Matthew Henry

Juízes 9

Argumento

A apostasia de Israel após a morte de Gideão é castigada não, como as apostasias anteriores, por uma invasão estrangeira ou pelas opressões de alguma potência vizinha, mas por conflitos internos entre eles, cuja história temos neste capítulo; e é difícil dizer se nele se destaca mais o pecado ou a miséria deles.

É o relato da usurpação e tirania de Abimeleque, filho bastardo de Gideão; é assim que devemos chamá-lo, e não, em termos mais modernos, de seu filho natural: ele era muito diferente do pai.

Aqui nos é contado: I. Como ele se impôs no governo em Siquém, sua própria cidade, por astúcia e crueldade, particularmente pelo assassinato de todos os seus irmãos, vv. 1-6. II. Como Jotão, o filho mais novo de Gideão, anunciou sua condenação por meio de uma parábola, vv. 7-21. III. Quais conflitos houve entre Abimeleque e seus amigos siquemitas, vv. 22-41.

IV. Como isso terminou na ruína dos siquemitas (vv. 42-49) e do próprio Abimeleque, vv. 50-57.

A respeito desse meteoro, desse ignis fatuus (fogo-fátuo) de príncipe, que não foi protetor, mas flagelo de seu país, podemos dizer, como certa vez se disse de um grande tirano: entrou como raposa, governou como leão e morreu como cão. “Por causa da transgressão de uma terra, tais são os seus príncipes.”

Versículos 1 a 6

A Usurpação de Abimeleque. (a.C. 1209.)

Aqui nos é contado por quais artimanhas Abimeleque alcançou autoridade e se engrandeceu. Talvez sua mãe tivesse instilado em sua mente pensamentos ambiciosos e elevados, e o nome que seu pai lhe deu, que trazia a ideia de realeza, pode ter ajudado a atiçar essas fagulhas.

Agora que sepultou o pai, nada satisfaz seu espírito orgulhoso senão sucedê-lo no governo de Israel, em oposição direta à vontade paterna, pois Gideão havia declarado que nenhum de seus filhos governaria o povo.

Deus não o chamou para essa honra, como chamara seu pai, nem havia então uma necessidade que exigisse um juiz para libertar Israel, como houve quando seu pai foi elevado; mas sua própria ambição precisava ser satisfeita, e satisfazê-la era seu único objetivo. Observe aqui:

I. Como ele astutamente atraiu os parentes de sua mãe para o seu lado. Siquém era uma cidade importante no território da tribo de Efraim. Josué havia realizado ali sua última assembleia. Se ao menos essa cidade se declarasse a seu favor e o elevasse, ele pensou que isso o ajudaria muito. Ali ele tinha influência na família de sua mãe e, por meio dela, conquistou os principais homens da cidade.

Não parece que algum deles o considerasse um homem de mérito, com qualidades que o recomendassem para tal escolha; a proposta partiu primeiro dele. Ninguém teria sonhado em fazer rei alguém como ele se ele mesmo não tivesse sonhado com isso. Veja aqui:

  1. Como ele os bajulou para que o escolhessem, vv. 2-3. Sugeriu vilmente que Gideão deixara setenta filhos, homens de destaque e com grande influência, que pretendiam conservar nas próprias mãos o poder que o pai tivera e, unidos, reinar sobre Israel. “Agora”, disse ele, “é melhor vocês terem um rei do que mais de um, do que muitos, do que tantos.”

“Os assuntos de Estado são mais bem administrados por uma só pessoa”, v. 2. Não temos motivo para pensar que algum dos filhos de Gideão pretendesse reinar sobre Israel (eles pensavam como o pai: que o Senhor reinasse sobre eles, e não tinham sido chamados por Deus); mesmo assim, Abimeleque insinua isso para abrir caminho às próprias pretensões.

Repare: quem planeja o mal costuma suspeitar que os outros também o planejem. Quanto a si mesmo, ele apenas lhes lembra o parentesco que tinha com eles (verbum sapienti — uma palavra basta aos sábios): “Lembrem-se de que sou osso e carne de vocês.” A trama funcionou às mil maravilhas.

Os magistrados de Siquém gostaram da ideia de sua cidade se tornar uma cidade real e a capital de Israel e, por isso, inclinaram-se a segui-lo, pois disseram: “Ele é nosso irmão, e sua promoção será nossa vantagem.”

  1. Como conseguiu dinheiro deles para custear suas pretensões, v. 4: “Deram-lhe setenta peças de prata.” Não se informa o valor de cada peça; se fossem tantos siclos, seria menos, e se fossem tantos talentos, seria mais do que podemos imaginar com facilidade. Por isso, supõe-se que cada peça pesasse uma libra.

Deram-lhe esse dinheiro da casa de Baal-Berite, isto é, do tesouro público que, por respeito ao ídolo, depositavam no templo dele para que ele o protegesse; ou das ofertas feitas àquele ídolo, dinheiro que esperavam que prosperasse mais nas mãos de Abimeleque por ter sido consagrado ao deus deles.

Como era impróprio para reinar sobre Israel alguém de quem mal se podia esperar que os defendesse: em vez de refrear e punir a idolatria, tão cedo se tornou pensionista de um ídolo!

  1. Que soldados recrutou. Contratou para seu serviço homens levianos e sem valor, a escória e os patifes do país: homens arruinados, de cabeça avoada e vida dissoluta. Ninguém além deles o reconheceria, e eram os mais adequados para servir aos seus propósitos. Tal líder, tais seguidores.

II. Como ele cruelmente tirou do caminho os filhos de seu pai:

  1. A primeira coisa que fez com a ralé que comandava foi matar de uma só vez todos os seus irmãos, publicamente e a sangue-frio: setenta homens, dos quais só um escapou, todos abatidos sobre a mesma pedra.

Veja o que essa tragédia sangrenta revela: (1.) O poder da ambição: em que feras ela transforma as pessoas, como rompe todos os laços de afeto natural e de consciência natural, e sacrifica aos próprios desígnios o que há de mais sagrado, querido e valioso. É espantoso que tal barbaridade pudesse entrar no coração de alguém! (2.) O perigo da honra e da linhagem nobre.

Serem filhos de um homem tão grande como Gideão os expôs desse modo e fez Abimeleque ter ciúmes deles. Encontramos exatamente o mesmo número de filhos de Acabe mortos juntos em Samaria, 2 Reis 10:1, 7. Os grão-senhores raramente se consideravam seguros enquanto algum de seus irmãos permanecesse sem ser estrangulado.

Portanto, que ninguém inveje quem tem linhagem elevada nem reclame da própria condição humilde e obscura. Quanto mais baixa, mais segura.

  1. Com o caminho assim aberto para a eleição de Abimeleque, os homens de Siquém passaram a escolhê-lo como rei, v. 6. Não consultaram a Deus sobre se deveriam ter algum rei, muito menos sobre quem deveria ser; não pediram conselho ao sacerdote nem aos irmãos de outra cidade ou tribo, embora a intenção fosse que ele reinasse sobre Israel, v. 22. Mas:

(1.) Os siquemitas agiram como se fossem o povo inteiro e como se a sabedoria morresse com eles: fizeram tudo. Ajudaram Abimeleque e o instigaram a assassinar os irmãos (v. 24) e, depois, fizeram dele rei.

Os homens de Siquém (os grandes, os principais magistrados da cidade) e a casa de Milo (o conselho municipal, a casa plena, como significa a palavra) reuniram-se em sua sede municipal.

Lemos muitas vezes sobre a casa de Milo, ou casa de Estado em Jerusalém, a cidade de Davi, 2 Samuel 5:9; 2 Reis 12:20.

Não se reuniram para processar e punir Abimeleque por esse assassinato bárbaro, como deveriam, pois ele era um de seus cidadãos, mas para fazê-lo rei. Pretium sceleris tulit hic diadema — sua maldade foi recompensada com um diadema. O que poderiam esperar de um rei que alicerçou seu reino sobre sangue?

(2.) Os demais israelitas foram tão estúpidos que assistiram sem se importar. Não fizeram nada para conter essa usurpação, proteger os filhos de Gideão ou vingar sua morte; submeteram-se mansamente ao tirano sanguinário, como gente que, junto com a religião, perdera a razão e todo o senso de honra, liberdade, justiça e gratidão.

Como seus pais haviam agido com vigor para vingar a morte da concubina do levita! No entanto, agora estavam tão deploravelmente degenerados que nem tentaram vingar a morte dos filhos de Gideão. Por isso foram acusados de ingratidão (Juízes 8:35): “Não mostraram bondade para com a casa de Jerubaal.”

Versículos 7 a 21

A Parábola de Jotão. (a.C. 1209.)

Aqui temos o único testemunho que parece ter sido levantado contra a perversa conspiração de Abimeleque e dos homens de Siquém. Era sinal de que haviam provocado Deus a afastar-se deles o fato de que nenhum profeta foi enviado e nenhum juízo notável despertou aquele povo insensato ou deteve o avanço desse mal ameaçador.

Só Jotão, o filho mais novo de Gideão, que por uma providência especial escapou da ruína de sua família (v. 5), falou com franqueza aos siquemitas. Seu discurso, registrado aqui, mostra que ele era um homem de grande talento e sabedoria, um verdadeiro cavalheiro, o que nos faz lamentar ainda mais a queda dos filhos de Gideão.

Jotão não tentou reunir um exército nas outras cidades de Israel (onde, poderíamos pensar, teria conseguido grande apoio por consideração a seu pai) para vingar a morte dos irmãos, muito menos para se apresentar como rival de Abimeleque. Isso mostra como era infundada a insinuação do usurpador de que os filhos de Gideão ambicionavam o domínio (v. 2).

Jotão se limitou a repreender com lealdade os siquemitas e a adverti-los claramente das consequências fatais. Teve a oportunidade de falar-lhes do alto do monte Gerizim, o monte das bênçãos, aos pés do qual provavelmente os siquemitas estavam reunidos por algum motivo (Josefo diz que celebravam uma festa); parece que estavam dispostos a ouvi-lo.

I. Sua introdução é muito séria: “Escutem-me, homens de Siquém, para que Deus escute vocês, v. 7. Se de fato esperam obter o favor de Deus e ser aceitos por ele, ouçam-me com paciência e imparcialidade.” Repare: quem espera que Deus ouça suas orações precisa estar disposto a ouvir a razão, uma repreensão leal e as queixas e apelos de inocentes injustiçados.

Se desviarmos os ouvidos de ouvir a lei, nossa oração será uma abominação (Provérbios 28:9).

II. Sua parábola é muito engenhosa: quando as árvores decidiram escolher um rei, ofereceram o governo às árvores valiosas: a oliveira, a figueira e a videira. Elas recusaram, preferindo servir a governar, fazer o bem a exercer poder. Mas, quando fizeram a mesma oferta ao espinheiro, ele a aceitou com exultação vaidosa.

Ensinar por parábolas é um método antigo e muito útil, especialmente para fazer repreensões.

  1. Com isso, ele elogia a modéstia generosa de Gideão e dos outros juízes que o precederam, e talvez também dos filhos de Gideão, que haviam recusado aceitar o estado e o poder de reis quando poderiam tê-los. Mostra também que, em geral, todos os homens sábios e bons tendem a recusar cargos e preferem ser úteis a ser grandes.

(1.) Não havia motivo algum para as árvores escolherem um rei: todas eram árvores do Senhor, que ele plantara (Salmos 104:16) e que, portanto, protegeria. Tampouco Israel tinha motivo para falar em estabelecer um rei sobre si, pois o Senhor era seu rei.

(2.) Quando pensaram em escolher um rei, não ofereceram o governo ao imponente cedro ou ao alto pinheiro, que servem apenas de ornamento e sombra e não têm outra utilidade até serem cortados, mas às árvores frutíferas, à videira e à oliveira.

Os que dão frutos para o bem público são justamente respeitados e honrados por todos os sábios mais do que os que querem apenas se destacar. Por um homem bom e útil, alguns até se arriscariam a morrer.

(3.) A razão que todas essas árvores frutíferas deram para recusar foi quase a mesma. A oliveira argumenta (v. 9): Deixaria eu a minha gordura, com que Deus e os homens são servidos e honrados? Pois o azeite e o vinho eram usados tanto nos altares de Deus como nas mesas dos homens. E a figueira diz (v. 11): Deixaria eu a minha doçura e o meu bom fruto para ser promovida sobre as árvores?

Ou, como diz a margem, para andar de um lado para outro por causa das árvores? Está implícito:

[1.] Que governar envolve muito trabalho e preocupação. Quem é promovido sobre as árvores precisa andar de um lado para outro por causa delas e tornar-se um escravo completo dos negócios.

[2.] Que aqueles promovidos a cargos de confiança e poder públicos precisam estar dispostos a abrir mão de todos os interesses e vantagens particulares e sacrificá-los pelo bem da comunidade. Se a figueira fosse promovida sobre as árvores, perderia sua doçura, seu doce retiro, repouso, convívio e contemplação, e enfrentaria fadiga constante.

[3.] Que os elevados à honra e à dignidade correm grande perigo de perder a própria seiva e fecundidade. A promoção tende a tornar as pessoas orgulhosas e indolentes e, assim, prejudica sua utilidade. Em uma posição inferior, honravam a Deus e aos homens com essa utilidade; por isso, quem deseja fazer o bem teme tornar-se importante demais.

  1. Com isso, ele expõe a ambição ridícula de Abimeleque, a quem compara ao espinheiro, ou cardo, v. 14. Supõe que as árvores lhe fizeram a corte: “Venha você e reine sobre nós”, talvez porque não soubesse que a primeira proposta para promover Abimeleque partira dele mesmo (como vimos no v. 2), mas pensasse que os siquemitas a haviam feito.

Mesmo supondo isso, sua tolice ao aceitar merecia repreensão. O espinheiro é uma planta sem valor, nem sequer contada entre as árvores: inútil e sem fruto, ou melhor, nociva e incômoda, arranha, rasga e causa dano; começou com a maldição e terminará queimado. Abimeleque era assim; ainda assim, as árvores, todas elas, o escolheram para governá-las.

Essa eleição parece ter sido mais unânime do que qualquer outra. Não nos espantemos ao ver a tolice em posição de grande dignidade (Eclesiastes 10:6), os homens mais vis exaltados (Salmos 12:8) e as pessoas cegas para o próprio interesse ao escolherem seus guias.

Escolhido para governar, o espinheiro não leva tempo para considerar se deve aceitar. Imediatamente, como se tivesse nascido e sido criado para dominar, ele fala com arrogância e lhes garante que os tratará como eles o trataram. Veja as palavras grandiosas e vazias que profere (v. 15) e as promessas que faz aos súditos fiéis: que venham e confiem na minha sombra. Bela sombra em que confiar!

Como ela é diferente “da sombra de uma grande rocha em terra cansada”, comparação feita com um bom magistrado (Isaías 32:2)! Confiem à sombra dele! Se chegassem perto, seria mais provável que fossem arranhados; mais provável que ele os ferisse do que os beneficiasse. Assim as pessoas se gabam de um falso dom.

Ele ameaça com tanta confiança quanto promete: se não forem leais, saia fogo do espinheiro — planta muito improvável de produzir fogo — e devore os cedros do Líbano, que têm mais probabilidade de pegar fogo e ser devorados.

III. Sua aplicação é muito direta e clara. Nela:

  1. Ele os lembra dos muitos bons serviços que seu pai lhes prestara, v. 17. Gideão lutara as batalhas deles, arriscando a própria vida, para benefício indizível do povo. Era uma vergonha que precisassem ser lembrados disso.

  2. Ele ressalta a gravidade da falta de bondade deles para com a família de seu pai. Não haviam agido com ele conforme o merecimento de suas obras, v. 16. Grandes méritos muitas vezes recebem retribuições muito ruins. Sobretudo para a posteridade, quando o benfeitor é esquecido, como no caso de José entre os egípcios.

Gideão deixara muitos filhos que honravam seu nome e sua família, e eles os haviam assassinado barbaramente. Deixara também um filho que era a vergonha de seu nome e de sua família, pois era filho de sua serva; todos os que respeitassem a honra de Gideão tentariam escondê-lo. No entanto, fizeram dele seu rei. Em ambos os casos, demonstraram o maior desprezo imaginável por Gideão.

  1. Ele deixa que o desfecho determine se agiram bem, entregando o apelo à providência divina:

(1.) Se prosperassem por muito tempo nessa vilania, ele lhes permitiria dizer que haviam agido bem, v. 19: “Se a conduta de vocês para com a casa de Gideão se justificar perante qualquer tribunal de justiça, honra ou consciência, que aproveitem o novo rei.” Mas (2.), se — como Jotão sabia — tivessem agido vil e perversamente nesse assunto, que nunca esperassem prosperar, v. 20.

Abimeleque e os siquemitas, que haviam fortalecido uns aos outros nessa vilania, certamente seriam flagelo e ruína uns dos outros. Ninguém espere agir mal e sair-se bem.

Depois de lhes dar essa advertência, Jotão conseguiu escapar com vida, v. 21. Ou não puderam alcançá-lo, ou ficaram tão convencidos que não quiseram acrescentar a culpa por seu sangue a todo o resto. Mas, por medo de Abimeleque, viveu exilado em algum lugar remoto e obscuro. Quem tem linhagem e educação elevadas não sabe a que dificuldades e apertos poderá ser reduzido.

Versículos 22 a 49

A Insurreição de Gaal; a Derrota de Gaal. (a.C. 1206.)

Abimeleque reinou por assim dizer durante três anos, sem perturbações. Não se diz que julgou Israel ou prestou algum serviço ao país; por todo esse tempo, porém, desfrutou do título e da dignidade de rei. Não só os siquemitas, mas também muitos outros lugares lhe prestavam respeito. Deviam gostar muito de um rei para se contentarem com alguém como ele. Mas o triunfo dos perversos dura pouco.

Em três anos, como os de um trabalhador assalariado, toda essa glória será desprezada e lançada ao pó, Isaías 16:14. A ruína desses aliados na maldade veio da mão justa de Deus, a quem pertence a vingança. Ele enviou um espírito maligno entre Abimeleque e os siquemitas (v. 23), isto é, eles ficaram desconfiados e hostis uns para com os outros.

Abimeleque desprezou os que o haviam elevado e talvez favorecesse outras cidades, que começavam a se aliar a ele, mais do que favorecia os siquemitas; então estes ficaram descontentes com seu governo, criticaram sua conduta e entraram em desavença por causa de suas imposições. Isso veio de Deus.

Ele permitiu que o diabo, esse grande causador de danos, semeasse discórdia entre eles; ele é um espírito maligno que Deus não só mantém sob seu controle, como às vezes usa para cumprir seus próprios propósitos. As paixões deles também eram espíritos malignos: são demônios no coração das pessoas e delas vêm guerras e contendas.

Deus os entregou a essas paixões e, assim, pode-se dizer que enviou espíritos malignos entre eles. Quando o pecado das pessoas se torna seu castigo, embora Deus não seja o autor do pecado, o castigo vem dele.

A desavença de Deus com Abimeleque e os siquemitas era por terem assassinado os filhos de Gideão (v. 24): para que a crueldade praticada contra eles recaísse sobre Abimeleque, que os matara, e sobre os homens de Siquém, que o haviam ajudado, e para que o sangue deles pesasse como um fardo sobre todos. Repare: 1.

Mais cedo ou mais tarde, Deus fará inquisição pelo sangue, pelo sangue inocente, e o fará recair sobre a cabeça dos que o derramaram; dará a beber sangue a quem o merece. 2. Os cúmplices também serão chamados a prestar contas, assim como os autores, por esse e por outros pecados.

Os siquemitas apoiaram as pretensões de Abimeleque, ajudaram-no e o instigaram em seu projeto sangrento e confirmaram o crime ao fazê-lo rei depois do assassinato; por isso cairão com ele, por meio dele e antes dele. 3. Quem se une a outros para praticar o mal merece ser despedaçado por eles. O sangue não pode servir de cimento duradouro a nenhum interesse.

I. Os siquemitas começaram a afrontar Abimeleque, talvez sem saber bem por quê, pois eram volúveis:

  1. Agiram com traição contra ele, v. 23. Não se diz que se arrependeram do pecado de reconhecê-lo como rei. Se tivessem feito isso, teriam agido louvavelmente ao rejeitá-lo; mas o fizeram apenas por algum ressentimento particular, alimentado pelo orgulho ou pela inveja. Os que o elevaram foram os primeiros a abandoná-lo e a tentar destroná-lo.

Não é de espantar que quem foi ingrato com Gideão fosse infiel a Abimeleque; o que manterá firmes aqueles que não se deixam prender por méritos como os de Gideão? Repare: é justo, da parte de Deus, que os que primeiro tentam levar outros à perfídia acabem traídos por aqueles a quem ensinaram a ser pérfidos.

  1. Procuraram capturá-lo quando estava em Arumá (v. 41), sua residência no campo. Esperando que fosse à cidade, deixaram homens de tocaia (v. 25), prontos para prender aquele que pouco antes haviam feito príncipe.

Como ele não veio, os homens postados ali aproveitaram para roubar viajantes; isso deixaria o povo cada vez mais insatisfeito com Abimeleque, vendo que ele não podia ou não queria protegê-los dos salteadores.

  1. Receberam um certo Gaal e o estabeleceram como líder contra Abimeleque, v. 26. Diz-se que Gaal era filho de Ebede, que significa “servo”, talvez indicando sua origem humilde. Assim como Abimeleque descendia de uma serva por parte de mãe, Gaal descendia de um servo por parte de pai. Um espinheiro estava disputando com outro.

Temos motivo para suspeitar que Gaal fosse um cananeu nativo, pois cortejava os siquemitas para que se submetessem aos homens de Hamor, antigo senhor daquela cidade no tempo de Jacó. Era ousado e ambicioso, atendia muito bem aos propósitos deles quando se dispuseram a brigar com Abimeleque; eles também atendiam aos propósitos dele. Assim, foi para junto deles atiçar o fogo, e eles confiaram nele.

  1. Fizeram todo o mal que podiam à reputação de Abimeleque, v. 27. Divertiram-se muito na ausência dele, contentes por estar livre do caminho e esperando se livrar dele agora que tinham outro líder. Foram até o templo de seu deus para celebrar a festa da colheita; ali comeram, beberam e amaldiçoaram Abimeleque.

Não só falaram todo o mal que podiam dele à mesa e nas canções dos bêbados, como também lhe desejaram todo o mal possível diante dos sacrifícios, pedindo ao ídolo que o destruísse. Brindaram à sua desgraça e gritaram tão alto quanto haviam gritado quando brindavam à sua prosperidade.

Reuniram-se para amaldiçoá-lo e planejar sua ruína naquele mesmo templo de onde tinham tirado dinheiro para elevá-lo. Se tivessem abandonado o deus-ídolo junto com o rei-imagem, poderiam esperar prosperar; mas, enquanto continuassem apegados ao primeiro, o segundo os levaria à ruína. Como Satanás expulsaria Satanás?

  1. Gostaram da bravata de Gaal contra Abimeleque, v. 28, 29:

Adoravam ouvir aquele insolente arrivista falar com desprezo: (1.) de Abimeleque, embora, ao chamá-lo desdenhosamente de Siquém ou siquemita, insultasse a própria cidade.

(2.) Também de seu bom pai, Gideão: “Não é ele filho de Jerubaal?” Talvez falasse com indignação ímpia contra o nome e a memória de Gideão por ter derrubado o altar de Baal, transformando em motivo de censura o que era motivo de louvor.

(3.) Do primeiro-ministro de Abimeleque, Zebul, oficial dele e governador da cidade: “Bem podemos nos envergonhar de servi-los, e não precisamos temer opor-nos a eles.” Homens de espírito ambicioso e turbulento desprezam assim o domínio e falam mal dos que têm autoridade.

Gaal não pretendia recuperar a liberdade de Siquém, mas apenas trocar o tirano: “Ah, se este povo estivesse sob o meu comando! O que eu faria! Desafiaria Abimeleque para disputar o direito à coroa.” Ao que parece, pediu aos amigos que avisassem Abimeleque de que estava pronto para enfrentá-lo quando quisesse: “Aumente seu exército e venha.”

“Faça o pior que puder; que a espada decida a questão.” Isso agradou aos siquemitas, que agora estavam tão cansados de Abimeleque quanto antes haviam gostado dele. Quem não tem consciência não tem constância.

II. Abimeleque voltou toda a sua força contra eles e, em pouco tempo, os arruinou completamente. Observe as etapas da derrota deles:

  1. Zebul, seu aliado de confiança e governador da cidade, revelou a Abimeleque os planos dos siquemitas, pois continuava firmemente a seu favor. Sua ira se acendeu (v. 30), ainda mais porque Gaal falara mal dele (v. 28); talvez, se Gaal o tivesse elogiado e tratado com agrados em meio àquela agitação, pudesse tê-lo atraído para o próprio lado.

Zebul, porém, sentindo-se ofendido, informou Abimeleque de tudo o que se dizia e fazia contra ele em Siquém, v. 31. Muitas vezes os traidores acabam traídos por alguém do próprio grupo, e até a maldição contra o rei é levada de modo surpreendente por uma ave no céu. Zebul o aconselhou com prudência a atacar a cidade imediatamente e não perder tempo, v. 32, 33.

Achava melhor que ele marchasse com suas tropas à noite para os arredores, surpreendesse a cidade pela manhã e então tirasse proveito da situação. Como os siquemitas esperavam ter sucesso se o governador de sua cidade apoiava o inimigo? Sabiam disso, mas não tomaram nenhuma providência para detê-lo.

  1. Gaal, líder da facção, depois de ser traído por Zebul, confidente de Abimeleque, foi cruelmente ridicularizado por ele. Conforme o conselho de Zebul, Abimeleque levou todas as suas forças para junto de Siquém durante a noite, v. 34. De manhã, Gaal foi até a porta da cidade (v. 35) para ver a situação e perguntar pelas novidades.

Zebul, governador, encontrou-se com Gaal ali, fingindo ser amigo. Quando Abimeleque e suas tropas avançaram para a cidade, Gaal os avistou (v. 36) e apontou-os a Zebul, ao seu lado. Sem saber que Zebul os chamara e aguardava, disse: “Olhe, não estou vendo um grupo de homens descendo da montanha em nossa direção? Estão ali”, apontando para o lugar.

“Não, não”, respondeu Zebul, “sua vista o engana; é só a sombra das montanhas que você está tomando por um exército.” Com isso, pretendia (1.) ridicularizá-lo como homem sem juízo nem coragem, impróprio para o cargo que reivindicava, fácil de enganar e fazer acreditar em qualquer coisa, tão tolo e covarde que via perigo onde não havia e estava pronto para lutar contra uma sombra.

(2.) Pretendia retê-lo e mantê-lo conversando enquanto as tropas de Abimeleque se aproximavam, para que obtivessem vantagem.

Gaal, porém, acreditava que aqueles homens eram apenas a sombra das montanhas — talvez os montes Ebal e Gerizim, bem perto da cidade —; então descobriu, ao avistar outros dois grupos marchando depressa para a cidade, que eram homens.

Então Zebul mudou de estratégia e o provocou, lembrando-lhe o que dissera um ou dois dias antes, com desprezo por Abimeleque (v. 38): Onde está agora a sua boca, essa boca suja com que você dizia: Quem é Abimeleque? Repare: pessoas orgulhosas e arrogantes muitas vezes são obrigadas, em pouco tempo, a mudar o discurso e temer aqueles que mais desprezaram.

Gaal desafiara Abimeleque, em tom de bravata, a aumentar o exército e sair; agora Zebul, em nome de Abimeleque, o desafiou: “Saia e lute contra eles, se tiver coragem.” É justo que os insolentes sejam assim afrontados.

  1. Abimeleque derrotou as tropas de Gaal que saíram da cidade, v. 39, 40. Gaal, sem dúvida desanimado pelas provocações de Zebul e percebendo que seu apoio era menor do que imaginara, avançou contra Abimeleque com a pouca força que tinha; logo foi vencido e obrigado a refugiar-se na cidade às pressas. Os siquemitas sofreram perdas consideráveis nessa ação: muitos foram derrubados e feridos.

Esse é o efeito comum dos tumultos populares, nos quais a multidão imprudente muitas vezes é levada a uma armadilha fatal por aqueles que lhe prometem uma vitória gloriosa.

  1. Naquela noite, Zebul expulsou da cidade Gaal e o grupo que ele trouxera para Siquém (v. 41), mandando-o de volta para o lugar de onde viera.

Embora a maioria da cidade continuasse contrária a Abimeleque, como a continuação do relato mostra, estavam dispostos a se livrar de Gaal e não se opuseram à expulsão, pois, apesar de falar alto, ele fracassara quando surgiu a oportunidade de mostrar habilidade e coragem. A maioria julga que alguém é capaz de realizar um trabalho pelo sucesso que obtém; quem não se sai bem é considerado incapaz.

Assim, logo terminou a influência de Gaal em Siquém: aquele que falava em remover Abimeleque foi removido, e nunca mais ouvimos falar dele. Exit Gaal — Gaal se retira.

  1. No dia seguinte, Abimeleque atacou a cidade e a destruiu completamente por causa da traição deles. Talvez Abimeleque soubesse que os habitantes de Siquém haviam expulsado Gaal, líder da facção, e pensassem que isso bastaria para satisfazê-lo; mas o crime era profundo demais para ser reparado assim, e seu ressentimento era forte demais para ser aplacado por um gesto tão pequeno de submissão.

Além disso, a expulsão fora mais obra de Zebul do que deles. A força deles estava enfraquecida, e por isso Abimeleque decidiu insistir no ataque e castigar a traição de modo eficaz.

(1.) Informaram-no de que o povo de Siquém saíra para o campo, v. 42. Alguns pensam que foram para cuidar do trabalho no campo, arar e semear (já que tinham acabado de recolher a colheita), ou concluir a colheita, pois só haviam terminado a vindima (v. 27). Isso indicaria que estavam desprevenidos.

Como Abimeleque se retirara (v. 41), não esperavam perigo vindo dele; o desfecho, então, ilustra a destruição repentina que sobrevém aos que dizem: “Paz e segurança.” Outros pensam que foram ao campo de batalha: embora Gaal tivesse sido expulso, não depuseram as armas, mas se prepararam para outro confronto com Abimeleque, esperando recuperar o que haviam perdido no dia anterior.

(2.) Ele próprio, com um forte destacamento, cortou a comunicação entre eles e a cidade e tomou posição na entrada da porta (v. 44), para que não pudessem voltar à cidade nem receber ajuda dela. Então enviou dois grupos de seus homens, mais fortes do que eles, que os atacaram com a espada, avançaram contra os que estavam no campo e os mataram.

Quando saímos para cuidar dos nossos afazeres, não temos certeza de que voltaremos para casa; há mortes tanto na cidade como no campo.

(3.) Em seguida, atacou a própria cidade e, com uma fúria que chegava ao céu, embora fosse o lugar onde nascera, reduziu-a a ruínas, matou todo o povo, derrubou os edifícios e, para mostrar que desejava que ela ficasse desolada para sempre, semeou sal sobre ela, a fim de que permanecesse como monumento duradouro do castigo da perfídia.

Abimeleque, porém, não conseguiu torná-la desolada para sempre, pois ela foi reconstruída e se tornou tão importante que todo o Israel foi para lá fazer de Roboão rei, 1 Reis 12:1. E o lugar acabou sendo um mau presságio. Com isso, Abimeleque pretendia castigar os siquemitas por tê-lo ajudado antes a assassinar os filhos de Gideão.

Assim, quando Deus usa pessoas como instrumentos em suas mãos para realizar sua obra, Deus tem um propósito e elas, outro, Isaías 10:6, 7. Elas pretendem defender a própria honra, mas Deus pretende defender a sua.

  1. Todos os que se refugiaram na fortaleza do templo de seu ídolo foram destruídos ali. São chamados homens da torre de Siquém (v. 46, 47), talvez os habitantes de algum castelo que pertencia à cidade, mas ficava a certa distância.

Ao saberem da destruição da cidade, retiraram-se para uma fortaleza do templo, confiando provavelmente não tanto em sua força quanto em sua santidade; colocaram-se sob a proteção do ídolo. Pois assim todos os povos andarão em nome do seu deus; não deveríamos nós, então, escolher habitar na casa do Senhor todos os dias de nossa vida?

Pois, no tempo da aflição, ele nos esconderá em seu pavilhão, Salmos 27:5. “O nome do Senhor é uma torre forte”, Provérbios 18:10.

Aquilo que esperavam que lhes trouxesse bem-estar, porém, tornou-se armadilha e laço, como certamente descobrem os que correm aos ídolos em busca de abrigo: o refúgio se revela uma mentira. Quando Abimeleque os encurralou a todos naquela fortaleza, não quis mais nada.

Imediatamente lhe veio à mente o plano bárbaro de incendiar a fortaleza e, por assim dizer, queimar todos os pássaros juntos no ninho. Guardou o plano para si, mas pôs todos os homens para trabalhar a fim de executá-lo, vv. 48-49. Mandou que todos o seguissem e fizessem o mesmo que ele.

Assim como seu pai dissera a seus homens (Juízes 7:17): “Olhem para mim e façam como eu”, ele disse o mesmo aos seus, como convém a um general que não deixa de dar a seus soldados a orientação mais clara e o maior incentivo possível: “Apressem-se a fazer o que me viram fazer; façam como eu.” Não Ite illuc — “Vão para lá”; mas Venite huc — “Venham para cá”.

Os oficiais no exército de Cristo devem ensinar assim pelo exemplo, Filipenses 4:9. Ele e os homens foram buscar, cada um, um galho numa mata próxima; colocaram todos os galhos juntos debaixo da muralha da torre, que provavelmente era de madeira, atearam fogo nos galhos e assim incendiaram a fortaleza e todos os que estavam nela, que morreram queimados ou sufocados pela fumaça.

Que artifícios as pessoas inventam para destruir umas às outras! De onde vêm essas guerras e contendas cruéis, senão das paixões delas? Alguns pensam que os homens da torre de Siquém eram os mesmos da casa de Milo; nesse caso, a maldição justa de Jotão se cumpriu literalmente: Saia fogo de Abimeleque e devore não só, em geral, os homens de Siquém, mas, em particular, a casa de Milo (v. 20).

Cerca de mil homens e mulheres morreram nessas chamas; muitos provavelmente não tinham nada a ver com a contenda entre Abimeleque e os siquemitas nem haviam tomado partido, mas, nessa guerra civil, tiveram esse fim miserável. Os homens de espírito faccioso e turbulento não perecem sozinhos em sua iniquidade: envolvem na mesma calamidade muitos outros que os seguem com ingenuidade.

Versículos 50 a 57

A Morte de Abimeleque. (a.C. 1206.)

Vimos a ruína dos siquemitas consumada pelas mãos de Abimeleque; agora chegou a vez de ele, que os liderara na vilania, ser chamado a prestar contas. Tebes era uma cidade pequena, provavelmente não muito longe de Siquém, dependente dela e aliada a ela. Agora, I. Abimeleque tentou destruir essa cidade (v. 50) e levou todos os habitantes para dentro da fortaleza, ou cidadela, v. 51.

Quando os encurralou ali, não duvidou de que faria a mesma execução que fizera há pouco na fortaleza do templo de Baal-Berite, sem considerar que a torre de um templo idólatra estava mais exposta à vingança divina do que qualquer outra torre.

Tentou incendiar a torre, ou pelo menos queimar a porta, para forçar a entrada, v. 52. Quem escapa de uma tentativa desesperada e tem sucesso tende a pensar que outra igual também não é desesperada. Muito depois, esse caso foi citado para mostrar o perigo de se aproximar da muralha de uma cidade sitiada, 2 Samuel 11:20, etc. Deus, porém, confunde aqueles que pretende arruinar.

II. Nessa tentativa, ele próprio foi destruído: um pedaço de pedra de moinho atingiu sua cabeça e lhe esmagou o crânio, v. 57. Sem dúvida, esse homem era assassino; embora tivesse escapado aos perigos da guerra contra Siquém, a vingança não permitiu que vivesse, Atos 28:4. O mal persegue os pecadores e às vezes os alcança quando estão não apenas seguros, mas triunfantes.

Tebes, podemos supor, era um lugar fraco e insignificante se comparado a Siquém. Abimeleque, tendo conquistado a cidade maior, não duvidava de que dominaria a menor sem dificuldade, especialmente depois de tomar a cidade e ter apenas a torre para enfrentar; ainda assim, deixou seus ossos ali, e toda a sua honra ficou enterrada com ele.

Assim, as coisas mais fracas e menosprezadas muitas vezes confundem os poderosos do mundo. Veja como a providência divina muitas vezes repreende, com justiça, os que exigem uma reparação desmedida pelos danos recebidos.

Abimeleque tinha algum motivo para castigar os siquemitas, e os castigara sem medida; mas, ao levar a vingança ainda mais longe e insistir que Tebes também fosse sacrificada à sua fúria, não só foi frustrado ali, como destruído. Pois, de fato, há um Deus que julga na terra. Três circunstâncias da morte de Abimeleque merecem atenção:

  1. Foi morto por uma pedra, assim como havia matado os irmãos, todos sobre a mesma pedra.

  2. Teve o crânio esmagado. A vingança visou aquela cabeça culpada que usara a coroa usurpada.

  3. A pedra foi lançada sobre ele por uma mulher, v. 53. Ele viu a pedra vindo; é estranho que não tenha se esquivado, mas, sem dúvida, isso tornou ainda mais humilhante para ele ver de que mão viera.

Sísera morreu pela mão de uma mulher sem saber; Abimeleque não só caiu pela mão de uma mulher como também sabia disso e, ao sentir que estava prestes a dar o último suspiro, nada o perturbou tanto quanto pensar que diriam: “Uma mulher o matou.” Veja:

(1.) Seu orgulho tolo, por levar tão a sério esse pequeno detalhe desonroso. Não cuidou de sua alma preciosa, não se preocupou com o que lhe aconteceria, nem orou a Deus por misericórdia; mas estava muito empenhado em remendar a reputação arruinada, quando não havia como remendar seu crânio esmagado.

“Ah, que nunca digam que um homem tão poderoso como Abimeleque foi morto por uma mulher!” O homem estava morrendo, mas seu orgulho continuava vivo e forte. O mesmo desejo de glória vã que o governara durante toda a vida aparece agora no fim. Qualis vita, finis ita — como foi a vida, assim foi a morte. Deus castigou sua crueldade pelo modo como morreu e seu orgulho pelo instrumento que o matou.

(2.) Seu projeto tolo para escapar dessa desonra: nada poderia ser mais ridículo. Seu próprio servo teria de atravessá-lo com a espada, não para livrá-lo mais depressa da dor, mas para que não dissessem que uma mulher o havia matado. Poderia pensar que isso esconderia o que a mulher fizera, em vez de torná-lo ainda mais conhecido?

Isso acrescentou infâmia à sua morte, pois assim ele se tornou suicida. Melhor que dissessem “uma mulher o matou” do que “seu servo o matou por ordem dele”; ainda assim, agora dirão ambas as coisas, para sua vergonha eterna.

Também é notável que justamente o fato que Abimeleque tanto queria esconder parece ter sido mais particularmente lembrado pela posteridade do que a maioria dos episódios de sua história. Joabe fala dele como algo que esperava que Davi lhe lançasse em rosto, por ter chegado tão perto da muralha, 2 Samuel 11:21. Pelo pecado, nós apenas perpetuamos a lembrança da desonra que tentamos evitar.

III. O desfecho foi que Abimeleque morreu e:

  1. A paz de Israel foi restaurada, e essa guerra civil terminou, pois os que o seguiam foram cada um para o seu lugar, v. 55.

  2. A justiça de Deus foi glorificada (v. 56, 57): assim Deus castigou a maldade de Abimeleque e dos homens de Siquém e cumpriu a maldição de Jotão, pois não era uma maldição sem causa. Assim preservou a honra de seu governo e advertiu todas as gerações de que se deve esperar sangue por sangue.

O Senhor se dá a conhecer pelos juízos que executa, quando o perverso é preso pela obra das próprias mãos. Embora a maldade possa prosperar por algum tempo, não prosperará para sempre.


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