Matthew Henry

Levítico 26

Argumento

Este capítulo é a conclusão solene do corpo principal da lei levítica. Os preceitos que se seguem, neste livro e no seguinte, ou dizem respeito a algumas matérias particulares, ou são repetições e explicações das instituições anteriores.

Ora, este capítulo contém um reforço geral de todas aquelas leis, por promessas de recompensa em caso de obediência, de um lado, e por ameaças de castigo pela desobediência, de outro; as primeiras para agir sobre a esperança, as últimas sobre o medo, essas duas alças da alma, pelas quais ela é agarrada e conduzida. Aqui está:

I. Uma repetição de dois ou três dos principais mandamentos, v. 1, 2.

II. Uma promessa convidativa de todas as coisas boas, se ao menos guardassem os mandamentos de Deus, vv. 3-13.

III. Uma ameaça terrível de juízos arruinadores que seriam trazidos sobre eles se fossem refratários e desobedientes, vv. 14-39.

IV. Uma promessa graciosa do retorno da misericórdia àqueles dentre eles que se arrependessem e se emendassem, v. 40, etc. Deuteronômio 28 é paralelo a este.

Versículos 1 a 13

Promessas. (a.C. 1490.)

Aqui está:

I. A inculcação daqueles preceitos da lei que eram da maior importância, e pelos quais especialmente a obediência deles seria provada, v. 1, 2. Eles são o resumo do segundo e do quarto mandamentos, que, assim como são de longe os mais extensos do decálogo, assim também são os mais frequentemente reforçados em outras partes da lei.

Assim como um senhor, depois de dar ao seu servo muitas coisas a cumprir, conclui repetindo aquelas que eram da maior importância, e que o servo corria mais perigo de negligenciar, e lhe ordena que, fizesse o que fizesse, se lembrasse sem falta delas, assim aqui Deus, por meio de Moisés, depois de muitos preceitos, encerra tudo com uma ordem especial de observar estes dois grandes mandamentos:

  1. “Tenham o cuidado de nunca adorar imagens, nem de fazer jamais qualquer espécie de imagens ou pinturas para uso religioso”, v. 1. Nenhum pecado provocava mais a Deus do que este, e contudo não havia nenhum a que fossem mais dados, e que depois se mostrasse de consequência mais perniciosa para eles.

Depois do ser de Deus, da sua unidade e da sua influência universal, é necessário que saibamos e creiamos que ele é um Espírito infinito. Por isso, representá-lo por uma imagem ao fazê-la, confiná-lo a uma imagem ao consagrá-la e adorá-lo por uma imagem ao curvar-se diante dela muda a sua verdade em mentira e a sua glória em vergonha, tanto quanto qualquer outra coisa.

  1. “Tenham o cuidado de manter uma grande veneração pelos sábados e pelas assembleias religiosas”, v. 2. Assim como nada tende mais a corromper a religião do que o uso de imagens na devoção, assim nada contribui mais para sustentá-la do que guardar os sábados e reverenciar o santuário.

Estes compõem grande porção da parte instrumental da religião, pela qual o essencial dela é mantido. Por isso, vemos nos profetas que, depois do pecado da idolatria, não há pecado pelo qual os judeus sejam mais frequentemente censurados e ameaçados do que a profanação do dia de sábado.

II. Grandes motivos de ânimo dados a eles para viverem em obediência constante a todos os mandamentos de Deus, assegurando-lhes amplamente e com força que, se assim fizessem, seriam um povo feliz, e seriam abençoados com todas as coisas boas que pudessem desejar.

Os governos humanos reforçam as suas leis com penas a serem infligidas pela violação delas; mas Deus será conhecido como galardoador dos que o buscam e o servem.

Vejamos estas grandes e preciosas promessas, que, embora digam respeito principalmente à vida que agora é, e aos interesses públicos e nacionais daquele povo, eram típicas das bênçãos espirituais vinculadas pela aliança da graça a todos os crentes por meio de Cristo:

  1. Fartura e abundância dos frutos da terra. Teriam chuva no seu tempo, nem de menos nem de mais, mas a que fosse necessária para a sua terra, que era regada com o orvalho do céu (Deuteronômio 11:10, 11), para que desse o seu fruto, v. 4.

