Matthew Henry

Josué 20

Argumento

Este breve capítulo trata das cidades de refúgio, de que lemos muitas vezes nos escritos de Moisés, mas esta é a última vez que são mencionadas, pois agora essa questão estava plenamente resolvida.

Aqui está:

I. A lei que Deus deu a respeito delas, vv. 1-6.

II. A designação das cidades específicas para esse uso pelo povo, vv. 7-9. E essa lei de amparo era uma figura das coisas boas que viriam.

Versículos 1 a 6

As Cidades de Refúgio. (a.C. 1444.)

Pela lei de Moisés, ordenou-se que se fizessem muitas coisas quando chegassem a Canaã, e esta entre as demais: a designação de santuários para proteger os culpados de homicídio acidental. Era um privilégio para todo o Israel, pois ninguém podia ter certeza de que, mais cedo ou mais tarde, não seria o seu próprio caso.

Era também do interesse da terra que o sangue de uma pessoa inocente, cuja mão apenas era culpada, mas não o coração, não fosse derramado, nem mesmo pelo vingador do sangue. Deus aqui os lembra dessa lei, tão vantajosa para eles, para que se lembrassem das outras leis que lhes dera, as quais diziam respeito à honra dele.

  1. Ordena-se a designação dessas cidades (v. 2), muito oportunamente agora que a terra acabara de ser reconhecida; assim, estavam em melhores condições de dividir seu território em três partes, como Deus lhes havia ordenado, para que as cidades de refúgio ficassem em lugares mais convenientes (Deuteronômio 19:3).

É provável, porém, que isso só tivesse acontecido depois que aos levitas foi atribuída sua porção no capítulo seguinte, pois todas as cidades de refúgio deviam ser cidades dos levitas.

Assim que Deus lhes deu cidades de descanso, ordenou que designassem cidades de refúgio, sem que ninguém soubesse se algum dia se alegraria por conseguir escapar para lá. Assim Deus proveu não só a tranquilidade deles em todo tempo, mas também a sua segurança em tempos de perigo; e devemos esperar e nos preparar para tempos assim neste mundo.

E isso indica o que o Israel espiritual de Deus tem e terá em Cristo e no céu: não apenas descanso para repousar, mas refúgio para se proteger.

E não podemos pensar que essas cidades de refúgio teriam sido mencionadas tantas vezes e com tanto destaque na lei de Moisés, nem que se teria dispensado tanto zelo a elas, se não fossem destinadas a tipificar o amparo que o evangelho oferece aos pobres pecadores arrependidos.

Sua finalidade poderia ter sido eficazmente atendida, como ocorre em nossa lei, autorizando os tribunais de justiça a proteger e absolver o homicida em todos os casos nos quais ele devia ter o privilégio de santuário.

Também tipificavam a proteção deles contra a maldição da lei e a cólera de Deus em nosso Senhor Jesus, para quem os crentes fogem em busca de refúgio (Hebreus 6:18) e em quem são encontrados (Filipenses 3:9), como num santuário onde têm imunidade contra prisões, e “agora não há condenação para eles”, Romanos 8:1.

  1. São dadas instruções sobre o uso dessas cidades. Já tínhamos recebido as leis a esse respeito em Números 35:10, etc., onde foram explicadas em detalhes.

(1.) Supõe-se que alguém pudesse matar uma pessoa sem querer e sem saber, talvez o próprio filho ou o seu amigo mais querido (v. 3), não só alguém que não odiasse, mas alguém a quem antes amasse na verdade (v. 5), pois o caminho do homem não está nele mesmo.

Que motivo temos para agradecer a Deus, que nos guardou tanto de abater alguém quanto de sermos abatidos por acidente! Nesse caso, supõe-se que os parentes da pessoa morta exigiriam a vida do homicida, em satisfação à antiga lei de que quem derrama o sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado.

(2.) Dispõe-se que, se no julgamento ficasse demonstrado que o homicídio fora cometido puramente por acidente, e não por desígnio, ou por um rancor antigo ou por uma paixão repentina, então o homicida fosse abrigado do vingador do sangue em qualquer uma dessas cidades (vv. 4-6).

Por essa lei, ele tinha direito a morar na cidade e ficava sob os cuidados de seu governo, mas confinado ali como prisioneiro em liberdade dentro da cidade. Somente se sobrevivesse ao sumo sacerdote, então, e não antes, poderia voltar à sua própria cidade.

E os judeus dizem: “Se ele morresse antes do sumo sacerdote, na cidade que lhe servia de refúgio e exílio, e ali fosse sepultado, ainda assim, quando o sumo sacerdote morresse, seus ossos deveriam ser trasladados com respeito para o lugar dos sepulcros de seus pais”.

Versículos 7 a 9

Temos aqui a nomeação das cidades de refúgio na terra de Canaã, feita com o conselho e sob a autoridade de Josué e dos príncipes (v. 7). Por ocasião dessa menção, repete-se a nomeação das outras três cidades na parte das outras duas tribos e meia, feita por Moisés (Deuteronômio 4:43); mas, segundo pensa o bispo Patrick, elas não tinham esse privilégio até então.

  1. Diz-se que santificaram essas cidades; essa é a palavra original traduzida por “designar” (v. 7). Não que alguma cerimônia fosse usada para significar sua consagração; apenas, por um ato público do tribunal, declararam solenemente que eram cidades de refúgio e, como tais, consagradas à honra de Deus, protetor da inocência ameaçada.

Se eram santuários, era apropriado dizer que tinham sido santificadas. Cristo, nosso refúgio, foi santificado por seu Pai; ou melhor, em nosso favor ele santificou a si mesmo (João 17:19).

  1. Essas cidades, assim como as do outro lado do Jordão, ficavam nas três diferentes partes do país, em lugares tão convenientes que, segundo dizem, uma pessoa podia chegar a alguma delas em meio dia, partindo de qualquer canto do território.

Quedes ficava em Naftali, a tribo mais ao norte; Hebrom, em Judá, a mais ao sul; e Siquém, em Efraim, no centro, quase à mesma distância das outras duas. Deus é um refúgio ao alcance.

  1. Todas eram cidades dos levitas, o que honrava a tribo de Deus, tornando seus membros juízes nos casos em que a Providência divina estava tão diretamente envolvida e protetores da inocência oprimida.

Isso também era uma bondade para com o pobre refugiado. Embora não pudesse subir à casa do Senhor nem pisar em seus átrios, ainda assim tinha consigo os servos da casa de Deus para instruí-lo, orar em favor dele e ajudar a suprir a falta das ordenanças públicas.

Se tem de ficar confinado, será numa cidade levítica, onde poderá, se quiser, aproveitar o seu tempo.

  1. Essas cidades ficavam sobre montes, visíveis de longe, pois uma cidade situada sobre um monte não pode ficar escondida. Isso tanto orientaria quanto animaria o pobre aflito que estivesse a caminho.

E, embora, por isso, o trecho final do seu caminho fosse uma subida, ainda assim isso o consolaria: logo chegaria ao lugar seguro e, se conseguisse ao menos entrar nos arredores da cidade, já estaria a salvo.

  1. Alguns observam um significado nos nomes dessas cidades ao aplicá-los a Cristo, nosso refúgio. Não gosto de fazer trocadilhos com nomes, contudo estou disposto a reparar nesses. Quedes significa “santo”, e nosso refúgio é o santo Jesus.

Siquém significa “ombro”, e o governo está sobre o ombro dele. Hebrom significa “comunhão”, e os crentes são chamados à comunhão com Cristo Jesus, nosso Senhor. Bezer significa “fortificação”, pois ele é um baluarte para todos os que confiam nele.

Ramote significa “alto” ou “exaltado”, pois Deus o exaltou com a própria destra. Golã significa “alegria” ou “exultação”, pois nele todos os santos são justificados e se gloriarão.

Por fim, além de todas essas cidades, os chifres do altar, onde quer que estivesse, serviam de refúgio aos que se agarravam a eles, se o crime fosse daqueles para os quais o santuário concedia proteção.

Isso está implícito na lei (Êxodo 21:14), segundo a qual um homicida intencional será tirado do altar de Deus para ser morto. E encontramos o altar usado para esse fim (1 Reis 1:50; 2:28). Cristo é o nosso altar: ele não só santifica a oferta, como também protege quem a oferece.


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