Matthew Henry

Levítico 10

Argumento

A história deste capítulo é uma interrupção tão triste às instituições da lei levítica quanto a do bezerro de ouro foi ao relato do levantamento do tabernáculo. Aqui está:

I. O pecado e a morte de Nadabe e Abiú, os filhos de Arão, v. 1, 2.

II. O aquietamento de Arão sob esta aflição muito dura, v. 3.

III. As ordens dadas e cumpridas a respeito do funeral e do luto, vv. 4-7.

IV. Uma ordem aos sacerdotes de não beberem vinho quando entrassem para ministrar, vv. 8-11.

V. O cuidado que Moisés teve para que continuassem o seu trabalho, apesar da comoção produzida por este desfecho, v. 12, etc.

Versículos 1 a 2

A Morte de Nadabe e Abiú. (a.C. 1490.)

Aqui está:

I. O grande pecado de que Nadabe e Abiú foram culpados. E temos de chamá-lo de grande pecado, por menor que pareça aos nossos olhos, porque é evidente, pelo castigo dele, que foi altamente provocador para o Deus do céu, cujo juízo, temos certeza, é segundo a verdade.

Mas qual foi o pecado deles? Todo o relato que aqui se dá dele é que “ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que ele não lhes havia ordenado” (v. 1), e o mesmo em Números 3:4.

  1. Não parece que tivessem qualquer ordem de queimar incenso neste momento. É verdade que a consagração deles se completara no dia anterior, e era parte do seu trabalho, como sacerdotes, servir ao altar do incenso.

Mas, ao que parece, todo o serviço deste dia solene de inauguração devia ser feito pelo próprio Arão, pois ele imolou os sacrifícios (Levítico 9:8, 15, 18), e os seus filhos deviam apenas assisti-lo (v. 9, 12, 18); por isso só Moisés e Arão entraram no tabernáculo, v. 23.

Mas Nadabe e Abiú estavam tão orgulhosos da honra a que acabavam de ser elevados, e tão ambiciosos de fazer de imediato a parte mais alta e mais honrosa do seu trabalho, que, embora o serviço deste dia fosse extraordinário e feito por orientação particular de Moisés, contudo não receberam ordens nem sequer lhe pediram licença.

Tomaram os seus incensários, e quiseram entrar no tabernáculo, à porta do qual julgavam já ter esperado bastante, e queimar incenso.

E então o fogo estranho que ofereceram é o mesmo que oferecer incenso estranho, o que está expressamente proibido em Êxodo 30:9.

Podemos supor que Moisés tinha a guarda do incenso preparado para este fim (Êxodo 39:38), e eles, fazendo isto sem a licença dele, não tinham nada do incenso que deveria ter sido oferecido, mas incenso comum, de modo que a fumaça do seu incenso vinha de um fogo estranho.

Deus de fato exigira dos sacerdotes que queimassem incenso, mas, neste momento, era o que ele não lhes havia ordenado; e assim o crime deles foi como o de Uzias, o rei, 2 Crônicas 26:16.

Os sacerdotes deviam queimar incenso somente quando lhes caía a sorte (Lucas 1:9), e, neste momento, não era a deles.

  1. Presumindo assim queimar incenso por conta própria, sem ordem, não admira que cometessem mais um erro grosseiro.

Em vez de tomar do fogo do altar, que fora recém-aceso de diante do Senhor e que dali em diante devia ser usado ao oferecer tanto o sacrifício quanto o incenso (Apocalipse 8:5), tomaram fogo comum, provavelmente daquele com que se cozia a carne das ofertas pacíficas, e disto se serviram para queimar incenso.

Não sendo fogo santo, é chamado de fogo estranho; e, ainda que não estivesse expressamente proibido, já era crime bastante que Deus não o tivesse ordenado.

Pois, como bem observa aqui o bispo Hall: “É coisa perigosa, no serviço de Deus, afastar-se das instituições que ele mesmo deu; lidamos com um Deus que é sábio para prescrever o seu próprio culto, justo para exigir o que prescreveu, e poderoso para vingar o que não prescreveu.”

  1. O incenso devia sempre ser queimado por um só sacerdote de cada vez, mas aqui os dois quiseram entrar juntos para fazê-lo.

  2. Fizeram-no de modo temerário e com precipitação. Arrebataram os seus incensários, como alguns leem, de maneira leviana e descuidada, sem a devida reverência e seriedade.

Quando todo o povo caiu de rosto em terra diante da glória do Senhor, eles julgaram que a dignidade do seu ofício era tal que os isentava de tais abatimentos.

A familiaridade a que foram admitidos gerou um desprezo da Majestade divina; e agora que eram sacerdotes julgavam que podiam fazer o que bem quisessem.

  1. Há razão para suspeitar que estivessem embriagados quando fizeram isso, por causa da lei que foi dada nesta ocasião, v. 8.

Tinham estado banqueteando-se com as ofertas pacíficas e as ofertas de libação que as acompanhavam, e assim as suas cabeças estavam leves, ou, ao menos, os seus corações estavam alegres com o vinho; beberam e esqueceram a lei (Provérbios 31:5) e foram culpados deste desacerto fatal.

  1. Sem dúvida foi feito com presunção; pois, se tivesse sido feito por ignorância, teriam sido admitidos ao benefício da lei feita havia pouco, até para os sacerdotes, de que deviam trazer uma oferta pelo pecado, Levítico 4:2, 3.

Mas “a alma que fizer alguma coisa com presunção”, e em desprezo da majestade, da autoridade e da justiça de Deus, “essa alma será extirpada”, Números 15:30.

II. O castigo terrível deste pecado: “Saiu fogo de diante do Senhor e os devorou”, v. 2.

Este fogo, que consumiu os sacrificadores, veio pelo mesmo caminho daquele que consumira os sacrifícios (Levítico 9:24), o que mostrava o que a justiça teria feito a todo o povo culpado se a misericórdia infinita não tivesse encontrado e aceitado um resgate.

E, se aquele fogo infundiu tal reverência no povo, muito mais a infundiria este.

  1. Observe a severidade do castigo deles:

(1.) Morreram. Não teria bastado que fossem apenas feridos de lepra, como Uzias, ou emudecidos, como Zacarias, e os dois junto ao altar do incenso? Não: os dois foram feridos de morte. O salário deste pecado foi a morte.

(2.) Morreram de repente, no próprio ato do seu pecado, e não tiveram tempo sequer de clamar: “Senhor, tem misericórdia de nós!”

Ainda que Deus seja longânimo para conosco, às vezes ele age depressa com os pecadores; a sentença é executada sem demora: os pecadores presunçosos trazem sobre si uma destruição repentina, e justamente lhes é negado até o prazo para se arrepender.

(3.) Morreram diante do Senhor; isto é, diante do véu que cobria o propiciatório; porque nem a própria misericórdia permitirá que a sua própria glória seja afrontada.

Os que pecaram diante do Senhor morreram diante dele. Diz-se dos pecadores condenados que são “atormentados na presença do Cordeiro”, dando a entender que ele não intervém em favor deles, Apocalipse 14:10.

(4.) Morreram pelo fogo, como pelo fogo pecaram. Desprezaram o fogo que veio de diante do Senhor para consumir os sacrifícios, e pensaram que outro fogo serviria exatamente tão bem; e agora Deus justamente os fez sentir o poder daquele fogo que não reverenciaram.

Assim, os que odeiam ser refinados pelo fogo da graça divina serão sem dúvida arruinados pelo fogo da ira divina.

O fogo não os queimou até virarem cinzas, como fizera com os sacrifícios, nem sequer chamuscou as suas túnicas (v. 5), mas, como o relâmpago, feriu-os de morte num instante.

Por esses efeitos diferentes do mesmo fogo Deus quis mostrar que não era fogo comum, mas aceso pelo sopro do Todo-Poderoso, Isaías 30:33.

(5.) A Escritura registra duas vezes que morreram sem filhos, Números 3:4 e 1 Crônicas 24:2.

Pela sua presunção eles haviam injuriado o nome de Deus, e Deus justamente apagou os nomes deles, e lançou no pó aquela honra de que se orgulhavam.

  1. Mas por que o Senhor os tratou com tanta severidade? Não eram eles os filhos de Arão, o santo do Senhor, sobrinhos de Moisés, o grande favorito do céu?

Não fora aspergido sobre eles o óleo santo da unção, como sobre homens que Deus separara para si?

Não haviam servido com diligência durante os sete dias da sua consagração, e guardado o encargo do Senhor? E não poderia isso expiar esta temeridade?

Não os desculparia o fato de serem homens jovens, ainda inexperientes nestes serviços, de ser a primeira ofensa, e de ter sido feita num arrebatamento de alegria pela sua elevação?

E, além disso, nunca houve homens de quem se pudesse prescindir menos: havia muito trabalho recém-destinado aos sacerdotes, e o sacerdócio estava restrito a Arão e à sua descendência.

Ele tem apenas quatro filhos; se dois deles morrerem, não haverá mãos bastantes para fazer o serviço do tabernáculo; se morrerem sem filhos, a casa de Arão ficará fraca e pequena, e o sacerdócio correrá o risco de se perder por falta de herdeiros.

