Levítico 22
Argumento
Neste capítulo temos diversas leis a respeito dos sacerdotes e dos sacrifícios, todas para a preservação da honra do santuário.
I. Que os sacerdotes não comessem das coisas santas na sua imundícia, vv. 1-9.
II. Que nenhum estranho que não pertencesse a alguma família dos sacerdotes comesse das coisas santas (vv. 10-13), e que, se o fizesse por ignorância, tinha de fazer restituição, vv. 14-16.
III. Que os sacrifícios oferecidos tinham de ser sem defeito, vv. 17-25.
IV. Que tinham de ter mais de oito dias (vv. 26-28), e que os sacrifícios de ação de graças tinham de ser comidos no mesmo dia em que eram oferecidos, v. 29, etc.
Versículos 1 a 9
Leis a Respeito dos Sacerdotes. (a.C. 1490.)
Os que tinham defeito natural, embora proibidos de fazer a obra dos sacerdotes, podiam contudo comer das coisas santas; e os escritores judeus dizem que, “para mantê-los longe da ociosidade, eram empregados no depósito da lenha, para separar a que estava bichada, a fim de que não fosse usada no fogo sobre o altar; podiam também ser empregados no julgamento da lepra”. Mas:
I. Os que estavam sob alguma imundícia cerimonial, que possivelmente tinham contraído por culpa própria, não podiam nem sequer comer das coisas santas enquanto continuassem na sua poluição.
Algumas poluições eram permanentes, como a lepra ou o fluxo, v. 4. Estas separavam o povo do santuário, e Deus queria mostrar que num sacerdote elas estavam tão longe de ser mais desculpáveis que eram, na verdade, mais abomináveis.
Outras eram mais passageiras, como o tocar num cadáver ou em qualquer outra coisa imunda, da qual, depois de certo tempo, o homem era purificado banhando a sua carne em água, v. 6.
Mas quem quer que estivesse assim contaminado não podia comer das coisas santas, sob pena do mais alto desagrado de Deus, que disse, e ratificou o dito: “Aquela alma será extirpada da minha presença”, v. 3.
Estarmos na presença de Deus e nos apresentarmos para servi-lo está tão longe de nos proteger que só nos expõe ainda mais à sua ira, se ousarmos aproximar-nos dele na nossa impureza.
A destruição virá “da presença do Senhor” (2 Tessalonicenses 1:9), assim como o fogo pelo qual Nadabe e Abiú morreram veio de diante do Senhor. Assim, os que profanam a santa palavra de Deus serão extirpados por essa palavra de que fazem tão pouco caso; ela os condenará.
São de novo advertidos do seu perigo se comerem da coisa santa na sua imundícia (v. 9), para que não “levem pecado e morram por isso”. Repare:
(1.) Os que profanam coisas sagradas, tocando-as com mãos não santificadas, contraem grande culpa. Comer das coisas santas significava ter parte na expiação; mas, se as comiam na sua imundícia, estavam tão longe de diminuir a sua culpa que a aumentavam: “Levarão pecado”.
(2.) O pecado é um fardo que, se a misericórdia infinita não se antecipar, certamente afundará os que o levam: “Morrerão por isso”. Até sacerdotes podem ser arruinados pelas suas poluições e presunções.
II. Quanto ao desígnio desta lei, podemos observar:
- Ela obrigava os sacerdotes a preservar cuidadosamente a sua pureza e a temer tudo o que os contaminasse. As coisas santas eram o seu sustento; se não pudessem comer delas, como subsistiriam?
Quanto mais temos a perder de consolo e de honra pela nossa contaminação, tanto mais cuidadosos devemos ser em preservar a nossa pureza.
Ela incutia no povo reverência pelas coisas santas, quando viam os próprios sacerdotes apartados delas (como diz a expressão, v. 2) enquanto estavam na sua imundícia. Sem dúvida é um Deus de infinita pureza aquele que mantinha os seus servidores diretos sob disciplina tão estrita.
Ela nos ensina a vigiar cuidadosamente contra todas as poluições morais, porque por elas ficamos inaptos para receber o consolo do santuário de Deus.
Embora não padeçamos de deformidades habituais, ainda assim as contaminações atuais nos privam do prazer da comunhão com Deus; e por isso “aquele que está lavado necessita de lavar os pés” (João 13:10), de “lavar as mãos”, e assim “andar ao redor do altar”, Salmos 26:6.
Nisto precisamos ter zelo sobre nós mesmos, para que não (como aqui se expressa de modo digno de nota) “profanemos o santo nome” de Deus “naquelas coisas que lhe santificamos”, v. 2.
Se afrontamos a Deus naquelas mesmas práticas em que alegamos honrá-lo, e o provocamos em vez de agradá-lo, em breve só teremos uma má conta a prestar; contudo, é assim que fazemos se profanamos o nome de Deus, fazendo na nossa imundícia aquilo que alega ser santificado a ele.
Versículos 10 a 16
As coisas santas deviam ser comidas pelos sacerdotes e pelas suas famílias. Ora:
I. Aqui está uma lei de que nenhum estranho comesse delas, isto é, nenhuma pessoa, fosse quem fosse, senão só os sacerdotes e os que lhes pertenciam, v. 10.
Os sacerdotes são encarregados deste cuidado: não profanar as coisas santas consentindo que os estranhos comam delas (v. 15), nem permitir que “levem a iniquidade da transgressão” (v. 16); isto é, permitir que tragam culpa sobre si mesmos, intrometendo-se naquilo a que não têm direito. Assim se entende comumente.
Repare: não só devemos ter cuidado de não levar nós mesmos iniquidade, mas devemos fazer o que pudermos para evitar que outros a levem. Não só não devemos permitir que o pecado repouse sobre o nosso irmão, mas, se estiver ao nosso alcance, não devemos permitir que ele venha sobre ele.
Mas talvez haja outro sentido nessas palavras: diz-se que o comerem os sacerdotes as ofertas pelo pecado significa o levarem eles a iniquidade da congregação, para fazer expiação por ela, Levítico 10:17.
Que o estranho, portanto, não coma dessa coisa santa em particular, e assim alegue levar a iniquidade da transgressão; porque é presunção ousada que alguém o faça, senão os que foram designados para fazê-lo.
Os que levantam outros mediadores além de Cristo, nosso sacerdote, para levar a iniquidade da transgressão, roubam sacrilegamente a Cristo a sua honra e invadem os seus direitos.
Quando advertimos as pessoas a não confiar na sua própria justiça, nem ousar comparecer diante de Deus com ela, mas a apoiar-se só na justiça de Cristo para paz e perdão, é porque não ousamos permitir que levem a iniquidade da transgressão, pois sabemos que ela é pesada demais para elas.
II. Aqui está uma explicação da lei, mostrando quem devia ser tido como pertencente à família do sacerdote, e quem não:
- Os peregrinos e os servos assalariados não ficavam na casa para sempre; estavam na família, mas não eram da família; e por isso não podiam comer das coisas santas (v. 10). Mas o servo nascido em casa ou comprado por dinheiro, sendo bem hereditário da família, embora servo, podia contudo comer das coisas santas, v. 11.
Repare: só têm direito aos consolos da casa de Deus os que fazem dela o seu repouso para sempre e resolvem habitar nela todos os dias da sua vida.
Quanto aos que creem só por algum tempo, para atender a uma necessidade do momento, são tidos apenas como peregrinos e mercenários, e não têm parte nem sorte nesta matéria.
- Quanto aos filhos da família, a respeito dos filhos homens não podia haver disputa, pois eles mesmos eram sacerdotes; mas a respeito das filhas havia uma distinção.
Enquanto continuavam na casa do pai, podiam comer das coisas santas; mas, se se casassem com quem não fosse sacerdote, perdiam o seu direito (v. 12), pois agora estavam cortadas da família dos sacerdotes.
Contudo, se a filha de um sacerdote ficasse viúva e não tivesse filhos nos quais pudesse preservar uma família distinta, e voltasse de novo à casa do pai, não sendo nem esposa nem mãe, seria de novo tida como filha, e poderia comer das coisas santas.
Se aquelas a quem a Providência fez viúvas pesarosas, e que são desalojadas do repouso que tinham na casa de um marido, ainda assim o encontram de novo na casa de um pai, têm razão para ser gratas ao Deus das viúvas, que não as deixa sem consolo.
- Aqui está uma exigência de restituição, a ser feita por aquele que não tinha direito às coisas santas e, contudo, comesse delas por ignorância, v. 14.
Se o fizesse com presunção, e em desprezo da instituição divina, estava sujeito a ser extirpado pela mão de Deus e a ser açoitado pelo magistrado; mas, se o fizesse por fraqueza ou inconsideração, devia restituir o valor, acrescentando-lhe a quinta parte, e além disso devia trazer uma oferta para expiar a transgressão; veja Levítico 5:15, 16.
III. Esta lei podia ser dispensada em caso de necessidade, como foi quando Davi e os seus homens comeram dos pães da proposição, 1 Samuel 21:6.
E o nosso Salvador os justifica e dá uma razão para isso que nos fornece uma regra duradoura para todos os casos semelhantes: que Deus “quer misericórdia, e não sacrifício”, Mateus 12:3, 4, 7. Os ritos têm de ceder aos preceitos morais.
IV. É uma instrução aos ministros do evangelho, que são despenseiros dos mistérios de Deus, para não admitirem todos, sem distinção, a comer das coisas santas, mas separarem o precioso do vil.
Os que são escandalosamente ignorantes ou profanos são estranhos e forasteiros à família dos sacerdotes do Senhor; e não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo a tais. As coisas santas são para pessoas santas, para os que são santos, ao menos na profissão, Mateus 7:6.
Versículos 17 a 33
Leis a Respeito dos Sacrifícios. (a.C. 1490.)
Aqui estão quatro leis a respeito dos sacrifícios:
I. Tudo o que fosse oferecido em sacrifício a Deus devia ser sem defeito; do contrário, não seria aceito. Isto fora mencionado muitas vezes nas instituições particulares das diversas espécies de ofertas.
Agora aqui lhes é dito o que devia ser tido como defeito que tornava um animal impróprio para o sacrifício: se era cego, ou coxo, tinha lobinho, ou sarna (v. 22); se era pisado, ou esmagado, ou quebrado, ou cortado (v. 24), isto é, como os escritores judeus o entendem, se era castrado de algum desses modos; se de touros e carneiros se faziam bois e carneiros capados, não podiam ser oferecidos.
Além disso, faz-se diferença entre o que era trazido como oferta voluntária e o que era trazido como voto, v. 23. E nenhum que tivesse algum dos defeitos antes mencionados podia ser trazido para uma nem para outra.
Contudo, se um animal tinha alguma coisa sobrando ou faltando (isto é, como os judeus o entendem, se havia desproporção ou desigualdade entre as partes que são pares, quando um olho, ou orelha, ou perna era maior do que devia ser, ou menor do que devia ser), e se não havia outro defeito além deste, podia ser aceito como oferta voluntária.
No caso da oferta voluntária, nem o homem nem a lei divina o tinham obrigado antes a fazer aquela oferta; mas, para cumprir um voto, o animal não podia ser aceito.
Assim Deus queria ensinar-nos a fazer questão de consciência de cumprir com toda a exatidão as nossas promessas a ele, e a não diminuir depois, em quantidade ou em valor, o que nos tínhamos comprometido solenemente a consagrar-lhe. O que antes do voto estava em nosso poder, como no caso da oferta voluntária, depois já não está, Atos 5:4.
Declara-se uma e outra vez que nenhum sacrifício seria aceito se tivesse tal defeito, v. 20, 21. Segundo esta lei, tomava-se grande cuidado em examinar todos os animais trazidos para ser sacrificados, para que com toda a certeza não houvesse neles defeito algum.
Um sacrifício com defeito não podia ser aceito nem mesmo da mão de um estrangeiro, embora a tais se devesse dar todo o encorajamento possível para honrarem o Deus de Israel, v. 25.
Por isso parece que se esperava que estrangeiros viessem à casa de Deus de uma terra distante (1 Reis 8:41, 42), e que seriam bem-vindos, e as suas ofertas aceitas, como as de Dario, Esdras 6:9, 10; Isaías 56:6, 7.
Muitos dos sacerdotes pagãos não eram tão estritos nesta matéria, mas recebiam para os seus deuses sacrifícios por mais escandalosos que fossem; mas que os estrangeiros saibam que o Deus de Israel não seria servido assim. Ora:
- Esta lei era então necessária para a preservação da honra do santuário e do Deus que ali era adorado. Era conveniente que tudo o que se empregava para a honra dele fosse o melhor da sua espécie; porque, assim como ele é o maior e o mais resplandecente, assim também é o melhor dos seres; e aquele que é o melhor deve ter o melhor.
Veja quão grande e justamente desagradável era ao Deus santo a quebra desta lei, Malaquias 1:8, 13, 14.
- Esta lei tornava todos os sacrifícios legais tanto mais aptos para ser tipos de Cristo, o grande sacrifício do qual todos estes derivavam a sua virtude. Em alusão a esta lei, diz-se dele que é “um Cordeiro sem defeito e sem mancha”, 1 Pedro 1:19.
Assim como nos convinha um sacerdote inocente e imaculado, também nos convinha tal sacrifício. Quando Pilatos declarou: “Não acho culpa alguma neste homem”, com isso, na prática, pronunciou o sacrifício sem defeito.
Os judeus dizem que era obra do sagan, ou sufragâneo, do sumo sacerdote examinar os sacrifícios e ver se eram sem defeito ou não; quando Cristo sofreu, Anás estava nesse ofício; mas pouco pensavam os que levaram Cristo primeiro a Anás, por quem ele foi enviado amarrado a Caifás como sacrifício apto para ser oferecido (João 18:13, 24), que estavam cumprindo o tipo desta lei.
- É uma instrução para que ofereçamos a Deus o melhor que temos nos nossos sacrifícios espirituais. Se as nossas devoções são ignorantes, e frias, e frívolas, e cheias de distrações, oferecemos o cego, e o coxo, e o doente em sacrifício.
Mas maldito seja o enganador que faz isso, porque, enquanto pensa impor um embuste a Deus, impõe à sua própria alma um embuste que a condena.
II. Que nenhum animal fosse oferecido em sacrifício antes de ter oito dias, v. 26, 27.
Fora determinado antes que as primeiras crias do seu gado, que deviam ser consagradas a Deus, não lhe fossem trazidas senão depois do oitavo dia, Êxodo 22:30. Aqui se determina que nenhuma criatura fosse oferecida em sacrifício antes de completar oito dias.
Antes disso não era própria para ser usada nas mesas dos homens, e por isso nem no altar de Deus.
Os judeus dizem: “Era porque o sábado santifica todas as coisas, e nada devia ser oferecido a Deus antes que ao menos um sábado tivesse passado por ele”. Era em conformidade com a lei da circuncisão, que as crianças deviam receber no oitavo dia.
Cristo foi sacrificado por nós, não na sua infância, embora então Herodes procurasse matá-lo, mas no vigor da sua idade.
III. Que a mãe e a sua cria não fossem mortas ambas no mesmo dia, quer em sacrifício, quer para uso comum, v. 28. Há uma lei como esta a respeito das aves, Deuteronômio 22:6.
Isto era proibido, não como mau em si mesmo, mas porque parecia bárbaro e cruel para com as criaturas irracionais; como a tirania do rei da Babilônia, que matou os filhos de Zedequias diante dos seus olhos e depois lhe vazou os olhos.
Parecia coisa de má índole para com a espécie matar duas gerações de uma vez, como se alguém intentasse a ruína da raça.
IV. Que a carne das suas ofertas de ação de graças fosse comida no mesmo dia em que eram sacrificadas, v. 29, 30. Isto é repetição do que tivemos antes, Levítico 7:15; Levítico 19:6, 7.
O capítulo termina com uma ordem geral como a que temos encontrado muitas vezes: guardar os mandamentos de Deus e não profanar o seu santo nome, v. 31, 32.
Os que professam o nome de Deus, se não fazem questão de consciência de guardar os seus mandamentos, não fazem senão profanar o seu nome.
Acrescentam-se as razões gerais: a autoridade de Deus sobre eles — “Eu sou o Senhor”; o seu interesse neles — “Eu sou o vosso Deus”; o título que tinha sobre eles pela redenção — “Eu vos tirei da terra do Egito, de propósito para ser o vosso Deus”.
Os desígnios da sua graça a respeito deles — “Eu sou o Senhor que vos santifico”; e as resoluções da sua justiça, se não recebesse honra deles, de obter para si honra sobre eles — “Serei santificado no meio dos filhos de Israel”.
No fim, Deus não sairá perdendo na sua glória por homem nenhum; mas, cedo ou tarde, recuperará o seu direito, ou no arrependimento dos pecadores ou na ruína deles.