Matthew Henry

Levítico 27

Argumento

O último versículo do capítulo anterior parecia fechar o livro dos estatutos; contudo, este capítulo é acrescentado como apêndice. Tendo dado leis a respeito dos serviços instituídos, aqui ele dá instruções a respeito dos votos e dos serviços voluntários, as ofertas voluntárias da sua boca.

Talvez algumas pessoas devotas e sérias dentre eles pudessem ficar tão comovidas com o que Moisés lhes tinha exposto no capítulo anterior que, num arroubo de zelo, consagrassem a ele a si mesmas, ou os seus filhos, ou os seus bens.

Isto, por ser feito com intenção honesta, Deus aceitaria; mas, porque os homens são propensos a arrepender-se de tais votos, ele deixa lugar para o resgate do que tinha sido assim consagrado, a uma taxa determinada. Aqui está:

I. A lei a respeito do que era santificado a Deus: pessoas (vv. 2-8), gado, limpo ou imundo (vv. 9-13), casas e terras (vv. 15-25), com uma exceção dos primogênitos dos animais, v. 26, 27.

II. A respeito do que era devotado, v. 28, 29.

III. A respeito dos dízimos, v. 30, etc.

Versículos 1 a 13

A Lei a Respeito dos Votos. (a.C. 1490.)

Esta é parte da lei a respeito dos votos singulares, os extraordinários, com os quais Deus, embora não insistisse expressamente neles, contudo, se fossem compatíveis com os preceitos gerais e conformes a eles, ficaria muito satisfeito.

Repare: não devemos perguntar apenas “Que devemos fazer?”, mas “Que podemos fazer para a glória e a honra de Deus?”

Assim como “o liberal projeta coisas liberais” (Isaías 32:8), assim o piedoso projeta coisas piedosas, e o coração dilatado de bom grado faria algo extraordinário no serviço de um Mestre tão bom como é Deus. Quando recebemos ou esperamos alguma misericórdia singular, é bom honrar a Deus com algum voto singular.

I. Propõe-se aqui o caso de pessoas votadas a Deus por um voto singular, v. 2. Se um homem consagrava a si mesmo, ou um filho, ao serviço do tabernáculo, para ser empregado ali em algum ofício inferior, como varrer o chão, levar para fora as cinzas, fazer recados ou coisa semelhante, a pessoa assim consagrada “será para o Senhor”, isto é, “Deus aceitará graciosamente a boa vontade.”

“Bem fizeste, porque isso estava no teu coração”, 2 Crônicas 6:8.

Mas, visto que ele não tinha ocasião de usar o serviço deles no tabernáculo, estando uma tribo inteira destinada ao uso dele, os que eram assim votados deviam ser resgatados, e o dinheiro pago pelo resgate deles era empregado na reparação do santuário, ou em outros usos dele, como se vê por 2 Reis 12:4, onde é chamado, na margem, “o dinheiro das almas da sua avaliação”.

É providenciada, em conformidade, uma tabela de taxas, pela qual os sacerdotes deviam guiar-se nas suas avaliações. Aqui está:

  1. A taxa dos de meia-idade, entre vinte e sessenta anos: estes eram avaliados mais alto, por serem os mais úteis; o homem, cinquenta siclos, e a mulher, trinta, v. 3, 4. As mulheres eram então menos estimadas, mas não é assim em Cristo; porque “em Cristo Jesus não há homem nem mulher”, Gálatas 3:28.

Repare: aqueles que estão no auge da vida devem considerar-se obrigados a fazer mais no serviço de Deus e da sua geração do que se pode esperar, ou dos menores, que ainda não chegaram à idade de ser úteis, ou dos idosos, que já a ultrapassaram.

  1. A taxa dos jovens entre cinco e vinte anos era menor, porque então eram menos capazes de prestar serviço, v. 5.

  2. Os infantes com menos de cinco anos podiam ser votados a Deus pelos pais, até mesmo antes de nascerem, como Samuel o foi, mas não deviam ser apresentados e resgatados senão com um mês de idade, para que, assim como um sábado passava sobre eles antes de serem circuncidados, assim uma lua nova passasse sobre eles antes de serem avaliados; e a avaliação deles era só pequena, v. 6.

Samuel, que foi assim votado a Deus, não foi resgatado, porque era levita e favorito especial, e por isso foi empregado na infância no serviço do tabernáculo.

  1. Os idosos são avaliados menos que os jovens, mas mais que as crianças, v. 7. E os hebreus observam que a taxa de uma mulher idosa é de dois terços da de um homem idoso, de modo que, nessa idade, a mulher chegava mais perto do valor do homem.

Isso ocasionou (como o bispo Patrick o cita aqui) este dito entre eles: uma mulher idosa numa casa é um tesouro nessa casa. Paulo dá grande valor às mulheres idosas, quando faz delas “mestras de coisas boas”, Tito 2:3.

  1. Os pobres serão avaliados conforme a sua possibilidade, v. 8. Alguma coisa eles tinham de pagar, para que aprendessem a não ser precipitados em fazer votos a Deus, porque “ele não se agrada de tolos”, Eclesiastes 5:4.

Contudo, não mais do que a sua possibilidade, mas secundum tenementum — segundo as suas posses, para que não arruinassem a si mesmos e às suas famílias pelo seu zelo. Repare: Deus espera e exige dos homens segundo o que eles têm, e não segundo o que eles não têm, Lucas 21:4.

II. Propõe-se o caso de animais votados a Deus:

  1. Se era um animal limpo, como os que se ofereciam em sacrifício, não devia ser resgatado, nem se devia dar por ele nenhum equivalente: “será santo”, v. 9, 10.

Depois de votado, não devia ser posto a nenhum uso comum, nem trocado depois de repensar; mas tinha de ser ou oferecido sobre o altar, ou, se por algum defeito não fosse próprio para ser oferecido, aquele que o votara não devia tirar vantagem disso, mas os sacerdotes o teriam para seu próprio uso (pois eram os recebedores de Deus), ou seria vendido para o serviço do santuário.

Isto ensina cautela em fazer votos e constância em cumpri-los depois de feitos; porque “é um laço para o homem devorar o que é santo, e, depois dos votos, fazer inquirição”, Provérbios 20:25. E a isto parece aludir aquela regra da caridade (2 Coríntios 9:7): “Cada um, conforme propõe no seu coração, assim dê.”

  1. Se era um animal imundo, iria para o uso do sacerdote pelo valor fixado; mas aquele que o votara, pagando esse valor em dinheiro e acrescentando-lhe mais uma quinta parte, podia resgatá-lo, se quisesse, vv. 11-13.

Era justo que os homens sofressem pela sua inconstância. Deus nos deu a conhecer a sua mente a respeito do seu serviço, e não se agrada se nós não conhecemos a nossa. Deus espera que aqueles que tratam com ele estejam decididos, e pesem aquilo a que vão ater-se.

Versículos 14 a 25

A Respeito das Coisas Santificadas. (a.C. 1490.)

Aqui está a lei a respeito dos bens de raiz dedicados ao serviço de Deus por um voto singular.

I. Suponha que um homem, no seu zelo pela honra de Deus, santificasse a sua casa a Deus (v. 14): a casa tinha de ser avaliada pelo sacerdote, e o dinheiro obtido com a venda dela devia ser convertido ao uso do santuário, que aos poucos veio a ser grandemente enriquecido com coisas dedicadas, 1 Reis 15:15.

Mas, se o dono estiver inclinado a resgatá-la ele mesmo, não deve tê-la tão barata quanto outro, mas tem de acrescentar uma quinta parte ao preço, pois devia ter pensado antes de votá-la, v. 15.

Ao necessitado Deus abateria a avaliação (v. 8); mas, para aquele que era volúvel e caprichoso, e cujos segundos pensamentos pendiam mais para o mundo e para o seu interesse secular do que os primeiros, Deus subiria o preço.

Bendito seja Deus, há um modo de santificar as nossas casas para serem santas ao Senhor, sem vendê-las nem comprá-las. Se nós e as nossas casas servirmos ao Senhor, se a religião governar nelas, e afastarmos delas para longe a iniquidade, e tivermos uma igreja em nossa casa, “santidade ao Senhor” está escrito sobre ela, ela é dele, e ele habitará conosco nela.

II. Suponha que um homem santificasse alguma parte da sua terra ao Senhor, dando-a para usos piedosos: então era preciso fazer diferença entre a terra que viera ao doador por sucessão e a que viera por compra, e o caso mudava em conformidade.

  1. Se era a herança dos seus pais, aqui chamada “o campo da sua possessão”, que pertencia à sua família desde a primeira divisão de Canaã, ele não podia dá-la toda, não, nem mesmo ao santuário; Deus não quis admitir um grau tal de zelo que arruinasse a família de um homem.

Mas ele podia santificar, ou dedicar, apenas alguma parte dela, v. 16. E, nesse caso:

(1.) A terra devia ser avaliada por tantas medidas de semeadura de cevada, como se costumava medir a terra na Inglaterra do tempo do autor.

Tanta terra quanto levasse um hômer, ou chomer, de cevada, que continha dez efas, Ezequiel 45:11 (não, como alguns aqui o tomaram erradamente, um ômer, que era só a décima parte de um efa, Êxodo 16:36), era avaliada em cinquenta siclos, preço moderado (v. 16), e isso se fosse santificada logo a partir do ano do jubileu, v. 17.

Mas, se alguns anos depois, devia haver um desconto em conformidade, até mesmo desse preço, v. 18.

(2.) E, quando o valor era fixado, o doador podia, se quisesse, resgatá-la por sessenta siclos a semeadura de um hômer, o que era com o acréscimo de uma quinta parte: o dinheiro então ia para o santuário, e a terra revertia àquele que a santificara, v. 19.

Mas, se ele não quisesse resgatá-la, e o sacerdote a vendesse a outro, então no ano do jubileu, além do qual a venda não podia ir, a terra passava aos sacerdotes e era deles para sempre, v. 20, 21.

Repare: o que é dado ao Senhor não deve ser dado com poder de revogação; o que é devotado ao Senhor tem de ser dele para sempre, por uma aliança perpétua.

  1. Se a terra era compra sua, e não lhe viera dos seus antepassados, então não a terra em si, mas o valor dela devia ser dado aos sacerdotes para usos piedosos, v. 22, 24.

Supunha-se que aqueles que, pela bênção de Deus, tinham ficado tão ricos a ponto de se tornarem compradores se considerariam obrigados, por gratidão, a santificar alguma parte da sua compra, ao menos (e aqui eles não são limitados, mas podiam, se quisessem, santificar o todo), ao serviço de Deus.

Porque devemos dar conforme Deus nos faz prosperar, 1 Coríntios 16:2. Os compradores estão de modo especial obrigados a ser caridosos.

Ora, visto que as terras compradas deviam, por uma lei anterior, voltar no ano do jubileu à família de quem tinham sido compradas, Deus não quis que essa lei e as suas intenções fossem frustradas fazendo das terras corbã, dádiva, Marcos 7:11.

Mas devia-se computar quanto a terra valia por tantos anos quantos havia desde o voto até o jubileu; pois só por esse tempo ela era dele, e Deus odeia o roubo para holocausto. Não podemos jamais servir a Deus de modo aceitável com aquilo de que defraudamos o nosso próximo.

E tanto dinheiro ele devia dar por ora, e conservar a terra nas suas mãos até o ano do jubileu, quando ela devia voltar livre de todos os encargos, até mesmo do de ter sido dedicada, àquele de quem fora comprada.

O valor do siclo, pelo qual todas estas avaliações deviam ser feitas, é aqui determinado (v. 25): “será de vinte geras”, e cada gera era de dezesseis grãos de cevada.

Isto já tinha sido fixado antes (Êxodo 30:13); e, visto que tinha havido algumas alterações, é fixado de novo nas leis do templo visionário de Ezequiel (Ezequiel 45:12), para indicar que o evangelho reduziria as coisas ao seu padrão antigo.

Versículos 26 a 34

Aqui está:

I. Uma advertência de que nenhum homem fizesse do santificar coisas ao Senhor uma brincadeira tal que lhe santificasse algum primogênito de animal, pois este já era dele pela lei, v. 26.

Embora um voto geral possa abranger aquilo a que já estávamos obrigados, como na nossa aliança sacramental, um voto singular deve abranger algo a que antes não estávamos obrigados naquelas circunstâncias e naquela medida. A lei a respeito dos primogênitos dos animais imundos (v. 27) é a mesma que a anterior, v. 11, 12.

II. Coisas ou pessoas devotadas são aqui distinguidas de coisas ou pessoas que eram apenas santificadas.

  1. As coisas devotadas eram santíssimas ao Senhor, e não podiam nem reverter nem ser alienadas, v. 28. Eram da mesma natureza daqueles sacrifícios que eram chamados santíssimos, nos quais ninguém podia tocar senão apenas os próprios sacerdotes.

A diferença entre estas e outras coisas santificadas nascia da diferente expressão do voto. Se um homem dedicava alguma coisa a Deus, obrigando-se com uma maldição solene a nunca aliená-la para nenhum outro fim, então era uma coisa devotada.

  1. As pessoas devotadas deviam ser mortas, v. 29. Não que estivesse no poder de algum pai ou senhor devotar assim à morte um filho ou um servo; mas isto deve entender-se dos inimigos públicos de Israel, que, ou por designação de Deus, ou pela sentença da congregação, eram devotados, como as sete nações com as quais eles não deviam fazer pacto nenhum.

A cidade de Jericó, em particular, foi assim devotada, Josué 6:17. Os habitantes de Jabes-Gileade foram mortos por violarem a maldição pronunciada contra os que não subissem a Mispa, Juízes 21:9, 10.

Alguns pensam que foi por falta de estar bem informado da verdadeira intenção e do verdadeiro sentido desta lei que Jefté sacrificou a sua filha como devotada, que não podia ser resgatada.

III. Uma lei a respeito dos dízimos, que eram pagos para o serviço de Deus antes da lei, como se vê pelo pagamento deles feito por Abraão (Gênesis 14:20) e pela promessa deles feita por Jacó, Gênesis 28:22. É aqui determinado:

  1. Que pagassem o dízimo de todo o seu produto: o seu cereal, as árvores e o gado, v. 30, 32. De todos os produtos de que tinham o benefício, Deus devia ser honrado com o dízimo, se fossem dizimáveis.

Assim reconheciam Deus como o dono da sua terra, o doador dos seus frutos, e a si mesmos como arrendatários dele e dependentes dele. Assim lhe davam graças pela fartura de que desfrutavam, e suplicavam o seu favor na continuação dela.

E somos ensinados, em geral, a honrar o Senhor com os nossos bens (Provérbios 3:9), e, em particular, a sustentar e manter os seus ministros, e a estar prontos a repartir com eles, Gálatas 6:6; 1 Coríntios 9:11.

E como isso pode ser feito numa proporção mais adequada e mais equitativa do que a da décima parte, que o próprio Deus designou antigamente, eu não consigo ver.

  1. Que aquilo que uma vez fosse marcado para o dízimo não seria trocado, não, nem mesmo por um melhor (v. 33), pois a Providência dirigia a vara que o marcava. Deus o aceitaria ainda que não fosse o melhor, e eles não deviam dá-lo de má vontade ainda que o fosse, pois era o que passava debaixo da vara.

  2. Que não seria resgatado, a menos que o dono quisesse dar mais uma quinta parte como preço do seu resgate, v. 31. Se os homens faziam questão de ficar com o que fora marcado para o dízimo, preferindo-o ao restante do seu produto, era justo que pagassem por essa escolha.

IV. O último versículo parece ter referência a todo este livro, do qual é a conclusão: “Estes são os mandamentos que o Senhor ordenou a Moisés, para os filhos de Israel.”

Muitos destes mandamentos são morais e de obrigação perpétua; outros deles, que eram cerimoniais e peculiares à economia judaica, têm, não obstante, um significado espiritual, e são instrutivos para nós, que estamos munidos de uma chave para nos introduzir nos mistérios neles contidos.

Porque a nós, por aquelas instituições, é pregado o evangelho, assim como a eles, Hebreus 4:2. Considerando toda a matéria, podemos ver motivo para bendizer a Deus por não termos chegado ao monte Sinai (Hebreus 12:18):

  1. Que não estamos debaixo das sombras escuras da lei, mas desfrutamos a luz clara do evangelho, que nos mostra Cristo, “o fim da lei para justiça”, Romanos 10:4. A doutrina da nossa reconciliação com Deus por um Mediador não está nublada com a fumaça de sacrifícios queimando, mas aclarada pelo conhecimento de Cristo, e este crucificado.

  2. Que não estamos debaixo do jugo pesado da lei e das suas “ordenanças carnais” (como o apóstolo as chama, Hebreus 9:10), “impostas até o tempo da reforma”, jugo que nem eles nem os seus pais puderam suportar (Atos 15:10).

Mas estamos debaixo das instituições doces e suaves do evangelho, que declara verdadeiros adoradores aqueles que adoram o Pai em espírito e em verdade, só por Cristo e em seu nome, que é o nosso sacerdote, templo, altar, sacrifício, purificação e tudo.

Não pensemos, portanto, que, porque não estamos presos às purificações, festas e oblações cerimoniais, um pouco de cuidado, tempo e despesa bastará para honrar a Deus. Não, mas, antes, tenhamos o coração mais dilatado com ofertas voluntárias para o seu louvor, mais inflamado de santo amor e alegria, e mais empenhado na seriedade do pensamento e na sinceridade da intenção.

Tendo ousadia para entrar no santíssimo pelo sangue de Jesus, cheguemo-nos com verdadeiro coração e inteira certeza de fé, adorando a Deus com tanto mais alegria e humilde confiança, dizendo continuamente: Bendito seja Deus por Jesus Cristo!


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra