Juízes 11
Argumento
Este capítulo apresenta a história de Jefté, outro dos juízes de Israel e contado entre os notáveis do Antigo Testamento, que pela fé fizeram grandes coisas (Hebreus 11:32), embora não tenha recebido um chamado tão extraordinário quanto os demais ali mencionados.
Temos aqui: I. As desvantagens de sua origem, vv. 1-3. II. A escolha que os gileaditas fizeram dele como comandante supremo contra os amonitas e os termos que acertou com eles, vv. 4-11.
III. Seu tratado com o rei de Amom acerca dos direitos das duas nações, para que a questão fosse resolvida, se possível, sem derramamento de sangue, vv. 12-28. IV. Sua guerra contra os amonitas, que começa com um voto solene (vv. 29-31), prossegue com bravura (v. 32) e termina com uma gloriosa vitória (v. 33).
V. O aperto em que se viu ao voltar para sua própria casa por causa do voto que fizera, vv. 34-40.
Versículos 1 a 3
A Ascensão de Jefté. (a.C. 1143.)
No fim do capítulo anterior, deixamos os príncipes e o povo de Gileade consultando sobre a escolha de um general. Haviam chegado a esta resolução: quem se dispusesse a conduzir suas forças contra os amonitas seria, por consentimento geral, o chefe de todos os habitantes de Gileade. A empreitada era difícil, e convinha oferecer tão grande incentivo a quem a assumisse.
Todos concordavam que Jefté, o gileadita, era um homem valente e muito apto para esse fim; ninguém era tão indicado quanto ele. Mas havia três desvantagens que pesavam contra ele:
- Era filho de uma prostituta (v. 1), de uma mulher estrangeira (v. 2), que não era esposa nem concubina. Alguns pensam que sua mãe era gentia; é o que diz Josefo, que o chama de estrangeiro pelo lado materno. Os judeus dizem que era ismaelita.
Se sua mãe era prostituta, isso não era culpa dele, embora fosse uma desonra. Ninguém deve ser censurado pelas infelicidades da própria ascendência ou linhagem, desde que procure remover a desonra por seus méritos pessoais.
O filho de uma prostituta, se nascer de novo, do alto, será aceito por Deus e acolhido nas gloriosas liberdades dos filhos dele como qualquer outro.
Jefté não podia ler na lei o estigma ali imposto aos amonitas, seus inimigos, segundo o qual não entrariam na congregação do Senhor, sem encontrar no mesmo trecho algo que também pesava contra ele: um bastardo seria excluído do mesmo modo (Deuteronômio 23:2, 3).
Mas, se essa lei significa, como é mais provável, apenas os nascidos de incesto, e não de fornicação, ela não se aplicava a Jefté.
- Seus irmãos o haviam expulsado de sua terra. Os filhos legítimos de seu pai, insistindo no rigor da lei, expulsaram-no para que não tivesse herança alguma com eles. Não levaram em conta suas extraordinárias qualidades, que justificariam uma exceção e fariam dele um grande apoio e honra para a família, se tivessem ignorado sua ilegitimidade e lhe dado a parte de um filho (v. 2).
Ninguém imaginaria que esse jovem rejeitado estava destinado a ser o libertador e juiz de Israel. Mas Deus muitas vezes humilha aqueles que pretende exaltar e faz da pedra rejeitada pelos construtores a pedra angular. Assim aconteceu com José, Moisés e Davi, os três pastores mais eminentes de Israel: todos foram expulsos pelos homens antes de serem chamados por Deus para seus grandes cargos.
- No exílio, ele se tornou chefe de um bando (v. 3). Expulso pelos irmãos, seu grande espírito não lhe permitiu cavar nem mendigar; teria de viver pela espada. Como logo se destacou por sua bravura, os que se viam em apertos semelhantes e eram animados por tal espírito alistaram-se sob seu comando.
São chamados de homens levianos, isto é, homens que haviam dissipado seus bens e precisavam procurar meios de subsistência. Eles o acompanhavam, não para roubar nem saquear, mas para caçar animais selvagens e talvez fazer incursões em territórios aos quais Israel tinha direito, mas dos quais ainda não tomara posse, ou contra povos que talvez os tivessem prejudicado de algum modo.
Esse é o homem que deverá salvar Israel. Por sua idolatria, os israelitas se fizeram filhos das prostituições e estranhos a Deus e à sua aliança. Por isso, embora Deus os livre após seu arrependimento, escolhe fazê-lo por meio de um bastardo e exilado, para humilhá-los e lembrá-los de seu pecado.
Versículos 4 a 11
Aqui está: I. A aflição em que os israelitas se encontravam quando os amonitas invadiram seu país (v. 4). Provavelmente era a mesma invasão mencionada em Juízes 10:17, quando os amonitas se reuniram e acamparam em Gileade ou contra ela.
A expressão “passado algum tempo” se refere ao que vem imediatamente antes, a expulsão de Jefté: muitos dias depois de ter sido expulso em desonra, ele foi buscado e trazido de volta com honra.
II. A solicitação que os anciãos fizeram a Jefté para que viesse ajudá-los. Não lhe escreveram nem mandaram um mensageiro; foram buscá-lo pessoalmente, decididos a não aceitar uma recusa. A urgência do caso não admitia demora. O pedido foi: “Venha e seja nosso comandante” (v. 6).