Mas nenhuma de todas estas considerações servirá nem para desculpar a ofensa nem para livrar os ofensores. Pois:

(1.) O pecado tinha grandes agravantes. Foi um manifesto desprezo de Moisés e da lei divina que por Moisés foi dada.

Até aqui fora expressamente observado, a respeito de tudo o que se fazia, que o fizeram “como o Senhor ordenara a Moisés”; em oposição a isso, diz-se aqui que fizeram o que “o Senhor não lhes ordenara”, mas fizeram por conta própria.

Deus estava agora ensinando ao seu povo a obediência, e a fazer tudo conforme a regra, como convém a servos; portanto, que sacerdotes quebrassem regras e desobedecessem era uma provocação que de modo nenhum podia ficar impune.

O caráter deles tornava o seu pecado sobremaneira mais pecaminoso. Sendo os filhos de Arão, os seus filhos mais velhos, a quem Deus escolhera para serem os seus servidores imediatos, o serem culpados de tal presunção não pode ser permitido.

Havia no seu pecado um desprezo da glória de Deus, que acabava de aparecer em fogo, como se aquele fogo fosse desnecessário, e eles já tivessem antes um tão bom quanto ele, o seu próprio.

(2.) O castigo deles foi um ato de justiça necessária, agora no primeiro estabelecimento das instituições cerimoniais.

Muitas vezes se ameaça na lei que tais e tais ofensores seriam extirpados do povo; e aqui Deus explicou a ameaça de modo inequívoco.

Agora que as leis a respeito dos sacrifícios acabavam de ser feitas, para que ninguém fosse tentado a fazer pouco caso delas por descerem a muitas circunstâncias que pareciam bem miúdas, estes, que foram os primeiros transgressores, foram assim castigados, para advertência dos outros, e para mostrar quão zeloso é Deus nas questões do seu culto.

Assim ele magnificou a lei e a fez honrosa; e deu a saber aos seus sacerdotes que a cautela que tantas vezes ocorre nas leis a respeito deles, que devem fazer assim “para que não morram”, não era mero espantalho, mas justo aviso do seu perigo, se fizessem negligentemente a obra do Senhor.

E sem dúvida este ato exemplar de justiça no começo impediu muitas irregularidades depois.

Assim foram castigados Ananias e Safira, quando presumiram mentir ao Espírito Santo, aquele fogo recém-descido.

(3.) Assim como a queda do povo na idolatria, logo depois de dada a lei moral, mostra a fraqueza da lei e a sua insuficiência para tirar o pecado, assim o pecado e o castigo destes sacerdotes mostram a imperfeição daquele sacerdócio desde o próprio começo.

Mostram a sua incapacidade de abrigar quem quer que fosse do fogo da ira de Deus, a não ser enquanto ele era figura do sacerdócio de Cristo, na execução do qual nunca houve, nem pode haver, qualquer irregularidade ou passo em falso.

Versículos 3 a 7

O Luto por Nadabe e Abiú. (a.C. 1490.)

Podemos bem imaginar que, quando Nadabe e Abiú foram feridos de morte, todos ao redor foram feridos de horror, e todo rosto, assim como o deles, se cobriu de negrume.

Grande consternação, sem dúvida, apoderou-se deles, e todos ficaram cheios de confusão. Mas, fosse qual fosse o estado dos demais, Moisés estava sereno, e sabia o que dizia e fazia, não se irritando, como Davi se irritou em caso semelhante, 2 Samuel 6:8.

Mas, embora aquilo o tocasse num ponto muito sensível e lançasse um abatimento terrível sobre uma das maiores alegrias que ele já conheceu, contudo ele manteve a posse da própria alma, e cuidou de manter a boa ordem e o devido decoro no santuário.

I. Ele procura apaziguar Arão e mantê-lo em boa disposição sob esta triste dispensação, v. 3.

Moisés era um irmão nascido para a adversidade, e nos ensinou, pelo seu exemplo, a sustentar os fracos com conselhos e consolos oportunos, e a fortalecer os de ânimo abatido. Observe aqui:

  1. O que foi que Moisés sugeriu ao seu pobre irmão nesta ocasião: “Isto é o que o Senhor falou.”

Repare: as considerações que mais aquietam sob a aflição são as que se buscam na palavra de Deus. Assim e assim disse o Senhor, e não cabe a nós contradizê-lo.

Repare também: em todas as providências de Deus é bom observar o cumprimento da Escritura, e comparar a palavra de Deus e as suas obras uma com a outra. Se o fizermos, encontraremos entre elas uma harmonia e uma concordância admiráveis, e veremos que elas se explicam e se ilustram mutuamente.

