Levítico 23
Argumento
Até aqui a lei levítica se ocupara principalmente de pessoas santas, coisas santas e lugares santos; neste capítulo temos a instituição dos tempos santos, muitos dos quais já tinham sido mencionados ocasionalmente, mas aqui são todos reunidos; só as luas novas não são mencionadas. Todas as outras festas do Senhor são:
I. A festa semanal do sábado, v. 3.
II. As festas anuais:
A Páscoa e a festa dos pães asmos (vv. 4-8), à qual se anexava a oferta do feixe de primícias, vv. 9-14.
O Pentecostes, vv. 15-22.
As solenidades do sétimo mês: a festa das trombetas no primeiro dia (vv. 23-25), o dia da expiação no décimo dia (vv. 26-32) e a festa dos tabernáculos no décimo quinto, v. 33, etc.
Versículos 1 a 3
Festas Diversas. (a.C. 1490.)
Aqui está:
I. Um relato geral dos tempos santos que Deus designou (v. 2), e só a designação dele pode tornar santo o tempo; pois ele é o Senhor do tempo, e, tão logo pôs as suas rodas a girar, foi ele que santificou e abençoou um dia acima dos demais, Gênesis 2:3.
O homem pode, por designação sua, fazer “um dia bom” (Ester 9:19), mas é prerrogativa de Deus fazer um dia santo; nem coisa alguma é santificada senão pelo selo da instituição dele. Assim como toda santidade inerente vem da graça especial dele, assim toda santidade aderente vem da designação especial dele.
Ora, quanto aos tempos santos aqui ordenados, observe:
- São chamados festas. O dia da expiação, que era um deles, era um jejum; contudo, porque a maioria deles foi designada para alegria e regozijo, são chamados, no geral, festas. Alguns o leem: “Estas são as minhas assembleias”, mas isso coincide com convocações.
Eu preferiria lê-lo: “Estas são as minhas solenidades”; assim é traduzida a palavra aqui usada (Isaías 33:20), onde Sião é chamada “a cidade das nossas solenidades”; e, lendo-o assim aqui, o dia da expiação era uma solenidade tão grande quanto qualquer uma delas.
São as festas do Senhor (“as minhas festas”), observadas para honra do seu nome e em obediência ao seu mandamento.
Eram proclamadas; pois não deviam ser observadas só pelos sacerdotes que serviam no santuário, mas por todo o povo. E essa proclamação era o som alegre a respeito do qual lemos que é bem-aventurado o povo que o conhece, Salmos 89:15.
Deviam ser santificadas e solenizadas com santas convocações, para que os serviços dessas festas parecessem mais honrosos e augustos, e o povo mais unânime na sua realização.
Era para a honra de Deus e das suas instituições, que não buscavam lugares ocultos e cuja pureza seria mais bem preservada pela sua administração pública; era também para a edificação do povo no amor que as festas deviam ser observadas como santas convocações.
II. Uma repetição da lei do sábado, em primeiro lugar. Embora as festas anuais se tornassem mais notáveis pelo comparecimento geral ao santuário, contudo estas não deviam eclipsar o brilho do sábado, v. 3. Aqui lhes é dito:
- Que nesse dia deviam retirar-se de todos os assuntos e negócios do mundo. É um sábado de descanso, que tipifica o nosso descanso espiritual do pecado, e em Deus: “Nenhuma obra fareis nele”.
Em outros dias santos lhes era proibido fazer qualquer obra servil (v. 7), mas no sábado e no dia da expiação (que também é chamado sábado) não deviam fazer obra alguma, não, nem mesmo o preparo do alimento.
- Nesse dia deviam ocupar-se no serviço de Deus:
(1.) É uma santa convocação; isto é, se estiver ao alcance deles, devem santificá-lo numa assembleia religiosa: venham à porta do tabernáculo todos quantos puderem, e os outros se reúnam em outro lugar para oração, louvor e leitura da lei, como nas escolas dos profetas, enquanto durou a profecia, e depois nas sinagogas.
Cristo designou o sábado do Novo Testamento para ser uma santa convocação, reunindo-se com os seus discípulos uma e outra vez (e talvez mais vezes) no primeiro dia da semana.
(2.) Tenham ou não oportunidade de santificá-lo numa santa convocação, devem guardá-lo como o sábado do Senhor em todas as suas habitações. Devem distinguir esse dia dos demais nas suas famílias.
É o sábado do Senhor, o dia em que ele descansou da obra da criação e em que nos designou descansar; deve ser observado em todas as suas habitações, mesmo agora que moram em tendas.
Repare: os sábados de Deus devem ser religiosamente observados em cada casa particular, por cada família à parte, assim como por muitas famílias juntas em santas convocações. O sábado do Senhor nas nossas habitações será a beleza, a força e a segurança delas; ele as santificará, edificará e glorificará.
Versículos 4 a 14
Aqui outra vez as festas são chamadas festas do Senhor, porque ele as designou. A festa de Jeroboão, que ele “inventara do seu próprio coração” (1 Reis 12:33), foi uma afronta a Deus e uma vergonha para o povo.
Essas festas deviam ser proclamadas nas épocas próprias (v. 4), e as épocas que Deus escolheu para elas foram março, maio e setembro (segundo o nosso cômputo atual); não no inverno, porque viajar seria então incômodo, quando os dias eram curtos e os caminhos lamacentos.
Nem no meio do verão, porque então, naquelas regiões, estavam recolhendo a ceifa e a vindima, e mal podiam ser dispensados dos seus negócios no campo. Tão graciosamente Deus leva em conta o nosso conforto nas suas designações, obrigando-nos assim a considerar religiosamente a glória dele na nossa observância delas, e a não nos queixarmos delas como de um fardo.
As solenidades que lhes foram designadas eram:
Muitas, e voltavam com frequência, o que tinha em vista preservar neles um profundo senso de Deus e da religião, e evitar que se inclinassem às superstições dos pagãos. Deus os mantinha plenamente ocupados no seu serviço, para que não tivessem tempo de dar ouvidos às tentações da vizinhança idólatra em que viviam.
Eram, na maioria, tempos de alegria e regozijo. O sábado semanal o é, e todas as solenidades anuais deles, exceto o dia da expiação. Deus queria assim ensinar-lhes que os caminhos da sabedoria são delícias, e prendê-los ao seu serviço animando-os a ser alegres nele e a cantar no seu trabalho.
Sete dias eram dias de descanso estrito e de santas convocações: o primeiro e o sétimo dia da festa dos pães asmos, o dia de Pentecostes, o dia da festa das trombetas, o primeiro e o oitavo dia da festa dos tabernáculos, e o dia da expiação; aqui havia seis para santa alegria e só um para santo pranto. É-nos ordenado regozijar-nos sempre, mas não estar sempre chorando. Aqui está:
I. Uma repetição da lei da Páscoa, que devia ser observada no décimo quarto dia do primeiro mês, em memória do seu livramento do Egito e da preservação distintiva dos seus primogênitos, misericórdias que nunca deviam ser esquecidas. Essa festa devia começar com a matança do cordeiro pascal, v. 5.
Devia durar sete dias, durante todos os quais deviam comer pão triste, que era asmo (v. 6), e o primeiro e o último dia dos sete deviam ser dias de santo descanso e de santas convocações, v. 7, 8.
Não eram dias ociosos gastos em diversão e recreação (como muitos que são chamados cristãos gastam os seus dias santos), mas se faziam ofertas queimadas ao Senhor no altar dele; e temos razão para pensar que o povo era ensinado a empregar o seu tempo em oração, e louvor, e piedosa meditação.
II. Uma ordem para a oferta de um feixe das primícias, no segundo dia da festa dos pães asmos; o primeiro é chamado sábado, porque era observado como sábado (v. 11), e, no dia seguinte a ele, tinham essa solenidade.
Um feixe, ou punhado, de grão novo era trazido ao sacerdote, que devia erguê-lo, em sinal de que o apresentava ao Deus do Céu, e movê-lo de um lado para outro perante o Senhor, como Senhor de toda a terra.
E isso seria aceito a favor deles como reconhecimento agradecido da misericórdia de Deus para com eles, ao revestir de grão os seus campos, e da dependência deles em relação a Deus, e do seu desejo para com ele, de que o preservasse para uso deles. Pois era a expressão tanto de oração quanto de louvor, v. 11.
Um cordeiro para holocausto devia ser oferecido com ele, v. 12. Assim como o sacrifício de animais era geralmente acompanhado de ofertas de manjares, assim esse sacrifício de grão era acompanhado de um holocausto, para que o pão e a carne fossem postos juntos na mesa de Deus.
São proibidos de comer do seu grão novo até que esse punhado tenha sido oferecido a Deus; pois era conveniente, se Deus e Israel fazem festa juntos, que ele fosse servido primeiro.
E a oferta desse feixe de primícias em nome de toda a congregação como que santificava para eles toda a sua ceifa e lhes permitia desfrutar com contentamento do restante; pois então podemos comer o nosso pão com alegria, quando tivermos, em alguma medida, cumprido o nosso dever para com Deus, e Deus tiver aceitado as nossas obras, pois assim todos os nossos gozos se tornam limpos para nós. Ora:
- Esta lei foi dada agora, embora não houvesse ocasião de pô-la em execução até que chegassem a Canaã: no deserto não semeavam grão; mas o fato de Deus alimentá-los ali com pão do céu os obrigava, dali em diante, a não lhe negar de má vontade a parte dele no pão que tirassem da terra.
Vemos que, quando entraram em Canaã, o maná cessou no próprio dia em que o feixe de primícias foi oferecido; tinham comido do grão velho no dia anterior (Josué 5:11), e então nesse dia ofereceram as primícias, pelas quais passaram a ter direito também ao grão novo (Josué 5:12), de modo que não houve mais ocasião para o maná.
- Esse feixe de primícias era típico do nosso Senhor Jesus, que ressuscitou dos mortos como “as primícias dos que dormiram”, 1 Coríntios 15:20. Aquele “renovo do Senhor” (Isaías 4:2) foi então apresentado a ele, em virtude do sacrifício de si mesmo, o Cordeiro de Deus, e foi aceito a nosso favor.
É muito digno de nota que o nosso Senhor Jesus ressuscitou dos mortos no próprio dia em que as primícias eram oferecidas, para mostrar que ele era a substância desta sombra.
- Por esta lei somos ensinados a “honrar ao Senhor com os nossos bens, e com as primícias de todo o nosso rendimento”, Provérbios 3:9.
Não deviam comer do seu grão novo até que a parte de Deus lhe fosse oferecida dele (v. 14), pois devemos sempre começar por Deus, começar com ele a nossa vida, começar com ele cada dia, começar com ele cada refeição, começar com ele cada assunto e negócio; buscar primeiro o reino de Deus.
Versículos 15 a 22
Aqui está a instituição da festa de Pentecostes, ou das semanas, como é chamada (Deuteronômio 16:9), porque era observada cinquenta dias, ou sete semanas, depois da Páscoa. Também é chamada a festa da ceifa, Êxodo 23:16.
Pois, assim como a apresentação do feixe de primícias era uma introdução à ceifa, e lhes dava liberdade de meter a foice, assim eles solenizavam nessa festa o encerramento da sua ceifa de grão.
- Naquela ocasião ofereciam um punhado de espigas de cevada; agora ofereciam dois pães de trigo, v. 17. Este era levedado.
Na Páscoa comiam pão asmo, porque era em memória do pão que comeram quando saíram do Egito, o qual era asmo; mas agora, em Pentecostes, era levedado, porque era um reconhecimento da bondade de Deus para com eles no seu alimento ordinário, que era levedado.
- Com aquele feixe de primícias ofereciam só um cordeiro para holocausto, mas com esses pães de primícias ofereciam sete cordeiros, dois carneiros e um novilho, todos para holocausto, dando assim glória a Deus, como Senhor da sua terra e Senhor da sua ceifa, por cujo favor viviam e para cujo louvor deviam viver.
Ofereciam igualmente um cabrito como oferta pelo pecado, tomando assim vergonha para si mesmos, como indignos do pão que comiam, e implorando perdão pelos seus pecados, pelos quais tinham perdido o direito às misericórdias da ceifa, e dos quais tinham sido culpados ao recebê-las.
E, por último, dois cordeiros como sacrifício de ofertas pacíficas, para pedir uma bênção sobre o grão que tinham recolhido, o qual não lhes seria nem seguro nem doce sem essa bênção, Ageu 1:9.
Essas eram as únicas ofertas pacíficas oferecidas em favor de toda a congregação, e eram consideradas ofertas santíssimas, ao passo que as outras ofertas pacíficas eram apenas santas. Todas essas ofertas são aqui designadas, vv. 18-20.
- Aquele único dia devia ser guardado com santa convocação, v. 21. Era um dos dias em que todo o Israel devia encontrar-se com Deus e uns com os outros, no lugar que o Senhor escolhesse.
Alguns sugerem que, enquanto a festa dos pães asmos devia completar-se em sete dias, só um dia foi designado para a festa de Pentecostes, porque essa era para eles uma época atarefada do ano, e Deus lhes permitia voltar depressa ao seu trabalho no campo.
Essa festa anual foi instituída em memória da entrega da lei no monte Sinai, no quinquagésimo dia depois que saíram do Egito. Essa foi a festa que, como lhes foi dito no Egito, devia ser celebrada a Deus no deserto; como memorial dela guardaram sempre depois esta festa.
Mas a culminação e a perfeição desta festa foi o derramamento do Espírito sobre os apóstolos no dia desta festa (Atos 2:1), em que foi dada a lei da fé, cinquenta dias depois que Cristo, a nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.
E nesse dia (como bem o expressa o bispo Patrick) os apóstolos, tendo eles mesmos recebido as primícias do Espírito, geraram três mil almas pela palavra da verdade, e as apresentaram, como primícias da igreja cristã, a Deus e ao Cordeiro.
À instituição da festa de Pentecostes se anexa uma repetição daquela lei que tivemos antes (Levítico 19:9), pela qual se exigia deles que deixassem as rebuscas dos seus campos, e o grão que crescia nas extremidades das leiras, para os pobres, v. 22.
Provavelmente entra aqui como coisa que os sacerdotes deviam aproveitar a ocasião para lembrar ao povo, quando traziam as suas primícias, dando-lhes a entender que obedecer, mesmo nessa pequena questão, era melhor que o sacrifício, e que, a não ser que fossem obedientes, as suas ofertas não seriam aceitas.
Também lhes ensinava que a alegria da ceifa devia expressar-se em caridade para com os pobres, que devem receber o que lhes é devido do que temos, assim como Deus o que é dele. Os que têm verdadeira percepção da misericórdia que recebem de Deus mostrarão, sem má vontade, misericórdia aos pobres.
Versículos 23 a 32
Aqui está:
I. A instituição da festa das trombetas, no primeiro dia do sétimo mês, v. 24, 25. O que era agora o sétimo mês tinha sido contado como o primeiro mês, e o ano do jubileu continuaria a começar com este mês (Levítico 25:8), de modo que este era o dia de ano-novo deles.
Devia ser como os seus outros sábados anuais, um dia de santo descanso — “Nenhuma obra servil fareis nele” — e um dia de santa obra — “Oferecereis uma oferta ao Senhor”; a respeito destas coisas foram dadas depois instruções particulares, Números 29:1.
O que aqui se torna peculiar a esta festividade é que era “um memorial do toque de trombetas”. Tocavam a trombeta a cada lua nova (Salmos 81:3), mas na lua nova do sétimo mês isso devia ser feito com solenidade extraordinária; pois começavam a tocar ao nascer do sol e continuavam até o pôr do sol. Ora:
- Diz-se aqui que isto é um memorial, talvez do som da trombeta no monte Sinai quando a lei foi dada, o qual nunca devia ser esquecido. Alguns pensam que era um memorial da criação do mundo, que se supõe ter sido no outono; razão pela qual este era, até então, o primeiro mês.
A palavra poderosa pela qual Deus fez o mundo é chamada a voz do seu trovão (Salmos 104:7); por isso, com propriedade, era comemorada com o toque de trombetas, ou “um memorial de brados”, como o traduz o Caldeu; pois, quando os fundamentos da terra foram firmados, “todos os filhos de Deus bradavam de alegria”, Jó 38:6, 7.
- Os escritores judeus supõem que tinha significado espiritual. Agora, no começo do ano, eram chamados por esse som de trombeta a sacudir a sua sonolência espiritual, a esquadrinhar e provar os seus caminhos, e a emendá-los.
O dia da expiação era o nono dia depois deste; e assim eram despertados para se prepararem para aquele dia, por arrependimento sincero e sério, para que fosse de fato para eles um dia de expiação. E dizem: “Os judeus devotos exercitavam-se mais em boas obras entre a festa das trombetas e o dia da propiciação do que em qualquer outra época do ano.”
- Era típica da pregação do evangelho, por cujo som alegre as almas deviam ser chamadas a servir a Deus e a celebrar-lhe uma festa espiritual. Diz-se que a conversão das nações à fé de Cristo se dá pelo toque de uma grande trombeta, Isaías 27:13.
II. Uma repetição da lei do dia da expiação, isto é, de tanto dela quanto dizia respeito ao povo:
- Nesse dia deviam descansar de toda espécie de obra, e não só das obras servis, como nas outras festividades anuais; devia ser um descanso tão estrito quanto o do sábado semanal, v. 28, 30, 31. A razão é: “Porque é um dia de expiação”.
Repare: A humilhação das nossas almas pelo pecado, e o fazer a nossa paz com Deus, é obra que requer o homem inteiro, e a mais estreita aplicação da mente que se possa imaginar, e tudo isso mal basta. Quem quiser fazer a obra de um dia de expiação no seu dia, como deve ser feita, precisa pôr de lado o pensamento de todas as outras coisas.
Nesse dia Deus falava paz ao seu povo e aos seus santos; e por isso deviam pôr de lado todos os seus negócios mundanos, para que pudessem ouvir com mais clareza e com mais reverência aquela voz de alegria e contentamento. Dias de jejum devem ser dias de descanso.
- Deviam afligir as suas almas, e isso sob pena de serem extirpados pela mão de Deus, v. 27, 29, 32. Deviam mortificar o corpo e negar-lhe os apetites, em sinal da sua tristeza pelos pecados que tinham cometido, e da mortificação das corrupções que neles habitavam.
Toda alma devia ser afligida, porque toda alma estava contaminada e culpada diante de Deus; enquanto ninguém tiver cumprido a lei da inocência, ninguém está isento da lei do arrependimento; além de que todo homem deve suspirar e clamar pelas abominações da terra.
- O dia inteiro devia ser observado: de tarde a tarde deviam afligir as suas almas (v. 32), isto é, começar o jejum e as expressões da sua humilhação no nono dia do mês, à tarde.
Deviam deixar todo o seu labor mundano e recolher-se para a obra do dia que se aproximava, algum tempo antes do pôr do sol no nono dia, e não tomar alimento algum (exceto crianças e doentes) até depois do pôr do sol no décimo dia.
Repare: As vésperas dos dias solenes devem ser empregadas em preparação solene. Quando uma obra para Deus e para as nossas almas deve ser feita, não devemos restringir-nos no tempo para fazê-la; pois como poderíamos gastar melhor o nosso tempo? Deste sábado se deve entender a regra aqui dada: “De tarde a tarde celebrareis o vosso sábado”.
Versículos 33 a 44
Temos aqui:
I. A instituição da festa dos tabernáculos, que era uma das três grandes festas a que todos os varões eram obrigados a comparecer, e era celebrada com mais expressões de alegria que qualquer delas.
- Quanto às instruções para regular esta festa, observe:
(1.) Devia ser observada no décimo quinto dia do sétimo mês (v. 34), apenas cinco dias depois do dia da expiação.
Podemos supor que, embora não fossem todos obrigados a comparecer no dia da expiação, como nas três grandes festividades, contudo muitos dos judeus devotos subiam tantos dias antes da festa dos tabernáculos que gozavam da oportunidade de comparecer no dia da expiação. Ora:
[1.] A aflição das suas almas no dia da expiação os preparava para a alegria da festa dos tabernáculos. Quanto mais somos entristecidos e humilhados pelo pecado, tanto mais habilitados estamos para os confortos do Espírito Santo.
[2.] A alegria desta festa os recompensava da tristeza daquele jejum; pois os que semeiam em lágrimas segarão com alegria.
(2.) Devia durar oito dias, o primeiro e o último dos quais deviam ser observados como sábados, dias de santo descanso e de santas convocações, v. 35, 36, 39. Dos sacrifícios a serem oferecidos nesses oito dias temos uma designação muito extensa, Números 29:12, etc.
(3.) Durante os sete primeiros dias desta festa, todo o povo devia deixar as suas casas, e as mulheres e as crianças nelas, e habitar em cabanas feitas de ramos de árvores espessas, particularmente de palmeiras, v. 40, 42. Os judeus fazem do tomar dos ramos uma cerimônia distinta do fazer das cabanas.
Diz-se, de fato (Neemias 8:15), que fizeram as suas cabanas de ramos de árvores, o que podiam fazer, e ainda assim usar aquela expressão ulterior de alegria, o levar ramos de palmeira nas mãos, que parece ter sido sinal de triunfo em outras ocasiões (João 12:13), e a que se alude em Apocalipse 7:9.
Alguns fazem do oitavo dia uma festa distinta em si mesma, mas ele é chamado (João 7:37) “o grande dia da festa”; era o dia em que voltavam das suas cabanas, para se estabelecer de novo nas suas próprias casas.
(4.) Deviam regozijar-se perante o Senhor Deus durante todo o tempo desta festa, v. 40.
A tradição dos judeus é que deviam expressar a sua alegria dançando e cantando hinos de louvor a Deus, com instrumentos musicais: e não só o povo comum, mas os sábios de Israel e os seus anciãos deviam fazê-lo no átrio do santuário; pois (dizem eles) a alegria com que o homem se alegra em cumprir um mandamento é realmente um grande serviço.
- Quanto ao desígnio desta festa:
(1.) Devia ser guardada em memória da sua habitação em tendas no deserto. Assim se expõe aqui (v. 43): “Para que as vossas gerações saibam”, não só pela história escrita, mas por esta tradição ocular, “que eu fiz habitar os filhos de Israel em cabanas”. Assim ela conservava em perpétua memória:
[1.] A modéstia das suas origens e o estado humilde e desolado do qual Deus elevou aquele povo. Repare: Os que estão confortavelmente fixados devem muitas vezes trazer à memória o seu antigo estado instável, quando eram apenas pequenos aos seus próprios olhos.
[2.] A misericórdia de Deus para com eles: quando habitavam em tabernáculos, Deus não só erigiu para si um tabernáculo no meio deles, mas, com o máximo cuidado e ternura imagináveis, estendeu sobre eles um dossel, nada menos que a nuvem que os abrigava do calor do sol. As misericórdias passadas de Deus para conosco e para com os nossos pais devem ser guardadas em memória eterna.
O oitavo dia era o grande dia desta festa, porque então voltavam de novo às suas próprias casas, e lembravam como, depois de terem habitado longamente em tendas no deserto, afinal chegaram a um estabelecimento feliz na terra da promessa, onde habitaram em casas formosas.
E mais palpavelmente valorizariam os confortos e as comodidades das suas casas, e seriam gratos por eles, depois de terem passado sete dias habitando em cabanas. É bom que os que têm descanso e fartura aprendam às vezes o que é suportar a dureza.
(2.) Era uma festa da colheita; assim é chamada, Êxodo 23:16. Quando tinham recolhido o fruto da sua terra (v. 39), a vindima assim como a ceifa, então deviam guardar esta festa em ação de graças a Deus por todo o rendimento do ano; e alguns pensam que o oitavo dia da festa tinha referência especial a este fundamento da instituição.
Repare: A alegria da ceifa deve ser aproveitada para aumentar a nossa alegria em Deus. A terra é do Senhor, e a sua plenitude; e por isso, de tudo de que desfrutamos, ele deve receber a glória, especialmente quando alguma misericórdia é aperfeiçoada.
(3.) Era uma festa típica. Muitos supõem que o nosso bendito Salvador nasceu mais ou menos na época desta festa; então ele deixou as suas moradas de luz lá em cima para tabernacular entre nós (João 1:14), e habitou em cabanas.
E o culto de Deus sob o Novo Testamento é profetizado sob a figura de guardar a festa dos tabernáculos, Zacarias 14:16. Pois:
[1.] O evangelho de Cristo nos ensina a habitar em tabernáculos, a estar desprendidos deste mundo, como os que não têm aqui cidade permanente, mas, pela fé, pela esperança e pelo santo desprezo das coisas presentes, a ir até Cristo fora do arraial, Hebreus 13:13, 14.
[2.] Ensina-nos a regozijar-nos perante o Senhor nosso Deus. Esses são “a circuncisão”, israelitas de fato, que sempre “se regozijam em Cristo Jesus”, Filipenses 3:3. E quanto mais somos desligados deste mundo, tanto menos sujeitos estamos à interrupção das nossas alegrias.
II. O resumo e a conclusão destas instituições:
- Deus designou estas festas (v. 37, 38) “além dos sábados” e das “vossas ofertas voluntárias”. Isto nos ensina:
(1.) Que as chamadas a serviços extraordinários não nos escusarão das nossas práticas constantes e fixas. Dentro dos dias da festa dos tabernáculos devia cair pelo menos um sábado, que devia ser observado tão estritamente quanto qualquer outro.
(2.) Que as instituições de Deus deixam lugar para ofertas voluntárias. Não que possamos inventar o que ele nunca instituiu, mas podemos repetir o que ele instituiu, ordinariamente, e quanto mais vezes, melhor. Deus se agrada muito de um povo voluntário.
- Moisés as declarou aos filhos de Israel, v. 44. Fez-lhes saber o que Deus designou, nem mais nem menos. Assim Paulo transmitiu às igrejas o que tinha recebido do Senhor.
Temos razão para ser gratos por as festas do Senhor, a nós declaradas, não serem tão numerosas, nem a observância delas tão pesada e custosa, como então eram as deles, mas mais espirituais e significativas, e penhores mais seguros e mais doces da festa eterna, na última colheita, que esperamos estar celebrando por toda a eternidade.