Matthew Henry

Levítico 3

Argumento

Neste capítulo temos a lei a respeito das ofertas pacíficas, quer fossem elas:

I. Do gado, um novilho ou uma novilha, vv. 1-5.

Ou, II. Do rebanho, seja um cordeiro (vv. 6-11), seja um bode, vv. 12-17.

As ordenanças a respeito de cada uma destas são muito parecidas; ainda assim, são repetidas, para mostrar o cuidado que devemos ter de que todos os nossos serviços sejam feitos conforme a determinação divina, e o prazer que Deus tem nos serviços prestados desse modo.

É também para dar a entender quanta necessidade temos de preceito sobre preceito, e linha sobre linha.

Versículos 1 a 4

A Lei da Oferta Pacífica. (a.C. 1490.)

Os holocaustos tinham em vista a Deus como sendo em si mesmo o melhor dos seres, o mais perfeito e excelente; eram puramente expressivos de adoração e, por isso, eram queimados por inteiro.

Mas as ofertas pacíficas tinham em vista a Deus como benfeitor das suas criaturas e dador de todas as boas coisas para nós; e por isso estas eram divididas entre o altar, o sacerdote e o dono. Paz significa:

  1. Reconciliação, concórdia e comunhão. E assim estas eram chamadas ofertas pacíficas, porque nelas Deus e o seu povo, por assim dizer, banqueteavam-se juntos, em sinal de amizade.

O sacerdote, constituído em favor dos homens nas coisas relativas a Deus, dava a Deus parte desta oferta pacífica: a parte que ele exigia, pois era justo servi-lo primeiro. Ele a queimava sobre o altar de Deus.

Outra parte dava ao ofertante, para que a comesse com a família e os amigos; e uma parte tomava para si, como o árbitro que punha a mão sobre ambos.

Eles não podiam comer juntos assim a não ser que estivessem de acordo; de modo que era um símbolo de amizade e de convívio entre Deus e o homem, e uma confirmação da aliança de paz.

  1. Significa prosperidade e toda felicidade: “A paz seja contigo” equivalia a “Todo o bem seja contigo”; e assim as ofertas pacíficas eram oferecidas ou:

(1.) Por via de súplica, ou pedido, por algum bem que faltava e se desejava. Se um homem estava na busca, ou na expectativa, de alguma misericórdia, respaldava a sua oração por ela com uma oferta pacífica, e provavelmente fazia a oração ao pôr a mão sobre a cabeça da sua oferta.

Cristo é a nossa paz, a nossa oferta pacífica; pois só por meio dele podemos esperar obter misericórdia e uma resposta de paz às nossas orações.

Nele, uma oração reta será aceitável e bem-sucedida, ainda que não tragamos oferta pacífica. Quanto menos custosas forem as nossas devoções, tanto mais vivas e sérias deverão ser.

Ou, (2.) Por via de ação de graças por alguma misericórdia particular recebida. Às vezes era chamada oferta pacífica de ação de graças; em outros casos, era um voto, Levítico 7:15, 16. E alguns entendem que a palavra original significa retribuição.

Quando tinham recebido alguma misericórdia especial e indagavam o que deviam retribuir, eram instruídos a retribuir isto ao Deus das suas misericórdias, como reconhecimento grato pelo benefício que lhes fora feito, Salmos 116:12.

E devemos oferecer a Deus o sacrifício de louvor continuamente, por Cristo, a nossa paz; e então isto agradará ao Senhor mais do que um boi ou um novilho. Observe:

I. Quanto à matéria da oferta pacífica, suponha que fosse do gado: tinha de ser sem defeito; e, se não tivesse defeito, era indiferente que fosse macho ou fêmea, v. 1. Nas nossas ofertas espirituais, não é o sexo, mas o coração, que Deus olha, Gálatas 3:28.

II. Quanto ao manejo dela:

  1. O ofertante devia, por uma solene renúncia à propriedade, transferir a Deus o seu direito sobre ela (v. 2) e, com a mão sobre a cabeça do sacrifício, reconhecer as misericórdias particulares pelas quais a destinava como oferta de ação de graças, ou, se era um voto, fazer a sua oração.

  2. Tinha de ser morta; embora isso pudesse ocorrer em qualquer parte do átrio, diz-se que era à porta do tabernáculo.

Isso porque as misericórdias recebidas ou esperadas eram reconhecidas como vindas de Deus, e a ele se dirigiam as orações ou os louvores: tudo passava, por assim dizer, por aquela porta. O nosso Senhor Jesus disse: “Eu sou a porta”, pois ele é de fato a porta do tabernáculo.

  1. O sacerdote devia aspergir o sangue sobre o altar, porque era o sangue que fazia expiação pela alma.

Embora esta não fosse oferta pelo pecado, ainda assim devemos aprender que em todas as nossas ofertas temos de olhar para Cristo como a propiciação pelo pecado. Sabemos que o melhor dos nossos serviços só será aceito se, por meio dele, os nossos pecados forem perdoados.

As confissões penitentes devem sempre acompanhar os nossos agradecimentos; e, seja qual for a misericórdia por que oremos, para consegui-la devemos pedir a remoção da culpa, que nos priva das coisas boas. Primeiro, “tira toda a iniquidade”; depois, “recebe-nos benignamente”, ou dá o bem, Oseias 14:2.

  1. Toda a gordura das entranhas, aquilo que chamamos de sebo e banha, com o redenho que a envolve e os rins no meio dela, devia ser tirada e queimada sobre o altar, como oferta queimada, vv. 3-5.

Era tudo o que se sacrificava ao Senhor da oferta pacífica; que destino se daria ao restante, veremos em Levítico 7:11, etc.

É ordenado que seja queimada sobre o holocausto, isto é, sobre o holocausto diário, o cordeiro que era oferecido toda manhã antes que qualquer outro sacrifício fosse oferecido; de modo que a gordura das ofertas pacíficas era um acréscimo a ele e uma continuação dele.

O grande sacrifício de paz, o do Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, prepara o altar para os nossos sacrifícios de louvor, que não são aceitos enquanto não estivermos reconciliados.

Ora, supõe-se que a queima desta gordura signifique:

(1.) A oferta dos nossos bons afetos a Deus em todas as nossas orações e louvores. A Deus cabem as entranhas; pois devemos derramar as nossas almas e elevar os nossos corações na oração, e devemos bendizer o nome dele com tudo o que há dentro de nós.

Exige-se que lidemos com Deus de todo o coração em tudo que lhe diz respeito. A gordura denota o melhor e o mais escolhido, que deve sempre ser dedicado a Deus, que fez para nós um banquete de coisas gordurosas.

(2.) A mortificação dos nossos afetos corrompidos e das nossas concupiscências, e a queima deles pelo fogo da graça divina, Colossenses 3:5.

Então somos verdadeiramente agradecidos pelas misericórdias passadas, e estamos preparados para receber mais misericórdia, quando nos separamos dos nossos pecados e temos as nossas mentes purificadas de toda sensualidade pelo “espírito de juízo e pelo espírito de ardor”, Isaías 4:4.

Versículos 6 a 17

São dadas aqui instruções a respeito da oferta pacífica, caso ela fosse uma ovelha ou um bode.

Rolas ou pombinhos, que podiam ser trazidos para holocaustos, não eram admitidos para as ofertas pacíficas, porque não têm gordura em quantidade suficiente para ser queimada sobre o altar; e seriam quase nada se tivessem de ser divididos segundo a lei das ofertas pacíficas.

As leis a respeito do cordeiro ou do bode oferecido como oferta pacífica são muito parecidas com as que dizem respeito ao novilho, e pouco ocorre agora aqui. Mas:

  1. A cauda do carneiro devia ser queimada sobre o altar com a gordura das entranhas, a cauda inteira (v. 9), porque naqueles países ela era muito gorda e grande.

Alguns observam disto que, por mais desprezível que seja uma coisa, Deus pode torná-la honrosa, aplicando-a ao seu serviço. Assim se diz que Deus deu “mais abundante honra àquela parte que tinha falta”, 1 Coríntios 12:23, 24.

  1. Aquilo que era queimado sobre o altar é chamado “o alimento da oferta”, v. 11, 16. Alimentava o fogo santo; era aceitável a Deus como o nosso alimento é para nós.

E, já que no tabernáculo Deus, por assim dizer, vivia entre eles como dono da casa, pelas ofertas do altar ele mantinha boa mesa, como Salomão na sua corte, 1 Reis 4:22, etc.

  1. É estabelecida aqui uma regra geral, de que “toda a gordura é do Senhor” (v. 16), e sobre ela é feita uma lei, de que não deviam comer nem gordura nem sangue, não, nem mesmo nas suas casas particulares, v. 17.

(1.) Quanto à gordura, não se trata daquela que vem entremeada na carne (essa eles podiam comer, Neemias 8:10), mas da gordura das entranhas, o sebo, que era sempre a parte de Deus tirada dos animais sacrificados.

Por isso não deviam comê-la, nem mesmo quando provinha de animais abatidos para o seu consumo comum. Assim Deus preservaria a honra daquilo que era sagrado para si.

Não só não deviam alimentar-se daquela gordura que devia ser o alimento do altar, mas nem de nenhuma semelhante a ela, para que a “mesa do Senhor” (como o altar é chamado), caso nada fosse reservado como peculiar a ela, não se tornasse desprezível, e o fruto dela, isto é, o seu alimento, desprezível, Malaquias 1:7, 12.

(2.) O sangue foi igualmente proibido de modo universal, pela mesma razão que a gordura, porque era a parte de Deus em cada sacrifício. Os pagãos bebiam o sangue dos seus sacrifícios; por isso lemos das suas “libações de sangue”, Salmos 16:4.

Mas Deus não quis permitir que o sangue, que fazia a expiação, fosse usado como coisa comum (Hebreus 10:29), nem nos permitirá, ainda que tenhamos o consolo da expiação feita, reivindicar qualquer parte da honra de realizá-la. “Quem se gloria, glorie-se no Senhor”, e para louvor dele seja derramado todo o sangue.


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