Matthew Henry

Levítico 25

Argumento

A lei deste capítulo diz respeito às terras e propriedades dos israelitas em Canaã, cuja ocupação e transferência deviam estar sob a direção divina, do mesmo modo que a administração do culto religioso; pois, assim como o tabernáculo era casa santa, assim Canaã era terra santa, e por essa razão, tanto quanto por qualquer outra coisa, era a glória de todas as terras.

Em sinal de um título particular que Deus tinha sobre esta terra, e de um direito de dispor dela, ele determinou:

I. Que cada sétimo ano fosse um ano de descanso do cultivo da terra, um ano sabático, vv. 1-7. Nisto Deus esperava deles exemplos extraordinários de fé e obediência, e eles podiam esperar de Deus exemplos extraordinários de poder e bondade ao prover para eles, vv. 18-22.

II. Que cada quinquagésimo ano fosse um ano de jubileu, isto é:

  1. Um ano de liberação de dívidas e hipotecas, e de retorno à posse das suas terras alienadas, vv. 8-17. São dadas instruções particulares:

(1.) Acerca da venda e da redenção das terras, vv. 23-28.

(2.) Das casas em cidades e aldeias, com uma ressalva para as cidades levíticas, vv. 29-34.

  1. Um ano de liberação de servos e escravos:

(1.) Aqui se insere uma lei para o tratamento bondoso dos devedores pobres, vv. 35-38.

(2.) Depois vem a lei para a soltura, no ano do jubileu, de todos os israelitas que tivessem sido vendidos como servos, se não tivessem sido remidos antes:

[1.] Se tivessem sido vendidos a israelitas, vv. 39-46.

[2.] E se vendidos a prosélitos, vv. 47-55.

Todas essas determinações têm em si algo de moral e de obrigação perpétua, embora, na letra delas, fossem peculiares não só aos judeus, mas a eles só enquanto estavam em Canaã.

Versículos 1 a 7

O Ano Sabático. (a.C. 1490.)

A lei de Moisés dava grande peso ao sábado, cuja santificação era a primeira e a mais antiga de todas as instituições divinas, destinada a manter entre os homens o conhecimento e o culto do Criador.

Essa lei não só reavivou a observância do sábado semanal, mas, para ampliar ainda mais a honra dos sábados, acrescentou a instituição de um ano sabático: “No sétimo ano haverá sábado de descanso para a terra”, v. 4.

E daí os judeus tiram aquela tradição corrente de que, depois que o mundo tiver durado seis mil anos (sendo mil anos para Deus como um dia), ele cessará, e o sábado eterno o sucederá — fundamento fraco sobre o qual fixar aquele dia e aquela hora que só Deus tem a prerrogativa de conhecer.

Este ano sabático começava em setembro, no fim da colheita, o sétimo mês do seu ano eclesiástico; e a lei era:

  1. Que no tempo da semeadura, que vinha diretamente depois do fim da recolha, não semeassem cereal na sua terra, e que na primavera não tratassem as suas vinhas, e que, por conseguinte, não esperassem nem colheita nem vindima no ano seguinte.

  2. Que daquilo que a terra produzisse por si mesma não reclamassem propriedade nem uso algum, salvo o necessário para o consumo imediato, mas o deixassem para os pobres, os servos, os estrangeiros e o gado, vv. 5-7.

Tinha de ser um sábado de descanso para a terra: não deviam nem fazer trabalho algum nela, nem esperar dela fruto algum; todos os labores anuais deviam ser interrompidos no sétimo ano, tanto quanto os labores diários no sétimo dia.

Os judeus dizem que “não começaram a contar para o ano sabático senão depois de terem concluído a conquista de Canaã, o que se deu no oitavo ano de Josué; o sétimo ano depois disso foi o primeiro ano sabático, e assim o quinquagésimo ano foi o jubileu”.

Neste ano devia haver uma liberação geral das dívidas (Deuteronômio 15:1, 2) e uma leitura pública da lei na festa (Deuteronômio 31:10, 11), para torná-lo mais solene. Ora:

(1.) Com isso Deus quis mostrar-lhes que ele era o proprietário das suas terras e que a permanência deles como arrendatários dependia da vontade dele. Os proprietários costumam estipular com os seus arrendatários quando devem preparar o solo, por quanto tempo o cultivarão e quando o deixarão descansar.

