Matthew Henry

Levítico 4

Argumento

Este capítulo trata da oferta pelo pecado, que era propriamente destinada a fazer expiação por um pecado cometido por ignorância:

I. Pelo próprio sacerdote, vv. 1-12.

Ou, II. Por toda a congregação, vv. 13-21.

Ou, III. Por um príncipe, vv. 22-26.

Ou, IV. Por uma pessoa particular, v. 27, etc.

Versículos 1 a 12

A Lei da Oferta pelo Pecado. (a.C. 1490.)

As leis contidas nos três primeiros capítulos parecem ter sido proferidas a Moisés de uma só vez. Aqui começam os estatutos de outra sessão, de outro dia.

Do trono de glória entre os querubins Deus proferiu estas ordens. E ele entra agora num assunto mais estritamente novo do que os anteriores.

Holocaustos, ofertas de manjares e ofertas pacíficas, ao que parece, já haviam sido oferecidos antes de a lei ser dada no monte Sinai.

Esses sacrifícios não eram de todo desconhecidos dos patriarcas (Gênesis 8:20; Êxodo 20:24), e neles tinham em vista o pecado, para fazer expiação por ele, Jó 1:5.

Mas, tendo sido a lei agora acrescentada por causa das transgressões (Gálatas 3:19), e tendo entrado para que afinal a ofensa abundasse (Romanos 5:20), eles foram postos num caminho de fazer expiação pelo pecado mais particularmente por sacrifício.

O sacrifício era (mais do que qualquer das instituições cerimoniais) uma sombra dos bens vindouros; mas a substância é Cristo, e aquela única oferta de si mesmo pela qual ele tirou o pecado e aperfeiçoou para sempre os que são santificados.

I. Temos o caso geral suposto, v. 2. Observe aqui:

  1. Quanto ao pecado em geral, que ele é descrito como sendo contra qualquer dos mandamentos do Senhor; porque o pecado é a transgressão da lei, da lei divina.

Os raciocínios ou as vontades dos homens, as suas invenções ou as suas imposições, não podem fazer que seja pecado aquilo que a lei de Deus não fez ser pecado.

Diz-se igualmente “se alguma alma pecar”, porque não é pecado se não for, de um modo ou de outro, ato da alma; por isso é chamado de o pecado da alma (Miquéias 6:7), e é a alma que é lesada por ele, Provérbios 8:36.

  1. Quanto aos pecados para os quais aquelas ofertas foram designadas:

(1.) Supõe-se que sejam atos externos; porque, se lhes tivesse sido exigido trazer um sacrifício por cada pensamento ou palavra pecaminosa, a tarefa teria sido interminável.

Fazia-se expiação por esses em bloco, no dia da expiação, uma vez por ano; mas destes se diz que são cometidos contra os mandamentos.

(2.) Supõe-se que sejam pecados de comissão, coisas que não deviam ser feitas. As omissões são pecados e têm de vir a juízo.

Mas o que fora omitido numa ocasião podia ser feito noutra, e assim obedecer era melhor que sacrifício: mas uma comissão era irrevogável.

(3.) Supõe-se que sejam pecados cometidos por ignorância. Se fossem feitos com presunção, e com um desprezo declarado da lei e do Legislador, o ofensor devia ser eliminado, e não restava sacrifício pelo pecado, Hebreus 10:26, 27; Números 15:30.

Mas, se o ofensor ignorava a lei, como em diversos casos podemos supor que muitos ignoravam (tão numerosas e variadas eram as proibições), ou era levado a pecar sem perceber, havia alívio pela lei remediadora da oferta pelo pecado, desde que as circunstâncias mostrassem que a sua resolução contra o pecado era sincera e que ele fora “surpreendido numa falta”, como diz a expressão (Gálatas 6:1).

E os judeus dizem: “Só deviam ser expiados por sacrifício, se cometidos por ignorância, aqueles crimes pelos quais o criminoso teria de ter sido eliminado, se tivessem sido cometidos com presunção.”

II. A lei começa com o caso do sacerdote ungido, isto é, do sumo sacerdote, supondo que ele peque por ignorância; porque a lei constituía sacerdotes homens que tinham fraqueza.

Embora a ignorância dele fosse a menos escusável de todas, ainda assim lhe era permitido trazer a sua oferta.

