Levítico 20
Argumento
As leis que antes foram feitas são neste capítulo repetidas, e a elas se anexam penas, para que os que não fossem dissuadidos do pecado pelo temor de Deus fossem dissuadidos dele pelo temor do castigo.
Se não evitarmos tais e tais práticas porque a lei as fez pecado (e é mais aceitável quando procedemos por esse princípio de religião), certamente as evitaremos quando a lei as fez morte, por um princípio de preservação de si mesmo. Neste capítulo temos:
I. Muitos crimes particulares que são feitos capitais:
Entregar os seus filhos a Moloque, vv. 1-5.
Consultar feiticeiros, v. 6, 27.
Amaldiçoar os pais, v. 9.
O adultério, v. 10.
O incesto, v. 11, 12, 14, 17, 19-21.
As concupiscências desnaturadas, v. 13, 15, 16, 18.
II. Mandamentos gerais dados para que sejam santos, v. 7, 8, 22-26.
Versículos 1 a 9
Leis Morais. (a.C. 1490.)
Moisés recebe aqui ordem de dizer de novo aos filhos de Israel aquilo que, na prática, já tinha dito antes, v. 2. Estamos certos de que não foi repetição vã, mas muito necessária, para que dessem atenção mais diligente às coisas ditas e as cressem de grande importância, sendo tantas vezes inculcadas.
“Deus fala uma vez, sim, e duas”, e o que ele manda dizer de novo nós devemos estar dispostos a ouvir de novo, porque para nós é seguro, Filipenses 3:1.
I. Três pecados são ameaçados de morte nestes versículos:
- Pais que abusam dos filhos, sacrificando-os a Moloque, v. 2, 3. Há o mais grosseiro absurdo que pode haver em todos os ritos da idolatria, e todos eles são grande vergonha para a razão dos homens.
Mas nenhum pisou todas as honras da natureza humana como este, o queimar os filhos no fogo em honra de um deus de esterco.
Era prova evidente de que os seus deuses eram demônios, que desejavam a miséria e a ruína da humanidade e nela se deleitavam, e de que os adoradores eram piores que os animais que perecem, perfeitamente despojados não só da razão, mas do afeto natural.
A oferta de Isaque por Abraão não podia dar abono a esta prática bárbara, e muito menos podia dar-lhe origem, visto que, embora aquilo tivesse sido ordenado, foi diretamente revogado.
Contudo, tal era o poder do deus deste mundo sobre os filhos da desobediência que esta monstruosa peça de desumanidade era praticada em geral; e até os israelitas estavam em perigo de ser arrastados a ela, o que tornou necessário que se fizesse contra ela esta lei severa.
Não bastava dizer-lhes que podiam poupar os seus filhos (o fruto do seu corpo nunca seria aceito pelo pecado da sua alma), mas era preciso dizer-lhes:
(1.) Que o próprio criminoso seria morto como homicida: “O povo da terra o apedrejará com pedras” (v. 2), o que era tido como a pior das penas capitais entre os judeus. Se os filhos eram sacrificados à malícia do diabo, os pais tinham de ser sacrificados à justiça de Deus.
E, se o fato não pudesse ser provado ou os magistrados não cumprissem o seu dever, Deus tomaria a obra em suas próprias mãos: “Eu o extirparei”, v. 3.
Repare: os que escapam do castigo dos homens, contudo, não escaparão dos justos juízos de Deus; tão miseravelmente se enganam os que prometem a si mesmos impunidade no pecado.
Como podem escapar aqueles contra quem Deus volta o seu rosto, isto é, a quem ele olha com desagrado, a quem enfrenta como inimigo e contra quem combate?
A hediondez do crime é aqui exposta para justificar a sentença: ele contamina o santuário e profana o santo nome de Deus, pela honra de ambos os quais ele é zeloso.
Observe: a malignidade do pecado é posta naquilo que nele era peculiar a Israel. Quando os gentios sacrificavam os seus filhos, eram culpados de homicídio e de idolatria.
Mas, se os israelitas o faziam, incorriam na culpa adicional de contaminar o santuário (o qual frequentavam mesmo quando estavam sob esta culpa, como se pudesse haver acordo entre o templo de Deus e os ídolos) e de profanar o santo nome de Deus, pelo qual eram chamados, como se ele permitisse aos seus adoradores fazer tais coisas, Romanos 2:23, 24.
(2.) Que todos os seus auxiliares e cúmplices seriam igualmente extirpados pela justa mão de Deus.
Se os seus vizinhos o encobrissem e não quisessem apresentar-se como testemunhas contra ele — se os magistrados fechassem os olhos para ele e não quisessem proferir sentença contra ele, antes compadecendo-se da sua loucura do que odiando a sua impiedade —, o próprio Deus acertaria contas com eles, v. 4, 5.
O encobrimento da idolatria é crime da alçada do tribunal do céu, e que não ficará impune: “Porei o meu rosto contra esse homem” (esse magistrado, Jeremias 5:1) “e contra a sua família”. Repare:
[1.] A maldade do chefe de família muitas vezes traz a ruína sobre a família; e aquele que devia ser o guardião da casa vem a ser o arrombador dela.
[2.] Se os magistrados não quiserem fazer justiça contra os transgressores, Deus fará justiça contra eles, porque há perigo de que muitos se prostituam após aqueles que apenas dão abono ao pecado fechando os olhos a ele.
E, se os pecados dos que guiam são pecados que guiam outros, é justo que os seus castigos sejam castigos exemplares.
- Filhos que abusam dos pais, amaldiçoando-os, v. 9. Se os filhos falassem mal dos seus pais, ou lhes desejassem mal, ou se portassem com eles com desdém ou com rancor, era uma iniquidade para ser castigada pelos juízes, que eram empregados como conservadores tanto da honra de Deus quanto da paz pública, que eram ambas atacadas por esta insolência desnaturada.
Veja Provérbios 30:17: “O olho que zomba do seu pai, os corvos do vale o arrancarão”, o que dá a entender que tais filhos ímpios estavam em bom caminho para ser não só enforcados, mas enforcados e pendurados em correntes.
Esta lei de Moisés Cristo cita e confirma (Mateus 15:4), porque ela é uma quebra tão direta do quinto mandamento quanto o homicídio voluntário o é do sexto. A mesma lei que exige que os pais sejam ternos com os seus filhos exige que os filhos sejam respeitosos com os seus pais.
Aquele que trata com despeito os seus pais, os instrumentos do seu ser, investe contra o próprio Deus, o autor do seu ser, que não quer ver a dignidade e a autoridade paternas insultadas e pisadas.
- Pessoas que abusam de si mesmas consultando os que têm espíritos familiares, v. 6. Por isto, tanto quanto por qualquer outra coisa, o homem diminui, desacredita e engana a si mesmo, e assim abusa de si mesmo.
Que maior loucura pode haver do que o homem ir a um mentiroso buscar informação, e a um inimigo buscar conselho? Assim fazem os que se voltam para os que lidam com a arte negra e conhecem as profundezas de Satanás.
Isto é adultério espiritual tanto quanto a idolatria o é, dando ao diabo a honra que é devida só a Deus; e o Deus zeloso dará carta de divórcio aos que assim se prostituem longe dele, e os extirpará, tendo eles mesmos primeiro se extirpado dele.
II. No meio destas leis particulares entra aquela ordem geral, v. 7, 8, onde temos:
- Os deveres exigidos; e são dois:
(1.) Que nos nossos princípios, afetos e propósitos sejamos santos: “Santificai-vos e sede santos”. Devemos purificar-nos de todas as contaminações do pecado, consagrar-nos ao serviço e à honra de Deus e conformar-nos em tudo à sua santa vontade e imagem: isto é santificar-nos.
(2.) Que em todas as nossas ações, e em todo o curso da nossa conduta, sejamos obedientes às leis de Deus: “Guardareis os meus estatutos”. Só por isto podemos fazer parecer que nos santificamos e somos santos, isto é, pela nossa guarda dos mandamentos de Deus; a árvore se conhece pelo seu fruto.
Nem podemos guardar os estatutos de Deus como devemos, a menos que primeiro nos santifiquemos e sejamos santos. “Fazei boa a árvore, e o fruto será bom.”
- As razões que reforçam estes deveres:
(1.) “Eu sou o Senhor vosso Deus; por isso sede santos, para que vos assemelheis àquele de quem sois povo, e lhe sejais agradáveis. A santidade convém à sua casa e à sua família.”
(2.) “Eu sou o Senhor que vos santifica.” Deus os santificou por privilégios, leis e favores peculiares, que os distinguiam de todas as outras nações e os dignificavam como povo separado para Deus.
