Juízes 13
Argumento
Neste capítulo começa a história de Sansão, o último dos juízes de Israel cuja história está registrada neste livro e o imediatamente anterior a Eli. Os acontecimentos narrados a respeito dele, do começo ao fim, são muito surpreendentes e incomuns. A figura que ele representa nesta história é realmente grandiosa e, ainda assim, muito diferente da de seus predecessores.
Nunca o encontramos à frente de um tribunal ou de um exército, nem no trono do juízo ou no campo de batalha; contudo, em sua própria pessoa, foi um grande patriota de seu país e um terrível flagelo e freio para os inimigos e opressores. Foi um eminente crente (Hebreus 11:32) e um glorioso tipo daquele que, com o próprio braço, operou a salvação.
A história dos outros juízes começa com a sua elevação a esse posto, mas a de Sansão começa com seu nascimento, ou melhor, com sua concepção. Nada menos que um anjo do céu o introduz no mundo, como modelo do que depois se faria com João Batista e com Cristo. Isso é relatado neste capítulo.
I. A ocasião para suscitar esse libertador foi a opressão de Israel pelos filisteus, v. 1. II. Um anjo prediz à mãe o nascimento dele, vv. 2-5.
III. Ela conta a predição ao marido, v. 6, 7. IV. Os dois a recebem novamente do anjo (vv. 8-14), a quem tratam com respeito (vv. 15-18) e que, para grande espanto deles, revela sua dignidade ao partir (vv. 19-23). V. Sansão nasce, v. 24, 25.
Versículos 1 a 7
Um Anjo Aparece à Mulher de Manoá. (a.C. 1161.)
O primeiro versículo nos dá um breve relato, como tantas vezes já encontramos, da grande aflição em que Israel estava, que deu ocasião para suscitar um libertador. Fizeram o mal, como antes, aos olhos do Senhor; então Deus os entregou, como já fizera, nas mãos dos inimigos.
Se não houvesse pecado, não teria sido necessário Salvador; mas permitiu-se que o pecado abundasse, para que a graça abundasse muito mais. Os inimigos a quem Deus agora os vendeu foram os filisteus, seus vizinhos mais próximos, que viviam entre eles: os primeiros e principais povos destinados à destruição, mas que Deus deixou para prová-los (Juízes 3:1, 3).
Eram os cinco príncipes dos filisteus, um povo insignificante em comparação com Israel (tinham apenas cinco cidades dignas de nota); ainda assim, quando Deus os usava como vara em sua mão, eram muito opressivos e aflitivos. E essa opressão durou mais que qualquer outra até então: continuou por quarenta anos, embora provavelmente nem sempre com a mesma violência.
Sansão nasceu quando Israel estava nessa aflição; aqui temos o anúncio de seu nascimento por um anjo. Observe:
I. Sua linhagem. Ele era da tribo de Dã, v. 2. Dã significa juiz ou juízo, Gênesis 30:6. E provavelmente foi pensando em Sansão que Jacó, ao morrer, predisse: “Dã julgará o seu povo” (Gênesis 49:16), isto é, “ele produzirá um juiz para o seu povo, embora seja um dos filhos das servas, como qualquer uma das tribos de Israel”.
O território da tribo de Dã ficava junto ao país dos filisteus; por isso, alguém daquela tribo era o mais indicado para servir de freio a eles. Seus pais não tinham filhos havia muito tempo.
Muitas pessoas eminentes nasceram de mães que por longo tempo haviam sido privadas da bênção dos filhos, como Isaque, José, Samuel e João Batista, para que a misericórdia fosse mais bem recebida quando chegasse. “Canta, ó estéril, que não deste à luz” (Isaías 54:1).
Repare: as misericórdias pelas quais esperamos muito tempo muitas vezes se revelam misericórdias extraordinárias; fica demonstrado que valia a pena esperar por elas, e por meio delas outros podem ser encorajados a continuar esperando na misericórdia de Deus.
II. A boa notícia levada à mãe: ela teria um filho. O mensageiro era um anjo do Senhor (v. 3), mas apareceu como homem, com o aspecto e as vestes de profeta, ou homem de Deus. Esse anjo (como supõe o erudito bispo Patrick, sobre o v. 18) era o próprio Senhor, isto é, o Verbo do Senhor, que seria o Messias, pois seu nome é chamado Maravilhoso, v. 18, e Jeová, v. 19.
O grande Redentor se ocupou de modo particular com esse redentor típico. A mensagem foi enviada sobretudo por causa de Israel, de quem Sansão seria libertador, e não tanto por causa de Manoá e sua mulher, obscuros danitas.
Foi enviada também por causa do Messias, de quem Sansão seria tipo e cujo nascimento também teria de ser anunciado por um anjo, pois seus serviços a Israel não parecem corresponder à grandiosidade de sua chegada.
O anjo, ao transmitir sua mensagem:
- Percebe a aflição dela: “Eis que agora és estéril e não dás à luz”. Com isso ela poderia concluir que ele era profeta: embora fosse um desconhecido para ela, que nunca o vira, sabia que aquilo era a sua aflição. Ele lhe diz isso não para censurá-la, mas porque talvez naquele momento ela estivesse pensando nessa aflição e lamentando-se por estar sem filhos.
Deus muitas vezes envia consolo a seu povo na hora certa, quando sente mais profundamente as aflições. “Agora és estéril, mas não continuarás assim para sempre”, como ela temia, “nem por muito tempo”.
- Assegura-lhe que conceberia e daria à luz um filho (v. 3) e repete a garantia no v. 5. Para mostrar o poder de uma palavra divina, o homem mais forte que já existiu foi filho da promessa, como Isaque, nascido pelo poder e eficácia de uma promessa e da fé nela, Hebreus 11:11; Gálatas 4:23.
Muitas mulheres, depois de muito tempo estéreis, tiveram um filho pela providência; Sansão, porém, veio por promessa, por ser figura da semente prometida, esperada por tanto tempo pela fé dos santos do Antigo Testamento.
- Determina que a criança seja nazireu desde o nascimento; por isso, a mãe deveria submeter-se à lei dos nazireus (embora não estivesse sob o voto de nazireu) e não beber vinho nem bebida forte enquanto o filho recebesse alimento dela, no ventre ou no peito, v. 4, 5. Observe: esse libertador de Israel deveria ser consagrado a Deus da maneira mais rigorosa e ser exemplo de santidade.
Deus apresenta como bondade para com o povo ter suscitado alguns de seus jovens como nazireus, Amós 2:11. Os outros juízes corrigiram os desvios de Israel para longe de Deus, mas Sansão deveria aparecer como alguém mais consagrado a Deus que qualquer um deles.
Apesar das faltas que lemos a respeito dele, temos razão para pensar que, por ser nazireu constituído por Deus, ao longo de sua conduta exemplificou não apenas a cerimônia, mas a essência dessa separação para o Senhor, da qual consistia o nazireado, Números 6:2. Os que desejam salvar outros devem distinguir-se por uma piedade singular.
Samuel, que prosseguiu com a libertação de Israel dos filisteus, foi nazireu por voto de sua mãe (1 Samuel 1:11), assim como Sansão por determinação divina.
A mãe desse libertador deveria, portanto, negar a si mesma e não comer coisa alguma impura; o que era permitido em outra ocasião agora deveria ser evitado. Assim como a promessa provou a fé dela, esse preceito provou sua obediência, pois Deus exige ambas daqueles a quem concederá seus favores.
Mulheres grávidas devem evitar conscienciosamente tudo o que tenham motivo para considerar de algum modo prejudicial à saúde ou à boa constituição do fruto de seu ventre. Talvez a mãe de Sansão devesse abster-se de vinho e bebida forte não apenas porque ele seria nazireu, mas também porque seria um homem de grande força, para a qual a temperança da mãe contribuiria.
- Prediz o serviço que a criança prestaria ao seu país: “Ele começará a livrar Israel”. Repare: é muito desejável que nossos filhos não apenas se dediquem inteiramente a Deus, mas também sejam instrumentos para o bem dos outros e para o serviço de sua geração, não reclusos, como velas debaixo de um alqueire, mas num castiçal. Observe: ele começará a livrar Israel.
