Levítico 1
Argumento
UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO TERCEIRO LIVRO DE MOISÉS, CHAMADO LEVÍTICO.
Não há nada de histórico em todo este livro de Levítico, a não ser o relato que ele nos dá da consagração do sacerdócio (Levítico 8-9), do castigo de Nadabe e Abiú, pela mão de Deus, por oferecerem fogo estranho (Levítico 10), e do filho de Selomite, pela mão do magistrado, por blasfêmia (Levítico 24).
Todo o resto do livro é ocupado com as leis, principalmente as leis eclesiásticas, que Deus deu a Israel por Moisés, a respeito dos seus sacrifícios e ofertas, dos seus alimentos e bebidas, e de diversas lavagens, e das outras peculiaridades pelas quais Deus separou aquele povo para si e os distinguiu das outras nações.
Todas elas eram sombras dos bens vindouros, que são realizados e suplantados pelo evangelho de Cristo.
Chamamos o livro de Levítico, a partir da Septuaginta, porque ele contém as leis e ordenanças do sacerdócio levítico (como é chamado, Hebreus 7:11) e as ministrações dele.
Os levitas estavam principalmente encarregados destas instituições, tanto para fazer a sua parte quanto para ensinar ao povo a parte que lhe cabia.
Lemos, no fecho do livro anterior, de ter sido armado o tabernáculo, que devia ser o lugar do culto; e, assim como aquele foi construído segundo o modelo, assim devem ser as ordenanças do culto, que ali deviam ser administradas.
Nestas a designação divina foi tão particular quanto na construção do tabernáculo, e tem de ser tão pontualmente observada.
O registro que resta destas leis ab-rogadas é de utilidade para nós, para o fortalecimento da nossa fé em Jesus Cristo, como o Cordeiro abatido desde a fundação do mundo, e para o aumento da nossa gratidão a Deus, pelo fato de que por ele estamos livres do jugo da lei cerimonial e vivemos nos tempos da reforma.
Este livro começa com as leis a respeito dos sacrifícios, dos quais os mais antigos eram os holocaustos, sobre os quais Deus dá instruções a Moisés neste capítulo.
Aqui são dadas ordens sobre como esse tipo de sacrifício deve ser conduzido:
I. Se era um novilho do gado, vv. 3-9.
II. Se era uma ovelha ou uma cabra, um cordeiro ou um cabrito, do rebanho, vv. 10-13.
III. Se era uma rola ou um pombinho, vv. 14-17.
E, fosse a oferta mais ou menos valiosa em si mesma, se era oferecida com coração reto, segundo estas leis, era aceita por Deus.
Versículos 1 a 2
A Lei a Respeito das Ofertas. (a.C. 1490.)
Observe aqui:
- Dá-se por certo que as pessoas estariam inclinadas a trazer ofertas ao Senhor. A própria luz da natureza dirige o homem, de um modo ou de outro, a honrar o seu Criador e a prestar-lhe homenagem como seu Senhor.
A religião revelada supõe que a religião natural seja instituição antiga e primitiva. Desde a queda, a religião revelada dirigira os homens a glorificar a Deus por meio do sacrifício, o que era um reconhecimento implícito de haverem recebido tudo de Deus como criaturas e de haverem perdido tudo para ele como pecadores.
Uma consciência inteiramente convencida da sua dependência e da sua culpa estaria disposta a comparecer diante de Deus com milhares de carneiros, Miquéias 6:6, 7.
- Providencia-se que os homens não se entreguem às suas próprias fantasias, nem se tornem vãos nas suas imaginações e invenções acerca dos seus sacrifícios, para que, alegando honrar a Deus, não venham realmente a desonrá-lo e a fazer o que é indigno dele.
Por isso, tudo é ordenado que se faça com o devido decoro, por uma regra certa, e de modo que os sacrifícios sejam o mais significativos possível, tanto do grande sacrifício de expiação que Cristo devia oferecer na plenitude dos tempos quanto dos sacrifícios espirituais de reconhecimento que os crentes ofereceriam diariamente.
- Deus deu essas leis a Israel por meio de Moisés; nada se repete com mais frequência do que isto: “O Senhor falou a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel”.
Deus poderia tê-las falado ele mesmo aos filhos de Israel, como fez com os dez mandamentos; mas escolheu expô-las a eles por meio de Moisés, porque eles tinham desejado que ele não lhes falasse mais ele mesmo, e ele tinha destinado que Moisés fosse, acima de todos os profetas, tipo de Cristo, por quem Deus falaria a nós nestes últimos dias, Hebreus 1:2.
Por outros profetas Deus enviou mensagens ao seu povo, mas por Moisés deu-lhes leis; e por isso ele era apto para prefigurar aquele a quem o Pai deu todo o juízo.
E, além disso, o tesouro da revelação divina devia sempre ser posto em vasos de barro, para que a nossa fé fosse provada e para que a excelência do poder fosse de Deus.
- Deus lhe falou de dentro do tabernáculo. Assim que a shechinah tomou posse da sua nova habitação, em sinal da aceitação do que fora feito, Deus falou com Moisés desde o propiciatório, enquanto Moisés esperava do lado de fora do véu, ou antes, à porta, ouvindo apenas uma voz.
E é provável que ele tenha escrito o que ouviu naquela ocasião, para evitar qualquer engano, ou um lapso de memória, ao recitá-lo.
O tabernáculo foi erguido para ser um lugar de comunhão entre Deus e Israel; ali, onde prestavam os seus serviços a Deus, Deus lhes revelava a sua vontade. Assim, pela palavra e pela oração, temos agora comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo, Atos 6:4.
Quando falamos com Deus, devemos desejar ouvi-lo, e ter como grande favor que ele tenha por bem falar conosco. O Senhor chamou a Moisés, não para se aproximar (sob aquela dispensação, até Moisés devia manter a sua distância), mas para atentar e escutar o que seria dito.
Uma letra menor que o normal na palavra hebraica que se traduz por “chamou”, dizem-nos os críticos judeus, dá a entender que Deus falou com voz calma e baixa.
A lei moral foi dada com terror, de um monte em chamas, entre trovões e relâmpagos; mas a lei remediadora do sacrifício foi dada mais suavemente, de um propiciatório, porque essa era figura da graça do evangelho, que é a ministração de vida e de paz.
Versículos 3 a 9
Lei do Holocausto. (a.C. 1490.)
Se um homem fosse rico e tivesse recursos, supõe-se que traria o seu sacrifício de holocausto, com o qual tencionava honrar a Deus, da sua manada de gado maior.
Quem considera que Deus é o melhor que existe resolverá dar-lhe o melhor que tem; do contrário, não lhe dá a glória devida ao seu nome.
Ora, se um homem resolvia matar um novilho, não para um banquete para a sua família e os seus amigos, mas para sacrifício ao seu Deus, estas regras tinham de ser observadas religiosamente:
- O animal a ser oferecido tinha de ser macho, e sem defeito, e o melhor que ele tivesse no seu pasto.
Sendo destinado puramente à honra daquele que é infinitamente perfeito, devia ser o mais perfeito da sua espécie.
Isso significava a força e a pureza completas que havia em Cristo, o sacrifício que morre, e a sinceridade de coração e a irrepreensibilidade de vida que deve haver nos cristãos, que são apresentados a Deus como sacrifícios vivos.
Mas, literalmente, em Cristo Jesus não há nem macho nem fêmea; nem defeito natural algum no corpo é obstáculo à nossa aceitação diante de Deus, mas somente os defeitos e as deformidades morais que o pecado introduziu na alma.
- O dono tinha de oferecê-lo voluntariamente. O que se faz em religião, de modo a agradar a Deus, tem de ser feito sem outra coação senão a do amor. Deus aceita o povo voluntário e o que dá com alegria.
Ainsworth e outros leem isso não como o princípio, mas como o fim da oferta: “Que ele a ofereça para a sua favorável aceitação diante do Senhor.”
“Que proponha isto a si mesmo como o seu fim ao trazer o seu sacrifício, e que o seu olho esteja fixo firmemente nesse fim — para que seja aceito do Senhor.”
Só encontrarão aceitação aqueles que sinceramente a desejam e a tencionam em todos os seus serviços religiosos, 2 Coríntios 5:9.