Deus quis assim dar, conceder e transmitir-lhes aquela boa terra sob ressalvas e limitações tais que os fizessem saber que não eram proprietários, mas dependentes do seu Senhor.

(2.) Era uma bondade para com a terra deixá-la descansar de vez em quando, e isso a conservaria em vigor (como dizem os nossos lavradores) para a posteridade, cuja satisfação Deus queria que eles levassem em conta, sem usar o solo como se ele fosse destinado só a uma época.

(3.) Quando fossem assim, por um ano inteiro, afastados de todos os afazeres do campo, teriam mais tempo livre para se aplicar aos exercícios da religião e para adquirir o conhecimento de Deus e da sua lei.

(4.) Eram com isso ensinados a ser caridosos e generosos, e a não açambarcar tudo para si, mas a consentir que outros partilhassem com eles os dons da liberalidade de Deus, que a terra produzia por si mesma.

(5.) Eram levados a viver em dependência constante da providência divina, descobrindo que, assim como o homem não vive só de pão, ele também tem pão não apenas pela própria diligência, mas, se Deus quiser, pela palavra de bênção da boca de Deus, sem cuidado nem esforço humano, Mateus 4:4.

(6.) Eram lembrados da vida fácil que o homem viveu no paraíso, quando comia de toda coisa boa, e não, como desde então, no suor do seu rosto. O labor e a fadiga entraram com o pecado.

(7.) Eram ensinados a considerar como viviam os pobres, que nem semeavam nem ceifavam: até mesmo pela bênção de Deus sobre o pouco.

(8.) Este ano de descanso tipificava o descanso espiritual em que todos os crentes entram por meio de Cristo, o nosso verdadeiro Noé, que nos dá consolo e descanso “acerca da nossa obra e da fadiga das nossas mãos, por causa da terra que o Senhor amaldiçoou”, Gênesis 5:29.

Por ele somos aliviados do fardo do cuidado e do labor mundanos, sendo ambos santificados e adoçados para nós, e somos capacitados e animados a viver pela fé.

E, assim como os frutos deste sábado da terra eram desfrutados em comum, assim a salvação operada por Cristo é uma salvação comum; e este ano sabático parece ter sido reavivado na igreja cristã, quando os crentes “tinham tudo em comum”, Atos 2:44.

Versículos 8 a 22

Instituição do Jubileu; o Ano do Jubileu. (a.C. 1490.)

Aqui está:

I. A instituição geral do jubileu, v. 8, etc.:

  1. Quando devia ser observado: depois de sete sábados de anos (v. 8); se era o quadragésimo nono ou o quinquagésimo é grande questão entre os eruditos.

Que fosse o sétimo ano sabático, isto é, o quadragésimo nono (que, por uma forma de falar muito comum, é chamado quinquagésimo), parece-me o mais provável, e foi, penso eu, bastante esclarecido, e as objeções removidas, por aquele douto cronologista Calvisius; mas este não é lugar para discutir a questão.

Sete sábados de semanas eram contados da Páscoa até a festa de Pentecostes (ou quinquagésimo dia, pois é isso que Pentecostes significa), e assim sete sábados de anos de um jubileu a outro, e o sétimo é chamado o quinquagésimo; e toda essa honra é conferida aos sétimos por causa do descanso de Deus, no sétimo dia, da obra da criação.

  1. Como devia ser proclamado: com som de trombeta em todas as partes do país (v. 9), tanto para dar ciência dele a todos quanto para exprimir a alegria e o triunfo deles nele; e supõe-se que a palavra jobel, ou jubileu, signifique algum som particular da trombeta, distinguível de qualquer outro; pois a trombeta que dá “som incerto” é de pouco serviço, 1 Coríntios 14:8.

A trombeta soava no fim do dia da expiação; dali começava o jubileu, e muito apropriadamente: quando tinham estado a humilhar e a afligir a alma pelo pecado, então eram levados a ouvir esta voz de “júbilo e alegria”, Salmos 51:8.

Quando a paz deles estava feita com Deus, então a liberdade era proclamada; pois a remoção da culpa é necessária para abrir caminho à entrada de todo verdadeiro consolo, Romanos 5:1, 2.

Em alusão a esta proclamação solene do jubileu, foi predito acerca do nosso Senhor Jesus que ele pregaria “o ano aceitável do Senhor”, Isaías 61:2. Ele enviou os seus apóstolos a proclamá-lo com a trombeta do evangelho eterno, que eles deviam pregar a toda criatura.