Isso indicava que a opressão dos filisteus duraria muito, pois nem sequer começaria a libertação de Israel, nenhum passo seria dado para isso, até que a criança ainda por nascer crescesse o bastante para iniciá-la. Mas ele não completaria a libertação: apenas começaria a livrar Israel, o que indica que a aflição ainda se prolongaria.
Deus escolhe levar sua obra adiante gradualmente e por meio de várias pessoas. Uma lança os alicerces de uma boa obra, outra edifica e talvez uma terceira ponha a pedra de remate.
Nisto Sansão foi tipo de Cristo: (1.) Como nazireu de Deus, nazireu desde o ventre. Pois, embora nosso Senhor Jesus não fosse nazireu, foi representado pelos nazireus, por ser perfeitamente puro de todo pecado, nem sequer concebido nele, e inteiramente dedicado à honra do Pai. Cristo veio da comunidade judaica quanto à carne, pois a ela pertencia a promessa dele, Romanos 9:4, 5.
Em virtude dessa promessa, por muito tempo ele permaneceu, por assim dizer, no ventre daquela comunidade, que por muitas eras esteve grávida dele; por isso, como a mãe de Sansão, durante essa gestação ela foi feita nação santa e povo peculiar, sendo estritamente proibida de tocar em qualquer coisa impura por causa daquele que, na plenitude dos tempos, viria dela.
(2.) Como libertador de Israel, pois ele é Jesus, o Salvador que salva seu povo dos pecados. Mas há esta diferença: Sansão apenas começou a livrar Israel (mais tarde Davi foi levantado para completar a destruição dos filisteus), enquanto nosso Senhor Jesus é Sansão e Davi também, tanto o autor como o consumador de nossa fé.
III. O relato dessa mensagem surpreendente que a mulher de Manoá, tomada de alegria, leva depressa ao marido, v. 6, 7. As boas notícias chegaram a ela quando estava sozinha, talvez ocupada piedosamente em meditação ou oração; mas ela não podia, nem queria, escondê-las do marido. Conta-lhe:
- Sobre o mensageiro. Era um homem de Deus, v. 6. Ela podia descrever seu semblante, que era muito imponente: havia majestade em seu olhar, um brilho nos olhos e um rosto resplandecente, com tal poder de inspirar reverência e respeito que, conforme a ideia que tinha de um anjo, ele tinha exatamente a aparência de um.
Mas não podia dizer seu nome, nem a que tribo ou cidade de Israel pertencia, pois ele não achou conveniente contar-lhe; e ela, por sua vez, ficou tão intimidada ao vê-lo que não ousou perguntar. Estava plenamente satisfeita de que ele era servo de Deus; pensou que a pessoa e a mensagem traziam sua própria comprovação, e não perguntou mais nada.
- Sobre a mensagem. Conta-lhe em detalhe tanto a promessa como o preceito (v. 7), para que ele também acreditasse na promessa e pudesse, em todas as ocasiões, lembrá-la de observar o preceito. Assim, cônjuges devem compartilhar um com o outro suas experiências de comunhão com Deus e seu progresso no conhecimento dele, para ajudarem-se mutuamente no caminho chamado santo.
Versículos 8 a 14
A Aparição do Anjo a Manoá. (a.C. 1161.)
Temos aqui o relato de uma segunda visita que o anjo de Deus fez a Manoá e sua mulher.
I. Manoá orou fervorosamente por essa visita, v. 8. Não duvidou da história que a mulher lhe contou; sabia que ela era virtuosa e, por isso, o coração do marido confiava nela com segurança.
Sabia que ela não tentaria enganá-lo; muito menos era, como Josefo o retrata indignamente, ciumento da convivência da mulher com aquele desconhecido. Mas:
- Considera certo que o filho da promessa lhes seria dado no devido tempo, e fala sem hesitar da criança que nasceria. Nem mesmo Zacarias, sacerdote que esperava junto ao altar do Senhor e a quem o próprio anjo apareceu, demonstrou fé tão grande quanto a desse honesto danita.
Coisas ocultas aos sábios e prudentes, que se orgulham da sutileza de suas investigações, muitas vezes são reveladas aos pequeninos, que sabem valorizar os dons de Deus e aceitar sua palavra. Bem-aventurados os que não viram e, como Manoá aqui, creram.
- Toda a sua preocupação é saber o que deveriam fazer pela criança que nasceria. Repare: os homens bons se mostram mais ansiosos e desejosos de conhecer o dever que lhes cabe cumprir do que de saber os acontecimentos que lhes sobrevirão, pois o dever é nosso; os acontecimentos pertencem a Deus.
Salomão pergunta sobre o bem que os homens deveriam fazer, não sobre o bem que deveriam receber, Eclesiastes 2:3.
- Por isso, pede a Deus que envie novamente o mesmo bendito mensageiro, para lhes dar mais instruções sobre como cuidar desse nazireu. Temia que a alegria da promessa talvez tivesse feito sua mulher esquecer alguma parte do preceito; desejava conhecê-lo plenamente e não cometer erro: “Senhor, que o homem de Deus venha novamente até nós, pois desejamos conhecê-lo melhor”.
Repare: quem ouviu falar do céu não pode deixar de desejar ouvir mais dali e encontrar-se repetidas vezes com o homem de Deus. Observe: ele não vai nem envia servos por aí para encontrar esse homem de Deus; busca-o de joelhos, ora para que Deus o envie e, buscando assim, encontra-o.
Queremos que os mensageiros de Deus, os ministros do evangelho, nos tragam uma palavra apropriada para nós e para nossa instrução? Roguemos ao Senhor que os envie até nós, para nos ensinarem, Romanos 15:30, 32.
II. Deus o atendeu graciosamente: Deus ouviu a voz de Manoá, v. 9. Repare: Deus não deixará de orientar de algum modo, por seu conselho, aqueles que desejam sinceramente conhecer seu dever e recorrem a ele para serem ensinados, Salmos 25:8, 9.
O anjo aparece pela segunda vez também à mulher, quando ela está sentada sozinha, provavelmente cuidando dos rebanhos ou ocupada de outro modo no campo para onde se retirara. A solidão muitas vezes é uma boa oportunidade para a comunhão com Deus; os bons têm considerado que nunca estão menos sós do que quando estão sozinhos, se Deus está com eles.
Ela corre depressa para chamar o marido, sem dúvida pedindo humildemente que o bendito mensageiro aguardasse até ela voltar com o marido, v. 10, 11. Não pediu que ele fosse com ela até seu marido; preferiu levar o marido até ele. Os que querem encontrar-se com Deus devem ir aonde ele se agrada em manifestar-se.
“Ah!”, diz ela, transbordando de alegria, “meu querido, suas orações foram atendidas: ali está o homem de Deus, vindo fazer-nos outra visita, aquele que veio outro dia”. Ou, como alguns traduzem, “hoje”, pois “outro” não consta do original; é bem possível que as duas visitas tenham ocorrido no mesmo dia e lugar e que, da segunda vez, ela estivesse sentada à espera dele.
O homem de Deus aceita de bom grado que ela chame o marido, João 4:16. Os que conhecem as coisas de Deus devem convidar outros a conhecê-las também, João 1:45, 46. Manoá não se aborrece porque o anjo não apareceu a ele dessa segunda vez; vai de muito bom grado com a mulher ao encontro do homem de Deus.
Para compensar, por assim dizer, a primeira queda fatal, quando Eva insistiu com Adão para que fizesse o mal e ele cedeu com facilidade, que os cônjuges estimulem um ao outro ao amor e às boas obras; se a esposa tomar a dianteira, o marido não pense que é desonra segui-la no que é virtuoso e louvável.
- Depois de ir até o anjo e confirmar que era o mesmo que aparecera à mulher, Manoá, com toda humildade: (1.) Acolhe a promessa (v. 12): “Que se cumpram as tuas palavras”. Isso expressava não apenas seu desejo, mas também sua fé, como a da bendita Virgem, Lucas 1:38: “Faça-se segundo a tua palavra. Senhor, apego-me ao que disseste e confio nisso; que se cumpra”.
(2.) Pede que as instruções dadas sejam repetidas: “Como devemos criar a criança?” As orientações foram dadas à mulher, mas ele se considera responsável por ajudá-la no cuidado ordenado desse filho prometido; o máximo cuidado dos dois pais e seus esforços conjuntos e constantes mal bastam para criar bem os filhos dedicados a Deus e destinados a ser criados para ele.
Nenhum deve deixar isso a cargo do outro; ambos devem fazer o melhor que puderem.
Observe, a partir da pergunta de Manoá: [1.] De modo geral, quando Deus se agrada em nos conceder alguma misericórdia, nosso maior cuidado deve ser usá-la bem e como convém, pois ela só é de fato uma misericórdia quando é bem administrada. Deus nos deu corpo, alma e bens; como devemos administrá-los para corresponder à intenção de quem os concedeu e prestar boas contas deles?
[2.] Em particular, aqueles a quem Deus deu filhos devem ter muito cuidado na maneira de criá-los e no que fazem com eles, para expulsar a insensatez que está presa ao coração deles, formar cedo seu espírito e comportamento e ensiná-los no caminho em que devem andar.
Nisso, pais piedosos pedirão ajuda divina: “Senhor, ensina-nos a criar nossos filhos para que sejam nazireus e sacrifícios vivos para ti”.
- O anjo repete as instruções que já dera (v. 13, 14): “De tudo o que proibi, que ela se guarde; e tudo o que lhe ordenei, que observe”. Repare: é preciso muita cautela e atenção para conduzir corretamente nossa vida e criar nossos filhos. Guardem-se e observem: tomem cuidado não apenas para não beber vinho ou bebida forte, mas também para não comer coisa alguma que venha da videira.
Os que querem conservar-se puros devem manter distância daquilo que beira o pecado ou conduz a ele. Quando estivesse grávida de um nazireu, ela não deveria comer nada impuro; assim também os que têm Cristo formado em si devem purificar-se cuidadosamente de toda imundícia da carne e do espírito e não fazer nada que prejudique o novo homem.
Versículos 15 a 23
O Temor de Manoá. (a.C. 1161.)
Temos aqui o relato:
I. Do que ainda se passou entre Manoá e o anjo naquela visita. Foi por bondade para com ele que, enquanto esteve com Manoá, o anjo ocultou que era anjo; se Manoá soubesse, ficaria tão aterrorizado que não conseguiria conversar com ele como fez (v. 16): “Não sabia que era um anjo”. Assim Cristo esteve no mundo, e o mundo não o conheceu. “Na verdade, és um Deus que te ocultas”.
Não poderíamos suportar a visão da glória divina sem véu. Como Deus determinou falar conosco por meio de homens semelhantes a nós, profetas e ministros, até quando falava por seus anjos ou por seu Filho, eles apareciam em forma humana e eram considerados apenas homens de Deus. Agora:
- O anjo recusou o convite para comer e determinou que Manoá o transformasse em sacrifício. Manoá, querendo demonstrar respeito e gratidão ao venerável desconhecido que lhes trouxera boas notícias, pediu que comesse com ele (v. 15): “Preparemos depressa um cabrito para ti”.
Os que acolhem a mensagem serão bondosos com os mensageiros por causa daquele que os envia, 1 Tessalonicenses 5:13.
Mas o anjo lhe disse (v. 16) que não comeria do seu pão, assim como não comeu do de Gideão; como naquela ocasião, orientou-o a oferecê-lo a Deus, Juízes 6:20, 21. Os anjos não precisam de alimento nem bebida; glorificar a Deus é seu alimento e sua bebida, como era para Cristo, João 4:34.
Em certa medida, fazemos a vontade de Deus como eles a fazem se, embora não possamos viver sem comer e beber, comermos e bebermos para a glória de Deus, transformando até nossas refeições comuns em sacrifícios.
- O anjo recusou-se a revelar seu nome e não quis satisfazer a curiosidade de Manoá a esse respeito. Manoá quis saber seu nome (v. 17) e a que tribo pertencia, não porque duvidasse da verdade de sua mensagem, mas para poderem retribuir a visita e conhecê-lo melhor; é bom ampliar e cultivar a convivência com homens bons e bons ministros.
Tinha ainda outro propósito: “Quando suas palavras se cumprirem, poderemos honrá-lo, celebrá-lo como verdadeiro profeta e recomendá-lo a outros para receberem instrução divina; poderemos dar à criança que nascer o seu nome e, assim, honrá-lo; ou enviar-lhe um presente, honrando aquele a quem Deus honrou”.
Mas o anjo nega seu pedido, repreendendo um pouco sua curiosidade (v. 18): “Por que perguntas assim pelo meu nome?” Nem mesmo Jacó conseguiu obter esse favor, Gênesis 32:29.
Repare: não recebemos aquilo que pedimos quando nem sabemos o que estamos pedindo. Manoá fez o pedido com sinceridade, mas foi recusado. Deus revelou seu nome a Moisés (Êxodo 3:13, 14), pois havia motivo especial para que o conhecesse; aqui, não havia.
Manoá recebeu prontamente as instruções que pediu para cumprir seu dever (v. 12, 13), mas não aquelas que pedira para satisfazer sua curiosidade. Deus nos deu em sua Palavra instruções completas sobre o nosso dever, mas nunca pretendeu responder a todas as perguntas de uma mente especulativa. Ele explica a recusa: “É secreto”.
Os nomes dos anjos ainda não haviam sido revelados, para impedir que fossem idolatrados. Depois do cativeiro, quando a comunidade foi curada da idolatria, os anjos se deram a conhecer a Daniel pelos nomes de Miguel e Gabriel; e a Zacarias o anjo contou seu nome sem que lhe perguntassem (Lucas 1:19): “Eu sou Gabriel”. Aqui, porém, é secreto, ou maravilhoso, maravilhoso demais para nós.
Um dos nomes de Cristo é “Maravilhoso” (Isaías 9:6). Seu nome permaneceu oculto por muito tempo, mas o evangelho o revelou: Jesus, Salvador. Manoá não devia perguntar porque não devia saber. Repare: (1.) Há coisas secretas que não nos pertencem e sobre as quais devemos aceitar permanecer às escuras enquanto estivermos neste mundo.
(2.) Portanto, nunca devemos ceder à curiosidade vã ao fazer perguntas a respeito delas, Colossenses 2:18. Nescire velle quae Magister maximus docere non vult erudita inscitia est — querer ignorar aquilo que nosso grande Mestre se recusa a ensinar é, ao mesmo tempo, ignorância e sabedoria.
- O anjo auxiliou e aceitou o sacrifício deles e, ao partir, deu-lhes a entender quem era. Orientara-os a oferecer o holocausto ao Senhor, v. 16. Louvores oferecidos a Deus são a mais aceitável acolhida dos anjos; veja Apocalipse 22:9: “Adora a Deus”.
Manoá, com autorização tão clara, embora não fosse sacerdote nem tivesse altar, transformou sua comida numa oferta de alimentos e a ofereceu ao Senhor sobre uma rocha (v. 19), isto é, levou-a e colocou-a ali para ser oferecida: “Senhor, aqui está; faze com ela o que quiseres”. Assim devemos levar nosso coração a Deus como sacrifício vivo e submetê-lo à ação do Espírito.
Quando tudo ficou pronto, (1.) o anjo fez algo maravilhoso, pois seu nome era Maravilhoso. Provavelmente o prodígio foi o mesmo que fizera por Gideão: fez fogo descer do céu ou subir da rocha e consumir o sacrifício. (2.) Subiu ao céu na chama do sacrifício, v. 20. Com isso ficou evidente que não era, como pensavam, um simples homem, mas um mensageiro vindo diretamente do céu.
Certamente descera de lá, pois para lá subiu, João 3:13; 6:62. Isso significava que Deus aceitava a oferta e indica a quem devemos a aceitação de todas as nossas ofertas: à mediação do anjo da aliança, aquele outro anjo que acrescenta muito incenso às orações dos santos e assim as oferece diante do trono, Apocalipse 8:3.
A oração é a subida da alma a Deus; mas é Cristo no coração, pela fé, que a torna oferta de aroma agradável. Sem ele, nossos serviços são fumaça ofensiva; nele, tornam-se chama aceitável. Podemos aplicar isso ao sacrifício de Cristo por nós: ele subiu na chama da própria oferta, pois, pelo próprio sangue, entrou uma vez no lugar santíssimo, Hebreus 9:12.
Enquanto o anjo fazia isso, duas vezes se diz (v. 19, 20) que Manoá e sua mulher olhavam. Isso prova o milagre: o fato aconteceu, pois o relato está confirmado pelo depoimento dessas duas testemunhas oculares. O anjo fez tudo no sacrifício; eles apenas olharam.
Sem dúvida, quando o anjo subiu em direção ao céu, o coração deles também subiu, em agradecimento pela promessa que vinha dali e na expectativa de seu cumprimento, que também viria dali. Mas, depois que o anjo subiu, não ousaram, como as testemunhas da ascensão de Cristo, ficar olhando para o céu; com santo temor e reverência, caíram com o rosto em terra.
Então: [1.] souberam que era um anjo, v. 21. Era evidente que não era o corpo de um homem, pois não estava preso à terra nem foi consumido pelo fogo; subiu, e subiu em chamas, concluíram com razão que era um anjo, pois Deus “faz dos seus anjos espíritos, e dos seus ministros labareda de fogo”. [2.] Mas ele não lhes apareceu outra vez.
Foi enviado para uma ocasião específica, agora encerrada, não para estabelecer comunicação constante, como fazia com os profetas. Eles deveriam lembrar-se e observar o que o anjo dissera, sem esperar ouvir mais.
II. Temos o relato das impressões que essa visão causou em Manoá e sua mulher. Enquanto o anjo fazia maravilhas, eles olhavam e nada diziam (assim nos convém observar atentamente as obras maravilhosas de Deus e guardar silêncio diante dele); mas, depois que partiu e concluiu sua obra, tiveram tempo para refletir.
- Na reflexão de Manoá há grande temor, v. 22. Ele falara com muita confiança sobre o filho que em breve lhes daria a alegria de serem pais (v. 8, 12), mas agora fica tão abalado por aquilo mesmo que deveria fortalecer e animar sua fé que não conta com nada além de ambos serem mortos imediatamente: “Certamente morreremos”.
Era uma crença popular geralmente aceita entre os antigos judeus que ver Deus ou um anjo significava morte imediata; essa ideia dominou por completo sua fé naquele momento, como acontecera com Gideão, Juízes 6:22.
- Na reflexão da mulher há grande fé, v. 23. Aqui, a parte mais fraca foi a que creu com mais força; talvez por isso o anjo tenha escolhido aparecer a ela uma e outra vez. Manoá começou a desanimar, mas sua mulher, como auxiliadora que lhe correspondia, encorajou-o. Dois são melhores do que um: se um cair em abatimento e desânimo, o outro o ajudará a levantar-se.
Marido e mulher devem apoiar piedosamente a fé e a alegria um do outro conforme a necessidade. Ninguém poderia argumentar melhor que a mulher de Manoá. “Certamente morreremos”, disse o marido. “Não”, respondeu ela, “não precisamos temer isso; não interpretemos contra nós aquilo que, na realidade, está a nosso favor.
Não morreremos, a menos que Deus queira nos matar; nossa morte depende de sua mão e de sua vontade. Os sinais de favor que recebemos nos impedem de pensar que ele planeja nos destruir. Se tivesse decidido matar-nos: (1.) não teria aceitado nosso sacrifício nem indicado que o aceitava, reduzindo-o a cinzas, Salmos 20:3, margem.”
“O sacrifício era o resgate de nossa vida, e o fogo que tomou o sacrifício era clara indicação de que sua ira se afastara de nós. O sacrifício dos ímpios é abominação, mas você vê que o nosso não é.”
“(2.) Não nos teria mostrado todas essas coisas, essas visões extraordinárias, justamente num tempo em que há pouca ou nenhuma visão manifesta (1 Samuel 3:1); tampouco nos teria dado promessas tão grandiosas e preciosas de um filho que será nazireu e libertador de Israel.”
“Não teria nos contado coisas assim se estivesse decidido a matar-nos. Não precisamos temer que murchem as raízes das quais ainda há de brotar tal ramo.”
Repare: isso mostra que Deus não deseja a morte dos pecadores, pois aceitou o grande sacrifício que Cristo ofereceu pela salvação deles, colocou-os no caminho para obter seu favor e o assegurou a eles quando se arrependerem. Se tivesse decidido matá-los, não teria feito isso.
Que os bons cristãos que tiveram comunhão com Deus na Palavra e na oração, a quem ele se manifestou graciosamente e que tiveram motivo para pensar que Deus aceitou suas obras, encontrem nisso ânimo em dias nublados e escuros.
“Deus não teria feito por minha alma o que fez se tivesse decidido abandonar-me e deixar-me perecer no fim. Sua obra é perfeita, e ele não zombará de seu povo com seus favores.”
Aprenda a raciocinar como a mulher de Manoá: “Se Deus tivesse decidido deixar-me perecer sob sua ira, não me teria dado sinais tão especiais de seu favor”. Ó mulher, grande é a tua fé!
Versículos 24 a 25
O Nascimento de Sansão. (a.C. 1161.)
Aqui temos: 1. O nascimento de Sansão. A mulher que por muito tempo fora estéril deu à luz um filho, conforme a promessa, pois nenhuma palavra de Deus falhará. Acaso ele falou e não cumprirá?
- Seu nome, Sansão, foi derivado por alguns de Shemesh, sol, transformado num diminutivo, sol exiguus, “o sol em miniatura”; talvez porque, nascido como Moisés para ser libertador, fosse extremamente belo, como ele, e seu rosto brilhasse como um pequeno sol; ou os pais o tenham chamado assim em lembrança do rosto resplandecente daquele homem de Deus que lhes anunciou seu nascimento.
Embora não soubessem seu nome, agora que suas palavras se cumpriram, desse modo o honraram. Pequeno sol também porque era nazireu desde o nascimento (os nazireus eram como rubis e safiras, Lamentações 4:7), e por sua grande força. O sol é comparado a um homem forte, Salmos 19:5; por que, então, não comparar ao sol um homem forte quando sai em sua força?
Pequeno sol porque era a glória e a luz de seu povo, Israel, tipo de Cristo, o Sol da justiça. 3. Sua infância. Cresceu em força e estatura mais do que é habitual; superou de longe as outras crianças da sua idade. E não apenas isso: em outros aspectos ficou evidente que o Senhor o abençoava e o capacitava, no corpo e na mente, para algo grandioso e extraordinário.
Filhos da promessa receberão a bênção. 4. Sua juventude. Quando cresceu um pouco, o Espírito do Senhor começou a movê-lo, v. 25. Isso era prova de que o Senhor o abençoava. Onde Deus concede sua bênção, também concede seu Espírito para capacitar a pessoa para essa bênção. São de fato abençoados aqueles em quem o Espírito da graça começa a agir cedo, ainda na infância.
Se o Espírito for derramado sobre nossos descendentes, eles brotarão como salgueiros junto aos cursos d’água, Isaías 44:3, 4.
O Espírito de Deus movia Sansão no acampamento de Dã, isto é, na reunião geral das companhias treinadas daquela tribo, que provavelmente haviam montado acampamento entre Zorá e Estaol, perto de onde ele vivia, para resistir às incursões dos filisteus.
Ali, ainda menino, Sansão apareceu entre eles e destacou-se por algumas ações muito corajosas, superando a todos nos exercícios viris e nas provas de força; provavelmente também demonstrava zelo extraordinário contra os inimigos de seu país e revelava mais espírito público do que se poderia esperar de uma criança.
O Espírito o movia de vez em quando, não continuamente, mas como o vento sopra quando quer, para mostrar que o que fazia não vinha dele mesmo, pois, se viesse, poderia fazê-lo em qualquer ocasião.
Homens fortes pensam que o vinho os anima muito, Salmos 78:65; mas Sansão não bebia vinho e, ainda assim, superava a todos em força, coragem e tudo o que era audaz e valente, pois o Espírito de Deus o movia. Portanto, não se embriaguem com vinho; sejam cheios do Espírito, que virá aos que são sóbrios e temperantes.