Matthew Henry

Josué 19

Argumento

Na descrição das heranças de Judá e Benjamim, vemos tanto as fronteiras que as cercavam quanto as cidades nelas contidas. Na de Efraim e Manassés, vemos as fronteiras, mas não as cidades.

Neste capítulo, Simeão e Dã são descritos somente pelas cidades, sem as fronteiras, pois ficavam quase inteiramente dentro de Judá, sobretudo Simeão. Para as demais tribos, são descritas tanto as fronteiras quanto as cidades, em especial as que ficavam nos limites dos territórios.

Temos aqui:

I. A herança de Simeão, vv. 1-9.

II. A de Zebulom, vv. 10-16.

III. A de Issacar, vv. 17-23.

IV. A de Aser, vv. 24-31.

V. A de Naftali, vv. 32-39.

VI. A de Dã, vv. 40-48.

Por fim, a herança atribuída ao próprio Josué e à sua família, vv. 49-51.

Versículos 1 a 9

A Herança de Simeão. (a.C. 1444.)

A sorte de Simeão foi lançada depois das de Judá, José e Benjamim, porque Jacó desonrara aquela tribo; mesmo assim, veio antes das tribos dos dois filhos mais novos de Lia e dos três filhos das servas. Até onde sabemos, nenhum personagem de destaque, fosse juiz ou profeta, pertenceu a essa tribo.

I. Sua herança ficava dentro da de Judá (v. 1) e foi tirada dela (v. 9). Ao que parece, os que primeiro fizeram o levantamento da terra pensaram que ela era maior do que de fato era e que bastaria para dar a cada tribo uma porção proporcional, tão grande quanto a que haviam separado para Judá.

Mas, após uma investigação mais rigorosa, descobriram que não seria suficiente (v. 9): “A parte dos filhos de Judá era demais para eles”, mais do que precisavam e, como se comprovou, maior do que lhes cabia.

Deus, porém, não a diminuiu por meio do sorteio, mas deixou que a prudência e o cuidado deles descobrissem e corrigissem o engano depois. Quando o fizeram: 1. Os homens de Judá não se opuseram a que as cidades que, pela primeira divisão, tinham ficado dentro de suas fronteiras fossem retiradas novamente, quando se convenceram de que haviam recebido mais que sua parte.

Em todos esses casos, é necessário ressalvar os erros e admitir uma revisão quando houver motivo.

Embora, em rigor, o que lhes coube por sorteio fosse direito deles contra todos, ainda assim não insistiram nesse direito quando ficou claro que outra tribo precisava do que tinham de sobra. Repare: devemos olhar para o que pertence aos outros, não somente para o que é nosso.

A abundância de uns deve suprir a necessidade de outros, para que haja alguma igualdade: pode haver equidade mesmo onde não há lei.

  1. O que foi retirado de Judá para formar uma nova herança, a Providência destinou à tribo de Simeão, cumprindo assim a profecia de Jacó sobre ela: “Eu os dividirei em Jacó”. As cidades de Simeão ficaram espalhadas por Judá, tribo que as cercava, exceto pelo lado voltado para o mar.

Isso levou Simeão a formar um pacto com Judá (Juízes 1:3) e, mais tarde, foi uma feliz ocasião para muitos dessa tribo se aliarem à casa de Davi, quando as dez tribos se revoltaram e seguiram Jeroboão. Muitos de Simeão se juntaram a Asa em grande número (2 Crônicas 15:9). É bom viver numa boa vizinhança.

II. Aqui são nomeadas as cidades que ficavam dentro de sua herança. Berseba, ou Seba, pois os nomes parecem se referir ao mesmo lugar, aparece primeiro. Ziclague, de que lemos na história de Davi, era uma delas.

Em 1 Crônicas 4:39 etc. descobrimos que caminho tomaram para ampliar suas fronteiras e abrir espaço para si.

Versículos 10 a 16

A Herança de Zebulom. (a.C. 1444.)

Esta é a herança de Zebulom. Embora tivesse nascido de Lia depois de Issacar, ainda assim Jacó e Moisés o abençoaram antes dele. Por isso, a sorte foi lançada para Zebulom antes da de Issacar; seu território ficava ao norte de Issacar e ao sul de Aser.

  1. A herança dessa tribo era banhada a oeste pelo grande mar e a leste pelo mar de Tiberíades, em cumprimento à profecia de Jacó: “Zebulom será um porto de navios” (Gênesis 49:13): navios mercantes no grande mar e barcos de pesca no mar da Galileia.

  2. Embora alguns lugares dessa tribo tenham ficado famosos no Antigo Testamento, sobretudo o monte Carmelo, onde, no tempo de Elias, ocorreu o famoso confronto entre Deus e Baal, ainda assim ela ficou muito mais ilustre no Novo Testamento.

Dentro do território dessa tribo ficavam Nazaré, onde nosso bendito Salvador passou boa parte de sua vida na terra e de onde era chamado Jesus de Nazaré; o monte Tabor, onde foi transfigurado; e aquela costa do mar da Galileia em que Cristo pregou tantos sermões e realizou tantos milagres.

Versículos 17 a 22

A Herança de Issacar. (a.C. 1444.)

A herança de Issacar se estendia do Jordão, a leste, até o grande mar, a oeste; Manassés ficava ao sul, e Zebulom, ao norte. Essa era uma tribo numerosa (Números 26:25). Tola, um dos juízes, era dessa tribo (Juízes 10:1), assim como Baasa, um dos reis de Israel (1 Reis 15:27).

Os lugares mais importantes dessa tribo eram: 1. Jezreel, onde ficava o palácio de Acabe e, perto dali, a vinha de Nabote. 2. Suném, onde morava aquela boa sunamita que hospedou Eliseu.

  1. O rio Quisom, em cujas margens, dentro desse território, Débora e Baraque derrotaram Sísera. 4. Os montes de Gilboa, onde Saul e Jônatas foram mortos; não ficavam longe de En-Dor, onde Saul consultou a médium.

  2. O vale de Megido, onde Josias foi morto, perto de Hadade-Rimom (2 Reis 23:29; Zacarias 12:11).

Versículos 24 a 31

A Herança de Aser. (a.C. 1444.)

A herança de Aser ficava na costa do grande mar. Não lemos sobre nenhuma pessoa famosa dessa tribo além de Ana, a profetisa, que vivia continuamente no templo quando nosso Salvador nasceu (Lucas 2:36). Tampouco havia muitos lugares famosos nessa tribo.

Afeca (mencionada no v. 30) era o lugar perto do qual Ben-Hadade foi derrotado por Acabe (1 Reis 20:30). Junto à fronteira da tribo ficavam as célebres cidades portuárias de Tiro e Sidom, sobre as quais lemos tanto.

Tiro é chamada aqui de “cidade forte” (v. 29), mas o bispo Patrick pensa que não era a mesma Tiro de que lemos mais tarde, pois aquela foi construída numa ilha; esta antiga cidade fortificada ficava no continente.

Alguns conjecturam que muitos cananeus fugiram e se abrigaram nessas duas fortalezas, Sidom e Tzor, ou Tiro, quando Josué invadiu a terra.

Versículos 32 a 39

A Herança de Naftali. (a.C. 1444.)

Naftali ficava mais ao norte que todas as tribos, fazendo fronteira com o monte Líbano. A cidade de Lesém, ou Laís, ficava em seu extremo norte; por isso, quando os danitas a conquistaram e a chamaram de Dã, passou-se a dizer que Canaã se estendia de norte a sul, de Dã a Berseba.

Ao sul ficava Zebulom; a oeste, Aser; e a leste, Judá junto ao Jordão, provavelmente uma cidade com esse nome, distinguindo-se assim da tribo de Judá. Foi no território dessa tribo, perto das águas de Merom, que Josué combateu e derrotou Jabim (Josué 11:1 etc.).

Nessa tribo ficavam Cafarnaum e Betsaida, no extremo norte do mar de Tiberíades, onde Cristo realizou muitas obras poderosas; e também o monte em que, ao que se supõe, Cristo pregou (Mateus 5:1).

Versículos 40 a 48

A Herança de Dã. (a.C. 1444.)

Dã, embora comandasse um dos quatro esquadrões do acampamento de Israel no deserto — aquele que marchava na retaguarda —, ainda assim foi a última tribo a receber sua herança em Canaã. Seu território ficava no sul de Canaã, entre Judá, a leste, e a terra dos filisteus, a oeste; Efraim ficava ao norte, e Simeão, ao sul.

A Providência destinou essa tribo numerosa e poderosa a uma posição perigosa, pois estava mais bem preparada para lidar com os vizinhos incômodos, os filisteus. Foi assim no caso de Sansão.

Temos aqui: 1. O que coube a essa tribo por sorteio: Zorá, Estaol e o acampamento de Dã nas redondezas, de que lemos na história de Sansão. Perto dali ficava o vale de Escol, de onde os espias trouxeram o famoso cacho de uvas.

Jafa, ou Jope, também estava nessa herança. 2. O que conquistaram por seu próprio esforço e coragem é mencionado aqui (v. 47), mas relatado em detalhes em Juízes 18:7 etc.

Versículos 49 a 51

A Herança de Josué. (a.C. 1444.)

Antes que o relato da divisão da terra fosse encerrado solenemente no último versículo, que indica que a tarefa foi concluída para satisfação de todos, temos aqui a descrição da herança específica atribuída a Josué.

  1. Recebeu sua porção por último, embora fosse o homem mais velho e importante de todo o Israel e, tendo comandado a conquista de Canaã, pudesse ter exigido que ele e sua família fossem os primeiros a se estabelecer ali.

Ainda assim, quis mostrar que, em tudo o que fazia, buscava o bem de sua pátria, e não o próprio interesse. Aceitou permanecer sem ter seu quinhão definido até ver todos estabelecidos.

Nisso deixou um grande exemplo a todos os que ocupam cargos públicos: devem preferir o bem comum à satisfação pessoal. Que o interesse público seja atendido primeiro.

  1. Recebeu sua herança conforme a palavra do Senhor. É provável que, quando Deus disse por meio de Moisés qual herança Calebe receberia (Josué 14:9), tenha feito promessa semelhante a Josué, e que ele tenha levado isso em conta ao escolher.

Isso tornou sua porção duplamente agradável: não a recebeu, como os demais, pela providência comum, mas por promessa especial.

  1. Escolheu sua parte no monte Efraim, que pertencia à sua própria tribo; assim, identificou-se com ela, embora, por prerrogativa, pudesse ter escolhido uma herança em outra tribo, por exemplo Judá, e desse modo se distinguido dos demais.

Que a promoção ou a honra de ninguém o faça envergonhar-se de sua família ou de sua terra, nem o afaste delas. O tabernáculo foi erguido no território de Efraim, e Josué cuidou para não ficar longe dali.

  1. Diz-se que os filhos de Israel lhe deram a cidade (v. 49), o que mostra sua humildade: não quis tomá-la sem o consentimento e a aprovação do povo. Assim reconhecia que, embora fosse major singulis — maior que cada indivíduo —, ainda assim era minor universis — menor que todos reunidos — e que, debaixo de Deus, recebera do povo até mesmo a propriedade de sua família.

  2. Era uma cidade que precisava ser construída antes de estar pronta para ser habitada. Enquanto outros moravam em casas que não haviam construído, Josué teve de erguer para si edifícios que pudesse levantar depressa, sem esmero nem magnificência, para dar exemplo de trabalho e contentamento com coisas modestas.

Assim também nosso Senhor Jesus veio habitar entre nós, não com pompa, mas em pobreza; preparou descanso para nós, mas ele mesmo não tinha onde reclinar a cabeça. Nem mesmo Cristo procurou agradar a si próprio.


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