Não conheciam entre si ninguém capaz de assumir essa grande responsabilidade e, na prática, confessavam não estar à altura dela. Sabiam que Jefté era corajoso e acostumado à espada; por isso, ele deveria ser o homem indicado. Veja como Deus prepara as pessoas para o serviço a que as destina e faz que suas aflições contribuam para sua promoção.
Se a falta de bondade dos irmãos não tivesse obrigado Jefté a se virar sozinho, ele não teria tido uma oportunidade como aquela para exercitar e aperfeiçoar seu talento militar, destacar-se e ganhar fama. Do comedor saiu alimento. Os israelitas estavam reunidos e acampados (Juízes 10:17), mas um exército sem general é como um corpo sem cabeça.
Por isso, disseram: “Venha e seja nosso comandante, para que possamos lutar.” Veja a necessidade de governo.
Embora estivessem muito empenhados na causa, reconheceram que não podiam lutar sem um comandante. Toda sociedade precisa de pars imperans e pars subdita — uma parte que governe e outra que obedeça; uma comunidade preferiria pedir humildemente o favor de ser governada a deixar cada pessoa ser dona de si mesma. Bendito seja Deus pelo governo, por um bom governo.
III. As objeções de Jefté a aceitar a oferta deles: “Vocês não me odiaram e me expulsaram?” (v. 7). Parece que alguns desses anciãos eram seus irmãos, ou que os anciãos se tornaram culpados por permitirem que os irmãos o maltratassem e por não fazerem justiça a ele, como era seu dever (pois deviam “defender o pobre e o órfão”, Salmos 82:3, 4). Jefté podia, com razão, acusá-los de tê-lo expulsado.
Os magistrados que têm poder para proteger os injustiçados, mas deixam de corrigir suas queixas, são de fato culpados de lhes causar a injustiça. “Vocês me odiaram e me expulsaram; como posso acreditar que são sinceros nessa proposta? E como podem esperar que eu os sirva?”
Não que Jefté não estivesse disposto a servir seu país. Mas achou correto lembrar-lhes a crueldade anterior, para que se arrependessem do pecado de tratá-lo tão mal e, no futuro, tivessem maior consciência de suas obrigações. Assim José humilhou os irmãos antes de se revelar a eles.
O caso específico entre os gileaditas e Jefté se parecia com a situação geral entre Israel e Deus naquele tempo. Por causa da idolatria, tinham expulsado Deus e, em sua aflição, pediam sua ajuda.
Ele lhes mostrou como poderia, com razão, tê-los rejeitado e, ainda assim, graciosamente os libertou. Jefté fez o mesmo. Muitos desprezam Deus e os homens bons até entrarem em aflição; então desejam a misericórdia de Deus e as orações dos homens bons.
IV. A insistência deles para que aceitasse o governo que lhe ofereciam (v. 8). “Portanto, por termos feito essa injustiça contra você e para mostrar que nos arrependemos e gostaríamos de repará-la, voltamos agora a você para lhe dar uma honra que compense aquela afronta.”
Que este exemplo nos sirva de: 1. Advertência para não desprezarmos nem pisarmos em ninguém por ser humilde, nem prejudicarmos quem está em desvantagem diante de nós. Por mais que pensemos pouco dessa pessoa agora, talvez chegue o dia em que precisemos dela e fiquemos felizes em lhe dever algo.
É sábio não fazer de ninguém nosso inimigo, pois não sabemos quão cedo nossas aflições podem nos levar a precisar muito de sua amizade. 2. Encorajamento para pessoas valorosas que são desprezadas ou maltratadas. Que suportem isso com mansidão e alegria, deixando que Deus faça sua luz brilhar na obscuridade.
Fuller, em sua obra Pisgah Sight, observa sobre essa história: “Uma vez em cada era, a virtude promove a si mesma; quando os que a odeiam por acaso precisam dela, são obrigados a promovê-la.” Então a honra aparece ainda mais brilhante.
V. O acordo que Jefté faz com eles. Ele havia mencionado as injustiças que lhe fizeram, mas, percebendo o arrependimento deles, tinha espírito nobre e generoso demais para voltar ao assunto. Deus perdoara os insultos que Israel lhe fizera (Juízes 10:16); por isso, Jefté também perdoaria.
Só achou prudente acertar cuidadosamente os termos para o futuro, pois lidava com homens em quem tinha motivos para não confiar. 1. Faz uma pergunta justa (v. 9). Não fala com confiança exagerada sobre seu sucesso, pois sabia que Deus podia, com razão, permitir que os amonitas prevalecessem para castigar ainda mais Israel. Por isso, condiciona sua resposta.
Também não demonstra confiança alguma em si mesmo. Se tiver êxito, será o Senhor quem entregará os amonitas em suas mãos. Com isso, pretende lembrar seus compatriotas de olhar para Deus como árbitro da controvérsia e doador da vitória; e ele mesmo faz o mesmo.
“Agora, se pela bênção de Deus eu voltar vitorioso, digam-me claramente: serei seu chefe? Se, sob Deus, eu os libertar, serei eu, sob ele, quem os reformará?”
A mesma pergunta é feita aos que desejam a salvação por Cristo: “Se ele os salvar, vocês estarão dispostos a deixar que ele os governe? Pois não os salvará sob outras condições. Se ele os fizer felizes, também os fará santos? Se for seu ajudador, será seu chefe?”
- Eles lhe dão logo uma resposta afirmativa (v. 10): “Faremos conforme as suas palavras; comande-nos na guerra e você nos comandará na paz.” Não tomaram tempo para pensar. O caso era claro demais para discussão e a necessidade urgente demais para demora.
Sabiam que tinham autoridade para firmar um tratado em nome daqueles que representavam e, por isso, o confirmaram com um juramento: “O Senhor seja testemunha entre nós.” Apelam à onisciência de Deus para julgar sua sinceridade naquele momento e à justiça dele para puni-los se depois faltassem com a palavra.
A expressão significa: “O Senhor seja ouvinte.” Ao falar, importa lembrar que Deus é ouvinte e falar de acordo com isso. Assim foi ratificado o contrato original entre Jefté e os gileaditas; parece que todo Israel o aceitou depois, pois se diz que ele julgou Israel (Juízes 12:7).
Então Jefté foi com eles (v. 11) ao lugar onde todos estavam reunidos (Juízes 10:17). Ali, por consentimento geral, fizeram dele chefe e comandante, ratificando o acordo firmado pelos representantes: ele seria comandante naquele momento e chefe por toda a vida.
Para obter essa pequena honra, Jefté se dispôs a arriscar a vida por eles (Juízes 12:3). Será que devemos desanimar na guerra cristã por causa das dificuldades que encontramos, quando o próprio Cristo prometeu a coroa da vida a quem vencer?
VI. O piedoso reconhecimento de Deus por Jefté nesse grande assunto (v. 11): Jefté “proferiu todas as suas palavras perante o Senhor em Mispa”. Quando foi elevado ao cargo, retirou-se imediatamente para orar e expôs todo o assunto diante de Deus: tanto sua escolha para o cargo quanto o exercício dele.
Jefté mantinha os olhos sempre voltados para o Senhor e nada queria fazer sem ele. Não confiava no próprio entendimento nem na própria coragem, mas dependia de Deus e do favor dele. Expôs diante de Deus todos os seus pensamentos e preocupações, pois Deus nos permite falar livremente com ele.
- “Senhor, o povo me fez seu chefe. Confirmarás essa escolha e me reconhecerás como chefe do teu povo, sob tua autoridade e a teu serviço?” Deus se queixa, com razão, de Israel: “Constituíram reis, mas não por mim” (Oseias 8:4).
“Senhor”, disse Jefté, “não serei chefe por escolha deles sem a tua aprovação. Não aceitarei o governo, a menos que me permitas.” Se Abimeleque tivesse feito isso, talvez tivesse prosperado.
- “Senhor, fizeram de mim seu comandante para ir à frente deles nesta guerra contra os amonitas. Estarás comigo? Irás adiante de mim? Se não, não me faças partir daqui. Senhor, convence-me da justiça da causa. Dá-me certeza do êxito da empreitada.”
Este é um raro exemplo, que todos devem imitar, especialmente os que ocupam posições elevadas. Em todos os nossos caminhos, reconheçamos Deus, busquemos seu favor, peçamos conselho a ele e o levemos conosco; assim prosperaremos. Jefté começou a campanha orando. O que começa com piedade provavelmente terminará em glória.
Versículos 12 a 28
A Guerra contra os Amonitas. (a.C. 1143.)
Temos aqui o tratado entre Jefté, agora juiz de Israel, e o rei dos amonitas, cujo nome não é mencionado. O objetivo era resolver, se possível, a controvérsia entre as duas nações sem derramamento de sangue.
I. Jefté, investido de autoridade, enviou uma mensagem ao rei de Amom, o agressor naquela guerra, para exigir que explicasse por que invadira a terra de Israel: “Por que você veio lutar contra mim na minha terra? Se eu tivesse entrado primeiro em sua terra e perturbado sua posse, isso já seria motivo suficiente para lutar contra mim, pois como se repele a força senão pela força?
Mas que razão você tem para vir assim, de modo hostil, à minha terra?” Ele a chama de sua terra em nome tanto de Deus quanto de Israel.
Essa exigência justa mostra: 1. Jefté não gostava da guerra, embora fosse muito valente, e estava disposto a evitá-la por meio de um acordo pacífico. Se pudesse convencer os invasores com argumentos a se retirarem, não os obrigaria a fazê-lo pela espada.
A guerra deve ser o último recurso, usado somente depois de tentadas em vão todas as outras maneiras de resolver as contendas: ratio ultima regum, o último recurso dos reis. Essa regra também deve ser observada nos processos judiciais.
Não se deve recorrer à espada da justiça, assim como à espada da guerra, antes de as partes em conflito tentarem primeiro, por meios mais brandos, compreender-se e resolver suas divergências (1 Coríntios 6:1). 2. Jefté prezava a equidade e não pretendia fazer outra coisa senão justiça.
Se os amonitas pudessem convencê-lo de que Israel os prejudicara, ele estaria pronto a restituir os direitos deles. Caso contrário, a invasão mostrava claramente que eles prejudicavam Israel, e Jefté estava pronto a defender os direitos dos israelitas. A consciência da justiça deve orientar e governar tudo o que fazemos.