- Tinha de ser oferecido à porta do tabernáculo, onde ficava o altar de bronze dos holocaustos, que santificava a dádiva, e não em outro lugar.
Tinha de oferecê-lo à porta, como quem é indigno de entrar, e reconhecendo que não há admissão para um pecador na aliança e na comunhão com Deus senão por sacrifício.
Mas tinha de oferecê-lo no tabernáculo da congregação, em sinal da sua comunhão com toda a igreja de Israel até neste serviço pessoal.
- Aquele que oferece tinha de pôr a sua mão sobre a cabeça da sua oferta, v. 4. “Tinha de pôr ambas as suas mãos”, dizem os doutores judeus, “com toda a sua força, entre os chifres do animal”, significando com isso:
(1.) A transferência para Deus de todo o direito que tinha sobre o animal e de todo o interesse que nele tinha, abrindo mão dele para o serviço de Deus, efetivamente e por entrega manual.
(2.) O reconhecimento de que ele merecia morrer, e teria estado disposto a morrer se Deus o tivesse exigido, para servir à honra dele e para obter o seu favor.
(3.) Uma dependência do sacrifício, como tipo instituído do grande sacrifício sobre o qual devia ser posta a iniquidade de todos nós.
A significação mística dos sacrifícios, e especialmente deste rito, é o que alguns pensam que o apóstolo quer dizer pela doutrina da “imposição de mãos” (Hebreus 6:2), que prefigurava a fé evangélica.
O fato de aquele que oferece pôr a sua mão sobre a cabeça da oferta devia significar o seu desejo e a sua esperança de que ela fosse aceita da parte dele para fazer expiação por ele.
Ainda que os holocaustos não tivessem respeito a nenhum pecado particular, como tinha a oferta pelo pecado, contudo deviam fazer expiação pelo pecado em geral.
E quem punha a sua mão sobre a cabeça de um holocausto devia confessar que tinha deixado por fazer o que devia ter feito e tinha feito o que não devia ter feito.
E devia orar para que, ainda que ele mesmo merecesse morrer, a morte do seu sacrifício fosse aceita para a expiação da sua culpa.
- O sacrifício devia ser morto pelos sacerdotes, ou levitas, diante do Senhor, isto é, de maneira devota e religiosa, e com o olho posto em Deus e na honra dele.
Isso significava que o nosso Senhor Jesus devia fazer da sua alma, ou vida, uma oferta pelo pecado. O Messias, o príncipe, tinha de ser cortado como sacrifício, mas não em favor de si mesmo, Daniel 9:26.
Significava também que nos cristãos, que são sacrifícios vivos, a parte bruta tem de ser mortificada, ou morta, a carne crucificada com as suas afeições e concupiscências corruptas e todos os apetites da mera vida animal.
- Os sacerdotes deviam aspergir o sangue sobre o altar (v. 5); pois, sendo o sangue a vida, era isto que fazia expiação pela alma.
Isso significava a consideração direta e efetiva que o nosso Senhor Jesus teve pela satisfação da justiça do seu Pai, e pela garantia da honra ofendida dele, ao derramar o seu sangue. Ele se ofereceu sem mancha a Deus.
Significava também a pacificação e a purificação das nossas consciências pela aspersão do sangue de Jesus Cristo sobre elas pela fé, 1 Pedro 1:2; Hebreus 10:22.
- O animal devia ser esfolado e cortado decorosamente, e dividido nas suas diversas juntas, ou peças, segundo a arte do açougueiro.
E então todas as peças, com a cabeça e a gordura (sendo primeiro lavadas as pernas e as entranhas), deviam ser queimadas juntas sobre o altar, vv. 6-9.
“Mas com que propósito”, diriam alguns, “era este desperdício? Por que todo este bom alimento, que poderia ter sido dado aos pobres e ter servido de comida por muito tempo às suas famílias famintas, seria queimado todo junto até virar cinzas?”
Assim era a vontade de Deus, e não cabe a nós objetar nem achar defeito nela. Quando era queimado para a honra de Deus, em obediência ao mandamento dele, e para significar bênçãos espirituais, era realmente mais bem empregado, e correspondia melhor ao fim da sua criação, do que quando era usado como alimento para o homem.
Nunca devemos considerar perdido aquilo que é gasto para Deus. A queima do sacrifício significava os agudos sofrimentos de Cristo, e as afeições devotas com as quais, como um fogo santo, os cristãos têm de oferecer-se a si mesmos a Deus, todo o seu espírito, alma e corpo.
- Diz-se que esta é uma oferta de suave cheiro, ou cheiro de repouso, ao Senhor.
A queima de carne é de mau cheiro em si mesma; mas esta, como ato de obediência a um mandamento divino, e tipo de Cristo, era muito agradável a Deus. Ele se reconciliava com aquele que oferecia, e ele mesmo se comprazia nessa reconciliação.
Ele repousava, e se restaurava com estas instituições da sua graça, como, no princípio, com as suas obras da criação (Êxodo 31:17), regozijando-se nelas, Salmos 104:31.
Diz-se que a oferta que Cristo fez de si mesmo a Deus é de “um suave cheiro” (Efésios 5:2), e diz-se que os sacrifícios espirituais dos cristãos são “aceitáveis a Deus por meio de Cristo”, 1 Pedro 2:5.
Versículos 10 a 17
Aqui temos as leis a respeito dos holocaustos que eram do rebanho ou das aves. Os de condição mediana, que não podiam arcar facilmente com a oferta de um novilho, trariam uma ovelha ou uma cabra; e os que não podiam fazer isso seriam aceitos por Deus se trouxessem uma rola ou um pombo.
Pois Deus, na sua lei e no seu evangelho, assim como na sua providência, considera os pobres.
Observa-se que foram escolhidas para o sacrifício aquelas criaturas que eram as mais mansas e dóceis, inócuas e inofensivas, para prefigurar a inocência e a mansidão que havia em Cristo, e para ensinar a inocência e a mansidão que deve haver nos cristãos.
São dadas aqui instruções:
- A respeito dos holocaustos do rebanho, v. 10. O modo de conduzi-los é praticamente o mesmo dos novilhos; só que aqui se ordena que o sacrifício seja morto do lado norte do altar, o que, embora mencionado só aqui, provavelmente devia ser observado quanto aos anteriores e a outros sacrifícios.
Talvez desse lado do altar houvesse o maior espaço vago, e lugar em que os sacerdotes pudessem se mover. Observou-se desde antigamente que o bom tempo vem do norte, e que o vento norte afugenta a chuva.
E por estes sacrifícios as tempestades da cólera de Deus são dispersas, e a luz do rosto de Deus é obtida, que é mais agradável que o tempo mais claro e mais belo.
- A respeito dos holocaustos das aves. Devem ser ou rolas (e, sendo assim, “devem ser rolas velhas”, dizem os judeus), ou pombos, e, sendo assim, devem ser pombinhos. O que era mais aceitável nas mesas dos homens devia ser trazido ao altar de Deus. No oferecimento destas aves:
(1.) A cabeça devia ser torcida e destacada, “totalmente destacada”, dizem alguns; outros acham que era apenas beliscada, de modo a matar a ave, deixando ainda assim a cabeça pendente do corpo. Mas parece mais provável que devesse ser inteiramente separada, pois devia ser queimada primeiro.
(2.) O sangue devia ser espremido ao lado do altar.
(3.) As tripas, com as penas, deviam ser lançadas fora, sobre o monturo.
(4.) O corpo devia ser aberto, aspergido com sal, e então queimado sobre o altar.
“Este sacrifício de aves”, dizem os judeus, “era um dos serviços mais difíceis que os sacerdotes tinham de fazer”, para ensinar os que ministram nas coisas santas a serem tão cuidadosos com a salvação dos pobres quanto com a dos ricos.
E que os serviços dos pobres são tão aceitáveis a Deus, se vierem de um coração reto, quanto os serviços dos ricos, porque ele aceita “segundo o que um homem tem, e não segundo o que ele não tem”, 2 Coríntios 8:12.
Diz-se aqui que as rolas, ou os pombinhos, do pobre são uma oferta de “suave cheiro”, não menos que a de um boi ou novilho que tenha chifres ou cascos.
Contudo, apesar de tudo, amar a Deus de todo o nosso coração, e amar o nosso próximo como a nós mesmos, é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios, Marcos 12:33.