Matthew Henry

Levítico 1

Argumento

Levítico

UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO TERCEIRO LIVRO DE MOISÉS, CHAMADO LEVÍTICO.

Não há nada de histórico em todo este livro de Levítico, a não ser o relato que ele nos dá da consagração do sacerdócio (Levítico 8-9), do castigo de Nadabe e Abiú, pela mão de Deus, por oferecerem fogo estranho (Levítico 10), e do filho de Selomite, pela mão do magistrado, por blasfêmia (Levítico 24).

Todo o resto do livro é ocupado com as leis, principalmente as leis eclesiásticas, que Deus deu a Israel por Moisés, a respeito dos seus sacrifícios e ofertas, dos seus alimentos e bebidas, e de diversas lavagens, e das outras peculiaridades pelas quais Deus separou aquele povo para si e os distinguiu das outras nações.

Todas elas eram sombras dos bens vindouros, que são realizados e suplantados pelo evangelho de Cristo.

Chamamos o livro de Levítico, a partir da Septuaginta, porque ele contém as leis e ordenanças do sacerdócio levítico (como é chamado, Hebreus 7:11) e as ministrações dele.

Os levitas estavam principalmente encarregados destas instituições, tanto para fazer a sua parte quanto para ensinar ao povo a parte que lhe cabia.

Lemos, no fecho do livro anterior, de ter sido armado o tabernáculo, que devia ser o lugar do culto; e, assim como aquele foi construído segundo o modelo, assim devem ser as ordenanças do culto, que ali deviam ser administradas.

Nestas a designação divina foi tão particular quanto na construção do tabernáculo, e tem de ser tão pontualmente observada.

O registro que resta destas leis ab-rogadas é de utilidade para nós, para o fortalecimento da nossa fé em Jesus Cristo, como o Cordeiro abatido desde a fundação do mundo, e para o aumento da nossa gratidão a Deus, pelo fato de que por ele estamos livres do jugo da lei cerimonial e vivemos nos tempos da reforma.

Este livro começa com as leis a respeito dos sacrifícios, dos quais os mais antigos eram os holocaustos, sobre os quais Deus dá instruções a Moisés neste capítulo.

Aqui são dadas ordens sobre como esse tipo de sacrifício deve ser conduzido:

I. Se era um novilho do gado, vv. 3-9.

II. Se era uma ovelha ou uma cabra, um cordeiro ou um cabrito, do rebanho, vv. 10-13.

III. Se era uma rola ou um pombinho, vv. 14-17.

E, fosse a oferta mais ou menos valiosa em si mesma, se era oferecida com coração reto, segundo estas leis, era aceita por Deus.

Versículos 1 a 2

A Lei a Respeito das Ofertas. (a.C. 1490.)

Observe aqui:

  1. Dá-se por certo que as pessoas estariam inclinadas a trazer ofertas ao Senhor. A própria luz da natureza dirige o homem, de um modo ou de outro, a honrar o seu Criador e a prestar-lhe homenagem como seu Senhor.

A religião revelada supõe que a religião natural seja instituição antiga e primitiva. Desde a queda, a religião revelada dirigira os homens a glorificar a Deus por meio do sacrifício, o que era um reconhecimento implícito de haverem recebido tudo de Deus como criaturas e de haverem perdido tudo para ele como pecadores.

Uma consciência inteiramente convencida da sua dependência e da sua culpa estaria disposta a comparecer diante de Deus com milhares de carneiros, Miquéias 6:6, 7.

  1. Providencia-se que os homens não se entreguem às suas próprias fantasias, nem se tornem vãos nas suas imaginações e invenções acerca dos seus sacrifícios, para que, alegando honrar a Deus, não venham realmente a desonrá-lo e a fazer o que é indigno dele.

Por isso, tudo é ordenado que se faça com o devido decoro, por uma regra certa, e de modo que os sacrifícios sejam o mais significativos possível, tanto do grande sacrifício de expiação que Cristo devia oferecer na plenitude dos tempos quanto dos sacrifícios espirituais de reconhecimento que os crentes ofereceriam diariamente.

  1. Deus deu essas leis a Israel por meio de Moisés; nada se repete com mais frequência do que isto: “O Senhor falou a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel”.

Deus poderia tê-las falado ele mesmo aos filhos de Israel, como fez com os dez mandamentos; mas escolheu expô-las a eles por meio de Moisés, porque eles tinham desejado que ele não lhes falasse mais ele mesmo, e ele tinha destinado que Moisés fosse, acima de todos os profetas, tipo de Cristo, por quem Deus falaria a nós nestes últimos dias, Hebreus 1:2.

Por outros profetas Deus enviou mensagens ao seu povo, mas por Moisés deu-lhes leis; e por isso ele era apto para prefigurar aquele a quem o Pai deu todo o juízo.

E, além disso, o tesouro da revelação divina devia sempre ser posto em vasos de barro, para que a nossa fé fosse provada e para que a excelência do poder fosse de Deus.

  1. Deus lhe falou de dentro do tabernáculo. Assim que a shechinah tomou posse da sua nova habitação, em sinal da aceitação do que fora feito, Deus falou com Moisés desde o propiciatório, enquanto Moisés esperava do lado de fora do véu, ou antes, à porta, ouvindo apenas uma voz.

E é provável que ele tenha escrito o que ouviu naquela ocasião, para evitar qualquer engano, ou um lapso de memória, ao recitá-lo.

O tabernáculo foi erguido para ser um lugar de comunhão entre Deus e Israel; ali, onde prestavam os seus serviços a Deus, Deus lhes revelava a sua vontade. Assim, pela palavra e pela oração, temos agora comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo, Atos 6:4.

Quando falamos com Deus, devemos desejar ouvi-lo, e ter como grande favor que ele tenha por bem falar conosco. O Senhor chamou a Moisés, não para se aproximar (sob aquela dispensação, até Moisés devia manter a sua distância), mas para atentar e escutar o que seria dito.

Uma letra menor que o normal na palavra hebraica que se traduz por “chamou”, dizem-nos os críticos judeus, dá a entender que Deus falou com voz calma e baixa.

A lei moral foi dada com terror, de um monte em chamas, entre trovões e relâmpagos; mas a lei remediadora do sacrifício foi dada mais suavemente, de um propiciatório, porque essa era figura da graça do evangelho, que é a ministração de vida e de paz.

Versículos 3 a 9

Lei do Holocausto. (a.C. 1490.)

Se um homem fosse rico e tivesse recursos, supõe-se que traria o seu sacrifício de holocausto, com o qual tencionava honrar a Deus, da sua manada de gado maior.

Quem considera que Deus é o melhor que existe resolverá dar-lhe o melhor que tem; do contrário, não lhe dá a glória devida ao seu nome.

Ora, se um homem resolvia matar um novilho, não para um banquete para a sua família e os seus amigos, mas para sacrifício ao seu Deus, estas regras tinham de ser observadas religiosamente:

  1. O animal a ser oferecido tinha de ser macho, e sem defeito, e o melhor que ele tivesse no seu pasto.

Sendo destinado puramente à honra daquele que é infinitamente perfeito, devia ser o mais perfeito da sua espécie.

Isso significava a força e a pureza completas que havia em Cristo, o sacrifício que morre, e a sinceridade de coração e a irrepreensibilidade de vida que deve haver nos cristãos, que são apresentados a Deus como sacrifícios vivos.

Mas, literalmente, em Cristo Jesus não há nem macho nem fêmea; nem defeito natural algum no corpo é obstáculo à nossa aceitação diante de Deus, mas somente os defeitos e as deformidades morais que o pecado introduziu na alma.

  1. O dono tinha de oferecê-lo voluntariamente. O que se faz em religião, de modo a agradar a Deus, tem de ser feito sem outra coação senão a do amor. Deus aceita o povo voluntário e o que dá com alegria.

Ainsworth e outros leem isso não como o princípio, mas como o fim da oferta: “Que ele a ofereça para a sua favorável aceitação diante do Senhor.”

“Que proponha isto a si mesmo como o seu fim ao trazer o seu sacrifício, e que o seu olho esteja fixo firmemente nesse fim — para que seja aceito do Senhor.”

Só encontrarão aceitação aqueles que sinceramente a desejam e a tencionam em todos os seus serviços religiosos, 2 Coríntios 5:9.