Deu-lhes a sua palavra e as suas ordenanças para serem meios da sua santificação, e o seu bom Espírito para instruí-los; por isso eles tinham de ser santos, do contrário receberiam nisto a graça de Deus em vão. Repare:
[1.] O povo de Deus é, e tem de ser, gente distinta. Deus o distinguiu pela sua santa aliança, e por isso ele deve distinguir-se pela sua santa conduta.
[2.] O santificar-nos Deus é boa razão para que nos santifiquemos a nós mesmos, para que nos conformemos aos desígnios da sua graça e não andemos contrários a eles.
Se é o Senhor que nos santifica, podemos esperar que a obra será feita, embora seja difícil. A forma de expressão é semelhante àquela de 2 Coríntios 5:5: “Aquele que para isto mesmo nos formou é Deus”.
E a sua graça está tão longe de dispensar o nosso cuidado e o nosso esforço que é ela que mais fortemente os empenha e os anima. “Operai a vossa salvação, porque é Deus que opera em vós.”
Versículos 10 a 21
Os pecados contra o sétimo mandamento recebem aqui ordem de ser severamente castigados. São pecados de que, entre todos os outros, os insensatos são os mais inclinados a fazer zombaria; mas Deus queria ensinar a hediondez da culpa, pela extremidade do castigo, àqueles que de outro modo não a aprenderiam.
I. Deitar-se com a mulher de outro homem foi feito crime capital. O adúltero e a adúltera que se tinham unido no pecado deviam cair igualmente sob a sentença: “ambos serão mortos”, v. 10.
Muito antes disto, já no tempo de Jó, isto era reputado “um crime hediondo” e “uma iniquidade para ser castigada pelos juízes”, Jó 31:11. É um desprezo presunçoso de uma ordenança de Deus e uma violação da sua aliança, Provérbios 2:17.
É um dano irreparável ao marido ofendido, e corrompe a mente e a consciência de ambos os transgressores tanto quanto qualquer outra coisa. É um pecado a que as concupiscências teimosas e desenfreadas arrastam os homens com violência, e por isso precisa de um freio poderoso como este.
É um pecado que contamina a terra e traz sobre ela os juízos de Deus, que perturba as famílias e tende à ruína de toda virtude e religião; por isso é próprio que seja punido pelos conservadores da paz pública. Mas veja João 8:3-11.
II. As uniões incestuosas, fossem por casamento ou não:
- Algumas delas deviam ser castigadas com a morte, como o deitar-se o homem com a mulher do seu pai, v. 11. Rúben teria sido morto pelo seu crime (Gênesis 35:22) se esta lei já tivesse sido feita então.
Era o pecado do coríntio incestuoso, pelo qual ele devia ser “entregue a Satanás”, 1 Coríntios 5:1, 5. O homem que corrompesse a sua nora, ou a sua sogra, ou a sua irmã devia igualmente ser castigado com a morte, v. 12, 14, 17.
- Outras delas Deus castigaria com a maldição da esterilidade, como o homem que contaminasse a sua tia, ou a mulher do seu irmão (vv. 19-21): “Morrerão sem filhos”.
Os que não se mantêm dentro das regras divinas do casamento perdem as bênçãos do casamento: “Cometerão prostituição, e não se multiplicarão”, Oseias 4:10.
Mais ainda, diz-se: “Levarão a sua iniquidade”, isto é, ainda que não sejam extirpados sem mediação pela mão de Deus ou do homem por este pecado, contudo a culpa dele pesará sobre eles, para ser tomada em conta em outro dia, e não será expiada com sacrifício nem com oferta.
III. As concupiscências desnaturadas da sodomia e da bestialidade (pecados que não se devem mencionar sem horror) deviam ser castigadas com a morte, como o eram, no tempo do autor, pela lei de seu país, v. 13, 15, 16.
Até o animal de que assim se abusara devia ser morto com o pecador, que por isso era exposto abertamente à maior vergonha; e a vileza era assim representada como execrável e abominável no mais alto grau, devendo ser tiradas todas as ocasiões de lembrá-la ou de mencioná-la.
Até as relações conjugais em tempo proibido, se praticadas deliberadamente em desprezo da lei, exporiam os transgressores ao justo juízo de Deus: “serão extirpados”, v. 18. Porque esta é a vontade de Deus, que cada um possua o seu vaso (e a mulher é chamada “vaso mais fraco”) em santificação e honra, como convém a santos.