Mas, (1.) Onde Deus falou isto? Não encontramos as palavras exatas; mas neste teor ele havia dito (Êxodo 19:22): “Santifiquem-se os sacerdotes que se chegam ao Senhor, para que o Senhor não irrompa sobre eles.”

De fato, todo o alcance e o teor da sua lei diziam isto: que, sendo ele um Deus santo e um Senhor soberano, deve sempre ser adorado com santidade e reverência, e exatamente conforme a sua própria determinação; e, se alguém brinca com ele, é por sua conta e risco.

Muito havia sido dito neste teor, como em Êxodo 29:43, 44; 34:14; Levítico 8:35.

(2.) O que foi que Deus falou? Foi isto (que o Senhor, pela sua graça, o fale a todos os nossos corações!): serei santificado naqueles que se chegam a mim, sejam eles quem forem, “e serei glorificado diante de todo o povo”.

Repare: Primeiro, sempre que adoramos a Deus, chegamo-nos a ele, como sacerdotes espirituais. Esta consideração deve nos tornar muito reverentes e sérios em todos os atos de devoção: que neles nos aproximamos de Deus e nos apresentamos diante dele.

Segundo, importa a todos nós, ao nos chegarmos a Deus, santificá-lo, isto é, dar-lhe o louvor da sua santidade, cumprir cada exercício religioso como quem crê que o Deus com quem tratamos é um Deus santo, um Deus de pureza sem mancha e de perfeição transcendente, Isaías 8:13.

Terceiro, quando santificamos a Deus nós o glorificamos, porque a sua santidade é a sua glória; e, quando o santificamos nas nossas assembleias solenes, nós o glorificamos diante de todo o povo, confessando a nossa própria crença na sua glória e desejando que outros também sejam tocados por ela.

Quarto, se Deus não for santificado e glorificado por nós, ele será santificado e glorificado sobre nós. Ele tomará vingança dos que profanam o seu nome sagrado tratando-o com leviandade. Se a sua renda não for paga, será cobrada por penhora.

(3.) Mas o que tinha isto a ver com o caso presente? O que havia nisto para aquietar Arão? Duas coisas:

[1.] Isto deve calá-lo: que os seus filhos mereceram a morte; pois foram assim extirpados do seu povo porque não santificaram nem glorificaram a Deus.

Os atos de justiça necessária, por mais duramente que pareçam pesar sobre as pessoas envolvidas, não são para se reclamar deles, mas para se submeter a eles.

[2.] Isto deve satisfazê-lo: que a morte dos seus filhos reverteu em honra de Deus, e que a sua justiça imparcial seria por isso adorada por todas as eras.

  1. Que bons efeitos isto teve sobre ele: “Arão se calou”, isto é, submeteu-se pacientemente à santa vontade de Deus nesta triste providência, ficou mudo e não abriu a boca, porque Deus o fez.

Alguma coisa ele estava pronto a dizer por via de queixa (pois quem perde julga ter licença para falar), mas ele a suprimiu com sabedoria, pôs a mão sobre a boca e nada disse, com medo de ofender com a língua, agora que o seu coração ardia dentro dele.

Repare: (1.) Quando Deus nos corrige, a nós ou aos nossos, por causa do pecado, é nosso dever ficar em silêncio sob a correção, não entrar em desavença com Deus, não acusar formalmente a sua justiça nem imputar-lhe insensatez, mas aquiescer em tudo o que Deus faz.

Não somente suportando, mas aceitando, o castigo da iniquidade, e dizendo, como Eli, num caso não muito diferente deste: “É o Senhor, faça ele o que bem lhe parecer”, 1 Samuel 3:18.

Se os nossos filhos pecaram contra Deus (como Bildade põe o caso, Jó 8:4), e ele os lançou fora por causa da sua transgressão, ainda que seja forçosamente doloroso pensar que os filhos do nosso amor sejam os filhos da ira de Deus, contudo devemos adorar com temor a justiça divina, e não levantar exceções contra os seus procedimentos.

(2.) Os argumentos mais eficazes para aquietar um espírito cheio de graça sob as aflições são os que se buscam na glória de Deus; foi isto que calou Arão.

É verdade que ele sai perdendo nos seus consolos por esta severa execução da sentença, mas Moisés lhe mostrou que Deus sai ganhando na sua glória, e por isso ele não tem uma palavra a dizer contra ela: se Deus é santificado, Arão está satisfeito.

Longe dele honrar os seus filhos mais do que a Deus, ou desejar que o nome de Deus, ou a sua casa, ou a sua lei, fossem expostos à injúria ou ao desprezo para preservar a reputação da sua família.

Não: agora, tanto quanto na questão do bezerro de ouro, Levi não reconhece os seus irmãos, nem conhece os seus próprios filhos; e por isso “eles ensinarão os teus juízos a Jacó, e a tua lei a Israel”, Deuteronômio 33:9, 10.

Os ministros e as suas famílias são às vezes exercitados com provas dolorosas para que sejam exemplos aos crentes de paciência e resignação a Deus, e para que possam consolar outros com aquilo com que eles mesmos foram consolados.

II. Moisés dá ordens a respeito dos corpos dos mortos.

Não era conveniente que fossem deixados jazendo onde caíram. Contudo o seu próprio pai e os seus irmãos, espectadores atônitos desta tragédia sombria, não ousaram tentar levantá-los, não, nem mesmo para ver se ainda restava neles alguma vida.

Eles não deviam ser desviados da grande obra que agora tinham nas mãos, nem ficar inaptos para ela. Deixe que os mortos enterrem os seus mortos, mas eles devem prosseguir no seu serviço.

Isto é: “Antes fiquem os mortos sem sepultura, se não houver mais ninguém para fazê-lo, do que a obra de Deus ficar por fazer por aqueles que ele chamou para ela.”

Mas Moisés cuida deste assunto: para que, embora tivessem morrido pela mão da justiça no ato do pecado, contudo fossem decentemente sepultados; e assim foram, v. 4, 5.

  1. Alguns dos seus parentes mais próximos foram empregados nisso, primos-irmãos do seu pai, e aqui nomeados, que cumpririam este ofício com ternura e respeito.

Eram apenas levitas, e não poderiam ter entrado no santuário, não, nem mesmo numa ocasião como esta, se não tivessem tido uma ordem especial para isso.

  1. Levaram-nos para fora do arraial para serem sepultados. Tão longe estavam de sepultá-los no lugar de culto, ou no seu átrio, segundo o nosso uso moderno, embora ali tivessem morrido, que não os sepultaram, nem a nenhum dos seus mortos, dentro das linhas do arraial; como depois os seus lugares de sepultura ficavam fora das suas cidades.

O tabernáculo estava armado no meio do arraial, de modo que não podiam levar estes sacerdotes mortos às suas sepulturas sem passar com eles por um dos esquadrões do arraial; e sem dúvida foi um espetáculo muito solene e comovente para o povo.

Os nomes de Nadabe e Abiú tinham-se tornado muito grandes e honrados entre eles; de ninguém mais se falava, de ninguém mais se esperava que aparecesse em público depois dos dias da sua consagração, para receber as honras e os afagos da multidão, cujo costume é adorar o sol nascente.

E, depois de Moisés e Arão, que estavam velhos e próximos do fim, Nadabe e Abiú (que tinham estado no monte com Deus, Êxodo 24:1) eram tidos como os grandes favoritos do céu e a esperança do seu povo.

E agora, de repente, quando a notícia do desfecho mal tinha chegado aos seus ouvidos, ao verem os dois levados para fora, mortos, com as marcas visíveis da vingança divina sobre eles, como sacrifícios à justiça de Deus, não podiam senão clamar: “Quem é capaz de estar diante deste santo Senhor Deus?”, 1 Samuel 6:20.

  1. Levaram-nos para fora (e provavelmente os sepultaram) com as suas túnicas, e as vestes do seu sacerdócio, que havia pouco tinham vestido e de que talvez se orgulhassem demais.

Assim foi proclamada a imparcialidade da justiça de Deus, e todo o povo foi levado a saber que nem mesmo as vestes sacerdotais protegeriam um transgressor da ira de Deus.

E era fácil argumentar: “Se eles não escapam quando transgridem, podemos nós esperar ficar impunes?”

E as roupas dos sacerdotes, feitas tão cedo mortalhas, podiam insinuar tanto que a lei produz morte quanto que, com o correr do tempo, aquele próprio sacerdócio seria abolido e sepultado na sepultura do Senhor Jesus.

III. Ele dá orientações a respeito do luto.

  1. Que os sacerdotes não devem prantear. Arão e os seus dois filhos sobreviventes, embora tristes de espírito, não deviam usar nenhuma expressão exterior de dor nesta triste ocasião, nem sequer seguir os corpos um passo além da porta do tabernáculo, v. 7.

Foi depois proibido ao sumo sacerdote usar as cerimônias de luto pela morte de qualquer amigo que fosse, ainda que fosse pai ou mãe (Levítico 21:11); contudo, ao mesmo tempo, era permitido aos sacerdotes inferiores prantear os seus parentes próximos, Levítico 21:2, 3.

Mas aqui foi proibido tanto a Arão quanto aos seus filhos, porque:

(1.) Eles estavam agora em pleno serviço, fazendo uma grande obra, que de modo nenhum devia cessar (Neemias 6:3); e era muito para a honra de Deus que a sua dedicação a ele tivesse precedência sobre as suas atenções aos parentes mais próximos, e que todos os serviços cedessem lugar aos do seu ministério.

Por isto deviam fazer ver que tinham maior estima e afeto pelo seu Deus e pela sua obra do que pelo melhor amigo que tivessem no mundo; como Cristo fez, Mateus 12:47, 48.

E somos ensinados por isto, quando estamos servindo a Deus em deveres santos, a manter a mente, tanto quanto possível, atenta e ocupada, e a não permitir que se desvie por pensamentos, cuidados ou paixões mundanas. Apliquemo-nos sempre ao Senhor sem distração.

(2.) Os seus irmãos foram extirpados por causa da sua transgressão pela mão direta de Deus, e por isso não deviam prantear por eles, para que não parecessem aprovar o pecado, ou pôr em causa a justiça de Deus no castigo.

Em vez de lamentar a sua própria perda, deviam estar inteiramente ocupados em aplaudir a sentença e em subscrever a equidade dela.

Repare: os interesses públicos da glória de Deus devem estar mais perto do nosso coração do que quaisquer afeições particulares nossas.

Observe como Moisés os leva a esta submissão pelo susto e segura a vara sobre eles para calar o seu choro (v. 6): para que não morressem também e para que não viesse ira sobre todo o povo, que poderia sofrer pela irreverência, pela desobediência e pelas paixões desgovernadas deles; e outra vez (v. 7), para que não morressem.

Veja aqui que uso devemos fazer dos juízos de Deus sobre os outros: devemos dobrar a guarda sobre nós mesmos, para que não pereçamos igualmente.

A morte, sobretudo a morte súbita, de outros, em vez de agitar nossas emoções, deveria levar-nos a uma santa reverência a Deus, a um cuidadoso afastamento de todo pecado e a uma séria expectativa da nossa própria morte.

A razão que lhes é dada é que o óleo da unção do vosso Deus está sobre vós, cuja honra deve ser cuidadosamente preservada por cumprirdes o dever do vosso ofício com alegria.

Repare: os que pela graça receberam a unção não devem perturbar-se com a tristeza do mundo, que produz morte.

Foi muito difícil, sem dúvida, para Arão e os seus filhos conterem-se de uma dor desmedida numa ocasião tão extraordinária, mas a razão e a graça dominaram a paixão, e eles suportaram a aflição com uma paciência obediente: “Fizeram conforme a palavra de Moisés”, porque sabiam ser ela a palavra de Deus.

Felizes aqueles que, assim, se submetem ao governo de Deus sobre a própria vida e mantêm sob controle as próprias paixões.

  1. O povo deve prantear: “Toda a casa de Israel lamente o incêndio que o Senhor acendeu.”

A congregação deve lamentar não somente a perda dos seus sacerdotes, mas sobretudo o desagrado de Deus que nela apareceu. Deviam lamentar o incêndio que fora aceso, para que não queimasse mais.

Arão e os seus filhos corriam o risco de ser afetados demais pela providência, e por isso lhes é proibido prantear; a casa de Israel corria o risco de ser afetada de menos por ela, e por isso lhe é ordenado lamentar. Assim a natureza deve sempre ser governada pela graça, conforme precise ser estimulada ou refreada.

Versículos 8 a 11

Advertências aos Sacerdotes. (a.C. 1490.)

Tendo Arão sido muito atento ao que Deus lhe disse por meio de Moisés, agora Deus lhe dá a honra de falar-lhe diretamente (v. 8): “O Senhor falou a Arão”.

E tanto mais porque o que agora seria dito Arão talvez tivesse levado a mal vindo de Moisés, como se Moisés suspeitasse que ele fosse um comilão e bebedor de vinho; tão propensos somos a ressentir-nos das advertências como se fossem acusações.

Por isso o próprio Deus lhe diz: “Não bebas vinho nem bebida forte quando entrares no tabernáculo”, e isso por conta e risco deles, “para que não morras”, v. 9.

Provavelmente eles tinham visto o efeito ruim disso em Nadabe e Abiú, e por isso devem tomar aviso por meio deles. Observe aqui:

  1. A proibição em si: “Não bebas vinho nem bebida forte”. Em outras ocasiões isso lhes era permitido (não se esperava que todo sacerdote fosse nazireu), mas durante o tempo do seu ministério estava-lhes proibido.

Esta era uma das leis do templo de Ezequiel (Ezequiel 44:21), e assim se exige dos ministros do evangelho que “não sejam dados ao vinho”, 1 Timóteo 3:3.