A dependência que a fertilidade da terra aqui embaixo tem das influências do céu lá em cima é uma indicação palpável para nós de que toda boa dádiva e todo dom perfeito se deve esperar do alto, do Pai das luzes.

É prometido que a terra produziria os seus frutos em tão grande abundância que eles estariam plenamente ocupados, tanto durante a colheita quanto durante a vindima, em recolhê-los, v. 5. Antes de terem ceifado e debulhado o seu trigo, a vindima estaria pronta; e, antes de terem terminado a sua vindima, seria mais que tempo de começar a sua semeadura.

Colheitas longas são muitas vezes, entre nós, consequência de mau tempo, mas entre eles seriam efeito de um grande aumento. Isso significava a abundância de graça que seria derramada nos tempos do evangelho, quando o lavrador alcançaria o ceifeiro (Amós 9:13) e uma grande colheita de almas seria recolhida para Cristo.

A fartura seria tão grande que tirariam fora o velho, para ser dado aos pobres, por causa do novo, a fim de lhe dar lugar nos seus celeiros. Contudo, não os derrubariam para construir maiores, como aquele rico insensato (Lucas 12:18), pois Deus lhes dava essa abundância para ser distribuída, não para ser entesourada de um ano para outro.

“Ao que retém o trigo, o povo o amaldiçoará”, Provérbios 11:26. Aquela promessa (Malaquias 3:10), “Derramarei sobre vós uma bênção tal, que não haverá lugar suficiente para recolhê-la”, explica esta, v. 10.

E o que coroa essa bênção da fartura é (v. 5): “Comereis o vosso pão até vos fartardes”, o que dá a entender que teriam não só abundância, mas contentamento e satisfação nela. Teriam o bastante, e saberiam quando tinham o bastante. Assim, “os mansos comerão e se fartarão”, Salmos 22:26.

  1. Paz sob a proteção divina: “Habitareis seguros na vossa terra (v. 5); tanto seguros de fato quanto seguros na vossa própria percepção; vos deitareis para descansar no poder e na promessa de Deus, e não só ninguém vos fará mal, mas ninguém sequer vos espantará”, v. 6. Veja Salmos 4:8.

Não seriam infestados de feras: estas seriam tiradas da terra, ou, como é prometido (Jó 5:23), estariam em paz com eles. Nem seriam aterrorizados com os alarmes da guerra: “Nem passará a espada pela vossa terra”.

Essa santa segurança é prometida a todos os fiéis, Salmos 91:1, etc. Necessariamente habitam em segurança os que habitam em Deus, Jó 11:18, 19.

  1. Vitória e êxito nas suas guerras no exterior, enquanto tivessem paz e tranquilidade em casa, v. 7, 8. É-lhes assegurado que a mão de Deus apareceria com eles nas suas conquistas de modo tão notável que nenhuma desproporção de número pesaria contra eles.

“Cinco de vós tereis coragem para atacar e força para perseguir e derrotar cem”, como fez Jônatas (1 Samuel 14:12), experimentando a verdade da sua própria máxima (1 Samuel 14:6): que para o Senhor é tudo um salvar com muitos ou com poucos.

  1. O aumento do seu povo: “Eu vos farei frutificar e vos multiplicarei”, v. 9. Assim tinha de se cumprir a promessa feita a Abraão, de que a sua descendência seria como o pó da terra; e muito mais numerosos teriam sido, se pelo seu pecado não se tivessem cerceado. À igreja do evangelho é prometido que será frutífera, João 15:16.

  2. O favor de Deus, que é a fonte de todo bem: “Olharei para vós”, v. 9. Se o olho da nossa fé estiver voltado para Deus, o olho do seu favor estará voltado para nós.

Mais está implícito do que expresso naquela promessa, “A minha alma não vos abominará” (v. 11), como também naquela ameaça, “A minha alma não terá prazer nele”, Hebreus 10:38. Embora houvesse entre eles aquilo que com justiça poderia tê-lo afastado deles, contudo, se aderissem de perto às suas instituições, ele não os abominaria.

  1. Sinais da sua presença nas suas ordenanças e por meio delas: “Porei o meu tabernáculo no meio de vós”, v. 11. Era honra e vantagem deles que o tabernáculo de Deus tivesse sido erguido havia pouco entre eles; mas aqui ele lhes faz saber que a continuidade e o estabelecimento dele dependiam do bom procedimento deles.

O tabernáculo que agora estava armado seria firmado, se fossem obedientes; do contrário, não. Repare: o caminho para ter as ordenanças de Deus fixadas entre nós, como um prego em lugar firme, é apegar-se de perto à instituição delas.

Acrescenta-se (v. 12): “Andarei no meio de vós, com deleite e satisfação, como um homem no seu jardim; manterei comunhão convosco como um homem que anda com o seu amigo”. Parece haver alusão a isso em Apocalipse 2:1, onde se diz que Cristo anda no meio dos candeeiros de ouro.

  1. A graça da aliança, como a fonte e o fundamento, a doçura e a segurança, de todas essas bênçãos: “Estabelecerei a minha aliança convosco”, v. 9. Cumprissem eles a sua parte da aliança, e Deus não deixaria de cumprir a dele.

Todas as bênçãos da aliança se resumem na relação da aliança (v. 12): “Eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”. E todas se fundam na redenção deles: “Eu sou o vosso Deus, porque vos tirei da terra do Egito”, v. 13. Tendo-os comprado, ele os reconheceria como seus, e nunca os rejeitaria enquanto eles não o rejeitassem.

Ele quebrou o seu jugo e os fez andar eretos, isto é, o livramento do Egito os pôs num estado tanto de alívio quanto de honra, para que, livres das mãos dos seus inimigos, servissem a Deus sem medo, cada um andando na sua retidão.

Quando Israel rejeitou a Cristo, e por isso foi rejeitado por ele, diz-se que as suas costas estão sempre encurvadas debaixo do fardo da sua culpa, que era mais pesado que o da sua servidão no Egito, Romanos 11:10.

Versículos 14 a 39

Ameaças. (a.C. 1490.)

Depois de pôr diante deles a bênção (a vida e o bem que fariam deles um povo feliz, se fossem obedientes), Deus põe aqui diante deles a maldição, a morte e o mal que os tornariam igualmente miseráveis, se fossem desobedientes.

Não pensassem estar tão profundamente enraizados que o poder de Deus não pudesse arruiná-los, nem tão altamente favorecidos que a sua justiça não os arruinasse, se se revoltassem contra ele e se rebelassem contra ele. Não: “Somente a vós tenho conhecido; portanto, eu vos castigarei primeiro e com a maior severidade”, Amós 3:2. Observe:

I. Como é descrito o pecado deles, que traria toda essa miséria sobre eles. Não os pecados de ignorância e de fraqueza: para esses, Deus havia providenciado sacrifícios. Não os pecados de que se arrependessem e que abandonassem; mas os pecados cometidos com presunção e mantidos com obstinação. Duas coisas certamente trariam essa ruína sobre eles:

  1. O desprezo dos mandamentos de Deus (v. 14): “Se não me ouvirdes quando vos falo pela lei, e não cumprirdes todos estes mandamentos, isto é, não desejardes e não vos esforçardes por cumpri-los, e, naquilo em que falhardes, não fizerdes uso dos remédios prescritos”.

Assim, supõe-se que o pecado deles comece em mero descuido, negligência e omissão. Estes são bastante maus, mas abrem caminho para piores; pois o povo é apresentado (v. 15):

(1.) Desprezando os estatutos de Deus, tanto os deveres ordenados quanto a autoridade que os ordena, pensando com desdém da lei e do Legislador. Repare: estão correndo depressa para a própria ruína os que começam a achar que ser religioso está abaixo deles.

(2.) Abominando os seus juízos, e as suas próprias almas abominando-os. Repare: os que começam a desprezar a religião chegarão aos poucos a detestá-la; e os pensamentos mesquinhos a respeito dela amadurecerão em maus pensamentos a respeito dela. Os que se desviam dela se voltarão contra ela, e os seus corações se levantarão contra ela.

(3.) Quebrando a sua aliança. Embora nem toda violação do mandamento chegue a ser uma quebra da aliança (estaríamos perdidos, se chegasse), contudo, quando os homens chegam a tal grau de impiedade que desprezam e abominam o mandamento, o passo seguinte será renegar a Deus e toda relação com ele. Os que rejeitam o preceito chegarão por fim a renunciar à aliança.

Observe: é a aliança de Deus que eles quebram. Ele a fez, mas eles a quebram. Repare: se uma aliança é feita e guardada entre Deus e o homem, Deus deve ter toda a honra; mas, se alguma vez ela for quebrada, o homem deve levar toda a culpa: sobre ele recairá essa quebra.

  1. O desprezo das suas correções. Nem mesmo a desobediência deles teria sido a sua destruição, se não tivessem sido obstinados e impenitentes nela, apesar dos meios que Deus empregou para recuperá-los.

O desprezo da palavra de Deus não os teria levado à ruína, se não lhe tivessem acrescentado o desprezo da sua vara, que deveria tê-los levado ao arrependimento. Isso é expresso de três maneiras:

(1.) “Se nem por tudo isso me ouvirdes”, v. 18, 21, 27. “Se não aprenderdes a obediência pelas coisas que padeceis, mas fordes tão surdos aos altos alarmes dos juízos de Deus quanto tendes sido aos arrazoados cerrados da sua palavra e aos sussurros secretos das vossas próprias consciências, sois obstinados de fato.”

(2.) “Se andardes contrariamente a mim”, v. 21, 23, 27. Todos os pecadores andam contrariamente a Deus, às suas verdades, leis e conselhos; mas especialmente os que são incorrigíveis debaixo dos seus juízos.

O desígnio da vara é humilhá-los, abrandá-los e levá-los ao arrependimento; mas, em vez disso, os seus corações ficam mais endurecidos e exasperados contra Deus, e na sua angústia transgridem ainda mais contra ele, 2 Crônicas 28:22. Isso é andar contrariamente a Deus.

Alguns leem: “Se andardes à ventura comigo, com descuido e presunção, como se não fizésseis caso nem do que fazeis, se é certo ou errado, nem do que Deus faz convosco, se é a vosso favor ou contra vós, tropeçando adiante numa ignorância voluntária”.

(3.) “Se não fordes emendados por estas coisas.” O desígnio de Deus ao castigar é emendar, dando aos homens convicções palpáveis do mal do pecado e obrigando-os a buscá-lo para obter alívio: esta é a intenção primeira. Mas os que não querem ser emendados pelos juízos de Deus devem esperar ser arruinados por eles.

Muito têm a responder os que estiveram longa e frequentemente debaixo da mão corretora de Deus e, contudo, seguem perversamente num caminho pecaminoso: doentes e com dores, e contudo não emendados; contrariados e empobrecidos, e contudo não emendados; quebrantados com brecha sobre brecha, e contudo sem voltar para o Senhor, Amós 4:6, etc.

II. Como é descrita a miséria que o pecado deles traria sobre eles, sob dois títulos:

  1. O próprio Deus estaria contra eles; e esta é a raiz e a causa de toda a sua miséria:

(1.) “Porei o meu rosto contra vós” (v. 17), isto é, “porei a mim mesmo contra vós, me porei a arruinar-vos”. A esses pecadores soberbos Deus resistirá, e fará baixar os olhos aos que afrontam a sua autoridade. Ou o rosto é posto pela ira: “Mostrar-me-ei altamente desgostoso convosco”.

(2.) “Andarei contrariamente a vós” (v. 24, 28); com o perverso ele lutará, Salmos 18:26 [margem].

Quando Deus, na sua providência, frustra os desígnios de um povo, que eles julgavam bem traçados, contraria os seus propósitos, desfaz as suas medidas, destrói os seus esforços e decepciona as suas expectativas, então ele anda contrariamente a eles.

Repare: nada se ganha em contender com o Deus Todo-Poderoso, pois ele quebrará ou o coração ou o pescoço dos que contendem com ele: ou os levará ao arrependimento, ou à ruína.

“Andarei à ventura convosco”, assim leem alguns; “toda a benignidade da aliança será esquecida, e vos deixarei à providência comum”. Repare: os que rejeitam a Deus merecem que ele os rejeite.

(3.) Continuando eles obstinados, os juízos aumentariam ainda mais sobre eles. Se os primeiros sinais palpáveis do desagrado de Deus não alcançassem o seu fim, que é humilhá-los e emendá-los, então (v. 18): “Eu vos castigarei sete vezes mais”.

