Levítico 11
Argumento
A lei cerimonial é descrita pelo apóstolo (Hebreus 9:9, 10) como consistindo não só “em dons e sacrifícios”, de que se tratou até aqui neste livro, mas “em comidas, e bebidas, e diversas lavagens” da imundícia cerimonial.
As leis a respeito dela começam com este capítulo, que faz diferença entre alguns tipos de carne e outros, permitindo que uns se comam como limpos e proibindo outros como imundos.
“Há uma espécie de carne de homens.” A natureza se assusta ao pensar em comer disto, e ninguém o faz senão os que chegaram ao mais alto grau de barbárie e ficaram a um só passo dos brutos; por isso não havia necessidade de lei contra isso.
Mas há outra espécie de carne de animais, a respeito da qual a lei instrui aqui (vv. 1-8), “outra de peixes” (vv. 9-12), “outra de aves” (vv. 13-19) e outra de animais rastejantes, que se distinguem em dois tipos: os que voam (vv. 20-28) e os que rastejam sobre a terra, vv. 29-43.
E a lei conclui com a regra geral de santidade, e com as razões dela, v. 44, etc.
Versículos 1 a 8
Distinção de Alimentos. (a.C. 1490.)
Agora que Arão fora consagrado sumo sacerdote sobre a casa de Deus, Deus falou com ele e com Moisés, e constituiu os dois como comissários conjuntos para expor a sua vontade ao povo.
Ele falou tanto a Moisés quanto a Arão sobre esta matéria; porque se exigia particularmente dos sacerdotes que fizessem diferença entre o limpo e o imundo, e que ensinassem o povo a fazer assim.
Depois do dilúvio, quando Deus fez aliança com Noé e seus filhos, permitiu-lhes comer carne (Gênesis 9:3), ao passo que antes estavam confinados aos produtos da terra.
Mas a liberdade concedida aos filhos de Noé é aqui limitada aos filhos de Israel. Eles podiam comer carne, mas não toda espécie de carne; algumas deviam ter por imundas e proibidas para eles, outras por limpas e permitidas.
A lei nesta matéria é tanto muito minuciosa quanto muito rigorosa. Mas que razão se pode dar para esta lei? Por que o povo de Deus não pode ter uso tão livre de todas as criaturas quanto os outros povos?
- É razão bastante que Deus assim o quisesse: a sua vontade, assim como é lei suficiente, assim é razão suficiente; pois a sua vontade é a sua sabedoria.
Ele achou bom provar e exercitar assim a obediência do seu povo, não só nas solenidades do seu altar, mas em matérias de ocorrência diária à sua própria mesa, para que se lembrassem de que estavam debaixo de autoridade.
Assim Deus tinha provado a obediência do homem na inocência, proibindo-lhe comer de uma árvore em particular.
- A maior parte dos alimentos proibidos como imundos são os que de fato eram insalubres e impróprios para se comer; e aqueles dentre eles que temos por bastante saudáveis, e usamos em conformidade, como o coelho, a lebre e o porco, talvez naqueles países, e para os corpos deles, fossem prejudiciais.
E então Deus, nesta lei, não fez com eles senão o que um pai sábio e afetuoso faz com os seus filhos, a quem refreia de comer aquilo que sabe que os fará adoecer.
Repare: o Senhor é para o corpo, e não é só loucura, mas pecado contra Deus, prejudicar a nossa saúde para agradar o nosso apetite.
- Deus quis assim ensinar o seu povo a distinguir-se dos outros povos, não só no seu culto religioso, mas nas ações comuns da vida.
Assim ele lhes mostraria que não deviam ser contados entre as nações. Ao que parece, houve, antes disto, alguma diferença entre os hebreus e as outras nações no seu alimento, mantida pela tradição; porque os egípcios e eles não comiam juntos, Gênesis 43:32.
E mesmo antes do dilúvio havia uma distinção dos animais em limpos e não limpos (Gênesis 7:2), distinção que se perdeu por completo, junto com muitos outros pontos de religião, entre os gentios.
Mas por esta lei ela é reduzida a certeza, e ordenada a manter-se entre os judeus, para que assim, tendo dieta peculiar a si, fossem guardados do convívio próximo com os seus vizinhos idólatras.
E figurassem o Israel espiritual de Deus, que, não nestas pequenas coisas, mas na têmpera dos seus espíritos e no curso das suas vidas, deve ser governado por uma singularidade sóbria, e não conformado a este mundo.
Os eruditos observam ainda que a maior parte das criaturas que por esta lei deviam ser abominadas como imundas eram as que gozavam de alta veneração entre os pagãos, não tanto para alimento quanto para adivinhação e sacrifício aos seus deuses.
Por isso são aqui mencionadas como imundas, e como abominação, aquelas que, contudo, os israelitas não estariam de modo algum tentados a comer, para que mantivessem um asco religioso por aquilo a que os gentios davam um valor supersticioso.
O porco, entre os gentios posteriores, era consagrado a Vênus, a coruja a Minerva, a águia a Júpiter, o cão a Hécate, etc., e todos estes são aqui declarados imundos.
Quanto aos animais, é estabelecida uma regra geral: que os que tanto fendiam a unha quanto ruminavam eram limpos, e só esses.
Estes são mencionados em particular na repetição desta lei (Deuteronômio 14:4, 5), onde parece que aos israelitas era permitida variedade bastante, e que não precisavam queixar-se do confinamento em que estavam.
Os animais que não faziam as duas coisas, ruminar e fender a unha, eram imundos, e por essa regra a carne de porco, e a de lebre, e a de coelho lhes era proibida, embora seja comumente usada entre nós.
Por isso, particularmente ao comer qualquer destes, devemos dar graças pela liberdade que nesta matéria nos foi concedida pelo evangelho, que nos ensina que toda criatura de Deus é boa, e que nada devemos chamar comum ou imundo.
Alguns observam um significado na regra aqui estabelecida para eles distinguirem, ou ao menos julgam que se pode fazer alusão a isso.
A meditação, e os outros atos de devoção feitos pelo homem oculto do coração, podem ser significados pelo ruminar, digerindo o nosso alimento espiritual; a justiça e a caridade para com os homens, e os atos de uma boa conduta, podem ser significados pelo fender da unha.
Ora, qualquer destas duas sem a outra não servirá para nos recomendar a Deus, mas as duas devem andar juntas: boas afeições no coração e boas obras na vida; se qualquer delas faltar, não estamos limpos, certamente não estamos limpos.
De todas as criaturas aqui proibidas como imundas, nenhuma foi mais temida e detestada pelos judeus piedosos do que a carne de porco. Muitos foram mortos por Antíoco porque não quiseram comê-la.
Provavelmente era esta a que mais corriam perigo de serem tentados a comer, e por isso se imbuíram, a si e aos seus filhos, de uma antipatia particular por ela, chamando-a não pelo seu próprio nome, mas de “coisa estranha”.
Ao que parece, os gentios a usavam de modo supersticioso (Isaías 65:4): comem carne de porco; e por isso Deus proíbe todo uso dela ao seu povo, para que não aprendam dos seus vizinhos a fazer dela esse mau uso.
Alguns sugerem que a proibição destes animais como imundos tinha por fim ser uma advertência ao povo contra as más qualidades destas criaturas.
Não devemos ser imundos nem chafurdar na lama como os porcos, nem ser medrosos e pusilânimes como as lebres, nem morar na terra como os coelhos; não se faça o homem que está em honra semelhante a estes animais que perecem.
A lei proibia não só comê-los, mas o próprio tocá-los; porque quem quer ser guardado de algum pecado deve ter o cuidado de evitar todas as tentações a ele, e tudo o que aponta para ele ou leva a ele.
Versículos 9 a 19
Aqui está:
- Uma regra geral a respeito dos peixes, quais eram limpos e quais não. Todos os que tinham barbatanas e escamas eles podiam comer, e só aqueles tipos estranhos de animais aquáticos que não as têm eram proibidos, v. 9, 10.
Os antigos consideravam o peixe o alimento mais delicado (tão longe estavam de permiti-lo em dias de jejum, ou de fazer do comer peixe um exemplo de mortificação); por isso Deus não impôs muita restrição ao seu povo quanto a eles, pois ele é Senhor que provê os seus servos não só para a necessidade, mas para o deleite.
A respeito dos peixes proibidos é dito: “Eles vos serão abominação” (vv. 10-12), isto é, devem considerá-los imundos e não apenas deixar de comê-los, mas também manter distância deles.
Repare: tudo o que é imundo deve ser para nós abominação; não toquemos na coisa imunda.
Mas observe: isso devia ser abominação só para os judeus; as nações vizinhas não estavam sob nenhuma destas obrigações, nem estas coisas devem ser abominação para nós, cristãos.
Os judeus foram honrados com privilégios peculiares, e por isso, para que não se orgulhassem deles, Transeunt cum onere — foram igualmente postos debaixo de restrições peculiares.
Assim o Israel espiritual de Deus, assim como é dignificado acima dos outros pela aliança evangélica de adoção e amizade, assim também tem de ser mortificado mais que os outros pelos mandamentos evangélicos da abnegação e de levar a cruz.
- Quanto às aves, não é dada aqui nenhuma regra geral, mas uma enumeração particular daquelas aves de que eles deviam abster-se como imundas, o que implica permissão de todas as outras.
Os críticos têm aqui muito trabalho para descobrir qual é a verdadeira significação das palavras hebraicas aqui usadas, algumas das quais continuam incertas, sendo alguns tipos de aves peculiares a alguns países.
Se a lei estivesse em vigor agora, deveríamos preocupar-nos em saber com certeza quais são proibidas por ela; e talvez, se soubéssemos, e conhecêssemos melhor a natureza das aves aqui mencionadas, admiraríamos o conhecimento de Adão, ao dar-lhes nomes que exprimiam a natureza delas, Gênesis 2:20.
Mas, estando a lei revogada e o saber em grande medida perdido, basta-nos observar que, das aves aqui proibidas:
(1.) Algumas são aves de rapina, como a águia, o abutre, etc., e Deus queria que o seu povo abominasse tudo o que é bárbaro e cruel, e não vivesse de sangue e rapina.
As pombas, que são presa, eram próprias para servir de alimento ao homem e de ofertas a Deus; mas os milhafres e os gaviões, que fazem presa delas, devem ser olhados como abominação a Deus e ao homem; porque a condição dos que são perseguidos por causa da justiça parece, ao olho da fé, melhor em tudo que a dos seus perseguidores.
(2.) Outras são aves solitárias, que habitam em lugares escuros e desolados, como a coruja e o pelicano (Salmos 102:6), e o corvo-marinho e o corvo (Isaías 34:11); porque o Israel de Deus não deve ser povo melancólico, nem afetar tristeza e solidão constante.
(3.) Outras se alimentam do que é impuro, como a cegonha, de serpentes, e outras, de vermes; e nós devemos abster-nos não só de toda impureza, de nossa parte, mas da comunhão com os que se permitem nela.
(4.) Outras eram usadas pelos egípcios e por outros gentios nas suas adivinhações.
Algumas aves eram tidas por aves de bom agouro, outras por aves de mau agouro; e os adivinhos deles davam grande atenção aos voos dessas aves, tudo o que, por isso, deve ser abominação ao povo de Deus, que não deve aprender o caminho dos pagãos.
Versículos 20 a 42
Aqui está a lei:
A respeito dos insetos voadores, como moscas, vespas, abelhas, etc.: estes eles não podiam comer (v. 20), nem de fato são próprios para se comer; mas havia diversos tipos de gafanhotos que naqueles países eram alimento muito bom e muito usado; João Batista vivia deles no deserto, e aqui eles lhes são permitidos, v. 21, 22.
A respeito dos animais rastejantes sobre a terra: estes eram todos proibidos (v. 29, 30, e outra vez v. 41, 42); porque era a maldição da serpente que sobre o seu ventre ela andasse, e por isso foi posta inimizade entre ela e o homem (Gênesis 3:15), a qual era preservada por esta lei. O pó é o alimento dos animais rastejantes, e por isso eles não são próprios para ser alimento do homem.
A respeito das carcaças mortas de todos estes animais imundos:
(1.) Todo aquele que os tocava devia ficar imundo até a tarde, vv. 24-28.
Esta lei é repetida muitas vezes, para imbuí-los de um temor de tudo o que era proibido, ainda que não aparecesse nenhuma razão particular para a proibição, senão apenas a vontade do Legislador.
Não que devessem ser olhados como contaminadores da consciência, ou que fosse pecado contra Deus tocá-los, a não ser que se fizesse em desprezo da lei; em muitos casos, alguém tem necessariamente de tocá-los, para removê-los.
Mas era uma imundícia cerimonial que contraíam, a qual por aquele tempo lhes proibia entrar no tabernáculo, ou comer de qualquer das coisas santas, ou sequer conviver de perto com os seus vizinhos.
Mas a imundícia continuava só até a tarde, para significar que todas as poluições cerimoniais deviam chegar ao fim pela morte de Cristo na tarde do mundo.
E devemos aprender, renovando diariamente, toda noite, o nosso arrependimento pelos pecados do dia, a limpar-nos da poluição que por eles contraímos, para que não nos deitemos na nossa imundícia.
Mesmo os animais imundos eles podiam tocar enquanto estavam vivos, sem contrair com isso nenhuma imundícia cerimonial, como cavalos e cães, porque lhes era permitido usá-los para o serviço.
Mas não podiam tocá-los quando estavam mortos, porque não podiam comer a carne deles; e o que não se deve comer não se deve tocar, Gênesis 3:3.
(2.) Até os vasos, ou outras coisas sobre que caíssem, ficavam com isso imundos até a tarde (v. 32); e se fossem vasos de barro, deviam ser quebrados, v. 33. Isto lhes ensinava a evitar com cuidado tudo o que poluía, mesmo nas suas ações comuns.
Não só os vasos do santuário, mas toda panela em Jerusalém e em Judá devia ser “santidade ao Senhor”, Zacarias 14:20, 21.
As leis nestes casos são muito minuciosas, e a observância delas seria difícil, pensaríamos nós, se tudo aquilo sobre que caísse um camundongo ou rato morto, por exemplo, tivesse de ser imundo; e, se fosse um forno, ou trempes para panelas, deviam todos ser derrubados, v. 35. As exceções também são muito sutis, v. 36, etc.
Tudo isto foi destinado a exercitá-los num cuidado e numa exatidão constantes na sua obediência, e a ensinar-nos, a nós que por Cristo somos livrados destas observâncias onerosas, a não sermos menos circunspectos nos assuntos mais importantes da lei.
Devemos preservar as nossas preciosas almas das poluições do pecado com tanta diligência, e limpá-las com tanta presteza quando estão poluídas, quanto eles deviam preservar e limpar os seus corpos e os seus bens domésticos daquelas poluições cerimoniais.
Versículos 43 a 47
Aqui está:
I. A exposição desta lei, ou uma chave que nos abre o sentido dela.
Ela não tinha por fim ser apenas um cardápio, ou as prescrições de um médico a respeito da dieta deles, mas por meio dela Deus queria ensiná-los a santificar-se e a ser santos, v. 44. Isto é:
Por meio dela eles deviam aprender a fazer diferença entre o bem e o mal, e a considerar que não podia ser tudo igual o que faziam, quando não era tudo igual o que comiam.
A manter uma observância constante da lei divina, e a governar-se por ela em todas as suas ações, mesmo naquelas que são comuns, que devem ser feitas “de maneira piedosa”, 3 João 6. Até o comer e o beber devem ser por regra, e para a glória de Deus, 1 Coríntios 10:31.
A distinguir-se de todos os seus vizinhos, como povo separado para Deus, e obrigado a não andar como os gentios; e tudo isto é santidade.
Assim, estes rudimentos do mundo eram os seus tutores e curadores (Gálatas 4:2, 3), para levá-los àquilo que é o reavivamento do nosso primeiro estado em Adão e o penhor do nosso melhor estado com Cristo, isto é, a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.
Este é de fato o grande desígnio de todas as ordenanças: que por elas nos santifiquemos e aprendamos a ser santos.
Até esta lei a respeito do alimento deles, que parecia descer tão baixo, mirava tão alto, porque era lei estatutária do céu, tanto sob o Antigo Testamento quanto sob o Novo, que sem santidade ninguém verá o Senhor.
A advertência, por isso (v. 43), é: “Não vos fareis abomináveis”. Repare: tendo comunhão com o pecado, que é abominável, nós nos fazemos abomináveis.
É verdadeiramente miserável o homem que aos olhos de Deus é abominável; e ninguém o é senão os que a si mesmos se fazem assim.
Os próprios escritores judeus sugerem que a intenção desta lei era proibir-lhes toda comunhão com os pagãos, por casamento ou de outro modo, Deuteronômio 7:2, 3.
E assim a moral dela nos obriga, proibindo-nos de ter comunhão com as obras infrutíferas das trevas; e, sem esta santidade real do coração e da vida, quem oferece uma oblação é como se oferecesse sangue de porco (Isaías 66:3).
E, se era tamanha provocação um homem comer ele mesmo carne de porco, muito mais deve sê-lo oferecer sangue de porco no altar de Deus; veja Provérbios 15:8.
II. As razões desta lei; e todas são tiradas do próprio Legislador, a quem devemos ter respeito em todos os atos de obediência.
- “Eu sou o Senhor vosso Deus”, v. 44. “Portanto estais obrigados a fazer assim, por pura obediência.”
A soberania de Deus sobre nós, e a propriedade que tem sobre nós, obrigam-nos a fazer tudo o que ele nos ordena, por mais que isso contrarie as nossas inclinações.
- “Eu sou santo”, v. 44, e outra vez, v. 45. Se Deus é santo, nós temos de sê-lo, senão não podemos esperar ser aceitos por ele.
A santidade dele é a sua glória (Êxodo 15:11), e por isso convém à sua casa para sempre, Salmos 93:5.
Este grande preceito, assim reforçado, embora entre aqui no meio de leis ab-rogadas, é citado e carimbado como preceito do evangelho, 1 Pedro 1:16, onde se insinua que todas estas restrições cerimoniais foram destinadas a nos ensinar que não devemos conformar-nos com as nossas concupiscências de antes, na nossa ignorância, 1 Pedro 1:14.
- “Eu sou o Senhor que vos tira da terra do Egito”, v. 45. Esta era uma razão pela qual eles deveriam submeter-se de bom grado a leis que os distinguiam, tendo sido havia pouco tão maravilhosamente dignificados com favores que os distinguiam.
Aquele que tinha feito mais por eles do que por qualquer outro povo podia com justiça esperar mais deles.
III. A conclusão deste estatuto: “Esta é a lei dos animais, e das aves”, etc., v. 46, 47.
Esta lei era para eles um estatuto para sempre, isto é, enquanto durasse aquela economia; mas sob o evangelho nós a encontramos expressamente revogada por uma voz do céu a Pedro (Atos 10:15), assim como já antes tinha sido virtualmente posta de lado pela morte de Cristo, junto com as outras ordenanças que pereceram pelo uso: “Não toques, não proves, não manuseies”, Colossenses 2:21, 22.
E agora estamos certos de que “o alimento não nos recomenda a Deus” (1 Coríntios 8:8), e que “nada é imundo em si mesmo” (Romanos 14:14), e que não contamina o homem o que entra na sua boca, mas o que sai do coração, Mateus 15:11. Portanto:
Demos graças a Deus por não estarmos debaixo deste jugo, e por nos ser permitida como boa toda criatura de Deus, e nada haver a rejeitar.
Estejamos firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e guardemo-nos daquelas doutrinas que mandam abster-se dos alimentos, e que assim reviveriam Moisés outra vez, 1 Timóteo 4:3, 4.
Sejamos estrita e conscienciosamente temperantes no uso das boas criaturas que Deus nos permitiu. Se a lei de Deus nos deu liberdade, imponhamos restrições a nós mesmos, e nunca nos alimentemos sem temor, para que a nossa mesa não seja um laço.
Ponha uma faca à sua garganta, se você é homem dado ao apetite; e não cobice iguarias nem variedades, Provérbios 23:2, 3. A natureza se contenta com pouco, a graça com menos, mas a concupiscência com nada.