Josué 17
Argumento
A meia tribo de Manassés é a próxima a receber sua parte. Temos aqui:
I. As famílias dessa tribo que seriam contempladas, vv. 1-6.
II. A região que lhes coube por sorteio, vv. 7-13.
III. O pedido conjunto das duas tribos descendentes de José para ampliar sua herança, e a resposta de Josué, vv. 14-18.
Versículos 1 a 6
A Herança dos Filhos de José. (a.C. 1444.)
Manassés era apenas metade da tribo de José, mas ainda assim foi dividido e subdividido. 1. Dividiu-se em duas partes: uma já havia se estabelecido do outro lado do Jordão e era formada pelos descendentes de Maquir (v. 1).
Maquir nascera de Manassés no Egito. Ali se destacara como homem de guerra, provavelmente nos conflitos entre os efraimitas e os homens de Gate (1 Crônicas 7:21). Sua disposição guerreira passou aos descendentes; por isso Moisés lhes deu Gileade e Basã, do outro lado do Jordão, como já foi dito (Josué 13:31).
Aqui se diz que a sorte coube a Manassés por ser o primogênito de José. O bispo Patrick pensa que deveria ser traduzido “embora fosse o primogênito de José”; então o sentido fica claro: a segunda sorte foi para Manassés porque, embora fosse o primogênito, Jacó preferira Efraim a ele. Veja os nomes dos chefes das famílias estabelecidas do outro lado do Jordão (1 Crônicas 5:24).
- A parte deste lado do Jordão foi subdividida entre dez famílias (v. 5). Ali são nomeados seis filhos de Gileade (v. 2), os mesmos registrados em Números 26:30-32, com a diferença de que aquele chamado Jezer lá é chamado Abiezer aqui.
Cinco desses filhos receberam cada qual uma porção. O sexto, Héfer, teve sua linhagem masculina encerrada com Zelofeade, seu filho, que deixou somente cinco filhas, de quem já lemos muitas vezes; cada uma recebeu uma porção. Talvez, porém, por reivindicarem a herança de Héfer, as cinco porções juntas equivalessem apenas à porção de um dos outros cinco filhos.
Ou, se Héfer teve outros filhos além de Zelofeade, que mantiveram o nome da família, seus descendentes se casaram com as filhas de Zelofeade, o irmão mais velho, e por esse direito receberam aquelas porções. Veja Números 36:12.
Vemos aqui: (1) A reivindicação das filhas de Zelofeade, fundada na ordem que Deus dera a Moisés a respeito delas (v. 4). Quando jovens, elas haviam defendido sua causa diante de Moisés e obtido a concessão de uma herança entre seus irmãos.
Agora não queriam perder o benefício daquela concessão por deixarem de falar com Josué. Ao que parece, apresentaram o pedido no momento oportuno, elas mesmas, e não os maridos em seu favor.
(2) A atribuição de suas porções conforme o pedido. Josué sabia muito bem o que Deus ordenara no caso delas. Não alegou que, por não terem servido nas guerras de Canaã, não tinham direito a parte nas possessões da terra; prontamente lhes deu uma herança entre os irmãos do pai.
Assim colheram o benefício do zelo piedoso e da prudente previsão que haviam demonstrado. Assim, os que cuidam, no deserto deste mundo, de garantir para si um lugar na herança dos santos na luz terão certamente o consolo disso no outro; já os que negligenciam essa garantia agora a perderão para sempre.
Versículos 7 a 13
Temos aqui um breve relato da sorte desta meia tribo. Sua região se estendia do Jordão, a leste, até o grande mar, a oeste; ao sul, fazia fronteira por toda a extensão com Efraim; ao norte, porém, confinava com Aser e Issacar.
Aser ficava a noroeste e Issacar a nordeste. Parece que é isso que significa o versículo 10: eles, isto é, Manassés e Efraim, que juntos formavam a tribo de José, encontravam-se com Aser ao norte e Issacar a leste; Efraim, por si só, não alcançava aquelas tribos.
Alguns aspectos dessa herança são destacados: 1. Havia intenso intercâmbio entre esta tribo e a de Efraim. A cidade de Tapua pertencia a Efraim, mas o território vizinho, a Manassés (v. 8). Também havia muitas cidades de Efraim dentro da fronteira de Manassés (v. 9), como já foi dito em Josué 16:9.
- Manassés também tinha cidades, com seus territórios adjacentes, nos territórios das tribos de Issacar e Aser (v. 11). Deus assim dispôs para que, embora cada tribo tivesse uma herança própria, que não podia ser alienada, elas se misturassem desse modo.
Isso manteria o contato e a boa convivência entre as tribos, além de dar ocasião para que prestassem bons serviços umas às outras, como convinha a pessoas de tribos diferentes, mas que formavam um só Israel e deviam amar-se como irmãos.
- Eles permitiram que os cananeus vivessem entre eles, contra a ordem de Deus, e serviram aos próprios interesses ao fechar os olhos para isso, pois os fizeram tributários (v. 12, 13). Os efraimitas tinham feito o mesmo (Josué 16:10); talvez os manassitas tenham aprendido com eles e usado seu exemplo para se desculpar.
A pessoa mais notável dessa meia tribo em tempos posteriores foi Gideão, cujos grandes feitos aconteceram nessa região. Ele era da família de Abiezer. Cesareia também ficava ali; Antipátride, famosa nos últimos séculos do Estado judaico, igualmente.
Versículos 14 a 17
Aqui: I. Os filhos de José se queixam da herança que lhes coube. Se tivessem algum motivo justo para isso, temos razão para pensar que Josué os teria atendido, acrescentando algo ou alterando a divisão, mas não parece que o tenha feito.
É provável que, por Josué ser da tribo de Efraim, eles esperassem receber algum favor especial e não ficar tão sujeitos à decisão do sorteio quanto as outras tribos. Josué, porém, mostrou que não favorecia sua própria tribo mais que qualquer outra.
No exercício de seu cargo público, agiria com imparcialidade, sem preferência nem afeição. Deixou assim um excelente exemplo a todos os que ocupam cargos públicos.
A porção destinada a eles era bastante adequada e, pelo que se pode ver, tão grande quanto conseguiam administrar. Mesmo assim, desprezaram-na chamando-a de apenas uma sorte, como se a herança atribuída aos dois mal bastasse para um.
A palavra para “queixosos” (Judas 1:16) é mempsimoiroi, isto é, os que censuram a própria sorte. 1. Eram muito numerosos, pela bênção de Deus sobre eles (v. 14): “Sou um povo numeroso, pois o Senhor me abençoou”. Podemos esperar que aquele que enviou bocas também envie alimento.
“Sou um povo numeroso, e uma porção tão pequena não me dará espaço para prosperar.” Observe, porém: quando falam com gratidão do crescimento que já tiveram, não demonstram confiança de que ele continuará. “O Senhor me abençoou até aqui, embora no futuro possa tratar comigo como lhe parecer melhor.”
A incerteza quanto ao que pode acontecer não deve nos tornar ingratos pelo que já aconteceu nem pelo bem que continua sendo feito em nosso favor. 2. Boa parte da terra que lhes coube estava nas mãos dos cananeus, inimigos temíveis que levavam carros de ferro para a batalha (v. 16).
Eram carros com longas foices presas às laterais ou ao eixo, que destruíam tudo em seu caminho, ceifando as pessoas como se fossem trigo. Argumentavam que, embora tivessem recebido uma boa porção, ela estava em mãos alheias e não conseguiam tomar posse; desejavam herdar regiões conquistadas mais completamente.
II. Josué procura reconciliá-los com a herança. Reconhece que eram um povo numeroso e, por serem duas tribos, deviam receber mais que uma só porção (v. 17). Mas diz que o território que lhes coube bastaria para ambos, se trabalhassem e lutassem.
Eles queriam uma herança que lhes permitisse viver com conforto e luxo. “Não”, responde Josué. “Não contem com isso; ‘no suor do rosto comerás o teu pão’ é uma sentença que continua em vigor até na própria Canaã.”
Ele rebate o argumento deles: eram um povo numeroso. “Se é assim, vocês têm melhores condições de ajudar a si mesmos e menos razão para esperar que outros os ajudem. Se há muitas bocas a alimentar, há duas vezes mais mãos para trabalhar; ganhem o pão e então comam.”
- Ele os manda trabalhar por mais terra (v. 15): “Subam à região de mata, dentro das próprias fronteiras. Ponham todos a trabalhar, cortem as árvores, limpem a terra bruta e, com habilidade e esforço, transformem-na em bom solo cultivável.”
Repare: muitos desejam posses maiores sem cultivar nem aproveitar bem o que têm. Acham que devem receber mais talentos, embora não negociem com aqueles que lhes foram confiados. A pobreza da maioria das pessoas é consequência da ociosidade; se cavassem, não precisariam mendigar.
- Ele os manda lutar por mais terra (v. 17, 18). Eles alegavam que não podiam chegar às matas de que ele falara porque, no vale entre eles e a região, havia cananeus com quem não ousavam lutar.
“Não tenham medo deles”, disse Josué. “Vocês têm Deus ao seu lado e expulsarão os cananeus, se começarem a agir com seriedade, ainda que eles tenham carros de ferro.”
Nós mesmos nos limitamos quando imaginamos que as dificuldades para avançar são maiores do que de fato são. O que pode ser insuperável para a fé e a santa determinação?