O ofício dele não escusava a sua ofensa a ponto de ela lhe ser perdoada sem sacrifício; contudo não a agravava a ponto de ela não lhe ser perdoada quando ele trazia mesmo o seu sacrifício.

“Se ele pecar segundo o pecado do povo” (assim é posto o caso, v. 3), o que o supõe, nesta matéria, no mesmo nível dos outros israelitas, sem gozar de nenhum privilégio do clero.

Ora, a lei a respeito da oferta pelo pecado do sumo sacerdote é esta:

  1. Que ele deve trazer um novilho sem defeito para oferta pelo pecado (v. 3), oferta tão valiosa quanto a que se fazia por toda a congregação (v. 14); ao passo que, para qualquer outro príncipe, ou para uma pessoa comum, bastava um cabrito das cabras, v. 23, 28.

Isso insinuava a grandeza da culpa ligada ao pecado de um sumo sacerdote. A eminência da sua posição, e a sua relação tanto para com Deus quanto para com o povo, agravavam muito as suas ofensas; veja Romanos 2:21.

  1. A mão de quem oferece deve ser posta sobre a cabeça da oferta (v. 4), com uma solene confissão penitente do pecado que cometera, pondo-o sobre a cabeça da oferta pelo pecado, Levítico 16:21.

Não há remissão sem confissão, Salmos 32:5; Provérbios 28:13. Significava também uma confiança neste modo instituído de expiar a culpa, como figura de algo melhor que ainda estava por vir, e que eles não podiam discernir com firmeza.

Quem punha a mão sobre a cabeça do animal reconhecia com isso que ele próprio merecia morrer, e que era grande misericórdia de Deus dignar-se aceitar a oferta deste animal para morrer em lugar dele.

Os próprios escritores judeus dizem que nem a oferta pelo pecado nem a oferta pela transgressão faziam expiação, a não ser pelos que se arrependiam e criam na expiação delas.

  1. O novilho deve ser morto, e deve haver muita solenidade no destino dado ao sangue; porque era o sangue que fazia expiação, e sem derramamento de sangue não havia remissão, vv. 5-7.

Parte do sangue da oferta pelo pecado do sumo sacerdote devia ser aspergida sete vezes diante do véu, com o olhar voltado para o propiciatório, ainda que ele estivesse velado.

Parte dele devia ser posta sobre as pontas do altar de ouro, porque naquele altar ministrava o próprio sacerdote; e assim se significava a remoção daquela poluição que, vinda dos seus pecados, se apegava aos seus serviços.

Serve igualmente para ilustrar a influência que a satisfação de Cristo tem sobre a eficácia da sua intercessão. O sangue do seu sacrifício é posto sobre o altar do seu incenso e aspergido diante do Senhor.

Feito isso, o restante do sangue era derramado ao pé do altar de bronze. Por este rito, o pecador reconhecia que merecia ter o seu sangue assim derramado como água.

Significava igualmente o derramar da alma diante de Deus no verdadeiro arrependimento, e tipificava o derramar da alma do nosso Salvador até a morte.

  1. A gordura das entranhas devia ser queimada sobre o altar do holocausto, vv. 8-10.

Com isso a intenção da oferta e da expiação feita por ela era dirigida à glória de Deus, que, tendo sido desonrado pelo pecado, era assim honrado pelo sacrifício.

Significava os agudos sofrimentos do nosso Senhor Jesus, quando ele foi feito pecado (isto é, oferta pelo pecado) por nós, especialmente as tristezas da sua alma e as suas agonias interiores. Ensina-nos igualmente, em conformidade com a morte de Cristo, a crucificar a carne.

  1. A cabeça e o corpo do animal, com pele e tudo, deviam ser levados para fora do arraial, a um certo lugar designado para esse fim, e ali queimados até virarem cinzas, v. 11, 12.

Isto era muito significativo:

(1.) Do dever do arrependimento, que é o pôr de lado o pecado como coisa detestável, que a nossa alma odeia.

Os verdadeiros penitentes dizem aos seus ídolos: “Fora daqui; que temos nós mais com os ídolos?” A oferta pelo pecado é chamada de pecado.

O que eles faziam a ela, nós temos de fazer aos nossos pecados; o corpo do pecado tem de ser destruído, Romanos 6:6.

(2.) Do privilégio da remissão. Quando Deus perdoa o pecado, ele o abole por inteiro, lança-o para trás das suas costas. A iniquidade de Judá será buscada e não será achada.

