Levítico 21
Argumento
Este capítulo poderia tomar emprestado o seu título de Malaquias 2:1: “E agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós”. É uma lei que obriga os sacerdotes a preservar, com o máximo zelo e ciúme, a dignidade do seu sacerdócio.
I. Os sacerdotes inferiores recebem aqui ordens tanto a respeito do seu luto quanto a respeito dos seus casamentos e dos seus filhos, vv. 1-9.
II. O sumo sacerdote é mais restringido que qualquer um deles, vv. 10-15.
III. Nem um nem outro pode ter defeito algum, v. 16, etc.
Versículos 1 a 9
Leis a Respeito dos Sacerdotes. (a.C. 1490.)
Antes fora designado que os sacerdotes ensinassem ao povo os estatutos que Deus tinha dado a respeito da diferença entre o limpo e o imundo, Levítico 10:10, 11. Agora aqui se provê que eles mesmos observem o que deviam ensinar ao povo. Repare: Aqueles cujo ofício é instruir devem fazê-lo tanto pelo exemplo quanto pelo preceito, 1 Timóteo 4:12.
Os sacerdotes deviam chegar-se mais perto de Deus que qualquer um do povo, e ter convívio mais íntimo com as coisas sagradas; por isso se exigia deles que se mantivessem a maior distância que os outros de tudo o que fosse maculador e pudesse diminuir a honra do seu sacerdócio.
I. Devem tomar cuidado para não se desabonarem no seu luto pelos mortos. Supunha-se que todos os que pranteavam os mortos se aproximavam do corpo, se não o tocavam; e os judeus dizem: “Chegar a menos de seis pés de um cadáver tornava o homem cerimonialmente imundo”; ou melhor, declara-se (Números 19:14) que todos os que entram na tenda onde jaz o corpo morto serão imundos sete dias.
Por isso todos os pranteadores que acompanhavam o funeral não podiam deixar de macular-se, de modo a não estarem aptos para entrar no santuário durante sete dias. Por este motivo se ordena:
- Que os sacerdotes nunca se pusessem nessa incapacidade de entrar no santuário, a não ser por um dos seus parentes mais próximos, vv. 1-3.
Concedia-se ao sacerdote fazê-lo por um dos pais ou por um filho, por um irmão ou por uma irmã solteira, e portanto, sem dúvida (embora isto não seja mencionado), pela mulher do seu seio; pois Ezequiel, sacerdote, teria pranteado a sua mulher se não lhe tivesse sido particularmente proibido, Ezequiel 24:17.
Por esta concessão Deus conferiu honra à afeição natural, e a favoreceu a ponto de dispensar a assistência dos seus servos durante sete dias, enquanto eles se entregavam à sua tristeza pela morte dos seus queridos parentes; mas, além desse termo, o choro não devia impedir a semeadura, nem a sua afeição aos seus parentes afastá-los do serviço do santuário.
Nem era de modo algum consentido pela morte de qualquer outro, não, nem mesmo de um homem principal entre o povo, como alguns o leem, v. 4. Não deviam macular-se, não, nem mesmo pelo próprio sumo sacerdote, a não ser que fosse assim aparentado com eles.
Embora haja amigo mais chegado que um irmão, contudo os sacerdotes não deviam prestar este respeito ao melhor amigo que tivessem, a não ser que fosse parente, para que, consentido a um, outros não o esperassem, e assim eles não fossem frequentemente afastados do seu trabalho.
E com isso se dá a entender que há uma afeição particular a ser reservada para os que nos são assim chegados em parentesco; e, quando algum deles é removido pela morte, devemos ser afetados por isso e tomá-lo a peito, como a aproximação da morte para perto de nós mesmos, e um alarme para nos prepararmos para segui-los.
- Que não deviam ser excessivos nas expressões do seu luto, não, nem mesmo pelos seus parentes mais queridos, v. 5. O seu luto não devia ser:
(1.) Supersticioso, à maneira dos pagãos, que cortavam o seu cabelo e deixavam correr o seu sangue em honra das divindades imaginárias que presidiam (como eles pensavam) à congregação dos mortos, para levá-las a ser propícias aos seus amigos falecidos.
Até os ritos supersticiosos usados antigamente nos funerais são indício da antiga crença na imortalidade da alma e na sua existência num estado separado.
E, embora os próprios ritos fossem proibidos pela lei divina, porque eram realizados a falsos deuses, contudo o respeito decoroso que a natureza ensina, e que a lei consente prestar aos restos dos nossos amigos falecidos, mostra que não devemos considerá-los perdidos.
(2.) Nem devia ser arrebatado ou imoderado. Repare: Os ministros de Deus devem ser exemplo aos outros de paciência na aflição, particularmente naquela que toca numa parte muito delicada, a morte dos seus parentes próximos.
Supõe-se que eles saibam, mais que os outros, os motivos pelos quais não devemos entristecer-nos como os que não têm esperança (1 Tessalonicenses 4:13), e por isso devem ser eminentemente calmos e serenos, para que possam consolar os outros com as mesmas consolações com que eles mesmos são consolados por Deus.
Ao povo era proibido prantear os mortos com ritos supersticiosos (Levítico 19:27, 28), e o que era ilícito para eles era muito mais ilícito para o sacerdote.
O motivo dado para o seu zelo peculiar em não se macularem está no v. 6: Porque ofereciam “o pão do seu Deus”, sim, “as ofertas do Senhor feitas por fogo”, que eram as provisões da casa e da mesa de Deus.
São grandemente honrados, e por isso não devem manchar a sua honra fazendo-se escravos das suas paixões; estão continuamente empregados no serviço sagrado, e por isso não devem ser nem desviados dos serviços para os quais foram chamados, nem tornados inaptos para eles.
Se eles se contaminam, profanam o nome do seu Deus, a quem assistem: se os servos são rudes e de mau comportamento, isso é um desdouro para o senhor, como se ele mantivesse uma casa relaxada e desordenada.
Repare: Todos os que ou oferecem ou comem o pão do nosso Deus devem ser santos em toda a sua conduta, do contrário profanam aquele nome que alegam santificar.
II. Devem tomar cuidado para não se degradarem no seu casamento, v. 7. O sacerdote não deve casar com mulher de má fama, que ou tivesse sido culpada, ou fosse suspeita de ter sido culpada, de imundícia.
Não só não deve casar com uma prostituta, por mais penitente que ela estivesse das suas antigas prostituições, mas não deve casar com uma que fosse profana, isto é, de porte leviano ou de comportamento indecente.
Ou melhor: não deve casar com uma repudiada, porque havia motivo para pensar que era por alguma falta que ela fora repudiada.
Aos sacerdotes era proibido desvalorizarem-se com casamentos como estes, que eram consentidos aos outros:
Para que isso não trouxesse descrédito presente ao seu ministério, não endurecesse os profanos na sua profanidade e não entristecesse os corações das pessoas sérias. O Novo Testamento dá leis às mulheres dos ministros (1 Timóteo 3:11): que sejam “graves” e “sóbrias”, para que o ministério não seja censurado.
Para que isso não legasse descrédito às suas famílias; pois o trabalho e a honra do sacerdócio deviam descer como herança aos seus filhos depois deles.
Não olham pelo bem da sua posteridade como deviam os que não têm o cuidado de casar com pessoas de boa fama e caráter. Quem quiser buscar “uma semente piedosa” (como diz a expressão, Malaquias 2:15) deve primeiro buscar uma mulher piedosa, e acautelar-se de uma corrupção do sangue.
Acrescenta-se aqui (v. 8): “Tu o santificarás, e ele te será santo”. “Não só tu, ó Moisés, cuidando de que estas leis sejam observadas, mas tu, ó Israel, por todos os esforços possíveis para manter a reputação do sacerdócio, que os próprios sacerdotes nada devem fazer para expor ou perder. Ele é santo ao seu Deus (v. 7), portanto ele te será santo.”
Repare: Devemos honrar aqueles a quem o nosso Deus confere honra. Os ministros do evangelho, por esta regra, devem ser estimados muitíssimo em amor, por causa das suas obras (1 Tessalonicenses 5:13), e todo cristão deve considerar-se interessado em ser o guardião da honra deles.
III. Os seus filhos devem temer fazer qualquer coisa que os desabone (v. 9): Se a filha de algum sacerdote se prostituir, o seu crime é grande; ela não só se contamina, mas “se profana”: as outras mulheres não têm aquela honra a perder que ela tem. Como alguém da família de um sacerdote, ela comeu das coisas santas, e se supõe ter sido mais bem educada que as outras.
Ou melhor: “ela profana a seu pai”; recai sobre ele o desdouro, e todos estarão prontos a perguntar: “Por que ele não a ensinou melhor?” E os pecadores em Sião insultarão e dirão: “Aí está a filha do sacerdote de vocês”.
O castigo dela devia então ser peculiar: “Será queimada no fogo”, para terror de todas as filhas de sacerdotes. Repare: Os filhos dos ministros devem, mais que todos os outros, acautelar-se de fazer qualquer coisa escandalosa, porque neles isso é duplamente escandaloso, e será punido de acordo por aquele cujo nome é Zeloso.
Versículos 10 a 15
Esperava-se mais de um sacerdote que das outras pessoas, mas mais do sumo sacerdote que dos outros sacerdotes, porque sobre a sua cabeça fora derramado o óleo da unção, e ele fora consagrado para vestir as vestes (v. 10), coisas ambas que eram típicas da unção e do adorno do Senhor Jesus com todos os dons e graças do Espírito Santo, que ele recebeu sem medida.
É chamado de “a coroa do óleo da unção do seu Deus” (v. 12); pois a unção do Espírito é, para todos os que a têm, coroa de glória e diadema de formosura. O sumo sacerdote, sendo assim dignificado:
I. Não devia macular-se de modo algum pelos mortos, não, nem mesmo pelos seus parentes mais próximos, seu pai ou sua mãe, muito menos seu filho ou irmão, v. 11.
- Não devia usar as expressões comuns de tristeza nessas ocasiões, como descobrir a sua cabeça e rasgar as suas vestes (v. 10), tão perfeitamente despreocupado devia mostrar-se em todas as contrariedades e consolações desta vida.
Até a sua afeição natural devia ser tragada pela compaixão para com os ignorantes, pelo sentimento das suas enfermidades e por uma terna preocupação com a casa de Deus, da qual ele fora feito governante. Assim, sendo ele o santo a quem estavam confiados o tumim e o urim, não devia conhecer pai nem mãe, Deuteronômio 33:8, 9.
- Não devia chegar-se a corpo morto algum, v. 11. Se algum dos sacerdotes inferiores estivesse sob uma contaminação cerimonial, havia outros sacerdotes que podiam suprir o seu lugar; mas, se o sumo sacerdote fosse maculado, haveria maior falta dele.
E a proibição de ele ir a qualquer casa de luto, ou assistir a qualquer funeral, seria um indício para o povo da grandeza daquela dignidade a que ele fora elevado.
Nosso Senhor Jesus, o grande sumo sacerdote da nossa confissão, tocou o corpo morto da filha de Jairo, o esquife do filho da viúva e o túmulo de Lázaro, para mostrar que veio alterar a propriedade da morte e tirar-lhe o terror, quebrando o poder dela. Agora que ela não pode destruir, não macula.
- Não devia sair do santuário (v. 12); isto é, sempre que estivesse assistindo ou oficiando no santuário, onde costumava permanecer o dia todo no seu próprio aposento, não devia sair por ocasião alguma, nem encurtar a sua assistência ao Deus vivo, não, nem mesmo para prestar o último respeito a um parente moribundo.
Era profanação do santuário deixá-lo, enquanto a sua presença ali era requerida, por qualquer ocasião dessas; pois com isso ele preferia algum outro negócio ao serviço de Deus e ao negócio da sua profissão, ao qual devia fazer ceder todas as outras coisas.
Assim nosso Senhor Jesus não quis deixar de pregar para falar com a sua mãe e os seus irmãos, Mateus 12:48.
II. Não podia casar com uma viúva (como os outros sacerdotes podiam), muito menos com uma repudiada, ou com uma prostituta, v. 13, 14.
O motivo disso era estabelecer uma diferença entre ele e os outros sacerdotes neste ponto; e (como alguns sugerem) que ele fosse tipo de Cristo, a quem a igreja devia ser apresentada como “uma virgem casta”, 2 Coríntios 11:2. Veja Ezequiel 44:22.
Cristo deve ter o nosso primeiro amor, o nosso amor puro, o nosso amor inteiro; assim “as virgens te amam” (Cantares de Salomão 1:3), e só essas são aptas para seguir o Cordeiro, Apocalipse 14:4.
III. Não podia profanar a sua semente entre o seu povo, v. 15. Alguns o entendem como proibição de casar com alguém de condição inferior, o que seria um desabono para a sua família. Joiada, de fato, casou fora da sua própria tribo, mas então foi com a família real, 2 Crônicas 22:11.
Isto não era para ensiná-lo a ser orgulhoso, mas para ensiná-lo a ser puro, e a nada fazer de impróprio ao seu ofício e ao digno nome pelo qual era chamado. Ou pode ser uma advertência a ele quanto a dispor dos seus filhos: não deve profanar a sua semente casando-os de modo inadequado. Os filhos dos ministros são profanados se se prendem a jugo desigual com os incrédulos.
Versículos 16 a 24
Estando o sacerdócio restrito a uma família em particular, e legado a toda a descendência masculina dessa família ao longo das suas gerações, era muito provável que um ou outro, nas eras seguintes, dos que nascessem para o sacerdócio, tivesse defeitos e deformidades naturais: a honra do sacerdócio não os resguardaria de nenhuma daquelas calamidades que são comuns aos homens.
Diversos defeitos são aqui especificados; alguns que eram ordinariamente para a vida toda, como a cegueira; outros que podiam ser temporários, como a escamação ou a sarna, e, quando estes passavam, cessava a incapacidade. Ora:
I. A lei a respeito dos sacerdotes que tinham defeitos era:
- Que podiam viver do altar (v. 22): “comerá” dos sacrifícios com os outros sacerdotes, até “das coisas santíssimas”, como os pães da proposição e as ofertas pelo pecado, assim como “das coisas santas”, como os dízimos e as primícias, e a parte dos sacerdotes nas ofertas pacíficas.
Os defeitos eram tais que eles não podiam evitar, e por isso, embora não pudessem trabalhar, não deviam morrer de fome. Repare: Ninguém deve ser maltratado por causa das suas enfermidades naturais. Até o filho deformado na família deve ter a sua parte de filho.
- Contudo, não deviam servir ao altar, a nenhum dos dois altares, nem ser admitidos a assistir ou ajudar os outros sacerdotes na oferta de sacrifícios ou na queima de incenso, v. 17, 21, 23.
Os grandes homens escolhem ter à sua volta servos de boa aparência, e convinha que o grande Deus os tivesse assim na sua casa naquele tempo, quando ele teve por bem manifestar a sua glória em indicações externas dela.
Mas era especialmente requerido que se escolhessem homens de bela presença para ministrar nas coisas santas, por causa do povo, que era propenso a julgar segundo a aparência exterior, e a ter em pouca conta o serviço, por mais honroso que o tornasse a instituição divina, se os que o realizavam tivessem aspecto desprezível ou o fizessem desajeitadamente.
Esta provisão Deus fez para preservar a reputação do seu altar, para que ele não caísse, em tempo algum, em desprezo. Era para o crédito do santuário que ninguém aparecesse ali que estivesse de algum modo desfigurado, quer por natureza, quer por acidente.
II. Sob o evangelho:
Os que padecem de quaisquer defeitos como estes têm motivo para agradecer a Deus por não serem por isso excluídos de oferecer sacrifícios espirituais a Deus, nem, se de outra forma qualificados para isso, do ofício do ministério. Há muita alma sã e bela alojada num corpo achacado e deformado.
Contudo, devemos inferir daqui quão incapazes de servir a Deus aceitavelmente são aqueles cujas mentes são defeituosas e deformadas por algum vício reinante.
São indignos de ser chamados cristãos, e inaptos para ser empregados como ministros, os que são espiritualmente cegos, e coxos, e tortos, cujos pecados os tornam escandalosos e deformados, de modo que as ofertas do Senhor são abominadas por causa deles. As deformidades de Hofni e Fineias eram piores que qualquer dos defeitos aqui mencionados.
Por isso, os que são abertamente viciosos sejam afastados do sacerdócio como pessoas contaminadas; e todos os que são feitos sacerdotes espirituais para o nosso Deus estejam diante dele santos e sem defeito.
E consolem-se com isto: que, embora neste estado imperfeito tenham manchas que são as manchas dos filhos de Deus, contudo em breve comparecerão diante do trono de Deus sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante.