Matthew Henry

Levítico 24

Argumento

Neste capítulo temos:

I. Uma repetição das leis a respeito das lâmpadas e dos pães da proposição, vv. 1-9.

II. Uma violação da lei contra a blasfêmia, com a prisão, o julgamento, a condenação e a execução do blasfemador, vv. 10-14, com o v. 23.

III. A lei contra a blasfêmia reforçada (v. 15, 16), com diversas outras leis, v. 17, etc.

Versículos 1 a 9

Leis a Respeito das Lâmpadas. (a.C. 1490.)

Aqui se toma cuidado, e se dão ordens, para o provimento decente do candelabro e da mesa na casa de Deus.

I. As lâmpadas tinham de ser mantidas sempre acesas. A lei para isso já a tivemos antes, Êxodo 27:20, 21. Ela se repete aqui, provavelmente porque agora começava a ser posta em execução, quando outras coisas estavam estabelecidas.

  1. O povo devia fornecer o azeite (v. 2), e este, como tudo o mais que se devia usar no serviço de Deus, tinha de ser do melhor: azeite de oliva puro, batido; provavelmente era coado duas vezes.

Isso era para fazer arder as lâmpadas; todas as nossas cópias inglesas leem “lâmpadas”, mas no original é singular no v. 2, “para fazer arder a lâmpada”, mas plural no v. 4, “ele porá em ordem as lâmpadas”.

As sete lâmpadas formavam todas uma só lâmpada, em alusão à qual o bendito Espírito da graça é representado por sete lâmpadas de fogo diante do trono (Apocalipse 4:5), pois há diversidade de dons, mas um só Espírito, 1 Coríntios 12:4.

Os ministros são como luzes que ardem e brilham na igreja de Cristo, mas é dever do povo sustentá-los dignamente, como Israel provia às lâmpadas. Um sustento vergonhosamente insuficiente faz do ministério motivo de escândalo.

  1. Os sacerdotes deviam cuidar das lâmpadas: tinham de espevitá-las, limpar o candelabro e abastecê-las de azeite, de manhã e à tarde, v. 3, 4. Assim, é obra dos ministros do evangelho sustentar no alto aquela palavra da vida; não levantar luzes novas, mas, expondo e pregando a palavra, tornar a luz dela mais clara e mais extensa.

Esse era o modo ordinário de manter as lâmpadas acesas; mas, quando a igreja estava pobre e aflita, vemos as suas lâmpadas alimentadas sempre com azeite das boas oliveiras, diretamente, sem ministério de sacerdote nem de povo (Zacarias 4:2, 3); pois, embora Deus nos tenha atado aos meios, não se atou a eles, mas cuidará eficazmente de que a sua lâmpada nunca se apague no mundo por falta de azeite.

II. A mesa tinha de ser mantida sempre posta. Isso foi determinado antes, Êxodo 25:30. E aqui também:

  1. A mesa era provida de pão; não de iguarias nem de variedades para agradar a um paladar luxurioso, mas de doze pães, ou bolos de pão, v. 5, 6. Onde há fartura de pão não há fome; e onde não há pão não há festa.

Havia um pão para cada tribo, pois na casa do nosso Pai há pão com fartura. Todas elas eram providas pela generosidade divina, e todas eram bem-vindas à graça divina.

Até mesmo depois da revolta das dez tribos esse número de pães foi mantido (2 Crônicas 13:11), por causa daqueles poucos de cada tribo que conservaram o seu afeto pelo templo e continuaram a frequentá-lo.

  1. Um punhado de incenso era posto num pratinho de ouro, sobre cada fileira ou junto dela, v. 7. Quando o pão era retirado e dado aos sacerdotes, esse incenso era queimado sobre o altar de ouro (suponho), além do incenso diário.

E isso era “por memorial”, em lugar do pão, “oferta queimada”, assim como o punhado da oferta de manjares que se queimava sobre o altar é chamado “o memorial dela”, Levítico 2:2. Assim, um pouco era aceito como humilde reconhecimento, e todos os pães eram consignados aos sacerdotes.

Todo o Israel espiritual de Deus, tipificado pelos doze pães, torna-se, por meio de Cristo, cheiro suave para ele, e das suas orações se diz que “subiram por memorial diante de Deus”, Atos 10:4. A palavra é tomada da lei cerimonial.

  1. Todo sábado ele era renovado. Quando os pães tinham ficado ali uma semana, os sacerdotes os recebiam para comer com outras coisas santas que deviam ser comidas no lugar santo (v. 9), e outros novos eram providos à custa pública e postos no lugar deles, v. 8.

Os judeus dizem: “As mãos dos sacerdotes que punham se misturavam com as dos que tiravam, para que a mesa nunca ficasse vazia, mas o pão estivesse perante o Senhor continuamente.” Deus nunca está desprovido para receber os que o visitam, como os homens muitas vezes estão, Lucas 11:5.

Cada um desses bolos continha duas décimas, isto é, dois ômeres de flor de farinha; exatamente essa quantidade de maná cada israelita ajuntava no sexto dia para o sábado, Êxodo 16:22.

Por isso alguns inferem que esses pães da proposição, postos sobre a mesa no sábado, se destinavam a ser memorial do maná com que foram alimentados no deserto.

Os ministros de Cristo deveriam prover pão novo para a casa dele a cada sábado, fruto dos seus estudos recentes na Escritura, para que o seu progresso apareça a todos, 1 Timóteo 4:15.

A Blasfêmia do Filho de Selomite; o Castigo do Filho de Selomite. (a.C. 1490.)

Versículos 10 a 23

Os maus costumes, dizemos, geram boas leis. Temos aqui o relato dos maus costumes de certo israelita mestiço e sem nome, e das boas leis que eles ocasionaram.

I. O ofensor era filho de pai egípcio e de mãe israelita (v. 10); a sua mãe era da tribo de Dã, v. 11. Nem ele nem o pai são nomeados, mas só a mãe, que era israelita. Faz-se essa menção da sua ascendência ou:

  1. Para indicar o que ocasionou a desavença em que ele estava envolvido. Os judeus dizem: “Ele tentou armar a sua tenda entre os danitas pelo direito da mãe, mas um ou outro daquela tribo se opôs a ele com justiça e lhe informou que, sendo o seu pai egípcio, ele não tinha parte nem sorte no assunto, mas devia considerar-se estrangeiro.”

Ou, 2. Para mostrar o efeito nocivo comum desses casamentos mistos. Quando uma filha de Israel quis casar-se com um egípcio idólatra e maligno, que fruto podia sair de tal casamento senão um blasfemador?

Pois os filhos tendem a puxar ao pior lado, seja qual for, e aprendem mais depressa de um pai egípcio a blasfemar do que de uma mãe israelita a orar e louvar.

II. A ocasião da ofensa foi uma disputa: ele contendeu com um homem de Israel. A mistura de gente egípcia que subiu com Israel (Êxodo 12:38) lhes foi nociva de muitos modos, e este foi um deles: muitas vezes eram os autores da contenda. O modo de preservar a paz da igreja é preservar a pureza dela.

Nessa contenda ele prorrompeu em linguagem ofensiva. Repare: quando as desavenças começam, não sabemos que mal farão antes de acabar, nem quão grande coisa um pequeno fogo pode acender.

Quando a paixão dos homens se inflama, eles tendem a esquecer tanto a razão quanto a religião; e essa é uma boa razão por que não devemos estar prontos nem para dar provocação nem para ressentir-nos dela, mas abandonar a contenda antes que alguém se envolva nela, porque o princípio dela é como o soltar das águas.

III. A ofensa em si foi blasfêmia e maldição, v. 11. Supõe-se que a sua causa chegou a ser ouvida perante os juízes, que determinaram que ele não tinha direito aos privilégios de israelita, sendo o seu pai egípcio; e que, enfurecido com a sentença:

  1. Ele “blasfemou o nome do Senhor”. Blasfemou “o nome”, isto é, blasfemou a Deus, que é conhecido só pelo seu nome, não pela sua natureza nem por alguma semelhança. Não como se Deus fosse um mero nome; mas o dele é um nome acima de todo nome.

Os tradutores acrescentam “do Senhor”, o que está implícito, mas não expresso, no original, para maior reverência à Majestade divina: é uma vergonha que se encontre registrado que o próprio nome de Jeová tenha sido blasfemado; “não o anuncieis em Gate”.

É uma fantasia tola dos judeus supersticiosos que a blasfêmia dele consistisse em pronunciar o nome de Jeová, que eles chamam inefável: aquele que se deu a conhecer por esse nome nunca proibiu que o chamassem por esse nome.

É provável que, sentindo-se lesado pela determinação divina, que separava os israelitas dos estrangeiros, ele tenha afrontado com insolência tanto a lei quanto o Legislador, e o tenha desafiado.

  1. Ele amaldiçoou ou o próprio Deus (e então a sua maldição era o mesmo que blasfemar) ou a pessoa com quem contendia. Imprecações de mal são a linguagem infernal da paixão precipitada, assim como da malícia arraigada.

Ou talvez tenha amaldiçoado os juízes que deram a sentença contra ele; afrontou o tribunal e ridicularizou os processos dele; assim acrescentou pecado a pecado.

IV. A cautela com que se procedeu contra ele por esse pecado. As testemunhas, ou juízes inferiores, trouxeram-no, a ele e à sua causa (que era um tanto extraordinária), a Moisés (v. 11), conforme a ordem estabelecida (Êxodo 18:22); e o próprio Moisés não quis dar juízo às pressas, mas pôs o ofensor sob custódia, até ter consultado o oráculo nesse caso.

Repare: os juízes devem deliberar; tanto os que dão o veredicto quanto os que dão a sentença devem considerar diligentemente o que fazem, e nada fazer precipitadamente, pois “o juízo é de Deus” (Deuteronômio 1:17), e perante ele haverá uma nova audiência da causa.

Esperavam saber qual era a mente do Senhor: se ele devia ser morto pela mão do magistrado ou ser deixado ao juízo de Deus; ou, antes, queriam saber se ele devia ser apedrejado, como deviam ser os que só amaldiçoavam os pais (Levítico 20:9), ou se, sendo o crime tão maior, se devia infligir-lhe algum castigo mais severo.

Repare: os que se assentam para julgar devem desejar sinceramente e, pela oração e pelo uso de todos os bons meios, esforçar-se por conhecer a mente do Senhor, porque julgam por ele (2 Crônicas 19:6), e a ele prestam contas.

V. Sentença proferida contra esse ofensor pelo próprio justo Juiz do céu e da terra: “Toda a congregação o apedreje”, v. 14. Deus poderia tê-lo eliminado com um golpe direto do céu, mas quis pôr esta honra sobre a instituição da magistratura: servir-se dela para sustentar e vindicar a sua própria glória no mundo. Observe:

  1. O lugar da execução determinado: “Tira-o para fora do arraial.” Para expressar a sua detestação do crime, deviam assim lançar fora o criminoso como um ramo abominável, e separá-lo de si como coisa impura e indigna de lugar no arraial de Israel.

  2. Os executores: toda a congregação devia fazê-lo, para mostrar o seu zelo pela honra do nome de Deus. Todo homem devia ter uma pedra para atirar em quem blasfema a Deus, considerando-se diretamente atingido pelas afrontas lançadas contra Deus, Salmos 69:9.

Assim também maior terror seria lançado sobre a congregação; os que uma vez ajudaram a apedrejar um blasfemador temeriam para sempre tudo o que beirasse a blasfêmia, que se parecesse com ela ou apontasse para ela.

  1. A solenidade da execução: antes que a congregação o apedrejasse, as testemunhas deviam pôr as mãos sobre a cabeça dele. Os judeus dizem que isso não se usava na execução de nenhum criminoso senão dos blasfemadores, e que se fazia com palavras deste teor:

“O teu sangue seja sobre a tua própria cabeça, pois tu mesmo o ocasionaste. Não se lance culpa sobre a lei, os juízes, os jurados ou as testemunhas; se escarneces, só tu o levarás.”

VI. Uma lei permanente feita nessa ocasião para o apedrejamento dos blasfemadores, v. 15, 16. Os magistrados são guardiões de ambas as tábuas, e devem ser tão zelosos pela honra de Deus, contra os que falam com desprezo do ser e do governo dele, quanto pela paz e segurança públicas, contra os que as perturbam.

  1. Põe-se grande peso sobre essa lei, como lei de que em nenhum caso se pode dispensar: “certamente será morto”; “certamente o apedrejarão”.