E de novo (v. 21): “Trarei sete vezes mais pragas”; e (v. 24): “Eu vos castigarei ainda sete vezes”; e (v. 28): “Eu, sim, eu, vos castigarei sete vezes pelos vossos pecados”.

Repare: se os juízos menores não fazem a sua obra, Deus enviará maiores; pois, quando ele julga, vencerá. Se o verdadeiro arrependimento não sustar o processo, ele seguirá até que se expeça a ordem de execução da sentença.

Os que são obstinados e incorrigíveis, quando tiverem atravessado uma tempestade, devem esperar outra mais violenta; e, por mais severamente que sejam castigados, enquanto não estiverem no inferno devem continuamente dizer: “Ainda há coisa pior por vir”, a menos que se arrependam.

Se o fundidor até aqui fundiu em vão (Jeremias 6:29), a fornalha será aquecida sete vezes mais (expressão proverbial, usada em Daniel 3:19), e de novo e de novo sete vezes mais; e quem de nós poderá habitar com um fogo tão devorador?

Deus não começa pelos juízos mais severos, para mostrar que é paciente e não tem prazer na morte dos pecadores; mas, se eles não se arrependerem, ele passará aos mais severos, para mostrar que é justo e que não se deixará escarnecer nem desafiar.

(4.) A miséria deles se completa naquela ameaça: “A minha alma vos abominará”, v. 30. É tão miserável quanto pode ser o homem a quem Deus abomina; pois os seus ressentimentos são justos e eficazes.

Assim, se alguém recuar, como se supõe que estes recuem, a alma de Deus não terá prazer nele (Hebreus 10:38), e ele os vomitará da sua boca, Apocalipse 3:16. Fala-se disso como de coisa estranha, e contudo verdadeira demais: “Aborreceu a tua alma a Sião?”, Jeremias 14:19.

  1. A criação inteira estaria em guerra com eles. Todos os duros juízos de Deus seriam enviados contra eles, pois ele tem muitas flechas na sua aljava.

As ameaças aqui são muito particulares, porque na realidade eram profecias, e aquele que previa todas as rebeliões deles sabia que elas se mostrariam tais; veja Deuteronômio 31:16, 29. Esse longo rol de ameaças mostra que o mal persegue os pecadores. Temos aqui:

(1.) Juízos temporais ameaçados:

[1.] Doenças do corpo, que seriam epidêmicas: “Designarei sobre vós, como feitores, para vos dominar com rigor, o terror, a tísica e a febre ardente”, v. 16.

Aquilo que traduzimos por terror, pensam alguns, significa uma doença particular, provavelmente (diz o erudito bispo Patrick) a epilepsia, que é terror de fato. Todas as doenças crônicas estão incluídas na tísica, e todas as doenças agudas na febre ardente, ou febre.

Estas consomem os olhos e causam tristeza tanto aos que são visitados por elas quanto aos seus amigos e parentes. Repare: todas as doenças são servas de Deus; fazem o que ele lhes designa, e muitas vezes são usadas como açoites com que ele castiga um povo que o provoca.

A peste é ameaçada (v. 25) para encontrá-los quando estiverem reunidos nas suas cidades por medo da espada. Quanto maior é o ajuntamento de gente, maior é a desolação que a peste faz; e, quando ela se espalha entre os soldados que deveriam defender um lugar, é da consequência mais fatal.

[2.] Fome e escassez de pão, que seriam trazidas sobre eles de diversas maneiras; como:

Primeiro, pelo saque (v. 16): “Os vossos inimigos o comerão”, e o levarão embora, como fizeram os midianitas, Juízes 6:5, 6.

Segundo, pelo tempo fora de estação, especialmente a falta de chuva (v. 19): “Farei o vosso céu como ferro”, que não deixa cair chuva, mas reflete o calor; e então a terra seria, naturalmente, tão seca e dura quanto o bronze, e o seu trabalho de lavrar e semear seria em vão (v. 20). Pois o fruto da terra depende mais da boa providência de Deus do que da boa lavoura do homem.

Isso seria a quebra do “bastão do pão” (v. 26), em que a vida se apoia e pelo qual é sustentada, e no qual talvez eles se tivessem apoiado mais do que na bênção de Deus.