II. O rei dos amonitas apresenta então sua exigência, que deveria ter declarado antes de invadir Israel (v. 13). A alegação dele é: “Israel tomou minhas terras há muito tempo; agora, portanto, devolva-as.”
Temos razão para pensar que, quando os amonitas atacaram Israel, pretendiam apenas devastar e saquear o país e enriquecer com os despojos, como haviam feito antes sob Eglom (Juízes 3:13), sem apresentar exigência semelhante, embora a questão ainda estivesse recente.
Mas, quando Jefté lhes pediu a causa da contenda e eles, por vergonha, não puderam admitir sua verdadeira intenção, vasculharam registros antigos e mofados ou consultaram tradições antigas, e dali tiraram uma justificativa para a ocasião, uma aparência de justiça para a invasão.
Até os que cometem as maiores injustiças têm tal consciência da justiça que querem parecer agir corretamente. “Devolva aquelas terras.” Veja quão incerta é a posse dos bens deste mundo: aquilo que pensamos possuir com maior segurança pode ser reivindicado e arrancado de nossas mãos.
Quem já alcançou a Canaã celestial não precisa temer que seu título de posse seja contestado.
III. Jefté apresenta uma resposta muito completa e satisfatória, mostrando que a exigência era totalmente injusta e desarrazoada, e que os amonitas não tinham direito à região entre os rios Arnom e Jaboque, então ocupada pelas tribos de Rúben e Gade. Como conhecia muito bem a história de seu país, ele mostra:
- Israel nunca tomou terras dos moabitas nem dos amonitas. Jefté os menciona juntos porque eram irmãos, descendentes de Ló, vizinhos próximos e unidos por interesses comuns; adoravam o mesmo deus, Camos, e talvez às vezes tivessem o mesmo rei.
As terras em questão não foram tomadas dos moabitas nem dos amonitas. Deus havia dado ordens específicas a Israel para não se meter com eles nem com coisa alguma que lhes pertencesse (Deuteronômio 2:9, 19), e Israel obedeceu fielmente.
Em vez disso, os israelitas encontraram aquelas terras nas mãos de Seom, rei dos amorreus, e as tomaram dele com justiça e honra, como Jefté mostrará adiante. Se os amorreus haviam tomado essas terras dos moabitas ou amonitas antes da chegada de Israel, ao que parece (Números 21:26; Josué 13:25), Israel não tinha de investigar nem responder por isso.
Se os amonitas haviam perdido aquelas terras e o direito a elas, os israelitas não tinham obrigação de recuperá-las para eles. Sua tarefa era conquistar para si, não para outros povos. Essa era sua primeira defesa: “Não sou culpado da transgressão.”
- Israel estava tão longe de invadir as terras de outras nações, à exceção dos descendentes condenados de Canaã — ramo ao qual pertenciam os amorreus (Gênesis 10:16) — que nem sequer forçou passagem pelos edomitas, descendentes de Esaú, ou pelos moabitas, descendentes de Ló.
Mesmo depois de uma marcha muito cansativa pelo deserto, que os deixara exaustos (v. 16), o rei de Edom primeiro e, depois, o rei de Moabe negaram-lhes passagem por suas terras (v. 17). Mesmo cansados, para não ofendê-los nem perturbá-los, os israelitas aceitaram o esforço adicional de contornar as terras de Edom e Moabe, sem entrar nas fronteiras de nenhuma delas (v. 18).
Repare: quem age sem causar ofensa pode encontrar nisso consolo e apresentar essa conduta em resposta aos que o acusam de injustiça e de causar dano. Nossa justiça responderá por nós no futuro (Gênesis 30:33) e calará a ignorância dos insensatos (1 Pedro 2:15).
- Na guerra em que tomaram essa terra de Seom, rei dos amorreus, ele foi o agressor, não os israelitas (v. 19, 20). Eles lhe enviaram um pedido humilde de permissão para atravessar seu território, dispostos a oferecer garantias de que se comportariam bem durante a marcha.
“Deixe-nos passar”, disseram, “até o nosso lugar”: isto é, a terra de Canaã, o único lugar que chamavam de seu e para onde seguiam, sem intenção de se estabelecer ali. Mas Seom não apenas lhes negou essa cortesia, como Edom e Moabe haviam feito — se tivesse feito somente isso, quem sabe Israel não teria seguido por outro caminho? —, ele reuniu todo o seu exército e lutou contra Israel (v. 20).
Não só os impediu de entrar em seu território, mas quis eliminá-los da face da terra (Números 21:23, 24); seu único objetivo era destruí-los (v. 20). Portanto, ao guerrear contra ele, Israel se defendeu de maneira justa e necessária e, depois de derrotar seu exército, podia legitimamente apoderar-se de seu território, considerando-o confiscado como vingança adicional pela agressão.
Foi assim que Israel tomou posse daquela região e não tinha dúvida de que podia defender seu direito a ela. Era muito desarrazoado os amonitas contestarem esse direito, pois os amorreus habitavam aquela região, e foram estritamente as terras e fronteiras deles que os israelitas conquistaram (v. 21, 22).
- Jefté invoca uma concessão do soberano e fundamenta nela sua reivindicação (v. 23, 24). Não foi Israel — cansado da longa marcha e sem condições de lutar tão cedo —, mas o Senhor, Deus de Israel, Rei das nações, dono da terra e de tudo o que nela existe, quem expulsou os amorreus e colocou Israel em seu lugar.
Deus lhes deu a terra por uma concessão expressa e específica, que lhes conferiu um título válido contra qualquer povo. “Entreguei em suas mãos Seom e a sua terra” (Deuteronômio 2:24). Deus a deu ao conceder-lhes uma vitória completa sobre os ocupantes, apesar das grandes desvantagens que enfrentavam.
“Você acha que Deus nos deu a terra de maneira tão extraordinária para que a devolvêssemos aos moabitas ou amonitas? Não: damos maior valor às dádivas de Deus do que para abrir mão delas com tanta facilidade.”
Para reforçar essa defesa, Jefté apresenta um argumento ad hominem — dirigido ao próprio rei: “Você não toma posse daquilo que Camos, seu deus, lhe dá?” Ele apela não só à determinação comum das pessoas de defender o que é seu contra o mundo inteiro, mas também à religião comum das nações, que, segundo acreditavam, as obrigava a dar grande valor ao que seus deuses lhes davam.
Jefté não pensava que Camos fosse um deus; queria dizer apenas que era o deus do rei.
Até os adoradores dessas divindades de esterco, incapazes de fazer bem ou mal, julgavam dever a elas tudo o que possuíam (Oseias 2:12: “Estas são as minhas recompensas que os meus amantes me deram”; veja também Juízes 16:24) e usavam como motivo para conservar seus bens o fato de que seus deuses os haviam dado a eles.
“Você considera isso um título legítimo; por que nós não consideraríamos?” Os amonitas haviam expulsado os habitantes anteriores de sua terra. Pensavam ter feito isso com a ajuda de Camos, mas na verdade foi o Senhor, Deus de Israel, quem o fez por eles, como se declara expressamente (Deuteronômio 2:19, 21).
“Agora”, diz Jefté, “temos um título sobre nossa terra tão legítimo quanto o de vocês sobre a de vocês.” Repare: uma das maneiras de honrarmos e respeitarmos a Deus como nosso Deus é possuir corretamente aquilo que ele nos dá: recebê-lo dele, usá-lo para ele, conservá-lo por causa dele e abrir mão dele quando nos chamar a fazê-lo.
Ele nos deu essas coisas para possuí-las, não para desfrutá-las. Só ele deve ser desfrutado.
- Jefté invoca a posse prolongada. (1.) O direito deles não foi contestado quando tomaram posse da terra (v. 25). “Balaque, então rei de Moabe, de quem os amorreus haviam tomado a maior parte dessas terras, era quem tinha mais motivos e condições para se opor a nós. Se tivesse algo a contestar em nosso assentamento, porém, ficou quieto e nunca procurou lutar contra Israel.”
Ele sabia que perdera legitimamente a terra para os amorreus e não podia recuperá-la. Também não podia deixar de reconhecer que Israel a conquistara legitimamente dos amorreus. Por isso, preocupou-se apenas em assegurar o que ainda lhe restava; nunca reivindicou o que havia perdido. Veja Números 22:2, 3.
“Naquele tempo ele se conformou com a maneira como Deus distribuiu os reinos; e você não fará o mesmo agora?” (2.) A posse deles nunca foi perturbada (v. 26). Jefté alega que Israel conservava aquela região como sua havia cerca de trezentos anos e que, durante todo esse tempo, os amonitas jamais tentaram tomá-la, nem mesmo quando tiveram poder para oprimi-los (Juízes 3:13, 14).
Assim, ainda que o direito de Israel não estivesse claro desde o começo — embora Jefté já tivesse provado que estava —, a falta de reivindicação por tantas gerações, sem dúvida, impedia para sempre os amonitas de entrar. Um direito que nunca foi contestado por tanto tempo deve ser considerado incontestável.
- Com esses argumentos, Jefté defende a si mesmo e sua causa (“Não pequei contra você por tomar ou conservar algo a que não tivesse direito; se tivesse feito isso, eu o restituiria imediatamente”) e condena os amonitas: “Você me faz injustiça ao guerrear contra mim e terá de arcar com as consequências” (v. 27).
Parece-me uma prova de que os israelitas, nos dias de prosperidade e poder — pois tiveram alguns desses dias no período dos juízes —, agiram sem ofender seus vizinhos e não os importunaram nem oprimiram, por represália ou sob o pretexto de propagar sua religião.
Quando o rei dos amonitas procurou um motivo para brigar com eles, teve de recuar trezentos anos para encontrar um pretexto. Convém que o povo de Deus seja assim irrepreensível, inofensivo e sem motivo de censura.
- Para resolver a controvérsia, Jefté apela a Deus e à espada, e o rei de Amom aceita o desafio (v. 27, 28): “O Senhor, que é Juiz, julgue hoje.” Ao remeter solenemente a questão ao Juiz do céu e da terra, Jefté queria dissuadir os amonitas de prosseguir e obrigá-los a recuar, quando vissem que a justiça estava do lado dele, ou justificar-se caso tivesse de derrotá-los.
Repare: a guerra é um apelo ao céu, a Deus, Juiz de todos, a quem pertencem seus desfechos. Se há disputa sobre direitos duvidosos, pede-se que ele os determine. Se direitos evidentes são invadidos ou negados, recorre-se a ele para defender o que é justo e punir o mal.