Os que tinham em pouca estima a honra de Deus podiam julgar duro fazer de um homem ofensor por uma palavra (palavras são só vento); mas Deus quis fazê-los saber que não deviam fazer pouco caso de palavras como essas, que vêm da malícia contra Deus no coração de quem fala, e têm de ocasionar ou grande culpa ou grande dor aos que ouvem.

  1. Ela se estende aos estrangeiros que peregrinavam entre eles, assim como aos que eram nascidos na terra.

Deus nunca fez lei alguma para obrigar os estrangeiros a circuncidar-se e abraçar a religião judaica (prosélitos feitos à força não seriam honra para o Deus de Israel), mas fez uma lei para refrear os estrangeiros de falar mal do Deus de Israel.

  1. Diz-se que aquele que era morto por blasfêmia “levará o seu pecado”, no castigo dele; não havendo sacrifício determinado, sobre cuja cabeça o pecado pudesse ser transferido, ele mesmo tinha de levá-lo sobre a própria cabeça, como sacrifício à justiça divina.

Assim a sua própria língua caiu sobre ele (Salmos 64:8), e a língua do blasfemador cairá pesadamente.

VII. Uma repetição de algumas outras leis anexadas a essa nova lei:

  1. Que o homicídio fosse punido com a morte (v. 17, e de novo v. 21), segundo uma antiga lei do tempo de Noé (Gênesis 9:6) e a própria lei da natureza, Gênesis 4:10.

  2. Que os que mutilassem alguém fossem, de igual modo, punidos pela lei da retaliação, v. 19, 20.

Não que os homens pudessem nesses casos ser os seus próprios vingadores, mas podiam apelar ao magistrado civil, que devia decretar sofrimento ao injuriador e satisfação ao injuriado, conforme se julgasse adequado em proporção ao dano feito.

Esta lei já a tivemos antes, Êxodo 22:4, 5. E ela era mais conforme àquela dispensação, em que se revelavam o rigor da lei e o que o pecado merecia, do que à dispensação sob a qual estamos, em que se revelam a graça do evangelho e a remissão dos pecados.

E por isso o nosso Salvador pôs de lado essa lei (Mateus 5:38, 39), não para refrear os magistrados de executar a justiça pública, mas para refrear a todos nós de revidar injúrias pessoais e para nos obrigar a perdoar, como somos perdoados e esperamos ser perdoados.

  1. Que o dano feito deliberadamente ao gado do próximo fosse punido com a reparação do prejuízo, v. 18, 21. Assim a lei divina tomava sob a sua proteção não só a vida deles, mas também os seus bens.

Era lícito matar os animais que não pertenciam a ninguém em particular, os chamados ferae naturae — de natureza selvagem — no direito inglês do tempo do autor; mas não aqueles que tinham dono. “Tem Deus cuidado dos bois?” Sim: por nossa causa ele cuida.

  1. Que os estrangeiros, assim como os israelitas nativos, tanto tivessem direito ao benefício dessa lei, de modo a não sofrer injustiça, quanto estivessem sujeitos à pena dessa lei caso fizessem injustiça.

E, ao que parece, é isso que traz estas leis para cá: mostrar quão equitativo era que estrangeiros, assim como israelitas, fossem punidos por blasfêmia, porque estrangeiros, assim como israelitas, eram puníveis por outros crimes.

E pode haver ainda esta razão para a retomada dessas leis aqui: Deus quis mostrar com isso a provisão que tinha feito para a segurança do homem, punindo os que lhe fossem injuriosos, o que devia ser argumento para os magistrados serem zelosos pela honra dele e punirem os que blasfemassem o seu nome.

Se Deus cuidava do conforto deles, eles deviam cuidar da glória dele.

VIII. A execução do blasfemador. Moisés, por assim dizer, assinou o mandado para ela: falou aos filhos de Israel para que o fizessem, e “fizeram como o Senhor ordenara a Moisés”, v. 23. Isso ensina que a morte é o salário do pecado, e que a blasfêmia em particular é iniquidade para ser castigada pelos juízes.

Mas, se os que assim profanam o nome de Deus escapam do castigo dos homens, ainda assim o Senhor nosso Deus não permitirá que escapem dos seus justos juízos.

Esse blasfemador foi o primeiro que morreu pela lei de Moisés. Estêvão, o primeiro que morreu pelo evangelho, morreu pelo abuso dessa lei; o mártir e o malfeitor sofreram a mesma morte: mas que vasta diferença entre eles!


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