O apóstolo repara particularmente nesta cerimônia, e a aplica a Cristo (Hebreus 13:11-13), que sofreu fora da porta, no lugar da caveira, onde as cinzas dos mortos, como as do altar, eram derramadas.

Versículos 13 a 20

Esta é a lei para expiar a culpa de um pecado nacional, por meio de uma oferta pelo pecado. Se os líderes do povo, por engano quanto à lei, o faziam errar, descoberto o engano era preciso trazer uma oferta, para que a cólera não viesse sobre toda a congregação. Observe:

  1. É possível que a igreja erre, e que os seus guias a desencaminhem. Supõe-se aqui que toda a congregação pode pecar, e pecar por ignorância.

Deus sempre terá uma igreja na terra; mas ele nunca disse que ela seria infalível, ou perfeitamente pura de corrupção deste lado do céu.

  1. Quando um sacrifício devia ser oferecido por toda a congregação, os anciãos deviam pôr as mãos sobre a cabeça dele (três deles, ao menos), como representantes do povo e agentes em nome dele.

Supomos que o pecado tenha sido algum costume comum, adotado e praticado pela generalidade do povo, na presunção de ser lícito, o qual depois, examinada a questão, parecia ser de outro modo.

Nesse caso, o ser aquele uso comum — recebido talvez por tradição dos pais — e a opinião vulgar de que era lícito não os escusariam do pecado a ponto de não terem de trazer um sacrifício para fazer expiação por ele.

Há muitos maus costumes e formas de falar que se julgam não ter mal nenhum em si, e que no entanto podem trazer culpa e cólera sobre uma terra; por isso cabe aos anciãos tanto reformá-los quanto interceder junto a Deus pelo perdão deles, Joel 2:16.

  1. O sangue desta oferta pelo pecado, como o da anterior, devia ser aspergido sete vezes diante do Senhor, v. 17.

Não devia ser derramado ali, mas apenas aspergido; porque a virtude purificadora do sangue de Cristo era então, e continua sendo, suficientemente significada e representada pela aspersão, Isaías 52:15.

Devia ser aspergido sete vezes. Sete é número de perfeição, porque, tendo Deus feito o mundo em seis dias, descansou no sétimo; assim isto significava a satisfação perfeita que Cristo fez, e a completa purificação das almas dos fiéis por ela; veja Hebreus 10:14.

O sangue devia igualmente ser posto sobre as pontas do altar do incenso, a que parece haver alusão em Jeremias 17:1, onde se diz que o pecado de Judá está gravado sobre as pontas dos seus altares.

Se eles não abandonassem os seus pecados, o pôr do sangue das suas ofertas pelo pecado sobre as pontas dos seus altares, em vez de tirar a culpa deles, só a prendia com mais firmeza, perpetuava a lembrança dela e permanecia como testemunha contra eles.

Há também alusão a isso em Apocalipse 9:13, onde se ouve uma voz vinda das quatro pontas do altar de ouro; isto é, uma resposta de paz é dada às orações dos santos, as quais são aceitáveis e eficazes somente em virtude do sangue da oferta pelo pecado posto sobre as pontas daquele altar; compare Apocalipse 8:3.

  1. Quando a oferta está completa, é dito: é feita expiação, e o pecado será perdoado, v. 20. A promessa de remissão está fundada na expiação.

Fala-se aqui do perdão do pecado de toda a congregação, isto é, do afastamento daqueles juízos nacionais que o pecado merecia.

Repare: a salvação de igrejas e de reinos da ruína se deve à satisfação e à mediação de Cristo.

Versículos 22 a 26

Observe aqui:

  1. Que Deus repara nos pecados dos príncipes e se desagrada deles. Os que têm poder de pedir contas aos outros são eles mesmos responsáveis perante o príncipe dos príncipes; porque, por mais altos que sejam, há um mais alto que eles.

Isso está insinuado no fato de que o mandamento transgredido é aqui dito ser “o mandamento do Senhor seu Deus”, v. 22. Ele é príncipe para os outros, mas que saiba que o Senhor é Deus para ele.

  1. Supõe-se que o pecado do príncipe, cometido por ignorância, chegue depois ao seu conhecimento (v. 23), o que deve acontecer ou pela repreensão da sua própria consciência ou pela dos seus amigos.