Repare: a embriaguez é má em qualquer um, mas é especialmente escandalosa e perniciosa nos ministros, que de todos os homens são os que devem ter a cabeça mais clara e o coração mais limpo.

  1. A pena ligada à proibição: “para que não morras”; para que não morras quando estiveres tomado de bebida, e assim “aquele dia venha sobre ti de improviso”, Lucas 21:34. Ou: para que não faças aquilo que te deixará exposto a ser extirpado pela mão de Deus.

O perigo de morte em que estamos continuamente deveria levar-nos a ser sóbrios, 1 Pedro 4:7. É uma pena que ele alguma vez seja usado para sustentar a licenciosidade, como o usam aqueles que argumentam: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”.

  1. As razões apresentadas para esta proibição. Eles precisam ser sóbrios, do contrário não poderiam desempenhar devidamente o seu ofício; correm perigo de errar por causa do vinho, Isaías 28:7. Devem cuidar de manter-se sóbrios:

(1.) Para que eles mesmos possam distinguir, nas suas ministrações, entre o que era sagrado e o que era comum, e nunca os confundam, v. 10.

Cabe aos ministros do Senhor fazer diferença entre o santo e o profano, tanto nas coisas quanto nas pessoas, para que separem entre o precioso e o vil, Jeremias 15:19.

(2.) Para que possam ensinar o povo (v. 11), pois isso era parte do trabalho dos sacerdotes (Deuteronômio 33:10).

E os que são entregues à embriaguez são muito impróprios para ensinar ao povo os estatutos de Deus, tanto porque os que vivem segundo a carne não podem conhecer por experiência as coisas do Espírito, quanto porque tais mestres derrubam com uma mão o que edificam com a outra.

Versículos 12 a 19

Moisés Irado com Eleazar e Itamar. (a.C. 1490.)

Moisés está aqui orientando Arão a prosseguir no seu serviço depois desta interrupção. As aflições devem antes nos avivar para o nosso dever do que nos afastar dele.

Observe (v. 12): falou a Arão e a seus filhos que restaram. O reparo feito na sobrevivência deles dá a entender:

  1. Que Arão devia consolar-se da perda de dois dos seus filhos com esta consideração: que Deus graciosamente lhe poupou os outros dois, e que ele tinha razão de ser grato pelo remanescente que ficou, e que nem todos os seus filhos tinham morrido; e, em sinal da sua gratidão a Deus, prosseguir animadamente na obra dele.

  2. Que o fato de Deus os ter poupado devia ser um compromisso sobre eles para prosseguirem no serviço dele, e não se afastarem dele.

Aqui havia quatro sacerdotes consagrados juntos; dois foram levados e dois ficaram. Por isso os dois que ficaram deviam esforçar-se por preencher os lugares dos que se foram, com cuidado e diligência em dobro nos serviços do sacerdócio. Ora:

I. Moisés repete as orientações que antes lhes dera sobre comerem a sua parte dos sacrifícios, vv. 12-14, 15.

Os sacerdotes deviam aprender não só a fazer diferença entre o santo e o profano, como lhes fora ensinado (v. 10), mas também a distinguir, entre as coisas que iam comer, o que era santíssimo do que era apenas santo.

A parte da oferta de manjares que ficava para o sacerdote era santíssima e, por isso, tinha de ser comida nos átrios do tabernáculo, e somente pelos filhos de Arão (v. 12, 13); mas o peito e a espádua das ofertas pacíficas podiam ser comidos em qualquer lugar decente fora dos átrios do tabernáculo, e pelas filhas das suas famílias.

As ofertas de manjares, sendo anexadas aos holocaustos, destinavam-se única e inteiramente à glória de Deus; mas as ofertas pacíficas foram ordenadas para o adiantamento da alegria e do consolo dos homens.

As primeiras, portanto, eram as mais sagradas, e as que se deviam ter em maior veneração. Esta distinção os sacerdotes deviam observar com cuidado, e guardar-se de cometer qualquer erro grosseiro.

Moisés não alega dar razão alguma para esta diferença, mas remete às suas instruções: “Porque assim me foi ordenado”, v. 13. Era razão bastante: ele havia recebido do Senhor tudo o que lhes transmitiu, 1 Coríntios 11:23.

II. Ele indaga a respeito de um desvio da determinação, que ao que parece havia ocorrido nesta ocasião, e que era este: havia um bode a ser sacrificado como oferta pelo pecado em favor do povo, Levítico 9:15.

Ora, a lei das ofertas pelo pecado era que, se o sangue delas fosse levado ao lugar santo, como era o das ofertas pelo pecado em favor do sacerdote, então a carne devia ser queimada fora do arraial; do contrário, devia ser comida pelo sacerdote no lugar santo, Levítico 6:30.

