Levítico 2
Argumento
Neste capítulo temos a lei a respeito da oferta de manjares:
I. A matéria dela: se de farinha crua com azeite e incenso (v. 1), ou assada no forno (v. 4), ou sobre uma assadeira (v. 5, 6), ou numa frigideira, v. 7.
II. O manejo dela: da farinha (v. 2, 3), dos bolos, vv. 8-10.
III. Algumas regras particulares a respeito dela: Que o fermento e o mel nunca devem ser admitidos (v. 11, 12), e o sal nunca omitido na oferta de manjares, v. 13.
IV. A lei a respeito da oferta das primícias em espiga, v. 14, etc.
Versículos 1 a 10
A Lei da Oferta de Manjares. (a.C. 1490.)
Havia algumas ofertas de manjares que eram apenas apêndices dos holocaustos, como a que se oferecia com o sacrifício diário (Êxodo 29:38, 39) e com as ofertas pacíficas; a estas se juntavam ofertas de libação (veja Números 15:4, 7, 9, 10), e nelas a quantidade era determinada.
Mas a lei deste capítulo diz respeito às ofertas de manjares que eram oferecidas à parte, sempre que alguém via motivo para expressar assim a sua devoção.
A primeira oferta de que lemos na Escritura era desta espécie (Gênesis 4:3): “Caim trouxe do fruto da terra uma oferta.”
I. Esta espécie de ofertas foi instituída:
- Por condescendência com os pobres e com o que eles podiam dar, para que aqueles que, de sua parte, viviam só de pão e de bolos pudessem oferecer a Deus uma oferta aceitável, tirada do seu próprio alimento grosseiro e caseiro.
E, fazendo primeiro um bolo pequeno para o altar de Deus, como a viúva de Sarepta o fez para o profeta dele, pudessem obter tal bênção sobre o punhado de farinha da panela e sobre o azeite da botija, que não viessem a faltar.
- Como um reconhecimento devido da misericórdia de Deus para com eles no alimento deles.
Isso era como um foro, pelo qual eles testemunhavam a sua dependência de Deus, a sua gratidão para com ele e as suas expectativas em relação a ele, como seu dono e benfeitor generoso, que dá a todos vida, e respiração, e o alimento conveniente.
Assim deviam honrar o Senhor com os seus bens e, em sinal de que comiam e bebiam para a glória dele, deviam consagrar parte do seu alimento e da sua bebida ao serviço direto dele.
Quem hoje, com coração grato e caridoso, reparte o seu pão com o faminto e supre as necessidades dos que estão desprovidos do alimento diário, e, quando ele mesmo come a gordura e bebe o doce, manda porções àqueles para quem nada se preparou, oferece a Deus uma oferta de manjares aceitável.
O profeta lamenta, como um dos efeitos terríveis da fome, que por ela a oferta de manjares e a oferta de libação fossem cortadas da casa do Senhor (Joel 1:9), e teve como a maior bênção da fartura o fato de ela ser o reviver delas, Joel 2:14.
II. As leis das ofertas de manjares eram estas:
- Os ingredientes deviam ser sempre flor de farinha e azeite, dois produtos básicos da terra de Canaã, Deuteronômio 8:8. O azeite era então para eles, no alimento deles, o que a manteiga é hoje para nós.
Se não fosse preparada, o azeite devia ser derramado sobre a farinha (v. 1); se fosse cozida, devia ser misturado com a farinha, v. 4, etc.
Se fosse farinha não assada, além do azeite devia levar incenso posto sobre ela, que devia ser queimado com ela (v. 1, 2), para perfumar o altar; em alusão a isto, diz-se que os ministros do evangelho são “cheiro suave para Deus”, 2 Coríntios 2:15.
Se fosse preparada, isso podia ser feito de vários modos: o ofertante podia assá-la, fritá-la ou misturar a farinha e o azeite numa assadeira; para isso havia os utensílios necessários junto ao tabernáculo.
A lei era muito exata mesmo a respeito das ofertas que menos custavam, para dar a entender a atenção que Deus dá aos serviços religiosos prestados com espírito devoto, mesmo pelos pobres do seu povo.
Devia ser apresentada pelo ofertante ao sacerdote, o que se chama de trazê-la ao Senhor (v. 8), porque os sacerdotes eram os recebedores de Deus e foram ordenados para oferecer dons.
Parte dela devia ser queimada sobre o altar, por memorial, isto é, em sinal de que se lembravam da generosidade de Deus para com eles, ao lhes dar todas as coisas ricamente para delas gozarem. Era uma oferta queimada, v. 2, 9.
O consumi-la pelo fogo podia lembrá-los de que mereciam ver todos os frutos da terra assim queimados, e que era pelas misericórdias do Senhor que não eram.
Podiam também aprender que, “assim como os alimentos são para o ventre, e o ventre para os alimentos, assim Deus destruirá tanto um quanto os outros” (1 Coríntios 6:13), e que o homem não vive só de pão.
Diz-se aqui que esta oferta queimada é de “cheiro suave ao Senhor”; e assim são também as nossas ofertas espirituais, que se fazem pelo fogo do amor santo, em especial a da esmola, da qual se diz que é “cheiro de suavidade, sacrifício aceitável, agradável a Deus” (Filipenses 4:18), e “com tais sacrifícios Deus se agrada”, Hebreus 13:16.
- O restante da oferta de manjares devia ser dado aos sacerdotes, v. 3, 10.
É “coisa santíssima”, não para ser comida pelos ofertantes, como as ofertas pacíficas (que, embora santas, não eram santíssimas), mas somente pelos sacerdotes e pelas suas famílias.
Assim Deus proveu que os que serviam ao altar vivessem do altar, e vivessem com desafogo.
Versículos 11 a 16
Aqui está:
I. O fermento e o mel são proibidos de ser postos em qualquer das ofertas de manjares deles: “Nenhum fermento, nem mel algum, em qualquer oferta queimada”, v. 11.
- O fermento era proibido em memória do pão sem fermento que eles comeram quando saíram do Egito. Era exigida tanta presteza nas ofertas que faziam que não convinha que ficassem à espera da fermentação delas.
Comparando o Novo Testamento o orgulho e a hipocrisia ao fermento, porque incham como o fermento, e comparando também a malícia e a maldade ao fermento, porque azedam como o fermento, devemos entender e aproveitar isto como advertência para tomar cuidado com esses pecados, que certamente estragarão a aceitabilidade dos nossos sacrifícios espirituais.
Mãos puras devem ser levantadas sem cólera, e todas as nossas festas do evangelho guardadas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade.
- O mel era proibido, ainda que Canaã manasse dele, porque comer muito mel não é bom (Provérbios 25:16, 27); ele se converte em bílis e amargor no estômago, embora seja delicioso ao paladar.
Alguns pensam que a razão principal por que essas duas coisas, o fermento e o mel, foram proibidas era que os gentios os usavam muito nos seus sacrifícios, e o povo de Deus não deve aprender nem usar o caminho dos pagãos, mas os serviços dele devem ser o inverso dos serviços idólatras deles; veja Deuteronômio 12:30, 31.
Alguns fazem esta aplicação da dupla proibição: o fermento significa a tristeza e o abatimento de espírito (Salmos 73:21), “O meu coração foi fermentado”; o mel significa o prazer sensual e a alegria.
No nosso serviço a Deus as duas coisas devem ser evitadas, e um meio-termo observado entre esses extremos; porque “a tristeza do mundo opera a morte”, e o amor aos deleites dos sentidos é grande inimigo do amor santo.
II. O sal é exigido em todas as ofertas deles, v. 13. O altar era a mesa do Senhor; e por isso, estando o sal sempre posto nas nossas mesas, Deus queria que ele fosse sempre usado na dele.
É chamado “o sal da aliança”, porque, assim como os homens confirmavam as suas alianças uns com os outros comendo e bebendo juntos, refeições em todas as quais o sal era usado, assim Deus, aceitando os dons do seu povo e banqueteando-o com os seus sacrifícios, ceando com eles e eles com ele (Apocalipse 3:20), confirmava a sua aliança com eles.
Entre os antigos o sal era símbolo de amizade.
O sal para o sacrifício não era trazido pelos ofertantes, mas era provido às custas públicas, como era a lenha, Esdras 7:20-22. E havia no átrio do templo uma câmara chamada a câmara do sal, onde o guardavam.
“Pode comer-se sem sal o que é insosso?” Deus queria com isso dar-lhes a entender que os sacrifícios deles, em si mesmos, eram insossos.
Os santos, que são sacrifícios vivos a Deus, devem ter sal em si mesmos, porque “todo sacrifício deve ser salgado com sal” (Marcos 9:49, 50), e “a nossa fala deve ser sempre com graça” (Colossenses 4:6); assim também todas as nossas práticas religiosas devem ser temperadas com esse sal.
O cristianismo é o sal da terra.
III. São dadas orientações a respeito das primícias.
- A oblação das suas primícias na colheita, da qual lemos em Deuteronômio 26:2. Estas eram oferecidas ao Senhor, não para serem queimadas sobre o altar, mas para serem dadas aos sacerdotes como emolumentos do seu ofício, v. 12.
“E vós os oferecereis” (isto é, o fermento e o mel) “na oblação das primícias”, ainda que fossem proibidos nas outras ofertas de manjares; porque eram bastante próprios para serem comidos pelos sacerdotes, ainda que não para serem queimados sobre o altar.
Os pães das primícias são expressamente mandados assar com fermento, Levítico 23:17. E lemos das primícias do mel trazidas à casa de Deus, 2 Crônicas 31:5.
- Uma oferta de manjares das suas primícias. A anterior era exigida pela lei; esta era uma oferta voluntária, vv. 14-16.
Se um homem, com senso agradecido da bondade de Deus para com ele em lhe dar esperanças de uma colheita abundante, estivesse disposto a trazer uma oferta em espécie diretamente do seu campo e a apresentá-la a Deus, reconhecendo com isso a sua dependência de Deus e as suas obrigações para com ele:
(1.) Que ele tenha o cuidado de trazer as primeiras espigas maduras e cheias, não as que fossem pequenas e meio murchas.
Tudo o que fosse trazido como oferta a Deus devia ser o melhor na sua espécie, ainda que fossem só espigas verdes.
Nós zombamos de Deus e enganamos a nós mesmos se pensamos despachá-lo com uma coisa corrompida enquanto temos no nosso rebanho um macho, Malaquias 1:14.
(2.) Estas espigas verdes deviam ser secas ao fogo, para que o grão, tal como estava, pudesse ser debulhado delas.
Não se espera das espigas verdes o que com justiça se pode esperar daquelas que foram deixadas amadurecer por completo.
Se os que são jovens fazem a obra de Deus tão bem quanto podem, serão aceitos, ainda que não a possam fazer tão bem quanto os que são idosos e experientes. Deus tira o melhor das espigas verdes, e assim devemos fazer também nós.
(3.) Azeite e incenso deviam ser postos sobre ela. Assim (como alguns aludem a isto), a sabedoria e a humildade devem abrandar e adoçar os ânimos e os serviços dos jovens, e então as suas espigas verdes serão aceitáveis.
Deus tem prazer particular nos primeiros frutos maduros do Espírito e nas expressões de piedade e devoção precoces.
Os que só sabem pensar e falar como crianças, contudo, se pensam e falam bem, Deus se agradará dos seus botões e das suas flores, e nunca esquecerá a bondade da sua juventude.
(4.) Ela devia ser usada como as outras ofertas de manjares, v. 16, compare v. 9. “Ele oferecerá todo o incenso; é uma oferta queimada.”
O fogo e o incenso parecem ter tido um significado especial.
[1.] O fogo denota o fervor de espírito que deve haver em todos os nossos serviços religiosos. Em toda boa coisa devemos agir com zelo.
O amor santo a Deus é o fogo pelo qual todas as nossas ofertas devem ser feitas; do contrário, não são de cheiro suave para Deus.
[2.] O incenso denota a mediação e a intercessão de Cristo, pelas quais todos os nossos serviços são perfumados e recomendados à graciosa aceitação de Deus.
Bendito seja Deus por termos a substância de que todas estas observâncias eram apenas sombras, o fruto que estava escondido debaixo destas folhas.