Juízes 10
Argumento
Neste capítulo temos: I. Os tempos pacíficos que Israel desfrutou sob o governo de dois juízes, Tola e Jair, vv. 1-5.
II. Os tempos difíceis que se seguiram:
O pecado de Israel que o levou à aflição, v. 6.
A própria aflição em que se encontraram, vv. 7-9.
III. O arrependimento e a humilhação deles por causa do pecado, suas orações e reforma, e a misericórdia que encontraram junto a Deus em seguida, vv. 10-16.
IV. Os preparativos para libertá-los das mãos de seus opressores, v. 17, 18.
Versículos 1 a 5
O Governo de Tola e Jair. (a.C. 1183.)
Reinados tranquilos e pacíficos, embora sejam os melhores para viver, são os piores para escrever, pois oferecem ao historiador a menor variedade de assuntos para entreter o leitor. Assim foram os reinados desses dois juízes, Tola e Jair, que têm pouco destaque e ocupam pouquíssimo espaço nesta história.
Sem dúvida, porém, ambos foram levantados por Deus para servir à sua pátria como juízes, sem pretender, como Abimeleque, a grandeza dos reis, nem, como ele, tomar para si a honra que receberam, mas sendo chamados por Deus para isso.
- A respeito de Tola, diz-se que ele se levantou depois de Abimeleque para defender Israel, v. 1.
Depois que Abimeleque corrompeu Israel com sua perversidade e o inquietou e perturbou com sua ambição incansável, expondo-o a inimigos estrangeiros pelos males que lhe causou, Deus animou esse homem bom a agir para reformar os abusos, derrubar a idolatria, apaziguar os tumultos e curar as feridas que a usurpação de Abimeleque infligira ao Estado.
Assim, ele os salvou de si mesmos e os protegeu dos inimigos.
Ele era da tribo de Issacar, uma tribo inclinada a servir, pois “curvou o ombro para carregar” (Gênesis 49:14, 15); ainda assim, um homem dessa tribo foi levantado para governar, pois os que se humilham serão exaltados. Tola levava o nome do antepassado da primeira família daquela tribo: dos filhos de Issacar, Tola foi o primeiro (Gênesis 46:13; Números 26:23).
O nome significa verme, mas, por ser o nome de seu antepassado, ele não se envergonhava dele.
Embora fosse de Issacar, quando foi elevado ao governo, veio morar no monte Efraim, mais central no país, para que o povo pudesse procurá-lo com maior facilidade a fim de obter justiça. Ele julgou Israel por vinte e três anos (v. 2) e manteve tudo em boa ordem, mas não fez nada especialmente memorável.
- Jair era gileadita, assim como seu sucessor imediato, Jefté. Ambos pertenciam à meia tribo de Manassés que ficava do outro lado do Jordão.
Embora parecessem separados de seus irmãos, Deus cuidou para que, enquanto a honra do governo passava de uma tribo a outra e antes de se estabelecer em Judá, os que moravam longe também compartilhassem dela às vezes, concedendo honra ainda maior à parte que dela carecia.
Jair tinha o nome de um homem muito famoso da mesma tribo, que, nos dias de Moisés, foi muito ativo na conquista daquela região (Números 32:41; Josué 13:30). O que merece destaque sobretudo a respeito desse Jair é o crescimento e a honra de sua família: ele tinha trinta filhos, v. 4.
(1.) Eles tinham bons cargos, pois montavam em trinta jumentinhos; isto é, eram juízes itinerantes que, como representantes do pai, percorriam diferentes lugares em seus respectivos distritos para administrar a justiça. Mais tarde, vemos Samuel nomear seus filhos juízes, embora não pudesse fazê-los bons juízes (1 Samuel 8:1-3).
(2.) Eles tinham boas propriedades: cada um possuía uma cidade entre as chamadas Havote-Jair, as aldeias de Jair, nomeadas em homenagem a um antepassado que tinha o mesmo nome de seu pai.
No entanto, são chamadas cidades, talvez porque aqueles jovens senhores a quem foram destinadas as ampliaram e fortificaram, transformando-as em cidades; ou porque se contentavam tanto com seu quinhão naquelas cidades do interior como se fossem cidades compactas, protegidas por portões e trancas. Para uma mente contente, aldeias são cidades.
Versículos 6 a 9
Israel Oprimido pelos Amonitas. (a.C. 1161.)
Enquanto aqueles dois juízes, Tola e Jair, presidiam os assuntos de Israel, tudo ia bem, mas depois:
I. Israel voltou à idolatria, o pecado que mais facilmente o dominava (v. 6): eles fizeram novamente o que era mau aos olhos do Senhor, de quem inexplicavelmente insistiam em se afastar, como um povo tolo e sem entendimento.
- Adoraram muitos deuses: não somente seus antigos demônios, Baalins e Astarotes, que os cananeus adoravam, mas também serviram, como que proclamando sua insensatez a todos os vizinhos, aos deuses da Síria, de Sidom, de Moabe, de Amom e dos filisteus. Parece que o principal comércio de Israel era importar divindades de todos os países. É difícil dizer se isso foi mais ímpio ou menos sagaz.
Ao introduzirem essas divindades estrangeiras, tornaram-se insignificantes e desprezíveis, pois nenhuma nação com algum senso de honra trocava seus deuses.
Podemos supor que boa parte da riqueza de Israel era enviada em ofertas aos templos das divindades nos vários países de onde elas vinham; esperava-se que os templos delas em Israel reconhecessem sua dependência daqueles templos, como suas igrejas-mães.
Sem dúvida, os sacerdotes e devotos dessas divindades desprezíveis seguiriam seus deuses em multidões até a terra de Israel e, se não pudessem viver em seu próprio país, criariam raízes ali; assim, estrangeiros consumiriam suas forças.
Se fizeram isso por formalidade para com as nações vizinhas e para conquistar seu favor, foram justamente frustrados: aquelas nações cuja amizade procuraram obter por meios perversos tornaram-se suas inimigas e opressoras pelos justos juízos de Deus. In quo quis peccat, in eo punitur — pelo que alguém peca, por isso será punido.
- Nem sequer admitiram que o Deus de Israel fosse um dentre os muitos deuses que adoravam; ao contrário, rejeitaram-no por completo: abandonaram o Senhor e não o serviram de modo algum. Os que pensam servir tanto a Deus quanto a Mamom logo acabam abandonando completamente a Deus e servindo somente a Mamom. Se Deus não tiver o coração inteiro, logo não terá coração algum.
II. Deus renovou seus juízos contra eles, colocando-os sob o poder de inimigos opressores. Se tivessem caído imediatamente nas mãos do Senhor, poderiam ter descoberto que grandes eram suas misericórdias; mas Deus os deixou cair nas mãos dos homens, cujas misericórdias são cruéis.
Ele os vendeu nas mãos dos filisteus, que viviam a sudoeste de Canaã, e dos amonitas, a nordeste; assim, foram esmagados miseravelmente, ao mesmo tempo, entre essas duas pedras de moinho. É esse o sentido do termo original traduzido por “oprimidos” (v. 8).
Deus havia determinado que, se alguma das cidades de Israel se voltasse para a idolatria, as demais fariam guerra contra ela e a exterminariam (Deuteronômio 13:12, etc.). Eles tinham sido zelosos o bastante nessa questão, quase em excesso, no caso do altar erguido pelas duas tribos e meia (Josué 22).
Mas agora haviam se tornado tão perversos que, quando uma cidade era contaminada pela idolatria, a seguinte contraía a mesma contaminação e, em vez de puni-la, imitava-a e ia além dela.
Por isso, como os que deveriam ter sido executores da ira contra os que praticavam o mal eram culpados eles mesmos, ou empunhavam a espada em vão, Deus trouxe as nações vizinhas contra eles para castigá-los por sua apostasia. A opressão de Israel pelos amonitas, descendentes de Ló, foi:
- Muito longa. Durou dezoito anos. Alguns consideram esses anos parte do período em que Jair foi juiz, pois ele não conseguiu reformar e libertar Israel como desejava. Outros entendem que começaram com a morte de Jair, o que parece mais provável, porque Gileade, a terra de Jair, foi a parte de Israel mais atacada pelos amonitas.
Não podemos supor que ela tenha sofrido tanto enquanto ele vivia; pelo menos aquela região teria sido reformada e protegida.
- Muito penosa. Eles os atormentaram e oprimiram. Era grande tormento ser oprimido por um povo tão desprezível como os amonitas.
Começaram pelas tribos mais próximas, do outro lado do Jordão. Essa região é chamada aqui de terra dos amorreus (v. 8), porque os israelitas tinham decaído tanto e se tornado tão parecidos com os gentios que, de certo modo, eram amorreus completos (Ezequiel 16:3).
Ou porque, por causa do pecado, perderam o direito àquela terra, que assim podia ser considerada novamente terra dos amorreus, de quem a haviam tomado.
Aos poucos, porém, avançaram, atravessaram o Jordão e invadiram Judá, Benjamim e Efraim (v. 9), três das mais ilustres tribos de Israel; ainda assim, foram insultadas e ficaram incapazes de resistir ao invasor quando abandonaram a Deus. Cumpriu-se então a ameaça de que seriam mortos diante de seus inimigos e não teriam forças para resistir a eles (Levítico 26:17, 37).
Seus caminhos e suas ações lhes trouxeram isso: decaíram lamentavelmente e, por isso, ficaram em grande aflição.
Versículos 10 a 18
O Arrependimento e a Reforma de Israel. (a.C. 1161.)
Aqui temos:
I. Uma humilde confissão que Israel fez a Deus em sua aflição, v. 10. Agora reconhecem sua culpa, como um malfeitor no tormento, e prometem reformar-se, como uma criança sob a vara. Não apenas se queixam da aflição, mas reconhecem que o próprio pecado os levou a ela; portanto, Deus é justo e eles não têm motivo para se queixar.
Confessam suas omissões, pois foi por elas que seu pecado começou: “Abandonamos nosso Deus”; e suas transgressões: “Servimos aos Baalins e nisso agimos de modo tolo, traiçoeiro e muito perverso.”
II. Uma mensagem humilhante que Deus então envia a Israel, talvez por meio de um anjo (como em Juízes 2:1) ou de um profeta (como em Juízes 6:8); não se sabe ao certo. Foi bondade de Deus dar atenção ao clamor deles, não fazer ouvidos moucos nem deixá-los sem resposta.
Também foi bondade enviar-lhes, quando começaram a se arrepender, uma mensagem apropriada para aprofundar o arrependimento e qualificá-los e prepará-los para a libertação.
Nessa mensagem:
- Ele os repreende por sua grande ingratidão e os lembra das grandes coisas que fez por eles, libertando-os de tais e tais inimigos: primeiro, os egípcios, de cuja terra foram resgatados, e os amorreus, que venceram e cuja terra ocuparam.
Depois que se estabeleceram ali, os amonitas se juntaram aos moabitas para oprimi-los (Juízes 3:13); os filisteus os atormentaram nos dias de Sangar e, mais tarde, outros inimigos lhes causaram aflição.
Quando o povo suplicou, Deus realizou muitas grandes libertações por ele, v. 11, 12.
Não encontramos em outra parte o relato de que tenham sido oprimidos pelos sidônios e pelos maonitas. Deus os corrigiu com justiça e os libertou com misericórdia; portanto, era razoável esperar que, por medo ou amor, se apegassem a ele e ao seu serviço.
Com razão, então, a palavra lhes cortou o coração (v. 13): contudo, vocês me abandonaram, a mim, que os tirei de suas aflições, e serviram a outros deuses, que os levaram a elas. Assim, abandonaram suas próprias misericórdias em troca de suas próprias ilusões.
- Ele lhes mostra com que justiça poderia agora abandoná-los à ruína, entregando-os aos deuses que haviam servido. Para despertá-los a um arrependimento e uma reforma completos, faz com que vejam:
(1.) A insensatez de servir aos Baalins. Haviam gasto muito para obter o favor de deuses incapazes de ajudá-los quando mais precisavam: “Vão e clamem aos deuses que escolheram (v. 14); vejam o que podem fazer por vocês agora. Vocês os adoraram como deuses; vejam se agora dispõem de poder ou bondade divina para ajudá-los. Prestaram-lhes homenagem como reis e senhores; vejam se agora os protegerão.
Levaram sacrifícios de louvor aos altares deles como se fossem seus benfeitores, imaginando que lhes davam o trigo, o vinho e o azeite; mas um verdadeiro amigo se mostra quando há necessidade: de que lhes servirá agora o favor deles?”
Repare: no arrependimento verdadeiro, é necessário que haja plena convicção de que todas as coisas que idolatramos e entronizamos no coração, em competição com Deus, são totalmente incapazes de nos ajudar e nos fazer algum bem.
Precisamos estar convencidos de que os prazeres dos sentidos, pelos quais nos apaixonamos, não podem nos satisfazer; nem a riqueza do mundo, que cobiçamos, pode ser nosso quinhão. Não podemos ser felizes nem viver em paz em nenhum lugar senão em Deus.
(2.) A miséria e o perigo de abandonarem a Deus. Vejam a que situação vocês mesmos chegaram; agora não podem esperar outra coisa senão que eu diga: não os libertarei mais; e o que será de vocês então? v. 13.
Ele lhes diz isso não apenas como algo que poderia fazer, mas como algo que faria se eles se limitassem a confessar o que tinham feito de errado, sem abandonar seus ídolos nem corrigir sua conduta dali em diante.
III. Uma humilde submissão que Israel então fez à justiça de Deus, juntamente com um humilde apelo à sua misericórdia, v. 15. Os filhos de Israel se reuniram, provavelmente numa assembleia solene à entrada do tabernáculo.
Foram profundamente tocados pela mensagem enviada por Deus e, embora fosse muito ameaçadora, não se desesperaram; decidiram prostrar-se aos pés de Deus e, se perecessem, pereceriam ali.
Não apenas repetiram a confissão “Pecamos”, mas:
- Renderam-se à justiça de Deus: “Faze conosco tudo o que te parecer bem.” Assim reconheceram que mereciam os sinais mais severos do desagrado de Deus e tinham certeza de que ele não lhes faria injustiça, qualquer que fosse o castigo imposto.
Humilharam-se sob sua mão poderosa e pesada e aceitaram o castigo por sua iniquidade, condição que Moisés estabelecera para que Deus voltasse a tratá-los com misericórdia (Levítico 26:41). Repare: os verdadeiros penitentes ousam e querem deixar que Deus os corrija como bem entender, sabendo que seu pecado merece gravíssimas consequências e que Deus não é rigoroso nem excessivo em suas exigências.
- Suplicaram a misericórdia de Deus: “Livra-nos somente, nós te rogamos, neste dia, deste inimigo.” Reconhecem o que mereciam, mas pedem a Deus que não os trate conforme seus merecimentos. Repare: devemos nos submeter à justiça de Deus com esperança em sua misericórdia.
IV. Uma bendita reforma iniciada em seguida. Eles produziram frutos dignos de arrependimento (v. 16): afastaram os deuses dos estrangeiros, como diz a expressão, deuses estranhos, adorados por nações alheias à comunidade de Israel e às alianças da promessa; e serviram ao Senhor. A necessidade os levou a ele.
Sabiam que não adiantava recorrer aos deuses a quem tinham servido, por isso voltaram ao Deus que haviam desprezado. Isso é arrependimento verdadeiro: não só lamentar o pecado, mas também abandoná-lo.
V. O retorno gracioso de Deus em misericórdia para com eles, expresso aqui com muita ternura (v. 16): “Sua alma se entristeceu com a miséria de Israel.” Não que haja tristeza em Deus (ele tem em si alegria e felicidade infinitas, que não podem ser abaladas pelos pecados ou pelas misérias de suas criaturas), nem que haja mudança em Deus: ele tem um só propósito, e quem pode desviá-lo?
Sua bondade, porém, é sua glória. Por ela proclama seu nome e o exalta acima de todos os nomes. Como se agrada em assumir a relação de pai com seu povo da aliança, também se agrada em representar sua bondade para com eles pelas compaixões de um pai por seus filhos; pois, assim como é Pai das luzes, é Pai das misericórdias.
A desobediência e a miséria de um filho entristecem um pai amoroso e o afetam profundamente por causa de sua afeição natural. Do mesmo modo, as provocações do povo de Deus o entristecem (Salmos 95:10); ele fica ferido pelo coração adúltero deles (Ezequiel 6:9). As aflições deles também o entristecem.
Assim ele se expressa quando decide agir para libertar seu povo, mudando sua maneira e seu método de proceder, como pais ternos que começam a ceder para com os filhos com quem estavam descontentes. Tais são as ternas misericórdias de nosso Deus; ele está muito longe de ter prazer na morte dos pecadores.
VI. Tudo agora se encaminha para a libertação deles da opressão dos amonitas, v. 17, 18. Deus tinha dito: “Não os libertarei mais”; mas agora eles já não eram o que tinham sido: eram outros homens, homens novos, e agora ele os libertaria. A ameaça foi pronunciada para convencê-los e humilhá-los; e, tendo produzido o efeito desejado, é revogada para que sejam libertados.
Os amonitas se endurecem para a própria ruína. Reuniram-se todos num só corpo para serem destruídos de um só golpe (Apocalipse 16:16).
Os israelitas são animados a se resgatarem. Também se reuniram, v. 17. Durante os dezoito anos de opressão, como nas servidões anteriores, foram derrotados pelos inimigos porque não se uniam: cada família, cidade ou tribo agia por conta própria e de maneira independente. Assim, por não terem a devida consciência do interesse comum que os uniria, tornavam-se presa fácil dos opressores.
Mas, sempre que se reuniam, agiam bem; foi o que fizeram aqui.
Quando o Israel de Deus se torna como um só homem para promover o bem comum e enfrentar um inimigo comum, que dificuldade pode detê-lo? O povo e os príncipes de Gileade, reunidos, começaram por deliberar sobre quem seria o comandante supremo contra os amonitas. Até então, a maioria dos libertadores de Israel fora chamada ao cargo de modo extraordinário, como Eúde, Baraque e Gideão.
O próximo seria chamado de modo mais comum, por uma assembleia dos representantes do povo, que procurou um homem apto para comandar o exército e encontrou alguém extraordinariamente qualificado para isso. Deus aprovou a escolha ao pôr seu Espírito sobre ele (Juízes 11:29). Esse exemplo serve para orientar e encorajar as gerações futuras, quando já não se devem esperar chamados extraordinários.
Que sejam escolhidos imparcialmente para cargos públicos de confiança e poder aqueles a quem Deus capacitou; então, Deus aprovará graciosamente os que forem assim escolhidos.