A ambos todos nós, mesmo os melhores e os maiores, devemos não só nos submeter, mas ser gratos. O que fizemos de errado, devemos desejar muito vir a conhecer.

“Aquilo que eu não vejo, ensina-me tu” e “mostra-me em que errei” são orações que devemos elevar a Deus todos os dias, para que, ainda que por ignorância caiamos no pecado, não permaneçamos nele por ignorância.

  1. A oferta pelo pecado do príncipe devia ser um cabrito das cabras, não um novilho, como era a do sacerdote e a de toda a congregação. Nem o sangue da sua oferta pelo pecado devia ser levado ao tabernáculo, como o das outras duas, mas era todo aplicado sobre o altar de bronze (v. 25).

Nem a carne dela devia ser queimada fora do arraial, como a das outras duas, o que insinuava que o pecado de um príncipe, embora pior que o de uma pessoa comum, contudo não era tão hediondo, nem de consequência tão perniciosa, quanto o pecado do sumo sacerdote ou o de toda a congregação.

Um cabrito das cabras bastava para ser oferecido por um príncipe, mas um novilho por uma tribo, para insinuar que o príncipe, embora major singulis — maior que cada um —, era minor universis — menor que o todo. É mau quando os grandes homens dão maus exemplos, mas pior quando todos os homens os seguem.

  1. É prometido que a expiação será aceita e o pecado, perdoado (v. 26), isto é, se ele se arrepender e se emendar; porque, do contrário, Deus jurou a respeito de Eli, juiz em Israel, que “a iniquidade da sua casa não seria purgada com sacrifício nem oferta, para sempre”, 1 Samuel 3:14.

Versículo 27

I. Aqui está a lei da oferta pelo pecado para uma pessoa comum, que difere da que vale para um príncipe somente nisto: que um particular podia trazer ou um cabrito ou um cordeiro, e um príncipe somente um cabrito; e que o do príncipe devia ser macho, e o do outro, fêmea. Em todos os detalhes do modo de oferecer, as duas concordavam. Observe:

  1. O caso suposto: “se alguém do povo comum pecar por ignorância”, v. 27.

O profeta supõe que eles não tinham tanta probabilidade quanto os grandes de conhecer “o caminho do Senhor e o juízo do seu Deus” (Jeremias 5:4); e, ainda assim, se pecarem por ignorância, devem trazer uma oferta pelo pecado.

Repare: até os pecados de ignorância precisam ser expiados por sacrifício.

Poder alegar, quando somos acusados de pecado, que o fizemos por ignorância, surpreendidos pela tentação, não nos livrará, se não tivermos parte naquela grande alegação — Cristo morreu — nem direito ao benefício dela.

Todos nós precisamos orar com Davi (e ele era um príncipe) para sermos “purificados das faltas ocultas”, os erros que nós mesmos não entendemos ou dos quais não nos damos conta, Salmos 19:12.

  1. Que os pecados de ignorância cometidos por uma única pessoa, uma pessoa comum e obscura, exigiam sim um sacrifício; porque, assim como os maiores não estão acima da censura, assim os mais humildes não estão abaixo da alçada da justiça divina. Nenhum do povo comum, se era ofensor, passava despercebido no meio de uma multidão.

  2. Que uma oferta pelo pecado não só era admitida, mas aceita, mesmo de um do povo comum, e que por ela se fazia expiação, v. 31, 35.

Aqui ricos e pobres, príncipe e camponês, se encontram; ambos são igualmente bem-vindos a Cristo e a ter parte no sacrifício dele, nos mesmos termos. Veja Jó 34:19.

II. De todas estas leis a respeito das ofertas pelo pecado podemos aprender:

  1. A odiar o pecado e a vigiar contra ele.

Certamente é coisa muito má aquilo para cuja expiação tantas criaturas inocentes e úteis tinham de ser mortas e despedaçadas assim.

  1. A dar valor a Cristo, a grande e verdadeira oferta pelo pecado, cujo sangue purifica de todo pecado, o que não era possível que o sangue de touros e de bodes tirasse.

Ora, “se alguém pecar”, Cristo é a propiciação (1 João 2:1, 2), não pelos judeus somente, mas pelos gentios.

E talvez houvesse alguma alusão a esta lei a respeito dos sacrifícios por pecados de ignorância naquela oração de Cristo, justamente quando ele se oferecia a si mesmo em sacrifício: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”


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