Josué 5
Argumento
Israel agora havia atravessado o Jordão, e as águas que se abriram diante dele para favorecer a marcha adiante fecharam-se atrás do povo, impedindo sua retirada pelo mesmo caminho. Agora que firmava os pés em Canaã, devia empenhar-se na conquista da terra. Para prepará-lo para isso, este capítulo conta:
I. Como os inimigos ficaram desanimados, v. 1.
II. O que se fez logo que o povo chegou à outra margem para ajudá-lo e encorajá-lo:
Renovou-se a aliança da circuncisão, vv. 2-9.
Celebrou-se a Páscoa, v. 10.
O acampamento foi abastecido com o cereal da terra, e então o maná cessou, v. 11, 12.
O próprio capitão do exército do Senhor apareceu a Josué para animá-lo e orientá-lo, vv. 13-15.
Versículos 1 a 9
A Circuncisão dos Israelitas. (a.C. 1451.)
Sem dúvida, o numeroso acampamento de Israel apresentava um espetáculo grandioso nas planícies de Jericó, onde haviam armado as tendas. “Quem pode contar o pó de Jacó?”
Aquela que por muito tempo fora a igreja no deserto saíra agora do deserto, apoiada em seu amado; despontava como a manhã, bela como a lua, brilhante como o sol e terrível como um exército com bandeiras. Como era terrível aos olhos dos inimigos, lemos no v. 1.
Como se tornara bela e brilhante aos olhos dos amigos, quando a vergonha do Egito foi removida, lemos nos versículos seguintes.
I. O terror que a travessia milagrosa do Jordão causou aos cananeus (v. 1). A notícia logo se espalhou por toda a região, não somente como um prodígio extraordinário, mas também como um alarme a todos os reis e reinos de Canaã.
Quando Babilônia foi tomada, um mensageiro corre ao encontro de outro, e outro mensageiro vai ao encontro de outro, para levar a notícia espantosa a todos os cantos da terra (Jeremias 51:31). Aqui nos contam a impressão que a notícia causou nos reis: O coração deles se derreteu como cera diante do fogo, e já não havia neles espírito algum.
Isso indica que, embora o povo em geral já tivesse desfalecido (como Raabe reconheceu, Josué 2:9), os reis ainda haviam conservado o ânimo. Pensavam que, por estarem de posse da terra, com uma população numerosa e cidades fortificadas, poderiam resistir aos invasores.
Mas, ao saberem não apenas que Israel atravessara o Jordão e rompera aquela defesa natural do país, mas que o fizera por milagre, com o Deus da natureza lutando visivelmente por ele, os reis também perderam o ânimo. Consideraram a causa perdida e ficaram sem saber o que fazer. 1. Tinham motivos suficientes para temer.
Israel já era uma força formidável; muito mais quando Deus era seu chefe, o Deus de poder onipotente. Quem poderia resistir-lhes se o Jordão recuara diante deles? 2. Deus imprimiu esse medo nos cananeus e lhes tirou o ânimo, como prometera: “Enviarei o meu terror diante de ti” (Êxodo 23:27).
Deus pode fazer os ímpios temerem sem que haja motivo para medo (Salmos 53:5), quanto mais quando, como aqui, há tantos motivos. Aquele que fez a alma pode, quando quiser, fazer sua espada aproximar-se dela e matá-la com seus terrores.
II. A ocasião que isso ofereceu aos israelitas para circuncidar os que ainda não eram circuncidados. “Naquele tempo” (v. 2), quando a região estava tomada de grande pavor, Deus ordenou a Josué que circuncidasse os filhos de Israel.
Podia ser feito com segurança, mesmo em terra inimiga: como o coração dos cananeus se derretera, suas mãos estavam paralisadas e não podiam aproveitar-se dos israelitas como Simeão e Levi fizeram contra os siquemitas, atacando-os quando estavam feridos.
Josué não podia ter certeza disso; se tivesse ordenado por iniciativa própria aquela circuncisão geral justamente naquele momento, poderia ser censurado, com razão, por imprudência. Por melhor que fosse a prática em si, do ponto de vista humano aquela não parecia uma ocasião adequada e poderia trazer consequências perigosas.
Mas, quando Deus lhe ordenou que a fizesse, Josué não devia consultar a carne e o sangue. Aquele que mandou o povo fazê-la certamente o protegeria e sustentaria. Observe:
- A razão para essa circuncisão geral. (1.) Todos os que saíram do Egito eram circuncidados (v. 5). Enquanto tiveram paz no Egito, sem dúvida circuncidavam os filhos no oitavo dia, conforme a lei. Depois que começaram a ser oprimidos — sobretudo quando foi promulgado o decreto para matar os meninos —, porém, a administração desse rito foi interrompida.
Muitos israelitas ficaram incircuncisos. Houve uma circuncisão geral entre eles, talvez durante os três dias de trevas, como conjectura o dr. Lightfoot, ou um ano depois, pouco antes de celebrarem a segunda Páscoa no monte Sinai e como preparação para essa solenidade (Números 9:2), segundo pensam muitos. É em referência àquela circuncisão geral que esta é chamada de segunda (v. 2).
O erudito Masius, porém, pensa que se trata da circuncisão geral da família de Abraão, quando a prática foi instituída (Gênesis 17:23). Aquela primeira confirmou a promessa da terra de Canaã; esta segunda foi uma celebração agradecida pelo cumprimento da promessa.
(2.) Todos os que nasceram no deserto, isto é, depois que a peregrinação pelo deserto se tornou, por sentença divina, o castigo da desobediência deles, como indica a repetição dessa sentença (v. 6), eram incircuncisos. Todos os nascidos depois daquele dia fatal em que Deus jurou, em sua ira, que aquela geração não entraria no seu descanso ficaram sem circuncisão.
O que diremos disso? Deus não ordenara a Abraão, sob pena muito severa, que todo menino de sua descendência fosse circuncidado ao oitavo dia (Gênesis 17:9-14)? A circuncisão não era o selo da aliança eterna?
Não se dera tanta importância a ela quando saíram do Egito que, logo depois da primeira Páscoa, quando a lei daquela festa se tornou permanente, incluiu-se a condição de que nenhuma pessoa incircuncisa poderia comê-la e de que seria considerada estrangeira?
Ainda assim, sob o governo do próprio Moisés, deixaram sem circuncisão todos os filhos nascidos por trinta e oito anos seguidos, algo difícil de explicar. Uma omissão tão grande não poderia ter ocorrido em geral sem direção divina.
[1.] Alguns pensam que a circuncisão foi omitida por ser desnecessária.
Tinha sido instituída como sinal que distinguia os israelitas das outras nações e, no deserto, onde viviam inteiramente separados de todos e não se misturavam com ninguém, não haveria necessidade dela. [2.] Outros pensam que os israelitas não julgavam obrigatório o preceito da circuncisão até se estabelecerem em Canaã.
Na aliança feita com eles no Sinai, nada se dissera sobre a circuncisão; ela não era de Moisés, mas dos patriarcas (João 7:22), e estava ligada especificamente à concessão da terra de Canaã (Gênesis 17:8).
[3.] Outros pensam que Deus dispensou graciosamente a observância desse rito devido à instabilidade da vida deles e às frequentes mudanças de acampamento no deserto. Depois da circuncisão, era necessário que as crianças repousassem por algum tempo enquanto a ferida sarava; movimentá-las poderia ser perigoso.
Deus, portanto, preferiu a misericórdia ao sacrifício. Em geral, aceita-se essa explicação, mas ela não me satisfaz. Às vezes ficavam um ano num só lugar (Números 9:22), ou até mais.
Durante as mudanças, as crianças pequenas, mesmo feridas, podiam ser muito bem envolvidas e carregadas com cuidado, sem sofrer dano; certamente poderiam receber tratamento melhor do que as mães em trabalho de parto ou no resguardo.
[4.] Parece-me que a falta de circuncisão foi um sinal contínuo do desagrado de Deus por causa da incredulidade e da murmuração do povo. Como já observamos, a circuncisão fora instituída como selo da promessa da terra de Canaã. Os patriarcas circuncidavam os filhos na esperança confiante daquela boa terra.
Mas, quando Deus jurou, em sua ira, que os guerreiros que saíram do Egito morreriam no deserto e nunca entrariam em Canaã nem a veriam, como repete aqui a sentença (v. 6), proibiu-se a circuncisão dos filhos de todos os que estavam sob essa sentença e haveriam de morrer por causa dela.
Essa proibição ratificava a sentença e era uma lembrança constante para o povo: embora outros pudessem receber o benefício da promessa cujo selo era a circuncisão, eles não o receberiam. Era um sinal da ira de Deus tão claro quanto a quebra das tábuas da aliança, depois que Israel quebrou a aliança ao fazer o bezerro de ouro.
É verdade que o relato daquela sentença não menciona expressamente essa proibição judicial; há, porém, uma indicação dela: “Vossos filhos levarão sobre si as vossas prostituições” (Números 14:33). É provável que os filhos de Calebe e Josué tenham sido circuncidados, pois eles foram excluídos da sentença.
A respeito de Calebe, diz-se expressamente: “A ele darei a terra e a seus filhos” (Deuteronômio 1:36), justamente a promessa cujo selo era a circuncisão. Josué recebe aqui a ordem de circuncidar o povo, não sua própria família.
Seja qual for o motivo, esse grande rito foi omitido em Israel durante quase quarenta anos seguidos. Isso indica claramente que não era absolutamente indispensável nem devia obrigar para sempre; seria abolido quando chegasse a plenitude do tempo, como já ficara suspenso por tanto tempo.
- As ordens dadas a Josué para realizar essa circuncisão geral (v. 2): “Circuncida novamente os filhos de Israel”, isto é, o povo como um todo, não as mesmas pessoas. Por que mandá-la fazer agora? (1.) Porque a promessa da qual a circuncisão fora instituída como selo agora se cumprira. A descendência de Israel chegara sã e salva à terra de Canaã.
“Reconheçam, assim, a verdade da promessa em que seus pais não creram e na qual não conseguiram confiar de coração.”
(2.) Porque a ameaça cuja confirmação fora a suspensão da circuncisão por trinta e oito anos se cumprira por completo com o fim dos quarenta anos: a guerra foi concluída, a iniquidade foi perdoada (Isaías 40:2); por isso o selo da aliança foi restaurado.
Mas por que não fizeram isso antes, durante os meses de descanso nas planícies de Moabe? Por que não durante os trinta dias de luto por Moisés? Por que não esperaram até terem avançado na conquista de Canaã e conseguido estabelecer-se ali, pelo menos até construírem defesas e fortificarem o acampamento?
Por que isso devia ocorrer logo no dia seguinte à travessia do Jordão? A Sabedoria divina julgou que aquele era o momento mais apropriado: exatamente quando terminaram os quarenta anos e entraram em Canaã. As razões que a sabedoria humana apresentaria contra isso foram facilmente superadas.
[1.] Deus queria mostrar que o acampamento de Israel não era governado pelas regras e estratégias comuns da guerra, mas por sua direção imediata. Ao expô-los num momento de grande perigo, engrandecia o próprio poder ao protegê-los justamente então.
Essa notável demonstração de segurança, quando se incapacitaram para lutar no próprio instante em que começavam a agir, mostrou tamanha confiança no cuidado divino pela segurança deles que aumentaria o temor dos inimigos.
O temor dos inimigos cresceria ainda mais quando os seus espias lhes contassem não apenas o que ocorrera, mas também o que significava: um selo de que aquela terra fora concedida a Israel.
[2.] Deus queria fortalecer Israel diante das dificuldades que estavam prestes a enfrentar, confirmando a aliança com o povo, o que lhe dava garantia incontestável de vitória, sucesso e plena posse da terra prometida.
[3.] Queria ensinar-lhes, e também a nós, a começar todas as grandes empreitadas com Deus, assegurando seu favor ao nos oferecermos a ele como sacrifício vivo — como significava o sangue da circuncisão.
Então podemos esperar prosperar em tudo o que fizermos.
[4.] A restauração da circuncisão, depois de ter sido suspensa por tanto tempo, visava reavivar a observância de outras instituições cuja omissão fora tolerada no deserto.
A ordem de circuncidá-los devia lembrá-los do que Moisés lhes dissera (Deuteronômio 12:8): depois de atravessarem o Jordão, não deveriam continuar como haviam feito no deserto, mas se sujeitar a uma disciplina mais rigorosa.
A respeito de muitas leis que Deus lhes dera, foi dito que deveriam observá-las na terra para a qual se dirigiam (Deuteronômio 6:1; 12:1).
[5.] Essa segunda circuncisão, como é chamada aqui, era figura da circuncisão espiritual do Israel de Deus quando entra no descanso do evangelho.
O erudito bispo Pierson observa que, por ser realizada sob a direção de Josué, sucessor de Moisés, ela aponta para Jesus como o verdadeiro circuncidador, o autor de uma circuncisão diferente daquela da carne, ordenada pela lei: a circuncisão do coração (Romanos 2:29), chamada de “circuncisão de Cristo” (Colossenses 2:11).
- A obediência do povo a essas ordens. Josué circuncidou os filhos de Israel (v. 3), não com as próprias mãos, mas ordenando que o fizessem e cuidando para que fosse feito. Isso podia ser concluído rapidamente, pois não era necessário que fosse feito por sacerdote ou levita; qualquer pessoa poderia realizá-lo.
Todos os que tinham menos de vinte anos quando o povo foi contado no monte Sinai e, por não serem incluídos naquela contagem, escaparam à sentença fatal estavam circuncidados. Eles, por sua vez, podiam circuncidar todos os demais em pouco tempo.
O povo prometera obedecer a Josué como obedecera a Moisés (Josué 1:17). Aqui demonstrou sua submissão aceitando essa instituição dolorosa, sem chamá-lo de governador sanguinário, como Zípora, por causa da circuncisão, chamara Moisés de marido sanguinário.
- Os nomes dados ao lugar onde isso ocorreu, para perpetuar sua memória. (1.) Chamaram-no Colina dos Prepúcios (v. 3). Provavelmente os prepúcios cortados foram amontoados e cobertos com terra, formando um pequeno monte. (2.) Chamaram-no Gilgal, palavra que significa “tirar” ou “rolar para longe”, em referência ao que Deus disse a Josué: “Hoje removi a vergonha do Egito” (v. 9).
Deus zela pela honra de seu povo, pois a própria honra dele está muito ligada à honra do povo; qualquer que seja a vergonha que carregue por algum tempo, cedo ou tarde será removida com certeza, e Deus condenará toda língua que se levantar contra ele. [1.] A circuncisão removeu a vergonha do Egito.
Por meio dela, Israel foi reconhecido como povo nascido livre, filho de Deus, com o selo da aliança na carne; assim, foi removida a vergonha da escravidão egípcia.
A idolatria do Egito os contaminara e era sua vergonha; agora, porém, que eram circuncidados, podia-se esperar que se dedicassem inteiramente a Deus e deixassem para trás a vergonha de sua afeição pelo Egito.
[2.] A chegada segura a Canaã também removeu a vergonha do Egito, pois silenciou a acusação maliciosa dos egípcios de que Israel fora tirado dali para lhe fazer mal e de que o deserto o encurralara (Êxodo 14:3). A longa peregrinação no deserto confirmou essa vergonha; mas, quando entraram triunfalmente em Canaã, ela desapareceu.
Quando Deus se glorifica ao completar a salvação de seu povo, não apenas silencia a vergonha que os inimigos lançam contra eles, mas a faz recair sobre os próprios inimigos.
Versículos 10 a 12
O Fim do Maná. (a.C. 1451.)
Podemos imaginar o espanto dos cananeus. Ao observarem os movimentos do inimigo, devem ter achado tudo muito estranho. Quando os soldados entram em campanha, tendem a pensar que estão dispensados dos exercícios religiosos, pois não têm tempo nem disposição para eles. Josué, porém, inicia a campanha com um ato de devoção após outro.
O que mais tarde se disse a outro Josué também podia ser dito a este: “Ouve agora, Josué; tu e teus companheiros que se sentam diante de ti são homens de quem todos se admiram” (Zacarias 3:8). E, de fato, ele escolheu o caminho certo: é provável que termine bem aquilo que começa com Deus. Temos aqui:
I. A celebração solene da Páscoa, na data determinada pela lei — o décimo quarto dia do primeiro mês — e no mesmo lugar onde haviam sido circuncidados (v. 10). Enquanto vagavam pelo deserto, não puderam desfrutar dessa ordenança, mais um sinal do desagrado de Deus.
Mas, em resposta à oração de Moisés depois de pronunciada aquela sentença (Salmos 90:15), Deus os consolou novamente após o período de aflição; por isso, a alegre ordenança foi restaurada.
Agora que haviam entrado em Canaã, era muito apropriado lembrar as obras maravilhosas do poder e da bondade divinos pelas quais tinham sido tirados do Egito. A consumação das misericórdias deve trazer à memória seu começo; e, quando o dia está plenamente claro, não devemos esquecer como foi bem-vinda a luz da manhã, depois de esperarmos tanto por ela.
A celebração solene da Páscoa veio logo após a circuncisão solene; assim, depois que os que receberam a palavra foram batizados, lemos que logo partiram o pão (Atos 2:41, 42). Celebraram a Páscoa nas planícies de Jericó, como que desafiando os cananeus ao redor, enfurecidos contra eles, mas incapazes de perturbá-los.
Desse modo, Deus lhes deu uma demonstração antecipada do cumprimento da promessa de que, quando subissem para celebrar as festas, sua terra ficaria sob a proteção especial da Providência divina: “Ninguém cobiçará a tua terra” (Êxodo 34:24). Deus agora lhes preparou uma mesa diante deles, na presença dos inimigos (Salmos 23:5).
II. O acampamento foi abastecido com o cereal da terra, e o maná cessou em seguida (v. 11, 12). O maná fora uma misericórdia maravilhosa quando precisaram dele. Mas era sinal de vida no deserto e alimento de crianças. Por isso, embora fosse pão dos anjos e não devesse ser desprezado como pão leve, seria mais agradável comer do cereal da terra, que agora lhes fora fornecido.
- Os habitantes da região, refugiados em Jericó, deixaram para trás os celeiros, os campos e tudo o que havia neles; esses mantimentos sustentaram o grande exército. A provisão chegou na hora certa. (1.) Depois da Páscoa, deviam celebrar a Festa dos Pães sem Fermento, o que não poderiam fazer conforme a ordenança se tivessem apenas o maná.
Talvez por isso a festa tivesse sido interrompida no deserto. Agora, porém, encontraram nos celeiros dos cananeus bastante cereal antigo para abastecê-los; assim, a riqueza do pecador fica guardada para o justo, e quem a armazenou mal imaginava para quem tudo aquilo estava sendo preparado.
(2.) No dia seguinte ao sábado da Páscoa, deviam apresentar ao Senhor o feixe das primícias (Levítico 23:10, 11). Receberam ordem expressa de fazê-lo quando entrassem na terra que Deus lhes daria; e naquele ano tinham o fruto da terra à disposição (v. 12), que crescia e começava a amadurecer.
Assim, foram bem abastecidos tanto com cereal antigo como com o novo, como bons chefes de família. Veja Mateus 13:52. Assim que os frutos daquela boa terra chegaram às mãos deles, puderam honrar a Deus e empregá-los em seu serviço, conforme a ordenança. Vejam: tudo lhes era limpo e agradável.
Calvino pensa que os israelitas celebraram a Páscoa no tempo determinado todos os anos enquanto vagavam pelo deserto, embora isso não seja mencionado, e que Deus permitiu que a celebrassem sem circuncisão, assim como os admitia a oferecer outros sacrifícios.
Alguns concluem, porém, a partir de Amós 5:25 que, depois da sentença, não ofereceram sacrifícios até chegarem a Canaã e, portanto, não celebraram a Páscoa. É digno de nota que, depois daquela sentença (Números 14), a lei seguinte sobre os sacrifícios começa assim: quando vocês entrarem na terra em que habitarão... (Números 15).
- Registra-se que o maná cessou assim que comeram do cereal antigo da terra. (1.) Isso mostra que o maná não surgia por acaso nem pela providência comum, como a neve ou o granizo, mas era concedido pela sabedoria e bondade especiais de Deus.
Assim como chegava exatamente quando precisavam, continuava enquanto havia necessidade e não mais. (2.) Isso nos ensina a não esperar provisões extraordinárias quando podemos obter o sustento por meios comuns.
Se Deus tivesse tratado Israel de acordo com o que merecia, o maná teria cessado quando o chamaram de alimento sem valor. Mas Deus o manteve enquanto precisaram dele, embora o desprezassem; e agora que já não precisavam, retirou-o, embora talvez alguns ainda o desejassem. Deus é um Pai sábio, que conhece as necessidades dos filhos e adapta seus dons a elas, não aos caprichos deles.
A Palavra e as ordenanças de Deus são maná espiritual, com que ele alimenta seu povo neste deserto. Embora muitas vezes mereçamos perdê-las, são mantidas enquanto estamos aqui. Quando, porém, chegarmos à Canaã celestial, esse maná cessará, pois já não precisaremos dele.
Versículos 13 a 15
O Capitão do Exército do Senhor. (a.C. 1451.)
Até aqui, muitas vezes encontramos Deus falando com Josué, mas somente agora lemos que a glória divina lhe apareceu. Suas dificuldades aumentavam, e seus encorajamentos aumentaram na mesma proporção. Observe:
I. O momento em que recebeu o privilégio dessa visão. Foi logo depois de realizar as grandes solenidades da circuncisão e da Páscoa; então Deus se deu a conhecer a Josué. Repare: podemos esperar manifestações da graça divina quando estamos no caminho do dever e participamos das ordenanças sagradas com zelo e sinceridade.
II. O lugar em que teve a visão. Foi junto a Jericó — o texto diz “em Jericó”, isto é, pela fé e pela esperança, pois ainda não começara o cerco; estava em Jericó pelo pensamento e pela expectativa —, ou talvez nos campos perto da cidade. Ao que parece, estava sozinho, sem temer o perigo porque confiava na proteção divina.
Talvez estivesse meditando e orando, atividades em que Deus muitas vezes se manifesta com graça. Ou talvez examinasse a cidade para observar suas fortificações e planejar como atacá-la; quem sabe estivesse perplexo sobre como avançar quando Deus veio instruí-lo.
Deus ajuda os que se ajudam. Vigilantibus non dormientibus succurrit lex — a lei socorre os que vigiam, não os que dormem. Josué estava em seu posto de general quando Deus veio e se revelou como comandante supremo.
III. A própria aparição. Como costuma acontecer com quem está cheio de pensamentos e cuidados, Josué olhava para baixo, com os olhos fixos no chão. De repente, foi surpreendido pela aparição de um homem que estava diante dele a certa distância. Isso o fez levantar os olhos e interrompeu suas reflexões (v. 13). Parecia um homem, mas alguém importante, digno de atenção.
Temos razão para pensar que era o Filho de Deus, a Palavra eterna, que antes de assumir para sempre a natureza humana aparecia muitas vezes em forma humana. O bispo Patrick pensa assim, de acordo com a opinião dos antigos pais da igreja. Josué lhe prestou honras divinas, e ele as recebeu, coisa que um anjo criado não faria; além disso, é chamado de SENHOR (Josué 6:2).
Ele apareceu como soldado, com a espada desembainhada na mão. A Abraão, em sua tenda, apareceu como viajante; a Josué, no campo, apareceu como guerreiro. Cristo será para seu povo aquilo que a fé espera e deseja.
A espada desembainhada servia: (1.) para confirmar que a guerra em que Josué se empenhava vinha de Deus e que ele recebera autoridade para matar e destruir. Quando o soberano desembainha a espada, declara guerra e autoriza também o súdito a empunhá-la.
A espada está bem desembainhada quando Cristo a empunha e dá um estandarte aos que o temem, para ser levantado por causa da verdade (Salmos 60:4).
(2.) Para encorajá-lo a prosseguir com vigor, pois a espada de Cristo desembainhada na mão mostra que está pronto para defender e salvar seu povo, que por meio dele agirá com bravura. Sua espada gira para todos os lados.
IV. A pergunta ousada com que Josué o abordou. Não mandou um servo; foi pessoalmente até ele e perguntou: “Estás do nosso lado ou do lado de nossos adversários?” Isso indica que estava pronto para acolhê-lo se fosse aliado e para enfrentá-lo se fosse inimigo.
- Isso mostra a grande coragem e determinação de Josué. A aparição repentina não o perturbou, e a majestade e a aparência magnífica do homem — certamente visíveis em seu semblante — não o intimidaram. Com a presença de espírito própria de um grande general, fez-lhe a pergunta direta.
Deus lhe ordenara que fosse corajoso, e aqui se vê que ele era; aquilo que Deus exige de seu povo por sua Palavra, sua graça realiza neles.
- Mostra como Josué se preocupava com o povo e com sua causa. Estava tão empenhado nos interesses de Israel que ninguém se aproximaria dele com aspecto de homem sem que soubesse se era amigo ou inimigo. Talvez o tivesse tomado por adversário, um Golias que viera desafiar o exército do Deus vivo e enfrentá-lo.
Temos tanta tendência a considerar contrário a nós justamente o que está mais a nosso favor! A pergunta indica claramente que não há neutralidade entre a causa dos israelitas e a dos cananeus, entre Cristo e Belzebu: quem não está conosco está contra nós.
V. A resposta que o homem deu sobre si mesmo (v. 14): “Não”, isto é, não estou do lado de seus adversários. “Vim agora como capitão do exército do Senhor, não apenas como amigo de vocês, mas como comandante supremo.”
Ali estavam, como antigamente (Gênesis 32:2), Maanaim, dois exércitos: o dos israelitas, pronto para enfrentar os cananeus, e o dos anjos, que os protegeria. Ele comandava ambos, conduzindo o exército de Israel e ordenando ao dos anjos que viesse em seu auxílio.
Talvez seja uma alusão a isso que Cristo seja chamado de capitão da nossa salvação (Hebreus 2:10), líder e comandante do povo (Isaías 55:4). Os que têm um capitão assim certamente serão vitoriosos. Ele veio como comandante para passar em revista as tropas, animá-las e dar as instruções necessárias para o cerco de Jericó.
VI. O grande respeito que Josué lhe demonstrou ao compreender quem era. É provável que tenha percebido, não somente por suas palavras, mas também por outros sinais sensíveis, que era uma pessoa divina, não um homem. 1. Prestou-lhe homenagem: caiu com o rosto em terra e o adorou.
Josué era o próprio general do exército de Israel, mas não olhou com ciúme para aquele estrangeiro que apresentava autoridade como capitão do exército do Senhor, acima dele. Não contestou a autoridade; submeteu-se de bom grado ao comandante. Mesmo os maiores homens devem ser humildes e reverentes diante de Deus.
- Pediu que o instruísse: “O que diz meu Senhor a seu servo?” Sua primeira pergunta fora tão ousada e militar quanto esta era piedosa e própria de um santo; mas não diminuía a grandeza de Josué humilhar-se assim diante de Deus. Até reis coroados devem curvar-se profundamente perante o trono do Senhor Jesus, “Rei dos reis” (Salmos 2:10, 11; 72:10, 11; Apocalipse 19:16).
Observe: (1.) A relação que reconhece entre si mesmo e Cristo: Cristo era seu Senhor, e ele, seu servo, submetido às ordens de Cristo; Cristo era seu capitão, e ele, soldado, para fazer o que lhe fosse ordenado (Mateus 8:9).
A base de toda obediência aceitável é a dedicação sincera de nós mesmos como servos de Jesus Cristo, nosso Senhor (Salmos 16:2).
(2.) A pergunta que faz em harmonia com essa relação: “O que diz meu Senhor?” Ela implica desejo ardente de conhecer a vontade de Cristo e prontidão e resolução de cumpri-la. Josué reconhece que é oficial subordinado e aguarda ordens. Essa disposição mostra que era digno do posto que ocupava; os melhores comandantes são aqueles que sabem obedecer.
VII. O capitão divino exige mais uma expressão de reverência de Josué (v. 15): “Tira a sandália do pé”, como sinal de reverência e respeito, equivalentes, entre nós, a tirar o chapéu e reconhecer uma presença divina que, enquanto permanecesse ali, santificava e honrava aquele lugar.
Costumamos dizer, a respeito de alguém por quem temos grande afeição, que amamos até o chão que essa pessoa pisa. Assim Josué devia mostrar reverência por essa pessoa divina, sem pisar com suas sandálias sujas o chão em que ela estava (Eclesiastes 5:1).
Demonstrações exteriores de reverência interior e temor religioso de Deus nos convêm e são exigidas sempre que nos aproximamos dele em ordenanças solenes.
O bispo Patrick observa com razão que Deus dera a Moisés, junto à sarça, exatamente a mesma ordem que agora dava a Josué, ao enviá-lo para tirar Israel do Egito (Êxodo 3:5). Isso confirmava a fé de Josué na promessa que Deus lhe fizera: assim como estivera com Moisés, estaria com Josué (Josué 1:5).
Se a presença de Deus se tornara perceptível com Moisés e santificara o chão, também estaria com Josué.
Por fim, desse modo o capitão o prepara para receber as instruções que lhe daria sobre o cerco de Jericó; viera como capitão do exército do Senhor para conduzir Israel à posse da cidade.