Juízes 4
Argumento
O relato de Débora e Baraque, os heróis deste capítulo, segue o mesmo método do anterior. Temos aqui: I. Israel se afastou de Deus (v. 1). II. Israel foi oprimido por Jabim (v. 2, 3). III. Israel foi julgado por Débora (v. 4, 5). IV. Israel foi libertado das mãos de Jabim. 1. Débora e Baraque planejaram o livramento (v. 6, 9). 2. Eles o realizaram em conjunto.
Baraque marcha para a batalha (v. 10). Sísera, general de Jabim, enfrenta-o (v. 12, 13). Débora o encoraja (v. 14), e Deus lhe concede uma vitória completa: derrota o exército (v. 15, 16) e obriga o general a fugir (v. 17). Onde esperava encontrar abrigo, Jael lhe rouba a vida enquanto dorme (vv. 18-21).
Isso completa o triunfo de Baraque (v. 22) e a libertação de Israel (v. 23, 24).
Versículos 1 a 3
Os Israelitas Escravizados por Jabim. (a.C. 1285.)
Aqui está: I. Israel voltou a se desviar de Deus: tornou a fazer o que era mau aos olhos dele, abandonou seu serviço e adorou ídolos, pois esse era o pecado que então mais facilmente o dominava (v. 1). Repare:
Na força extraordinária da corrupção, que arrasta as pessoas ao pecado apesar de já terem experimentado repetidas vezes suas consequências fatais. Com grande dificuldade se contém a tendência à apostasia.
Nos efeitos nocivos comuns de uma paz prolongada. A terra teve descanso por oitenta anos, o que deveria tê-los firmado em sua religião; pelo contrário, tornou-os despreocupados e dissolutos, inclinados a satisfazer paixões que a adoração de falsos deuses servia para gratificar.
Assim, a prosperidade destrói os tolos. Jesurum engordou e deu coices. 3. Na grande perda que um povo sofre com a morte de bons governantes. Fizeram o que era mau porque Eúde havia morrido. Assim também se pode ler. Ele os vigiava de perto, reprimia e punia tudo o que tendia à idolatria e os mantinha fiéis ao serviço de Deus. Mas, quando ele se foi, revoltaram-se, pois o temiam mais que a Deus.
II. Israel foi oprimido por seus inimigos. Quando abandonaram a Deus, ele os abandonou, e então se tornaram presa fácil de qualquer saqueador. Afastaram-se de Deus como se não lhe pertencessem; por isso, Deus também os afastou de si como se não fossem seus.
Os que se excluem do serviço de Deus excluem-se de sua proteção. Que tem a minha amada na minha casa, visto que assim se prostituiu? (Jeremias 11:15).
Deus os entregou nas mãos de Jabim (v. 2). Ele reinava em Hazor, como já fizera outro homem com o mesmo nome, talvez seu antepassado, a quem Josué derrotou, matou e cuja cidade queimou (Josué 11:1, 10).
Com o passar do tempo, porém, parece que a cidade foi reconstruída, seu poder recuperado e a perda reparada. Aos poucos, o rei de Hazor tornou-se capaz de tiranizar Israel, que por seu pecado perdera toda vantagem sobre os cananeus.
Essa servidão durou mais que as anteriores e foi muito mais penosa. Jabim e seu general, Sísera, oprimiram Israel com violência. Agravou essa opressão:
O fato de esse inimigo estar mais perto do que os anteriores, dentro de suas fronteiras e no coração de seu território; assim, tinha mais oportunidades de lhes causar dano. 2. Eram os habitantes nativos da terra e os odiavam implacavelmente por terem sido invadidos e expulsos. Quando os tiveram sob seu poder, foram ainda mais cruéis e perversos, como vingança pelo antigo conflito.
Esses cananeus haviam sido antes conquistados e subjugados por Israel, e estavam desde muito condenados a servi-lo (Gênesis 9:25). Poderiam agora estar sob os pés dos israelitas, sem capacidade de perturbá-los, se a preguiça, a covardia e a falta de fé do próprio povo não os tivessem deixado ganhar força.
Ser oprimidos por aqueles que os pais haviam conquistado e que eles mesmos insensatamente pouparam não podia deixar de ser muito penoso.
III. Israel voltou para seu Deus. Clamaram ao Senhor quando a aflição os levou a ele e já não viram outro caminho para obter alívio. Os que desprezam a Deus em tempos de prosperidade descobrirão que, na aflição, precisam buscá-lo.
Versículos 4 a 9
O Plano de Débora e Baraque. (a.C. 1258.)
Por fim chegou o ano da redenção: Israel seria liberto das mãos de Jabim e recuperaria a liberdade. Podemos supor que as tribos do norte, mais próximas dos opressores e mais afetadas pela fúria deles, clamaram de modo especial a Deus. Por causa da opressão dos pobres e do suspiro dos necessitados, agora Deus se levantará.
Temos aqui:
I. A preparação do povo para o livramento, por meio da direção e do governo proféticos de Débora (vv. 4-5). Seu nome significa “abelha”, e ela fez jus ao nome por sua diligência, sagacidade e grande utilidade pública, doce para os amigos e aguda para os inimigos.
Diz-se que era mulher de Lapidote; mas, como essa terminação raramente aparece no nome de um homem, alguns entendem que se trata do nome de um lugar: ela era uma mulher de Lapidote. Outros tomam a palavra como designação: Lapidote significa “lâmpadas”.
Os rabinos dizem que ela se ocupava de fazer pavios para as lâmpadas do tabernáculo. Depois de se dedicar a esse humilde serviço para Deus, foi elevada a essa posição.
Ou talvez fosse uma mulher de luzes ou esplendores, alguém de conhecimento e sabedoria extraordinários, que por isso se tornou eminente e ilustre. A respeito dela, somos informados:
Tinha íntima comunhão com Deus. Era profetisa, instruída no conhecimento divino pela inspiração direta do Espírito de Deus e dotada de sabedoria, que não alcançara pelos meios comuns. Ouvia as palavras de Deus e provavelmente via as visões do Todo-Poderoso.
Era inteiramente dedicada ao serviço de Israel. Julgou Israel enquanto Jabim oprimia o povo; talvez, por ser mulher, o opressor lhe permitisse fazê-lo com mais facilidade. Não julgava como princesa, com autoridade civil conferida a ela, mas como profetisa e porta-voz de Deus, corrigindo abusos e reparando injustiças, sobretudo as relacionadas à adoração de Deus.
Os filhos de Israel vinham de todas as partes até ela para receber julgamento. Procuravam-na menos para resolver disputas entre pessoas do que para pedir orientação sobre a reforma do que estava errado nas coisas de Deus.
Os que antes lamentavam em segredo as impiedades e idolatrias dos vizinhos, mas não sabiam a quem recorrer para contê-las, agora apresentavam suas queixas a Débora. Com a espada do Espírito, ela lhes mostrava o juízo de Deus; assim, corrigia e trazia muitos de volta, além de incentivar e animar os magistrados de cada região a fazer cumprir as leis.
Diz-se que morava, ou, segundo outra interpretação, sentava-se sob uma palmeira, depois chamada palmeira de Débora. Talvez sua casa ficasse debaixo daquela árvore, uma morada modesta que cabia sob sua copa; ou talvez seu tribunal funcionasse ao ar livre, à sombra da palmeira, símbolo da justiça que ali administrava, capaz de crescer e prosperar apesar da oposição, como a palmeira sob pressão.
Josefo diz que os filhos de Israel procuravam Débora para pedir que orasse a Deus por seu livramento das mãos de Jabim. Em certa ocasião, também se diz que Samuel julgou Israel em Mispa, isto é, reconduziu o povo a Deus, quando lhe fizeram um pedido semelhante e pela mesma razão (1 Samuel 7:6, 8).
II. O plano para o livramento. Quando os filhos de Israel procuraram nela justiça, encontraram salvação. Assim, os que buscam a Deus para obter graça receberão graça e paz, graça e consolo, graça e glória.
Ela não tinha condições de comandar pessoalmente um exército, por ser mulher; por isso escolheu alguém apto para a tarefa: Baraque, de Naftali. É provável que ele já tivesse se destacado em alguns confrontos com as forças opressoras, pois vivia perto delas — Hazor e Harosete ficavam no território daquela tribo — e assim conquistara reputação e influência entre seu povo.
Podemos supor que esse homem valente já fizera algumas tentativas de sacudir o jugo, mas não conseguiu até receber de Débora sua comissão e suas instruções. Ele nada podia fazer sem a direção dela, e ela nada podia fazer sem a ação dele; juntos, porém, tornaram-se libertadores e alcançaram libertação completa. Mesmo os maiores e melhores não bastam a si mesmos; precisam uns dos outros.
- Por ordem de Deus, ela manda Baraque reunir um exército e enfrentar as forças de Jabim, comandadas por Sísera (vv. 6-7). Talvez Baraque já pensasse em realizar uma grande ofensiva contra o inimigo comum, com uma chama de zelo generoso ardendo em seu coração; desejava fazer algo importante pelo povo e pelas cidades de Deus. Mas duas coisas o desanimavam:
(1.) Faltava-lhe autoridade para recrutar tropas. Por isso Débora agora lhe concede essa comissão, com o grande selo do céu, que, como profetisa, tinha autoridade para apor: “Por acaso o Senhor, Deus de Israel, não ordenou isso?” Sem dúvida, ordenou; confie na minha palavra.
Alguns pensam que ela apelava à consciência do próprio Baraque: “Deus não lhe deu, por um sussurro secreto, algum sinal de que pretende usá-lo como instrumento para salvar Israel? Você não sentiu no espírito um impulso assim?” Se foi isso, o espírito profético em Débora confirma o espírito de soldado em Baraque: “Vá e reúna suas tropas junto ao monte Tabor”.
[1.] Ela indica quantos homens reunir: dez mil. Que ele não tema que sejam poucos, pois Deus disse que por meio deles salvará Israel. [2.] Diz de onde virão: somente de sua própria tribo e da vizinha Zebulom. Essas duas regiões fornecerão um exército suficiente; não é preciso ir mais longe. [3.] Ordena onde devem se reunir: no monte Tabor, em sua região.
(2.) Depois de reunir o exército, ele não sabia como teria a oportunidade de enfrentar o inimigo, que talvez evitasse a batalha por ter ouvido que Israel, se tivesse coragem de enfrentar qualquer adversário, quase sempre saía vitorioso. “Pois bem”, diz Débora em nome de Deus, “atrairei Sísera e seu exército até você”.
Ela lhe assegurou que tudo seria decidido numa única batalha campal e que isso não demoraria. [1.] Ao mencionar o poder do inimigo — Sísera, general famoso, ousado e experiente, seus carros de ferro e a multidão de soldados —, ela levou Baraque a fortalecer-se com a máxima determinação, pois enfrentaria um adversário formidável. É bom conhecer o pior para preparar-se adequadamente.
[2.] Ao indicar o lugar exato para onde Sísera levaria o exército, deu-lhe um sinal que poderia confirmar sua fé quando chegasse a hora do combate. Era algo incerto, dependente da vontade de Sísera; mas, quando Baraque visse acontecer exatamente como Débora havia predito, poderia concluir que o restante de suas palavras também vinha de uma direção divina. Isso o encorajaria muito.
[3.] Além disso, ela lhe deu uma promessa expressa de vitória: “Eu” — isto é, Deus, em cujo nome falo — “os entregarei nas suas mãos”. Assim, ao ver os inimigos se posicionarem contra ele, conforme a palavra de Débora, teria confiança de que também os veria cair diante de si, conforme a promessa dela.
Observe: Deus os atraiu para Baraque somente para entregá-los em suas mãos. Quando Sísera reuniu as tropas, pretendia destruir Israel; Deus, porém, os ajuntou como feixes na eira para destruí-los (Miquéias 4:11-12): “Reúnam-se, e vocês serão despedaçados” (Isaías 8:9). Veja também Apocalipse 19:17-18.
- A pedido de Baraque, ela promete acompanhá-lo ao campo de batalha. (1.) Baraque insistiu que a presença dela era indispensável e valeria mais que um conselho de guerra (v. 8): “Se você for comigo para me orientar e aconselhar e, em cada dificuldade, revelar a vontade de Deus, então irei de todo o coração e não temerei os carros de ferro; caso contrário, não”.
Alguns entendem que isso revela uma fé fraca: ele não confiava na palavra dela sem tê-la consigo como garantia de que se cumpriria. Parece, antes, decorrer da convicção de que precisava da presença e da direção constantes de Deus; Baraque considerava a presença de Débora uma garantia disso e por esse motivo a pediu com tanta insistência.
“Se você não for comigo, como sinal de que Deus vai comigo, não me faça partir daqui”. Nada o tranquilizaria mais do que ter a profetisa ao seu lado, para animar os soldados e ser consultada como oráculo em todas as ocasiões.
(2.) Débora prometeu acompanhá-lo (v. 9). Nenhum esforço nem perigo a impediria de fazer o máximo que lhe cabia pelo bem de seu povo. Não mandaria Baraque a um lugar aonde ela mesma não estivesse disposta a ir. Os que, em nome de Deus, chamam outros ao dever devem estar prontos para ajudá-los.
Débora era o vaso mais fraco, mas tinha a fé mais forte. Embora concordasse em ir com Baraque, já que ele insistia, deu-lhe uma advertência que deveria levar um soldado a não insistir: a expedição que empreendia — tão certa estava ela da vitória que chamou a guerra de simples viagem — não lhe traria honra.
Ele não seria tão honrado como se tivesse ido sozinho, pois o Senhor venderia Sísera — agora chegara a vez dele de ser vendido, assim como Israel o fora (v. 2), em retribuição — “nas mãos de uma mulher”. [1.] O mundo atribuiria a vitória a Débora; ele podia prever isso. [2.] Deus, para corrigir a fraqueza de Baraque, completaria a vitória pelas mãos de Jael, o que reduziria um pouco sua glória.
Mas Baraque valorizava mais a tranquilidade de espírito e o êxito de sua missão do que a própria honra; por isso não desistiu de modo algum do pedido. Não ousava lutar sem Débora ao lado para orientá-lo e orar por ele. Ela, portanto, manteve a palavra com coragem viril. Essa nobre heroína se levantou e foi com Baraque.
Versículos 10 a 16
A Derrota de Sísera. (a.C. 1258.)
Aqui, I. Baraque convoca voluntários e logo reúne o contingente de que precisava (v. 10). Débora lhe havia mandado reunir um exército de dez mil homens (v. 6), e em pouco tempo tantos se apresentam, seguindo-o e submetendo-se ao seu comando.
Diz-se que Deus nos chama para junto de seus pés (Isaías 41:2), isto é, para obedecê-lo. Alguns pensam que isso indica que eram todos soldados de infantaria, como em geral eram os exércitos dos judeus.
Assim, a diferença de força entre eles e o inimigo, que tinha cavalos e carros, era enorme, e a vitória se tornou ainda mais gloriosa. Mas a presença de Deus e de sua profetisa bastava amplamente para compensar essa desvantagem.
Baraque tinha seus homens aos pés, sinal da alegria e prontidão com que o seguiriam aonde quer que fosse (Apocalipse 14:4). Embora dependesse principalmente das tribos de Zebulom e Naftali, parece, pelo cântico de Débora, que alguns homens de outras tribos se juntaram a ele — Manassés e Issacar — e que se esperavam outros que não vieram, de Rúben, Dã e Aser (Juízes 5:14-17).
Mas aqui não se menciona isso. Diz-se apenas que, para tornar realmente eficazes os dez mil homens, Débora subiu com Baraque. O versículo 11, sobre a mudança de Héber, uma das famílias dos queneus, do deserto de Judá, no sul, onde aquelas famílias haviam se instalado (Juízes 1:16), para a região do norte, é introduzido por causa do que será contado sobre o feito de Jael, mulher daquela família.
II. Ao saber dos movimentos de Baraque, Sísera marcha com um exército numeroso e poderoso (vv. 12-13): “Avisaram Sísera”, isto é, alguém o avisou. Alguns, porém, pensam que se trata dos queneus, mencionados imediatamente antes, no versículo 11. Eles teriam informado Sísera sobre o ponto de encontro de Baraque, pois naquele momento havia paz entre Jabim e a família de Héber (v. 17).
Quer pretendessem ou não favorecê-lo, isso cumpriu o que Deus dissera por meio de Débora (v. 7): “Atrairei Sísera”. A confiança de Sísera estava principalmente em seus carros; por isso se destaca que tinha novecentos carros de ferro. Com lâminas presas aos eixos, causavam grande destruição ao avançar contra um exército de infantaria.
Os homens são engenhosos em inventar meios de destruir uns aos outros, para satisfazer as paixões de que procedem guerras e combates.
III. Débora dá a ordem para atacar o inimigo (v. 14). Josefo diz que, quando Baraque viu o exército de Sísera preparado e tentando cercar o monte no alto do qual suas tropas estavam acampadas, perdeu toda a coragem e resolveu retirar-se para um lugar mais seguro. Débora, porém, animou-o a descer contra Sísera, garantindo que aquele era o dia determinado nos conselhos divinos para derrotá-lo.
“Agora que parecem mais ameaçadores, estão prontos para a ruína. O fato é tão certo quanto se já tivesse acontecido: o Senhor entregou Sísera nas suas mãos”. Vejam como o trabalho e a honra dessa grande ação se dividiram entre Débora e Baraque: ela, como cabeça, dá a ordem; ele, como mão, executa a obra.
Assim Deus distribui seus dons de maneiras diferentes (1 Coríntios 12:4 etc.). Embora, em geral, o homem seja o cabeça da mulher (1 Coríntios 11:3), aquele que tem o restante do Espírito achou por bem cruzar as mãos e colocar a cabeça sobre os ombros da mulher. Escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes, a fim de que ninguém se glorie em sua presença.
Foi bom para Baraque ter Débora ao seu lado, pois ela supriu suas deficiências: 1. na estratégia, ao lhe dizer: “Este é o dia”; 2. na coragem, ao garantir que Deus estava presente. “O Senhor não foi à sua frente? Você não ousa segui-lo, tendo o próprio Deus como líder?”
Repare: (1.) Em toda empreitada, é bom ter certeza de que Deus vai à nossa frente, de que estamos no caminho do dever e sob a direção dele. (2.) Se temos motivos para esperar que Deus vá à nossa frente, devemos avançar com coragem e alegria.
Não desanime diante das dificuldades que encontra ao resistir a Satanás, servir a Deus ou sofrer por ele. O Senhor não foi à sua frente? Então siga-o por inteiro.
IV. O próprio Deus põe em fuga o exército inimigo (v. 15). Em obediência às ordens de Débora, Baraque desceu ao vale, embora ali, na planície, os carros de ferro tivessem vantagem maior contra ele. Deixou suas posições seguras no monte, confiando no poder divino; pois é inútil esperar salvação dos montes e das colinas. Só no Senhor está a salvação do seu povo (Jeremias 3:23).
Sua confiança não foi frustrada: o Senhor desbaratou Sísera. Não foi tanto o ataque ousado e inesperado de Baraque ao acampamento que desanimou e dispersou o inimigo; o terror de Deus tomou o espírito deles e os lançou numa confusão inexplicável. Ao que parece, as estrelas lutaram contra eles (Juízes 5:20).
Josefo diz que uma forte tempestade de granizo, que os atingiu no rosto, dispersou-os, debilitou-os e os fez recuar. Assim se tornaram presa fácil para o exército de Israel, e se cumpriram as palavras de Débora: “O Senhor os entregou nas suas mãos; agora você pode fazer deles o que quiser”.
V. Baraque aproveitou com bravura sua vantagem. Prosseguiu no ataque com resolução inabalável e persistência incansável; levou a vitória adiante e perseguiu as tropas dispersas até Harosete, quartel-general do comandante (v. 16). Não poupou ninguém que Deus havia entregado em suas mãos para ser destruído: não restou homem algum.
Quando Deus vai à nossa frente nas lutas espirituais, precisamos agir com vigor. E, quando pela graça ele nos concede algum êxito contra os inimigos de nossa alma, devemos aproveitá-lo com vigilância e resolução e prosseguir com energia na guerra santa.
Versículos 17 a 24
Vimos o exército dos cananeus completamente derrotado. Diz-se que se tornaram como esterco sobre a terra (Salmos 83:9-10); esse exemplo é apresentado como precedente para que Deus faça o mesmo em tempos futuros. Temos agora:
I. A queda do general deles, Sísera, comandante do exército, em quem, ao que parece, Jabim, seu rei, depositava plena confiança; por isso, não esteve presente na batalha. Vamos acompanhar os passos da queda desse homem poderoso.
- Abandonou o carro e fugiu a pé (v. 15, 17). Seus carros eram seu orgulho e sua confiança. Podemos supor que, por isso, desprezava e desafiava os exércitos do Deus vivo, pois todos marchavam a pé e não tinham cavalos nem carros, como ele.
Com justiça, sua confiança o envergonhou: foi obrigado a abandoná-la e só se sentiu seguro e tranquilo quando se livrou do carro, que talvez fosse o mais bem construído e puxado de todos. Assim ficam decepcionados os que confiam nas criaturas. Como uma cana quebrada, ela não apenas se parte sob eles, mas penetra-lhes a mão e os fere com muitas dores.
O ídolo pode rapidamente se tornar um peso (Isaías 46:1), e Deus pode fazer com que nos cause repulsa aquilo por que ansiávamos. Como Sísera parece miserável agora que foi derrubado do carro! É difícil dizer se está mais envergonhado ou trêmulo.
Não ponham a confiança em príncipes: podem ser reduzidos a essa condição tão depressa, e aquele que pouco antes confiava tanto nas armas agora precisa confiar apenas nos pés, e com pouca segurança.
- Procurou abrigo nas tendas dos queneus, sem fortaleza nem lugar próprio por perto para onde pudesse fugir. Talvez antes desprezasse e ridicularizasse a vida simples e isolada dos queneus, ainda mais porque mantinham a religião. Agora, porém, sentia-se feliz por colocar-se sob a proteção de uma de suas tendas.
Escolheu a tenda ou o aposento da mulher, talvez por despertar menos suspeita ou por ser o primeiro e mais próximo a que chegou (v. 17). Animou-o o fato de haver paz, naquele momento, entre seu senhor e a casa de Héber. Não havia aliança ofensiva ou defensiva; simplesmente não havia sinais de hostilidade.
Jabim não os prejudicava nem os oprimia como fazia com os israelitas. A vida simples, pacífica e inofensiva deles não despertava suspeita nem temor; talvez Deus assim ordenasse como recompensa por sua constante fidelidade à verdadeira religião.
Sísera pensou que estaria seguro entre eles, sem considerar que, embora não sofressem sob o poder de Jabim, compadeciam-se sinceramente de Israel, povo de Deus, que era oprimido.
- Jael o convidou a entrar e lhe deu calorosas boas-vindas. Provavelmente estava à porta da tenda, para perguntar notícias do exército e do resultado da batalha, travada não muito longe.
(1.) Convidou-o para dentro. Talvez esperasse uma oportunidade de demonstrar bondade a algum israelita aflito, se fosse necessário. Ao ver Sísera chegar às pressas, ofegante, convidou-o a descansar na tenda. Parecia querer aliviar-lhe o cansaço, mas talvez pretendesse atrasar sua fuga para que caísse nas mãos de Baraque, que não o perseguia com grande empenho (v. 18).
É possível que, de início, ela nem pensasse em tirar-lhe a vida, e que Deus tenha colocado essa ideia em seu coração mais tarde. (2.) Tratou-o muito bem e pareceu ter grande cuidado com o conforto dele, como convém a um convidado.
Estava cansado? Ela lhe encontrou um lugar conveniente para descansar e recuperar as forças. Estava com sede? É bem possível. Queria um pouco de água para refrescar a língua? A melhor bebida da tenda estava à disposição: leite (v. 19). Podemos supor que bebeu bastante e, revigorado, ficou mais propenso a dormir.
Estava com frio ou temia resfriar-se? Desejava esconder-se dos perseguidores, caso revistassem aquela tenda? Ela o cobriu com uma manta (v. 18), demonstrando cuidado com a segurança dele. Só quando lhe pediu que mentisse e dissesse que não estava ali, ela se recusou a prometer isso (v. 20). Não devemos pecar contra Deus, nem mesmo para agradar a quem queremos tratar com a maior consideração.
Por fim, devemos supor que ela manteve a tenda tão silenciosa quanto pôde, para que ele dormisse logo e profundamente. Sísera nunca esteve menos seguro do que quando se sentiu mais protegido. Como a vida humana é incerta e precária!
Que segurança podemos ter, se aqueles em quem confiamos tão facilmente podem trair-nos e quem esperávamos que nos protegesse pode destruir-nos? É melhor fazer de Deus o nosso amigo, pois ele não nos enganará.
- Quando ele dormia profundamente, ela cravou-lhe uma longa estaca nas têmporas, prendendo a cabeça ao chão e matando-o (v. 21). Embora isso bastasse para consumar o feito, ela, para assegurar o resultado — se interpretamos corretamente o capítulo 5, versículo 26 —, cortou-lhe a cabeça e a deixou pregada ali.
Não se sabe se ela planejava fazer isso quando o convidou a entrar na tenda. Talvez a ideia lhe tenha ocorrido quando o viu deitado em posição tão propícia para receber o golpe fatal.
Sem dúvida, a ideia lhe veio com provas suficientes de que não procedia de Satanás, assassino e destruidor, mas de Deus, justo Juiz e vingador. Ela percebeu tanta luz e clareza celestial nos motivos que se apresentavam — a honra de Deus e o livramento de Israel — e nenhuma malícia, ódio ou vingança pessoal.
(1.) Foi um poder divino que lhe deu capacidade e inspirou coragem maior que a de um homem. E se a mão tremesse e ela errasse o golpe? E se ele acordasse enquanto ela tentava golpeá-lo? Ou se algum dos acompanhantes dele a seguisse e a surpreendesse em pleno ato? Quanto ela e todos os seus pagariam por isso!
Ainda assim, com o auxílio de Deus, ela realizou o feito com eficácia. (2.) Uma autorização divina a justificou; portanto, como ninguém hoje pode alegar uma comissão extraordinária dessas, o ato não deve ser imitado em hipótese alguma. As leis da amizade e da hospitalidade devem ser observadas religiosamente, e devemos abominar a ideia de trair alguém que convidamos e encorajamos a confiar em nós.
Quanto a esse ato de Jael, como ao de Eúde no capítulo anterior, temos razão para pensar que ela estava consciente de um impulso divino em seu espírito, que a convenceu plenamente de que agira bem; isso também deve bastar para nos convencer. Os juízos de Deus são um grande abismo.
A arma usada foi uma estaca da tenda, uma das grandes cavilhas com que a tenda, ou suas estacas, eram fixadas. Como mudavam de lugar com frequência, ela tinha prática em fincar essas cavilhas e, por isso, soube agir com destreza naquela ocasião decisiva.
Aquele que pretendia destruir Israel com seus muitos carros de ferro foi destruído por uma única estaca de ferro. Assim as coisas fracas do mundo confundem as fortes. Vejam a glória de Jael e a vergonha de Sísera. O grande comandante morre:
[1.] Dormindo profundamente, exausto. Isso explica por que não se moveu para se defender. Estava tão preso às correntes do sono que não conseguia mexer as mãos. Assim, os corajosos são despojados por tua repreensão, ó Deus de Jacó; caem em profundo sono, e seu último sono os toma (Salmos 76:5-6).
Que o forte não se glorie de sua força: quando dorme, onde está ela? É fraco e nada pode fazer; até uma criança pode insultá-lo e roubar-lhe a vida. Mas, se não dormir, logo se exaure e se cansa, e tampouco pode fazer coisa alguma.
As palavras que aqui colocamos entre parênteses — “pois estava cansado” — são lidas de outra maneira em todas as versões antigas: ele se debateu ou estremeceu, como dizemos, e morreu; assim leem o siríaco e o árabe: Exagitans sese mortuus est.
A Septuaginta diz: “Desfaleceu e morreu”. A Vulgata diz Consocians morte soporem, associando sono e morte, tão próximos um do outro. Ele desfaleceu e morreu.
Ele morre:
[2.] Com a cabeça pregada ao chão, símbolo de seu apego às coisas terrenas. O curve in terram animae! Seu ouvido, diz o bispo Hall, estava colado à terra, como se seu corpo escutasse o que acontecera à sua alma.
[3.] Pela mão de uma mulher. Isso aumentou a vergonha de sua morte aos olhos dos homens; se soubesse disso, como Abimeleque (Juízes 9:54), podemos imaginar o quanto teria aumentado a angústia de seu coração.
II. A glória e a alegria de Israel depois disso. 1. Baraque, seu líder, encontra seu inimigo morto (v. 22) e, sem dúvida, ficou contente por ver o trabalho tão bem realizado em seu favor, para a glória de Deus e a confusão dos inimigos.
Se tivesse insistido demais numa questão de honra, poderia ter se ressentido de que alguém além dele matasse o general. Mas se lembrou de que receberia essa diminuição de honra como sentença por insistir que Débora o acompanhasse — “o Senhor entregará Sísera nas mãos de uma mulher” —, embora ninguém imaginasse que a predição se cumpriria desse modo.
- Israel foi completamente libertado das mãos de Jabim, rei de Canaã (vv. 23-24). Não apenas sacudiu o jugo com a vitória daquele dia; depois, prosseguiu a guerra contra Jabim até destruí-lo. Por ordem divina, ele e sua nação estavam destinados à ruína e não deviam ser poupados.
Depois de sofrerem profundamente por sua compaixão insensata, que os impedira de agir antes, os israelitas resolveram não mais tolerá-los quando tiveram poder para agir. Decidiram acabar completamente com eles, pois mostrar misericórdia a esse povo era contrário tanto aos próprios interesses quanto à ordem de Deus.
Provavelmente é por causa dessa sentença que o inimigo é chamado três vezes nos dois últimos versículos de “rei de Canaã”: como tal, devia ser destruído. Foi tão completamente destruído que não me lembro de ler novamente sobre os reis de Canaã.
Os filhos de Israel poderiam ter evitado muitos problemas se tivessem destruído os cananeus antes, como Deus havia ordenado e lhes dera condições de fazer. Mas é melhor aprender tarde, comprando sabedoria pela experiência, do que nunca aprender.