Haveria tão grande carestia de trigo que, enquanto cada família costumava encher um forno próprio com pão caseiro, agora dez famílias só teriam pão para encher um forno. Isso reduziria a eles mesmos, aos seus filhos e aos seus servos a uma ração curta, de modo que comeriam e não se fartariam. Quanto menos tivessem, mais ávidos seriam os seus apetites.

Terceiro, pelo cerco das suas cidades, que os reduziria a tal extremo que comeriam a carne dos seus filhos e das suas filhas, v. 29.

[3.] A guerra, e o predomínio dos seus inimigos sobre eles: “Sereis abatidos diante dos vossos inimigos”, v. 17. “Os vossos homens escolhidos morrerão na batalha, e os que vos odeiam reinarão sobre vós; e com justiça, já que não quereis que o Deus que vos amou reine sobre vós”; 2 Crônicas 12:8.

Miserável é o povo cujos inimigos são os seus governantes e alcançaram domínio sobre eles, ou cujos governantes se tornaram seus inimigos e, às ocultas, buscam a ruína dos seus interesses.

Assim Deus quebraria a soberba do poder deles, v. 19. Deus lhes havia dado poder sobre as nações; mas quando eles, em vez de serem gratos por esse poder e de aproveitá-lo para o serviço do reino de Deus, se ensoberbeceram dele e perverteram os fins dele, foi justo que Deus o quebrasse.

Assim Deus traria sobre eles uma espada para vingar a desavença da sua aliança, v. 25. Repare: Deus tem justa desavença com os que quebram a aliança com ele, pois não se deixará escarnecer pela traição de homens pérfidos; e, de um modo ou de outro, vingará essa desavença sobre os que fazem jogo duplo com ele.

[4.] Feras, leões, ursos e lobos, que se multiplicariam contra eles e despedaçariam todos os que lhes saíssem ao caminho (v. 22), como lemos de dois ursos que num instante mataram quarenta e dois meninos, 2 Reis 2:24. Este é um dos quatro duros juízos ameaçados em Ezequiel 14:21, que claramente se refere a este capítulo.

O homem foi feito para ter domínio sobre as criaturas; e, embora muitas delas sejam mais fortes que ele, contudo nenhuma delas poderia tê-lo ferido, ou melhor, todas elas o teriam servido, se ele não tivesse antes sacudido o domínio de Deus e, assim, perdido o seu próprio.

E agora as criaturas estão em rebelião contra aquele que está em rebelião contra o seu Criador; e, quando ao Senhor desses exércitos apraz, elas são as executoras da sua cólera e as ministras da sua justiça.

[5.] O cativeiro, ou dispersão: “Eu vos espalharei entre os gentios” (v. 33), “na terra dos vossos inimigos”, v. 34.

Nunca povo algum foi tão incorporado e unido entre si como eles; mas, pelo seu pecado, Deus os espalharia, de modo que se perderiam entre os gentios, dos quais Deus graciosamente os havia distinguido, mas com os quais eles perversamente se haviam mesclado.

Contudo, quando estivessem espalhados, a justiça divina não teria acabado com eles, mas desembainharia uma espada atrás deles, a qual os encontraria e os seguiria onde quer que estivessem. Os juízos de Deus, assim como não podem ser encarados de frente, assim não podem ser vencidos na corrida.

[6.] A ruína total e a desolação da sua terra, que seriam tão notáveis que os seus próprios inimigos, que as tinham ajudado a avançar, ficariam espantados com elas ao revê-las, v. 32:

Primeiro, as suas cidades seriam devastadas, abandonadas, desabitadas, e todos os edifícios destruídos; os que escapassem às desolações da guerra cairiam em ruína por si mesmos.

Segundo, os seus santuários seriam uma desolação, isto é, as suas sinagogas, onde se reuniam para o culto religioso todo sábado, bem como o seu tabernáculo, onde se reuniam três vezes por ano.

Terceiro, a própria região seria assolada, não lavrada nem cultivada (v. 34, 35); então a terra gozaria os seus sábados, porque eles não tinham observado religiosamente os anos sabáticos que Deus lhes designara. Lavravam o seu chão quando Deus queria que o deixassem descansar; por isso, com justiça, foram expulsos dele.