Versículos 22 a 27
O último versículo é uma lei particular, que vem depois da conclusão geral, como se tivesse sido omitida no seu devido lugar: é para que sejam mortos os que lidavam com espíritos familiares, v. 27.
Seria uma afronta a Deus e aos seus oráculos vivos, um escândalo para o país e uma tentação para gente má e ignorante consultá-los, se fossem conhecidos e se lhes permitisse viver entre eles.
Os que estão em pacto com o diabo fizeram, na prática, aliança com a morte e acordo com o inferno, e assim será a sentença deles.
Os demais destes versículos repetem e inculcam o que tinha sido dito antes. Porque, para aquele povo desatento e esquecido, era necessário que houvesse linha sobre linha, e que as regras gerais, com as suas razões, fossem frequentemente reiteradas, para reforçar as leis particulares e torná-las mais eficazes.
Três coisas nos são aqui lembradas:
I. A dignidade deles:
Tinham o Senhor por seu Deus, v. 24. Eram dele, o seu cuidado, a sua escolha, o seu tesouro, as suas joias, o seu reino de sacerdotes (v. 26): “Para que sejais meus”. Feliz o povo, e verdadeiramente grande, que está em tal condição.
O seu Deus era um Deus santo (v. 26), infinitamente elevado acima de todos os outros. A sua santidade é a sua glória, e era honra deles estar ligados a ele, enquanto os seus vizinhos eram os infames adoradores de espíritos impuros e sujos.
O grande Deus os tinha separado dos outros povos (v. 24), e de novo, v. 26. As outras nações eram o campo comum; eles eram o cercado, embelezado e enriquecido com privilégios peculiares e destinado a honras peculiares.
Que se valorizassem, portanto, de acordo com isso, preservassem a sua honra e não a deitassem no pó andando no caminho dos gentios.
II. O dever deles; este se deduz da sua dignidade. Deus tinha feito mais por eles do que pelos outros, e por isso esperava mais deles do que dos outros. E que é que o Senhor seu Deus exige, em consideração das grandes coisas feitas e destinadas?
“Guardareis todos os meus estatutos” (v. 22); e havia toda a razão do mundo para que os guardassem, porque os estatutos eram a sua honra, e a obediência a eles seria o seu consolo duradouro.
“Não andareis nos costumes das nações”, v. 23. Estando separados delas, não deviam associar-se a elas nem aprender os seus caminhos. Os costumes das nações eram bastante maus nelas, mas seriam muito piores no povo de Deus.
“Fareis diferença entre o limpo e o imundo”, v. 25. Isto é santidade: discernir entre as coisas que diferem, não viver à solta, como se pudéssemos dizer e fazer qualquer coisa, mas falar e agir com cautela.
“Não fareis abomináveis as vossas almas”, v. 25. O nosso cuidado constante deve ser preservar a honra das nossas próprias almas, preservando a sua pureza, e nunca fazer coisa alguma que as torne abomináveis a Deus e à nossa própria consciência.
III. O perigo deles:
- Estavam indo para um lugar infectado (v. 24): “Herdareis a sua terra, terra que mana leite e mel”, da qual teriam o consolo se guardassem a sua integridade.
Mas, ao mesmo tempo, era uma terra cheia de ídolos, idolatrias e usos supersticiosos, pelos quais estariam propensos a se apaixonar, tendo trazido consigo do Egito uma estranha disposição para pegar essa infecção.
- Se pegassem a infecção, ela lhes seria de consequência perniciosa. Os cananeus deviam ser expulsos por estes próprios pecados: “Fizeram todas estas coisas, e por isso os abominei”, v. 23.
Veja que coisa má é o pecado: ele provoca Deus a abominar as suas próprias criaturas, ao passo que de outro modo ele se deleita na obra das suas mãos.
E, se os israelitas pisassem nas pegadas da impiedade deles, deviam esperar que a terra os vomitasse (v. 22), como ele lhes tinha dito antes, Levítico 18:28.
Se Deus não poupou os ramos naturais, mas os quebrou, também não pouparia os que foram enxertados, se degenerassem. Assim a rejeição dos judeus fica como advertência a todas as igrejas cristãs, para que tomem cuidado de que o reino de Deus não lhes seja tirado.
Os que pecam como os outros devem esperar sofrer como eles; e declararem que pertencem a Deus não lhes dará segurança alguma.