Assim como a espada da justiça foi feita para “os transgressores e desobedientes” (1 Timóteo 1:9), a espada da guerra foi feita para príncipes e nações transgressores e desobedientes. Na guerra, portanto, devemos manter os olhos voltados para Deus e sempre considerar perigoso desejar ou esperar que ele proteja a injustiça.
Nem a defesa de Jefté nem seu apelo convenceram o rei dos amonitas. Durante os dezoito anos em que oprimiram Israel, eles haviam saboreado os despojos (Juízes 10:8) e agora esperavam tomar posse da árvore cujos frutos tantas vezes os haviam enriquecido.
O rei não deu ouvidos às palavras de Jefté; seu coração estava endurecido para a própria destruição.
Versículos 29 a 40
O Voto de Jefté. (a.C. 1143.)
Temos aqui Jefté triunfando numa gloriosa vitória, mas com sua alegria turvada pela aflição e angústia causadas por um voto imprudente.
I. A vitória de Jefté foi evidente e resplandece muito, para honra dele e de Deus: Jefté ao defender uma causa justa, e Deus ao reconhecê-la como justa. 1. Deus lhe deu um espírito excelente, e Jefté o aproveitou com bravura (v. 29).
A escolha unânime do povo para que fosse seu líder mostrou que ele tinha um chamado muito claro para entrar em combate. A obstinada recusa do rei de Amom em aceitar propostas de acordo também mostrou que Jefté tinha uma causa muito justa para lutar.
Então o Espírito do Senhor veio sobre ele, desenvolveu grandemente suas capacidades naturais, deu-lhe poder do alto e o tornou mais corajoso e sábio do que antes, inflamando-o com santo zelo contra os inimigos de seu povo. Assim, Deus o confirmou em seu cargo e lhe garantiu êxito na empreitada.
Animado dessa maneira, Jefté não perdeu tempo e, com resolução destemida, foi ao campo de batalha. O texto registra em particular o caminho que tomou até o acampamento inimigo, provavelmente porque escolhê-lo demonstrava a extraordinária prudência com que o Espírito do Senhor o havia dotado. Os que seguem sinceramente o Espírito serão conduzidos pelo caminho certo.
- Deus lhe deu grande êxito, e Jefté também o aproveitou com bravura (v. 32): o Senhor entregou os amonitas em suas mãos e, assim, decidiu a causa em favor do que era justo. Fez sentir a força da guerra aos que não cederam à força da razão, pois ele se assenta no trono e julga com justiça.
Jefté não desperdiçou as vantagens recebidas: perseguiu o inimigo e completou sua vitória. Depois de derrotar suas forças no campo, perseguiu-os até suas cidades e matou à espada todos os que encontrou armados, impedindo-os por completo de voltar a molestar Israel (v. 33).
Mas não parece que Jefté tenha destruído todo o povo, como Josué fizera com as nações condenadas, nem que tenha tentado tomar posse do país, embora as pretensões dos amonitas à terra de Israel pudessem servir-lhe de justificativa. Cuidou apenas de subjugá-los por completo.
Embora a tentativa de outros de nos prejudicar justifique a defesa de nosso próprio direito, isso não nos autoriza a lhes fazer injustiça.
II. O voto de Jefté é obscuro e envolto em mistério. Ao sair de casa para essa empreitada arriscada, orou a Deus pedindo que estivesse com ele e fez-lhe secretamente um voto solene, uma promessa religiosa: se Deus, por sua graça, o trouxesse de volta vitorioso, qualquer pessoa ou coisa que primeiro saísse de sua casa para encontrá-lo seria consagrada a Deus e oferecida em holocausto.
Quando voltou, a notícia de sua vitória chegou antes dele, e sua própria e única filha saiu para encontrá-lo, com expressões oportunas de alegria. Isso o deixou profundamente perturbado, mas não havia como voltar atrás. Depois de algum tempo lamentando sua própria desgraça, ela se submeteu de bom grado ao cumprimento do voto. Agora:
- Há várias boas lições a aprender desta história. (1.) Mesmo no coração de crentes verdadeiros e eminentes pode restar desconfiança e dúvida. Jefté tinha motivos suficientes para confiar no sucesso, sobretudo depois que o Espírito do Senhor veio sobre ele.
Ainda assim, quando chegou o momento decisivo, parece hesitar (v. 30): “Se de fato entregares os amonitas em minhas mãos, farei isto e aquilo.” Talvez a armadilha em que seu voto o pôs tivesse o propósito de corrigir a fraqueza de sua fé e sua ilusão infundada de que não podia esperar a vitória sem oferecer a Deus algo valioso em troca.
(2.) Ainda assim, quando buscamos ou esperamos alguma bênção, é muito bom fazer votos a Deus de prestar-lhe algum serviço aceitável, não como pagamento pelo favor desejado, mas como expressão de gratidão e da profunda consciência de que devemos corresponder ao benefício recebido.
O objeto de um voto especial (Levítico 27:2) deve ter relação clara e direta ou com a promoção da glória de Deus e dos interesses de seu reino entre as pessoas, ou com nosso próprio progresso no serviço dele e no que já é nosso dever.
(3.) Precisamos ter muito cuidado e ponderar bem antes de fazer votos, para que, ao ceder a uma emoção passageira, mesmo de zelo piedoso, não prendamos a própria consciência, não nos enredemos em dificuldades e, por fim, não tenhamos de dizer diante do anjo: “Foi um erro” (Eclesiastes 5:2-6).
É uma armadilha para quem devora precipitadamente o que é santo sem considerar quid valeant humeri, quid ferre recusent — o que somos ou não capazes de realizar — e sem incluir as ressalvas e limitações necessárias para evitar o enredamento.
Depois de fazer votos, vai investigar o que deveria ter investigado antes (Provérbios 20:25). Que o dano sofrido por Jefté nos sirva de advertência. Veja Deuteronômio 23:22.
(4.) Aquilo que prometemos solenemente a Deus devemos cumprir conscienciosamente, se for possível e lícito, por mais difícil e doloroso que seja. A convicção de Jefté quanto à força obrigatória de seu voto deve ser também a nossa (v. 35): “Abri a minha boca ao Senhor em voto solene e não posso voltar atrás.”
Isto é: “Já é tarde demais para eu mesmo revogar o voto; nenhum poder na terra pode anulá-lo nem me desobrigar.” A coisa era minha e estava sob meu poder (Atos 5:4), mas agora já não está. “Fazei votos e pagai” (Salmos 76:11). Enganamo-nos se pensamos que podemos zombar de Deus.
Se aplicarmos isso ao consentimento que demos solenemente, em nossos votos sacramentais, à aliança da graça feita em Cristo com pobres pecadores, que argumento poderoso teremos contra os pecados aos quais esses votos nos obrigaram a renunciar! Que forte incentivo para os deveres que nos obrigaram a cumprir e que resposta pronta para toda tentação!
“Abri a minha boca ao Senhor e não posso voltar atrás; portanto, preciso avançar. Jurei e devo cumprir; vou cumprir. Que eu jamais ouse agir com leviandade diante de Deus.”
(5.) É apropriado que os filhos se submetam aos pais no Senhor com obediência e alegria, particularmente que cooperem com as decisões piedosas deles para a honra de Deus e a preservação da religião na família, mesmo quando forem duras e severas, como os recabitas, que por muitas gerações obedeceram religiosamente à ordem de Jonadabe, seu pai, de se absterem de vinho.
Assim fez a filha de Jefté: para tranquilizar a consciência do pai e honrar a Deus e seu país, entregou-se como consagrada (v. 36): “Faça comigo segundo o que saiu da sua boca. Sei que sou querida para você, mas aceito de bom grado que Deus lhe seja mais querido.”
O pai podia invalidar qualquer voto feito pela filha (Números 30:5), mas a filha não podia invalidar nem anular o voto do pai, nem mesmo um como aquele. Isso engrandece a lei do quinto mandamento.
(6.) Os sofrimentos de nossos amigos devem ser também motivo de nossa tristeza. Quando ela foi lamentar seu destino cruel, suas companheiras, as jovens, juntaram-se ao pranto (v. 38).
Ela costumava conviver com as moças da sua idade e do seu sexo, que, sem dúvida, agora que seu pai subira subitamente a uma posição tão elevada, esperavam, pouco depois da volta dele, dançar no casamento dela.
Mas ficaram profundamente desapontadas quando foram chamadas a acompanhá-la aos montes e compartilhar sua tristeza. Não merecem o nome de amigos os que só se alegram conosco, mas não choram conosco.
(7.) O zelo heroico pela honra de Deus e de Israel, embora misturado com fraqueza e imprudência, merece ser lembrado para sempre. Convém que as filhas de Israel, numa celebração anual, preservem a memória honrosa da filha de Jefté, que não fez caso nem mesmo da própria vida, como nobre heroína, quando Deus tomou vingança dos inimigos de Israel (v. 36).
Um exemplo tão raro de alguém que preferiu o bem público à própria vida jamais deveria ser esquecido. Seu sexo não lhe permitia acompanhar o exército e arriscar a vida no combate. Em vez disso, arriscou-a ainda mais para abrilhantar os triunfos do pai.
Talvez ela própria tenha percebido que arriscava ainda mais a vida, por conhecer algo do voto dele, e agido intencionalmente, pois ele lhe diz: “Você me deixou profundamente abatido” (v. 35). Tão entusiasmada ficou com a vitória, que era um bem comum, que aceitou ser oferecida como sacrifício de gratidão por ela. Considerava sua vida bem empregada se a entregasse numa ocasião tão grandiosa.
Ela considerava uma honra morrer, não como sacrifício de expiação pelos pecados do povo — honra reservada somente a Cristo —, mas como sacrifício de gratidão pelas bênçãos recebidas pelo povo.
(8.) A aflição de Jefté nessa ocasião nos ensina a não estranhar se, neste mundo, o dia de nossos triunfos se tornar, por algum motivo, também um dia de tristeza. Por isso, devemos sempre nos alegrar com temor. Esperamos um dia de triunfo futuro que não terá nenhuma tristeza misturada.
- Ainda surgem algumas questões difíceis nessa história, que ocuparam muito a atenção de homens instruídos. Direi pouco a respeito delas, pois o senhor Poole as examinou por completo em suas Anotações Inglesas.
(1.) É difícil dizer o que Jefté fez à filha para cumprir seu voto. [1.] Alguns pensam que ele apenas a encerrou para que vivesse como freira.
Segundo essa interpretação, era ilícito oferecê-la em holocausto — pois entendem que uma parte do voto apresentava uma alternativa —; pela outra parte, ele a consagrou ao Senhor. Isso significaria afastá-la completamente dos assuntos desta vida, inclusive do casamento, e fazê-la dedicar-se inteiramente à devoção por todos os seus dias.
O que favorece essa opinião é que ela lamentou a virgindade (v. 37, 38) e não conheceu homem algum (v. 39). Mas, se Jefté a sacrificou, era natural que ela lamentasse não a morte, pois se destinava à honra de Deus e ela a aceitaria de bom grado.
Lamentaria a circunstância infeliz que tornava sua morte mais dolorosa do que qualquer outra: era a única filha de seu pai, em quem ele esperava perpetuar o nome e a família; permanecia solteira e não deixaria descendência para herdar a honra e os bens dele.
Por isso se observa em particular (v. 34) que, além dela, Jefté não tinha filho nem filha.
Mas o que me faz pensar que Jefté não tentou cumprir assim seu voto — ou, antes, escapar dele — é não encontrarmos em todo o Antigo Testamento lei, prática ou costume que sequer sugira que a vida celibatária fosse ramo ou artigo da religião ou que alguém, homem ou mulher, fosse considerado mais santo, mais pertencente ao Senhor ou mais dedicado a ele por viver solteiro.
Isso não fazia parte nem da lei dos sacerdotes nem da dos nazireus. Débora e Hulda, ambas profetisas, são registradas especificamente como mulheres casadas. Além disso, se ela tivesse sido apenas obrigada a permanecer solteira, não precisaria pedir aqueles dois meses para lamentar: teria a vida toda para fazer isso, se achasse necessário.
Também não precisaria despedir-se tão tristemente das companheiras. Os que adotam essa opinião interpretam a afirmação do v. 40 de que elas iam conversar com ela como diz a margem: quatro dias por ano. Portanto: [2.] Parece mais provável que Jefté a tenha oferecido como sacrifício, de acordo com o sentido literal de seu voto.
Ele entendeu mal a lei sobre as pessoas consagradas pela maldição de Deus, como se também se aplicasse às que fossem consagradas por votos humanos (Levítico 27:29: “Nenhuma pessoa consagrada será resgatada; certamente morrerá”), e não foi mais bem informado sobre o poder que a lei lhe concedia de resgatá-la nesse caso.
A tentativa de Abraão de oferecer Isaque talvez o tenha encorajado e levado a pensar que, se Deus não aceitasse o sacrifício que prometera, enviaria um anjo para impedi-lo, como fizera com Abraão. Quem sabe ela não saiu de propósito para ser sacrificada? Talvez Jefté pensasse que isso tornaria o caso ainda mais claro.
Volenti non sit injuria: nenhuma injúria é cometida contra alguém por aquilo a que essa pessoa consente. Talvez imaginasse que, sem ira ou malícia, não haveria assassinato; que sua boa intenção santificaria aquela má ação; e que, tendo feito tal voto, seria melhor matar a filha do que quebrá-lo, deixando que a Providência levasse a culpa por tê-la feito sair ao seu encontro.
(2.) Mas, supondo que Jefté tenha sacrificado a filha, a questão é se agiu bem. [1.] Alguns o defendem e pensam que agiu bem, como alguém que preferiu a honra de Deus àquilo que lhe era mais querido neste mundo.
Jefté é mencionado entre os crentes eminentes que, pela fé, fizeram grandes coisas (Hebreus 11:32). E essa foi uma das grandes coisas que fez. Ele agiu deliberadamente, depois de dois meses de reflexão e consulta. Nenhum escritor inspirado o censura por isso.
Embora esse ato exalte muito a autoridade paterna, não justifica ninguém que faça o mesmo. Jefté era uma pessoa extraordinária. O Espírito do Senhor veio sobre ele. Muitas circunstâncias, agora desconhecidas, talvez tornassem esse ato totalmente excepcional e o justificassem, sem justificar atos semelhantes.
Alguns eruditos fizeram desse sacrifício uma figura de Cristo, o grande sacrifício: ele era de pureza e inocência imaculadas, como ela era uma virgem casta; seu Pai o destinou à morte e assim o fez maldição ou anátema por nós; ele se submeteu, como ela, à vontade do Pai: “Não como eu quero, mas como tu queres.”
[2.] A maioria condena Jefté: foi errado fazer um voto tão precipitado e ainda pior cumpri-lo. Ele não podia obrigar-se, pelo voto, a fazer o que Deus proibira pela letra do sexto mandamento: “Não matarás.” Deus proibira sacrifícios humanos; por isso, diz o dr. Lightfoot, aquilo equivalia a um sacrifício a Moloque.
Provavelmente, o escritor inspirado deixa em dúvida se Jefté sacrificou a filha porque não queria que os que mais tarde oferecessem os próprios filhos encontrassem qualquer incentivo nesse exemplo.
Quanto a essa passagem e a outras semelhantes da história sagrada, que deixam os estudiosos perplexos, divididos e em dúvida, não precisamos nos preocupar demais. Graças a Deus, o que é necessário para a nossa salvação está suficientemente claro.