E continua predito que, no último dia, a trombeta soará, a qual liberará os mortos da servidão da sepultura e nos restaurará às nossas possessões.

  1. O que devia ser feito de extraordinário nesse ano:

Além do descanso comum da terra, observado em todo ano sabático (v. 11, 12), e da liberação das dívidas pessoais (Deuteronômio 15:2, 3), devia haver a restauração legal de todo israelita a toda a propriedade e a toda a liberdade alienadas dele desde o último jubileu; de modo que nunca povo algum teve tão asseguradas a liberdade e a propriedade (essas glórias de um povo) como Israel.

Tomou-se cuidado eficaz para que, enquanto se mantivessem junto de Deus, estas não só não lhes fossem tiradas pela violência de outros, mas tampouco fossem jogadas fora pela sua própria insensatez.

(1.) A propriedade que cada homem tinha na sua porção da terra de Canaã não podia ser alienada por mais tempo que até o ano do jubileu, e então ele ou os seus deviam voltar a ela, e ter sobre ela um título tão incontestado, e a posse dela tão imperturbada, como sempre (v. 10, 13): “Tornareis cada um à sua possessão”.

Assim, se um homem tivesse vendido ou hipotecado a sua propriedade, ou alguma parte dela, ela então voltaria para ele ou para os seus herdeiros, livre de todo encargo e gravame.

Ora, isto não era injustiça para com o comprador, porque o ano do jubileu era fixo, e todo homem sabia quando viria, e fazia o seu trato de acordo com isso.

Pela nossa lei, de fato, se terras são concedidas a um homem e aos seus herdeiros sob a condição de que ele nunca as venda nem as aliene, a concessão é válida, mas a condição é nula e incompatível: Iniquum est ingenuis hominibus (dizem os juristas) non esse liberam rerum suarum alienationem — é injusto impedir os homens livres de alienar os seus próprios bens.

Contudo, está assentado nos livros que, se o rei concede terras a um homem em feudo sob a condição de que ele não as aliene, a condição é válida.

Ora, Deus queria mostrar ao seu povo Israel que a terra deles era dele, e que eles eram seus arrendatários; por isso lhes impôs a restrição de não vender, mas apenas arrendar por um prazo que não ultrapassasse o jubileu seguinte. Por este meio se providenciou:

[1.] Que as suas genealogias fossem cuidadosamente preservadas, o que seria de utilidade para esclarecer a linhagem do nosso Salvador.

[2.] Que a distinção das tribos fosse mantida; pois, embora um homem pudesse comprar terras em outra tribo, não podia, contudo, retê-las por mais tempo que até o ano do jubileu, e então elas reverteriam naturalmente.

[3.] Que ninguém se tornasse exorbitantemente rico, ajuntando “casa a casa” e “campo a campo” (Isaías 5:8), mas se aplicassem antes a cultivar o que tinham do que a ampliar as suas possessões. A sabedoria da república romana às vezes providenciou que nenhum homem fosse senhor de mais de 500 acres.

[4.] Que nenhuma família fosse afundada e arruinada, e condenada à pobreza perpétua.

Este cuidado particular Deus tomou para sustentar a honra daquele povo, e para preservar, não só aquela boa terra para a nação em geral, mas a porção de cada homem para a sua família em particular, por herança perpétua, para que ela tipificasse melhor aquela boa parte que nunca será tirada dos que a têm.

(2.) A liberdade em que cada homem nascia, se fosse vendida ou perdida, devia igualmente voltar no ano do jubileu: “Tornareis cada um à sua família”, v. 10. Os que eram vendidos a outras famílias tornavam-se por isso estranhos à sua própria; mas neste ano de redenção deviam voltar.

Isto era típico da nossa redenção por Cristo da escravidão do pecado e de Satanás, e da nossa restauração à gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

Alguns calculam que o próprio ano em que Cristo morreu foi um ano de jubileu, e o último que jamais se guardou. Mas, seja como for, estamos certos de que é o Filho que nos liberta, e então somos verdadeiramente livres.

II. Uma lei, nesta ocasião, contra a opressão na compra e venda de terras: nem o comprador nem o vendedor deviam lesar o outro, vv. 14-17. Em suma, o comprador não devia dar menos, nem o vendedor tomar mais, do que o justo valor da coisa, considerada como devendo necessariamente voltar no ano do jubileu.

Era preciso assentar qual era o valor anual líquido da terra, e então quantos anos de renda ela valia até o ano do jubileu. Mas deviam contar só os anos dos frutos (v. 15), e por isso tinham de descontar os anos sabáticos.

É fácil observar que, quanto mais perto estava o jubileu, menor devia ser o valor da terra: “Conforme a escassez dos anos diminuirás o preço”.

Mas não achamos tão fácil, na prática, inferir daí que, quanto mais o mundo se aproxima do seu fim, menor valor devemos dar às coisas dele: porque o tempo é curto, e a aparência do mundo passa, os que compram sejam como se não possuíssem. Pouco valor se daria a uma casa velha, prestes a desabar.

Todos os tratos deviam ser feitos por esta regra: “Não oprimireis um ao outro”, nem tirareis proveito da ignorância ou da necessidade um do outro, “mas temerás o teu Deus”.

Repare: o temor de Deus reinando no coração nos refrearia eficazmente de cometer qualquer injustiça contra o nosso próximo, em palavra ou em ação; pois, embora o homem não o seja, Deus é o vingador dos que ultrapassam ou defraudam os seus irmãos, 1 Tessalonicenses 4:6.

Talvez Neemias se refira a esta mesma lei (Neemias 5:15), onde nos conta que não oprimia os que tinha sob o seu poder, por causa do temor de Deus.

III. Garantia dada a eles de que não seriam perdedores, mas grandes ganhadores, por observar estes anos de descanso. Promete-se:

  1. Que estariam seguros: “Habitareis seguros na terra”, v. 18, e de novo, v. 19. A palavra significa tanto a segurança exterior quanto a tranquilidade e a confiança interior do espírito: que estariam sossegados tanto do mal quanto do temor do mal.

  2. Que seriam ricos: “Comereis até vos fartardes”. Repare: se tivermos o cuidado de cumprir o nosso dever, podemos confiar alegremente a Deus o nosso consolo.

  3. Que não lhes faltaria o alimento conveniente naquele ano em que nem semeavam nem ceifavam: “Eu mandarei a minha bênção no sexto ano, e ela dará fruto para três anos”, v. 21. Isto era:

(1.) Um milagre permanente: que, enquanto em outros tempos um ano servia só para chegar ao outro, os produtos do sexto ano deviam servir para chegar ao nono. Repare: a bênção de Deus sobre a nossa provisão fará um pouco render muito, e “fartará de pão” até os pobres, Salmos 132:15.

(2.) Um memorial duradouro do maná, que era dado em dobro no sexto dia, para dois dias.

(3.) Era destinado a servir de encorajamento a todo o povo de Deus, em todas as épocas, para que confiem nele no caminho do dever e lancem sobre ele o seu cuidado. Nada se perde pela fé e pela abnegação na nossa obediência.

Versículos 23 a 38

Aqui está:

I. Uma lei acerca dos bens de raiz dos israelitas na terra de Canaã, e da transferência deles:

  1. Nenhuma terra devia ser vendida para sempre, fora da família a cuja sorte tinha caído na divisão da terra. E a razão dada é: “A terra é minha, e vós sois estrangeiros e peregrinos comigo”, v. 23.

(1.) Tendo Deus uma propriedade particular nesta terra, ele queria, por esta restrição, mantê-los cônscios disso. As possessões das pessoas boas, que, tendo-se entregado a Deus, lhe entregaram com isso tudo o que têm, estão de modo particular à disposição dele, e elas devem aceitar o que ele determinar a respeito dessas possessões.

(2.) Sendo eles estrangeiros e peregrinos com ele naquela terra, e tendo o tabernáculo dele no meio deles, alienar a sua parte daquela terra seria, na prática, cortar-se da sua sociedade e comunhão com Deus, de que ela era sinal e símbolo; por essa razão Nabote preferiu incorrer na ira de um rei a desfazer-se da herança dos seus pais, 1 Reis 21:3.

  1. Se um homem fosse constrangido pela pobreza a vender a sua terra para o sustento da sua família, contudo, se depois tivesse condições, podia remi-la antes do ano do jubileu (v. 24, 26, 27), e o preço devia ser fixado segundo o número de anos desde a venda e antes do jubileu.

  2. Se a própria pessoa não tivesse condições de remi-la, o seu parente mais próximo podia fazê-lo (v. 25). O versículo poderia ser lido assim: o seu redentor, aquele que lhe é chegado, virá e remirá. O parente é chamado Goel, o redentor (Números 5:8; Rute 3:9), a quem pertencia o direito de remir a terra.

E isto tipificava Cristo, que assumiu a nossa natureza para ser o nosso parente, osso dos nossos ossos e carne da nossa carne, e, sendo o único parente que temos que é capaz de fazê-lo, a ele pertencia o direito de redenção.

Quanto a todos os nossos outros parentes, o sapato deles tem de ser descalçado (Rute 4:6, 7): eles não podem remir. Mas Cristo pode remir, e remiu, a herança que nós, pelo pecado, tínhamos perdido e alienado, e fez dela nova doação a todos os que pela fé se tornam aparentados com ele. Sabemos que este Redentor vive, Jó 19:25.

E alguns entendem que este dever do parente significa o amor fraternal que deve haver entre os cristãos, inclinando-os a reerguer os que caíram e a restaurá-los com espírito de mansidão.

  1. Se a terra não fosse remida antes do ano do jubileu, então devia voltar naturalmente àquele que a tinha vendido ou hipotecado: “No jubileu sairá”, v. 28.

Isto era figura da livre graça de Deus para conosco em Cristo, pela qual, e não por algum preço ou mérito nosso, somos restaurados ao favor de Deus e passamos a ter direito ao paraíso, do qual os nossos primeiros pais, e nós neles, foram expulsos por desobediência.

  1. Fazia-se diferença entre as casas em cidades muradas e as terras no campo, ou as casas em aldeias do campo. As casas em cidades muradas eram mais fruto da própria diligência deles do que a terra no campo, que era dom direto da liberalidade de Deus.

E por isso, se um homem vendesse uma casa numa cidade, podia remi-la a qualquer tempo dentro de um ano depois da venda; do contrário, ela ficava confirmada ao comprador para sempre, e não devia voltar, não, nem mesmo no ano do jubileu, v. 29, 30.

Esta provisão foi feita para encorajar estrangeiros e prosélitos a vir estabelecer-se entre eles. Embora não pudessem comprar terra em Canaã para si e para os seus herdeiros, podiam, contudo, comprar casas em cidades muradas, que seriam as mais convenientes para os que se supunha viverem do comércio. Mas das casas do campo não se podia dispor de outro modo senão como das terras.

  1. Acrescenta-se uma cláusula em favor dos levitas, à guisa de exceção a estas regras:

(1.) As moradias nas cidades dos levitas podiam ser remidas a qualquer tempo e, se não remidas, deviam reverter no ano do jubileu (v. 32, 33), porque os levitas não tinham outras possessões senão as cidades e os seus arredores, e Deus queria mostrar que os levitas eram o seu cuidado peculiar; e era do interesse público que não fossem empobrecidos, nem desalojados ardilosamente das suas heranças.

(2.) Os campos contíguos às suas cidades (Números 35:4, 5) não podiam ser vendidos em tempo algum, pois pertenciam, não a levitas particulares, mas à cidade dos levitas, como corporação, que não podia aliená-los sem injustiça para com a sua tribo; por isso, se algum desses campos fosse vendido, o trato era nulo, v. 34.

Até os egípcios tiveram o cuidado de preservar a terra dos sacerdotes, Gênesis 47:22. E não há menos razão para que o sustento do ministério do evangelho seja tomado sob a proteção especial dos governos cristãos.

II. Uma lei para o socorro dos pobres e o tratamento terno dos devedores pobres; e estas são de obrigação mais geral e perpétua que as anteriores.

  1. Os pobres têm de ser socorridos, v. 35. Aqui está:

(1.) A pobreza e o aperto do nosso irmão supostos: “Se teu irmão empobrecer”; não só o seu irmão por nação, como judeu, mas o seu irmão por natureza, como homem, pois segue: “ainda que seja estrangeiro ou peregrino”.

Todos os homens devem ser considerados e tratados como irmãos, pois todos temos um só Pai, Malaquias 2:10. Embora seja pobre, contudo continua sendo seu irmão, e deve ser amado e reconhecido como irmão. A pobreza não destrói o parentesco.

Embora filho de Abraão, ele pode empobrecer e cair em decadência. Repare: a pobreza e a decadência são grandes agravos, e muito comuns: os pobres estão sempre conosco.

(2.) O nosso dever ordenado: “Tu o socorrerás”. Por compaixão, tendo pena dos pobres; por serviço, fazendo por eles; e por suprimento, dando-lhes segundo a necessidade deles e a sua própria capacidade.

  1. Os devedores pobres não devem ser oprimidos: se um irmão empobrecer e precisar tomar dinheiro emprestado para o sustento necessário da família, não se deve cobrar-lhe usura, seja por dinheiro, seja por víveres, v. 36, 37.

E até aqui esta lei continua a obrigar, mas nunca se poderia pensar que obrigasse onde o dinheiro é tomado emprestado para compra de terras, comércio ou outros aproveitamentos; pois ali é razoável que quem empresta partilhe o lucro com quem toma emprestado.

A lei aqui se destina claramente ao socorro dos pobres, aos quais às vezes é caridade tão grande emprestar de graça quanto dar. Observe os argumentos aqui usados contra a extorsão:

(1.) Deus é patrono dos pobres: devemos temê-lo, pois ele nos pedirá contas de todos os danos feitos aos pobres; ainda que não temamos os pobres, devemos temer a Deus.

(2.) Socorra os pobres, para que vivam com você e, de uma forma ou de outra, possam lhe ser úteis. Os ricos têm tanta dificuldade para dispensar o trabalho dos pobres quanto os pobres para dispensar os recursos dos ricos.

(3.) O mesmo argumento que serve de prefácio a todos os dez mandamentos é usado para reforçar este preceito: “Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei do Egito”, v. 38. Repare: convém aos que receberam misericórdia usar de misericórdia. Se Deus foi gracioso conosco, não devemos ser rigorosos com os nossos irmãos.

Versículos 39 a 55

Opressão dos Irmãos Proibida. (a.C. 1490.)

Temos aqui as leis acerca da servidão, destinadas a preservar a honra da nação judaica como povo livre, livrado por um poder divino da casa da servidão para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus, sendo Israel o seu primogênito. Ora, a lei é:

I. Que um israelita nativo nunca fosse feito escravo em perpetuidade. Se fosse vendido por dívida, ou por crime, pelo tribunal, devia servir só seis anos e sair no sétimo; isto foi determinado, Êxodo 21:2.

Mas, se ele se vendesse por extrema pobreza, não lhe restando absolutamente nada para preservar a vida, e se fosse a alguém da sua própria nação que se vendesse, nesse caso aqui se providencia:

  1. Que ele não servisse como escravo (v. 39), nem fosse vendido como escravo (v. 42), isto é:

Não se devia considerar que o senhor que o comprou tivesse sobre ele uma propriedade tão absoluta quanto sobre um cativo tomado na guerra, que podia ser usado, vendido e legado à vontade, como o gado de um homem.

Não: ele devia servir como assalariado; o senhor podia usar os seus serviços, mas não exercer sobre ele um poder despótico.

E a razão é: “São meus servos”, v. 42. Deus não faz escravos dos seus servos, e por isso os irmãos deles também não devem fazê-lo. Deus os tinha remido do Egito, e por isso nunca deviam ser expostos à venda como escravos.

O apóstolo aplica isto espiritualmente (1 Coríntios 7:23): “Por preço fostes comprados; não vos façais servos dos homens”, isto é, das concupiscências dos homens, nem mesmo das nossas próprias concupiscências; pois, tendo-nos tornado servos de Deus, não devemos deixar o pecado reinar no nosso corpo mortal, Romanos 6:12, 22.

  1. Que, enquanto servisse, não fosse governado com rigor, como os israelitas o foram no Egito, v. 43. Tanto o seu trabalho quanto o tratamento dado a ele deviam ser tais como convinham a um filho de Abraão.

Os senhores continuam obrigados a dar aos seus servos “o que é justo e equitativo”, Colossenses 4:1. Pode-se fazer uso deles, mas não se deve fazer abuso.

Os senhores que estão sempre a intimidar e a dominar os seus servos, escarnecendo deles e pisando-os, que são irrazoáveis em exigir trabalho e em dar repreensões, e que os governam com mão alta, esquecem que o Senhor deles está no céu; e que farão quando ele se levantar? — como o santo Jó raciocina consigo mesmo, Jó 31:13, 14.

  1. Que no ano do jubileu ele saísse livre, ele e os seus filhos, e voltasse à sua própria família, v. 41. Isto tipificava a nossa redenção do serviço do pecado e de Satanás, pela graça de Deus em Cristo, cuja verdade nos liberta, João 8:32.

Os escritores judeus dizem que, durante dez dias antes de soar a trombeta do jubileu, os servos que por ela deviam ser soltos expressavam a sua grande alegria banqueteando-se e usando grinaldas na cabeça: por isso é chamado “o som alegre”, Salmos 89:15. E assim devemos regozijar-nos na liberdade que temos por Cristo.

II. Que podiam comprar escravos das nações pagãs que estavam ao redor deles, ou dos estrangeiros que peregrinavam entre eles (exceto das sete nações que deviam ser destruídas); e podiam reivindicar domínio sobre eles e vinculá-los às suas famílias como herança, pois o ano do jubileu não lhes daria soltura, v. 44, 46.

Assim, nas nossas plantações inglesas, só os negros são usados como escravos; quanto isso honra o cristianismo, não direi. Ora:

  1. Esta autoridade que tinham sobre os escravos que compravam das nações vizinhas era em cumprimento da bênção de Jacó, Gênesis 27:29: “Sirvam-te povos”.

  2. Prefigurava a entrada dos gentios no serviço de Cristo e da sua igreja: Deus manda pedir-lhe os pagãos por herança e promete dá-los, Salmos 2:8.

E está prometido (Isaías 61:5): “Estrangeiros estarão de pé e apascentarão os vossos rebanhos, e os filhos do estranho serão os vossos vinhateiros”; veja Apocalipse 2:26, 27. “Os retos terão domínio pela manhã”, Salmos 49:14.

  1. Dá a entender que ninguém terá o benefício do jubileu do evangelho senão só os que são verdadeiros israelitas e filhos de Abraão pela fé: quanto aos que continuam pagãos, continuam escravos.

Veja isto voltado contra os próprios judeus incrédulos, Gálatas 4:25, onde se diz que Jerusalém, depois de rejeitar Cristo, “está em servidão com os seus filhos”.

Deixe-me só acrescentar aqui que, embora não lhes seja proibido governar os seus escravos com rigor, contudo os doutores judeus dizem: “É próprio da misericórdia, e caminho da sabedoria, que o homem seja compassivo, e não torne pesado o seu jugo sobre servo algum que tenha”.

III. Que, se um israelita se vendesse como servo a um prosélito rico que peregrinasse entre eles, devia-se cuidar que ele tivesse as mesmas vantagens que teria se se tivesse vendido a um israelita, e em alguns aspectos maiores:

  1. Que ele não servisse como escravo, mas como servo assalariado, e não fosse governado com rigor (v. 53) “à tua vista”; o que dava a entender que os magistrados judeus deviam ter o olho especialmente sobre ele e, se ele sofresse abuso, tomar conhecimento disso e reparar os seus agravos, ainda que o servo lesado não se queixasse ele mesmo.

Também devia sair livre no ano do jubileu, v. 54. Embora os filhos dos estrangeiros pudessem servi-los para sempre, os filhos de Israel não podiam servir estrangeiros para sempre; contudo, o servo aqui, tendo-se feito escravo por ato e decisão próprios, não devia sair no sétimo ano, o da liberação, mas só no jubileu.

  1. Que ele tivesse mais esta vantagem: que podia ser remido antes do ano do jubileu, v. 48, 49. Aquele que se tinha vendido a um israelita podia, se algum dia tivesse condições, remir-se a si mesmo, mas os seus parentes não tinham direito de remi-lo.

“Mas, se um homem se vendia a um estrangeiro”, dizem os judeus, “os seus parentes eram instados a remi-lo; se não o fizessem, era justo que fosse remido à custa pública”, o que achamos feito, Neemias 5:8. O preço do seu resgate devia ser calculado segundo a perspectiva do ano do jubileu (vv. 50-52), como na redenção da terra, v. 15, 16.

O douto bispo Patrick cita um dos rabinos judeus em favor de uma exposição evangélica daquela determinação (v. 48) de que um dos seus irmãos o remiria. “Este Redentor”, diz o rabino, “é o Messias, o Filho de Davi”.

Eles esperavam que este Messias fosse o seu Redentor do cativeiro, e que os restaurasse de novo à sua própria terra; mas nós o acolhemos como o Redentor que virá a Sião e desviará de Jacó a impiedade, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados; e sob esta noção havia os que esperavam a redenção em Jerusalém.


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