E a expressão dá a entender que o próprio chão ficou contente e aliviado quando se livrou do fardo de tais pecadores, debaixo do qual havia gemido, Romanos 8:20, etc. O cativeiro na Babilônia durou setenta anos, e por todo esse tempo a terra gozou os seus sábados, como se diz (2 Crônicas 36:21) com referência a isto.

[7.] A destruição dos seus ídolos, embora seja antes misericórdia que juízo, contudo, sendo parte necessária da justiça, é mencionada aqui, para mostrar qual seria o pecado que traria todas essas misérias sobre eles: “Destruirei os vossos altos”, v. 30.

Os que não se deixam separar dos seus pecados pelos mandamentos de Deus serão separados deles pelos seus juízos; já que não quiseram destruir os seus altos, Deus os destruiria.

E, para repreendê-los pelo afeto irracional que haviam mostrado pelos seus ídolos, predisse-se que os seus cadáveres seriam lançados sobre os cadáveres dos seus ídolos. Os que estão casados com as suas concupiscências, mais cedo ou mais tarde, se fartarão delas.

Os seus ídolos não seriam capazes de ajudar nem a si mesmos nem aos seus adoradores; mas, sendo semelhantes a eles os que os fizeram, pereceriam ambos igualmente, e cairiam juntos, como cegos, na cova.

(2.) Juízos espirituais são ameaçados aqui. Estes se apoderariam da mente; pois aquele que fez a mente pode, quando lhe apraz, fazer a sua espada chegar até ela. Ameaça-se aqui:

[1.] Que não achariam aceitação diante de Deus: “Não cheirarei o aroma dos vossos cheiros suaves”, v. 31. Embora os juízos de Deus sobre eles não os separassem dos seus pecados, contudo arrancavam deles incenso; mas em vão: até o seu incenso era abominação, Isaías 1:13.

[2.] Que não teriam coragem nas suas guerras, mas ficariam de todo desalentados e abatidos. Não só temeriam e fugiriam (v. 17), mas temeriam e cairiam sem que ninguém os perseguisse, v. 36.

Uma consciência culpada seria o seu terror contínuo, de modo que não só o som de uma trombeta, mas o próprio som de uma folha, os afugentaria. Repare: os que rejeitam o temor de Deus se expõem ao temor de tudo o mais, Provérbios 28:1.

Os seus próprios temores os lançariam uns contra os outros, v. 37, 38. E os que haviam aumentado a culpa uns dos outros aumentariam agora os temores uns dos outros.

[3.] Que não teriam esperança do perdão dos seus pecados (v. 39): “Definharão na sua iniquidade”, e como, então, viveriam? Ezequiel 33:10.

Repare: é coisa justa da parte de Deus deixar desesperar do perdão os que presumiram pecar; e é devido à graça gratuita se não somos abandonados a definhar na iniquidade em que nascemos e em que temos vivido.

Versículos 40 a 46

Ameaças e Promessas. (a.C. 1490.)

Aqui o capítulo se conclui com promessas graciosas do retorno do favor de Deus a eles mediante o seu arrependimento, para que não definhassem na sua iniquidade (a menos que fosse por culpa própria).

Contemple, com admiração, as riquezas da misericórdia de Deus para com um povo que havia resistido obstinadamente aos juízos de Deus, e que nunca pensaria em render-se enquanto não fosse reduzido ao último extremo.

Ainda assim, “voltai à fortaleza, vós, presos de esperança”, Zacarias 9:12. Por piores que estejam as coisas, podem ser remediadas. Ainda há esperança em Israel. Observe:

I. Como é descrito o arrependimento que os habilitaria para essa misericórdia, v. 40, 41. As suas manifestações são três:

  1. A confissão, pela qual devem dar glória a Deus e tomar a vergonha para si mesmos. Tem de haver confissão do pecado, o deles e o de seus pais, cuja culpa devem lamentar porque sentem a dor dela; para que assim cortem a transmissão hereditária da cólera.

Na sua confissão, devem pôr o pecado sob o seu pior caráter, como um andar contrariamente a Deus. Esta é a pecaminosidade do pecado, o pior que há nele, e o que no nosso arrependimento devemos especialmente lamentar.

Tem de haver também confissão da cólera: devem desviar os olhos dos instrumentos da sua aflição e das causas segundas, e confessar que Deus andou contrariamente a eles, e assim os tratou segundo os seus pecados.