O sentido disto é explicado aqui (v. 17): que os sacerdotes com isso levavam a iniquidade da congregação, isto é, eram tipos daquele que devia ser feito pecado por nós, e sobre quem Deus faria cair a iniquidade de todos nós.

Ora, o sangue deste bode não foi levado ao lugar santo e, contudo, ao que parece, ele foi queimado fora do arraial. Ora, observe aqui:

  1. A repreensão branda que Moisés dá a Arão e a seus filhos por esta irregularidade. Aqui de novo os filhos de Arão são chamados os que ficaram vivos (v. 16), e que por isso deviam ter aceitado o aviso; e Moisés se irou contra eles.

Ainda que fosse o homem mais manso do mundo, ao que parece ele podia irar-se; e, quando julgava que Deus era desobedecido e desonrado, e o sacerdócio posto em perigo, ele se irava.

Contudo, observe com quanta brandura ele trata Arão e seus filhos, considerando a aflição presente deles. Ele apenas lhes diz que na verdade deviam tê-la comido no lugar santo, mas está disposto a ouvir o que têm a dizer em sua defesa, relutante em aumentar a dor daqueles a quem Deus havia ferido.

  1. A desculpa plausível que Arão apresenta para este erro. Moisés lançou a culpa sobre Eleazar e Itamar (v. 16), mas é provável que o que eles fizeram tenha sido por ordem de Arão, e por isso ele se desculpou por aquilo.

Ele poderia ter alegado que esta era uma oferta pelo pecado em favor da congregação, e que, se tivesse sido um novilho, teria de ter sido queimada por inteiro (Levítico 4:21); e por que não agora, sendo um bode?

Mas parece que desta vez foi ordenado de outro modo, e por isso ele faz da sua aflição a sua desculpa, v. 19. Observe:

(1.) Como ele fala da aflição: “Tais coisas me sobrevieram” — coisas tão tristes, que não podiam deixar de tocar-lhe fundo o coração e pesar-lhe muito.

Ele era um sumo sacerdote tomado dentre os homens, e não podia despir o afeto natural quando vestia as vestes santas. Ele “se calou” (v. 3), e contudo a sua dor se agitou, como a de Davi, Salmos 39:2.

Repare: pode haver um senso profundo da aflição mesmo onde há sincera resignação à vontade de Deus na aflição.

“Coisas tais como nunca me aconteceram antes, e que eu pouco esperava agora. Meu ânimo não pode deixar de abater-se quando vejo minha família abater-se; não posso deixar de ficar triste quando Deus está irado.” Assim é fácil dizer muita coisa para agravar uma aflição; mas é melhor dizer pouco.

(2.) Como ele faz disto uma desculpa para se ter afastado da determinação a respeito da oferta pelo pecado. Ele não poderia tê-la comido senão no seu luto, e com espírito pesaroso; e teria isso sido aceito?

Ele não alega que o seu coração estivesse tão cheio de dor que não tivesse apetite para ela, mas que temia que ela não fosse aceita. Repare:

[1.] A aceitação diante de Deus é a grande coisa que devemos desejar e visar em todos os nossos serviços religiosos, particularmente na ceia do Senhor, que é o nosso comer da oferta pelo pecado.

[2.] A tristeza do mundo é grandíssimo estorvo ao desempenho aceitável dos deveres santos, tanto no que diz respeito a nos desconcertar, tirando as rodas dos nossos carros e fazendo-nos andar pesadamente (1 Samuel 1:7, 8), quanto a desagradar a Deus, cuja vontade é que o sirvamos com alegria, Deuteronômio 12:7.

O pão dos que pranteiam era imundo, Oseias 9:4. Veja Malaquias 3:14.

  1. A aquiescência de Moisés diante desta desculpa: “ele ficou satisfeito”, v. 20. Talvez tenha julgado que isso justificava o que eles tinham feito. Deus havia provido que o que não pudesse ser comido fosse queimado.

A nossa inaptidão para o dever, quando é natural e não pecaminosa, receberá grandes concessões; e Deus quer misericórdia e não sacrifício.

Ao menos ele julgou que isso atenuava muito a culpa: o espírito, na verdade, estava pronto, mas a carne era fraca. Deus, por meio de Moisés, mostrou que levava em conta a sua fragilidade.

Parecia que Arão visava sinceramente à aceitação de Deus; e os que assim fazem com coração reto descobrirão que ele não observa com rigor extremo cada erro que cometem. Nem devemos ser severos nas nossas censuras a cada erro, considerando a nós mesmos, para que não sejamos também tentados.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra