Matthew Henry

Josué 8

Argumento

Passada a perturbação que o pecado de Acã causou aos assuntos de Israel, voltamos a encontrá-los numa situação muito boa, tanto na guerra quanto na religião. Aqui temos:

I. O avanço glorioso de suas tropas na conquista de Ai, diante da qual haviam sofrido uma derrota pouco antes:

  1. Deus encoraja Josué a atacá-la, assegura-lhe a vitória e indica o método a seguir (v. 1, 2).

  2. Josué dá as ordens correspondentes aos homens de guerra (vv. 3-8).

  3. A estratégia é executada conforme planejada e alcança o resultado desejado (vv. 9-22).

  4. Josué conquista a cidade, manda matar todos os habitantes, queima-a e enforca o rei, mas entrega os despojos aos soldados (vv. 23-29).

II. A grande cerimônia em que a lei foi escrita e lida diante de uma assembleia geral de todo Israel, reunida para esse fim entre os montes Gerizim e Ebal, conforme a ordem que Moisés recebera do Senhor e lhes transmitira (vv. 30-35). Assim deram andamento às suas tarefas e fizeram a obra da religião acompanhar a vida secular.

Versículos 1 a 2

A Destruição de Ai. (a.C. 1451.)

Israel foi muito favorecido por ter um comandante como Josué; Josué, porém, foi ainda mais favorecido por contar com o próprio Deus como conselheiro. Quando surgia alguma dificuldade, não precisava convocar um conselho de guerra, pois Deus estava tão perto que não só respondia às perguntas, como se antecipava a elas.

Parece que Josué estava agora sem saber como agir; mal se recuperara da perturbação causada por Acã e não conseguia pensar em avançar sem medo e tremor, receando que houvesse outro Acã no acampamento. Então Deus lhe falou, talvez por visão, como antes (Josué 5), ou pelo peitoral do juízo.

Repare: quando eliminamos fielmente o pecado, aquilo que foi amaldiçoado e nos separa de Deus, só então podemos esperar ouvir dele palavras que nos consolem. Deus nos orientar em como prosseguir na obra e na batalha cristãs é boa prova de que se reconciliou conosco. Observe aqui:

I. O encorajamento que Deus dá a Josué para prosseguir: “Não tema nem desanime” (v. 1). Isso indica que o pecado de Acã e suas consequências haviam desanimado muito Josué e quase lhe feito perder o ânimo. A corrupção dentro da igreja enfraquece as mãos e abate o espírito de seus guias e ajudadores mais do que a oposição externa.

Deve-se temer mais os israelitas traiçoeiros do que os cananeus maliciosos. Mas Deus manda Josué não desanimar: o mesmo poder que impede Israel de ser destruído pelos inimigos o impedirá de destruir a si mesmo.

Para animá-lo, 1. Deus lhe assegura a vitória contra Ai e lhe diz que a cidade já é sua, embora deva recebê-la como dádiva de Deus: “Eu a entreguei nas tuas mãos”. Isso lhe garantia tanto o direito quanto a posse e o obrigava a dar a Deus a glória por ambos (Salmos 44:3).

  1. Deus permite que o povo fique com os despojos. Dessa vez os despojos não foram consagrados a Deus, como os de Jericó; portanto, o povo não corria o risco de cometer ali a transgressão que cometera antes.

Observe: Acã, que se apoderou dos despojos proibidos, perdeu aquilo, a vida e tudo o mais; o restante do povo, que conscienciosamente se absteve do que fora amaldiçoado, logo recebeu como recompensa por sua obediência os despojos de Ai. O caminho para desfrutar o que Deus permite é abster-se do que ele proíbe. Ninguém perde por negar algo a si mesmo.

Entregue primeiro a Deus o que lhe é devido; então tudo será limpo e seguro para nós (1 Reis 17:13).

Deus não os trouxe àquelas cidades bonitas e às casas cheias de coisas boas para atormentá-los com o que podiam ver, mas não tocar. Depois de receber as primícias de Jericó, podiam tomar para si como presa os despojos de Ai e de todas as cidades que dali em diante conquistassem.

II. As instruções que Deus dá a Josué para atacar Ai. A conquista não deveria demorar tanto quanto a de Jericó, pois isso prolongaria demais a guerra. Os que esperaram pacientemente sete dias por Jericó receberiam Ai num só dia. Também não seria conquistada por milagre e apenas pela ação de Deus: agora era preciso agir com diligência e coragem.

Depois de ver Deus agir em favor deles, deviam pôr mãos à obra.

  1. Deus lhe manda levar todo o povo, para que todos assistam à batalha e participem dos despojos. Com isso, dá uma repreensão velada a Josué por ter enviado um destacamento tão pequeno contra Ai na tentativa anterior (Josué 7:4).

  2. Manda-o preparar uma emboscada atrás da cidade. Talvez Josué não tivesse pensado nesse método naquela ocasião se Deus não o tivesse orientado.

Embora agora não devamos esperar instruções como essas, por visões, vozes ou oráculos, sempre que os responsáveis pelas decisões públicas tomam medidas prudentes para o bem comum, devemos reconhecer que Deus lhes põe essas medidas no coração. Aquele que ensina prudência ao lavrador certamente também a ensina ao estadista e ao general.

Versículos 3 a 22

Temos aqui o relato da conquista de Ai por meio de uma estratégia. Estamos certos de que a estratégia usada foi lícita e boa: o próprio Deus a ordenou. Não temos motivo para pensar que uma estratégia semelhante seja ilícita ou má em outras guerras.

Não se quebrou pacto algum nem tratado de paz para obter vantagem; essas coisas são sagradas, não se deve brincar com elas nem usá-las para tirar proveito. Uma vez empenhada, a palavra se torna uma dívida, até mesmo para com o inimigo.

Mas nessa estratégia não houve mentira: nada foi ocultado além dos próprios planos, que nenhum inimigo jamais alegou ter o direito de conhecer. Não houve dissimulação nem fingimento, salvo uma retirada, que não era sinal natural nem necessário de incapacidade de sustentar o ataque ou de que não o retomariam.

O inimigo deveria ter ficado alerta e se mantido protegido dentro dos muros. A prudência comum, se os tivesse guiado, teria recomendado que não perseguissem um exército que sabiam ser muito superior em número e não deixassem a cidade sem defesa.

Mas, se o povo quer ser enganado, que seja enganado (si populus vult decipi, decipiatur). Se os cananeus se deixam iludir tão facilmente e, ao perseguir o Israel de Deus, desrespeitam todas as regras de estratégia e boa administração, os israelitas não têm culpa alguma por se aproveitarem da fúria e da imprudência deles.

Isso não contradiz de modo algum a descrição que Deus faz dos israelitas: são filhos que não mentirão. No relato do episódio:

I. Há certa dificuldade para conciliar os números dos homens empregados. O versículo 3 menciona trinta mil escolhidos e enviados durante a noite, com ordem de tomar a cidade assim que percebessem que ela estava desocupada (v. 4, 7, 8).

Porém, mais adiante (v. 12), diz-se que Josué escolheu cinco mil homens e os colocou numa emboscada atrás da cidade; foram eles que entraram nela e a incendiaram (v. 19).

  1. Alguns pensam que foram enviadas duas tropas para a emboscada: primeiro trinta mil, depois cinco mil para vigiar os caminhos e interceptar os que haviam sido enviados primeiro. Josué teria atacado abertamente com todos os milhares de Israel. É o que pensa o erudito bispo Patrick, insistindo que Deus ordenara a Josué levar consigo todo o povo de guerra (v. 1).

  2. Outros pensam que o povo inteiro foi levado apenas para acampar diante da cidade, e Josué escolheu dentre eles trinta mil para a operação. Desse grupo, mandou cinco mil à emboscada, o máximo que se podia supor que marchasse incognito, sem ser descoberto; mais homens teriam sido vistos e revelariam o plano.

Então, segundo Masius, atacou abertamente com os outros vinte e cinco mil; segundo Calvino, com os trinta mil, que manteve juntos para esse fim, além dos cinco mil enviados à emboscada.

Esses cinco mil, pensam eles, são os homens mencionados no versículo 3, enviados de noite para se esconder atrás da cidade, embora o número específico só apareça no versículo 12.

Se aceitarmos essa aparente desordem na sequência do relato — e talvez seja possível citar casos parecidos nas outras narrativas bíblicas —, parece mais provável que houvesse uma só emboscada, composta de apenas cinco mil homens, o suficiente para esse propósito.

II. Os principais fatos da história são, porém, bastante claros. Um destacamento marchou em segredo para trás da cidade, do lado oposto àquele em que estava o corpo principal do exército; é provável que a configuração do terreno favorecesse sua ocultação. Josué e as tropas que estavam com ele posicionaram-se diante da cidade.

A guarnição avançou vigorosamente contra eles; então recuaram, cederam terreno e fugiram em aparente desordem na direção do deserto. Ao ver isso, os homens de Ai reuniram todas as forças para persegui-los.

Isso deu uma oportunidade perfeita aos que estavam na emboscada para tomar a cidade. Depois de avisarem Josué por meio de fumaça, ele e todo o seu exército voltaram contra os perseguidores. Tarde demais, estes perceberam a armadilha em que haviam caído; com a retirada bloqueada, foram todos mortos. Encontramos uma manobra semelhante em Juízes 20:30, etc. Nesta história, observe:

  1. Que comandante valente Josué foi. (1) Sua liderança e prudência. Deus lhe deu a ideia de preparar uma emboscada atrás da cidade (v. 2), mas o deixou organizar os pormenores; ele o fez admiravelmente. “A sabedoria fortalece o sábio mais do que dez poderosos” (Eclesiastes 7:19).

(2) Seu cuidado e empenho (v. 10): “Levantou-se cedo pela manhã” para não perder tempo e mostrar quanto se dedicava à tarefa. Quem quer manter suas lutas espirituais não deve amar o descanso.

(3) Sua coragem e determinação. Embora um exército de israelitas tivesse sido repelido diante de Ai, Josué resolveu conduzi-los pessoalmente uma segunda vez (v. 5). Como também era ancião, levou consigo os anciãos de Israel para atacar a cidade (v. 10), como se fosse julgá-los como criminosos em vez de combatê-los como inimigos.

(4) Sua cautela e consideração (v. 13): “Foi naquela noite para o meio do vale” para preparar o ataque e verificar se tudo estava em ordem.

O erudito bispo Patrick conjectura piedosamente que Josué foi sozinho ao vale para pedir a Deus que abençoasse o empreendimento; e não buscou em vão. (5) Sua constância e perseverança.

Quando estendeu a lança na direção da cidade (v. 18), arma quase tão fatal e temível para os inimigos de Israel quanto a vara de Moisés, não recolheu a mão até concluir a tarefa. Ao lutar, manteve as mãos firmes até o pôr do sol, assim como Moisés ao interceder. Quem estendeu as mãos contra os inimigos espirituais nunca deve recolhê-las.

Por fim, o que Josué fez nessa estratégia se aplica ao Senhor Jesus, de quem era um tipo. Josué venceu cedendo, como se ele mesmo tivesse sido derrotado. Assim também o Senhor Jesus, ao inclinar a cabeça e entregar o espírito, pareceu como se a morte tivesse triunfado e ele e tudo o que lhe pertencia tivessem sido derrotados e arruinados.

Mas, na ressurreição, reuniu novamente suas forças e derrotou por completo os poderes das trevas; esmagou a cabeça da serpente ao permitir que ela lhe ferisse o calcanhar. Que estratégia gloriosa!

  1. Que povo obediente era Israel. Eles fizeram sem murmurar nem discutir tudo o que Josué lhes ordenou, conforme a ordem do Senhor (v. 8). Os que foram enviados para se esconder entre Betel e Ai — duas cidades aliadas contra Israel — ocuparam um posto perigoso; se fossem descobertos, todos poderiam ser mortos. Mesmo assim, arriscaram-se.

Quando o grosso do exército recuou e fugiu, a retirada era vergonhosa e perigosa; ainda assim, obedeceram a Josué.

  1. Como o rei de Ai estava cego pela própria insensatez. (1) Não descobriu por meio de seus batedores a emboscada atrás da cidade (v. 14). Alguns apontam isso como exemplo notável do poder de Deus, que cega os homens para o próprio interesse e para aquilo que lhes traria paz: o rei não sabia que havia homens de tocaia contra ele. Correm maior perigo os que menos percebem que estão em perigo.

(2) Quando Israel pareceu fugir, o rei mobilizou todas as forças para persegui-lo, sem deixar ninguém para defender a cidade e garantir sua retirada (v. 17). Assim, os inimigos da igreja muitas vezes se lançam à própria destruição por sua fúria e violência contra o Israel de Deus. Faraó mergulhou no mar Vermelho por perseguir Israel com tanta avidez.

(3) Depois de matar trinta e seis dos três mil homens que haviam atacado sua cidade antes, concluiu que agora derrotaria por completo um exército muito maior (v. 6): “Fogem de nós como da outra vez”. Veja como a prosperidade dos insensatos os destrói e endurece, levando-os à ruína.

Deus usou os homens de Ai como vara para castigar seu povo por se apoderar do que fora amaldiçoado. Eles se encheram de orgulho, imaginando que teriam a honra de libertar sua terra daqueles invasores temíveis. Logo reconheceram o engano e viram que, reconciliados com seu Deus, os israelitas não podiam ser vencidos.

Deus os usara apenas para repreender Israel e, terminada a correção, lançaria a própria vara ao fogo. Eles, porém, não tinham essa intenção: queriam destruir e exterminar (Isaías 10:5-7).

  1. Que vitória completa Israel obteve com o favor e a bênção de Deus! Cada um fez sua parte. Com os sinais combinados, as tropas israelitas, divididas, se entenderam, e tudo aconteceu como planejado. Mesmo no auge da confiança, os homens de Ai se viram cercados; não tinham ânimo para resistir nem espaço para fugir e foram obrigados a entregar a vida aos destruidores.

É difícil dizer agora se foram mais altos os gritos de vitória dos israelitas ou os gritos de desespero dos homens de Ai. É fácil imaginar o terror e a confusão deles quando a mais firme esperança se transformou tão depressa no mais profundo desespero.

Repare: “O triunfo dos ímpios dura pouco” (Jó 20:5); são exaltados por breve tempo para que sua queda e ruína sejam ainda mais dolorosas (Jó 24:24). Veja como depressa e com que facilidade a situação se volta contra os que não têm Deus ao seu lado.

Versículos 23 a 29

Temos aqui o relato de como os israelitas aproveitaram a vitória sobre Ai:

  1. Mataram todos à espada, não só no campo, mas também na cidade: homens, mulheres e crianças; ninguém sobreviveu (v. 24). Deus, o justo Juiz, lhes impusera essa sentença por causa de sua maldade; os israelitas foram apenas ministros da justiça divina e executores de sua condenação.

Menciona-se uma única vez, e apenas aqui, os homens de Betel, aliados aos de Ai (v. 17). Embora tivessem seu próprio rei e não fossem súditos do rei de Ai — o rei de Betel aparece entre os trinta e um reis destruídos por Josué (Josué 12:16) —, Ai era um lugar mais forte.

Por isso, refugiaram-se ali para se proteger e fortalecer seus vizinhos; podemos supor que foram todos mortos com eles. Assim, aquilo com que esperavam evitar a própria ruína a apressou.

