Levítico 17
Argumento
Depois da lei a respeito da expiação que devia ser feita em favor de todo o Israel pelo sumo sacerdote, no tabernáculo, com o sangue de touros e de bodes, temos neste capítulo duas proibições necessárias para preservar a honra dessa expiação:
I. Que nenhum sacrifício fosse oferecido por outro que não os sacerdotes, nem em lugar algum a não ser à porta do tabernáculo, e isto sob pena de morte, vv. 1-9.
II. Que nenhum sangue fosse comido, e isto sob a mesma penalidade, v. 10, etc.
Versículos 1 a 8
Instruções a Respeito dos Sacrifícios. (a.C. 1490.)
Este estatuto obrigava todo o povo de Israel a trazer todos os seus sacrifícios ao altar de Deus, para serem oferecidos ali. E quanto a este assunto devemos considerar:
I. Como a coisa estava antes:
Era permitido a todas as pessoas construir altares e oferecer sacrifícios a Deus onde quisessem. Onde quer que Abraão tivesse uma tenda, construía um altar, e cada chefe de família era sacerdote da sua própria família, como em Jó 1:5.
Essa liberdade tinha sido ocasião de idolatria. Quando cada homem era o seu próprio sacerdote e tinha um altar seu, aos poucos, à medida que se tornavam vãos nas suas imaginações, inventaram deuses próprios e ofereceram os seus sacrifícios a demônios, v. 7.
A palavra significa bodes ásperos, ou peludos, porque é provável que sob essa forma os espíritos malignos muitas vezes lhes aparecessem, para convidar os sacrifícios deles e para dar sinal de que os aceitavam.
Pois o diabo, desde que se tornou desertor de Deus e rebelde contra ele, apresentou-se como rival dele e cobiçou que lhe fossem prestadas honras divinas: teve o atrevimento de solicitar ao nosso bendito Salvador que se prostrasse e o adorasse.
Os próprios israelitas tinham aprendido no Egito a sacrificar a demônios. E alguns deles, ao que parece, praticavam isso mesmo depois que o Deus de Israel tinha aparecido tão gloriosamente em favor deles, e com eles.
Diz-se que eles se prostituíam após esses demônios, porque isso era uma quebra da aliança deles com Deus tal como o adultério é da aliança do casamento.
E estavam tão fortemente dados aos seus cultos idólatras, e eram tão difíceis de afastar deles, quanto aqueles que se entregaram à fornicação, para cometer toda impureza com avidez. E por isso é com referência a isto que Deus se chama de Deus zeloso.
II. Como esta lei a resolveu:
- Alguns pensam que por esta lei os filhos de Israel ficaram proibidos, enquanto estavam no deserto, de matar qualquer boi, carneiro, vitela, cordeiro ou bode, mesmo para a alimentação comum, a não ser à porta do tabernáculo.
Ali o sangue e a gordura deviam ser oferecidos a Deus sobre o altar, e a carne devolvida ao ofertante para ser comida como oferta pacífica, segundo a lei.
E o estatuto está redigido (v. 3, 4) de modo a favorecer esta opinião, porque fala em termos gerais de matar qualquer boi, cordeiro ou bode.
O erudito Dr. Cudworth dá este sentido ao texto e pensa que, enquanto tinham o tabernáculo tão perto deles, no meio do arraial, não comiam outra carne senão a que tivesse sido primeiro oferecida a Deus.
Mas que, ao entrarem em Canaã, essa constituição foi alterada (Deuteronômio 12:21), e ficaram autorizados a matar em casa os animais do rebanho e da manada, assim como o corço e o veado.
Só três vezes por ano deviam ver a Deus no seu tabernáculo, e comer e beber diante dele ali.
E é provável que no deserto não comessem muita carne além da das suas ofertas pacíficas, preservando o gado que tinham, para criação, até que chegassem a Canaã.
Por isso murmuraram por carne, cansados do maná; e Moisés, naquela ocasião, fala como se eles fossem muito parcimoniosos com os rebanhos e as manadas, Números 11:4, 22.
