Matthew Henry

Juízes 6

Argumento

Nada se registra do que ocorreu nos tempos tranquilos e pacíficos de Israel. Os quarenta anos de descanso após a conquista de Jabim são omitidos. Começa aqui o relato de outra aflição e outro livramento, por meio de Gideão, o quarto juiz. Aqui está:

I. A condição calamitosa de Israel, por causa das incursões dos midianitas (vv. 1-6). II. A mensagem que Deus lhes enviou por meio de um profeta, convencendo-os do pecado e preparando-os para o livramento (vv. 7-10).

III. Deus levanta Gideão para ser o libertador: 1. Deus lhe dá uma comissão por meio de um anjo e a confirma com um sinal (vv. 11-24); 2. os primeiros frutos de seu governo vêm na reforma da casa de seu pai (vv. 25-32); 3. ele prepara a guerra contra os midianitas e recebe encorajamento por meio de um sinal (vv. 33-40).

Versículos 1 a 6

As Incursões dos Midianitas. (a.C. 1249.)

Temos aqui, I. Israel voltou a pecar: fez o que era mau aos olhos do Senhor (v. 1). Quem já se queimou teme o fogo; ainda assim, esse povo perverso e irrefletido, que tantas vezes sofrera duramente por sua idolatria, voltou a ela assim que os juízos de Deus deram uma pequena trégua.

Esse povo tinha um coração rebelde e desviado, que nem o terror dos juízos de Deus mantinha em reverência nem as grandes coisas que ele fizera em seu favor levavam a honrá-lo e agradecer-lhe, permanecendo no seu amor. A providência de Deus não muda o coração nem a vida dos pecadores.

II. Os sofrimentos de Israel se repetiram. Isso era consequência inevitável: todos os que pecam esperem sofrer; os que voltam à insensatez esperem voltar à miséria. Deus se mostra adverso aos perversos (Salmos 18:26) e age contra os que agem contra ele (Levítico 26:21, 24).

  1. A aflição veio de um inimigo muito desprezível. Deus os entregou nas mãos de Midiã (v. 1), não a Midiã do sul, onde vivia Jetro, mas a Midiã do leste, junto a Moabe (Números 22:4). Era um povo que todos desprezavam por sua falta de cultura e inteligência. Por isso não se menciona aqui rei, senhor ou general. A força que devastou Israel era uma multidão desorganizada.

Para agravar a aflição, Israel antes havia subjugado e praticamente destruído esse povo (Números 31:7). Quase duzentos anos depois, porém, os poucos midianitas que restavam haviam se multiplicado e crescido em força o bastante para se tornarem um açoite severo para Israel. Assim Deus os provocou ao ciúme por meio de um povo que não era povo, uma nação insensata (Deuteronômio 32:21).

A criatura mais insignificante pode castigar os que fizeram do grande Criador seu inimigo. Quando aqueles a quem temos autoridade para governar se rebelam e nos desobedecem, devemos perguntar se não temos feito o mesmo com nosso soberano Governante.

  1. A aflição chegou a um grau muito alarmante (v. 2). O poder de Midiã prevaleceu apenas por causa da multidão. Deus prometera multiplicar Israel como a areia da praia, mas o pecado deteve seu crescimento e o diminuiu. Então os inimigos, embora inferiores em todos os outros aspectos, venceram-nos em número.

Vieram como gafanhotos em multidão (v. 5), não num exército organizado para enfrentá-los no campo, mas como um enxame confuso que saqueava o país, acampava nele e enriquecia com os despojos: bandos de ladrões, nada mais. Israel, separado de Deus pelo pecado, não tinha ânimo para resistir.

Vejamos a terrível devastação que os bandos de saqueadores midianitas causaram em Israel. (1.) Os israelitas se refugiaram em covas e cavernas, quase como se eles próprios se aprisionassem (v. 2). Isso se devia inteiramente à timidez e falta de coragem: preferiam fugir a lutar.

Era efeito da consciência culpada, que os fazia tremer ao ruído de uma folha, e justo castigo por terem abandonado a Deus. Assim ele lutava contra eles com os mesmos terrores com que, de outro modo, lutaria em seu favor.

Sem isso, Israel teria sido páreo para Midiã e poderia resistir-lhe. Mas o coração que se afasta de Deus perde não só o que é bom, mas também o que é grandioso. O pecado tira o ânimo das pessoas e as faz esconder-se em covas e cavernas. Chegará o dia em que comandantes e poderosos pedirão em vão às rochas e montanhas que os escondam.

(2.) Os israelitas empobreceram muito (v. 6). Os midianitas e os outros povos do Oriente que se uniram a eles para viver de saque e roubo — como os sabeus e caldeus, salteadores que antes saquearam Jó — faziam frequentes incursões à terra de Canaã.

A terra fértil era grande tentação para eles, e a indolência e o luxo em que os israelitas haviam afundado durante quarenta anos de descanso tornaram o povo e seus bens presas fáceis. Os midianitas invadiam a terra (v. 3), acampavam nela (v. 4) e traziam seu gado, especialmente incontáveis camelos (v. 5).

Não eram um bando que atacava e logo fugia: pretendiam forçar passagem e penetraram pelo coração do país até Gaza, a oeste (v. 4).

Deixavam os israelitas semear os campos, mas, perto da colheita, chegavam, tomavam tudo, consumiam e destruíam a vegetação e o cereal. Ao partir, levavam as ovelhas e os bois. Em suma, não deixavam sustento algum para Israel, exceto o que os legítimos donos escondiam nas covas e cavernas.

Aqui vemos: [1.] A justiça de Deus ao castigar o pecado do povo. Israel deixara de honrar a Deus com seus bens, dízimos e ofertas, e oferecera a Baal aquilo que devia ser consagrado ao Senhor. Agora Deus, com justiça, enviou um inimigo para tomar tudo no tempo da colheita (Oseias 2:8, 9).

[2.] A consequência de Deus afastar-se de um povo: quando ele parte, todo bem desaparece e toda desgraça entra. Quando Israel era fiel a Deus, colhia o que outros haviam semeado (Josué 24:13; Salmos 105:44); agora que Deus o abandonara, outros colhiam o que ele semeara.

Aproveitemos a ocasião para agradecer a Deus pela paz e tranquilidade de nossa nação e por comermos o fruto do trabalho de nossas mãos.

III. Por fim, Israel reconheceu a mão de Deus na aflição. Durante sete anos, os midianitas fizeram essas incursões, ano após ano, cada uma talvez pior que a anterior (v. 1). Quando todos os outros socorros falharam, Israel clamou ao Senhor (v. 6), pois clamar a Baal o arruinara e não lhe trouxera ajuda. Quando Deus julga, prevalece; os pecadores terão de dobrar-se ou quebrar-se diante dele.

Versículos 7 a 10

Observe aqui: I. Deus atentou para os clamores de Israel quando por fim se voltaram para ele. Embora na prosperidade o tivessem negligenciado e cortejado seus rivais, e embora só olhassem para ele quando levados ao extremo, diante de suas queixas e orações Deus planejou socorrê-los.

Assim mostraria como está pronto a perdoar, como se apressa em mostrar misericórdia e como se inclina a ouvir orações, para encorajar os pecadores a voltar e se arrepender (Salmos 130:4).

II. O método que Deus empregou para livrá-los:

  1. Antes de enviar um anjo para levantar um salvador, enviou um profeta para repreendê-los por seus pecados e levá-los ao arrependimento (v. 8). O profeta não é nomeado. Era um homem, profeta, e não anjo, como em Juízes 2:1.

Não sabemos se aproveitou a ocasião em que os israelitas estavam reunidos numa assembleia geral, numa festa solene ou outra ocasião importante, para entregar sua mensagem, ou se foi de cidade em cidade e de tribo em tribo pregando esse conteúdo.

Sua missão era convencê-los do pecado, para que, ao clamar ao Senhor, o confessassem com tristeza e vergonha, em vez de gastar o fôlego apenas se queixando da aflição.

Clamaram a Deus por um libertador, e Deus lhes enviou um profeta para instruí-los e prepará-los para o livramento. Repare: (1.) Temos razão para esperar que Deus esteja planejando misericórdia para nós quando vemos que, pela sua graça, está nos preparando para recebê-la.

Se envia a um doente um mensageiro, um intérprete, para mostrar sua retidão, então é misericordioso e concede a recuperação (Jó 33:23-24).

(2.) Enviar profetas a um povo e prover uma região de ministros fiéis é sinal de que Deus tem misericórdia reservada para ela. Assim ele nos faz voltar para si e depois faz resplandecer seu rosto sobre nós (Salmos 80:19).

  1. Temos aqui os pontos principais da mensagem que o profeta transmitiu a Israel em nome do Senhor.

(1.) Ele recorda as grandes coisas que Deus fizera por eles (vv. 8-9): “Assim diz o Senhor, Deus de Israel”. Eles haviam adorado os deuses das nações, como se não tivessem um Deus próprio a adorar e pudessem escolher quem quisessem. Agora são lembrados daquele que haviam esquecido, conhecido pelo título de Deus de Israel, e a quem deviam voltar.

Voltaram-se a outros deuses como se o seu fosse incapaz ou não quisesse protegê-los. Por isso lhes recorda o que fez por seus pais, de cujos lombos descendiam, e cujos benefícios haviam chegado até eles e ainda permaneciam para essa descendência ingrata.

[1.] Tirou-os do Egito, onde teriam permanecido em pobreza e escravidão perpétuas. [2.] Livrou-os das mãos de todos os que os oprimiam. Isso mostra que não lhes faltava poder nem boa vontade para livrá-los dos midianitas opressores; por causa de sua iniquidade, venderam-se, e Deus não os resgataria até que, pelo arrependimento, revogassem o trato.

[3.] Deu-lhes posse tranquila dessa boa terra. Isso agravava o pecado e marcava sua grosseira ingratidão, mas também justificava Deus e o isentava de culpa pela aflição que sofriam. Não podiam dizer que ele fora mau para com eles, pois lhes dera toda prova possível de que desejava o bem deles. Se algo ruim lhes acontecera apesar disso, deviam culpar a si mesmos.

(2.) O profeta mostra como eram simples e justas as exigências e expectativas de Deus (v. 10): “Eu sou o Senhor, seu Deus”, a quem vocês têm as maiores obrigações. “Não temam os deuses dos amorreus”, isto é, não os adorem nem lhes demonstrem respeito. Não os adorem por medo de que lhes façam mal; que mal podem fazer enquanto eu sou o seu Deus? Temam a Deus e não precisarão temê-los.

(3.) Acusa-os de rebeldia contra Deus, que lhes dera essa ordem: “Mas vocês não obedeceram à minha voz”. A acusação é breve, mas abrangente. A maldade de todo o pecado deles consistia em desobedecer a Deus, e foi isso que trouxe sobre eles as calamidades sob as quais gemiam, conforme as ameaças ligadas aos mandamentos divinos.

O profeta pretende levá-los ao arrependimento. Nosso arrependimento será correto e verdadeiro quando lamentarmos sobretudo a pecaminosidade do pecado, por ser desobediência a Deus.

Versículos 11 a 24

O Chamado de Gideão. (a.C. 1249.)

Não se diz que efeito a pregação do profeta teve sobre o povo; podemos esperar, porém, que tenha sido bom e que alguns, pelo menos, tenham se arrependido e se reformado. Pois logo depois vemos despontar o dia do livramento: Gideão é eficazmente chamado para comandar as tropas contra os midianitas.

I. A pessoa escolhida para esse serviço foi Gideão, filho de Joás (v. 14). O pai ainda vivia, mas foi preterido, e essa honra coube ao filho, pois o pai mantinha o culto a Baal em sua própria casa (v. 25). Podemos supor que o filho se opusesse a isso tanto quanto podia.

Era da meia tribo de Manassés que vivia em Canaã, da família de Abiezer, a casa mais antiga daquela tribo (Josué 17:2). Até então, os juízes eram levantados na tribo que mais sofria com a opressão, e provavelmente foi assim também nesse caso.

II. Quem lhe deu a comissão foi um anjo do Senhor. Ao que parece, não um anjo criado, mas o próprio Filho de Deus, o Verbo eterno, Senhor dos anjos, que em ocasiões importantes aparecia em forma humana. Segundo o erudito bispo Patrick, isso antecipava o que faria na plenitude dos tempos, quando assumiria nossa natureza de uma vez por todas.

Aqui o anjo é chamado Jeová, o nome incomunicável de Deus (v. 14, 16), e diz: “Eu estarei com você”.

  1. Essa pessoa divina apareceu a Gideão, e é digno de nota o modo como o encontrou. (1.) Recluso, sozinho. Muitas vezes Deus se manifesta ao seu povo quando está longe do ruído e da agitação deste mundo. O silêncio e a solidão favorecem nossa comunhão com Deus.

(2.) Ocupado debulhando trigo com um bordão ou vara — esse é o sentido da palavra —, como se usava para debulhar nigela e cominho (Isaías 28:27). Mas agora o instrumento servia para debulhar trigo, provavelmente porque tinha pouco, e não precisava de bois para pisá-lo. Não era considerado desonroso que ele, pessoa de certa importância e homem valente, se dedicasse à lavoura.

Tinha muitos servos (v. 27), mas não queria viver na ociosidade. Pomo-nos no caminho das visitas divinas quando nos ocupamos em trabalhos honestos. As notícias do nascimento de Cristo foram levadas aos pastores enquanto cuidavam dos rebanhos.

O trabalho que fazia era símbolo da tarefa maior a que seria chamado, assim como a pesca dos discípulos. Da debulha do trigo, seria enviado a debulhar os midianitas (Isaías 41:15). (3.) Estava aflito: debulhava o trigo não na eira, lugar apropriado, mas junto ao lagar, num canto escondido e discreto, por medo dos midianitas.

Gideão sofria com a calamidade comum e agora o anjo vinha encorajá-lo contra Midiã. Ele mesmo podia falar com conhecimento sobre o peso do jugo. O dia da maior aflição é a ocasião escolhida por Deus para socorrer seu povo.

  1. Vejamos o que se passou entre o anjo e Gideão. Este não soube com certeza que era um anjo até ele partir; imaginava que fosse um profeta.

(1.) O anjo o saudou respeitosamente e lhe assegurou a presença de Deus (v. 12). Chamou-o homem valente, talvez por notar a força com que debulhava o trigo. “Você vê um homem diligente em seu trabalho? Ele estará diante de reis.” Quem é fiel nas poucas coisas será posto sobre muitas.

Gideão tinha espírito corajoso e ativo, mas permanecia enterrado na obscuridade por causa da iniquidade daqueles tempos. O anjo o anima a realizar algo grandioso, digno de si, com as palavras: “O Senhor está com você”. Ou, como lê o Targum: “A Palavra do Senhor é o seu auxílio”. Sem dúvida, o Senhor estava com ele quando esse anjo estava.

Com essas palavras, [1.] dá-lhe a comissão. A presença de Deus nos justifica e sustenta em nossos empreendimentos. [2.] Inspira-lhe todas as qualidades necessárias para cumprir a comissão: “O Senhor está com você para orientá-lo e fortalecê-lo, animá-lo e sustentá-lo”. [3.] Assegura-lhe o êxito: se Deus é por nós, quem poderá prevalecer contra nós?

Se está conosco, nada nos faltará. A presença de Deus é tudo para nossa prosperidade, qualquer que seja o nosso trabalho.

Gideão era homem valente, mas nada poderia realizar sem a presença de Deus. Essa presença basta para tornar qualquer pessoa valorosa e dar-lhe coragem em todo tempo.

(2.) Gideão respondeu tristemente a essa saudação alegre (v. 13): “Ah, meu senhor! Se o Senhor está conosco” — o Targum lê: “A presença do Senhor é nosso auxílio”, identificando-a com a Palavra do Senhor —, “por que tudo isso nos aconteceu?”

“Toda esta aflição e angústia causada pelas incursões dos midianitas, que me obriga a debulhar trigo junto ao lagar; toda esta perda, tristeza e terror! E onde estão todos os milagres de que nossos pais nos falaram?”

Observe: na resposta, Gideão não se detém no elogio à própria coragem; isso não o envaidece nem o encoraja, embora seja provável que o anjo adaptasse suas palavras ao que Gideão pensava naquele momento. Enquanto suas mãos trabalhavam o trigo, sua cabeça ativa e seu coração ousado planejavam o resgate de Israel e a ruína de Midiã.

Aquele que conhece o coração intervém oportunamente: chama-o homem valente por seus planos corajosos e abre-lhe o caminho para executá-los. Gideão, porém, como se não percebesse nada de grande ou animador em seu próprio espírito, apega-se apenas à garantia da presença de Deus dada pelo anjo, único fundamento de todo o consolo deles.

Observe também: o anjo falara diretamente a Gideão: “O Senhor está com você”; mas Gideão responde em nome de todos: “Se o Senhor está conosco”, identificando-se com os milhares de Israel e não admitindo consolo que não pudesse ser compartilhado pelo povo. Longe dele pensar em apropriar-se da bênção, embora tivesse uma oportunidade tão boa.

Os que se preocupam com o bem comum consideram honra e alegria aquilo que os capacita a servir aos interesses da igreja de Deus.

Gideão era homem muito valente, mas ainda tinha fé fraca; por isso lhe era difícil conciliar a situação com a garantia da presença de Deus. [1.] Israel estava numa aflição extrema: “Por que tudo isso — e não era pouca coisa — nos aconteceu?” Às vezes é difícil, mas nunca impossível, conciliar as providências adversas com a presença e o favor de Deus.

[2.] O livramento demorava: “Onde estão todos os milagres de que nossos pais nos falaram? Por que o mesmo poder que os libertou do jugo dos egípcios não nos livra das mãos dos midianitas?”

Como Deus não realizava imediatamente milagres para livrá-los, embora tivessem perdido por seus pecados o favor e o auxílio dele, Gideão começava a perguntar se os milagres contados pelos pais haviam mesmo acontecido; ou, se aconteceram, se Deus ainda tinha a mesma sabedoria, poder e boa vontade para com seu povo.

Nisso consistia sua fraqueza. Não devemos esperar que os milagres que ocorreram na formação da igreja e na confirmação de alguma grande verdade se repitam depois de concluídas essas etapas. Tampouco devemos esperar que as misericórdias mostradas aos nossos pais, que serviam e permaneciam fiéis a Deus, sejam renovadas a nós se nos desviamos e nos rebelamos.

Gideão não devia ter dito, primeiro, que Deus os entregara nas mãos dos midianitas, pois se haviam vendido por causa de suas iniquidades; segundo, que, agora que estavam em poder deles, Deus os abandonara, pois recentemente lhes enviara um profeta (v. 8), sinal certo de que não os abandonara.

(3.) O anjo respondeu de maneira muito eficaz às objeções, comissionando-o a livrar Israel das mãos dos midianitas e assegurando-lhe o êxito (v. 14). Agora o anjo é chamado Jeová, pois fala com autoridade, não como simples mensageiro.

[1.] Gideão recebeu um olhar extraordinário: um olhar gracioso e favorável que reanimou seu espírito abatido e silenciou seus temores, como o semblante de Deus que contempla os retos (Salmos 11:7).

O anjo olhou para ele e sorriu diante de suas objeções; não lhe respondeu diretamente, mas o revestiu de poder, que logo lhe permitiria responder por si mesmo e fazê-lo lamentar ter levantado aquelas objeções.

Foi um olhar expressivo, como o de Cristo a Pedro (Lucas 22:61), um olhar poderoso, que de modo extraordinário derramou nova luz e vida no coração de Gideão e o encheu de fervor generoso, muito maior que o que sentia antes.

[2.] Muito mais importante foi o que lhe disse. Primeiro, comissionou-o para agir como libertador de Israel. Os poucos israelitas atentos, entre eles Gideão, esperavam que Deus levantasse alguém segundo seu método habitual, em resposta aos clamores do povo oprimido; agora Gideão ouve: “Você é esse homem.

Vá com esta força, com a força com que debulha o trigo, e empregue-a numa tarefa mais nobre; farei de você alguém que debulhará homens”.

Ou, antes: “Vá com a força que recebeu agora por meio deste olhar”. Deus o comissionou ao dar-lhe as qualidades necessárias para cumprir a missão, coisa que o maior príncipe ou potentado da terra não consegue fazer por aqueles a quem comissiona.

Deus capacitar alguém para uma obra é prova segura e constante de que o chamou para ela. “Não vá com sua força natural, por conta própria, nem dependa de sua coragem. Vá com esta força que recebeu agora; vá na força do Senhor Deus, aquela com que você deve fortalecer-se”.

Em segundo lugar, assegurou-lhe o sucesso. Isso bastava para animá-lo. Podia confiar que sua tentativa não fracassaria nem se tornaria vergonha pessoal ou prejuízo para o povo, como ocorre a empreendimentos malogrados; resultaria em honra para ele e felicidade para o povo: “Você salvará Israel das mãos dos midianitas”.

Não seria apenas testemunha, mas instrumento glorioso dos prodígios de que os pais lhe falaram.

Podemos supor que Gideão o olhou espantado, diante daquele poder extraordinário que lhe fora conferido, e perguntou se podia confiar no que ouvira.

O anjo ratifica a comissão com um teste meipso, uma declaração de que ele mesmo é testemunha e garantia; nada mais era necessário: “Não sou eu que o envio?” Eu, que tenho todo o poder no céu e na terra e autoridade especial sobre Israel, seu Rei, dando comissões diretamente; eu, que sou o que sou, o mesmo que enviou Moisés? (Êxodo 3:14).

(4.) Gideão apresentou uma objeção muito modesta à comissão (v. 15): “Ah, meu Senhor! Como salvarei Israel?” Essa pergunta pode indicar que: [1.] desconfiava de Deus e de seu poder, como se fosse impossível salvar Israel ainda que Deus estivesse com ele. A fé verdadeira muitas vezes é fraca; mesmo assim, não será rejeitada, mas encorajada e fortalecida.

[2.] Talvez quisesse saber que método devia adotar: “Senhor, estou cercado por todas as desvantagens possíveis; se devo fazer isso, você precisa me mostrar o caminho”. Os que recebem comissões de Deus devem esperar e buscar instruções dele.

Ou, antes, a pergunta demonstrava humildade, falta de confiança em si mesmo e abnegação. O anjo o honrara, mas vejam como ele fala de si com modéstia:

“Minha família é relativamente pobre em Manassés” — talvez mais empobrecida que as outras pelos midianitas —, “e eu sou o menor, o menos importante e influente na casa de meu pai. Que posso pretender fazer? Sou completamente inapto para esse serviço e indigno dessa honra”.

Deus muitas vezes escolhe realizar grandes coisas por meio dos pequenos, sobretudo dos que se consideram pequenos. Deus se alegra em elevar os humildes.

(5.) A objeção foi logo respondida pela repetição da promessa de que Deus estaria com ele (v. 16): “Não objete por causa de sua pobreza e insignificância. Essas coisas muitas vezes impedem grandes empreendimentos, mas que importância têm para alguém com a presença de Deus? Ela suprirá todas as deficiências de honra e bens”.

“Certamente estarei com você, para orientá-lo e fortalecê-lo, e lhe darei tanta reputação que, por menor que seja sua influência pessoal, terá soldados suficientes para segui-lo. Você derrotará os midianitas como se fossem um só homem, tão facilmente e tão eficazmente como se fossem apenas um: todos os milhares de Midiã serão como se tivessem um único pescoço, e você poderá cortá-lo”.

(6.) Gideão pediu que sua fé fosse confirmada a respeito da comissão. Não queria acreditar com demasiada facilidade numa mensagem que tanto o exaltava nem aventurar-se numa empresa tão acima de suas forças, envolvendo muitas outras pessoas, sem ter certeza de sua autoridade e poder dar aos demais a mesma certeza sobre quem lhe dera essa autoridade.

Por isso, humildemente pediu a essa pessoa divina, fosse ela quem fosse: [1.] que lhe desse um sinal (v. 17). Como a comissão lhe fora dada fora do curso comum da providência, era razoável esperar que fosse confirmada por uma ação de Deus também extraordinária: “Dê-me um sinal que me assegure de que isto que me diz é verdade, que é mais que conversa e que fala sério”.

Sob a dispensação do Espírito, não devemos esperar sinais diante dos olhos como o que Gideão pediu. Devemos orar com fervor para que Deus, se achamos graça diante dele, nos dê um sinal no coração, por meio da poderosa operação do seu Espírito, realizando a obra da fé e aperfeiçoando o que lhe falta.

[2.] Pediu que aceitasse uma refeição e lhe desse assim mais tempo para conversar com ele (v. 18). Os que sabem o que é ter comunhão com Deus desejam que ela continue e relutam em partir, orando com Gideão: “Não se retire daqui, peço-lhe”. Ele desejava que o visitante ficasse para que pudesse trazer-lhe alimento.

Não o convidou para dentro de casa, talvez porque a família de seu pai não fosse bem disposta para com ele e seus amigos; talvez quisesse continuar sozinho com aquele desconhecido e conversar em particular. Por isso não chamou um servo: foi buscar a refeição. Ou talvez, assim como seu pai Abraão, tenha acolhido anjos sem saber, não em sua tenda, mas debaixo de uma árvore (Gênesis 18:8).

Quando o anjo prometeu ficar para a refeição, Gideão apressou-se em trazer um cabrito. Provavelmente já estava cozido para a própria refeição; bastava colocá-lo na cesta — sem molho nem prato enfeitado —, despejar o caldo numa vasilha e apresentá-lo (v. 19).

Com isso pretendia, primeiro, demonstrar sua gratidão e generosidade ao visitante e, por meio dele, a Deus, que o enviara; queria mostrar que pensava no que devia oferecer. Usou a pobreza da família para desculpar-se do comando do exército (v. 15), mas não para deixar de ser hospitaleiro.

Do pouco que os midianitas lhe haviam deixado, ofereceria de bom grado o bastante para receber um amigo, sobretudo um mensageiro do céu. Segundo, queria descobrir quem era aquele visitante extraordinário. A comida é chamada de presente (v. 18), a mesma palavra usada para oferta de cereal.

Talvez a palavra se aplicasse às duas coisas porque Gideão deixava ao visitante decidir se seria refeição comum ou oferta; pelo modo como a aceitasse, poderia descobrir quem ele era. Se comesse como alimento, suporia que fosse um homem, um profeta; se agisse de outro modo, como de fato ocorreu, saberia que era um anjo.

(7.) O anjo lhe deu um sinal por meio daquilo que Gideão preparara com bondade para recebê-lo. O que oferecemos a Deus para sua glória e em sinal de gratidão, pela graça divina, pode voltar para nosso próprio consolo e satisfação.

O anjo ordenou que tirasse a carne e o pão da cesta, os pusesse sobre uma rocha dura e fria e derramasse sobre eles o caldo; se estivesse quente, logo esfriaria na rocha. Gideão obedeceu (v. 20), crendo que o anjo ordenava isso não para desprezar sua cortesia, mas para lhe dar um sinal. E o sinal o satisfez plenamente.

[1.] O anjo transformou a comida numa oferta queimada, de aroma agradável para si, mostrando que não era um homem que precisava de alimento, mas o Filho de Deus, que devia ser servido e honrado com sacrifícios e, na plenitude dos tempos, ele próprio se tornaria um sacrifício.

[2.] Fez sair fogo da rocha para consumir a oferta. Não golpeou a rocha como fazemos para tirar faíscas de uma pederneira; tocou suavemente a oferta com a ponta de seu cajado (v. 21). Deu-lhe assim um sinal de que achara graça diante de Deus.

Deus demonstrava aceitar os sacrifícios acendendo-os: quando públicos, com fogo do céu, como os de Moisés e Elias; quando particulares, como este, com fogo que saía da terra. Ambos eram efeitos do poder divino.

A aceitação do sacrifício confirmava a aceitação de Gideão, sua comissão e, talvez, seu êxito: ele e seu exército causariam terror e destruição aos midianitas, como aquele fogo que saiu da rocha.

[3.] O anjo desapareceu imediatamente de vista. Não se afastou como um homem; sumiu e desapareceu como um espírito. Isso era um sinal tão grande quanto Gideão poderia desejar.

(8.) Sem dúvida, Gideão teve a fé confirmada pelos sinais da divindade daquele que lhe falara; ainda assim, naquele momento, ficou apavorado, até que Deus o tranquilizou com bondade e afastou seus temores. [1.] Gideão teme por sua vida (v. 22): “Ai de mim, Senhor Deus! Tenha misericórdia de mim, estou perdido, pois vi um anjo”.

Ele só percebeu isso depois que o anjo partiu, como os dois discípulos não perceberam que conversavam com Jesus até que ele se foi (Lucas 24:31). Jacó se admirou de ter sobrevivido depois de ver Deus (Gênesis 32:30).

Desde que, pelo pecado, o ser humano se expôs à ira e à maldição de Deus, receber uma mensagem do céu o enche de terror, como se dificilmente pudesse esperar boas notícias de lá. Pelo menos neste mundo dos sentidos, conversar de modo perceptível com o mundo dos espíritos, de que tanto desconhecemos, é algo muito solene. A coragem de Gideão falhou naquele momento.

[2.] Deus lhe fala de paz (v. 23). Aquilo podia ter sido fatal para ele, mas o Senhor garantiu que não. Havia desaparecido de sua vista (v. 21), mas, embora já não pudesse andar por vista, Gideão ainda podia viver pela fé, que vem pelo ouvir. O Senhor lhe disse, com voz audível, segundo o bispo Patrick: “A paz esteja com você; tudo está bem, fique tranquilo.”

“Não tema: aquele que veio comissioná-lo não pretende matá-lo. Você não morrerá”. Vejam como Deus está pronto a reanimar os corações dos que tremem diante de sua palavra e presença e a dar aos que reverenciam sua majestade a certeza de sua misericórdia.

  1. O memorial que Gideão ergueu em lembrança dessa visão foi uma espécie de altar.

O anjo manifestara sua aceitação por meio de um sacrifício oferecido sobre uma rocha, sem a formalidade de um altar; então ele era desnecessário, pois o cajado do anjo bastava para santificar a oferta. Agora, porém, um altar serviria para preservar a memória da visão. Gideão lhe deu o nome de Jeová-Shalom (v. 24): “O Senhor é paz”.

(1.) Esse é o título do Senhor que lhe falou. Compare Gênesis 16:13. Aquele que é o Senhor, nossa justiça, também é nossa paz (Efésios 2:14), nosso reconciliador e Salvador. (2.) Pode ser o conteúdo do que o Senhor lhe disse: “O Senhor falou de paz e criou esse fruto dos lábios; mandou que eu me tranquilizasse quando estava agitado”.

(3.) Ou pode ser uma oração fundamentada na palavra que recebeu, como entende a margem: “O Senhor envie paz”, isto é, descanso da aflição presente, pois o bem público continuava ocupando o primeiro lugar em seu coração. Gideão Derruba o Altar de Baal; Gideão é Resgatado da Turba. (a.C. 1249.)

Versículos 25 a 32

I. Deus ordena a Gideão que inicie seu governo reformando a casa de seu pai (vv. 25-26). Depois que Deus e Gideão estabeleceram contato pela aparição do anjo, a comunicação continuou de outra maneira. Na mesma noite em que viu Deus, enquanto pensava no que ocorrera — provavelmente sem ter contado a ninguém —, o Senhor lhe disse em sonho que fizesse isto e aquilo.

Repare: se recebemos com gratidão as visitas de Deus, ele voltará a nos visitar graciosamente. Acolham Deus, e ele virá outra vez. Gideão recebeu estas ordens:

  1. Derrubar o altar de Baal. Ao que parece, seu pai o construíra para uso da família ou talvez de toda a cidade. Vejam o poder da graça de Deus: levantou um reformador e, com graciosa condescendência, escolheu um libertador da família de um líder da idolatria.

Gideão não devia contentar-se em não adorar naquele altar, coisa que, podemos supor com benevolência, nunca fizera; devia derrubá-lo. Não deveria consagrar o mesmo altar a Deus, observa o bispo Hall, mas destruí-lo por completo. Deus primeiro manda demolir os monumentos da superstição e depois ordena seu próprio culto.

Devia também cortar o bosque que ficava ao lado do altar, o plantio de árvores novas feito para embelezar o lugar. O erudito bispo Patrick entende que “bosque” significa a imagem que estava nele, provavelmente a de Astarote — pois a palavra para bosque é asherah —, que ficava sobre o altar ou muito perto dele.

  1. Erigir um altar a Deus, a Jeová, seu Deus. Talvez uma inscrição informasse isso: “A Jeová, Deus de Gideão” ou “Deus de Israel”. Seria impróprio que Gideão construísse um altar, mesmo ao Deus de Israel, sobretudo para holocaustos e sacrifícios; isso seria considerado desprezo pelo altar de Siló. Mas Deus, que não se limita às próprias leis, ordenou-lhe que o fizesse; agora era seu dever e honra.

Deus indicou o lugar: no alto da rocha, talvez no mesmo local em que o anjo lhe aparecera, perto do altar que já construíra. Gideão não devia agir às pressas, mas com a decência própria de uma ação religiosa, seguindo a ordem indicada na margem e a antiga lei para altares construídos em ocasiões especiais: deveriam ser de terra, não de pedra lavrada.

A palavra usada para a rocha sobre a qual o altar seria erguido significa fortaleza ou refúgio. Alguns pensam que fora construído para protegê-los dos midianitas. Se assim fosse, não os protegeria enquanto o altar de Baal estivesse tão perto. Mas a fortificação seria eficaz quando um altar ao Senhor fosse erguido no alto dela, pois essa é a melhor defesa de nossa glória.

Nesse altar: (1.) Gideão ofereceria sacrifícios. Devia oferecer dois novilhos: o novilho de seu pai e o segundo novilho, de sete anos — essa seria a leitura mais correta, e não “isto é, o segundo”, como lemos. Podemos supor que ofereceria o primeiro por si mesmo e o segundo pelos pecados do povo que libertaria.

Era necessário reconciliar-se com Deus antes de guerrear contra Midiã. Enquanto o pecado não for perdoado pelo grande sacrifício, não se pode esperar nenhum bem. Supõe-se que aqueles novilhos fossem destinados aos sacrifícios no altar de Baal; agora seriam empregados num uso melhor.

Quando o homem forte armado é vencido e expulso, alguém mais forte toma o despojo, reservando para si o que se preparara para Baal. Venha aquele a quem pertence e receba-o.

(2.) O bosque, a imagem ou qualquer que fosse o objeto sagrado ou adorno do altar de Baal, não seria apenas queimado: serviria de combustível para o altar de Deus. Isso significava que tudo o que se levantasse contra Deus seria destruído e que a justiça divina seria glorificada nessa destruição.

Deus ordenou que Gideão fizesse isso: [1.] para provar seu zelo pela religião, do qual precisava dar evidência antes de ir ao campo de batalha e demonstrar coragem; [2.] para dar alguns passos rumo à reforma de Israel, que devia preparar o caminho para o livramento. O pecado, que era a causa, precisava ser eliminado; caso contrário, como a aflição, que era apenas o efeito, poderia acabar?

Podia-se esperar que o exemplo de Gideão, prestes a tornar-se um homem tão importante, fosse seguido pelas outras cidades e tribos, e que a destruição daquele único altar de Baal levasse à destruição de muitos.

II. Gideão obedeceu à visão celestial (v. 27). Aquele que comandaria o Israel de Deus devia submeter-se ao Deus de Israel, sem discutir. Como figura de Cristo, devia primeiro salvar seu povo dos pecados e depois dos inimigos.

  1. Tinha servos em quem podia confiar. Podemos supor que, como ele, mantinham a integridade e não se haviam ajoelhado diante de Baal; por isso estavam prontos a ajudá-lo a destruir o altar. 2. Não hesitou em tomar o novilho de seu pai e oferecê-lo a Deus sem o consentimento dele.

Deus, que ordenara expressamente que o fizesse, tinha direito maior ao novilho; além disso, impedir que o pai pecasse era a maior bondade que podia fazer-lhe.

  1. Esperava provocar a ira da família de seu pai e a má vontade dos vizinhos, mas agiu assim mesmo, lembrando-se de que Levi foi louvado por dizer ao pai e à mãe, na causa de Deus: “Não os reconheço” (Deuteronômio 33:9). Tendo certeza do favor de Deus, não temia a ira dos homens; aquele que lhe dera a ordem o defenderia.

  2. Embora não temesse o ressentimento deles depois do ato, para impedir resistência durante a execução escolheu prudentemente agir à noite, para não ser perturbado nessas ações sagradas. Alguns pensam que foi na mesma noite em que Deus lhe falou, e que, assim que recebeu as ordens, passou logo a cumpri-las e terminou antes do amanhecer.

III. Por causa desse ato, Gideão correu risco de vida (vv. 28-30). 1. Logo se descobriu o que acontecera. Depois de concluir a tarefa, Gideão não tentou escondê-la, e ela não podia ficar oculta.

Os homens da cidade se levantaram cedo, ao que parece, para fazer suas orações matinais no altar de Baal e começar o dia com seu deus, um deus assim — vergonha para os que dizem que o Deus verdadeiro é seu Deus, mas de manhã não lhe dirigem oração nem olham para ele.

  1. Logo descobriram quem o fizera. Fizeram uma investigação rigorosa. Sabiam que Gideão era contrário ao culto de Baal e suspeitaram dele; logo surgiu prova direta: “Sem dúvida, Gideão fez isso”.

  2. Consideraram Gideão culpado e chegaram a tamanha impiedade que julgaram que ele devia morrer por isso. Exigiram que o próprio pai — que, ao apoiar a idolatria, lhes dera motivos para esperar que concordasse — o entregasse: “Traga seu filho para que morra”. Espantem-se, ó céus, e trema, ó terra!

Pela lei de Deus, os adoradores de Baal deviam morrer; mas esses ímpios transferiam a pena aos adoradores do Deus de Israel.

Como estavam loucamente entregues aos ídolos! Não bastava oferecer a Baal os novilhos mais escolhidos? Teria de cair como sacrifício àquela divindade imunda o jovem mais valente da cidade, sob o pretexto de que Baal fora provocado? Quão depressa os idólatras se tornam perseguidores!

IV. O próprio pai livrou Gideão das mãos dos perseguidores (v. 31):

  1. Alguns se opuseram a Gideão. Não só apareceram primeiro para exigir que fosse entregue, como insistiram que ele fosse morto. Embora estivessem sofrendo os pesados juízos de Deus por sua idolatria, odiavam ser reformados e agiam contra Deus mesmo quando ele agia contra eles.

  2. Ainda assim, Joás o defendeu; era um dos principais homens da cidade. Os que têm poder podem fazer muito para proteger uma pessoa honesta e uma causa justa. Quando o usam assim, são ministros de Deus para o bem.

(1.) Joás apoiara o altar de Baal, mas agora protegeu quem o destruíra. [1.] Talvez por afeição natural ao filho e por considerá-lo um jovem virtuoso, valente e digno, que não era pior por não se unir a ele no culto de Baal.

Muitos não têm coragem para manter a própria integridade, mas conservam consciência suficiente para amar e respeitar os que a mantêm. Mesmo que Joás tivesse afeição por Baal, amava ainda mais o filho.

[2.] Talvez se preocupasse com a paz pública. A multidão se agitava e ele temia que a confusão piorasse. Por isso, como alguns pensam, tentou contê-la: “Deixem isso para os juízes; não cabe a vocês condenar ninguém. Quem propõe isso deve morrer”, não como idólatra, mas como perturbador da paz e instigador de sedição.

Foi sob esse mesmo pretexto que Paulo foi resgatado em Éfeso dos que eram tão zelosos por Diana quanto aqueles por Baal (Atos 19:40). [3.] Ou Joás se convenceu de que Gideão agira bem.

Talvez o filho tivesse argumentado com ele; ou Deus, que tem todos os corações em suas mãos, o tivesse influenciado de modo secreto e eficaz a opor-se aos defensores de Baal, embora antes concordasse com a adoração dele.

Repare: é bom defender a causa de Deus quando somos chamados a isso, ainda que poucos ou ninguém nos apoiem. Deus pode inclinar a nos apoiar o coração daqueles de quem menos esperamos auxílio. Cumpramos nosso dever e confiemos a Deus nossa segurança.

(2.) Joás apresenta dois argumentos. [1.] Era absurdo que defendessem Baal: “Vocês, israelitas, adoradores do único Deus vivo e verdadeiro, vão defender Baal, um falso deus? Serão tão tolos e insensatos? Aqueles cujo deus paterno era Baal, e que nunca conheceram outro, têm mais desculpa para defendê-lo que vocês, que estão em aliança com Jeová e foram instruídos em seu conhecimento”.

“Vocês sofreram muito por adorar Baal e atraíram sobre si todo esse mal e calamidade. Ainda assim, vão defendê-lo?” É mau cometer pecado; defender o pecado é uma maldade ainda maior, sobretudo defender Baal, qualquer que seja o ídolo que ocupa no coração o lugar que pertence a Deus.

[2.] Era desnecessário defender Baal. Se não fosse deus, como alegavam, não teriam nada a dizer em seu favor. Se fosse, podia defender-se, como o Deus de Israel tantas vezes fizera, enviando fogo do céu ou outro juízo contra os que o desprezassem.

Joás desafia Baal a fazer bem ou mal. O resultado convenceu seus adoradores da tolice de orar a alguém que não conseguia vingar-se; depois disso, Gideão prosperou notavelmente, mostrando quão incapaz Baal era de defender a própria causa.

(3.) Por isso Joás deu novo nome ao filho (v. 32): Jerubaal, isto é, “Que Baal contenda”: “Que Baal contenda contra ele, se puder. Se tem algo a dizer contra seu destruidor, que fale”.

Esse nome era um desafio constante a Baal: agora que Gideão se armava contra os midianitas, adoradores de Baal, que Baal defendesse seus adoradores, se pudesse. O nome também honrava Gideão, inimigo declarado daquele grande usurpador, que vencera a disputa contra ele; e encorajava os soldados, pois lutariam sob o comando de quem lutava por Deus contra esse grande concorrente ao trono.

É provável, segundo a conjectura dos eruditos, que Jerombalo, a quem Sanchoniathon, um dos mais antigos escritores pagãos, menciona como sacerdote do deus Jao — corrupção do nome Jeová — e a quem devia muito de seu conhecimento, fosse esse Jerubaal. Ele também é chamado Jerubesete (2 Samuel 11:21): Baal, que significa senhor, foi corretamente convertido em Besete, vergonha.

Versículos 33 a 40

O Velo de Gideão. (a.C. 1249.)

Aqui temos, I. A invasão que os inimigos de Israel fizeram contra o povo, v. 33. Um enorme número de midianitas, amalequitas e árabes se reuniu, atravessou o Jordão e tomou como quartel-general o vale de Jezreel, no coração do território de Manassés, não muito longe da cidade de Gideão. Ninguém quis ou ousou guardar contra eles aquela passagem tão importante e vantajosa.

Alguns pensam que a notícia de Gideão ter destruído o altar de Baal os trouxe até ali, para defender Baal e usar isso como pretexto para brigar com Israel. É mais provável, porém, que fosse época da colheita e que eles tivessem o costume de fazer todos os anos uma visita como aquela (v. 3); esperava-se que viessem quando Gideão estava debulhando, v. 11.

Deus levantou Gideão para que estivesse pronto diante daquele golpe terrível. O sucesso que tiveram por tantos anos nessas incursões, a pouca resistência que encontraram e o grande despojo que levaram os deixaram muito ansiosos e confiantes.

Mas a medida de sua iniquidade se completara e chegara o ano da retribuição: agora teriam de parar de saquear e seriam saqueados; foram reunidos como feixes para a eira (Miquéias 4:12, 13), a fim de que Gideão os debulhasse.

II. A preparação de Gideão para atacá-los no acampamento, vv. 34-35. 1. Deus, por seu Espírito, deu vigor a Gideão: o Espírito do Senhor revestiu Gideão, como diz a expressão. Revestiu-o como um manto, para lhe dar honra, e como uma couraça, para protegê-lo. Bem vestidos estão os que assim são revestidos. Um espírito de fortaleza da parte do Senhor revestiu Gideão, diz o Targum caldeu.

Gideão já era um homem valente, mas sua força e coragem pessoais, por mais que fossem exercidas, não bastariam para essa grande tarefa. Ele precisava vestir a armadura de Deus e depender dela: o Espírito do Senhor o revestiu de modo extraordinário. A quem Deus chama para sua obra, ele capacita e anima.

  1. Gideão, com sua trombeta, animou os vizinhos, enquanto Deus agia com ele. Tocou-a para convocar voluntários, e vieram mais do que talvez esperasse.

(1.) Os homens de Abiezer, embora pouco antes estivessem furiosos com ele por derrubar o altar de Baal e o tivessem condenado à morte como criminoso, reconheceram que estavam errados, vieram corajosamente ajudá-lo e se submeteram a ele como general: Abiezer se reuniu em torno dele, v. 34. Deus pode mudar de repente o coração até de idólatras e perseguidores.

(2.) Tribos distantes, até mesmo Aser e Naftali, que ficavam mais longe e não o conheciam, atenderam ao chamado e enviaram suas melhores tropas, v. 35. Embora estivessem mais distantes do perigo, entenderam que, se os midianitas dominassem seus vizinhos, logo chegaria a vez deles. Por isso se apressaram a unir-se contra um inimigo comum.

III. Os sinais que Deus lhe concedeu para firmar a fé dele e a de seus seguidores; talvez os sinais fossem mais para eles do que para Gideão. Ou talvez ele quisesse saber se aquele era o momento de vencer os midianitas ou se deveria esperar outra oportunidade.

Repare: 1. O pedido de um sinal (vv. 36-37): “Que por isto eu saiba que livrarás Israel pela minha mão: que um velo de lã, estendido ao ar livre, fique molhado de orvalho, enquanto o chão ao redor permanece seco”. Em outras palavras: “Senhor, eu creio; ajuda a minha incredulidade”. Ele sentia fraca e vacilante a própria fé e, por isso, pediu a Deus um sinal que completasse o que lhe faltava.

Podemos supor que Deus, que pretendia dar-lhe esses sinais para glorificar seu poder e sua bondade, pôs no coração de Gideão o desejo de pedi-los.

Quando pediu pela segunda vez um sinal contrário ao primeiro, Gideão o fez com uma desculpa muito humilde, temendo provocar a ira de Deus, pois aquilo parecia uma desconfiança irritadiça e caprichosa e insatisfação com as muitas garantias que já recebera (v. 39): “Não se acenda a tua ira contra mim”.

Embora ousasse pedir outro sinal, fez isso com tanto temor e tremor que mostrou que a intimidade a que Deus graciosamente o admitira não o levara a desprezar a glória de Deus nem a presumir de sua bondade. Abraão lhe dera exemplo quando Deus lhe permitiu falar com muita liberdade: “Não se ire o Senhor, e falarei” (Gênesis 18:30, 32).

Devemos buscar o favor de Deus com grande reverência, reconhecendo a distância que nos separa dele e temendo sua ira.

  1. A bondosa concessão de Deus ao pedido de Gideão. Vejam como Deus é cuidadoso com os verdadeiros crentes, ainda que fracos, e como está disposto a acomodar-se às suas fraquezas, para que a cana quebrada não seja esmagada nem o pavio fumegante se apague. Gideão queria que o velo ficasse molhado e o chão seco.

Mas, para que ninguém objetasse que a lã naturalmente absorveria até a menor quantidade de umidade, sem nada de extraordinário, embora a quantidade espremida do velo bastasse para afastar essa objeção, Gideão pediu que, na noite seguinte, o chão ficasse molhado e o velo seco; e assim aconteceu.

Deus está tão disposto a dar aos herdeiros da promessa forte consolação (Hebreus 6:17-18), até por meio de duas coisas imutáveis. Ele não só se deixa convencer pela insistência deles, como até permite que suas dúvidas e insatisfações lhe indiquem o que fazer.

Esses sinais foram: (1.) Verdadeiramente milagrosos e, portanto, suficientes para confirmar a comissão de Gideão. Diz-se que o orvalho vem do Senhor e não espera pelo homem nem pelos filhos dos homens (Miquéias 5:7); ainda assim, nesse assunto, Deus atendeu à voz de um homem: assim como atendeu a Josué, dirigindo o curso do sol, atendeu a Gideão, dirigindo o orvalho.

Isso mostra que o orvalho não cai por acaso, mas pela providência. O segundo sinal inverteu o primeiro e, para agradar a Gideão, foi realizado nos dois sentidos. Por isso, o Dr. Fuller observa que os milagres verdadeiros do céu suportam ser virados, pois por dentro e por fora são iguais.

(2.) Foram muito significativos. Gideão e seus homens estavam prestes a enfrentar os midianitas: poderia Deus distinguir um pequeno velo de Israel da vasta eira de Midiã? Sim; por esse sinal Gideão soube que podia.

Ele queria que o orvalho da graça divina descesse especialmente sobre si? Viu o velo molhado de orvalho, como garantia disso. Queria que Deus fosse como o orvalho para todo Israel? Eis o chão inteiro molhado.

Alguns consideram esse velo emblema da nação judaica, que, por algum tempo, foi regada pelo orvalho da palavra e das ordenanças de Deus enquanto o restante do mundo permanecia seco. Mas, desde que rejeitou Cristo e seu evangelho, ela está seca como a urze no deserto, enquanto as nações ao redor são como um jardim regado.


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