O total de mortos, ao que parece, foi de apenas doze mil, um grupo insignificante diante dos milhares de Israel; mas Deus cega aqueles que pretende destruir. Aqui se diz (v. 26) que Josué não recolheu a mão com que estendera a lança (v. 18) até completar a matança.

Alguns pensam que ele não estendeu a lança para matar os inimigos, mas para animar e encorajar os próprios soldados; talvez se pendurasse uma bandeira ou estandarte na ponta dela.

Eles veem nisso um exemplo de renúncia de Josué: embora o fogo da coragem que lhe enchia o peito pudesse levá-lo a avançar, espada na mão, para o ponto mais quente da batalha, em obediência a Deus permaneceu no posto inferior de porta-estandarte e não o deixou até concluir a tarefa. Com a lança estendida, orientou o povo a esperar a ajuda de Deus e a lhe dar a glória.

  1. Saquearam a cidade e tomaram para si todos os despojos (v. 27). Assim, a riqueza do pecador fica guardada para o justo.

Boa parte dos bens que trouxeram do Egito, tomados emprestados dos vizinhos, foi usada no tabernáculo que ergueram no deserto; agora recebem uma compensação com juros. É provável que reunissem todos os despojos tomados nessa ocasião e Josué os distribuísse em proporções justas, como fez com os dos midianitas (Números 31:26, etc.).

Não os tomaram com desordem nem violência, pois Deus é Deus de ordem e equidade, não de confusão.

  1. Reduziram a cidade a cinzas e a deixaram assim (v. 28). Israel ainda devia morar em tendas; por isso, Ai, como Jericó, tinha de ser queimada. Não havia maldição sobre quem a reconstruísse; mesmo assim, parece que não foi reconstruída, a menos que seja a mesma cidade que mais tarde aparece como Aiá (Neemias 11:31).

Alguns pensam que não a reconstruíram para que a lembrança da derrota sofrida por Israel diante dela ficasse enterrada sob as ruínas.

  1. Prenderam e mataram o rei de Ai, não com a espada da guerra, como soldado, mas com a espada da justiça, como criminoso. Josué ordenou que o enforcassem e lançassem o cadáver à entrada da própria cidade, debaixo de um monte de pedras (v. 23, 29). Sem dúvida havia uma razão especial para tratar o rei de Ai com tanta severidade.

Provavelmente ele era conhecido por sua maldade e vileza, e blasfemara contra o Deus de Israel, talvez por causa da derrota que infligira às tropas israelitas no primeiro ataque. Alguns observam que lançaram o cadáver à porta onde ele costumava julgar, para desprezar ainda mais a dignidade de que se orgulhava e puni-lo ali mesmo por seus decretos injustos.

Assim o Senhor se dá a conhecer pelos juízos que executa.

Sacrifício Oferecido no Monte Ebal; a Leitura da Lei. (a.C. 1451.)

Versículos 30 a 35

Essa cerimônia religiosa, relatada aqui, aparece um tanto inesperadamente no meio da história das guerras em Canaã.

Depois da conquista de Jericó e Ai, esperaríamos que as notícias seguintes fossem da ocupação do país, do avanço das vitórias sobre outras cidades e da guerra levada ao interior da nação, agora que haviam conquistado aquelas cidades fronteiriças.

Mas eis que se abre uma cena de natureza bem diferente: o acampamento de Israel vai a campo não para enfrentar o inimigo, mas para oferecer sacrifícios, ouvir a leitura da lei e dizer “Amém” às bênçãos e às maldições.

Alguns pensam que isso só aconteceu depois de algumas vitórias seguintes, relatadas em Josué 10; 11. Mas, a julgar pelos mapas, Siquém — perto de onde ficavam os montes Gerizim e Ebal — não estava tão distante de Ai; depois de conquistá-la, eles podiam avançar pelo país até aqueles montes.

Por isso, não aceito de bom grado uma mudança na sequência da história, sobretudo porque, apresentada aqui, é um exemplo notável:

  1. Do zelo de Israel pelo serviço e pela honra de Deus. Nunca houve guerra mais honrosa, agradável ou lucrativa, nem tão certa de vitória ou tão necessária para se estabelecerem — afinal, ainda não tinham casas nem terras próprias até conquistá-las pela espada, nem mesmo Josué.

Apesar disso, toda a guerra foi interrompida enquanto fizeram uma longa marcha até o lugar determinado e participaram daquela cerimônia solene. Deus ordenara que fizessem isso depois de atravessar o Jordão, e eles o fizeram assim que puderam, embora tivessem uma desculpa plausível para adiar.

Repare: não devemos pensar em firmar aliança com Deus só depois de estarmos estabelecidos no mundo, nem deixar que qualquer ocupação nos impeça de cuidar e buscar a única coisa necessária. O caminho para prosperar é começar com Deus (Mateus 6:33).

  1. Do cuidado de Deus por seus servos fiéis e adoradores. Embora ainda estivessem em território inimigo, não conquistado, estavam seguros no serviço de Deus, como Jacó quando, naquele mesmo território, ia a Betel cumprir seus votos: “O terror de Deus estava sobre as cidades ao redor” (Gênesis 35:5). Repare: quando estamos no caminho do dever, Deus nos toma sob sua proteção especial.

Moisés havia dado duas ordens expressas para essa cerimônia: uma vez em Deuteronômio 11:29, 30, quando parece indicar o próprio lugar em que deveria ser realizada; e outra vez em Deuteronômio 27:2, etc.

Foi um ato de aliança: ao tomar posse da terra prometida, Deus e Israel renovaram a aliança, para que tivessem ânimo na conquista, soubessem em que condições recebiam a terra e assumissem novas obrigações de obediência. Como sinal da aliança:

I. Construíram um altar e ofereceram sacrifícios a Deus (v. 30, 31), sinal de que se dedicavam a Deus como sacrifícios vivos para sua honra, por meio do Mediador, o altar que santifica essa oferta. O altar foi erguido no monte Ebal, onde se pronunciara a maldição (Deuteronômio 11:29).

Isso significava que, onde a lei nos faria esperar uma maldição, pelo sacrifício de Cristo por nós e sua mediação temos paz com Deus: ele nos resgatou da maldição da lei ao se tornar maldição por nós (Gálatas 3:13). Onde se dissera pela maldição “Vocês não são meu povo”, por meio de Cristo, o altar, diz-se: “Vocês são filhos do Deus vivo” (Oseias 1:10).

As maldições pronunciadas no monte Ebal teriam sido imediatamente executadas se os sacrifícios não tivessem feito expiação.

Com os sacrifícios naquele altar, também deram a Deus a glória pelas vitórias que já haviam obtido, como em Êxodo 17:15. Agora que haviam desfrutado dos despojos de Ai, era justo que dessem a Deus o louvor por eles. Também suplicaram seu favor para futuras vitórias, pois, além de ações de graças, os sacrifícios pacíficos incluíam súplicas.

O caminho para prosperar em tudo o que fazemos é levar Deus conosco e reconhecê-lo em todos os nossos caminhos, por meio de oração, louvor e confiança nele. Construíram o altar com pedras brutas, não lavradas, de acordo com a lei (Êxodo 20:25), pois Deus se agrada mais, em seu culto, do que é simples e natural, e menos elaborado e afetado.

A engenhosidade humana não pode embelezar as instituições de Deus.

II. Receberam de Deus a lei; os que desejam achar favor diante dele e ter suas ofertas aceitas precisam fazer isso, pois, se nos recusamos a ouvir a lei, nossas orações se tornam abominação. Quando Deus tomou Israel por seu povo da aliança, deu-lhe a lei; e, como sinal de que aceitava a aliança, o povo se submeteu à lei. Agora:

  1. A lei dos dez mandamentos foi escrita em pedras na presença de todo Israel, como resumo de toda a lei (v. 32). Essa cópia não foi gravada na pedra, como a que ficaria guardada na arca; somente o dedo de Deus podia fazer isso, pois escrever a lei no coração é prerrogativa dele.

As pedras foram, porém, rebocadas, e a lei foi escrita sobre o reboco (Deuteronômio 27:4, 8). Escreveu-se a lei para que todos vissem a que estavam assentindo e para que ficasse como testemunho permanente da bondade de Deus em lhes dar leis tão boas e como testemunho contra eles se desobedecessem.

É grande misericórdia para qualquer povo ter a lei de Deus por escrito; convém que a lei escrita esteja exposta à vista de todos, numa língua conhecida, para que todos possam vê-la e lê-la.

  1. As bênçãos e as maldições, as sanções da lei, foram lidas publicamente, e o povo, supomos, conforme a ordem de Moisés, respondeu “Amém” (v. 33, 34):

(1) A assembleia era enorme. [1] Nem mesmo o maior príncipe foi dispensado. Os anciãos, os oficiais e os juízes não estão acima da autoridade da lei; receberão a bênção ou a maldição conforme obedeçam ou não. Portanto, deviam estar presentes para consentir na aliança e conduzir o povo nesse compromisso. [2] Nem o estrangeiro mais pobre foi excluído.

Foi uma naturalização geral: tanto o estrangeiro quanto o nascido entre eles foram incluídos na aliança. Isso encorajava os prosélitos e era um feliz presságio da bondade destinada aos gentios pobres nos últimos dias.

(2) As tribos ocuparam os lugares indicados por Moisés: seis voltadas para Gerizim e seis para Ebal. A arca ficou no vale entre elas, pois era a arca da aliança; nela estavam guardados os rolos fechados daquela lei, cujo texto havia sido copiado e exposto abertamente nas pedras. A aliança foi ordenada, e a ordem confirmou a aliança.

Depois que todos tomaram seus lugares e se anunciou silêncio, os sacerdotes que acompanhavam a arca, ou alguns levitas que os acompanhavam, proclamaram claramente as bênçãos e as maldições, conforme Moisés as havia preparado; as tribos responderam “Amém”.

Aqui se diz apenas que deveriam abençoar o povo porque a bênção era o propósito primeiro e principal de Deus ao dar a lei. Se caíssem sob a maldição, seria culpa deles. Foi realmente uma bênção para o povo ter o assunto apresentado com tanta clareza: a vida e a morte, o bem e o mal. Deus não tratara assim nenhuma outra nação.

  1. A própria lei, com seus preceitos e proibições, também foi lida (v. 35), aparentemente pelo próprio Josué, que não se considerou importante demais para ler à congregação do Senhor. Seguindo esse exemplo, a leitura solene da lei, marcada para ocorrer uma vez a cada sete anos (Deuteronômio 31:10, 11), era feita pelo rei ou magistrado principal.

Indica-se aqui quão completa foi a leitura pública da lei. (1) Leram cada palavra. Não omitiram nem os preceitos menores nem resumiram os mais extensos. Nem um jota ou til da lei passará; portanto, na leitura, não se pulou nenhum trecho sob a alegação de falta de tempo ou de que alguma parte era desnecessária ou imprópria para ser lida.

Fazia poucas semanas que Moisés pregara para eles todo o livro de Deuteronômio; ainda assim, Josué precisava lê-lo inteiro de novo. É bom ouvir duas vezes o que Deus disse uma vez (Salmos 62:11) e rever o que nos foi ensinado, ou ouvi-lo outra vez, para não deixarmos escapar.

(2) Todos os israelitas estavam presentes, até as mulheres e as crianças, para que soubessem e cumprissem seu dever. Repare: os chefes de família devem levar a esposa e os filhos às assembleias solenes de culto. Todos os que podem aprender devem vir para ser ensinados pela lei.

Os estrangeiros também compareceram, pois, onde quer que estejamos, mesmo como estrangeiros, devemos aproveitar toda oportunidade de conhecer a Deus e sua santa vontade.


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