Uma confissão assim encontramos feita por Daniel pouco antes de raiar o dia do livramento deles (Daniel 9), e semelhante em Esdras 9 e Neemias 9.

  1. O remorso e a tristeza segundo Deus pelo pecado: Se o seu coração incircunciso se humilhar. Um coração impenitente, incrédulo e não humilhado é chamado coração incircunciso, o coração de um gentio que é estranho a Deus, e não o coração de um israelita em aliança com ele.

A verdadeira circuncisão é a do coração (Romanos 2:29), sem a qual a circuncisão da carne de nada vale, Jeremias 9:26. Ora, no arrependimento esse coração incircunciso era humilhado, isto é, ficava na verdade quebrantado e contrito pelo pecado.

Repare: um coração humilde debaixo de providências que humilham prepara para o livramento e para o verdadeiro consolo.

  1. A submissão à justiça de Deus em todos os seus tratos: se então “aceitarem o castigo da sua iniquidade” (v. 41, e de novo v. 43), ou seja, se justificarem a Deus e se condenarem, suportarem pacientemente o castigo como bem merecido e cuidarem de cumprir os fins dele como bem designados por Deus, se o aceitarem como bondade, o tomarem como remédio e o aproveitarem, então são penitentes de fato.

II. Como é descrita a misericórdia que obteriam mediante o seu arrependimento:

  1. Não seriam abandonados: “Embora tenham desprezado os meus juízos, contudo, apesar de tudo isso, não os rejeitarei”, v. 43, 44. Ele fala como um Pai terno que não consegue achar no coração deserdar um filho que muito o provocou. “Como o farei?”, Oseias 11:8, 9.

Enquanto não lançou os fundamentos de uma igreja para si no mundo gentio, a igreja judaica não foi de todo abandonada nem rejeitada.

  1. Seriam lembrados: “Eu me lembrarei da terra” com favor, o que se funda na promessa anterior, “Eu me lembrarei da minha aliança” (v. 42), que se repete no v. 45.

Diz-se que Deus se lembra da aliança quando cumpre as promessas dela, puramente por amor da sua fidelidade; não porque haja em nós alguma coisa que nos recomende ao seu favor, mas porque ele será fiel à sua palavra. Este é o apelo da igreja: Salmos 74:20, “Atenta para a aliança”.

Ele se lembrará da constituição da aliança, que é tal que deixa lugar para o arrependimento e promete perdão mediante o arrependimento; e do Mediador da aliança, que foi prometido a Abraão, Isaque e Jacó, e foi enviado, quando veio a plenitude do tempo, em memória daquela santa aliança.

A palavra aliança é repetida três vezes, para dar a entender que Deus sempre se lembra dela e quer que nós também nos lembremos.

As pessoas com quem a aliança foi feita também são mencionadas de maneira incomum, per modum ascensus — em linha ascendente —, começando por Jacó, para conduzi-los gradualmente à promessa mais antiga, que foi feita ao pai dos fiéis.

Assim (Miquéias 7:20) se diz que ele cumpre “a verdade a Jacó, e a misericórdia a Abraão”. Ele “por amor deles” (v. 45), não por mérito deles, mas para benefício deles, se lembrará “da aliança dos seus antepassados”, e por esse título lhes mostrará bondade, embora sejam indigníssimos.

Por isso se diz deles que, “quanto à eleição, são amados por causa dos pais”, Romanos 11:28.

Repare: quando os que andaram contrariamente a Deus no caminho do pecado voltam para ele por sincero arrependimento, embora ele tenha andado contrariamente a eles no caminho do juízo, ele voltará para eles no caminho da misericórdia especial, conforme a aliança da redenção e da graça.

Ninguém está tão pronto a arrepender-se quanto Deus está a perdoar mediante o arrependimento, por meio de Cristo, que é dado por aliança.

Por fim, diz-se que estas são as “leis que o Senhor estabeleceu entre si e os filhos de Israel”, v. 46. A sua comunhão com a sua igreja é mantida pela sua lei.

Ele manifesta não só o seu domínio sobre eles, mas o seu favor para com eles, dando-lhes a sua lei; e eles manifestam não só o seu santo temor, mas o seu santo amor, pela observância dela. E assim ela é estabelecida entre eles, antes como aliança do que como lei; pois ele atrai com cordas de um homem.


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