Contudo, é difícil interpretar isto como lei temporária, quando expressamente se diz que é um “estatuto perpétuo” (v. 7). E por isso:
- Ao que parece, ela antes proíbe apenas matar animais para sacrifício em qualquer lugar que não o altar de Deus.
Eles não deviam oferecer sacrifício, como tinham feito, em pleno campo (v. 5) — não, nem mesmo ao Deus verdadeiro —, mas devia ser trazido ao sacerdote, para ser oferecido sobre o altar do Senhor.
E a solenidade que tinham presenciado havia pouco, a de consagrar tanto os sacerdotes quanto o altar, serviria de boa razão para que se limitassem a esses dois que Deus tão assinaladamente designou e reconheceu.
Esta lei obrigava não só os próprios israelitas, mas os prosélitos, ou estrangeiros, que eram circuncidados e peregrinavam entre eles, e que corriam o risco de reter afeição aos seus antigos modos de culto.
Se alguém transgredisse esta lei e oferecesse sacrifício em qualquer lugar que não o tabernáculo:
(1.) A culpa era grande: “Sangue será imputado a esse homem; ele derramou sangue”, v. 4. Ainda que fosse apenas um animal que ele tivesse matado, matando-o de outro modo que não o que Deus determinara, era tido por homicida.
É por concessão divina que temos a liberdade de matar as criaturas inferiores, benefício a que não temos direito a não ser que nos submetamos às limitações dele, que são estas: que não se faça nem com crueldade nem com superstição, Gênesis 9:3, 4.
Nem jamais se fez abuso maior às criaturas inferiores do que quando delas se fizeram ou falsos deuses ou sacrifícios a falsos deuses.
É a isto, talvez, que o apóstolo tem referência especial quando fala da vaidade e da servidão da corrupção a que a criatura foi sujeita, Romanos 8:20, 21; e compare com Romanos 1:23, 25.
Os sacrifícios idólatras eram considerados não só adultério, mas homicídio: “quem os oferece é como se matasse um homem”, Isaías 66:3.
(2.) A punição devia ser severa: “Esse homem será extirpado do meio do seu povo.”
Ou o magistrado devia fazê-lo, se o caso fosse manifesto e notório, ou, se não, Deus tomaria a obra nas próprias mãos, e o transgressor seria extirpado por algum golpe direto da justiça divina.
As razões pelas quais Deus ordenou tão estritamente que todos os sacrifícios deles fossem oferecidos num só lugar eram estas:
[1.] Para impedir a idolatria e a superstição. Para que os sacrifícios fossem oferecidos a Deus, e segundo a regra, e sem inovações, deviam sempre ser oferecidos pelas mãos dos sacerdotes.
Estes eram servos na casa de Deus, e estavam sob o olho do sumo sacerdote, que era o governante da casa e cuidava de que tudo se fizesse segundo a ordenança de Deus.
[2.] Para assegurar a honra do templo e do altar de Deus, cuja dignidade peculiar ficaria em perigo se pudessem oferecer os seus sacrifícios em qualquer outro lugar tão bem como ali.
[3.] Para preservar a unidade e o amor fraternal entre os israelitas, para que, encontrando-se todos num só altar, assim como todos os filhos da família se encontram diariamente numa só mesa, vivessem e amassem como irmãos, e fossem como um só homem, de um só ânimo no Senhor.
III. Como esta lei foi observada:
- Enquanto os israelitas guardaram a sua integridade, tiveram por esta lei uma consideração terna e muito zelosa, como se vê pelo zelo deles contra o altar que foi erguido pelas duas tribos e meia.
De modo nenhum o teriam deixado de pé se não estivessem convencidos de que ele nunca fora destinado, nem jamais deveria ser usado, para sacrifício, ou oferta, Josué 22:12, etc.
A quebra desta lei foi por muitas eras a corrupção escandalosa e incurável da igreja judaica. Testemunha disso é aquela queixa que tantas vezes ocorre na história até dos reis bons: “Contudo, os altos não foram tirados”; e foi porta de entrada para as mais grosseiras idolatrias.
Contudo, esta lei foi, em casos extraordinários, dispensada. O sacrifício de Gideão (Juízes 6:26), o de Manoá (Juízes 13:19), os de Samuel (1 Samuel 7:9; 9:13; 11:15), o de Davi (2 Samuel 24:18) e o de Elias (1 Reis 18:23) foram aceitos, ainda que não oferecidos no lugar de costume.
Mas todos eles ou foram ordenados por anjos ou oferecidos por profetas; e alguns pensam que, depois da desolação de Siló e antes da construção do templo, enquanto a arca e o altar estavam sem lugar fixo, era mais admissível oferecer sacrifício em outro lugar.
IV. Como a coisa está agora, e que uso devemos fazer desta lei:
- É certo que os sacrifícios espirituais que agora devemos oferecer não estão confinados a nenhum lugar único. O nosso Salvador deixou isto claro (João 4:21), e o apóstolo (1 Timóteo 2:8), segundo a profecia de que “em todo lugar se ofereceria incenso”, Malaquias 1:11.
Agora não temos nem templo nem altar que santifique a oferta, nem a unidade do evangelho está num só lugar, mas num só coração, e na unidade do espírito.
- Cristo é o nosso altar, e o verdadeiro tabernáculo (Hebreus 8:2; 13:10); nele Deus habita entre nós, e é nele que os nossos sacrifícios são aceitáveis a Deus, e somente nele, 1 Pedro 2:5.
Estabelecer outros mediadores, ou outros altares, ou outros sacrifícios expiatórios é, na prática, estabelecer outros deuses. Ele é o centro da unidade, em quem todo o Israel de Deus se encontra.
- Contudo, devemos ter respeito ao culto público de Deus, não abandonando as assembleias do seu povo, Hebreus 10:25.
“O Senhor ama as portas de Sião mais do que todas as moradas de Jacó”, e assim devemos amá-las nós; veja Ezequiel 20:40.
Ainda que Deus aceite graciosamente as nossas ofertas em família, não devemos por isso negligenciar a porta do tabernáculo.
Versículos 10 a 16
Proibido Comer Sangue. (a.C. 1490.)
Temos aqui:
I. Uma repetição e confirmação da lei contra o comer sangue.
Encontramos esta proibição duas vezes antes na lei levítica (Levítico 3:17; 7:26), além do lugar que ela teve nos preceitos de Noé, Gênesis 9:4. Mas aqui:
A proibição é repetida uma e outra vez, e se faz referência às leis anteriores neste teor (v. 12): “Eu disse aos filhos de Israel: Nenhuma alma de vós comerá sangue”; e de novo (v. 14): “Não comereis o sangue de nenhuma espécie de carne”. Insiste-se muito nela, como lei que tem em si mais do que à primeira vista se pensaria.
É tornada obrigatória não só para a casa de Israel, mas também para os estrangeiros que peregrinavam entre eles (v. 10), o que talvez tenha sido uma das razões por que se julgou aconselhável, por um tempo, proibir o sangue aos convertidos de entre os gentios, Atos 15:29.
A penalidade ligada a esta lei é severíssima (v. 10): “Até porei o meu rosto contra aquela alma que comer sangue”, se o fizer deliberadamente, em desafio, “e a extirparei”; e de novo (v. 14): “Será extirpado”.
Repare: a ira de Deus será a ruína do pecador. Dê por perdido, perdido para sempre, o homem contra quem Deus põe o rosto; pois que criatura é capaz de enfrentar o Criador?
- É dada uma razão para esta lei (v. 11): “porque é o sangue que faz expiação em favor da alma”; e por isso ele foi designado para com ele se fazer expiação, porque a vida da carne é o sangue. O pecador merecia morrer; portanto o sacrifício tinha de morrer.
Ora, sendo o sangue de tal modo a vida que os animais eram comumente mortos, para uso do homem, pela extração de todo o seu sangue, Deus determinou a aspersão, ou derramamento, do sangue do sacrifício sobre o altar, para significar que a vida do sacrifício era dada a Deus em lugar da vida do pecador, como resgate ou preço equivalente por ela.
Por isso, “sem derramamento de sangue não havia remissão”, Hebreus 9:22. Por esta razão eles não deviam comer sangue nenhum. E:
(1.) Era então uma razão muito boa, pois por este meio Deus preservaria a honra daquela via de expiação que ele havia instituído, e manteria na mente do povo uma consideração reverente por ela.
Sendo então o sangue da aliança um objeto perceptível aos sentidos, nenhum sangue devia ser comido nem pisado aos pés como coisa comum, assim como eles não deviam ter unguento nem perfume iguais ao que Deus lhes mandou fazer para si.
(2.) Mas esta razão está agora suplantada, o que dá a entender que a própria lei era cerimonial e já não está em vigor: o sangue de Cristo, que já veio (e não devemos esperar outro), é o único que faz expiação em favor da alma, e do qual o sangue dos sacrifícios era um tipo imperfeito: a vinda da substância suplanta a sombra.
O sangue de animais já não é o resgate, mas somente o sangue de Cristo; e por isso já não existe agora aquela razão para se abster de sangue que existia então, e não podemos supor que fosse a vontade de Deus que a lei sobrevivesse à razão dela.
O sangue, contanto que seja preparado de modo a não ser nocivo, é agora permitido para o alimento dos nossos corpos, porque já não está designado para fazer expiação em favor da alma.
(3.) Contudo, ele continua a ter um significado útil. A vida está no sangue; ele é o veículo dos espíritos animais, e Deus queria que o seu povo tivesse consideração pela vida até dos seus animais, e não fosse cruel nem de coração duro, nem se deleitasse em nada que seja bárbaro.
Eles não deviam ser um povo sedento de sangue. O sangue fazia então expiação figuradamente; agora o sangue de Cristo faz expiação real e eficazmente. Por isso devemos ter por ele uma consideração reverente, e não usá-lo como coisa comum, porque ele porá o rosto contra os que assim fazem, e serão extirpados, Hebreus 10:29.
II. Alguns outros preceitos são dados aqui como apêndices desta lei e cercas em torno dela:
- Eles deviam cobrir o sangue do que apanhassem na caça, v. 13. Não deviam apenas não comê-lo, mas dar-lhe sepultura decente, em sinal de algum mistério que deviam crer estar oculto nesta determinação.
Os judeus consideram este um preceito de muito peso, e determinam que o sangue seja coberto com estas palavras: “Bendito seja aquele que nos santificou pelos seus preceitos e nos ordenou cobrir o sangue”.
- Eles não deviam comer o que morresse por si mesmo ou fosse dilacerado por feras (v. 15), porque o sangue, ou não fora extraído deles, ou não fora extraído de modo regular.
Deus queria que fossem criteriosos na alimentação, não com o requinte que satisfaz o apetite sensual, mas com o cuidado que o refreia e o restringe.
Deus não queria que os seus filhos comessem com sofreguidão tudo o que lhes viesse à mão, mas que considerassem com cuidado o que estava diante deles, para que aprendessem, em outras coisas, a fazer perguntas por causa da consciência. Os que se lançaram sobre o despojo pecaram, 1 Samuel 14:32, 33.
Se um homem, por ignorância ou por desatenção, comesse a carne de algum animal não morto devidamente, devia lavar-se a si e às suas roupas; do contrário, levava a sua iniquidade, v. 15, 16.
A poluição era cerimonial, e assim também a purificação dela; mas, se um homem desprezasse o método de purificação prescrito, ou não quisesse submeter-se, contraía com isso culpa moral.
Veja a natureza de uma lei de remédio: quem a obedece tem o benefício dela; quem não a obedece não só permanece sob a sua culpa anterior, mas acrescenta a ela a culpa de desprezar as provisões que a graça divina fez para o seu alívio, e peca contra o remédio.