  1. Tinha de ser oferecido à porta do tabernáculo, onde ficava o altar de bronze dos holocaustos, que santificava a dádiva, e não em outro lugar.

Tinha de oferecê-lo à porta, como quem é indigno de entrar, e reconhecendo que não há admissão para um pecador na aliança e na comunhão com Deus senão por sacrifício.

Mas tinha de oferecê-lo no tabernáculo da congregação, em sinal da sua comunhão com toda a igreja de Israel até neste serviço pessoal.

  1. Aquele que oferece tinha de pôr a sua mão sobre a cabeça da sua oferta, v. 4. “Tinha de pôr ambas as suas mãos”, dizem os doutores judeus, “com toda a sua força, entre os chifres do animal”, significando com isso:

(1.) A transferência para Deus de todo o direito que tinha sobre o animal e de todo o interesse que nele tinha, abrindo mão dele para o serviço de Deus, efetivamente e por entrega manual.

(2.) O reconhecimento de que ele merecia morrer, e teria estado disposto a morrer se Deus o tivesse exigido, para servir à honra dele e para obter o seu favor.

(3.) Uma dependência do sacrifício, como tipo instituído do grande sacrifício sobre o qual devia ser posta a iniquidade de todos nós.

A significação mística dos sacrifícios, e especialmente deste rito, é o que alguns pensam que o apóstolo quer dizer pela doutrina da “imposição de mãos” (Hebreus 6:2), que prefigurava a fé evangélica.

O fato de aquele que oferece pôr a sua mão sobre a cabeça da oferta devia significar o seu desejo e a sua esperança de que ela fosse aceita da parte dele para fazer expiação por ele.

Ainda que os holocaustos não tivessem respeito a nenhum pecado particular, como tinha a oferta pelo pecado, contudo deviam fazer expiação pelo pecado em geral.

E quem punha a sua mão sobre a cabeça de um holocausto devia confessar que tinha deixado por fazer o que devia ter feito e tinha feito o que não devia ter feito.

E devia orar para que, ainda que ele mesmo merecesse morrer, a morte do seu sacrifício fosse aceita para a expiação da sua culpa.

  1. O sacrifício devia ser morto pelos sacerdotes, ou levitas, diante do Senhor, isto é, de maneira devota e religiosa, e com o olho posto em Deus e na honra dele.

Isso significava que o nosso Senhor Jesus devia fazer da sua alma, ou vida, uma oferta pelo pecado. O Messias, o príncipe, tinha de ser cortado como sacrifício, mas não em favor de si mesmo, Daniel 9:26.

Significava também que nos cristãos, que são sacrifícios vivos, a parte bruta tem de ser mortificada, ou morta, a carne crucificada com as suas afeições e concupiscências corruptas e todos os apetites da mera vida animal.

  1. Os sacerdotes deviam aspergir o sangue sobre o altar (v. 5); pois, sendo o sangue a vida, era isto que fazia expiação pela alma.

Isso significava a consideração direta e efetiva que o nosso Senhor Jesus teve pela satisfação da justiça do seu Pai, e pela garantia da honra ofendida dele, ao derramar o seu sangue. Ele se ofereceu sem mancha a Deus.

Significava também a pacificação e a purificação das nossas consciências pela aspersão do sangue de Jesus Cristo sobre elas pela fé, 1 Pedro 1:2; Hebreus 10:22.

  1. O animal devia ser esfolado e cortado decorosamente, e dividido nas suas diversas juntas, ou peças, segundo a arte do açougueiro.

E então todas as peças, com a cabeça e a gordura (sendo primeiro lavadas as pernas e as entranhas), deviam ser queimadas juntas sobre o altar, vv. 6-9.

“Mas com que propósito”, diriam alguns, “era este desperdício? Por que todo este bom alimento, que poderia ter sido dado aos pobres e ter servido de comida por muito tempo às suas famílias famintas, seria queimado todo junto até virar cinzas?”

Assim era a vontade de Deus, e não cabe a nós objetar nem achar defeito nela. Quando era queimado para a honra de Deus, em obediência ao mandamento dele, e para significar bênçãos espirituais, era realmente mais bem empregado, e correspondia melhor ao fim da sua criação, do que quando era usado como alimento para o homem.

Nunca devemos considerar perdido aquilo que é gasto para Deus. A queima do sacrifício significava os agudos sofrimentos de Cristo, e as afeições devotas com as quais, como um fogo santo, os cristãos têm de oferecer-se a si mesmos a Deus, todo o seu espírito, alma e corpo.

  1. Diz-se que esta é uma oferta de suave cheiro, ou cheiro de repouso, ao Senhor.

A queima de carne é de mau cheiro em si mesma; mas esta, como ato de obediência a um mandamento divino, e tipo de Cristo, era muito agradável a Deus. Ele se reconciliava com aquele que oferecia, e ele mesmo se comprazia nessa reconciliação.

Ele repousava, e se restaurava com estas instituições da sua graça, como, no princípio, com as suas obras da criação (Êxodo 31:17), regozijando-se nelas, Salmos 104:31.

Diz-se que a oferta que Cristo fez de si mesmo a Deus é de “um suave cheiro” (Efésios 5:2), e diz-se que os sacrifícios espirituais dos cristãos são “aceitáveis a Deus por meio de Cristo”, 1 Pedro 2:5.

Versículos 10 a 17

Aqui temos as leis a respeito dos holocaustos que eram do rebanho ou das aves. Os de condição mediana, que não podiam arcar facilmente com a oferta de um novilho, trariam uma ovelha ou uma cabra; e os que não podiam fazer isso seriam aceitos por Deus se trouxessem uma rola ou um pombo.

Pois Deus, na sua lei e no seu evangelho, assim como na sua providência, considera os pobres.

Observa-se que foram escolhidas para o sacrifício aquelas criaturas que eram as mais mansas e dóceis, inócuas e inofensivas, para prefigurar a inocência e a mansidão que havia em Cristo, e para ensinar a inocência e a mansidão que deve haver nos cristãos.

São dadas aqui instruções:

  1. A respeito dos holocaustos do rebanho, v. 10. O modo de conduzi-los é praticamente o mesmo dos novilhos; só que aqui se ordena que o sacrifício seja morto do lado norte do altar, o que, embora mencionado só aqui, provavelmente devia ser observado quanto aos anteriores e a outros sacrifícios.

Talvez desse lado do altar houvesse o maior espaço vago, e lugar em que os sacerdotes pudessem se mover. Observou-se desde antigamente que o bom tempo vem do norte, e que o vento norte afugenta a chuva.

E por estes sacrifícios as tempestades da cólera de Deus são dispersas, e a luz do rosto de Deus é obtida, que é mais agradável que o tempo mais claro e mais belo.

  1. A respeito dos holocaustos das aves. Devem ser ou rolas (e, sendo assim, “devem ser rolas velhas”, dizem os judeus), ou pombos, e, sendo assim, devem ser pombinhos. O que era mais aceitável nas mesas dos homens devia ser trazido ao altar de Deus. No oferecimento destas aves:

(1.) A cabeça devia ser torcida e destacada, “totalmente destacada”, dizem alguns; outros acham que era apenas beliscada, de modo a matar a ave, deixando ainda assim a cabeça pendente do corpo. Mas parece mais provável que devesse ser inteiramente separada, pois devia ser queimada primeiro.

(2.) O sangue devia ser espremido ao lado do altar.

(3.) As tripas, com as penas, deviam ser lançadas fora, sobre o monturo.

(4.) O corpo devia ser aberto, aspergido com sal, e então queimado sobre o altar.

“Este sacrifício de aves”, dizem os judeus, “era um dos serviços mais difíceis que os sacerdotes tinham de fazer”, para ensinar os que ministram nas coisas santas a serem tão cuidadosos com a salvação dos pobres quanto com a dos ricos.

E que os serviços dos pobres são tão aceitáveis a Deus, se vierem de um coração reto, quanto os serviços dos ricos, porque ele aceita “segundo o que um homem tem, e não segundo o que ele não tem”, 2 Coríntios 8:12.

Diz-se aqui que as rolas, ou os pombinhos, do pobre são uma oferta de “suave cheiro”, não menos que a de um boi ou novilho que tenha chifres ou cascos.

Contudo, apesar de tudo, amar a Deus de todo o nosso coração, e amar o nosso próximo como a nós mesmos, é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios, Marcos 12:33.


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