coisas santas e que tinham o benefício delas.
Ora, se um homem alienasse ou convertesse para o seu próprio uso alguma coisa dedicada a Deus, sem o saber, devia trazer este sacrifício.
Suponha que tivesse usado por ignorância os dízimos, ou as primícias, ou os primogênitos do seu gado, ou (o que, ao que parece por Levítico 22:14-16, é o que principalmente se quer dizer aqui) tivesse comido alguma daquelas partes dos sacrifícios que eram reservadas aos sacerdotes: isto era uma transgressão.
Supõe-se que seja feito por engano, ou por esquecimento, por falta ou de cuidado ou de zelo; pois, se fosse feito com presunção e em desprezo da lei, o ofensor morria sem misericórdia, Hebreus 10:28.
Mas, em caso de negligência e de ignorância, este sacrifício era designado; e a Moisés é dito:
- O que se devia fazer caso a transgressão parecesse ser certa.
O transgressor devia trazer uma oferta ao Senhor, a qual, em todas as que eram puramente ofertas pela transgressão, devia ser um carneiro sem defeito, “do segundo ano”, dizem os doutores judeus.
Devia igualmente fazer restituição ao sacerdote, segundo uma justa estimativa da coisa que assim alienara, acrescentando-lhe uma quinta parte, para que aprendesse a guardar-se mais, da próxima vez, de desviar o que era sagrado a Deus, achando à sua custa que nada se ganhava com isso e que pagava caro pelos seus descuidos.
- O que se devia fazer caso fosse duvidoso se ele havia transgredido ou não.
Ele tinha motivo para suspeitar disso, mas não o sabia (v. 17), isto é, não estava muito certo. Nesse caso, porque é bom estar seguro, devia trazer a sua oferta pela transgressão e o valor daquilo que temia ter desviado, só que não devia acrescentar-lhe a quinta parte.
Ora, o desígnio disto era mostrar o mal muito grande que há no sacrilégio. Acã, que foi culpado dele com presunção, morreu por isso; e assim também Ananias e Safira.
Mas isto vai mais longe em mostrar o mal que há nele: que, se um homem tivesse, por mera ignorância e sem o saber, alienado as coisas santas — ou melhor, se apenas suspeitasse que o tinha feito —, devia arcar com a despesa não só de uma restituição plena com juros, mas de uma oferta, com o trabalho de trazê-la, e devia envergonhar-se, fazendo confissão disso.
Tão má coisa é invadir a propriedade de Deus, e tão cautelosos devemos ser em abster-nos de toda aparência deste mal.
Somos também ensinados aqui a ser zelosos de nós mesmos com zelo piedoso, a pedir perdão pelo pecado e a fazer reparação pelo dano de que apenas suspeitamos ser culpados.
Em casos duvidosos, devemos tomar e guardar o lado mais seguro.