Matthew Henry

Levítico 13

Argumento

A imundícia cerimonial seguinte é a da lepra, a respeito da qual a lei foi muito extensa e minuciosa; temos neste capítulo a descoberta dela, e a purificação do leproso no capítulo seguinte. Quase nenhuma coisa em toda a lei levítica ocupa tanto espaço quanto esta.

I. São dadas aqui regras pelas quais o sacerdote deve julgar se o homem tinha ou não a lepra, conforme fosse o sintoma que aparecesse:

  1. Se era uma inchação, uma crosta ou uma mancha lustrosa, vv. 1-17.

  2. Se era um furúnculo, vv. 18-23.

  3. Se era uma inflamação, vv. 24-28.

  4. Se era na cabeça ou na barba, vv. 29-37.

  5. Se era uma mancha lustrosa, v. 38, 39.

  6. Se era numa cabeça calva, vv. 40-44.

II. É dada instrução sobre como se deve proceder com o leproso, v. 45, 46.

III. A respeito da lepra nas roupas, v. 47, etc.

Versículos 1 a 17

A Lei a Respeito da Lepra. (a.C. 1490.)

I. A respeito da praga da lepra, podemos observar em geral:

  1. Que era antes uma imundícia do que uma doença; ou, ao menos, assim a lei a considerava, e por isso empregou nela não os médicos, mas os sacerdotes. Diz-se que Cristo purifica os leprosos, não que os cura.

Não lemos de ninguém que tenha morrido de lepra; ela antes os sepultava vivos, tornando-os impróprios para o convívio com quaisquer outros que não os que estivessem infectados como eles.

Há, contudo, uma tradição de que Faraó, que procurou matar Moisés, foi o primeiro que já foi ferido com esta doença, e que morreu dela. Diz-se que ela começou primeiro no Egito, de onde se espalhou para a Síria. Era muito bem conhecida de Moisés, quando ele pôs a própria mão no peito e a tirou leprosa.

  1. Que era uma praga infligida diretamente pela mão de Deus, e não vinha de causas naturais, como as outras doenças; e por isso devia ser tratada segundo uma lei divina.

A lepra de Miriã, a de Geazi e a do rei Uzias foram todas castigos de pecados particulares.

E, se em geral era assim, não é de admirar que se tomasse tanto cuidado em distingui-la de uma moléstia comum, para que ninguém fosse tido como estando sob este sinal extraordinário do desagrado divino senão aqueles que realmente estivessem.

  1. Que é uma praga hoje desconhecida no mundo; o que comumente se chama de lepra é de natureza bem diferente. Parece que esta ficou reservada como flagelo particular para os pecadores daqueles tempos e daqueles lugares.

Os judeus conservaram os costumes idólatras que tinham aprendido no Egito, e por isso Deus com justiça fez que esta, com algumas outras das doenças do Egito, os seguisse. Ainda assim, lemos de Naamã, o sírio, que era leproso, 2 Reis 5:1.

  1. Que havia outras erupções no corpo que se pareciam muito com a lepra, mas não eram lepra, e que podiam deixar um homem chagado e repugnante sem que ficasse cerimonialmente imundo.

Com razão os nossos corpos são chamados de corpos vis, pois trazem em si as sementes de tantas doenças, pelas quais a vida de tantos lhes é tornada amarga.

  1. Que o julgamento dela era remetido aos sacerdotes. Os leprosos eram tidos como marcados pela justiça de Deus, e por isso a coisa ficou entregue aos seus servos, os sacerdotes, de quem se podia presumir que conhecessem melhor a marca dele, para declarar quem era leproso e quem não era.

Todos os judeus dizem: “Qualquer sacerdote, ainda que impedido por um defeito de servir no santuário, podia ser juiz da lepra, contanto que o defeito não estivesse no olho. E ele podia” (dizem eles) “tomar uma pessoa comum para auxiliá-lo no exame, mas só o sacerdote devia pronunciar o julgamento.”

  1. Que era figura da impureza moral da mente dos homens pelo pecado, que é a lepra da alma, contaminadora da consciência, e da qual só Cristo pode nos purificar.

Pois nisto o poder da sua graça transcende infinitamente o do sacerdócio legal: o sacerdote só podia declarar a condição do leproso (porque “pela lei vem o conhecimento do pecado”), mas Cristo pode curar o leproso, ele pode tirar o pecado.

“Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo” — o que era mais do que os sacerdotes podiam fazer, Mateus 8:2.

Alguns pensam que a lepra significava, não tanto o pecado em geral, quanto um estado de pecado, pelo qual os homens ficam separados de Deus (não sendo a mancha deles a mancha dos filhos de Deus), e o pecado escandaloso, por causa do qual os homens devem ser excluídos da comunhão dos fiéis.

É obra de grande importância, mas de grande dificuldade, julgar do nosso estado espiritual. Todos temos motivo para suspeitar de nós mesmos, tendo consciência em nós mesmos de chagas e de manchas; mas a questão é se estamos limpos ou imundos.

Um homem podia ter uma crosta (v. 6) e ainda assim estar limpo: os melhores têm as suas fraquezas.

Mas, assim como havia certas marcas pelas quais se conhecia que era lepra, também há sinais dos que estão no fel de amargura; e a obra dos ministros é declarar o diagnóstico da lepra e auxiliar os que suspeitam de si mesmos no exame do seu estado espiritual, perdoando ou retendo o pecado.

E daí se diz que as chaves do reino dos céus lhes foram dadas, porque a eles cabe separar entre o precioso e o vil, e julgar quem, como limpo, está apto a participar das coisas santas, e quem, como imundo, deve ser afastado delas.

II. Diversas regras são aqui estabelecidas, pelas quais o julgamento do sacerdote deve ser governado:

  1. Se a chaga fosse só superficial, era de esperar que não fosse lepra, v. 4. Mas, se fosse mais funda que a pele, o homem devia ser declarado imundo, v. 3.

As fraquezas que coexistem com a graça não penetram fundo na alma, mas a mente serve continuamente à lei de Deus, e o homem interior se deleita nela, Romanos 7:22, 25. Mas, se a coisa é realmente pior do que aparenta, e as entranhas estão infectadas, o caso é perigoso.

  1. Se a chaga estiver parada e não se espalhar, não é lepra, v. 4, 5. Mas, se ela se espalhar muito e continuar assim depois de diversas inspeções, o caso é grave, v. 7, 8.

Se os homens não pioram, e se um freio é posto ao curso dos seus pecados e as suas corrupções são contidas, é de esperar que melhorem; mas, se o pecado ganha terreno e eles se tornam piores a cada dia, estão indo ladeira abaixo.

  1. Se houvesse carne viva e saliente na inchação, o sacerdote não precisava esperar mais: era certamente lepra, v. 10, 11.

E não há indicação mais segura da má condição espiritual de um homem do que a elevação do coração em presunção, a confiança na carne e a resistência às repreensões da palavra e às insistências do Espírito.

  1. Se a erupção, qualquer que fosse, cobrisse toda a pele da cabeça aos pés, não era lepra (v. 12, 13); pois era prova de que as partes vitais estavam sãs e fortes, e a natureza assim se socorria a si mesma, lançando fora o que era pesado e pernicioso.

Há esperança na varíola quando a erupção se manifesta por completo. Assim também, se os homens confessam livremente os seus pecados e não os escondem, não há perigo comparável ao daqueles que encobrem os seus pecados.

Alguns concluem daí que há mais esperança para os profanos do que para os hipócritas. Os publicanos e as meretrizes entraram no reino dos céus antes dos escribas e dos fariseus.

Num certo aspecto, as erupções súbitas da paixão, embora bastante más, não são tão perigosas quanto a malícia escondida.

Outros concluem isto: que, se nos julgarmos a nós mesmos, não seremos julgados; que, se virmos e reconhecermos que não há saúde em nós, nem coisa sã na nossa carne, por causa do pecado, acharemos graça aos olhos do Senhor.

  1. O sacerdote devia tomar tempo para fazer o seu julgamento, e não o proferir temerariamente. Se o caso parecesse suspeito, devia manter o paciente recluso por sete dias, e depois por mais sete dias, para que o seu julgamento fosse conforme a verdade.

Isto ensina a todos, tanto aos ministros quanto ao povo, a não serem apressados nas suas censuras, nem a julgar coisa alguma antes do tempo.

Se os pecados de uns vão adiante para o juízo, os de outros vão atrás, e assim também as boas obras dos homens; por isso, que nada se faça precipitadamente, 1 Timóteo 5:22, 24, 25.

  1. Se a pessoa suspeita fosse achada limpa, ainda assim devia lavar as suas vestes (v. 6), porque tinha estado sob a suspeita, e havia nela aquilo que dera motivo para a suspeita.

Até o prisioneiro que é absolvido tem de pôr-se de joelhos. Precisamos ser lavados no sangue de Cristo das nossas manchas, ainda que não sejam manchas de lepra; pois quem pode dizer: “Estou puro do pecado”? — embora haja aqueles que, pela graça, estão inocentes da grande transgressão.

Versículos 18 a 37

O sacerdote é aqui instruído sobre que julgamento fazer se houvesse alguma aparência de lepra, seja:

  1. Numa úlcera antiga, ou furúnculo, que já foi curado, v. 18, etc.

Quando chagas antigas, que pareciam curadas, tornam a irromper, é de temer que haja nelas uma lepra; tal é o perigo daqueles que, tendo escapado das impurezas do mundo, se enredam nelas outra vez e são vencidos.

Ou, 2. Numa queimadura por acidente, pois parece ser este o sentido, v. 24, etc.

O ardor da discórdia e da contenda muitas vezes dá ocasião a que surja e irrompa aquela corrupção que atesta, diante dos próprios homens, que eles são impuros.

  1. Numa cabeça com tinha. E aqui o julgamento comumente dependia de uma coisa muito pequena. Se o cabelo na tinha era preto, era sinal de sanidade; se era amarelo, era indício de lepra, vv. 30-37. As demais regras nesses casos são as mesmas que foram mencionadas antes.

Na leitura destes diversos tipos de enfermidades, será bom para nós:

  1. Lamentar o estado calamitoso da vida humana, que está exposto a tantos males. Que tropas de doenças nos cercam por todos os lados! E todas entraram pelo pecado.

  2. Dar graças a Deus se ele nunca nos afligiu com nenhuma destas chagas: se a constituição é saudável, e o corpo está ágil e à vontade, estamos obrigados a glorificar a Deus com os nossos corpos.

Versículos 38 a 46

Temos aqui:

I. Ressalvas de que nem uma pele sardenta nem uma cabeça calva devem ser tomadas por lepra, vv. 38-41. Nem toda deformidade deve ser feita, de imediato, contaminação cerimonial.

Eliseu foi escarnecido por causa da sua cabeça calva (2 Reis 2:23); mas foram os meninos de Betel, que não conheciam os juízos do seu Deus, que fizeram disso uma afronta contra ele.

II. Uma marca particular posta sobre a lepra, se em algum momento ela aparecesse numa cabeça calva: “A praga está na sua cabeça, ele é totalmente imundo”, v. 44.

Se a lepra do pecado se apoderou da cabeça, se o juízo está corrompido e são abraçados princípios ímpios que favorecem e sustentam práticas ímpias, é uma imundícia total, da qual poucos alguma vez são purificados. A sanidade na fé afasta a lepra da cabeça e salva a consciência de naufragar.

III. Instruções sobre o que se deve fazer com o leproso cuja condição foi comprovada. Quando o sacerdote, depois de madura deliberação, o tivesse solenemente declarado imundo:

  1. Ele mesmo deve declarar-se assim, v. 45. Deve pôr-se na postura de um pranteador e clamar: “Imundo, imundo”.

A lepra não era em si um pecado, mas era um triste sinal do desagrado de Deus e uma dolorosa aflição para aquele que estava debaixo dela.

Era uma afronta ao seu nome, punha ponto final aos seus negócios no mundo, cortava-o do convívio com os amigos e parentes, condenava-o ao desterro até que fosse purificado, excluía-o do santuário e era, na prática, a ruína de todo o consolo que ele pudesse ter neste mundo.

Hemã, ao que parece, ou era leproso ou alude à condição melancólica de um leproso, Salmos 88:8, etc. Ele deve, portanto:

(1.) Humilhar-se debaixo da poderosa mão de Deus, não insistindo na sua limpeza quando o sacerdote o havia declarado imundo, mas justificando a Deus e aceitando o castigo da sua iniquidade.

Deve manifestar isso rasgando as suas vestes, descobrindo a cabeça e cobrindo o lábio superior, todos sinais de vergonha e de confusão de rosto, e muito expressivos daquela aversão a si mesmo e daquele rebaixamento próprio que devem encher o coração dos penitentes, cuja linguagem é julgar-se a si mesmo.

Assim devemos tomar para nós a vergonha que nos pertence e, de coração quebrantado, chamar-nos pelo nosso próprio nome: “Imundo, imundo” — imundo de coração, imundo de vida, imundo pela corrupção original, imundo pela transgressão efetiva — imundo e, portanto, digno de ser para sempre excluído da comunhão com Deus e de toda esperança de felicidade nele.

“Todos nós somos como uma coisa imunda” (Isaías 64:6) — imundos e, portanto, perdidos, se a misericórdia infinita não se interpuser.

(2.) Deve avisar os outros para que se guardem de chegar perto dele. Onde quer que fosse, devia clamar aos que visse de longe: “Estou imundo, imundo; guardem-se de me tocar.”

Não que a lepra fosse contagiosa, mas pelo toque de um leproso contraía-se imundícia cerimonial. Cada um, por isso, tinha interesse em evitá-la; e o próprio leproso devia dar aviso do perigo.

E isto era tudo o que a lei podia fazer, visto que era fraca pela carne; ensinava o leproso a clamar: “Imundo, imundo”; mas o evangelho pôs outro clamor na boca dos leprosos, Lucas 17:12, 13, onde encontramos dez leprosos clamando em alta voz: “Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós”.

A lei só nos mostra a nossa doença; o evangelho nos mostra o nosso socorro em Cristo.

  1. Deve então ser posto fora do arraial e, depois, quando chegassem a Canaã, fora da cidade, da vila ou da aldeia onde morava, e habitar sozinho (v. 46), sem se associar a ninguém senão aos que fossem leprosos como ele.

Quando o rei Uzias se tornou leproso, foi banido do seu palácio e habitou numa casa separada, 2 Crônicas 26:21. E veja 2 Reis 7:3.

Isto representava em figura a pureza que deve ser preservada na igreja do evangelho, pela exclusão solene e com autoridade, da comunhão dos fiéis, dos pecadores escandalosos que odeiam ser corrigidos. “Tirai dentre vós esse ímpio”, 1 Coríntios 5:13.

Versículos 47 a 59

Esta é a lei a respeito da praga da lepra numa roupa, seja de linho, seja de lã.

Uma lepra numa roupa, com indícios perceptíveis dela — a cor alterada, o tecido roído e a felpa gasta em alguma parte determinada da roupa, uma mancha que se alastrava enquanto a peça ficava isolada e que a lavagem não tirava — é uma coisa que para nós hoje é de todo inexplicável.

Os doutos reconhecem que era um sinal e um milagre em Israel, um castigo extraordinário infligido pelo poder divino, como sinal de grande desagrado contra uma pessoa ou uma família.

  1. O processo era muito parecido com o que dizia respeito a uma pessoa leprosa.

A roupa que se suspeitava estar maculada não devia ser queimada de imediato, ainda que, talvez, isso não representasse grande prejuízo; pois em nenhum caso a sentença deve ser proferida apenas com base numa conjectura: a roupa tinha de ser mostrada ao sacerdote.

Se, ao exame, se achasse que havia uma mancha leprosa (os judeus dizem que não maior que um feijão), a roupa tinha de ser queimada, ou ao menos aquela parte da roupa em que estava a mancha, v. 52, 57.

Se a causa da suspeita tivesse desaparecido, a roupa tinha de ser lavada, e então podia ser usada, v. 58.

  1. O significado também era muito parecido, para dar a entender a grande malignidade que há no pecado: ele não só contamina a consciência do pecador, como lança uma nódoa sobre todas as suas ocupações e todos os seus gozos, sobre tudo o que ele tem e tudo o que ele faz.

“Para os que são contaminados e incrédulos nada é puro”, Tito 1:15. E somos ensinados por isso a odiar até “as roupas manchadas pela carne”, Judas 23.

Os que fazem das suas vestes servas do seu orgulho e da sua sensualidade podem vê-las assim maculadas de lepra e condenadas ao fogo, Isaías 3:18-24.

Mas o ornamento do “homem oculto do coração” é incorruptível, 1 Pedro 3:4. Os mantos da justiça nunca se desgastam nem são roídos pela traça.


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