Lamentações 4
Argumento
Este capítulo traz outra lamentação em uma única sequência alfabética pela destruição de Jerusalém, como nos dois primeiros capítulos. I. O profeta lamenta aqui as injúrias e indignidades feitas àqueles a quem se costumava demonstrar respeito, v. 1, 2. II. Lamenta os terríveis efeitos da fome a que foram reduzidos pelo cerco, vv. 3-10.
III. Lamenta a tomada e o saque de Jerusalém e suas assombrosas desolações, v. 11, 12. IV. Reconhece que os pecados de seus líderes foram a causa de todas essas calamidades, vv. 13-16. V. Dá tudo por condenado à ruína completa, pois seus inimigos eram fortes demais para eles em todos os sentidos, vv. 17-20.
VI. Prediz a destruição dos edomitas, que triunfaram com a queda de Jerusalém, v. 21. VII. Prediz, por fim, a libertação de Sião do cativeiro, v. 22.
A Condição Desolada de Jerusalém; Os Efeitos da Fome em Jerusalém; A Destruição de Jerusalém. (a.C. 588.)
Versículos 1 a 11
A elegia deste capítulo começa com uma lamentação pela mudança tão triste e dolorosa que os juízos de Deus produziram em Jerusalém. A cidade que antes era como ouro, como o ouro mais fino, tão rica e esplêndida, a perfeição da beleza e a alegria de toda a terra, tornou-se fosca e mudou; perdeu o brilho, perdeu o valor, já não é o que era: tornou-se escória. Ai! Que transformação houve aqui!
I. O templo foi devastado, embora fosse a glória de Jerusalém e sua proteção. Foi entregue às mãos do inimigo. Alguns entendem que o ouro mencionado (v. 1) é o ouro do templo, o ouro fino com que ele fora revestido (1 Reis 6:22); quando o templo foi queimado, seu ouro ficou enfumaçado e manchado, como se tivesse pouco valor.
Foi lançado entre os escombros; foi mudado, destinado a usos comuns e reduzido a nada.
As pedras do santuário, primorosamente trabalhadas, foram derrubadas pelos caldeus quando o demoliram, ou caíram pela força do fogo, e foram espalhadas e lançadas no começo de cada rua; jaziam misturadas, sem distinção, às ruínas comuns. Quando o pecado provocou o Deus do santuário a retirar-se, não é de admirar que as pedras do santuário fossem assim profanadas.
II. Os príncipes e sacerdotes, que de modo especial eram os filhos de Sião, foram pisoteados e maltratados, v. 2.
Tanto a casa de Deus quanto a casa de Davi estavam em Sião. Os filhos de ambas as casas eram preciosos por serem herdeiros dos privilégios das duas alianças, a do sacerdócio e a da realeza. Eram comparáveis ao ouro fino. Israel era mais rico por tê-los do que por possuir tesouros de ouro e prata.
Agora, porém, são estimados como vasos de barro; são quebrados como vasos de barro e descartados como utensílios nos quais ninguém tem prazer. Empobreceram e foram levados ao cativeiro; por isso se tornaram insignificantes e desprezíveis, e todos os pisoteiam e insultam. Repare: o desprezo imposto ao povo de Deus deve ser para nós motivo de lamentação.
III. As criancinhas morriam de fome por falta de pão e água, v. 3, 4. As mães que amamentavam, sem alimento para si, não tinham leite para os bebês ao peito; assim, embora fossem de fato compassivas em sua disposição, ainda assim pareciam cruéis em seus atos, como as avestruzes do deserto, que deixam os ovos no pó (Jó 39:14, 15).
Sem alimento para os filhos, eram forçadas a negligenciá-los e a fazer o possível para esquecê-los, pois pensar neles sem ter nada para lhes dar era doloroso; nisso eram piores que as focas, ou os monstros marinhos, ou as baleias (como alguns traduzem), pois estes ofereciam o peito e amamentavam seus filhotes, coisa que a filha do meu povo não fará.
As crianças não podem cuidar de si como os adultos; por isso era ainda mais doloroso ver a língua da criança de peito colar-se ao céu da boca de tanta sede, porque não havia uma gota de água para umedecê-la; e ouvir as crianças pequenas, que mal sabiam falar, pedirem pão aos pais, que nada tinham para lhes dar, nem amigo algum que pudesse supri-los.
Por mais dolorosos que sejam nossos pensamentos sobre essa situação, igualmente agradecidos devem ser nossos pensamentos pela grande abundância de que desfrutamos e pelo alimento adequado que temos para nós, para nossos filhos e para os de nossa casa.
IV. Pessoas de boa posição foram reduzidas à pobreza extrema, v. 5. As de bom nascimento e boa criação, acostumadas ao melhor tanto na comida quanto nas roupas, que se alimentavam delicadamente, tinham tudo o que era primoroso e refinado (chamam a isso comer bem, quando só comem bem os que comem para a glória de Deus) e viviam suntuosamente todos os dias.
Não apenas haviam alcançado o escarlate: desde o princípio tinham sido criadas em escarlate e nunca conheceram nada humilde ou comum.
Foram criadas sobre escarlate (assim diz a palavra); os panos para os seus pés e os tapetes sobre os quais andavam eram escarlates. Contudo, despojadas de tudo pela guerra, estão desamparadas nas ruas: não têm casa onde abrigar a cabeça, cama onde deitar, roupas para se cobrir nem fogo para se aquecer.
Abraçam os monturos; sobre eles se alegram por deitar e obter um pouco de descanso, e talvez remexam os monturos à procura de algo para comer, como o filho pródigo, que desejava encher o ventre com as bolotas. Repare: os que vivem na maior pompa e abundância não sabem a que apertos poderão ser reduzidos antes de morrer; assim como, às vezes, os necessitados são erguidos do monturo.
Os que estavam fartos alugaram-se por pão, 1 Samuel 2:5. Portanto, é sábio que os que têm abundância não se acostumem a excessivos mimos, pois então, quando vierem as agruras, serão duas vezes mais duras, Deuteronômio 28:56.
V. Pessoas eminentes por sua dignidade, ou talvez até por sua santidade, partilharam com os demais a calamidade comum, v. 7, 8.
Seus nazireus sofreram uma mudança extrema.
Alguns entendem que se trata apenas de seus homens honrados, jovens cavalheiros muito limpos, asseados e bem-vestidos, lavados e perfumados; mas não vejo por que não podemos entender que se trata das pessoas piedosas entre eles que se separavam para o Senhor pelo voto de nazireu, Números 6:2.
Que havia pessoas assim entre eles mesmo nos tempos de maior degeneração vê-se em Amós 2:11: “Levantei alguns dos vossos jovens para nazireus”.
Esses nazireus, embora não devessem cortar o cabelo, ainda assim, por sua dieta moderada, suas lavagens frequentes e, sobretudo, pelo prazer de se dedicarem a Deus e terem comunhão com ele, que fazia seu rosto brilhar como o de Moisés, eram mais puros que a neve e mais brancos que o leite.
Como não bebiam vinho nem bebida forte, tinham uma cor mais saudável e uma expressão mais alegre do que os que se regalavam diariamente com o sangue da uva, assim como Daniel e seus companheiros, com legumes e água.
Ou isso pode denotar o grande respeito e a veneração que todas as pessoas boas tinham por eles; embora talvez não tivessem, aos olhos, forma nem beleza, por estarem separados para o Senhor eram estimados como se fossem mais vermelhos que rubis e tivessem o polimento de safira.
Agora, porém, sua aparência está desfigurada (como se diz de Cristo, Isaías 52:14); é mais negra que o carvão; têm um aspecto miserável, em parte pela fome e em parte pela dor e perplexidade.
Não são reconhecidos nas ruas: os que os respeitavam já não reparam neles, e os que os conheciam intimamente agora mal os reconhecem, tão alterada estava sua fisionomia pelas misérias que acompanharam o longo cerco.
Sua pele se apega aos ossos, pois sua carne foi inteiramente consumida e definhou; secou e tornou-se como um graveto, tão seca e dura quanto um pedaço de madeira. Repare: deve-se lamentar muito que mesmo os separados para Deus, quando juízos devastadores se espalham, muitas vezes estejam envolvidos com os outros na calamidade comum.
VI. Jerusalém decaiu lentamente e teve uma morte prolongada; pois a fome contribuiu mais para sua destruição que qualquer outro juízo.
Nesse sentido, a destruição de Jerusalém foi maior que a de Sodoma (v. 6), porque esta foi derrubada num instante; uma só chuva de fogo e enxofre lhe deu fim; nenhuma mão se demorou sobre ela.
Não suportou um cerco longo como Jerusalém; caiu imediatamente nas mãos do Senhor, que atinge em cheio de um só golpe, e não caiu nas mãos do homem, que, por ser fraco, demora a executar a sentença, Juízes 8:21.
Jerusalém é mantida por muitos meses no tormento, em dor e miséria, e morre aos poucos, de modo a sentir a própria morte. E, sendo a iniquidade de Jerusalém mais agravada que a de Sodoma, não admira que seu castigo também o seja.
Sodoma nunca teve os meios da graça que Jerusalém teve, os oráculos de Deus e seus profetas; portanto, a condenação de Jerusalém será mais intolerável que a de Sodoma, Mateus 11:23, 24.
A fome extrema é apresentada aqui por dois exemplos aterradores: 1. As mortes demoradas que ela causou (v. 9); muitos foram mortos pela fome, pereceram de inanição porque suas reservas se esgotaram, e as reservas públicas estavam tão perto de acabar que não podiam obter delas alívio.
Foram traspassados por falta dos frutos do campo; os que passavam fome tinham a morte tão certa como se tivessem sido apunhalados e traspassados; sua situação, porém, era muito mais miserável.
Os mortos à espada logo se livram da dor; num instante descem à sepultura, Jó 21:13. Não têm o terror de ver a morte avançar em sua direção e mal a sentem quando recebem o golpe; há apenas uma luta breve e aguda, e tudo termina. E, se estivermos preparados para o outro mundo, não precisamos temer uma passagem breve até ele; quanto mais rápida, melhor.
Mas os que morrem de fome definham; a fome devora suas forças e os consome gradualmente; pior: aflige seu ânimo, enche-os de perturbação e é uma tortura tão grande para a mente quanto para o corpo. Há laços em sua morte, Salmos 73:4.
- Os assassinatos bárbaros de que ela foi ocasião (v. 10): as mãos das mulheres compassivas primeiro mataram e depois cozinharam seus próprios filhos. Isso já havia sido lamentado (Lamentações 2:20); e havia muito a lamentar no fato de que alguém fosse tão perverso a ponto de fazê-lo e de que fossem levados a extremos tais que se sentissem tentados a isso.
Esse efeito horrendo dos longos cercos, porém, havia sido ameaçado em termos gerais (Levítico 26:29; Deuteronômio 28:53) e, especificamente contra Jerusalém, no cerco dos caldeus, Jeremias 19:9; Ezequiel 5:10.
Já era triste que não tivessem com que alimentar os filhos e preparar-lhes comida (v. 4); muito pior era que encontrassem no coração disposição para se alimentar dos filhos e fazer deles comida.
Não sei se devo considerar isso exemplo do poder da necessidade ou do poder da iniquidade.
Mas, assim como os gentios idólatras foram justamente entregues a paixões vis (Romanos 1:26), também esses judeus idólatras, e particularmente as mulheres, que tinham feito bolos para a rainha dos céus e ensinado os filhos a fazer o mesmo, foram despojados da afeição natural, inclusive para com os próprios filhos.
Serem assim abandonados a desonrar sua própria natureza foi um justo juízo sobre eles pela desonra que haviam causado a Deus.
VII. Jerusalém cai de modo completo e assombroso. 1. A destruição de Jerusalém é uma destruição completa (v. 11): “O Senhor consumou sua cólera”; levou a obra até o fim, executou tudo o que se propusera em ira contra Jerusalém e não abrandou nenhuma parte da sentença.
Derramou as taças cheias de sua ira ardente, até o fundo, inclusive suas borras. Acendeu em Sião um fogo que não apenas consumiu as casas e as arrasou, mas, além do que fazem os outros incêndios, devorou seus alicerces, como se nada mais fosse construído sobre eles.
- É uma destruição assombrosa, v. 12. Surpreendeu os reis da terra, que conhecem o estado dos vizinhos e procuram saber dele; mais ainda, surpreendeu todos os habitantes do mundo que conheciam Jerusalém ou que haviam ouvido ou lido a seu respeito.
Não podiam acreditar que o adversário e inimigo algum dia entraria pelas portas de Jerusalém, pois: (1.) Sabiam que ela era fortemente defendida, não só por muralhas e baluartes, mas pelo número e pela força de seus habitantes; a fortaleza de Sião era considerada inexpugnável.
(2.) Sabiam que era a cidade do grande Rei, onde o Senhor de toda a terra tinha sua residência de modo mais particular; era a cidade santa e, por isso, julgavam que estivesse tão protegida por Deus que qualquer ataque dos inimigos contra ela seria inútil. (3.) Sabiam que muitas tentativas de tomá-la haviam sido frustradas, como a de Senaqueribe.
Por isso ficaram admirados quando ouviram que os caldeus a haviam dominado e concluíram que Jerusalém lhes fora entregue certamente pela mão direta de Deus; foi por uma ordem dele que o inimigo rompeu as defesas e entrou pelas portas de Jerusalém.
Versículos 13 a 20
Causa das Dores de Jerusalém. (a.C. 588.)
Temos aqui:
I. Os pecados de que foram acusados, pelos quais Deus trouxe sobre eles essa destruição e que serviram para mostrar a justiça de Deus ao fazê-lo (v. 13, 14): “Por causa dos pecados dos seus profetas e das iniquidades dos seus sacerdotes”. Não que o povo fosse inocente; não, eles gostavam que assim fosse (Jeremias 5:31), e foi para agradá-los que os profetas e sacerdotes agiram como agiram.
Mas a culpa recai principalmente sobre eles, que deveriam ter ensinado melhor ao povo, censurado e advertido as pessoas e lhes dito qual seria o fim de tudo isso; das mãos daqueles vigias que não lhes deram aviso será requerido o seu sangue. Repare: nada amadurece um povo para a ruína, nem enche sua medida mais depressa, que os pecados de seus sacerdotes e profetas.
O pecado particular de que são acusados é a perseguição; os falsos profetas e os sacerdotes corruptos uniram seu poder e sua influência para derramar o sangue dos justos no meio da cidade, o sangue dos profetas de Deus e dos que se uniam a eles.
Não derramaram apenas o sangue de seus filhos inocentes, que sacrificavam a Moloque, mas também o sangue dos homens justos entre eles, sacrificados àquele ídolo ainda mais cruel, a inimizade contra a verdade e a religião verdadeira.
Esse foi o pecado que o Senhor não perdoaria (2 Reis 24:4) e que trouxe a destruição final sobre Jerusalém (Tiago 5:6): “Condenastes e matastes o justo”. Os sacerdotes e os profetas lideravam a perseguição, assim como, no tempo de Cristo, os principais sacerdotes e escribas incitaram o povo contra ele; de outro modo, o povo teria persistido em seus hosanas.
São estes os que “andavam errantes como cegos pelas ruas”, v. 14. Desviaram-se dos caminhos da justiça, estavam cegos para tudo o que é bom, mas eram perspicazes para fazer o mal. Deus diz dos juízes corruptos: “Não sabem, nem entendem; andam em trevas” (Salmos 82:5); e Cristo diz dos mestres corruptos: “São guias cegos de cegos”, Mateus 15:14.
Contaminaram-se tanto com sangue inocente, o sangue dos santos, que ninguém podia tocar suas vestes; tornaram-se odiosos a todos ao redor, de modo que as pessoas boas evitavam tocá-los tanto quanto evitavam tocar um cadáver, que causava contaminação cerimonial, ou as roupas ensanguentadas de alguém morto, às quais pessoas sensíveis não gostam de tocar.
Nada fará os profetas e sacerdotes serem tão abominados quanto um espírito de perseguição.
II. O testemunho dos vizinhos, apresentado como prova contra eles, tanto para convencê-los do pecado quanto para mostrar a equidade do proceder de Deus com eles.
Alguns se tornaram tão descarados no pecado que se gabam de não se importar com o que dizem a seu respeito; mas Deus, por meio do profeta, queria que os judeus reparassem no que se dizia deles e na opinião dos que os observavam (v. 15, 16).
Que ouvissem o que estes diziam, ou melhor, o que lhes gritavam, sobretudo aos sacerdotes e profetas corruptos, entre os gentios. 1. Lançavam-lhes em rosto a suposta pureza, enquanto viviam em toda espécie de iniquidade real.
Gritavam-lhes: “Afastem-se; está impuro. Vocês eram tão rigorosos que não tocavam num gentio, mas clamavam: Afastem-se, afastem-se; fique de lado; sou mais santo do que você” (Isaías 65:5).
Assim, os acusadores de Cristo não queriam entrar no pretório para não se contaminarem.
“Mas agora poderão impedir que os gentios toquem em vocês, quando Deus os entregou às mãos deles? Quando fugirem e andarem errantes, mandarão que se afastem e não os toquem, porque são impuros.”
“Mas será em vão: essas serpentes não serão encantadas nem enfeitiçadas desse modo. Não, não respeitarão a pessoa dos sacerdotes nem favorecerão os anciãos; até as pessoas mais veneráveis serão desprezíveis para eles.”
- Lançavam-lhes em rosto seus pecados, a ira de Deus contra eles por esses pecados e os terríveis efeitos dessa ira.
Gritavam-lhes: “Afastem-se; está impuro”. Todos clamavam contra eles, envergonhando-os, e podiam prever facilmente que Deus não permitiria por muito tempo que um povo tão provocador permanecesse numa terra tão boa.
Sabiam que seus estatutos e juízos eram justos e esperavam que fossem um povo sábio e entendido, Deuteronômio 4:6.
Mas, ao vê-los completamente diferentes disso, gritavam: “Afastem-se, afastem-se”; logo perceberam sua condenação: a terra os vomitaria, como fizera com seus antecessores.
Quando viram os dispersos de Jacó fugir e andar errantes, disseram-lhes isso.
Disseram: “Agora a ira do Senhor os dividiu”, dispersou-os por todos os países, porque não respeitaram a pessoa dos sacerdotes, os sacerdotes piedosos que havia entre eles, como Zacarias, filho de Joiada, Jeremias e outros.
Também não favoreceram os anciãos; antes, desprezaram-nos e desprezaram sua autoridade quando procuraram refrear seus caminhos viciosos. Até os gentios previram que isso os arruinaria.
- Triunfaram sobre sua ruína, como se fosse irremediável.
Ao vê-los expulsos de sua própria terra, disseram: “Agora não habitarão mais ali; despediram-se dela definitivamente e nunca mais voltarão, pois Deus não voltará a olhar para eles; como então poderão socorrer-se?”
Nisso estavam enganados. Apesar de tudo, Deus não os havia rejeitado. Contudo, isto fica implícito: todos ao redor observavam que haviam provocado tanto seu Deus que não havia razão para esperar outra coisa senão que fossem inteiramente abandonados.
III. O desespero a que suas calamidades quase os reduziram.
Depois de ouvir o que diziam a seu respeito entre os gentios, ouçamos o que dizem de si mesmos (v. 17): “Quanto a nós, consideramos nosso caso praticamente sem socorro. Nosso fim está próximo (v. 18), o fim tanto de nossa igreja quanto de nosso Estado; estamos à beira da ruína de ambos.”
“Nosso fim chegou; estamos inteiramente perdidos; um fim fatal e definitivo foi posto a todos os nossos consolos; os dias de nossa prosperidade se cumpriram, foram contados e terminaram.”
Assim, seus temores concordavam com as esperanças de seus inimigos de que o Senhor não voltaria a olhar para eles. Pois: 1. Os refúgios a que recorreram os decepcionaram.
Buscaram ajuda neste e naquele aliado poderoso, mas sem resultado; foi ajuda vã. Os reforços esperados não chegaram ou, pelo menos, não tiveram o êxito que se esperava, e seus olhos desfaleceram de tanto esperar o que nunca veio (v. 17).
Vigiaram sem cessar, por muito tempo, com grande empenho e impaciência, à espera de uma nação que lhes prometera ajuda, mas falhou e frustrou sua expectativa.
Ela não podia salvá-los; era fraca demais para enfrentar o exército caldeu e, por isso, retirou-se. A ajuda das criaturas é ajuda vã (Salmos 60:11), e podemos esperá-la até que nossos olhos desfaleçam, até que o coração desfaleça, e ainda assim ficar sem ela no fim.
- Os perseguidores de quem fugiam os alcançaram e venceram (v. 18): “Caçam os nossos passos, de modo que não podemos andar pelas nossas ruas”. Quando os caldeus sitiaram a cidade, ergueram suas máquinas de cerco tão acima das muralhas que podiam dominar a cidade e atirar nas pessoas enquanto andavam pelas ruas. Perseguiam-nas com flechas de um lugar para outro.
Quando as defesas da cidade foram rompidas e todos os homens de guerra fugiram, seus perseguidores foram mais rápidos que as águias do céu quando voam sobre a presa, v. 19. Não havia como escapar deles: perseguiram-nos pelas montanhas e, quando julgavam ter se livrado deles, caíam nas mãos dos que lhes preparavam emboscadas no deserto, para cortar sua retirada e apanhar os dispersos.
Nem mesmo o rei escapou, embora se possa supor que tivesse todas as vantagens que a urgência do caso permitisse para favorecer sua fuga, pois a vingança divina o perseguia junto com eles. Então (v. 20), “o sopro das nossas narinas, o ungido do Senhor, foi apanhado nas suas covas”.
Alguns aplicam isso a Josias, morto em batalha pelo rei do Egito; mas deve-se entendê-lo antes de Zedequias, o último rei da casa de Davi, perseguido pelos caldeus e capturado nas planícies de Jericó, Jeremias 39:5.
Era o ungido do Senhor, herdeiro da família que Deus havia designado para governar. O Estado judeu depositava nele muita confiança. Disseram: “À sua sombra viveremos entre os gentios”. Esperavam que os remanescentes deixados depois do cativeiro de Jeconias, sob a proteção de seu governo, voltassem a criar raízes para baixo e a produzir fruto para cima.
Pensavam que, embora estivessem tão reduzidos que não podiam imaginar voltar a reinar sobre os gentios, como haviam feito, ainda assim conseguiriam viver entre eles sem serem insultados e despedaçados por eles. Assim, interesses que afundam se mostram propensos não só a agarrar-se a qualquer graveto, mas também a pensar que ele os salvará.
Jerusalém morreu de consumpção, doença que engana com aparência de melhora. Mesmo quando estava prestes a expirar, imaginou para si alguns sintomas promissores e neles baseou a esperança de que se recuperaria; mas qual foi o resultado? A sombra sob a qual pensavam viver mostrou-se como a da planta de Jonas, que murchou numa noite.
Aquele que era o ungido do Senhor foi apanhado nas covas deles, como se fosse apenas um animal de presa; tão pouco caso fizeram de alguém considerado sagrado e inviolável.
Repare: quando fazemos de alguma criatura o sopro das nossas narinas e prometemos a nós mesmos que viveremos por meio dela, é justo que Deus corte esse sopro e nos prive da vida que esperávamos obter dela; pois Deus terá a honra de ser ele mesmo, sozinho, nossa vida e a extensão de nossos dias.
Versículos 21 a 22
Consolo para Sião. (a.C. 588.)
Os salmos de lamentação de Davi costumam terminar com alguma palavra de consolo, que é como vida dentre os mortos e luz que brilha das trevas; assim termina esta lamentação do capítulo.
O povo de Deus agora está em grande angústia, suas faces estão todas tristes, suas perspectivas todas assustadoras, e seus vizinhos hostis, os edomitas, os insultam e fazem tudo o que podem para incitar ainda mais seus destruidores contra eles.
Tal era sua violência contra seu irmão Jacó (Obadias 1:10), tal seu rancor contra Jerusalém, da qual clamavam: “Arrasai-a, arrasai-a”, Salmos 137:7. Aqui, porém, se prediz, para ânimo do povo de Deus:
I. Que os sofrimentos de Sião terão fim (v. 22): “O castigo da tua iniquidade está cumprido, ó filha de Sião!” Não a plenitude do castigo que sua iniquidade merece, mas daquele que Deus planejou e determinou infligir e que era necessário para atingir seu fim: glorificar a justiça de Deus e remover o pecado deles.
O cativeiro, que é o castigo da tua iniquidade, está cumprido (Isaías 40:2), e ele já não a manterá em cativeiro; assim se pode ler, tão bem quanto “já não a levará ao cativeiro”. Ele reverterá seu cativeiro e realizará para ela uma gloriosa libertação. Repare: os sofrimentos do povo de Deus não continuarão além do tempo necessário para cumprir o propósito para o qual foram enviados.
II. Que os triunfos de Edom terão fim. Fala-se ironicamente (v. 21): “Alegra-te e regozija-te, ó filha de Edom! Continua a insultar Sião em sua angústia, até completares a medida da tua iniquidade. Faze-o; alegra-te por tua isenção atual da sorte comum dos teus vizinhos.”
Isso se parece com a censura de Salomão ao jovem por sua alegria sem freio (Eclesiastes 11:9): “Alegra-te, ó jovem, na tua mocidade! Alegra-te, se puderes, quando Deus vier ajustar contas contigo; e ele o fará em breve.”
“O cálice de tremor, do qual agora chegou a vez de Jerusalém beber profundamente, passará até ti; dará a volta até caber a ti bebê-lo também.” Repare: esta é uma boa razão para não insultarmos ninguém que esteja na miséria: nós mesmos também estamos no corpo e não sabemos quão cedo a situação deles poderá ser a nossa.
Mas os que se comprazem nas calamidades da igreja de Deus devem esperar receber sua condenação, como auxiliares e cúmplices, com os que são instrumentos dessas calamidades. A destruição dos edomitas foi predita por esse profeta (Jeremias 49:7, etc.), e o povo de Deus deve tomar ânimo diante da grosseria e insolência atuais deles com a perspectiva dessa destruição.
- Será uma destruição vergonhosa: “O cálice que passará a ti te embriagará” (e isso já é vergonha suficiente para qualquer pessoa); “ficarás bêbada, inteiramente desatinada e sem saber o que fazer; cambalearás em todos os teus planos e tropeçarás em todos os teus empreendimentos. Então, como Noé quando estava bêbado, te despirás e te exporás ao desprezo.”
Repare: os que ridicularizam o povo de Deus serão justamente entregues a si mesmos para fazer, mais cedo ou mais tarde, algo que os tornará ridículos.
- Será uma destruição justa. Deus visitará assim a sua iniquidade e descobrirá os seus pecados; ele os castigará e, para mostrar a própria justiça nisso, os revelará, tornando evidente que tem justa causa para proceder desse modo contra eles. Mais ainda, o castigo do pecado corresponderá tão exatamente ao pecado que ele próprio o revelará claramente.
Às vezes Deus visita a iniquidade de tal modo que quem passa correndo pode ler o pecado no castigo. Mais cedo ou mais tarde, porém, o pecado será visitado e descoberto, e todas as obras ocultas das trevas serão trazidas à luz.